16.1.21

Marcelo e lábios vermelhos

 


Ainda não perdi a esperança de ver Marcelo, homem de consensos, sair à rua em campanha com lábios vermelhos pintados na máscara!
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Salgueiro Maia e lábios vermelhos



 

«Quando me mexem nesta fotografia, costumo ficar chateado.... mas se é para meter o coiso na ordem e contribuir para a normalidade democrática, tudo bem! Até pode ser que o coiso saia do armário, afinal, a criatura também já festejou o 25 de Abril!»

Alfredo Cunha no Facebook
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O confinamento do faz-de-conta

 


«O primeiro dia do confinamento geral não foi confinamento nenhum. Ou, para sermos optimistas, foi um “confinamentozinho”. Os relatos dos repórteres do PÚBLICO ou as imagens da televisão mostraram uma ligeira redução da actividade e do movimento nas ruas das principais cidades – mas não percebemos nessa actividade uma reacção aos avisos dos especialistas, nem aos alertas das autoridades. Vimos imagens de lojas a usar todos os tipos de expedientes para manter as portas abertas. Vimos pessoas a acorrerem aos supermercados atraídas por promoções. Em vez do novo normal do primeiro período de confinamento pressentiu-se um novo novo normal – 0 da indiferença e do relativismo. Um esboço de confinamento que não é confinamento nenhum. 

Não vale a pena cair na arrogância e dizer que os lojistas são incumpridores. Nem no moralismo de afirmar que os cidadãos são relapsos e indiferentes ao seu dever cívico. E ainda menos apoiar os que dizem que “isto” só lá vai com coacção. Vale, sim, a pena sublinhar duas reflexões: que o Governo está a falhar na sua missão de mobilizar os portugueses; e que as excepções ao confinamento foram talvez demasiado alargadas para que as pessoas percebam a gravidade da situação. Só passou um dia e é cedo para se questionar tudo – mas a continuação desta atitude colectiva, que levará ao agravamento da pandemia, exigirá provavelmente acertos. 

Não vai ser tarefa fácil. O Governo, acossado pelas dúvidas sobre a sua capacidade de antecipação ou pelo relaxamento do Natal, tem hoje menos credibilidade para mobilizar os portugueses. O Presidente, influenciado pelo contexto da campanha, deixou de ser tão interveniente e assertivo. O medo deixou de ter o seu poder dissuasor, apesar de hoje o número de contágios e de mortos ser dramático. O cansaço e a impaciência relativizam a forma como se encara a ameaça. Os que suspeitavam da eficácia de um confinamento com escolas ou consultórios abertos estão, no final do primeiro dia, a ter mais razão do que os que acreditavam ser possível uma solução de compromisso que evitasse males maiores – caso do autor deste editorial. 

Haverá quem defenda agora uma reacção mais musculada do Governo – já esboçada, aliás, no agravamento das multas. Acrescentar um estado de repressão ao estado de emergência será sempre o pior caminho. Resta a insistência na mensagem – mobilizando médicos e especialistas, que poderão dizer o que se passa nos hospitais ou insistir nas conclusões da ciência sobre as virtudes de um confinamento; e envolvendo o Governo, a Presidência e os partidos para se empenharem em mensagens capazes de comprometer e sensibilizar os cidadãos. Quanto mais tarde se iniciar esta tarefa, pior. A continuar assim, este confinamento do faz-de-conta está condenado a fracassar.» 

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15.1.21

Martin Luther King, seriam 92

 

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Lábios vermelhos respondem à boçalidade de Ventura

 



(Daqui)
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#VermelhoemBelem

 


«O Twitter está pintado de vermelho, de batom vermelho e a razão chama-se Marisa Matias. André Ventura, esta quarta-feira, decidiu atacar os adversários e afirmou que a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda “não está tão bem em termos de imagem” e “pinta os lábios como se fosse uma coisa de brincar”. Se o tom de vermelho não agrada ao líder do Chega, o mesmo não se pode dizer dos utilizadores do Twitter que levaram a hashtag #vermelhoembelem ao trending da rede social. Centenas de imagens de pessoas com batom vermelho (…) estão a ser partilhadas como uma forma de apoio à eurodeputada que concorre nestas eleições presidenciais.» (Observador

Ana Gomes já se juntou à iniciativa, com um vídeo no Twitter e também o Facebook está hoje cheio de posts no mesmo sentido.
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Você é do sistema?

 


«Parece que andam por aí umas pessoas zangadas e dadas à bronca que foram traídas pelo “sistema” e que temos de apaparicar. O que é o sistema? Ninguém sabe bem. Você é do sistema? 

