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21.3.19

A sério? O Bloco esquerdizou o PS?



Antes de mais e para que fique claro: eu levo a sério este Movimento 5 de Julho, venha ou não a ter efeitos práticos, a curto ou médio prazo.

Mas já ganhei a tarde, e ri-me com gosto, ao ouvir isto da boca do principal impulsionador do dito Movimento: «Nós tivemos uma aceleração da ascensão cultural do BE, que é inegável. (…) O BE, que iniciou uma guerra cultural contra o PS moderado dos anos 80, venceu essa guerra, houve uma esquerdização do PS.»

Ouvir / ler AQUI.
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12.3.19

Novo Movimento para unir as direitas



É um novo Movimento para unir as direitas. Quando se abre o site, lê-se: «NASCIDOS A 5 DE JULHO». Todos caranguejos, portanto…

Diz-me um dos fundadores que o título se justifica porque a AD nasceu em 5 de Julho de… 1979.
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22.2.19

A Direita tem medo de si



«Depois da rejeição esperada e do debate em curto-circuito programado, é difícil encontrar mais do que duas formas de olhar para a moção de censura ao Governo.

Uma, como a última encenação antes do fim da legislatura, a derradeira chance para marcar a agenda política pré-eleitoral. Outra, como uma nota de rodapé na chicana política, numa espécie de jogo do galo entre Cristas e o PSD com o fantasma da volatilização do espectro político à Direita representado por novos partidos ou movimentos. Estes dois olhares, paralelos, não escondem o sentimento fúnebre, versão "união de facto", que presidiu à moção e voto conjunto dos partidos das Direitas Unidas (para utilizar o jargão com que o CDS teima em apelidar - como se visse o Diabo - os acordos parlamentares à Esquerda). A Direita democrática vive, por estes dias, com o medo da sua progressiva irrelevância. A Direita tem medo de si mesma e tem medo de si, caro eleitor.

Após dois anos perdidos em negação por não serem o Governo-legítimo-do-país-que-o-povo-não-quis, foram caindo em si e, enquanto isso, foram tombando os pins da lapela. A Direita demorou dois anos a acreditar que tinha mesmo que fazer oposição. E se essa ficha caiu, deve-o à solidez dos acordos à Esquerda, firmeza na qual nunca acreditaram. Paralisaram dois anos, pensando que seria o BE ou o PCP ou a conjuntura internacional a devolver-lhes o poder e, PàF, acordaram em sobressalto com a extrema-direita a morder os seus calcanhares democráticos que, entretanto, caminhavam tão liberalmente calçadinhos. Confiaram, observando, que os projectos editoriais em que passeavam ideologia, trariam como consequência necessária o regresso ao poder, sem cuidar de pensar que o degelo chegara aos vértices do seu iceberg, fazendo sair Santanas, Venturas e pequenas hordas de populistas. PSD e CDS vivem no receio dos fenómenos extremistas e demagógicos que ajudaram a criar. E, pelo teor da moção de censura, não aparenta que o CDS tenha aprendido alguma coisa com isso.

O Rui Rio que acabara de ser eleito líder do PSD nunca seria arrastado pelo CDS para esta moção de censura. O Rui Rio sobrevivente de agora, aquele que enfrentou a maior campanha negra dos saudosos do passismo, já não tem margem para deixar de ir a reboque. Foi aqui, neste lugar sem opção, que os seus inimigos internos o quiseram encostar. Encostar à direita para o poderem ultrapassar em contramão. Enquanto isso, a volatilização que tantos consideravam ser um privilégio negativo da Esquerda, ganha contornos de uma vida perfeitamente normal numa família às direitas. Dois anos depois das próximas eleições legislativas, onde estará a Direita democrática em Portugal?»

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14.2.19

A direita cheia de oportunidades


«Olhando para as novidades mais à direita, temos o CHEGA, o D 21, o Partido IL e a ALIANÇA. Em caso de coligação entre PIL e ALIANÇA, teríamos o PILA. Se André Ventura se juntasse, teríamos o CHEGA PILA. E com o contributo do movimento de Sofia Afonso Ferreira formar-se-ia o CHEGA D PILA. O que não falta são oportunidades.»

