27.12.25

É isto

 


Eurico Figueiredo

 


NotIcia detalhada (com o título actualizado) AQUI.

27.12.1943 – Joan Manuel Serrat

 


Chega hoje aos 82, nasceu no bairro Poble Sec de Barcelona, numa família de operários. Começou por cantar em catalão, passou depois para castelhano no fim da década de 60, o que provocou fortes acusações de traição por parte dos seus conterrâneos. Mas em 1968, selecionado para representar a Espanha no Festival Eurovisão da Canção, disse que só o faria se cantasse em catalão, proposta que não foi aceite e que esteve na origem da proibição, pelo governo, que actuasse na televisão e que as suas canções fossem transmitidas na rádio.

Os anos forma passando e, no Natal de 2014, estoirou de novo a polémica por ter recorrido de novo ao catalão, na TVE, poucos minutos depois do discurso do rei.

Em Novembro de 2015 terminou uma turnê em que deu mais de 100 concertos na América Latina, Estados Unidos e Europa. E continuou. Em 2017 e 2018, realizou outra turnê – "Mediterraneo da Capo" –  para comemorar o 47º aniversário de seu mítico disco "Mediterraneo".


Algumas clássicas:





Do concerto realizado em Barcelona, em 2022:


.

O peso cultural e social de se estar “em cima” ou “em baixo”

 

George Cruishank, The British Beehive, 1867

«Nunca fui da escola da “identidade dos portugueses” que teve um papel relevante no Estado Novo e que, de vez em quando, emerge com a ascensão do nacionalismo, como se passa nos dias de hoje com formas bastante perversas. Uma delas foi o exemplo nacional que o primeiro-ministro resolveu dar aos portugueses com um jogador de futebol, o Ronaldo, que é hoje um pajem de um assassino saudita, o que, aliás, não é alheio aos momentos em que parece que apenas o futebol enche o peito da turba com Portugal. É irónico ver agitar as bandeirinhas de um estranho Portugal que em vez das quinas tem pagodes chineses, mas não deixa de ser um retrato da correlação forte entre o nacionalismo futebolístico e a ignorância.

Mas nasci em Portugal, sou português, patriota no sentido em que me honram a língua, a literatura e, quer queira quer não, fui feito pela nossa história, muitas vezes pela via mais próxima de uma família antiga e pela cidade que me “moldou”, o Porto. Por tudo isto, esta é também a minha identidade, e dá-me pena e preocupação que tudo o que nós temos de melhor, e nalguns casos de muito melhor, como é a nossa ímpar literatura e o seu instrumento, a nossa língua, estejam numa profunda crise, exactamente quando elas são, mais do que nunca, necessárias para a boa “identidade” dos portugueses. É por isso que é um insulto aos portugueses atirar-nos como modelo motivacional da psicologia barata o Ronaldo. Estamos ao nível do Big Brother.

Mas, como de costume, os nossos nacionalistas, que se excitam todos por se dizer que fomos um povo esclavagista, ficam cegos, surdos e mudos quando um país que teve Fernão Lopes, João de Barros, Fernão Mendes Pinto, Damião de Góis, Manuel Bernardes ou o Padre António Vieira — e não é por acaso que escolho estes nomes — aparece personificado por um jogador de futebol de uma forma que nunca teria sido usada para o Eusébio, a começar porque este era preto.

Uma das razões pelas quais quando se olha para Portugal com a obsessão identitária se comete um erro que não é inocente é esquecermos um dos traços mais presentes no nosso povo, de cima a baixo, dos pobres e dos ricos, é a prevalência de comportamentos conformes ao lugar social de cada um. Quem esteja atento, percebe que quem está em cima sabe onde está e lembra-o a quem não o veja nesse lugar e não reconheça a sua autoridade social, assim como quem está em baixo sabe muito bem qual é o seu lugar e quais os custos de não o reconhecer na submissão, mesmo invisível. Quanto aos do meio, é mais complicado, porque é um mau lugar para se estar, muito incómodo, principalmente quando se olha para cima e nunca se é tratado como igual. Toda uma indústria vive deste dilema da classe média, a começar pelos reality shows, das revistas do jet set à moda e aos seus os locais, sejam ginásios, sítios de férias, restaurantes, viagens, espaços de consumos culturais. Mas numa sociedade profundamente desigual no plano económico, cultural e social os comportamentos fixam-se no lugar onde se está e onde se deve estar.