Você aí, estou a falar consigo, que se levanta de madrugada para ir para o emprego chato e mediano, menos que medianamente pago, com um patrão medianamente chato, você que chega ao fim do mês sem pecúnia, que paga os impostos a horas e quando não paga leva com os juros e as moras e o diabo em cima, que é perseguido pelas polícias à cata da multa de estacionamento, você que treme de terror quando recebe na caixa do correio o postal das Finanças, você que tem os pais velhos e a precisarem de ajuda e nem sequer tem tempo para o filho pequeno à noite quando chega a casa cansado depois das filas de trânsito e o miúdo diz que odeia álgebra, você que mora nos subúrbios da cidade porque não tem, nunca terá, dinheiro para viver no centro da cidade, reduto de turistas, chineses doirados, fundos imobiliários de platina, milionários vários e demais artistas do andar a um milhão de euros base, basezinha, com vista de rio são dois milhões e meio, o rio é caro, não é nosso, é dos tipos com dinheiro para “a vista de rio” ou a “vista parcial de rio”, de qualquer modo, o rio não é para si, vá lá para as suas três assoalhadas com humidade e paredes cor de burro quando foge, poupe na eletricidade porque com este frio a conta sobe em flecha, ponham mantas, sacos de água quente, não trabalho para gastar tudo na luz, e quem deixou esta lâmpada acesa, pensam que sou rico?, você que almoça uma sandes de fiambre de pé no café da esquina, aquecendo as mãos na bica e mirando a televisão de lado quando é futebol, a alegria é o clube e o Ronaldo vencedor, o Ronaldo que tem tudo o que a si lhe falta mas que você não inveja e que admira porque afinal de contas é uma pessoa bem formada e sabe que o rapaz veio dos pobres como você e se fartou de trabalhar para chegar ali e tem direito a oferecer Ferraris à mãe dele que se está nas tintas para os Ferraris porque como todas as mães o que ela quer é que o filho seja feliz e marque golos, você que passa todos os dias por gente que vive melhor que você e que não o vê, nunca o verá, a mediania é invisível, e mesmo assim não fica chateado, você que vota nas eleições e que de um modo geral cumpre os deveres que o Estado lhe atribui, e sujeita-se aos castigos do Estado quando falta aos deveres, você que se arruinou com um seguro de saúde para a família porque acha que o SNS, o sistema, o famoso sistema, está tão sobrecarregado que mais vale pagar mais e ter uma consulta que não demore nove meses a acontecer, você que faz as contas a tudo todos os dias, tanto para os cafés, tanto para a gasolina, tanto para a prestação do carro, tanto para a hipoteca da casa húmida suburbana, o banco não perdoa, temos de meter o miúdo na escola pública porque com o seguro de saúde não dá para tudo, você que sempre conclui que não chega, faltam-me aqui mais 700 euros, vou ao Totoloto e são 160 milhões, caramba, você que tem direito a férias na praia porque arrenda um apartamentozeco num esconso algarvio a meias com os cunhados, e as férias às vezes correm mal porque se irritam uns com os outros, este meu cunhado é uma besta quadrada, e doutro clube, você que desconta para a segurança social e a reforma e que está a ver que a reforma só vai chegar aos 70 anos, você que sabe que se perder o emprego mediano não arranja outro porque não tem qualificações por aí além e subiu a pulso, os pais eram pobres, não dava para universidades, você que passa os fins de semana no hipermercado ou no centro comercial, ao menos não está frio e sempre se compra qualquer coisinha, você que acredita nas vacinas e acredita naquilo que lhe dizem e não vê conspirações em lado nenhum, pelo contrário, até acredita no que dizem os telejornais, você que tem como luxo uma televisão LCD de muitas polegadas e o computador do miúdo, o miúdo tem de ter um computador e uns ténis novos, é a prenda de Natal, você que passaria fome para dar aos seus filhos um futuro embora só tenha um filho porque dois filhos é uma despesa que os salários somados do casal não cobrem, e sobra o problema dos pais, reformas pequeninas, os lares são caríssimos, quem vai cuidar deles, ou, para pôr o problema como é realmente, quem vai pagar aos profissionais que cuidam deles, esperemos que a mãe aguente mais que o pai porque a velhota é rija e sempre vai tomando conta do pai agora que veio o Alzheimer, e tenho que os visitar mais, você que compra bife do lombo uma vez por mês e segue os conselhos da mulher que segue os conselhos dos programas da manhã que mandam comer vegetais e sobretudo cenouras e lentilhas, no meu tempo não havia lentilhas comiam-se salsichas de lata e era um banquete, você que chega ao fim do dia derreado mas ainda tem tempo para ouvir os comentadores políticos e concordar ou discordar civicamente com eles, você que é um cidadão inteiro e cumpridor e não sabe porque ninguém lhe dá valor, você que é um herói e não sabe porque ninguém quer saber da sua anónima mediania ou das vidas de todos os dias, as vidas cor de burro quando foge das pessoas que não querem fazer mal a ninguém e que são capazes de se atirar ao rio para salvar um cão, o miúdo quer um cão mas não há dinheiro para grandes bichos, leva um porquinho da índia, você que é um herói, repita-se aqui e alto, você que é um herói, não vai a correr votar num candidato que odeia os pretos e os ciganos e que acha que os pobres do rendimento mínimo não querem trabalhar, que acha que os inválidos e os velhos não servem para nada. Você, o herói, dá esmolas. E tem compaixão dos que têm menos e pelos quais passa todos os dias. Só os ricos não reparam nos pobres, ou passam por eles separados por vidros fumados. 

