17.4.21

Sete anos sem Gabo



 

Gabriel García Márquez morreu em 17 de Abril de 2014.
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17.04.1975 – Camboja: os Khmer Vermelho tomam Phnom Penh


 

Foi no dia 17 de Abril de 1975 que a capital do Camboja, Phnom Penh, foi tomada pelo Khmer Vermelho. Seguiram-se quatro anos de terror, num processo brutal que tinha como objectivo a criação de uma sociedade comunista puramente agrária e do qual resultou um genocídio que eliminou 20 a 25% da população (cerca de dois milhões de pessoas, embora não haja números exactos). Uma das consequências absolutamente impressionante e visível, mesmo para o turista desprevenido, é que o Camboja é hoje um país quase sem velhos: a grande maioria dos que teriam actualmente cerca de 70 anos, ou mais, desapareceu.

Estive lá em 2009 e, por muitos ou poucos anos que ainda viva, nunca esquecerei um dos mais célebres killing fields, situado nos arredores de Phnom Pehn, onde se encontra o Museu do Genocídio de Tuol Sleng. Numa antiga escola transformada em prisão e nos terrenos que a rodeiam, terão sido torturadas e assassinadas cerca de 10.000 pessoas – homens, mulheres e muitas crianças –, como testemunham largas centenas de fotografias expostas em grandes painéis. É um museu muito simples, impressionante pobre, mas terrível.

Há muita literatura sobre este período negro de uma parte importante do sudoeste asiático, há um grande filme (The Killing Fields, Terra Sangrenta, em português) e muitos pequenos vídeos como estes, precisamente sobre o museu de Tuol Sleng.




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Memórias de um tempo passado que passou

 

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Bombas debaixo do tapete

 


«Os estilhaços das bombas a que vou aludir têm efeitos demolidores: provocam falências, desemprego, pobreza e perigos para a democracia. A economia do nosso país e a vida de grande parte dos portugueses estão hoje muito dependentes de apoios temporários e precários, como é o caso das moratórias e do layoff. A crise que nos aprisiona é uma espécie de mãe de muitas outras crises, cheias de incertezas. Exigem-nos reflexão contínua a partir de vários ângulos.

Ao longo de 2020, a União Europeia, confirmando que o impossível acontece quando tem de ser, suspendeu as suas estúpidas regras orçamentais e aprovou financiamentos relativamente abundantes, a crédito e a fundo perdido. O Governo português, fiel ao ditado, quando a esmola é grande o pobre desconfia, abriu os cordões à bolsa orçamental de forma muito limitada, orçamentando pouco e executando ainda menos. O resultado foi a concessão de poucos apoios a fundo perdido e muitos sob a forma de crédito e moratórias. Portugal alcandorou-se ao pódio dos países que menos protegeram os cidadãos e as empresas. Chama-se a isto esconder bombas debaixo do tapete.

Se os calendários avançados pelo Governo se cumprirem, tudo converge para, no início do outono, começar a chegar um futuro que não desejamos. O layoff passará de extraordinário ao que normalmente é, a antecâmara de despedimentos, em particular coletivos, mesmo que debaixo dessa designação hipócrita do "mútuo acordo". Os sinais deste caminho já são visíveis, como o JN tem noticiado. As medidas de magro apoio a quem ficou sem rendimento serão levantadas; o mesmo se perspetiva para as moratórias e para o crédito, resultando daí exigências de reembolso e de pagamento de juros, por parte da Banca. Além disso, nada nos garante que, nessa altura, já exista a prometida bazuca e, muito menos, que estejam a aterrar nos aeroportos portugueses charters de turistas imunizados.