Há muitos exemplos de como essa hierarquia se “respira” como o ar. Por exemplo, a GNR, que fazia durante a ditadura as prisões nos campos, sabia que lhes podia começar a bater mal entravam na carrinha, enquanto a PIDE torturava, mas não deixava de saber de que família vinha o preso e proceder em consequência. Por outro lado, o escritor que escreveu um romance histórico sobre o escândalo dos Ballet Rose cometeu um anacronismo quando colocou um nobre titular envolvido a almoçar com um agente da PIDE, coisa que ninguém da “alta”, criminoso que fosse, faria, porque um agente da PIDE não se colocava na mesma mesa de um conde ou marquês. Um outro exemplo é a crueldade dos pobres com os outros pobres. O recente episódio de o ministro da Educação — que tem, como se diz, origem “humilde” — achar natural dizer que os estudantes das classes baixas são pobres, porcos e maus, e que por isso estragam as residências universitárias, é outro exemplo.

A dificuldade de tratar o peso das hierarquias sociais em Portugal é que elas transportam no seu interior aquilo a que os marxistas chamam “luta de classes”, ou seja, remetem para a desigualdade e a exclusão, como se dizia em termos pedantes, para a Weltanschauung.

Percebo muito bem que olhar se pode ter sobre o que eu escrevi, no fundo, criticar o Ronaldo, atirar ao Chega os erros de ortografia, e confrontar os nossos governantes que estão todos a “reler o Eça” (a resposta mais comum à pergunta sobre que é que estão a ler) com Fernão Lopes padece de um total e completo snobismo. Talvez, mas, exactamente por aquilo por onde comecei, é que responder à bruta à ignorância agressiva dominante é a melhor maneira de ser patriota. Ah! E outra coisa: lutar para que os portugueses ganhem mais, saiam da pobreza, tenham mais opções na sua vida, tenham uma boa e justa vida, o grande objectivo da democracia, a felicidade.»


E não averá outros?

 


«É assim que chegámos ao ac¬tual panorama presidencial, em que — eu, pelo menos — tenho a sensação de que não vou escolher um Presidente para servir o país, mas sim ajudar a resolver o futuro de alguém que de outra forma nada teria que o distinguisse. Já tivemos notáveis pessoas que nos serviram na política, no Governo, na Presidência da República ou mesmo na oposição, muitas das quais tocaram e logo fugiram, assustadas ou revoltadas com o generalizado instinto de linchamento da multidão. Quando passamos em revista a lista dos que nos governaram, dos que se sentaram na Assembleia da República ao que se vê hoje. E isto não é nostalgia nem envelhecimento amargo, é apenas a constatação de que, em condições normais, os povos têm o que merecem e o que escolheram ter.»


26.12.25

Mais original é difícil

 


Vaso de porcelana esmaltada. Paris, 1900- 1910.
Edmond Lachenal.


Daqui.

Mao Tsé-Tung

 


Chegaria hoje aos 132. E, com a diferença de fusos horários, até pode ter nascido no «nosso» dia de Natal.

Montenegro e os Ronaldos

 


Em breve, teremos uma fotografia de todo o Governo de t-shirt com CR7 nas costas.

26.12.1930 - Jean Ferrat

 


Representante típico de gerações de intérpretes politicamente comprometidos, para sempre ligado a «Nuit et Brouillard» e a tantos outros títulos, o eterno «compagnon de route» do Partido Comunista Francês, que não hesitou em denunciar a invasão de Praga em 1968. E muito mais.




C'est un nom terrible Camarade / C'est un nom terrible à dire / Quand le temps d'une mascarade / Il ne fait plus que fremir / Que venez-vous faire Camarade / Que venez-vous faire ici / Ce fut à cinq heures dans Prague / Que le mois d'août s'obscurcit.

Mas não só:


.

Não escolhemos os imigrantes, escolhemos a economia que os atrai

 


«A Itália chocou com a realidade que nos espera: sem imigração em massa, constante e planeada, o Estado Social não chega ao fim do século. A população italiana caiu para menos de 59 milhões e, mesmo com algum aumento da natalidade, cairá para 55 milhões em 2035, 49 milhões em 2050 e 28 milhões no final do século. A população ativa descerá de 62% para 52%, pondo em causa pensões, serviços públicos e crescimento económico. Precisa de 350 mil imigrantes líquidos por ano até 2035 e 480 mil até 2050. Contando com as saídas, seriam necessários 490 mil e 620 mil vistos anuais. No total: 13,5 milhões de novos imigrantes líquidos nos próximos 25 anos. Perante a evidência, um governo eleito para fechar portas começou a abrir as janelas. E o problema não é italiano: a Alemanha precisa de 400 mil imigrantes por ano, vários países do Leste vivem brutais crises demográficas, Espanha e Grécia enfrentam declínios difíceis de inverter, e Portugal, como sabemos, só cresce graças à imigração.

