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26.7.25

O projecto político do Observador

 


«A Rádio Observador é um projecto profissional, bem conduzido, de qualidade muito acima das outras rádios existentes. Mas não é um projecto jornalístico, é um projecto político representando fortes interesses económicos no palco mediático e da ala mais à direita do espectro político. Isso significa duas coisas: tem recursos que nenhuma outra rádio tem ao seu dispor, e está no centro político e ideológico da influência crescente da direita mais à direita, da direita identitária cada vez mais forte do PSD, com o abandono do programa social-democrata de Sá Carneiro.

O Observador estende a sua influência fornecendo temas ao Chega e alargando o argumentário da Iniciativa Liberal como da ala direita do PS e o apoio aos candidatos oriundos dessa área. O Chega é muitas vezes atacado, não pelos seus temas, mas quando dificulta a actuação do PSD, que eles sabem muito bem ser quem pode aceder à governação. Mas isso não significa que não haja transporte dos temas e das prioridades do Chega para o Governo PSD-CDS, que, depois de “lavados” da sua origem malsã, são defendidos com unhas e dentes. O modo como o Chega trata a imigração é um exemplo perfeito, que, com todas as suas mentiras e sugestões de falsidade, está na origem da colocação da imigração e a sua suposta correlação com a criminalidade na centralidade da acção política desde a célebre declaração de Montenegro em horário nobre, seguida dias depois pelo espectáculo da rusga da Rua do Benformoso. A crítica da Provedoria da Justiça à rusga não é tema. A imigração era um problema, mas, a partir daí, tornou-se um outro problema, de natureza diferente.

O mesmo acontece, aí com mais proximidade política, com a Iniciativa Liberal, com a mesma lógica de proteger o Governo e o PSD dos excessos inconvenientes, como a motosserra de Milei, mas defender e ampliar a voz dos interesses económicos. E também o mesmo acontece com a sistemática promoção de tudo que surja na e da ala direita do PS, em particular do candidato presidencial António José Seguro, tratado com a máxima gentileza no Observador, em contraste com a violência com que Sampaio da Nóvoa, ou Santos Silva, ou Alexandra Leitão, ou Pedro Nuno Santos, são tratados.

A acção política do Observador é uma poderosa combinação que não se limita aos momentos mais directamente políticos no prime time, principalmente de manhã, mas estende-se pelo dia todo, pela forte presença de elementos da Rádio Observador nas estações de televisão noticiosas, amplificando os temas e o argumentário definido nas manhãs. Beneficia, aliás, de muita complacência nos outros órgãos de comunicação, que habitualmente colocam frente a frente um falcão do Observador com uma pombinha do PS.

Acresce que o Observador tem fontes privilegiadas, em particular no Ministério Público, nos partidos do Governo e no Governo, bem como nas confederações patronais, e conta com publicidade de grandes empresas. Se fosse apenas para apoiar um órgão de comunicação seria excelente, mas fontes e apoios estão directamente ligados com o programa político do Observador.

Seguem-se dois exemplos recentes do que disse e que mostram muito bem como funciona a Rádio Observador. Quando pareceu que o Governo poderia reconduzir Mário Centeno como governador do Banco de Portugal — uma manobra de spin, mas que poderia dificultar passar do elogio de Centeno à sua demonização —, apareceu o “caso” da nova sede, com a habitual sugestão de vários crimes e o apelo ao Ministério Público. Nunca ouvi o Observador fazer o mesmo com o caso Spinumviva.

Outro exemplo é o tratamento da decisão do Presidente da República de enviar a lei da nacionalidade para o Tribunal Constitucional, imediatamente atacada como sendo um frete à “esquerda”, como Marcelo traindo a sua base eleitoral — um curioso argumento para analisar a acção presidencial — e como uma gratuita demonstração de um poder cada vez mais póstumo.

Estes exemplos são do quotidiano da rádio, mas não custa ver o que aí vem com as alterações na legislação laboral, que toca com o núcleo duro da política do Observador, a defesa do lóbi mais agressivo do empresariado português. Esperem e vão ver, os comícios tipo orgasmo matinal do Observador.

Não me passa pela cabeça desejar qualquer mal ou censura sobre a Rádio Observador. Desejo-lhe muitos anos de vida, mas tudo isto estaria bem se houvesse transparência política e o Observador, em vez de se apresentar como um órgão de comunicação seguindo as regras deontológicas do jornalismo, fizesse uma declaração de interesses política. Não é o que estão sempre a pedir aos “outros”?»


30.5.25

Está a ir tudo muito depressa

 


E termina «Linhas Vermelhas», onde Catarina Martins debatia com Cecília Meireles à 2ªf (e certamente também a versão da 4ªf com Miguel Prata Roque e Miguel Morgado).

18.11.24

O elogio da esquerda etiquetária pela direita

 

Antonio Berni

«Devia-nos escorrer uma lágrima furtiva quando lemos os carinhosos analistas que exigem à esquerda que regresse à “velhinha luta de classes”, agora “propriedade” da direita, pois o “vírus” democrata foi “capturado por grupelhos anticapitalistas”. O eterno Fukuyama é citado por Teresa de Sousa para provar que o que condenou Kamala foi a “protecção exclusiva de um conjunto de grupos marginalizados: minorias raciais, imigrantes, minorias sexuais, etc.”. E acrescenta ela com condescendência: “O problema não está em que estas preocupações não sejam justas, que são”. São mas não são e não podem, aqui aplica-se a filosofia da famosa rábula do Ricardo Araújo Pereira.

As minhas teses contra estes conselhos comoventes são, primeiro, que são uma fraude para incensar Trump e, depois, que tentam empurrar a esquerda para uma marginalidade etiquetária conveniente à direita.

Apaziguar Trump?