O grande desafio ao Governo e aos atores políticos e económicos parece simples, mas é exigente: ver o que é claro. A necessidade de abrir mais os cordões à bolsa servindo destinos corretos: i) prorrogar medidas de apoio extraordinário, com moratórias e créditos estendidos no tempo; ii) substituir o layoff, o máximo possível, por emprego apoiado e útil à sociedade, desde logo no setor público; iii) proteger melhor o desemprego e condicionar despedimentos; iv) suspender despejos em diversas situações; v) promover investimento na industria; vi) recentrar exportações e substituir importações; vi) reforçar medidas de combate à pobreza, no quadro novo que a crise coloca.

Ao longo do tempo, diferentes governos em diversas crises agiram no pressuposto de que os trabalhadores que ficam desempregados e os pequenos empresários falidos se vão desenrascando através de fuga para a economia informal, o que é sempre um grave erro. Contudo, dado o perfil atual e a desativação da nossa economia, esse fenómeno não acontecerá nas condições do passado. Por outro lado, como o rendimento mediano dos portugueses está em queda, isso levará a que muitos pobres não sejam contabilizados estatisticamente como tal.

Todos sabemos que o empobrecimento e o desespero são inimigos da democracia. Se, naquele contexto, emergir o sonho de uma maioria absoluta como garante da imposição de políticas, então estaremos perante o desastre perfeito.»

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16.4.21

16.04.1975 – Nacionalizações e mais nacionalizações

 

@Alfredo Cunha

Logo após o 11 de Março de 1975, mais concretamente por decretos publicados nos dias 14 e 15, foram nacionalizadas quase todas as instituições de crédito e de seguros.

Mas 16 de Abril foi um marco importante no processo, já que foi longa a lista de empresas que passou a ser controlada pelo Estado nessa data: TAP, CP, empresas portuguesas refinadoras e distribuidoras de petróleo, de transportes marítimos, de siderurgia e empresas produtoras, transformadoras e distribuidoras de electricidade – entre as quais a Companhia Nacional de Navegação, Siderurgia Nacional, Cidla, Sonap e Sacor.

Ainda de madrugada, o PS emitiu um comunicado em que «saúda as decisões (...) e apela para que o maior número de militantes e simpatizantes se associem à festa socialista, no próximo Domingo, às 15h30, no estádio 1º de Maio, em Lisboa, onde será manifestado o regozijo dos socialistas por essa decisão histórica e o apoio do PS ao MFA e ao Governo Provisório». (Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, p.77)

Para esse mesmo dia, ao fim da tarde, foi convocada uma manifestação – promovida pelo PCP e com a adesão de MDP/CDE, MES, FSP, Intersindical, LCI e PRT – de «apoio» e «regozijo» com as nacionalizações. Do Rossio a S. Bento, 100.000 pessoas (segundo notícia do Diário de Lisboa de 17 de Abril) desfilaram com bandeiras de partidos e de comissões de trabalhadores. Por volta das 23:00, Vasco Gonçalves, então primeiro-ministro do IV Governo Provisório, recebeu na residência oficial representantes dos partidos, que lhe manifestaram total apoio às medidas decretadas e a eventuais futuras com a mesma orientação.
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Luis Sepúlveda

 


Morreu há um ano, depois de ter participado nas Correntes de Escrita da Póvoa do Varzim cerca de dois meses antes. Por esse motivo, e porque ele foi sempre «um dos nossos», seguimos dia a dia a sua doença até ao desfecho de uma vida tão especial. Para muitos, foi o primeiro caso de morte por Covid que os tocou de perto – para mim, foi certamente.

Não vi rosas em Atacama, mas nunca esquecerei o gato que ensinou uma gaivota a voar.
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A saúde como condição da confiança e a confiança como condição da saúde

 


«Vivemos, há mais de um ano, uma grave situação de saúde pública que, pelo que se passa no mundo, no continente, no país, na comunidade a centenas de metros e mesmo para muitos(as) na própria família, é dispensável especificar.