Sem imigração, a sustentabilidade da Segurança Social estaria gravemente posta em causa — como estará com a promoção, procurada nesta contrarreforma laboral, do trabalho não declarado. E sectores inteiros da economia e de assistência social fundamental deixariam de funcionar. A agricultura, a construção, a restauração, a hotelaria, a limpeza, os cuidados a idosos, a assistência domiciliária e vários serviços essenciais de apoio social dependem de mão de obra estrangeira. A imigração não é apenas um fator de crescimento, é uma condição de sustentabilidade do Estado Social. Há um argumento crítico a que sou sensível: usando uma linguagem marxista, a imigração poderia estar a cumprir a função de “exército industrial de reserva” para conter ou baixar salários. No entanto, grande parte da investigação disponível não mostra que ela tenha um impacto significativo sobre os salários. Os efeitos negativos tendem a ser muito limitados e localizados. A estagnação salarial resulta de fatores como a baixa produtividade, a fraca capacidade negocial do trabalho e a estrutura da economia. Isso combate-se com a legalização de imigrantes, negociação coletiva e modernização da economia. Os imigrantes tendem a concentrar-se em empregos que já eram mal pagos, precários ou rejeitados pelos trabalhadores nacionais. A imigração não cria esses salários, entra num mercado que já os produzia.

Tenho avisado para os riscos de uma visão exclusivamente utilitarista dos imigrantes. Mas andamos a fazer o debate ao contrário. O problema não é a imigração, é o modelo económico que a molda. Portugal continua a crescer apoiado em atividades de baixo valor acrescentado. A criação de emprego tem-se concentrado no turismo, na agricultura intensiva e sazonal, na construção, na logística e nos serviços urbanos de baixa remuneração. São sectores que absorvem muita mão de obra, mas têm produtividade reduzida, salários médios baixos e elevada rotatividade. No turismo e na agricultura, a sazonalidade e os contratos temporários são dominantes; na construção e na logística, a subcontratação e a instabilidade laboral são frequentes. Há criação de emprego, mas desqualificado e frágil. Este padrão corresponde a uma economia extrativista — extrai recursos naturais, como água e solo, pressiona infraestruturas públicas e baseia a sua competitividade em trabalho barato. Cria pouco capital humano duradouro, pouca inovação e fraco retorno para as comunidades.

Quem quer resolver o problema selecionando imigrantes qualificados inverte a ordem dos fatores. Da mesma forma que não bastou investir na qualificação para que as empresas se qualificassem, selecionar perfis de imigrantes não altera a estrutura da procura de trabalho. Os fluxos migratórios respondem às oportunidades disponíveis: tipo de emprego, salários, condições de trabalho, perspetivas de progressão e reconhecimento de qualificações. Numa economia que oferece, em grande escala, trabalho desqualificado e mal pago, mesmo quem chega com mais formação acabará no subemprego, desperdiçando competências, porque é isso que o mercado absorve. Recebemos imigração pouco qualificada e perdemos nacionais qualificados porque a nossa economia absorve mais os primeiros do que os segundos. A questão não é escolher melhor quem entra, é mudar o que o país oferece. Não se seleciona imigração no vazio: fazem-se opções económicas que determinarão quem quer vir. Uma economia mais qualificada, mais produtiva e mais enraizada cria melhor trabalho, integra melhor e atrai perfis mais qualificados.»


25.12.25

E para fim das festas...

 


Sempre neste dia

 



Mensagem de Marcelo?

 


Marcelo divulgou hoje, no JN, uma mensagem de Natal como artigo de Opinião. Estranhei o texto: rebuscado não só no conteúdo mas ainda mais no estilo.

Pode ser lido AQUI.

Dia de Natal

 



Dia de Natal


Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda~o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.


António Gedeão, in Máquina de Fogo, 1961
.

Não digo do Natal

 


24.12.25

Quem se lembra?