E este candidato presidencial que é um produto quimicamente puro do sistema, fazendo uma carreira estelar dentro do sistema, fundando um partido político para ser do sistema, mostrando o currículo com a educação superior e estrangeirada do sistema como um emblema de supremacia de classe e que lhe diz que o ódio é a solução e que o país está dominado por pedófilos, e que é preciso invadir parlamentos e semear a anarquia, acha que vai votar nele? E naquele fato engomado de fascista com botões de punho com uma suástica disfarçada de espiral da vida? Acha que o argumento político pindérico é a marca de água do ser contra o sistema? Acha que os bandidos e primitivos armados que invadiram o Capitólio e o Reichstag são contra o sistema? E que defendem os que foram traídos pelo sistema? Que o defendem a si? Tenha juízo. Eles são, na ausência de escrúpulos e de ideologia, na ausência de humanidade e de compaixão, na sede ignorante de poder e dominação, no amor da política absoluta e da violência criminosa, o subproduto do sistema. A espuma negra do sistema, o resíduo tóxico e radioativo que deve ser incinerado e disposto longe. Se for enterrado, envenena a terra. E lá se envenenam as cenouras e as lentilhas da vida saudável.» 

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14.1.21

14.01.2021 - Mais 148 mortes e 10.698 novos casos



Só me apetece publicar isto, sem dizer mais nada.
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André Ventura



 

(Abrir o link para ver o vídeo.) 

Não o escondo, nem uso gatafunhos para lhe esconder o nome: há que ver e ouvir André Ventura. Que o provável futuro presidente da República – Marcelo Rebelo de Sousa – continue a afirmar que uma besta como esta pode vir a fazer parte de um governo, ou de uma maioria parlamentar que o apoie, diz bem do estado a que chegámos.
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Uma eleição inconstitucional?

 


«A primeira vez que li a notícia avançada pelo PÚBLICO, a 23 de Novembro, de que as cidadãs e os cidadãos que contraíssem covid-19 nos dez dias anteriores às eleições presidenciais seriam proibidos de votar fiquei estupefacto. Seria mesmo verdade que os preparativos para que um acto eleitoral seja seguro em pandemia incluíam proibir o exercício de um direito constitucional como é o direito ao voto? Certamente os actores políticos iriam reagir e encontrar uma solução que protegesse um direito constitucional tão fundamental. 

Parece que estava errado. A medida avançou e está em vigor. 

Em resposta a um email que enviei em finais de Dezembro à Comissão Nacional de Eleições a questionar sobre esta questão, recebi uma arrepiante confirmação: “caso fique infectado [com covid-19] e seja decretado confinamento após dia 14 de Janeiro, não poderá votar”. Por coincidência, com 22 anos, estas serão as primeiras eleições presidenciais em que irei poder participar – mas parece que há uma hipótese demasiado real de ver esse meu direito negado. É algo contraditório o constante apelo ao voto por parte de tantos políticos – especialmente o voto jovem – quando não têm problema algum em ver esse mesmo direito negado. 

Apesar da expectável onda de indignações nas redes sociais em finais de Novembro, a medida continua em vigor. Silenciosamente avança a preparação de uma medida de supressão do voto. Nas estimativas da altura do artigo deste jornal, mencionava-se que poderia afectar aproximadamente 50 mil pessoas. Na altura o número médio de casos eram cinco mil, não dez mil. Faça as contas. 

Em que país vivemos onde consideramos aceitável vedar a milhares e milhares de portugueses o direito ao voto, consagrado na Constituição? Que democracia é esta? Uma democracia fraca, possivelmente a mostrar sintomas de uma outra doença: os da apatia política. 

Lei Orgânica n.º3/2020 

Na resposta que recebi da CNE, fiquei a saber que esta medida só se tornou possível devido à aprovação em Assembleia da República da lei orgânica n.º 3/2020, que vem possibilitar o voto antecipado aos cidadãos e cidadãs que contraiam o coronavírus, mas apenas se o confinamento seja decretado até ao décimo dia antes das eleições. É também a lei que diz que se contrair o coronavírus depois de dia 14 de Janeiro, será proibido de votar. Lembre-se desta lei. Lembre-se ainda que foram os deputados e deputadas desta legislatura que consideraram a mesma razoável. 