A pantomina começa por apresentar o Partido Democrata (PD) como a esquerda. O PD foi o partido dos esclavagistas durante a guerra civil; 70 anos depois, mesmo com a sua supermaioria, Roosevelt desistiu de uma lei federal contra os linchamentos porque os senadores democratas sulistas não o permitiriam. A perda dessa influência territorial e a pressão dos direitos civis mudou o mapa partidário, mas não a fidelidade a Wall Street: foi Clinton quem determinou o fim da lei do New Deal no controlo bancário e Kamala vangloriou-se da chancela da Goldman Sachs no seu programa. Chamar esquerda ao PD, ou fantasiar que representou os trabalhadores, é um insulto mal recebido pelos seus chefes.

Num país dividido ao meio pelo bipartidarismo, tanto democratas como republicanos sempre tiveram povo e é uma pirueta apresentar Trump como o portador da tal nova “luta de classes” colonizada pela direita. E, como é bom de ver, os lusos “proprietários da luta de classes” olham para o salário como a abominação que reduz o lucro. Nisso coerentes, a sua “luta” é pela redução do IRC ou, como notava o bilionário Warren Buffett, é para pagar menos IRS do que a sua secretária. Temo aliás que este amor pela “classe” seja de pavio curto e que volte à fábula meritocrática do elevador social, minúscula arca de Noé onde não cabe classe alguma.

O facto é que os “proprietários da luta de classes” se refugiam no discurso poltrão sobre a culpa woke para justificarem Trump. Afinal, repetem, ele tocou o coração do povo, oferecendo o identitarismo MAGA e a esperança dos descamisados. No entanto, bastaria olhar para a galeria de horrores do séquito para notar que o trumpismo é o poder de uma casta económica e procura impor a necropolítica, pobres descamisados que são carne para canhão. Por isso, a política de apaziguamento dos que endeusam o homem, que já deu mau resultado no passado, não será melhor agora: o que ela prova, como se verifica no fim do cordão sanitário francês ou na nomeação de Rutte para a NATO às costas do Governo de extrema-direita, é que a direita clássica desliza para o trumpismo.

Arrumados no beco?

O trumpismo é um identitarismo brutalista, dirigido por um fascista, com traços teocráticos e subordinado à pilhagem do país por uma elite empresarial, cujo ícone é Elon Musk, que investiu 119 milhões e ganhou 26 mil milhões com a eleição. Esta vaga crescerá. É o que me leva ao meu segundo ponto: a resposta da esquerda só pode ser a disputa da maioria, o que exige que crie a certeza social de que é ela que garante liberdade e segurança.

Assim sendo, face à ameaça civilizacional, é só curiosa a tentativa dos apaziguadores de nos pedirem um regresso ao passado. Ora, uma esquerda declarativa e cerimonial – etiquetária, portanto – só serve para o consolo da direita. Ela é inútil, nenhuma muralha de Jericó cairá com as trombetas das proclamações sobre o partido-guia. O modelo dessa política etiquetária já foi experimentado de todas as formas e só conduziu a sectarismo e auto-satisfação desarmante, enquanto a luzinha que brilhava numa janela do Kremlin para iluminar a humanidade se extinguiu às mãos dos dirigentes feitos oligarcas. Esse passado é um beco onde morreu a saudade.

Entretanto, em nome da fantasia de um exército de robots obedientes a algum grande educador do proletariado, a esquerda conservadora propõe na Alemanha a deportação de imigrantes e noutros países opõe-se à paridade entre homens e mulheres ou a medidas de transição energética.

Pois pergunto então que sentido teria a esquerda abandonar a maioria do povo, que são mulheres, ou renunciar aos direitos humanos, ou entregar o futuro ao capitalismo fóssil? Ou se, quando em Portugal se fez o referendo que despenalizou o aborto, havia outra prioridade da luta de classes? Ou se o país ficou pior por ter aprovado o casamento gay, que enfureceu a direita, a hierarquia religiosa e, já agora, muitos populares? É precisamente por disputar o único imaginário universalista que resta – liberdade e igualdade – que a esquerda deve rejeitar o etiquetarismo e juntar todos os setores populares que disputam os seus direitos.

Num tempo em que há menos sindicalizados do que precários e trabalhadores por turnos, ou migrantes, ou quando há mais manifestantes nas marchas LGBT+ do que no 1.º de Maio em todas as cidades menos uma, essa inclusão é uma condição para restabelecer a capacidade de acção colectiva da classe trabalhadora – e deve ser o seu programa.

Mais ainda, se a segurança da vida boa, dos bens comuns, da saúde à escola, e dos bens essenciais, o salário e a casa, é a base do projeto socialista, tal transmutação democrática só vencerá se for a expressão de uma aliança maioritária. Essa é aliás a razão pela qual setores da esquerda norte-americana, refugiados no seu próprio etiquetarismo sem alternativa política, prejudicam o combate pela igualdade ao substituírem a luta social pela ideia de que a experiência pessoal do trauma é a fonte da autoridade discursiva ou que o cancelamento pode estabelecer a regra da praça pública.

Contaminada pelo abismo intoxicante das redes sociais, essa esquerda é profundamente individualista e desiste do sentido da comunidade, que é a essência do universalismo socialista. Sim, Trump ensina-nos alguma coisa: a não desistir de toda a luta de classes que enfrenta o capitalismo real.»


12.4.24

Não se distraiam

 


«Passos Coelho saiu mais uma vez de casa num final de tarde, desta vez para ir abençoar a direita ultramontana e a sua agenda conservadora. Toda a encenação teve traços deprimentes, com um cheiro a mofo de gente assustada pelas mudanças sociais, que sonha com o regresso da dona de casa. E, enfim, Passos tende a ser apresentado, de tempos a tempos, como reserva moral da direita portuguesa.

O país franziu o sobrolho, a direita liberal mostrou o incómodo e à esquerda os sinos tocaram a rebate. Foi salutar essa multiplicação de reações.

