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30.6.25

A mesquita de Samora Correia e a imaginada tolerância portuguesa

 


«Não me importo de chegar tarde aos debates para não ir na onda da indignação e, mesmo quando ela é legitima (como é o caso), tentar tirar dela o que interessa.

A Associação Ahmadia do Islão em Portugal (um movimento religioso nascido em 1835 e estabelecido e legalizado em Portugal desde 1987, que representa um grupo muçulmano nascido na Índia, com uma interpretação pacifista e tolerante do Islão, missionário e muito perseguido em vários países islâmicos, onde os seus membros são considerados hereges e não-muçulmanos) quer construir uma mesquita à entrada de Samora Correia, em frente do quartel dos bombeiros. PS e PSD protestaram e o presidente da Câmara, da CDU, garantiu que não há qualquer projeto e que transmitiu à Associação que todos os eleitos estão contra.

A Associação Ahmadia diz querer fazer ali a sua sede nacional porque as atuais instalações, em Odivelas, são demasiado pequenas. O espaço não se destina a uma escola islâmica, mas a uma mesquita, escritórios, biblioteca, instalações desportivas e salas para reuniões. O argumento da autarquia é que não há uma comunidade muçulmana que justifique a mesquita. Os dos outros partidos são piores. Só ninguém explica que argumento tem para o travar. Contam o número de fiéis para permitir os templos evangélicos que se multiplicam no País? Qual é a desvantagem deste investimento em Samora Correia? O terreno é privado, a construção não tem, que se saiba, dinheiros públicos. Mas, subitamente, aquele passou a ser um terreno onde devia ser construída outra coisa.

ENTRAM DE MANSINHO

O candidato socialista à Câmara, Pedro Gameiro, afirmou, num vídeo partilhado nas redes sociais junto ao terreno, que “a mesquita não se fará aqui nem em lado nenhum do nosso concelho". As forças vivas e políticas participaram numa manifestação pelas “tradições” da terra, incluindo o PS. Não está, portanto, em causa o terreno e a sua função. Está em causa ser uma mesquita que, para estas pessoas, atenta contra as tradições de Samora Correia. Que são, imagino, tradições cristãs ofendidas pela existência pública de sinais de outra religião no seu território. O presidente da Câmara descansa: “Só há construção se houver licenciamento”. Note-se a evidência de que ninguém, nesta polémica, saber rigorosamente nada sobre os Ahmadia. São muçulmanos e isso chega para não os quererem lá.

No dia 10 de junho (claro), houve uma manifestação de 200 pessoas em Samora Correia, com o gritos “Mesquita não, não queremos o Islão”. O protesto “pelas tradições e costumes” foi organizado pelo independente depois de se ter desvinculado do Chega. A manifestação começou junto à Igreja Matriz, acabou no lugar onde pode vir a existir a mesquita e no fim cantou-se o hino nacional. Os populares diziam que Samora Correia “não pode ser invadida por uma cultura que põe em causa os seus valores”. “Eles entram de mansinho, instalam-se e depois já ninguém os consegue tirar daqui”, disse outro. No protesto, estiveram presentes o Chega, o PSD e o PS. O último foi especialmente ativo na mobilização e protesto.

Nesta história, a única pessoa que parece ter dito uma coisa normal foi Fazal Ahmad, presidente da Associação Ahmadia do Islão em Portugal: “A cultura de uma cidade não desaparece com a construção de uma mesquita. A mesquita não vai apagar igrejas, nem vai proibir festas populares, nem vai eliminar as tradições locais”. O medo tem uma origem: horas de televisões e redes sociais a diabolizar os muçulmanos, o que leva a população de Samora Correia, que estaria prestes a receber a sede de um dos movimentos mais tolerantes do Islão, a temer vir a ter o seu “Martim Moniz”.

IMITAR O PIOR

Perante a hiperatividade do PS local contra a mesquita, usando a “tradição” como argumento, Augusto Santos Silva recordou que “todas as religiões têm igual direito de expressão e prática de culto” e que o Estado se relaciona com todas elas, sendo laico. E acrescentou: “A concelhia de Benavente pode perfeitamente defender que, naquele terreno específico (talvez público, não sei), se deva fazer antes um parque, e não um edifício, defendendo então, logicamente, que se procure outra localização; pode indicar que tem informações seguras de que o projeto específico a que se opõe não é o de uma mesquita, mas o de uma madraça fundamentalista disfarçada de mesquita (como infelizmente sucede em outros sítios, por exemplo na Bélgica ou em França), mas então que apresente essas informações. Não pode é dizer que se opõe a que pessoas professando a religião muçulmana (ou outra qualquer) possam construir locais adequados ao seu culto.” Mas é isso mesmo que diz, porque todas as restantes questões não se põem.