Na minha pequena edição de bolso da Constituição da República Portuguesa, fui procurar como seria possível uma lei orgânica sobrepor-se à Constituição. Não sendo uma pessoa da área de Direito, questiono-me seriamente: como pode uma lei orgânica sobrepor-se à Constituição? Fui relembrado que o estado de emergência em que vivemos permite a suspensão de determinados direitos. Mas a medida em questão trata-se de um caso inaceitável de subversão do intuito deste (recorrente) estado de emergência. 

Lendo o ponto 6 do artigo 19.º da nossa Constituição, aprendemos que a “declaração do [...] estado de emergência é adequadamente fundamentada e contém a especificação dos direitos, liberdades e garantias cujo exercício fica suspenso”. Estará prevista nesta declaração de estado de emergência a suspensão de direito ao voto para alguns? Admito que não a li. Se constar lá, é inadmissível. Se não estiver, não tornará esta lei orgânica inconstitucional? 

Deixo a questão para os especialistas. Mas não me venham argumentar que suspender o direito ao voto a milhares de portugueses é proporcional, razoável ou qualquer adjectivo que escolham para florear a situação. É inaceitável. 

Um cenário surreal: candidatos impedidos de votar

Serão as primeiras eleições na história do país em que um candidato ou candidata a Presidente da República poderá ser impedido ou impedida de votar nas eleições a que se candidata. Isso mesmo. Nada nos garante que nenhum dos candidatos não se encontre nessa situação. Já imaginou o surreal que seria? Afinal de contas, não há uns mais do que outros, os candidatos e candidatas têm que obedecer à mesma lei que vigora como toda a gente. 

Aproveito ainda para relembrar que tanto Marcelo Rebelo de Sousa como Ana Gomes já tiveram contactos de risco. O actual Presidente e novamente candidato tem estado esta semana em isolamento e também Ana Gomes teve de se isolar em período de pré-campanha. Mesmo num cenário de confinamento absoluto, é expectável e compreensível que outros candidatos ou candidatas possa contrair covid-19. O mesmo se aplica a pessoas a trabalhar em cada candidatura, a quem seria particularmente injusto ver o seu direito ao voto negado. Injusto e desnecessário, porque este cenário poderia ser prevenido. Com preparação. 

Outro cenário que me causa uma certa apreensão são os eleitores infectados, eventuais casos pontuais, que decidam desobedecer às ordens de confinamento. O que impede isto de acontecer? Nenhum agente de autoridade está a vigiar quem coloca o pé fora de casa em quarentena (e bem). Não será certamente a mesa de voto a verificar quem deveria estar em isolamento profiláctico e quem não. 

Portanto, como se fiscaliza esta medida? Não se fiscaliza, como de costume neste país. 

Para além de inconstitucional, a medida é ineficaz no seu objectivo. Em nada impede um eleitor absolutamente determinado a votar (e capaz de ignorar o seu papel enquanto agente de saúde pública) de sair porta fora e deslocar-se à sua mesa de voto. Se os deputados e deputadas tivessem o mínimo de respeito pelo eleitorado, teriam pensado em soluções que evitassem de modo eficaz que as pessoas com teste positivo tivessem de se deslocar para votar. O extraordinário é que a operação foi pensada: é o voto porta-a-porta. Mas talvez por motivos logísticos ou outros inimagináveis consideraram que seria razoável limitar este método de voto para quem só souber que está infectado até dia 14 de Janeiro. 

Ao leitor em casa pergunto: se ficar infectado depois de dia 14 e antes das eleições, irá de bom grado aceitar que não poderá votar? 

Eu certamente não o aceitarei de bom grado – mas cumprirei por um sentido de responsabilidade, que acredito que qualquer pessoa deve ter. Seria incapaz de colocar a vida de outros em risco. Mas fá-lo-ei profundamente revoltado por ver um direito meu negado – por falta de preparação daqueles que tinham e têm a responsabilidade de o preparar e que tiveram dez meses para o fazer. 

Sentir-me-ei roubado.» 

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13.1.21

Novíssimo normal a partir de 0:00 de 15.01.2021

 

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Na Europa dos ricos





«O esclarecimento enviado ao Polígrafo pelo gabinete do ministro Augusto Santos Silva detalha que “foram alugadas 125 viaturas” pelo valor de 590.980,20 euros. Do conjunto de automóveis fazem parte 40 Mercedes Classe E300, 40 Mercedes V250, e 8 viaturas de alta segurança, Mercedes S Guard. A juntar à frota contam-se ainda 36 veículos Toyota e um Lexus.»
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Ventura é pechisbeque político



 

«O nosso Trump de bolso, André Ventura, é dado como habilidoso da política. Mas tal aura deve-se mais a basbaques que não param de lhe dar estatuto que (pelo menos ainda) não alcançou que à inexistente qualidade intrínseca da peça. 