Mas não nos enganemos. Não é uma guerra cultural que temos pela frente no ciclo político que por agora se inicia. Primeiro porque essa tentativa de criar um conflito sobre identidades e família é, pelo menos por agora, totalmente artificial e minoritária. A vida do país foi mostrando traços de transformação nos costumes e nas identidades sociais que nasceram pela mão de lutas sociais, de gente corajosa e de mudanças legislativas. O país avançou e modernizou-se. É a própria direita que prova que essa mudança é pacífica e bem-vinda na sociedade portuguesa. Temos um político que assumiu publicamente a sua homossexualidade e que é hoje Ministro dos Negócios Estrangeiros. Outros militantes destacados do (anterior) partido mais à direita, o CDS, também o assumiram com coragem no passado. Nunca mais ninguém falou disso. E bem. As mulheres portuguesas são hoje a maioria no ensino superior, há novos modelos de famílias sem dramas, e deixámos de prender as mulheres pobres que recorriam desesperadas às salas escuras do aborto clandestino. Na verdade, os dramas das mulheres portuguesas estão na discriminação salarial; nos horários e turnos que dificultam a vida familiar; nos salários baixos; e na violência cobarde que persiste exatamente nos modelos de “família tradicional”. E os problemas das famílias com a escola pública não são os direitos humanos, discutidos nas aulas de cidadania. São a falta de professores; as escolas ainda degradadas; os apoios escolares para melhorar resultados; e a inquietação de saber se haverá residências universitárias, caso os filhos tenham de ir estudar para outra cidade.

Há lutas ainda por fazer, mas não há uma ferida aberta na sociedade portuguesa sobre modelos de família ou o papel das mulheres. Por isso, a nova identidade salazarenta de Passos Coelho é apenas um exercício oportunismo político. É um político em busca de um papel e de uma agenda para o seu próprio protagonismo. Passos tem procurado persistentemente colocar-se como a figura tutelar de uma eventual aliança entre o PSD e Chega, caso ela seja essencial para que a direita se mantenha no poder. Este foi apenas mais um episódio dessa novela que, receio bem, vai continuar.

Mas nos próximos tempos, a aliança entre a direita liberal e a extrema-direita não será sobre identidades e costumes. Será sobre matérias bem mais prosaicas: trabalho e políticas sociais e económicas. No novo quadro político, o que está em debate são as questões do trabalho, dos rendimentos e dos apoios à iniciativa privada.

Dados recentes do Eurostat mostram que Portugal é hoje o segundo país da União Europeia com maior número de contratos laborais precários, e sabemos que permanece há décadas no fundo da tabela europeia dos níveis salariais. É um país em que o trabalho é barato – e isso explica muitas das dificuldades da economia portuguesa e da emigração dos mais jovens. Portanto, o que interessa saber é se o PSD se vai apoiar na extrema-direita para reforçar uma legislação laboral que promove essa precariedade e manter os entraves à contratação colectiva. Saber se tenciona travar a subida do salário mínimo. E, agora que se esboça a nova teoria de que afinal o excedente orçamental deixado pelo PS é uma maldição, saber se os trabalhadores com funções públicas continuarão em perda salarial desde que a Troika aterrou no país.

E há uma segunda dimensão: saber se as alterações nas políticas sociais servem de alavanca a novas rentabilidades oferecidas ao sector privado, a serem asseguradas por contratos com o Estado. Isto é, trata-se de saber se o dinheiro dos contribuintes será encaminhado não para os serviços públicos, mas para o sector privado da saúde ou da educação. Saber se se avança com a privatização parcial da segurança social; se o IRS das famílias vai pagar as rendas galopantes dos senhorios; e se o orçamento das obras públicas – e o novo aeroporto – vão servir para assegurar lucros fáceis sem necessidade de investimento, inovação ou competitividade.

Nestas questões, o alinhamento entre PSD e Chega não titubeia, nem tropeça. Até arrisco uma hipótese: quanto maior for a contestação a essa agenda de manutenção de baixos salários e rentabilidades asseguradas, mais vozes se levantarão no campo da direita querendo fabricar guerras de costumes e identidades.

Mas o ciclo que temos pela frente é sobre desigualdade social. É uma disputa sobre a distribuição de rendimentos e da riqueza criada na economia: ou vai para aumentar os salários ou vai para assegurar rentabilidades sem risco. Não se distraiam.»

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20.3.24

Barganha

 


«Esta viragem à direita é tudo menos inédita. Lembremo-nos do que foram os anos 1980, a cultura furibundamente antirrevolucionária, anticomunista e antidescolonizadora (que defendia a continuidade da dominação colonial e racial), numa reação contra a herança do 25 de Abril, que, também então, deu vitórias eleitorais à AD (1979-83) e a Cavaco na sua fase hegemónica (1987-95). Os 54,7% que toda a direita juntou agora em Portugal (sem contar com a emigração) é inferior aos somatórios de 1987 (55,6%) e 1991 (57,3%), e superam por pouco os 52,5% de 2011, com Passos Coelho. Todas aquelas direitas foram um dia derrotadas. E estas sê-lo-ão também. Demorará tempo, custará, como sempre, muito trabalho e muita luta, mas essa é a tarefa de quem, nas esquerdas, nos sindicatos e nos movimentos sociais, saiba juntar politicamente os milhões de nós que queremos defender democracia, direito ao trabalho, à saúde e à educação pública e gratuitas, à habitação, e liberdade. Ou julgarão eles que o 25 de Abril caiu do céu?!»