Daí, não obstante o quanto elas sejam, como são, constrangedoras e, mesmo, duramente lesivas (individual e colectivamente) do ponto de vista de qualidade de vida, economia, cultura, etc., em geral, são pacificamente aceites como devendo ser cumpridas as medidas de prevenção individuais e colectivas preconizadas pelas autoridades de saúde e, mesmo, desde que democraticamente sustentadas, pelo poder político. Isto também decorrerá do reconhecimento geral, ainda que implícito, de que, independentemente de se estar ou não numa situação de risco epidemiológico (se bem que neste caso tal seja mais evidente), se domínio individual e público há como eminentemente social, esse domínio é o da Saúde.

Por um lado, as condições, contextos e consequências de saúde individual são indissociáveis das de saúde pública (e vice-versa) e, por outro lado, nesta concepção unificada (individual e pública), a saúde é indissociável da sociedade em geral (economia, trabalho, habitação, educação, cultura...).

Talvez por isso, consciente ou inconscientemente, em geral e em regra (com excepções, como qualquer regra), tem havido uma situação de confiança social, sem dúvida no Serviço Nacional de Saúde, sim, mas também, no essencial, nas autoridades de saúde e no poder político quanto à gestão da situação sanitária.

Enfim para além da qualidade e suficiência das infra-estruturas (hospitais, centros de saúde, laboratórios etc.), dos meios técnicos, da tecnologia, do suporte científico e da competência, consciência e suficiência dos profissionais de saúde, é determinante neste domínio a confiança na acção das respectivas instituições e nas intervenções do poder político que suporta essa acção.

E é claro que muito mais determinante é a confiança nas instituições quando se está numa situação epidemiológica, cuja resolução, ou pelo menos mitigação, depende de uma resposta atitudinal e comportamental individual e colectiva harmonizada no modo, espaço e tempo.

Vem esta introdução a propósito do que se tem passado com as vacinas preventivas do risco de contaminação pelo vírus SARS-CoV-2 e possível contracção (ou agravamento) da doença covid-19. Naturalmente que não se pretende aqui mais do que uma não qualificada e modesta opinião pessoal e não, como o sapateiro, “ir além da fivela”.



15.4.21

Não estava nos nossos planos


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É como ir a Meca

 


O céu por aqui está cinzento, não sei como estará em Keukenhof, na Holanda (ou Países Baixos, sei lá…), mas os milhões de túlipas e de muitas outras flores não terão faltado à chamada, como sempre na segunda quinzena de Abril, e leio que o espaço estará aberto a visitas de 16 a 18 deste mês, como parte do programa piloto que o governo definiu para desconfinamento.

Devia ser obrigatório ir pelo menos uma vez na vida a esse jardim absolutamente espectacular de 32 hectares, situado a sudoeste de Amsterdão. Um festival único de cores que as fotografias (estas já antigas) não fazem mais que sugerir.









 
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Sócrates e a canalhice que acaba por ajudar o PS

 


«Acho normal que a TVI tenha decidido entrevistar José Sócrates. Acho que o próprio tem todo o direito a defender-se no espaço público, já que no espaço público tem sido acusado. Mas, como devem imaginar, não pretendo analisar a sua defesa. Já a fez na fase de instrução e, neste momento, em que todo o processo é público, é para aí que se remetem todos os factos. E para a decisão do juiz Ivo Rosa, bombo da festa da última semana, mas que, na minha opinião, até deixou José Sócrates mais próximo de uma condenação do que o trabalho do Ministério Público prometia.

O Sócrates que ontem vimos foi o Sócrates de sempre. E isso é, por si só, surpreendente. A mesma arrogância, a mesma agressividade, o mesmo animal feroz. Tendo em conta tudo o que lhe aconteceu, esta constância inquebrantável recorda o perfil narcísico de Sócrates. Isso e a ideia que continua a alimentar em torno de uma cabala política, especialmente difícil quando hoje somos liderados por um primeiro-ministro do seu antigo partido, com uma agenda política não muito diferente da sua.