Não tenho dúvida que o saudosismo do Estado Novo tem mercado eleitoral. Quer nas muito conservadoras elites do salazarismo, perdedoras no regime democrático, que dantes votavam no CDS. Quer (paradoxalmente) nos filhos das classes mais deserdadas do Estado Novo não apreciadoras de modernices – a falta de mundo e de escolaridade foi em todos os tempos e locais grande fonte de ilusões de superioridade nacionalista. Sucede em todas as democracias que destronaram ditaduras: há uma porção de pessoas que endeusam uma suposta era gloriosa passada. E é conhecida e estudada a propensão para o pensamento simplista, para a recusa da ambiguidade num mundo complexo, para as soluções fáceis de diabolizar um inimigo imaginário. 

No entanto também não tenho dúvidas que Ventura e o Chega são produtos políticos de qualidade duvidosa – e nem sequer só moralmente. São ambos pechisbeque político. Ventura é pouco mais que um imitador de Trump, ávido de atenção mediática como fim último da política, com tiradas cada vez mais indecorosas, e pretendendo criar uma realidade alternativa onde vivem encapsulados os seus indefetíveis. Sucede que Trump não foi excessivamente bem-sucedido – ganhou uma primeira eleição por uma conjunção de acasos infelizes e perdeu estrondosamente a segunda, com sucessão interminável de revezes e incompetências no entremeio. 

Ventura nesta campanha presidencial tem seguido o guião de Trump. No primeiro debate, com João Ferreira, interrompeu permanentemente e impediu que qualquer conversa existisse. Veio ainda reclamar que quer os votos bem contados – levantando, tal como Trump, espantalhos mentirosos sobre a fiabilidade dos resultados eleitorais. A falta de originalidade é gritante. 

Não é novo. Já há muito seguia os estratagemas trumpistas. A procura de polémicas com celebridades ou personagens do entretenimento e cultura, de forma a ganhar visibilidade. Já andou em despiques públicos com Filomena Cautela, Agir, José Castelo Branco. Tudo é uma encenação para enganar tolos com papas e bolos. Ventura até fala de si na terceira pessoa, assumindo implicitamente uma persona criada para o mercado político dos mais incautos. 

Há nisto uma vantagem para quem se lhe opõe: pode-se prever o que copiará a seguir. Além disso, Trump gerou uma quantidade avassaladora de anticorpos na sociedade americana que terminou com a derrota. Os anticorpos também se criam a cada encenação e palavra de Ventura, sempre ali ao nível do esgoto. As hostes democratas devem perceber isso e usar e agitar os ditos anticorpos. Votar contra a extrema-direita rasteira é um incentivo para muitos. 

Os temas de Ventura também vão de encontro aos fantasmas dos eleitores mais preconceituosos, em vez de falarem da realidade. Há esse perigo mortal, segundo as mulheres do Chega, que são as feministas. Nem se entende como as feministas não estão nas listas de organizações terroristas de todo o mundo. Por outro lado, o discurso securitário e punitivo é ridículo num dos países mais seguros e pacíficos do mundo – a nossa nódoa criminal é precisamente na violência doméstica. 

O RSI é uma prestação com valores irrisórios, tanto de dotação global como dos recebimentos individuais. Os poucos milhões que os ciganos recebem não valem mais que cinco minutos de atenção, sobretudo tendo em conta as grandes clientelas sanguessugas de impostos, algumas aliadas de Ventura. Mesmo os que consideram que os ciganos se excluem, ou se arrepiem com o tratamento dado às mulheres na comunidade (aqui incluo-me), terão de concordar que a forma de dar oportunidades às novas gerações é educá-las e não estigmatizar. 

Por muito que Ventura se esforce, e os trolls das redes sociais se multipliquem em insultos e contas falsas, a realidade impõe-se sempre à narrativa política fantasiosa. Não convence ninguém que vivemos numa crise de segurança pública pela inexistência de prisão perpétua (ou de cortar mãos a ladrões, inovação saudita recente de Ventura), os resultados das eleições são fraudulentos ou que pagamos muitos impostos por causa dos ciganos. Os problemas reais – os hospitais e centros de saúde, o emprego e o desemprego, transportes públicos, escolas – têm a mania irritante de se sobreporem às ameaças imaginárias. 

Ventura imita igualmente Trump na opacidade. O financiamento do Chega, em alguma parte já revelado em reportagens de Miguel Carvalho para a Visão, coloca o partido na mão de meia dúzia de empresários ricos. Não admira. Ventura passou rapidamente de antissistema para desejoso de ter tachos num eventual governo de direita. Não quer destruir nenhum sistema – quer que os seus o explorem. 

Inevitavelmente, este caldo apela a pessoas de fraca qualidade. Ou, na novilíngua de Ventura, de ‘pessoas de bem’. A mim essas ‘pessoas de bem’ do Chega costumam enviar-me mensagens com abundantes e carinhosos emojis em forma de fezes, a cada vez que critico o seu deus. Há semanas, uma encantadora senhora ‘de bem’ apoiante do Chega, certamente muito católica, desejou-me que morresse. 