Rui Rocha no Facebook.
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13.2.19

Quando a direita tira as luvas



«Um novo partido da direita portuguesa estreia-se em Évora e, no mesmo fim de semana, os três partidos da direita espanhola manifestam-se em Madrid, juntos pela primeira vez. Mera coincidência, a não ser que há temas em comum e, sobretudo, uma atitude que os irmana: empolgada pelos ventos norte-americanos, há uma direita orgulhosa que se assume. A direita está a tirar as luvas e, como em tempo de guerra não se limpam espingardas, saltou qualquer fronteira com a extrema-direita. Mais, ao contrário dos tradicionais discursos do passado recente, agora orgulha-se dos seus pergaminhos e está a exibir uma radicalidade que só se conhecia de memória distante.

Não é que tenha novas bandeiras. Um curioso filme recente, “Vice”, de Adam McKay, lembra o ascenso dos neoconservadores no tempo do segundo Bush, tutelados pelo vice-presidente Dick Cheney, documentando o seu esforço em recuperar a ambição imperial, em disfarçar a redução dos impostos sobre as fortunas (é encantador saber como decidiram atacar o imposto sobre as heranças de mais de dois milhões de dólares como a “taxa sobre os mortos”, o que teve eco em Portugal na linguagem do CDS), em usar a religiosidade e em promover a desigualdade social. Depois disto, e agora com Trump, há pouco de novo à face da Terra. São os mesmos financiadores, alguns personagens continuam na nova temporada, o discurso é refrão. Mas a recapitulação dos tons conservadores ocorre com outra potencialidade tecnológica e com mais incertezas vividas depois de uma década de destruição pela austeridade, portanto com mais possibilidades hegemonizantes, e é por isso que se expande na Europa e no quintal latino-americano. Nesse mundo, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

O problema é que se transforma mesmo. A ascensão da extrema-direita espanhola, no caldo de cultura do franquismo, do ódio aos direitos das mulheres e dos discursos anticatalão e anti-imigrantes, pode fazer dela o fiel da balança para o próximo governo. Como nas eleições europeias de maio essa extrema-direita poderá formar um dos maiores grupos, se se aliar a Orban e quejandos, ela está a arrastar toda a direita tradicional atrás de si. É o que já se nota, mesmo que mais no alarde do que no conteúdo: sem grande esforço, o CDS sofre agora um episódio de ressentimento anti-Comissão Europeia, sempre hiperbólico, como a casa gasta; ao mesmo tempo, Sande Lemos descobre-se um crítico zangado e que quer direito de veto dos parlamentos nacionais, tutti quanti, tema que em dias normais faria corar o seu europeísmo translúcido; e Rangel dispara em todas as direções, este mais atento ao nacional do que à coisa europeia, em que nada tem a acrescentar. Em qualquer caso, uns e outros vão atrás dos flautistas de Hamelin, mesmo que alguns esperem voltar ao seu pacato institucionalismo assim que terminarem as eleições e esta maçada de se fazerem aos votos. Logo veremos se encontram o caminho. A nova cultura da direita é portanto sem papas na língua.

O congresso da Aliança não surpreende, pois navega nessa brisa. Parece muito, é só alguma coisa. E, se alguém anteviu uma direitização no aplauso embargado daquela gente ao senhor que lhes propôs a ideia venturiana do castigo bíblico pela castração de uns certos sujeitos, convém olhar também noutro sentido. Seria mero engano tomar esse enlevo por programa, pois o facto é mais revelador de um curioso episódio psicanalítico do que de uma agenda política. O que importa naquele programa é muito mais, é a crueza da agenda liberal: acabar com o Estado social, ou as prestações de serviços universais, cobrar pela saúde e pela educação públicas, levar desse modo os remediados e ricos para o privado, deixar aos pobres uma misericórdia à Daniel Blake. O sinal dos tempos é este, a liberalização não se disfarça de justiça, orgulha-se de ser injustiça social e até quer que os descamisados aprovem a sua miséria.