 


Thierry Breton

 


«1. Donald Trump acaba de decretar sanções contra o ex-comissário europeu Thierry Breton, por ter sido o 'cérebro por detrás da aprovação da Lei dos Serviços Digitais' - uma lei aprovada no Parlamento Europeu e pelos 27 Estados-membros, que regula os serviços digitais na UE e, entre outros objetivos, combate a propagação de conteúdos digitais que atentam frontalmente contra os valores europeus e democráticos, como a pornografia infantil ou o discurso de ódio. Uma lei a que estão naturalmente sujeitas todas as empresas que operam na UE, qualquer que seja a sua origem nacional.

2. Ao mesmo tempo, Trump sanciona vários dirigentes de ONGs europeias que se têm destacado na luta contra a desinformação e o discurso de ódio.

3. Fá-lo poucos dias depois de ter nomeado um representante especial para a Gronelândia (como se não tivesse embaixador em Copenhaga), com a missão, diz o nomeado, de fazer da Gronelândia parte dos Estados Unidos.

4. Não há outro modo de dizer a coisa: todos nós europeus que acreditamos na liberdade, na democracia e na justiça, e a União que constituímos, temos de considerar Trump como nosso adversário (como, aliás, o próprio diz). Não devemos ter medo de dizer que esta personagem egomaníaca, autoritária, vingativa, e além do mais paranoica e demencial, que despreza o direito internacional, autoriza execuções extrajudiciais e crimes de guerra, é racista e se alia à extrema-direita para dar cabo da nossa ordem democrática, é um inimigo jurado dos nossos valores e da nossa própria existência, como união política, espaço de liberdade e mercado único.

5. Das duas uma: ou ganha ele, ou vencemos nós. Basta de condescendências e apaziguamentos, que já cheiram a cobardia. E isto não é anti-americanismo; é, pelo contrário, ser amigo dos Estados Unidos e fazer o que está ao nosso alcance para que os Estados Unidos sobrevivam a esta profunda crise de tirania e desumanidade em que mergulharam.»

Augusto Santos Silva no Facebook

Também nos divertimos durante a pandemia

 


A pergunta é legítima: Marques Mendes foi lobista?

 


«Duvido que Henrique Gouveia e Melo tenha conquistado votos no último debate – talvez a Ventura. Fez o que costuma estar reservado a candidatos mais pequenos: tratar de temas que, por serem desagradáveis para o outro candidato, tornam os debates feios e, por isso, desgastam as duas partes. Talvez o tenha feito por desespero, ao assistir a uma queda nas sondagens que pode transferir para Seguro o voto útil de quem não quer uma segunda volta entre o candidato do governo e o candidato da extrema-direita. Mas isso não retira pertinência ao tema.

O que aconteceu na última segunda-feira foi a transposição para a praça pública de uma informação largamente conhecida na “bolha” política e mediática. Pode não ter qualquer problema legal. Pode nem sequer levantar, para muita gente, questões éticas. Mas conta, deve contar, na hora de eleger um Presidente da República que se quer o mais livre e independente possível.

A polémica em torno dos clientes de Marques Mendes tem qualquer coisa de déjà vu. E, assim sendo, pode ter o mesmo fim: permitir a vitimização num tempo em que a exigência ética, ao contrário do que era hábito dizer, está em mínimos históricos. Foi isso que o candidato da AD tentou, no debate. Temos alguma dificuldade em encontrar o equilíbrio entre a total devassa de quem se envolva na política e o escrutínio indispensável à defesa do interesse público. Passamos, no ambiente mediático, de um extremo ao outro.

A Presidência da República é o fim da linha. Em princípio, um chefe de Estado não voltará à sua carreira depois de sair do Palácio de Belém. Por isso, recebe uma pensão vitalícia e um gabinete para se dedicar à função de ex-presidente. A ideia é evitar que a representação do Estado seja, depois de exercida, mercadejada. É garantir a absoluta independência e liberdade do Presidente da República. Assim sendo, é legítimo querer saber as condições prévias para essa independência.

Este escrutínio deve ser feito antes da eleição, não quando já se está no cargo. Teria sido melhor saber da Spinumviva quando Montenegro concorreu da primeira vez, para que os portugueses avaliassem a sua relevância, sem estarem pressionados pelo risco de uma crise política ou de uma mudança de governo.