Dentro do Chega, e segundo as reportagens que Pedro Coelho tem feito para a SIC, toda a gente se grava (e se denuncia mutuamente à comunicação social), os ódios são florescentes, já houve purgas e leis da rolha à boa maneira estalinista. O grande amigo de Ventura, Luc Mombito, envia mensagens insultuosas e sexualizadas a uma menor, de seguida justificando-se com o racismo que o tem como alvo – apesar de fazer parte do partido que diz não existir racismo em Portugal. 

Não fora o perigo real de abandalhamento e desgaste das instituições democráticas, até seria (em teoria, volto a ressalvar) divertido vermos tal grupo de deploráveis e impreparados num governo. Porque os produtos políticos tóxicos como o Chega (e o movimento trumpista) têm em si a génese da sua destruição. O ódio e o ressentimento que cultivam para os alvos de fora inevitavelmente contaminam o interior. Quando se cultiva ódio, o ódio espalha-se por todo o lado e vira-se contra os criadores. Vimos tal qual na permanente guerrilha dentro da Administração Trump. E a realidade alternativa que criam, para alienar eleitores, às tantas explode-lhes nas mãos. Para Ventura, como para Trump, o espalhafato mediático será uma maldição.» 

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12.1.21

Novo Estado de Emergência

 


«Projeto de diploma que modifica a declaração do estado de emergência, aprovada pelo Decreto do Presidente da República n.º 6-A/2021 de 6 de janeiro e a renova por quinze dias, até 30 de janeiro de 2021, permitindo adotar medidas necessárias à contenção da propagação da doença Covid-19.» 

Texto AQUI.
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Marcelo e os testes

 


«O Marcelo até nos resultados dos testes é catavento.»

Rui Rocha no Facebook
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Depois do desastre

 


«Referiu-se aqui o "feitiço" do Natal; parece agora mais apropriado falar de "maldição". 

Ninguém hoje nega que o disparo enorme dos contágios que atualmente nos assusta e põe em causa todo o sistema se deve à onda das compras e às reuniões de família e amigos. Fez-se a opção entre duas maneiras de morrer: ou numa cama de hospital ou numa letal consoada a dois. 

A sensibilidade social da quadra levou as autoridades a fazer uma aposta na sensatez das pessoas, que foi escandalosamente perdida. Fez-se batota com a covid, mas o vírus não brinca. 

Mantidas as regras, a soma das festas de fim de ano ao Natal teria resultado numa irremediável e impensável catástrofe nacional. O português médio continua a exigir um modo de vida muito próximo da velha normalidade, só desperta para o problema quando está deitado de borco numa cama com quatro enfermeiros à volta. Procura-se agora o nível adequado de confinamento para o futuro imediato. 

E mais uma vez se tende a ignorar o papel das escolas em toda a situação. Não que as escolas sejam lugares inseguros, mas o seu funcionamento presencial gera uma imensa movimentação de saídas e entradas, de levar e trazer, que foi - a não ser que alguém prove o contrário - responsável pelo primeiro sobressalto dos números, verificado a partir da segunda metade de setembro, não só em Portugal, mas em toda a Europa. 

Pelo menos no Ensino Superior e nos últimos anos do Secundário, a passagem ao ensino online é uma medida razoável e adequada à travagem do alastramento da infeção.» 

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11.1.21

Museus em confinamento

 

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Polígrafo dixit

 


«Quando se falou sobre o Orçamento do Estado de 2021, João Ferreira criticou o BE. “Reconheço insuficiências na resposta do Orçamento, já o disse várias vezes. Agora eu valorizo muito aqueles que não desistem a meio de nenhum combate. E valorizo que tenha sido possível, por intervenção nomeadamente do PCP, incluir no Orçamento do Estado investimento no Serviço Nacional de Saúde em contratação de mais profissionais, em contratação de mais meios e equipamentos, na construção de infraestruturas, algumas delas aguardadas há muito tempo”, disse. 

Na resposta, Marisa Matias contrapôs com os números dos médicos: “Eu, tal como o João Ferreira, também não gosto nada de quem desiste nem a meio, nem no fim. E por isso é que eu disse e repito que se toda a esquerda tivesse sido firme, nós podíamos já neste momento ter parte desses problemas resolvidos no Serviço Nacional de Saúde. É isto que eu quero dizer, porque nós chegámos agora ao final do ano de 2020 com menos 961 médicos no Serviço Nacional de Saúde.”»
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O preço de um Natal

 

«Estamos a pagar o preço da decisão política de dar o Natal às famílias. O que isto conseguiu foi que algumas famílias passassem o seu último Natal juntas, porque se permitiu aligeirar as medidas numa das piores alturas do ano, o Inverno.» 