É verdade que a defesa de José Sócrates fica mais fácil perante a insustentável leveza das acusações de corrupção concretas que o Ministério Público foi acumulando no processo. Mas é perante a sua relação com Carlos Santos Silva que fica evidente que estamos perante um mitómano. O mitómano não se limita a acreditar nas suas mentiras. Está absolutamente convicto que todos vão acreditar nelas. Faz, aliás, um exercício interessante: quando o juiz lhe dá razão na falta de indícios trata isso como um julgamento sobre os factos e não o que é: falta de indícios que cheguem para um julgamento. Quando o juiz decide que há indícios para ir a julgamento é só isso mesmo. A vitimização agressiva é uma arma típica dos manipuladores mais destemidos (veja-se André Ventura, por exemplo). Mas também ela foi facilitada pela Justiça. A sua prisão à chegada de Paris e transmitida pelas televisões, feita para investigar e não porque alguma coisa investigada fosse suficientemente sólida para o prender, ou todas as dúvidas sobre a escolha de Carlos Alexandre como juiz da fase de inquérito, facilitam-lhe a vida. E, independentemente de quem esteja a ser julgado, devem deixar-nos preocupados.

Mas a parte que me interessa da entrevista é outra. É a final. É a política, que não tem lugar nas salas de tribunal. É aquela em que falou do Partido Socialista. Essa, usando os seus próprios termos, é a canalhice suprema. Aqueles a quem omitiu as suas relações de dependência financeira são traidores. Aqueles a quem mentiu vezes sem conta, em pormenores da sua vida e dos seus negócios, são canalhas. O partido que usou para beneficiar com o poder quase lhe deve um pedido de desculpas. Sócrates é, na sua mitomania e megalomania, no seu narcisismo e amoralidade, incapaz de distinguir a vítima do agressor, o abusado do abusador. Ele é a vítima de todos aqueles de quem abusou. É credor de todos a quem deve um pedido de desculpas.

José Sócrates instrumentaliza todos os que dele se aproximam. Não hesita em recorrer à memória de Mário Soares, assim como não hesitou em usá-lo no fim da sua vida, colando um dos fundadores da democracia à sua vileza. Não hesita em atravessar o Atlântico para enganar mais uns, quando deste lado já não engana quase ninguém, pondo uma política honesta como Dilma Rousseff a dar caução a megalómana comparação com Lula da Silva, um homem que mudou radicalmente o Brasil. E a comparar a Operação Marquês, que irá a julgamento com as garantias que hoje se veem, com a Lava-Jato, que levou o juiz que julgou o ex-Presidente a ministro. Devia perguntar-se porque quase metade do Brasil apoia Lula e só meia dúzia de portugueses o apoiam a ele. Saberá disso?

José Sócrates não compreende, porque não tem consciência do que é aos olhos de quase todos, mas prestou ontem um grande serviço ao PS. E de todos, o que mais ganha, porque vai a votos brevemente e foi o especial visado, é Fernando Medina. Bem aborrecido terá ficado Carlos Moedas com este momento de campanha eleitoral. Sócrates não o sabe porque, sendo megalómano, acredita que os seus ataques ainda podem fazer estragos. Não faz ideia que é um ativo tóxico, o que não deixa de ser perturbante.

Nota: Maria Antónia Palla escreveu esta quinta-feira, no “Público”, um texto sobre José Sócrates que considero absurdo. Talvez seja inconveniente para António Costa, sobretudo num momento em que Sócrates lhe deu este bónus, e não acredito que a jornalista não tenha consciência desse risco. Mas Maria Antónia Palla é e sempre foi uma mulher livre, que nunca subalternizaria a sua posição aos interesses de homem nenhum, fosse pai, marido ou filho. Diz bem dela.» 

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14.4.21

Simone de Beauvoir morreu há 35 anos

 


Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir morreu em 14 de Abril de 1986, com 78 anos. Ela que disse um dia, num documentário divulgado mais abaixo, que «a vida não é uma coisa que se tenha, mas sim algo que passa».