Como em Madrid, em Évora a direita imita os seus antepassados, já tirou as luvas e espera fazer mais seguidores. A questão não é, portanto, se este novo partido vai ter sucesso. Não vai. É demasiado Santana. No estilo, na ação, na representação. É demasiada memória e não há duas oportunidades para causar a primeira boa impressão. A questão é se vai conseguir pressionar o resto da direita a sintonizar-se na mesma onda. É para isso que serve e está desejoso de servir. Bem vindos a 2019.»

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6.2.19

Esquerda / Direita



Nas redes sociais, e também nalguns órgãos de comunicação social, há umas tantas pessoas que, a propósito de tudo, mesmo que se esteja a falar da hora do nascer do Sol, fazem questão de frisar que a esquerda diz que este acontece às 7:37 e a direita às 7:38. Vêem fosso ideológico em tudo o que mexe e daí tiram elogios ou condenações a torto e a direito. E não, não é pura coincidência que sejam frequentemente os mesmos a afirmar «Eu sou de esquerda, mas…» (ou de direita, mais raramente, está pouco na moda…).

Isto é tão inútil e tão cansativo!...
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24.1.19

Como morrem os Venturas?



«O processo de gestão do grotesco político encerra em si mesmo um complexo paradoxo. Se, por um lado, a desvalorização do burlesco populista abre as portas à sua normalização, por outro, a opção de sobre ele nos debruçarmos acarreta o indesejável risco da sua inadvertida publicitação.

É de crer que o impasse possa ser quebrado por uma terceira via, por imperativo de consciência democrática, nomear com clareza e envergonhar sem tibiezas.

O enredo populista, em exibição um pouco por todo o mundo dito ocidental, é composto por três partes:

A mediatização da mediocridade. Em que o desafiante se dá a conhecer às massas.

A proclamação da negra virtude. Em que o ilusionista – despido das suas convicções, renegando o sistema onde nasceu, cresceu e tudo aprendeu – ergue as suas bandeiras choque, apropriando-se, das indignações mais frequentes do seu auditório.

E, por último, a prestigiação do grotesco. Em que o farsante promete, ribombante e com artificial simplicidade, implodir com o “estado a que isto chegou”, sob promessa de viagem gratuita para “coisa muito melhor e maior”.

É neste quadro que nos chega André Ventura. Homem afável no trato, instruído e de boa imagem. Atributos a que soma um raro talento de clamar ao povo, exatamente, aquilo que este deseja escutar. Um processo de radicalização e embrutecimento está em curso.

Desta perspetiva, não é de estranhar que nos traga o regresso da pena de morte e das execuções, de mão dada com o fim do estacionamento pago.

Não causa espanto que a proposta de proibição do casamento entre pessoas do mesmo género conviva com o inconstitucional desiderato da eliminação de 130 deputados.

Nem tão pouco que a discriminação étnica se assome, lado-a-lado, com insidiosa suspeita de que os mais desprotegidos desbaratam os seus apoios sociais em carros de alta cilindrada.

Todavia, desengane-se quem julga estar perante um guia estruturado de retrocesso ao obscurantismo. A supressão da Igualdade, Liberdade e Fraternidade, enquanto valores distintivos da nossa grande Nação, requer trabalho e consome tempo. Esse é um desígnio dos grandes ditadores. Os pequenos não procuram a glória, mas apenas a janela de oportunidade. A ideia, enquanto representação que se forma no espírito ou percepção intelectual, não vive na pátria do novo populismo.

Procura-se por um programa e, com sorte, talvez se encontre um papelinho, que mais não é do que a soma panfletária de desabafos vomitados no tampo de tantas mesas de café. Um cardápio desconchavado de embustes que se alimentam de meias verdades, ódios e preconceitos.