Philip Fortuna, médico intensivista do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central
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Envelhecer assim

 


«Os velhos estão a morrer. E nem todos de corona. Este final de ano levou mais uns tantos, entre eles o Carlos do Carmo, o príncipe na cidade. Sobra uma mágoa seca, tão seca como aquele fado sem música que o Carlos cantou junto ao caixão do José Cardoso Pires, há muitos anos, e que foi a comovente despedida. Na Biblioteca das Galveias, a biblioteca pública onde José Saramago se refugiava a ler os clássicos enquanto trabalhava num emprego diminutivo, sabendo que havia mais na vida do que gastar as horas sem pensar. A voz do Carlos do Carmo ecoou no silêncio, cantou o fado sem um tremor, num desgosto limpo. Houve quem abandonasse a sala para chorar fora dali. Aquela emoção não podia ser quebrada com choraminguice. Só com a voz. O heroísmo da voz. 

A safra deste ano dá-nos certeza de que uma geração ilustre não dobrou o cabo das tormentas. E viveu o último ano da vida numa clausura de pestíferos. Entramos em janeiro, um mês cruel para os velhos, um mês duro e metálico, um mês escarpado e que corta a pele como aço, um mês gelado e indiferente, com medo. Não há pior modo de entrar no ano novo. Toda a gente, naquela altura da vida a que se convenciona chamar “de certa idade”, tem medo. Pode não tomar todas as precauções, por incúria, por bravata, por desatenção ou por falso sentido de segurança, isto não me acontece a mim, mas o medo está lá, acoitado como um animal selvagem na caverna, à espera. Não há sentimento mais fácil de detetar do que o medo. Não são precisas palavras, o medo lê-se no corpo, e lê-se com clareza no corpo dos velhos. 

Esta semana, ao visitar um hospital encontrei uma sala de espera cheia de velhos, homens e mulheres, uns mais novos, nos setentas, outros mais velhos, depois dos setentas. Os mais novos estavam sozinhos, e pela posição do corpo nas cadeiras via-se que não estavam confortáveis. O corpo torcido, virado para dentro, procurando ocultar-se. O corpo desconfiado e obrigado a distância. Ninguém falava, agora não podemos falar, o vírus não gosta da mudez e temos de contrariar o vírus. Este e os outros, os do inverno, os da gripe, os rinovírus, esse cardápio de doenças do frio que foram remetidas para plano secundário. 

Os mais velhos estavam acompanhados. À minha frente, um homem muito velho seguia com uma mulher mais jovem, mas não jovem, que lhe segurava o braço e vigiava o passo. O velhote caminhava em passinhos trémulos, como uma criança a aprender a andar. Caminhava curvado, e notava-se que a altura do esplendor da vida não tinha sido aquela, tinha sido mais alto, a velhice obrigava-o a curvar-se como um prédio empenado. Os passos eram pequenos, um bocadinho de cada vez, e atravessar a sala tornava-se uma viagem de minutos. A mulher devia ser a filha, a criança que ele educou e da qual cuidou e que agora foi chamada a fazer o mesmo por aquele pai-criança, aquele pai destituído de poder ou controlo sobre o mundo. A inversão é clara, e inevitável. Um velho tem tantas coisas de criança, incluindo a impaciência e a lágrima fácil. Depois de anos de repressão das emoções por uma cultura que não as aprecia, os velhos choram com facilidade. Mesmo que finjam que não choram. Uma parte dessas lágrimas acresce ao conjunto de indignidades da velhice, o olho húmido perpétuo, outra parte deve ter a ver com a desinibição, e uma terceira com a certeza de que tudo se torna tão difícil com a idade, desde descascar uma laranja a desrolhar uma água das pedras. Os ossos perderam a força e a pele engelhada recusa ficar com tudo a cargo. O corpo deixa de responder às mais pequenas coisas, numa teimosia que obriga a pedir ajuda para atravessar dois metros quadrados. 

O poeta T. S. Eliot tem um poema enigmático, “The Love Song of J. Alfred Prufrock”, de 1917, poema do tempo da guerra e da peste, em que Prufrock pergunta se ousará perturbar o universo, se ousará comer um pêssego. E sabe que ao envelhecer enrolará a dobra das calças. “I grow old… I grow old…/ I shall wear the bottom of my trousers rolled.” Tantas interpretações críticas sobre esta “Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”. Para mim, e este é o poema preferido, o que aprendi de cor desde que o li a primeira vez, nunca houve outra interpretação. O poema da despedida, o poema do fim das coisas, do fim do amor e do amor do corpo, o poema da memória dilatada pela lucidez, o poema da vida medida em colherinhas de café, a vida de alguém que ouviu o canto das sereias, que não foi o príncipe Hamlet nem estava destinado a ser, e que no monólogo da gloriosa introspeção consegue reduzir as perguntas a uma. Ousarei perturbar o universo? 