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24.4.23

Todos a Belém: estamos prontos

 


«Um esclarecimento prévio aos leitores para que não interpretem mal o título. Não venho, de forma alguma, defender a dissolução do Parlamento, nem acompanhar a claque de Pedro Santana Lopes e muito menos gerar um movimento que lhe faça concorrência. Apenas partilhar reflexão sobre o contexto, os objetivos e possíveis desenvolvimentos políticos associados à romaria que a Direita, incluindo a sua extrema, vem fazendo ao palácio de Belém, gritando "estamos prontos". Este grito significa apenas ânsia desesperada de aceder ao poder. Aos desesperados da Direita não importa se o PSD chega como suporte de uma alternativa, ou se tem de levar consigo o lixo político que nega o regime democrático e renega a Constituição da República. Sobre esta matéria as declarações de Montenegro são meros exercícios de retórica para esconder aquela certeza. Entretanto, o chefe do chiqueiro político, à saída de Belém, assegura: "o presidente da República não será obstáculo a qualquer tipo de participação governamental por parte do Chega". As máquinas da lavagem do personagem vão trabalhando a todo o vapor, com o objetivo de o tornar pessoa respeitável e acomodável numa hipotética maioria de Direita.

Percorrendo as propostas políticas da Direita não se descobre uma, que seja coerente e sustentada, para se criar um perfil da economia que acrescente mais valor no que produzirmos. Todos os dias pregam que tudo pode continuar na mesma, bastando haver "mais crescimento económico". Todavia, sem essa mudança o desenvolvimento é uma miragem. Agarraram-se aos disparates e à prepotência do Governo na gestão da TAP, mas escondem o criminoso processo de privatização que fizeram. E onde se situa a Direita quando se discutem melhorias da qualidade do emprego e de salários? Situa-se no campo oposto a esta demanda, o que significa perpetuar a pobreza e a falta de profissionais qualificados no setor público e em subsetores do privado.

O país tem um Governo com maioria absoluta, o que lhe daria - com um programa consistente e um Governo competente - margem para secundarizar os estados de alma do presidente da República. Mas, o Partido Socialista não conseguiu tratar a ressaca da maioria absoluta e o seu Governo tem fraca qualidade e plena ausência de brilho. Isso tem facilitado condições de manobra a Marcelo Rebelo de Sousa, que conseguiu fazer com que o primeiro-ministro pareça um aluno carente, em permanente estado de necessidade da confirmação do seu talento por parte do professor. Para alimentar essa carência, o professor ora o aplaude, ora lhe dá reprimendas.

Refém nesse enredo, António Costa é mais um ministro a "dizer coisas", dia após dia, muitas vezes sem aprofundamento, e até com pouco rigor. Daí resultam parcas respostas aos problemas com que as pessoas se debatem e quase nada para as transformações de que o país precisa.

O primeiro-ministro não pode andar a mudar de agulha de um dia para o outro manipulando fundamentações. Isso corrói a sua credibilidade e impede-o de valorizar decisões com significado para as pessoas, como o recente aumento das pensões. A viragem necessária exige muito mais que a distribuição de uns trocos vindos das folgas orçamentais. Os problemas dos portugueses não se resolvem com decisões políticas de ocasião ditadas por marketing eleitoral, mas sim com políticas estruturadas e objetivos estratégicos.»

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1.10.22

O centro desapareceu, a esquerda acantonou-se e a direita está mais dinâmica do que nunca desde o 25 de Abril

 


«O facto de eu não conseguir escrever sem usar classificações que me parecem pobres - esquerda, centro, direita - não as torna ricas. Penso há muito que elas transportam várias ambiguidades e acima de tudo não são heurísticas, o seu uso não permite obter grandes resultados críticos. Mas estas classificações têm a seu favor dois factores poderosos que as tornam difíceis de evitar: uma forte componente tradicional, de memória intelectual e sentimental, e servem magnificamente para um tempo de simplificações e radicalizações, facilitam a conversação mesmo com o custo da complexidade. Tentemos construir alguma complexidade a jusante.

É evidente que há posições que são historicamente fáceis de definir como sendo de esquerda ou de direita, mas na actualidade elas hoje “funcionam” de uma forma que as “mistura” e as muda. Temos facilidade em ver o que estava, mas dificuldade em perceber as mudanças e os seus efeitos. Por exemplo, aquilo que referi como ambiguidades centra-se em questões da nacionalidade e da soberania, com uma direita a ser ao mesmo tempo europeísta e dúbia sobre a guerra na Ucrânia; com uma direita a incorporar uma gramática dos costumes tradicionalmente não-cristã, e uma esquerda radical a abandonar o marxismo e entrincheirar-se num plano “cultural” identitário. A isto somam-se vários silêncios na sua maioria tácticos, sobre a democracia em particular, sobre a liberdade, e em particular sobre a igualdade. Um dos efeitos desse silêncio é, na história nacional, as ambiguidades sobre a ditadura do Estado Novo e o colonialismo.

O ascenso de uma direita radical, no plano intelectual parecida com o Integralismo Lusitano, com um braço “civilizado” no anarco-capitalismo da Iniciativa Liberal e um braço populista no Chega, com um PSD entregue a todas as tentações erradas e sem efectivo papel político que não seja trazer votos e voz a esta radicalização e com um CDS desaparecido num combate que já não tinha fronteiras com a direita radical, é evidente. Nas franjas, este ascenso comunica com os movimentos antivacinas, pela “família tradicional”, contra a educação cívica e sexual.

É um processo já antigo e que tem mostrado um considerável dinamismo intelectual e político. Em bom rigor, o precursor é o Independente, a tentativa de Portas e Monteiro de fazer o PP no CDS, os blogues de direita, a revista Atlântico, a captura do PSD pela direita radical no tempo de Passos, associada à hegemonia política e comunicacional da ideologia da troika muito para além da direita tornando-se a vulgata da análise económica, social e política, a criação num movimento comum do Chega e da IL, e a estabilização de uma poderosa máquina de propaganda à volta do Observador. A Rádio Observador, por exemplo, não faz eleitores do PSD, faz eleitores do Chega e da IL. Em universidades como a Católica e em várias fundações, e com o papel de várias corporações ligadas à saúde, à agricultura, aos transportes, à grande distribuição, criaram-se think tanks, e obtiveram-se empregos, lugares de direcção e recursos consideráveis.

