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12.9.16

Feminino e liberdade



«Choca-me a acusação de islamofobia àqueles que criticam e combatem as ideias e práticas islâmicas sobre as mulheres e os costumes. O Alcorão não é aqui relevante para o caso. É certo que no seu versículo 34 do Capítulo IV (entre outros) as mulheres são claramente diminuídas relativamente aos homens (embora mesmo aí os intérpretes divirjam). Mas seria fastidioso enumerar as passagens bíblicas em que isso também ocorre e penso ser escusado lembrar que, em Portugal, as mulheres só passaram a ter direito a voto em 1968. (…) O problema das religiões com as mulheres não é, portanto, um exclusivo dos islamismos, nem sequer dos monoteísmos.

Mas sim, quer o sunismo, quer o xiismo dominantes atuais, tal como o catolicismo pré-Vaticano II, são claramente misóginos e homofóbicos. Entretanto, o cristianismo misógino, tendo sido vencido pelo iluminismo oitocentista e pelo liberalismo e constitucionalismo democrático e laico daí decorrentes, está hoje, graças ao combate dos liberais e à derrota Católica, claramente atenuada e em dissolução. Esse ainda não é o caso de uma parte muito importante do islamismo. Mas espera-se que isso venha a ocorrer no futuro. Sim, a misoginia e a homofobia islâmicas, com origem no ethos social e cultural islâmico, é um mal que deve ser derrotado. (…)

A ideia segundo a qual a eliminação do feminino e das mulheres (porque é isso o que representa a eliminação do rosto e do corpo femininos na esfera pública) decorre da inspiração ou devoção religiosa, islâmica ou outra, não resiste à crítica racional. E aqueles que fazem a apologia do respeito ou indiferença pela desrazão e pela indignidade talvez devessem, também, voltar às catacumbas da Inquisição. Na verdade, ninguém sabe onde isto pode ir dar. Por isso mesmo é que o combate a favor da liberdade e da igualdade continuam a ser fundamentais. (…)

O racismo e o fascismo são desprezíveis e perigosos mas a liberdade de expressão do si mesmo nunca será verdadeira liberdade se só permitir a expressão de ideias dignas (descontando o debate sobre o que isso seja). O mesmo vale, bem entendido, para as ideias misóginas e homofóbicas, que não podendo, nem devendo, ser proibidas, devem ser combatidas cultural e politicamente.

Sim, a misoginia islâmica expressa pelos diferentes véus islâmicos deve ser combatida porque corresponde à expressão pública, e ao proselitismo cultural, de práticas e ideias indignas e contrárias aos direitos humanos fundamentais. Mas não pode nem deve ser proibida, descontando, bem entendido, necessidades securitárias e a salvaguarda pedagógica das crianças e jovens perante ideias e práticas contrárias à dignidade humana.»

7.5.15

Os americanos e o Califado islâmico



«Lê-se e não se acredita. Para o governo norte-americano, "não é possível lidar de forma duradoura com o problema do Estado Islâmico (EI) enquanto o problema Assad não for resolvido", afirmou Samantha Power, embaixadora dos Estados Unidos na ONU, à cadeia PBS, acrescentando que "uma das razões por que os combatentes terroristas estrangeiros chegam à Síria é que eles querem combater Assad". Se necessidade houvesse de evidenciar a tradicional falta de clarividência da política internacional dos Estados Unidos, eis uma prova cabal. Nem Henry Kissinger, recordista das boutades diplomáticas, teria dito melhor.

Recuemos um pouco no tempo. A emergência do Califado islâmico deve-se à desastrosa intervenção norte-americana no Iraque e ao seu apoio descabelado às insurreições designadas pelos ingénuos como "primaveras árabes". Foram os Estados Unidos e os seus aliados europeus quem fez ressurgir o wahhabismo, a fonte ideológica do EI, ao desmantelarem os regimes ditatoriais laicos no Iraque, na Tunísia e na Líbia. Agora, após múltiplos avanços e recuos e apoio logístico alternado, ora às forças governamentais ora aos rebeldes, preparam-se para suportar a destruição do que resta da Síria. O resultado adivinha-se trágico, não só para o povo sírio, como para todo o Próximo Oriente.

O que surpreende, além da manifesta incompetência dos países ocidentais em lidarem com as situações no terreno e em entenderem as contradições sociais e religiosas naquela parte do mundo, é o desconchavo do seu argumentário. Seguindo o silogismo da embaixadora Power, os terroristas afluem à Síria para combater Assad; logo, há que derrubar Assad para que não cheguem em maior número, convertendo-se os existentes aos ideais da paz e da democracia. Se o assunto não fosse tão grave, apetecia sugerir à administração norte-americana a produção de uma série de aventuras sobre o EI no Disney Channel.»

7.9.14

Marionetas



Daniel Oliveira publicou este excelente texto no Expresso de ontem. 
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