Ao contemplar os velhos do hospital, o medo dos corpos assustados com a novidade incompreensível da doença que gosta de atacar os velhos, os doentes, os pobres, os fracos, recitei o poema em pensamento. Os livros ainda dão consolo. O medo dos velhos, o medo daqueles olhinhos húmidos atrás das máscaras, analisando o espaço em volta e os perigos que o habitam, o medo dos monstros lunares e marcianos da ficção científica, o medo do que é estranho, é uma crueldade a acrescentar às outras. Não se trata já de enrolar as calças porque a altura diminui, ou de não conseguir comer um pêssego porque escorrega das mãos e os ossos não seguram os sólidos, trata-se de sobreviver à solidão a que este vírus condenou os velhos. A um terror vivido em solitário, atrás de vidros e de janelas e portas, atrás do escudo da proteção a que foram condenados. Conheço velhos que passaram a noite de Natal e a noite de fim de ano sozinhos nas casas. Muito pior do que ver um pêssego escapar das mãos. Pior quando a memória ainda segreda, foste em tempos uma pessoa inteira, tiveste poder sobre ti e sobre os outros, dominaste o mundo com a tua força, mediste a vida em colherinhas de café porque escolheste medi-la assim. E ouviste o canto das sereias. E sabes que não cantarão para ti, escreve Eliot. 

Já tivemos outras pestes. No tempo da tuberculose, os doentes refugiavam-se e pensavam em solidão enquanto o mundo lá fora continuava composto. A tuberculose produziu obras-primas da literatura, como “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, e produziu mestres da escrita como Albert Camus, que quando teve tuberculose em novo passou o tempo a ler e assim se fez escritor. Deste vírus, não sairá o génio das artes. A tecnologia instituiu outras formas de comunicação e de pensamento, ou aboliu o pensamento. O telemóvel de última geração não salvará os velhos. Já ninguém lê livros. E a idade não deixa ler. Na solidão das salas e das casas, a companhia que lhes resta, no cansaço do dia, é a televisão. No hospital, no consultório, na espera, lá está ela, a luz azul acesa com pessoas dentro que falam com uma felicidade fingida, infantil, para alegrar os velhos.» 

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10.1.21

Rações de Combate?



 

Como serão as Rações distribuídas actualmente a soldados portugueses? Espero que existam e que possam ser compradas por paisanos. É que me dava tanto jeito para o confinamento que aí vem, já que não quero mesmo cozinhar… 
Esta, dos franceses, não tem mau aspecto.
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Júlio Pomar – Seriam 94

 


«A Refeição do Menino»
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Marisa Matias versus Tiago Mayan


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Saudade e zaragatoas



 

«É uma mulher antiga. Queixa-se da manhã glacial em morno amarume, "Ai,senhor António, até sinto o frio a entrar nos ossos." Fosse António um operário a quem o fiscal de obras perguntasse "O que fazes, aqui?", não responderia "Estou a construir uma catedral". Diria, quem sabe, "Trabalho para ganhar o meu pão". A resignação diligente habilitou-o com razoável destreza a tirar um café quase perfeito e a discorrer sobre a forma ideal da chávena ou a desejável temperatura da máquina. Vai-se-lhe o olhar adiante do verbo, aconchegando a mulher que se despede em ângulo agudo, devido às cruzes, "O pior é a saudade dos abraços e das coisas boas que perdemos; se ao menos nos deixassem tirar o açaime...". 

A saudade de que ela fala não é a "realidade essencial" erguida "à altura duma religião", como a definiu Pascoaes, mas a soma de perdas, de pequenos prazeres escoados, a raspadinha de tantas privações. Poderia ordenar um cadáver esquisito das suas paciências em solitude com as palavras que correram no ecrã enquanto o vocabulário lhe minguava: discriminação, covid-19, pandemia, sem-abrigo, infodemia, zaragatoa, saudade. 

Saudade, a palavra do ano na votação promovida pela Porto Editora, alinha, em letra minúscula, os eclipses da alegria que legendam o rosto da mulher devolvida, em ângulo agudo, à invernada. Se, ao menos, pudesse "tirar o açaime". 

Já a palavra máscara nem sequer foi a votos mas é-lhe tão afrontosa, espécie de zaragatoa ao pensamento, aflição em folha-de-flandres como a dos atavios de escravidão descritos por Machado de Assis, no início do conto "Pai contra Mãe", nas Relíquias da Casa Velha: "Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham, penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras." 

Um século depois, Bia Bulcão, a atleta brasileira que estagiou em Portugal à espera de vaga nas Olimpíadas de Tóquio, entrevistada pelo jornal O Globo, fala com ironia das regras apertadas. "Na esgrima", diz ela, "já estamos acostumados, é sempre de máscara." 

E a mulher antiga, em ângulo agudo, a vida inteira sem aulas de esgrima: "Todos os dias agradeço a Deus esta depressão que me anima."» 

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