Este ascenso, assente em financiamentos empresariais e numa rede internacional associada aos partidos de extrema-direita no poder, aos braços de Trump e Putin na Europa, tem sido gerido no plano comunicacional com grande eficácia, com jornalistas de direita muito mais profissionais, com projectos de qualidade a milhas do que acontece no resto do espectro político, onde não há nada de semelhante e a pobreza e má qualidade é confrangedora. Ao mesmo tempo a migração de jornalistas ideologicamente militantes desta direita radical tem sido uma constante em áreas da comunicação social onde a esquerda tinha posições que pareciam sólidas. Dominam hoje o comentário económico e estão cada vez mais presentes na informação e no comentário político. Há uma crescente impregnação do “estilo” e o “estilo” é o melhor veículo para o conteúdo.

Face a este dinamismo, o centro desapareceu do mapa e a esquerda está catatónica. O alvo principal, mais do que o “socialismo”, é a direita moderada e o PSD, cujos votos mesmo fragilizados são o único instrumento viável para a chegada ao poder. Uma parte do centro sobrevive com muitas dificuldades no PSD e no PS, mas o falhanço da experiência de Rui Rio foi a sua última esperança num grande partido. No PS, existe uma herança da direita da troika, na ideologia das “contas certas”, o que torna o clamor contra um “PS de extrema-esquerda” um absurdo. Nem sequer o PS é muito socialista, com uma ala esquerda muito próxima do Bloco e uma ala direita que tem colaborado conscientemente com a direita radical.

É por tudo isto que o argumento de que há uma “hegemonia cultural da esquerda” tem uma função vitimizadora mas é uma completa falsidade. Já teve, em muitos casos parece que tem, mas está longe de ter. Uma coisa é uma “hegemonia” nas indústrias culturas em grande parte dependentes de subsídios governamentais ou autárquicos, outra é uma influência intelectual, no sentido “orgânico” gramsciano, que tem cada vez menos. O PCP perdeu toda a influência intelectual e o Bloco de Esquerda entretém-se com causas de gueto e vivia da moda mediática que perdeu para a IL.

Eu saúdo tudo o que na direita radical ajuda a clarificar as águas e as intenções, veja-os, ouço-os e leio-os com atenção. Mas também os conheço, sei de onde vêm e para onde vão e não quero ir por aí. Com uma diferença com o poema de Régio, a de que não cruzo os braços.»

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16.4.22

Alterações climáticas na ecologia política

 


«As últimas eleições legislativas mostraram alterações significativas na nossa ecologia política. É como se tivessem chegado drásticas alterações climáticas que estão a mudar o nosso “tempo”. E como acontece com as outras, as do planeta, há quem queira ver e quem faça de conta que nada mudou. Elas manifestam-se em todo o espectro político, e estão interligadas: o PS tornou-se o grande partido centrista, a direita trouxe para o Parlamento a sua radicalização, e a esquerda tornou-se quase insignificante.

Mantendo a minha posição de fundo, a de que conceitos como esquerda e direita não são heurísticos — porque da sua aplicação não resulta conhecimento, mas ilusão, ou, se se quiser, aquilo a que Marx chamava “ideologia” —, uso-os muitas vezes mais por comodidade do que por rigor. Mas aqui é impossível não os usar como descritores, porque, quando numa sociedade há um reforço político identitário que passa por esta dicotomia, ela não pode deixar de ser usada, mesmo que os termos sejam mais posicionais do que substanciais. Está em curso também uma radicalização identitária do espaço público, mais do que na sociedade, mas vai lá chegar. A radicalização é um processo difícil de travar, embora os seus limites sejam sempre os grandes números, os eleitores, a democracia.

O país está centrista — veja-se a vitória do PS, de que ninguém verdadeiramente quer tirar consequências, com a ilusão de que é um partido de esquerda. Na verdade, o PS é um partido muito mais centrista do que de esquerda, e que não ganharia se não fosse assim, mas que não tem vontade nem capacidade reformista. O centro está sólido, mas imóvel e estagnado, susceptível à corrupção e ao clientelismo, mas incapaz de reformas. E como tem tempo, pior ainda.

A possibilidade de reformas poderia ter vindo do PSD, em aliança com o PS, mas o falhanço de Rio no PSD, que se deveu em grande parte às ambiguidades face ao Chega, acabou com essa possibilidade. Os que se lhe seguirão vão-se enredar na direita. Por isso, em conjunto com a derrocada do CDS, houve também uma vítima colateral neste novo “tempo”: a direita moderada, um dos principais alvos da direita radical.

A nova ecologia mostra que a direita radical está na ofensiva, dominando grande parte do espaço público, com uma presença na comunicação social cada vez mais significativa e que não se mede nas listas ridículas das altercações no Twitter, este é “teu” e este é “meu”. Vai mais longe e mais fundo, é uma presença de contexto que molda a direcção editorial, as escolhas de temas, de perguntas, e, claro, de pessoas. Nas redacções, nos lugares, nos apresentadores, nos comentadores residentes, conforme o seu canal e horário, nas relações com financiadores, nas parcerias com fundações e com think tanks.

A direita, porque cresce, está arrogante e persecutória e a esquerda está na defensiva, moralista, encurralada e ineficaz. O moralismo é uma espécie de defesa no último quartel. Na sua variante mais extremista, naquilo a que se chama o “politicamente correcto”, a esquerda torna-se censória e iliberal, pretendendo que o controlo das palavras lhe dá o controlo da sociedade e assumindo causas com nomes nobres, mas práticas autoritárias.