A existência de locais de culto é um elemento central de integração de imigrantes. Quanto mais visíveis e institucionalizados forem, melhor para diminuir o risco de radicalização. O artigo 41º da Constituição da República (aprovada pelo PSD e pelo PS) garante a liberdade de culto. Isso e a laicidade de um Estado que não defende as “tradições cristãs” (sou um ateu sem qualquer formação cristã e não aceito que o Estado me considere menos português por isso) são os dois pilares da relação das instituições públicas, onde se incluem as autarquias, na relação com os diversos credos e organizações religiosas.

Um dos argumentos que leio nas redes sociais é o de que nos países muçulmanos não há igrejas. A ignorância é mãe extremosa do preconceito. Síria, Jordânia, Turquia, Palestina, Egito, Marrocos ou Iémen, só para ficar por alguns países muçulmanos onde estive, têm templos católicos e cristãos, fiéis, paróquias. Há paróquias católicas espalhadas pelo mundo não cristão. Mal estamos se os países com que nos comparamos já nem sequer são estados com uma religião oficial muçulmana, alguns deles ditaduras, mas teocracias.

A RAMPA DESLIZANTE

A rampa deslizante é isto. Começou com o discurso contra a imigração, tratada como um problema e não como uma realidade genericamente positiva a que estão associados, como sempre, problemas com os quais é preciso lidar. Se a conversa começou com a defesa de uma imigração regulada, humanista, que seja possível integrar, continuou como tem continuado em todo o lado: bombardeando todos os instrumentos de integração. Contra o reagrupamento familiar, contra o acesso ao SNS, contra a regularização e agora contra a liberdade de culto. Queremos que os imigrantes se integrem, mas sem família, religião, direitos e a sua cultura. Tudo o que não aceitaríamos como emigrantes. Estar integrado é trabalhar e não existir.

Já nada disto vem da extrema-direita. A rapidez do crescimento do Chega é acompanhada pela rapidez com que a sua agenda está a ser assimilada no espaço público, mediático e partidário. E isso está a ser especialmente poderoso no Partido Socialista, que, em muitos casos, não tem outro cimento que não seja o poder. Nem a história de defesa da tolerância e do diálogo inter-religioso personificada por figuras como Mário Soares, Jorge Sampaio e António Guterres parece recordar aos autarcas do PS a natureza laica do partido em que resolveram militar.

Diz-se: é preciso dar voz às populações. Se a política se limitasse a isso, os partidos seriam desnecessários. Eles moldam o debate, como o Chega tem sabido fazer. Se o medo e o preconceito não encontram resistência, claro que se tornam hegemónicos. Sempre. Os verdadeiros políticos lideram, ativando o melhor ou o pior das pessoas.

O discurso sobre a nossa natureza tolerante e intercultural escondeu, por se basear numa visão fantasiosa da nossa expansão imperial, os nossos próprios preconceitos. Ao contrário do que acontece em França, na Bélgica, na Alemanha ou no Reino Unido, não conhecemos o terrorismo ou conflitos sérios. A nossa comunidade muçulmana continua a ser esmagadoramente moderada. E, no entanto, chegámos muito depressa, quase sem resistência e com a adesão quase imediata do centro-esquerda, ao pior que vemos no discurso intolerante e xenófobo destes países. O que demonstra que o nosso verdadeiro problema sempre foi a imagem benévola que mantivemos de nós próprios, evitando, com isso, todos os debates que outros fizeram.

Para que não se dê tudo como perdido, o bispo Américo Aguiar defendeu a construção de duas mesquitas na cidade do Porto. Há quem perceba que a integração tem a condição de deixarmos que os outros se integrem. Que o respeito que exigimos pede respeito pelos outros.»


30.10.20

Um bispo «à maneira»

 


Cuidado ateus, sobretudo do Porto! Digam-me que este bispo não existe, que é um holograma de um ET...
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12.9.16

Feminino e liberdade



«Choca-me a acusação de islamofobia àqueles que criticam e combatem as ideias e práticas islâmicas sobre as mulheres e os costumes. O Alcorão não é aqui relevante para o caso. É certo que no seu versículo 34 do Capítulo IV (entre outros) as mulheres são claramente diminuídas relativamente aos homens (embora mesmo aí os intérpretes divirjam). Mas seria fastidioso enumerar as passagens bíblicas em que isso também ocorre e penso ser escusado lembrar que, em Portugal, as mulheres só passaram a ter direito a voto em 1968. (…) O problema das religiões com as mulheres não é, portanto, um exclusivo dos islamismos, nem sequer dos monoteísmos.