Tudo já foi escrito sobre esta escritora, intelectual, activista política e feminista, mas vale talvez a pena recordar o papel decisivo de uma das suas obras – Le Deuxième Sexe –, publicada em 1949. Esteve longe de ser um manifesto militante ou arauto de movimentos feministas que, em França, só viriam a surgir quase duas décadas mais tarde, já que as mentalidades não estavam preparadas para a problemática da libertação da mulher tal como Simone de Beauvoir a abordou, nem para a crueza da sua linguagem.

As reacções não se fizeram esperar, tanto à esquerda (onde o problema da mulher estava fora de todas as listas de prioridades), como, naturalmente, à direita. François Mauriac escreveu: «Nous avons littérairement atteint les limites de l’abject», Albert Camus acusou Beauvoir de «déshonorer le mâle français».

Para a compreensão e a consagração da obra foi decisivo o sucesso nos Estados Unidos, onde foi publicada em 1953. O movimento feminista, em que Betty Friedman e Kate Millet eram já referências, estava aí suficientemente avançado para a receber. Efeito boomerang: Le Deuxième Sexe «regressou» à Europa no fim da década de 50, com um outro estatuto, quase bíblico, e teve a partir de então uma longa época de glória.

Simone de Beauvoir nunca provocou grandes empatias e foi sempre objecto de discussões sem fim sobre a sua importância relativa quando comparada com a de Sartre. Mas, goste-se ou não, estava no centro do Olimpo que Paris era então – quando, no Café de Flore, toda a gente vivia envolta em fumo e Juliette Greco cantava «Il n’y a plus d’après».


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A outra vaga

 


«1. Portugal deixou para trás a terceira vaga da pandemia. A dúvida é se virá outra. Sendo certo que, se vier, a ameaça para a saúde pública já não será a mesma: até ao final de maio, estará vacinada toda a população com mais de 60 anos (faixa etária que concentra 95% das mortes por covid-19).

Mas há uma outra ameaça no horizonte, aumente ou não o número de infeções, internamentos ou mortes. Vem aí uma vaga de despedimentos, como se explica nesta edição do JN. Seja por causa do fim de apoios como o lay-off, seja pela escassez de encomendas, seja porque já havia empresas condenadas a emagrecer ou desaparecer, alguns milhares de famílias vão sentir o verão, não como um tempo de esperança, mas como mais uma etapa de um longo pesadelo. Como sempre, serão os precários, os que têm salários mais baixos, os que têm menor formação, a pagar a fatura mais elevada. O Estado não pode resolver tudo, mas tem a obrigação de encontrar fórmulas para garantir um pouco mais de resiliência às empresas. Investir a montante, para poupar a jusante.

2. Há iniciativas políticas condenadas ao fracasso. É o caso da "raspadinha do património", com que o Ministério da Cultura se propõe financiar, a partir de maio, o Fundo de Salvaguarda do Património Cultural. Consciente das receitas que este jogo promete, a ministra, ou alguém por ela, quis garantir mais uma fatia. Na verdade, o retorno de cinco milhões é ridículo quando comparado com o produto original - 1718 milhões de euros de receitas em 2019, que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa garante redistribuir quase na íntegra, incluindo 20 milhões ao próprio Ministério da Cultura, só no ano passado. Sabe-se que são os mais vulneráveis os que mais apostam e perdem com as raspadinhas. E que os Centros de Apoio a Toxicodependentes e os hospitais estão agora cheios de viciados na raspadinha, como explicámos na edição de ontem do JN. É então com o patrocínio dos mais pobres e dos mais velhos que se pretende pagar a manutenção do património. Uma iniciativa infeliz e ineficaz.»

Rafael Barbosa
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13.4.21

Novo Banco quer brinde de 600 milhões

 

A saga do Novo Banco continua. Vale a pena ler isto.
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Pobreza em Portugal

 


Clicar AQUI.
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Falta uma cadeira para a Europa

 


«A imagem de Ursula von der Leyen arredada dos lugares de honra, devido a um erro de protocolo, na recente visita de Estado à Turquia, representa bem a metáfora do estado da União Europeia na cena política mundial.