Urge compreender se, em tempos de indignação global, este exercício de imitação é mero ímpeto pessoal ou, por outro lado, encontrará aderência, patrocínio e financiamento em interesses de maior monta. Ainda não é tarde para afirmar que, por pouca que seja a sua expressão atual, cada voto por eles recolhido constitui estaca fria na nossa democracia.

Ignorado por uma certa elite intelectual, entretida nos labirintos do seu relevo social, continuará a fazer caminho. Em Itália, Espanha, no Brasil e em França, foram escritos milhares de artigos muito mais cintilantes e eloquentes do que o que ora leu. Ninguém os relevou ou partilhou e o populismo grassou.

Nesta angustiante narrativa aberta sobressai a questão: “Passarão ou não passarão?”»

André Pinotes Batista
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23.1.19

Vem aí mais um partido




André Ventura, Presidente da comissão instaladora do «Chega» – movimento que esta manhã entregou no Tribunal Constitucional o processo de formalização enquanto partido.

(Expresso diário, 23.01.2019)
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20.1.19

Eles pulam e avançam




Estes discursos estão a ir mais longe, e mais depressa, do que talvez suspeitássemos..
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28.12.18

O medo e o Estado de vigilância


«Durante mais de uma semana, escutámos as palavras sábias da expertise que nos anunciava uma catástrofe amarela para sexta-feira e, dominando a matemática dos riscos, instalou-nos no real da urgência e do perigo. (…) O Presidente da República “engatou” um camionista e apelou à indulgência dessa classe tão sexy on the road, mas tão empata quando pára. De todos os lados chegou a exigência securitária. (…)

No final, chegámos à conclusão de que não foi respeitada uma presunção tão importante como a presunção de inocência: a presunção de inocuidade. A ameaça amarela era inócua, mas houve muita gente a servir-se dela para alimentar uma cosmopolítica do medo. Já todos deveríamos ter percebido que o diagnóstico de perigosidade é um prognóstico que privilegia sempre o cenário mais catastrófico; e que as verdadeiras catástrofes ocorrem em situações que não foram previstas. Felizmente, as catástrofes ficam quase sempre aquém das previsões. Mas gostam de se exceder quando estamos distraídos e nada tinha sido previsto.»

António Guerreiro
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22.12.18

Coletes Amarelos, ainda



Um dos detido no Marquês é guarda prisional, um dos organizadores do protesto é do PS, isto tudo é muito cansativo e creio que vou ali ao Youtube ouvir o Jingle Bells.
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O festival de irresponsabilidade



José Pacheco Pereira no Público:

«A manifestação “Vamos parar Portugal” é o primeiro sinal exterior de um populismo larvar que medra pelas redes sociais fora e que era só uma questão de tempo até querer sair delas para a rua. Saiu agora e mostrou a enorme diferença entre os apoios mais ou menos incendiários “dentro” e a escassez de apoios “fora”.

O que se passou com a manifestação dos chamados “coletes amarelos” portugueses é disso um verdadeiro exemplo. Deixemos a parte de leão que têm as malfeitorias dos deputados, dos governantes, dos políticos activos, desde o pequeno truque para ganhar mais uns tostões no fim do mês até à corrupção da pesada. É grave, mas o seu papel não é único, nem tão decisivo como parece.

Há também uma indústria da denúncia da corrupção, verdadeira ou falsa, exagerada quase sempre, que vai desde políticos propriamente ditos que fazem da “luta contra a corrupção” um instrumento de existência e de vantagem eleitoral, muitas vezes com enorme duplicidade entre os “nossos” que são desculpados e os “deles” que são atacados por sistema, até à imprensa e televisão tablóide que é hoje predominante. Os mecanismos de cobertura dos eventos são cada vez menos jornalísticos, “notícias” inverificadas, obsessão pela “culpa”, muitas vezes antes de se saber se ela existe, menosprezo pela descrição dos eventos a favor do comentário conspirativo, tudo isso acentua o discurso populista.