Acantona-se assim num combate cultural que acaba por ser supra-social, e que desvaloriza as causas económicas e sociais da desigualdade, da exclusão, da injustiça. O resultado é um elitismo “cultural-chic”, que grassa como uma moda, na comunicação social, nas indústrias culturais subsidiadas, na intelectualidade dos suplementos culturais, mas está a perder a competição nos jovens com a direita radical sob veste anarco-liberal, na “Burberry school of economics”, e com os adultos no populismo conservador, e de facto machista e racista, do Chega.

Noutro aspecto, a esquerda torna-se vítima de si própria, porque o moralismo em política faz o jogo da direita que tem os pecados todos, a começar pela corrupção, a fuga aos impostos, o “planeamento fiscal” que leva a riqueza ganha cá para “lá”, a indiferença e o egoísmo social, mas que é menos afectada pela sua denúncia pública, como se as pessoas achassem que isso é “normal”, expectável, como agora se diz.

O moralismo torna pecadilhos de gente da esquerda escândalos de dimensão nacional que a direita usa com sanha muito para além da sua real importância. Vejam-se os títulos e torrentes de artigos sobre a exclusividade não cumprida de Mariana Mortágua, as obras ilegais na casa de Ana Gomes ou a imaginação curricular de Raquel Varela, e não é por acaso serem todas mulheres. Fizeram asneira? Fizeram, mas o que está em causa é a proporção do ataque. A proporção ainda conta ou não? Para este tipo de combate corpo a corpo, não.

A direita aponta alvos, e desenvolve campanhas, a esquerda está manietada ou porque quer ou porque não pode. A razão é que a dinâmica política dá hoje o poder de classificar à direita radical, que aponta a alvos demasiado passivos, porque ou têm culpa ou não “assumem”, como dizem as revistas do jetset, ou ficam a um canto à espera que passe o mau tempo. Não passa.

A guerra ucraniana agravou este processo, e teve um efeito devastador à esquerda, desequilibrando ainda mais um processo que já vinha de antes. Mas isso fica para uma continuação.»

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22.6.21

O laboratório francês



 

«Le feu qui semble éteint souvent dort sous la cendre (Corneille)

Marx, que considerava a Alemanha a pátria da filosofia (assim cantava Caetano Veloso: "só é possível filosofar em alemão"), atribuía à Inglaterra a primazia na economia e à França a vanguarda dos movimentos políticos. Alguém não menos inteligente, Jaime Gama, dizia há pouco que tínhamos que estar muito atentos às mudanças políticas em França, que encerrariam fortes indícios para o nosso futuro.

Vivi algum tempo em França e sou afrancesado desde pequenino. A oportunidade de passar os últimos quinze dias do mês de junho entre Paris e Estrasburgo levou-me a esse feliz reencontro, que é sempre encontro com uma parte de mim. Mas alguma coisa me inquietou.

Nunca vi os franceses tão céticos em relação ao universo das lutas políticas, tão desprendidos do seu famoso espírito "frondeur", que bem recentemente vimos florescer nos "gilets jaunes", tão indiferentes e de tal modo resignados que até a Sra. Le Pen ganhou um tom cordato e institucional que contrasta com o modo arruaceiro que é sempre apanágio e graça da extrema direita. É verdade que um mês antes dos acontecimentos de maio de 1968, o "Monde" publicava um editorial sob o título "A França aborrece-se"... Nunca se sabe o que poderá brotar de uma aparente passividade. Como dizia Corneille, o fogo que dorme sob as cinzas pode bem vir a surpreender-nos.

O deslizar tranquilo e sem surpresas de Macron para a direita e a (apenas tática?) inflexão de Marine Le Pen para um tom de seriedade e responsabilidade institucional, leva muitos franceses a desvalorizar a política de "frente republicana", que levava a esquerda a votar no candidato de direita mais bem posicionado para derrotar a extrema direita, e a considerar sem sobressalto a hipótese de uma vitória de Le Pen. A esquerda foi-se diluindo nas suas múltiplas cambiantes ideológicas, enquanto a direita democrática disputa o seu espaço político com um Macron enfraquecido. Macron tentou esvaziar o universo político francês das suas alternativas, sem conseguir simultaneamente mostrar-se como eficiente barreira a uma extrema direita que deixou (até quando?) de assustar eficazmente os franceses.

A preocupação que eu senti com a França prende-se com a ausência ali, não de um debate de ideias, que existe e é bem forte (tomáramos nós...), mas de uma ideia consistente de alternativa política. A nação que foi considerada a mais política da Europa deixou-se deslizar para um estranho estado de anomia, que nos faz recear, face às ameaças que nos rodeiam, um acentuar da impotência europeia, que a França, ainda assim, é das poucas a denunciar no seu discurso.

O regresso dos Estados Unidos às suas responsabilidades mundiais obriga ainda mais todos os que acreditam num papel próprio para a Europa a assumirem plenamente as responsabilidades que lhes cabem como europeus. Ora a indiferenciação política não favorece a vontade de assumir qualquer papel ou responsabilidade que seja.

Poderá o nosso futuro político vir inscrever-se na triste alternância entre uma direita tecnocrata e economicista e uma extrema direita um pouco mais polida e asseada? Quando voltei a Portugal, chocou-me certamente o tom rasteiro, deselegante e mal articulado de boa parte dos nossos debates; mas senti como uma bênção que eles continuassem a existir.»

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19.6.21

O argumento soviético da loucura



 

José Pacheco Pereira no Público:

«Os mecanismos do radicalismo hoje em curso à direita do espectro político são bem visíveis em textos de articulistas, nas páginas das redes sociais e nesse espelho das cabeças que são os comentários em caixas de comentários sem moderação ou pouco moderadas, seja no Observador, no Sol, e mesmo no PÚBLICO. Aliás, a prática de uma mesma publicação ser moderada no corpo principal e permitir tudo nas páginas do seu Facebook favorece a degradação da opinião, com o falso argumento da sua democratização.