Sem dúvida constrangedora a imagem da presidente da Comissão Europeia, sentada num sofá lateral, afastada da importância simbólica exigida pelo cargo que ocupa. Parece ser esse o lugar político da União.

Depois de um arranque promissor na forma integrada como a UE reagiu à pandemia e como, pela primeira vez, a resposta a uma crise surgiu conjunta e coesa, rapidamente os 27 deixaram vir a lume as divergências - as fragilidades de uma união política à procura ainda daquilo que verdadeiramente a une. Os primeiros percalços no processo de vacinação foram suficientes para voltarmos a ver cada um a olhar para o interesse particular do seu país, sem qualquer pejo em deixar à vista de todos que o interesse comum é uma boa bengala retórica a que se recorre nos discursos de circunstância.

Seja pelas diferentes medidas relativamente à vacina da AstraZeneca, seja nas estratégias para suprir a falta de vacinas, cada país trata de se remediar, mandando às urtigas a promessa de que os 27 iriam cuidar da crise pandémica com a solidariedade de um momento excecional.

Perante tal situação, podem os cidadãos confiar numa estratégia, abalada diariamente por episódios que a põem em causa, verdadeiros ou postos a circular por interesses mais ou menos obscuros, quando cada um dá uma resposta que contradiz a do vizinho?

Neste momento, devemos reconhecê-lo, os cidadãos do Reino Unido devem estar a agradecer o timing com que o populista Boris Johnson os desafiou a abandonar o barco dos 27 e a acantonarem-se na ilha.»

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12.4.21

Um pouco de humor sempre ajuda

 

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Operação Sócrates



 

O MP e Ivo Rosa têm poucas horas para ocuparem as preocupações dos cidadãos na escolha do lado da barricada em que se situam.

Muito, muito em breve, será Sócrates que ocupará todos os palcos e provocará gritos de horror ou rasgar de vestes nas redes sociais. A festa já começou nos jornais, as TVs já anunciam entrevistas, será lançado um livro dentro de dias. Será que vamos finalmente discutir tudo isto no plano da POLÍTICA? Tenho esperança que sim, mas temo estar a ser optimista.
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Pagar para iludir a solidão

 


«Tem sido notícia de jornal pelo mundo fora. O japonês Shoji Morimoto, de 37 anos, formado em Física, aluga-se a si próprio para não fazer nada, apenas proporcionando companhia. Depois de passar por vários empregos terá concluído que esse era o seu único e autêntico talento e a verdade é que tem angariado milhares de clientes nos últimos tempos.

Tudo começou quando comunicou nas redes sociais que, por cerca de 77 euros por encontro, não faria nada na companhia de quem o contratasse, a não ser comer, beber e dar respostas simples às interpelações. Já agora, a comida, bebida e transportes são por conta dos clientes. Solicitações não lhe faltam. Recentemente contava à BBC que as mais comuns são para acompanhar quem não quer ir sozinho às compras de supermercado ou quem não deseja comer só. Mas também existe quem o queira para ir ao hospital ou, mais insólito, como companhia para assinar os papéis de divórcio. Dir-se-á que tal só é possível num país que acaba de criar o Ministério da Solidão, mas não parece. As sociedades contemporâneas são máquinas de produção de isolamento e a pandemia só o intensificou.

Claro que existem vários tipos de solidão. A escolhida, por opção consciente, não deveria teoricamente significar nenhum conflito para quem a vive. Na pré-pandemia, para quem habitava sozinho, era relativamente fácil evitar a sensação de isolamento, com um pouco de vida social, trabalho ou lazer. Agora existem novas circunstâncias, que se agravam consoante as situações económicas ou de empregabilidade de cada um. Já a indesejada, que tende a ser ligada a pessoas idosas ou dependentes, é mais transversal do que tendemos a aceitar, mas os estigmas nem sempre nos levam a assumi-la. Isto se nos limitarmos a ligar o estar só com o confinamento num lugar físico. O espaço mental é outra realidade. E se formos para aí, a solidão é ausência de ligação, de envolvimento, de proximidade e de intimidade. E isso é muito mais diagonal.