Voltemos ao “Vamos parar Portugal”. Esta manifestação teve excepcionais condições de propaganda para sair de fora do casulo das redes sociais. A ideia de que estas manifestações vivem essencialmente dos apelos nas redes sociais é, para não dizer mais, enganadora. E é claramente um dos mitos actuais, subsidiário do deslumbramento tecnológico, que se repete sem escrutínio desde a “Primavera árabe”, como atestam todos os estudos, mostrando que as redes sociais estão longe de ter o papel que se lhes atribui. Não adianta, é um mito urbano, logo tem pernas para andar.

Esse mito oculta que as manifestações com algum sucesso que nasceram nas redes sociais só ganham dimensão quando passam para as páginas dos jornais e os noticiários da televisão, ou seja, para os media convencionais. Esta é a segunda manifestação em Portugal que tudo deve ao modo como a comunicação social resolveu tratar este tipo de protestos. A primeira foi a manifestação do “Que se lixe a troika”, que beneficiou de uma grande simpatia dos jornalistas (correlativa da antipatia no tratamento das manifestações sindicais), e a segunda foi esta, que suscitou sentimentos contraditórios entre o desejo de que houvesse pancadaria, porque isso dá boa televisão, anima a política e “chateia o Costa”, até à exploração do medo.

Aliás, é interessante ver como foi evoluindo o contínuo media-redes sociais e alguns sectores políticos da direita que não disfarçavam a expectativa da contestação para contrariar a “ditadura” de Costa e da “geringonça”, até à extrema-direita (o PNR teve uma presença importante entre os manifestantes) e a fina alt-right do Observador, que passou do alarmismo para o “fiasco”. Mas faça-se justiça ao Observador, que não esteve sozinho: a cobertura mediática anterior à manifestação foi de muito má qualidade, exagerada, alarmista, desproporcionada e mostrando muito pouco conhecimento sobre o que se passava, sugerindo muitas vezes que da passividade sonâmbula e hipnótica da “geringonça” se iria passar para um país a ferro e fogo.

Esta atitude foi também a do Presidente da República e do Governo, ambos alimentando um alarmismo exagerado, com gestos que seriam completamente contraproducentes, caso existisse mesmo o perigo de as coisas descambarem. O que eles fizeram com passeios “apaziguadores” com camionistas, que pelos vistos não tiveram nenhuma presença destacada no “Vamos parar Portugal”, ou com avisos de que se estava num “alerta vermelho”, foi a melhor propaganda que se poderia fazer para um movimento que nunca deixou de ser débil. O “Vamos parar Portugal” não falhou por falta de propaganda, falhou por falta de pessoas.

O alarmismo irresponsável das autoridades mostra também que não há “inteligência” sobre estes grupos, ou que, se existe, é de muito má qualidade – ou seja, ou não sabiam de nada do que se ia passar, ou então resolveram fazer uma actuação exemplar com antecedência para dissuadir o que se possa vir a passar um dia futuro. Seja como for, é brincar com o fogo.

Eu ouvi um dos “organizadores” dizer que iriam para a rua um milhão de pessoas, o que nos dá a medida da ilusão. Mas seria uma ilusão ainda maior ignorar que há muita gente zangada, há cada vez mais gente que já não pensa em termos democráticos, mas em termos de “nós” (o povo) e “eles” (os políticos) – a essência do populismo, para simplificar – e que o combustível para a zanga e para as ideias que nascem da zanga é cada vez mais abundante. Como é igualmente abundante a completa irresponsabilidade com que se alimenta essa fogueira escondida, como se viu a pretexto destes protestos que nunca pararam Portugal, mas parecem ter parado a cabeça a muita gente.»
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21.12.18

E se hoje é dia de amarelos, venha este




Ainda por cima no dia em que Carlos do Carmo faz 79 anos.
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A derrota dos coletes



Era previsível que uma revolta inorgância de direita, que pedia tudo e mais o céu, neste jardim à beira-mar descansado, não teria grande sucesso. Mas confesso que não esperava tão magérrimo número de participantes. E isso apesar da enorme ajuda dos órgãos de comunicação social, com especial relevo para as TVs (e entre estas para a SIC N) que, sobretudo deste ontem e durante toda a manhã de hoje (e ainda agora, quase às 14h) , não se pouparam a esforços para dar imagem e megafone pelo país fora, a uns tantos gato pingados, que lhes enchessem o tempo de antena e dessem audiências. E não só, e não só...