Embora seja fácil perceber que uma multiplicidade de nomes falsos e pseudónimos pertencem à mesma pessoa, para se criar a ilusão da quantidade, não é irrelevante conhecer esta forma ficcional de vox populi, intencional e pretendendo obter objectivos políticos. Do mesmo modo, é possível perceber outros mecanismos deliberados, como seja enviar opiniões pejorativas ou no início ou numa fase já avançada dos comentários, de modo a que estes sejam ou os primeiros ou os últimos e, de algum modo, condicionarem a leitura do conjunto. Há gente que faz isto como quem respira, verdadeiros militantes das caixas de comentários, e há profissionais de agências de comunicação ou grupos organizados nos partidos políticos, semelhantes aos que existem nos programas de rádio, os fóruns em directo de opiniões, a actuarem escondidos.

Muitos dos mecanismos deste tipo não são exclusivos da direita radical, existem também à esquerda, mas a maré tribal que está a subir é a da direita radical, associada ao populismo antidemocrático, exacerbado pelo sentimento de impotência face à situação política actual e às sondagens. Os temas e o modo de os apresentar e discutir são tão semelhantes entre si, do Observador ao Diabo, que representam um elenco que pode ser identificado e discutido.

Noutros artigos voltarei a esta questão, com os retratos do “argumentário”, quase todo associado a ataques pessoais, que desde o início do século XX foi identificado e estudado como um modus operandi do jornalismo de ataque populista radical. Hoje fico-me por aquilo que é o uso do argumento soviético do período de Brejnev para usar a interpretação psicológica, psicanalítica e psiquiátrica para explicar a dissidência. A dissidência era considerada uma doença mental, e vários opositores ao regime soviético como Vladimir Bukovski, Leonid Pliushch e Grigorenko foram perseguidos como doentes. A ideia apresentada de forma simplista era esta: como é possível, sem padecer de uma qualquer doença mental, pôr em causa um regime perfeito de sociabilidade política como o socialismo soviético, fonte de felicidade e bem-estar? Como era possível, sem diminuição das faculdades mentais, estar “contra o povo”?

Este argumento soviético é hoje muito usado no mundo do ataque pessoal da direita radical. Pode parecer estranho pela aparente oposição política, mas não é: há uma similitude na vontade de destruir o outro e os mecanismos para o fazer são idênticos. Este tipo de ataques muito comuns nas margens cinzentas da política está cada vez mais a emigrar para as zonas “respeitáveis” da opinião. Como é possível sem se ser doente, demente, senil, “maluquinho”, lunático, sem se ter as faculdades mentais diminuídas, pôr em causa o discurso da direita radical sobre o “ditador” Costa, sobre o “socialismo autoritário” que nos rege, como não é possível ver a essência corrupta da democracia, descrita como o “sistema”, como é possível não se aceitarem as teses “científicas” sobre a realidade, como, em suma, se pode discordar sobre o mundo do Mal que nos governa sem se ser ou servil ou doente ou as duas coisas?

Os termos que usei e que repito – demente, senil, “maluquinho”, lunático, sem as faculdades todas – foram todos usados por cá nos dias de hoje, e são uma espécie de upgrade da redução das posições políticas a traços e comportamentos psicológicos, seja a inveja, seja o ressentimento, os dois mais comuns, que são centrais nos ataques pessoais. É um estilo cada vez mais vulgar, que acompanha a crescente incapacidade de aceitar posições numa conversação democrática, ou sequer admitir que ela possa existir porque isso é aceitar o “sistema”. O melhor exemplo são os republicanos pró-Trump, e os seus imitadores nacionais.

Se retirarmos o psicologismo, e a sua forma superior no argumento da dissidência ou da discordância como doença mental, não sobra quase nada. Espreme-se e sai vazio, o que significa que não se trata de debater ou discutir, mas de considerar que o outro não pode nunca ser ouvido ou ser um interlocutor, porque está diminuído nas suas faculdades mentais, como se vê pelas suas posições...»
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17.6.21

No comboio descendente, vai tudo à gargalhada



 

«Já toda a gente reparou na recente e vertiginosa mudança nos modos de comunicação, através da banalização da boçalidade. Um chefe de um partido sugere levemente que o ministro devia ser decapitado, os liberais treinam os meninos a atirar setas à cara dos adversários (com a natural exceção da do chefe do partido que acha que o ministro deve ser decapitado), a candidata laranja à Amadora quer exterminar um partido e é aplaudida pela turba da sede, um cordato e elegante administrador da Gulbenkian solta o animal feroz que afinal morava dentro de si, junta-se uma fronda para assegurar que há um “fundo de verdade” em que os comunistas comem crianças, um ministro, outro que não o decapitável, convoca raios e coriscos por lhe terem lembrado a borla fiscal das barragens, o bastonário de uma ordem profissional indigna-se para assegurar que umas casas de uma urbanização aparentemente não licenciada são alugadas por cem mil euros por mês na emergência da covid em Odemira, e quantos mais exemplos são necessários para dizer desta mudança que é tribalização de espaços públicos?

Há duas formas de menorizar este rápido deslizar da linguagem. Uma é que já foi assim, talvez mais vezes do que as que ocorrem à nossa memória recente: no PREC foi à bomba e fogo posto, algumas vozes incendiavam a pradaria, houve mesmo um candidato presidencial da direita unida que exibia a distinção de ter dirigido um campo de concentração durante a ditadura, houve programas de televisão cortados, houve jornalistas a responder em tribunal por discutirem planeamento familiar em antena, houve governo que correu com Marcelo do seu comentário televisivo, houve ameaça de censura a Saramago, houve Pides condecorados. Já houve o mal e a caramunha. E, se é certo que qualquer período de instabilidade ou de grande disputa aquece os termómetros da palavra, também agora estamos em vésperas de eleições, autárquicas que sejam, mas vão definir o mapa da direita e revelar-lhe se tem alguma chance para os próximos anos, o pote está a ficar muito distante. A segunda forma de relativizar esta temperatura é lembrar que até somos de brandos costumes: em contrapartida, em Espanha não houve um único dia do seu mandato como ministro em que Pablo Iglesias não tivesse uma manifestação da extrema-direita instalada à porta da casa onde vive com os seus filhos.