No caso de Marques Mendes, parecia existir um temor em dizer, de forma clara, aquilo de que se estava a falar. Não se está a falar da sua empresa familiar, facilmente escrutinável. Não se está a falar da atividade de advogado. Estamos a falar de uma atividade que, coberta pelo sigilo profissional da advocacia, se tem generalizado. Falámos dela, sem grande problema, a propósito da operação Influencer e de Lacerda Machado. Uma função especialmente atrativa para ex-políticos, como forma de rentabilizar a sua experiência e contactos.

Não há forma de saber se foi isso que Marques Mendes fez na Abreu Advogados. Mas é legítimo perguntar-lhe, sem exigir que divulgue os clientes que resultem da atividade de advocacia daquele escritório, a que correspondia, exatamente, a sua atividade de consultor, tendo em conta o seu aparente valor. E não faz sentido ele devolver a exigência a adversários quando boa parte da sua atividade continua, ao contrário da dos restantes candidatos, defendida pelo segredo.

Sabemos que Marques Mendes não cumpria a função de advogado, mas de consultor, naquela sociedade. Sabemos que, em cargos políticos, a experiência de Marques Mendes não teve uma vertente técnica – secretário de Estado Adjunto, dos Assuntos Parlamentares e da Presidência e Ministro-Adjunto e dos Assuntos Parlamentares. Faz sentido perguntar em que especialidade a sua consultadoria representou tanto valor para uma sociedade que tem forte intervenção onde a política e os negócios se cruzam. É legítimo querer saber se Luís Marques Mendes é um lobista. Ele diz que não. Tudo nos diz que sim.

Não tem qualquer melindre legal e até pode não ter problema ético. Mas, da mesma forma que a inexperiência política de Gouveia e Melo é relevante, é relevante o que Marques Mendes fez, na última década, com a experiência política que tem.»


Isto?

 


23.12.25

Assim vai este nosso mundo…

 


«Greta Thunberg foi detida na manhã desta terça-feira (23) em Londres, durante uma manifestação em defesa dos prisioneiros da Palestine Action, que estão em greve de fome. A informação foi avançada pelo grupo Prisioners for Palestine, que divulgou um vídeo no Instagram onde se vê a ativista climática a ser abordada por dois agentes de autoridade enquanto segura um cartaz com a mensagem “Eu apoio os prisioneiros da Palestine Action. Eu oponho-me ao genocídio”. Foi acusada de atos de terrorismo, por apoiar uma organização proibida.»


O melhor voto de «Boas Festas»

 


António José Seguro

 




Jorge de Sena e o Natal

 


Natal de 1971

Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?...
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Jorge de Sena
.

Lobista e facilitador de negócios, onde está a transparência?

 


«Durante mais de uma década, os parlamentares portugueses andaram para trás e para a frente a tentar aprovar uma lei que, finalmente, viu a luz do dia. Há pouco mais de uma semana, a lei do lóbi passou - só o PCP votou contra - com o objectivo de melhorar a transparência nas relações entre as entidades públicas e privadas. Os advogados, por exemplo, ao exercerem a representação de interesses em nome de terceiros, têm de se registar para que se possam escrutinar essas relações. A tal transparência que os candidatos presidenciais andam a pedir uns aos outros, mas para a qual nunca foram capazes de garantir suporte legal.

Então e como é que foi até agora? Foi num vazio legal, que é um sitio por onde qualquer lobista experimentado, advogado ou não, sabe caminhar. Não sendo mosca, não vi a quantidade de vezes em que, no vazio legal, a actividade do lobista se confundiu com a do facilitador de negócios e vice-versa. O primeiro procura influenciar decisões políticas ou legislativas, o segundo ajuda a fechar negócios, no privado ou entre público e privado.

É muito difícil exigir transparência aos candidatos presidenciais ou aos líderes partidárias se fizermos essas exigências sem explicarmos ao resto do mundo do que é que estamos a falar. A divulgação da lista dos clientes em empresas familiares não é o alfa e o ómega da transparência, mas sem ela não se faz escrutínio nenhum. Marques Mendes fez bem, portanto, em divulgar a lista dos clientes da empresa familiar mas, se não pode fazer o mesmo em relação aos clientes da Abreu Advogados, para efeitos de transparência, era muito mais importante saber se no trabalho que fez no escritório de advogados actuou como lobista ou facilitador de negócios.