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19.12.18

Eles andam por aí



«Eles sempre andaram por aí, na verdade, mas as gerações mudam. A extrema-direita tem entre nós uma raiz histórica e uma base social, há alguns anos houve gente suficiente para eleger numa televisão Salazar como a figura portuguesa do século XX. Mas tentativas de fazer renascer uma política fascizante logo após a revolução, nos anos setenta, mesmo quando figuras como Spínola, Champalimaud e tantos outros apareciam a liderar e a financiar os seus grupos armados, tinham sido goradas pela infâmia. Absorvidos pouco depois do 25 de Abril em partidos tradicionais, dadas as circunstâncias do colapso lúgubre do regime ditatorial, essa direita readaptou-se, alguns chegaram a ministros, todos fizeram pela vida. E assim foram passando os anos.

Quatro décadas depois, é uma outra extrema-direita que emerge. Vale a pena discutir essa especificidade, porque esse entendimento é a condição para responder ao risco. O que há de novo é que o espaço político desta nova extrema-direita não é saudade do império, mas a globalização infeliz; não é o desfile das fardas milicianas, mas o esvaziamento democrático; não é o delírio ideológico, mas o efeito profundo da austeridade. Ela vai portanto crescer. E essa novidade faz sistema: repare que nos anos setenta as ditaduras caíam na Europa (Portugal, Espanha, Grécia) enquanto venciam em contra-ciclo na América Latina (Chile, Uruguai, Argentina), ao passo que agora o movimento trumpiano impulsiona mudanças coincidentes em todo o mundo (de Washington a Orban, Le Pen, Salvini, Bolsonaro e o que mais se verá), que tomam ou que condicionam o poder. O seu sucesso pode ser medido, os populistas governam hoje uma parte maior da população mundial do que as democracias tradicionais, ao mesmo tempo que contamina as direitas clássicas, que cedem à tentação da imitação.

Tem sido muito discutida a maravilha tecnológica que abriu as oportunidades da expansão universal ao discurso de ódio, que é essencial para este ascenso da extrema-direita. É facto que as redes sociais constituem uma forma notável para definir uma nova atmosfera em que se respira pavor, ladeando os meios de comunicação social que seriam um ténue filtro do mundo, ao selecionarem as notícias e os comentários com critérios que reclamam uma aura de legitimidade. É também evidente que essa forma de atuação incendiária já era cumprida por alguma imprensa de escândalos (e, há duas gerações, como lembra Karl Kraus, o fascismo e a guerra eram cantados pela imprensa, tempos passados), que naturalmente neste momento se expande no tempo novo do trumpismo. Sem esta tecnologia, a extrema-direita não conseguiria criar o seu universo separado, e precisa dele para se tornar eleitoralmente viável (o risco parece ser uma surpresa para os mais desatentos, quando falei sobre isso há tempos fui atacado em editorial de um jornal respeitável).

Ora, a tecnologia do discurso do ódio é eficaz se tiver quem acredite nele. A questão é que há uma multidão para isso, precisamente as pessoas que sentem o choque entre a promessa deslumbrante de um mundo de néon ou confettis e a realidade do salário baixo, da filha desempregada, da biografia gasta no comboio para os subúrbios, tudo o que a austeridade banalizou e agravou. Se os donos do país se exibem em desfalques, se governantes sorumbáticos explicam que cumprem ordens de uma capital distante, ou se a vida anda para trás, como se diz em bom português, esta tensão torna-se explosiva. Entra então a técnica política, a canalização da frustração com a invisibilidade – Macron chamou-lhes a “gente que não é nada” e Clinton os “deploráveis” - contra algum alvo vulnerável, os migrantes, os mexicanos, os ciganos, os sindicalistas, os homossexuais. Aliás, esse discurso contamina parte da sociedade, durante a campanha brasileira houve esquerdistas lusas capazes de afirmar que o protesto das mulheres contra Bolsonaro o ajudava e que deviam era estar caladas.