Mas sim, quer o sunismo, quer o xiismo dominantes atuais, tal como o catolicismo pré-Vaticano II, são claramente misóginos e homofóbicos. Entretanto, o cristianismo misógino, tendo sido vencido pelo iluminismo oitocentista e pelo liberalismo e constitucionalismo democrático e laico daí decorrentes, está hoje, graças ao combate dos liberais e à derrota Católica, claramente atenuada e em dissolução. Esse ainda não é o caso de uma parte muito importante do islamismo. Mas espera-se que isso venha a ocorrer no futuro. Sim, a misoginia e a homofobia islâmicas, com origem no ethos social e cultural islâmico, é um mal que deve ser derrotado. (…)

A ideia segundo a qual a eliminação do feminino e das mulheres (porque é isso o que representa a eliminação do rosto e do corpo femininos na esfera pública) decorre da inspiração ou devoção religiosa, islâmica ou outra, não resiste à crítica racional. E aqueles que fazem a apologia do respeito ou indiferença pela desrazão e pela indignidade talvez devessem, também, voltar às catacumbas da Inquisição. Na verdade, ninguém sabe onde isto pode ir dar. Por isso mesmo é que o combate a favor da liberdade e da igualdade continuam a ser fundamentais. (…)

O racismo e o fascismo são desprezíveis e perigosos mas a liberdade de expressão do si mesmo nunca será verdadeira liberdade se só permitir a expressão de ideias dignas (descontando o debate sobre o que isso seja). O mesmo vale, bem entendido, para as ideias misóginas e homofóbicas, que não podendo, nem devendo, ser proibidas, devem ser combatidas cultural e politicamente.

Sim, a misoginia islâmica expressa pelos diferentes véus islâmicos deve ser combatida porque corresponde à expressão pública, e ao proselitismo cultural, de práticas e ideias indignas e contrárias aos direitos humanos fundamentais. Mas não pode nem deve ser proibida, descontando, bem entendido, necessidades securitárias e a salvaguarda pedagógica das crianças e jovens perante ideias e práticas contrárias à dignidade humana.»

7.5.15

Os americanos e o Califado islâmico



«Lê-se e não se acredita. Para o governo norte-americano, "não é possível lidar de forma duradoura com o problema do Estado Islâmico (EI) enquanto o problema Assad não for resolvido", afirmou Samantha Power, embaixadora dos Estados Unidos na ONU, à cadeia PBS, acrescentando que "uma das razões por que os combatentes terroristas estrangeiros chegam à Síria é que eles querem combater Assad". Se necessidade houvesse de evidenciar a tradicional falta de clarividência da política internacional dos Estados Unidos, eis uma prova cabal. Nem Henry Kissinger, recordista das boutades diplomáticas, teria dito melhor.

Recuemos um pouco no tempo. A emergência do Califado islâmico deve-se à desastrosa intervenção norte-americana no Iraque e ao seu apoio descabelado às insurreições designadas pelos ingénuos como "primaveras árabes". Foram os Estados Unidos e os seus aliados europeus quem fez ressurgir o wahhabismo, a fonte ideológica do EI, ao desmantelarem os regimes ditatoriais laicos no Iraque, na Tunísia e na Líbia. Agora, após múltiplos avanços e recuos e apoio logístico alternado, ora às forças governamentais ora aos rebeldes, preparam-se para suportar a destruição do que resta da Síria. O resultado adivinha-se trágico, não só para o povo sírio, como para todo o Próximo Oriente.

O que surpreende, além da manifesta incompetência dos países ocidentais em lidarem com as situações no terreno e em entenderem as contradições sociais e religiosas naquela parte do mundo, é o desconchavo do seu argumentário. Seguindo o silogismo da embaixadora Power, os terroristas afluem à Síria para combater Assad; logo, há que derrubar Assad para que não cheguem em maior número, convertendo-se os existentes aos ideais da paz e da democracia. Se o assunto não fosse tão grave, apetecia sugerir à administração norte-americana a produção de uma série de aventuras sobre o EI no Disney Channel.»

7.9.14

Marionetas



Daniel Oliveira publicou este excelente texto no Expresso de ontem. 
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