Quando falamos do processo Influencer e do melhor amigo do primeiro-ministro, o advogado Diogo Lacerda Machado, estamos a falar de corrupção ou de vantagem indevida? Não. Parece que o Ministério Público viu gigantes onde havia apenas moinhos de vento, mas teria sido mais transparente se soubéssemos em devido tempo até onde ia a relação de amizade. Ou então, faziam valer a velha máxima: “amigos, amigos, negócios à parte”. E quando Ana Gomes atira a António Vitorino chamando-lhe “espertalhuço” com um “passado de advogado lobista” está a acusá-lo de cometer ilegalidades? Não, quando muito está desqualificá-lo como candidato a um cargo político.

Acaso alguém tem ideia da quantidade de ex-governantes que faz vida profissional usando os conhecimentos políticos que adquiriu na passagem pelo corredores do poder, valorizando o seu percurso com a rede de contactos que adquiriu e as portas que é capaz de abrir? São muitos, seguramente. Não se trata apenas de aplicar a lei da cunha, mas o país dava uma excelente imagem de si próprio se não precisasse destes profissionais para fazer as coisas acontecer. Infelizmente, é assim que funciona.

Marques Mendes, seguramente, não se deixará condicionar pelo seu passado profissional, se vier a ser escolhido pelos portugueses para a Presidência da República. Sabia desde o momento em que decidiu candidatar-se que a sua actividade na Abreu Advogados entraria na campanha eleitoral e fez bem em reagir rapidamente em relação à lista de clientes da empresa familiar. Só não se percebe que tenha reagido em vez de deixar tudo claro por iniciativa própria, a tempo e horas de não condicionar a sua campanha.»


22.12.25

Ladainha dos póstumos Natais




Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in «Cancioneiro de Natal»
 

..

E Tony de Matos a remexer-se no túmulo

 




Não há “nós” com os EUA. Quanto mais tarde percebermos pior


 


Esse “nós” morreu e o funeral já foi há muito. O desdém de Trump pela Europa, que muitos preferiram ler como folclore de campanha, é o centro do principal documento estratégico da administração: a Estratégia de Segurança Nacional de 2025. O nacionalismo económico passa a ser uma política de Estado e o “America First” deixa de ser um slogan para ser uma arquitetura de governação. As guerras culturais chegam à casa de partida da estratégia de segurança, com as alterações climáticas a passarem a ser tratadas como uma ideologia perigosa e um embuste que, na narrativa trumpista, enfraquece o Ocidente e financia adversários como a China.

Comércio, alianças, diplomacia, tecnologia, energia, tudo é pesado numa balança simples, transacionável, utilitária. Não existe qualquer ordem internacional que não seja a do poder do mais forte e o regresso das esferas de influência regional. Tudo o que importa é a acumulação de riqueza e de matérias primas necessárias para alcançar a “supremacia tecnológica” que coloque os EUA no topo sem contestação. Não deixa de ser curioso ver uma administração norte-americana a confirmar, com crueza e desfaçatez, a justeza das principais críticas à amoralidade do imperialismo norte-americano.

A Europa deixa de ser aliada ou um parceiro frágil, para ser encarada como o seu principal adversário ideológico. A Rússia quase não aparece, apenas quatro referências e quase sempre benignas, a China é um adversário económico e a Coreia do Norte nem é referida. A novidade é a agressividade contra a Europa, descrita como um espaço em crise moral, cultural e política, corroída pela imigração, censurada pela sua “erosão civilizacional”.

“Queremos que a Europa ‘permaneça europeia’, recupere autoconfiança civilizacional e abandone o foco falhado na asfixia regulatória”, pode ler-se. Traduzindo: deve adotar uma política ainda mais musculada contra os imigrantes, partilhar os valores conservadores e misóginos da extrema-direita, e colocar um ponto final na tentativa de impor limites ao poder das big tech, de regular dados, conteúdos, concorrência e responsabilidades pelos conteúdos nas redes sociais. Não é por acaso que a nova doutrina se alicerça nos aliados naturais de Trump, empresariais e até políticos, nas grandes multinacionais tecnológicas. Quando estas empresas olham para a UE, não veem um parceiro, mas um obstáculo.

Há, na lista de “parceiros” preferenciais, um mapa de afinidades políticas, não de alianças tradicionais: Hungria, Itália e Polónia. E há um entusiasmo por eleições futuras onde se espera que a extrema-direita comece o trabalho de demolir a UE por dentro. Num passo inédito, o documento vai mais longe, reclamando para Washington a prerogativa de “defender” liberdades fundamentais dentro da Europa, interferindo no debate público europeu apoiando os partidos que vêm como os defensores da “identidade” europeia.