O primeiro passo, constituir nutridas listas para a campanha subterrânea por via do WhatsApp, já está avançado. O segundo, por de lado os fascistas folclóricos que andam de saudação romana há anos e anos, também. O terceiro, encontrar o discurso certo para assustar não assustando demasiado, ainda está em ensaios, para já Camilo Lourenço fala com delicadeza de “cheiro a napalm”. O que agora está em causa em Portugal é simplesmente a demonstração de que não haverá recanto do mundo em que este discurso não se instale. Com as sondagens a começarem a descobrir que pode haver uma surpresa no terreno propício das europeias (em que Marinho Pinto teve 7% na última eleição, mesmo que logo depois desbancasse para quase nada), a extrema-direita, que já tentou no passado inúmeros protestos do “milhão” contra “os políticos”, tem pela primeira vez na sua mão a possibilidade de conjugar as espirais de ressentimento nas redes sociais com algum discurso religioso ou apocalíptico que prometa tudo e o seu contrário. Em Espanha, isto só resultou eleitoralmente quando dissidentes do principal partido da direita tomaram conta desse discurso. E, como se vê aqui, o CDS, que esperava que bastasse ficar sentado para captar o descontentamento dentro do PSD, moveu-se logo para imitar envergonhadamente os “coletes amarelos”, pondo Assunção Cristas na estrada a pedir boleia ao descontentamento contra o estado do pavimento e a atacar o “caráter” do primeiro-ministro. Só que, mesmo imitando-o, talvez seja tarde para a velha direita evitar que surja um partido de extrema-direita com expressão eleitoral, o fantasma está mesmo a sair do armário. Eles nunca deixaram de estar aqui e agora vão mostrar-se.

Para o país, o tempo que há é este e a resposta é a mais difícil: a habitação que falta, a punição dos desvarios financeiros, o direito de quem trabalha, o rigor dos representantes e a soberania da nação. Não vale a pena esperar por algum consenso que leve a essa democratização da vida, já se sabe que quem manda se considera ungido de deus, nada se moverá e só ouviremos que o Natal é todos os dias. Resta saber se a esquerda quer ter a ambição de ser tão forte na rua como no voto.»

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13.12.18

A ascensão da extrema-direita



«O instituto alemão Das Progressive Zentrum publicou uma pesquisa baseada em entrevistas porta-a-porta em zonas da Alemanha e França, acerca das motivações das suas populações para votarem em partidos de extrema-direita nas eleições de 2017. A grande maioria dos inquiridos não manifestou inclinações xenófobas, racistas ou discriminatórias contra refugiados, mas sim preocupações extremas com a precariedade do trabalho, a insegurança de rendimento ou a degradação das infra-estruturas e dos serviços públicos. E criticaram asperamente os agentes políticos e a comunicação social por não incluírem estes temas nas suas agendas.

Foi isto que alimentou a predisposição para votar em partidos aparentemente anti sistémicos, na AfD e em Marine Le Pen, por defenderem, por exemplo, a saída do euro e da União Europeia. A preocupação com a entrada de imigrantes foi muito mais um reflexo de defesa perante a degradação que lhes pareceu poder acentuar-se com a entrada de novas populações, do que uma intenção de forjar discriminação de culturas e práticas diferentes.

PUB Manuel Castells afirmou, a propósito do seu livro Europe’s Crises, “a classe política pode autodestruir-se. E aí virá a ascensão da extrema-direita”. Porque as instituições e a cena mediática excluíram muitos milhões de pessoas, a capacidade de decisão transferiu-se para instituições supranacionais não eleitas, ignorando as angústias de quem não tem meios para ouvir a sua voz. As votações inesperadas e nem sempre detetadas pelas sondagens em Trump e no "Brexit" exprimiram esta realidade profunda e invisível.