Permita-me dizer-lhe que estes dois argumentos são mancos. Há pior e até já houve pior, mas nada disso explica este comboio descendente. Vale a pena compreendê-lo, porque isto vai durar mais do que o breve campeonato europeu de futebol: o que alicerça a degradação da linguagem, poluindo a política para esvaziar os espaços de conversação e de enunciado de posições e propostas, é uma combinação entre a concorrência feroz à direita (o que é novo e notável, desde há quarenta anos que não surgiam novos partidos eleitoralmente viáveis nesta ala e, pela primeira vez desde o 25 de Abril, podemos estar nas vésperas do desaparecimento de um dos partidos da Constituinte) e o predomínio de novos modos de comunicação que são impulsionadores da necropolítica.

A mudança que as redes sociais produzem não é a difusão dos memes ou o uso do sarcasmo, aliás desejável nos debates democráticos que, como lembrava um editorialista, não têm por que ser “amorfos”; o seu efeito é, antes, a intoxicação intensa. A linguagem é usada neste terreno para uma função predominante: a blindagem, ou seja, para deixar de comunicar, para se tornar opaca e intraduzível, para fechar os seus seguidores numa redoma inexpugnável, protegida por barreiras de ódio. Isso é possível precisamente porque vivemos em hipercomunicação, com o ecrã a colonizar muitas horas do nosso dia, e porque a sociabilidade passou a ser esta forma de encriptação que cria símbolos, ícones e liturgias na gritaria, forjando identidades fictícias e obediências sectárias. Quanto mais comunicante for a incomunicabilidade, maior o seu sucesso. É por isso que a figura típica deste mundo é o bufão. E o bufão é quem, para aplicar o poema de Fernando Pessoa, vai no comboio descendente à gargalhada, criando um espetáculo em que vão “uns por verem rir os outros/ E os outros sem ser por nada”, “uns calados para os outros/E os outros a dar-lhes trela/(…) Mas que grande reinação”.

Não é tudo novo? Não. Mas já se alcandorou ao esplendor de sugerir a decapitação de um adversário. Não é fala de Estado Islâmico, é mesmo a direita portuguesa.»

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29.5.21

À espera do Diabo



 

«O conclave que esta semana juntou representantes da quase totalidade das subfamílias da Direita e da extrema-direita tem sido analisado, em vários quadrantes, de forma algo ligeira a partir de um facto incontestado: ali não se discutiram ideias que respondam aos grandes problemas com que se debate a economia e a sociedade portuguesas.

Todavia, puderam observar-se factos que merecem reflexão, não pelo impacto imediato que têm, mas sim pelos quadros perigosos que podem perspetivar.

Uns séculos atrás, num dos contextos políticos mais críticos que Portugal viveu ao longo da sua história, teve força a crença no miraculoso regresso de D. Sebastião. Como Deus não se mete nestas coisas jamais tivemos o Desejado, mas como obra do Diabo talvez a coisa possa acontecer. Neste encontro não faltou um candidato a desejado e não deixou de pairar na sala forte vontade de uma intervenção do mafarrico, que o faça regressar numa manhã de nevoeiro.

Realço cinco factos que nos evidenciam a situação política atual como mais complexa e difícil que aquela que tínhamos em 2015: i) na Direita tradicional uma parte está mais aberta à extrema-direita e outra já a integrou em dinâmicas partilhadas; ii) a evolução da situação política da União Europeia (UE) reforça este processo, e a União tem hoje problemas maiores que tinha naquela altura; iii) à Esquerda existe menos motivação e são menores as predisposições para compromissos entre as suas diferentes componentes; iv) os condicionalismos sociais, económicos, financeiros e orçamentais com que o país se depara são mais pesados; v) em 2015 iniciava-se uma nova governação com objetivos e metas programáticas para uma legislatura (mesmo que posteriormente se tenham mostrado insuficientes), o que criava dinâmica, quando hoje temos um Governo bastante desgastado, com vários membros a confirmarem o princípio de Peter e a confundirem governação com gestão de agendas do dia.

Quem conclui que a Direita não tem programa ou que "a realidade lhe retirou o programa" pode estar a laborar em dois erros convergentes. Primeiro, é mais que evidente a fidelidade programática da Direita às políticas de austeridade impostas na crise anterior e a sua predisposição para uma ofensiva contra os direitos e liberdades democráticas e contra o Estado na sua função de garante dos direitos sociais fundamentais: não o podem expor por agora porque os impactos da pandemia ainda estão muito vivos nas pessoas e mostraram a violência e a injustiça dessas políticas. Segundo, esta evidência pode evaporar-se rapidamente perante a inexistência de respostas do Governo nos planos do trabalho, do emprego, das políticas económicas e sociais, ou face a inversões de sentido súbitas por parte da UE, ou ainda, se houver um acentuar de desentendimentos à Esquerda.

Quase todas as análises concluem que o vazio de propostas que o encontro da Direita e da extrema-direita mostrou se consubstancia numa vitória de António Costa. Poderá ser, desde que o primeiro-ministro não se entregue ao papel de lebre na fábula de Esopo "A lebre e a tartaruga" e tome a sério a possibilidade de surgir uma intervenção do príncipe das trevas.

É indispensável que António Costa coloque o foco de toda a sua capacidade de análise e ação nas respostas aos problemas dos portugueses e não se deixe atrair demasiado por taticismos de gestão política.»

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