Enquanto Trump coloca tudo preto no branco, enquanto Washington financia, amplifica e legitima forças anti-democráticas, os responsáveis políticos europeus continuam a falar de “valores partilhados”. Os sinais da convergência com a Rússia em relação à Europa aí estão: Elon Musk sugere o desmembramento da União Europeia e Dmitry Medvedev, ex-primeiro ministro fantoche de Putin, apressa-se a aplaudir.

E NO QUINTAL DOS EUA...

Quanto à América Latina, a doutrina não mudou. Mudou o descaramento. Quis o acaso que a nova Estratégia de Segurança Nacional fosse conhecida ao mesmo tempo que Trump volta a agitar o espantalho da “mudança de regime” na Venezuela. À hora a que escrevo, os EUA já apreenderam dois petroleiros venezuelanos sem explicação plausível — a não ser que se leve a sério uma publicação destrambelhada de Trump, na sua rede social, onde acusa a Venezuela de ter “roubado” o “nosso” petróleo e anuncia a ação americana como se estivesse a proteger bens americanos.

Esta nova forma de pirataria internacional é sustentada pela maior concentração naval na região desde a crise dos mísseis de Cuba, com cerca de 15 mil militares, entre marinheiros e marines, nas imediações da Venezuela. E, como é sempre preciso vender a força como virtude, o tráfico de droga faz de arma moral aquilo que antes eram as “armas de destruição maciça” no Iraque. A solidez e credibilidade são as mesmas. Pouco importa que a Venezuela não seja, hoje, o epicentro do narcotráfico internacional e que, na mesma semana, Trump tenha concedido um perdão judicial ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por ter feito entrar 400 toneladas de cocaína nos EUA.

O que está a acontecer na Venezuela, como a tentativa de acordo na Ucrânia com compensações financeiras para os EUA, é extorsão económica. Daqui a um ano pode ser a Gronelândia, cobiçada pelos recursos e pela vantagem geoestratégica. E se a Europa acredita que o respeito pelos “aliados” é o travão natural para esta lógica de expansão e pilhagem, então estamos pior do que pensamos.

Há demasiados europeus a falar do “Ocidente” como se a história fosse um contrato. Trump não é uma excentricidade passageira, é uma clarificação brutal. Não vivem mais no passado os que olham para a Rússia como se ainda fosse soviética do que os que tratam os EUA como aliados da Europa e, mais extraordinário, guardiões da democracia, da liberdade e do direito internacional. A Europa conhece bem o “Ocidente” de que Trump fala, porque esteve na vanguarda dos seus horrores. Trump e Putin são aliados nos valores e nos objetivos. Quanto mais tarde percebermos pior.»


Moedas soma e segue

 


21.12.25

A nova etiqueta

 


Ana Drago

 


Carlos do Carmo

 


Seriam 86, hoje.



Os caminhos que a greve geral abriu

 


«Há um país vivo, que sabe o que é a governação da direita e o que custa a perda de direitos no trabalho, e está disposto a lutar para combater isso. Quem se perde em disputas sobre a perceção da greve geral e sobre se ela terá sido “inexpressiva”, como é o caso do ministro Leitão Amaro, não percebe que já perdeu. Porque esse movimento, que no dia 11 de dezembro foi expressão de uma oposição profunda ao pacote laboral, conseguiu mostrar muito para além disso. Mostrou mobilização e combatividade na recusa da estratégia do Governo. Mas, mais que isso, mostrou uma ambição que vai para lá da resistência. Essa foi a evidência indesmentível da greve geral de 11 de dezembro.

Mas mesmo antes daquele dia, já se viam as vitórias antecipadas da greve geral. A mais importante delas é que mudou os termos do debate político no último mês. Depois dos debates sobre as burqas que não existem em Portugal e sobre uma Lei da Nacionalidade cruel, cujo principal objetivo é distrair das crises na habitação e na saúde, o país foi obrigado a discutir aquilo que é central na vida das pessoas.

Juntaram-se as intersindicais e sindicatos independentes, juntaram-se as associações de trabalhadores imigrantes e os artistas, e ainda se juntaram os movimentos da sociedade civil e as associações. Tudo para dizer que não aceitamos retrocessos, mas para dizer também que exigimos um futuro.