Vários países escandinavos viram partidos xenófobos na área da governação, na Suécia a extrema-direita tornou-se o fiel da balança entre esquerda e direita (como aconteceu nas recentes eleições da Andaluzia) e a xenofobia, nalguns casos, também se referiu a povos do Sul da Europa, como Portugal ou Espanha. Na Finlândia o partido True Finns apresentou-se a eleições com um único ponto – Não Ajudar Portugal – a propósito do resgate da dívida portuguesa. Isto é semelhante ao que disse Jeroen Dijsselbloem, "não os devíamos ajudar, porque gastam o dinheiro todo em álcool e mulheres...".

Esta evolução está expressa em alguns países do leste europeu ou da América Latina. A Hungria e a Polónia (onde a migração e os refugiados não existem) aproximaram-se de regimes autoritários e as suas instituições, formalmente democráticas, tendem a esvaziar-se. Tendências idênticas insinuam-se na República Checa e na Eslovénia. Steven Levitsky afirma que as democracias não serão atacadas com golpes militares sangrentos, como aconteceu no passado, mas por transformações lentas, incrementais dos atuais regimes, feitas por políticos eleitos democraticamente. O perigo desta trajetória é parecer legítima, por usar governos, tribunais e outras instituições para as subverter e dar poder absoluto a uma minoria.

O combate à extrema-direita só pode fazer-se anulando as condições que a tornaram atraente: recuperando instrumentos de soberania perdidos, evitando os efeitos nefastos da globalização, restabelecendo a natureza universal dos serviços públicos, investindo nas infra-estruturas, devolvendo estabilidade às camadas intermédias da população, fomentando o pleno emprego e o fim da precariedade, eliminando a pobreza e combatendo as desigualdades. Toda a esquerda deverá ser desafiada para este programa de emergência. Só assim estará à altura das suas responsabilidades históricas na luta contra a ascensão da extrema-direita.»

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21.9.18

Rui Ramos



A direita, bem à direita, está desesperada e o exagero é tal que dá que pensar. Um dos seus grandes pensadores diz que a PGR foi «SANEADA». Os cogumelos andam marados.

(N.B. – Pessoalmente, não me chocaria nada se Joana Marques Vidal tivesse sido reconduzida.)
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6.2.14

Revolução conservadora – o regresso



«Revogação do direito à interrupção voluntária da gravidez por livre decisão da mulher em Espanha. Novas manifestações em França contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. Legislação homofóbica na Rússia e na Hungria. Em Portugal, tentativa de levar a referendo o direito à coadoção por casais do mesmo sexo. Avanço das direitas religiosas nas Américas, apostadas em reverter legislação favorável ao direito de a mulher decidir sobre o seu corpo e a impedir quaisquer novas mudanças na conceção legal de família.

Que fantasma é este que percorre sociedades em que se vive um profundo mal-estar social, quer quando provocado pela desigual distribuição de nova riqueza, ou pelo agravamento brutal da miséria nas economias, como a nossa, sujeitas a formas renovadas de abuso e exploração? (...)

Identidade em vez de liberdade, invenção da tradição em vez de discussão racional dos problemas, moral em vez de política. No centenário da I Guerra Mundial e da inauguração da era do massacre, estamos a regressar à revolução conservadora que se começou a preparar nos anos que a precederam. Retoma-se o discurso rançoso de um sentido eterno da vida que se diz resultar da natureza, movido pela mesma rejeição do racionalismo que tomou conta dos antidemocratas de há cem anos. (...) Estes reacionários de todas as cores (...) são os mesmos que há cem anos se lançaram contra a emancipação dos judeus e das minorias religiosas e étnicas, abrindo caminho direto para o fascismo e a perseguição racista.»

Manuel Loff
(O link pode funcionar ou não.)
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