“A greve geral existiu”, dizia uma manchete no dia que se seguiu à greve. Perante o bate-boca de quem procura desvalorizar a mobilização para conseguir impor a sua vontade, não há mensagem mais clara. Estive no piquete de greve da Autoeuropa, ainda não era meia-noite de quarta-feira, e vi a determinação dos trabalhadores que fecharam uma das maiores fábricas do país. Vi também a determinação dos professores e dos jovens universitários que se juntaram aos piquetes nas universidades, e ainda dos jornalistas que combatem a precariedade da sua profissão.

Essa luta presente, carregada de futuro, só agora começou, mas já faz mossa. Desde logo no campo da extrema-direita, que se viu embaraçada e forçada a dar uma cambalhota na sua posição sobre um pacote laboral que desde o início apoiava e que admitia viabilizar. Os caminhos que se abrem agora para este confronto, creio eu, são aqueles que ditarão a agenda do país com o atual Governo.

Será um caminho das pedras que é construído sobre pontes. Onde será preciso juntar forças, criar raízes e falar para quem se sente abandonado – não só por este Governo, mas por um Estado que nos está a falhar na habitação, na saúde e na educação. Foi a greve geral, como haviam sido as manifestações pelo direito à habitação, que abriu esse caminho, e isso não é coisa pequena. É a pedra angular do futuro.

É por aqui que passa o caminho para combater as guerras culturais fraturantes que a direita quer impor ao país, e para falar para quem quer estabilidade na sua vida. Porque a precariedade, um flagelo que nunca abandonou este país, espalha-se agora por todas as áreas da vida. Já não é só a precariedade laboral de quem trabalha a recibos verdes, é a precariedade habitacional de quem salta de casa em casa porque as rendas são sempre aumentadas, ou a precariedade na saúde, de quem não sabe se terá uma urgência aberta para o socorrer. Quem quer estabilidade na casa, no trabalho e na saúde, não pode ficar refém da direita identitária.

Um último caminho que a greve geral abriu, vi-o bem vivo na manifestação que saiu do Rossio para a Assembleia da República, e tenho a certeza que em todo o país foi assim também. É a esperança contra o desespero, a solidariedade contra a solidão, a unidade contra o sectarismo. O entusiasmo de quem, lutando por uma vida melhor, percebe que a melhoria está ao seu alcance. O resultado desta luta não está escrito. Mas, sobre ela, sei duas coisas: que ela começou muito forte e que ir para além disso, pensar no que podemos ganhar, é indispensável.

Sempre foi sina da esquerda não se resignar aos possíveis, sempre tão convenientes para quem manda. Disputemos então o campo dos possíveis para que neles caiba uma vida boa para quem tem uma vida de aflição.»


Memórias

 


“E ASSIM, ACONTECE”

Era a frase com que Carlos Pinto Coelho rematava as emissões do seu magnífico magazine cultural na RTP 2.

Completaram-se ontem, dia 15 de Dezembro de 2025, 15 anos sobre o falecimento do saudoso autor e apresentador do também saudoso ACONTECE, iniciado em 1994 e estupidamente extinto em 2003.

O então ministro da Presidência, Morais Sarmento, insensível ou desconhecedor do significado cultural do programa, criticara a quantidade de dinheiro gasto para o produzir, dizendo “ser mais compensador oferecer uma volta ao Mundo a cada espectador”. Na sequência, o presidente da RTP, Almerindo Marques, obediente à tutela, anunciava o fim do programa.

Acontece a todos. Uns hoje, outros amanhã. Sempre assim foi e assim será. Todos deixamos este mundo. Todos, sem excepção. Os bons como tu, que fazem falta à sociedade e que nós desejaríamos ter por cá muito mais tempo, e dos outros, os que não prestam, como aqueles que, estupidamente, te afastaram da RTP, privando-nos do, até hoje, o melhor programa cultural televisivo em Portugal, e aqueles (os do governo de José Sócrates) que, afastada a rapaziada que sancionou esse atentado à inteligência, não quiseram ou não souberam ir buscar-te e repor-te no lugar de onde nunca devias ter saído...

Deixaste saborosas saudades em muitos dos teus concidadãos e eu sou um deles. É um privilégio póstumo de que nem todas as almas se podem gabar. Mas com a tua, isso acontece.»

António Galopim de Carvalho no Facebook