Como diz a economista inglesa Noreena Hertz, autora da obra The Lonely Century: Coming Together in a world that’s pulling apart (2020), vivemos num tempo onde tudo se pode comprar, até uma companhia como quem adquire uma pizza, citando o exemplo de uma empresa americana que cobra 30 euros à hora para proporcionar companhia, com pessoas formadas para cumprirem a função a preceito. Não são acompanhantes de luxo, mas o modelo fá-lo lembrar. Nada de surpreendente, diz-nos ela, citando que num estudo pré-pandemia era veiculado que um em cada cinco adultos assegura que se sente solitário a maior parte do tempo, enquanto num outro, do ano passado, é referenciado que um em cada oito britânicos reconhece que não tem nenhum amigo em quem confiar.

Como se chegou a este oceano de solidão? Há muitas e cumulativas causas nas últimas décadas. Sociedades estilhaçadas do ponto de vista socioeconómico, político, racial, de género ou classe. Prevalência de sistemas impessoais e complexos em relação a noções de comunidade. Ausência de lugares públicos o que não propicia sociabilidades espontâneas. O predomínio do individualismo neoliberal e a primazia do lucro privado sobre o interesse social. Redes de tecnologia que permitem a hiper-conectividade, mas que não anulam o sentimento de isolamento, nem garantem a criação de comunidade. Quanto muito simulam a solidão.

O paradoxo é que a pandemia veio mostrar que a mutualidade é vital. Somos existências conectadas. Necessitamos uns dos outros. Satisfazemos necessidades e interesses, embora de forma diversa, graças à acção concertada de muitos. As respostas individuais são curtas quando se abordam estruturas geradas socialmente. Não somos auto-suficientes, mas sim interdependentes, e a pandemia só veio patentear que o somos ao nível global, local e particular. O que mais apreciamos como pessoas é de estar com outras pessoas. De preferência sem ter de lhes pagar.»

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11.4.21

«Brumas» – 14 anos num 14º Estado de Emergência…



Por esta não esperava eu quando comecei este zingarelho: chegar aqui semiconfinada, semivacinada e, sobretudo, sem poder viajar com este blogue que andou comigo por cinco continentes. Com uma mala ainda em cima de uma cama à espera de um desconfinamento decente em que nem acredito assim muito...

Mas aqui continuo, com a cabeça sem sair de entre as orelhas – o que já não é mau – e a alimentar o blogue todos os dias, talvez por aquilo a que se chama agora «resiliência». Sempre ao dispor ou daqueles que continuam a passar por cá desde sempre, ou porque os encaminho via Facebook, ou muito pelo contrário – e isso até é recente – porque se fartaram de Mr. Zuckerberg, fecharam as contas e regressaram apenas aos blogues (e ao Twitter). Ao todo, são mesmo muitos.

Como já é tradição, fui ver: este é o 18 411º post que publico. Loucura, mas mansa.
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11.04.1964 – A Cooperativa PRAGMA



 

A Pragma foi uma das várias instituições em que os chamados «católicos progressistas» se organizaram para reagir à ausência de liberdades elementares, à manutenção da guerra colonial e ao conservantismo da Igreja portuguesa e conivência com o regime, depois das expectativas criadas pelo Concílio Vaticano II.

Foi fundada em 11 de Abril de 1964, como uma «Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária». Desde o seu núcleo inicial, incluiu sócios provenientes do meio operário, nomeadamente dirigentes e militantes das organizações operárias da Acção Católica. Os horizontes abriram-se rapidamente e muitos dos seus futuros membros nem sequer seriam católicos. Aliás, a Pragma acabou por funcionar também como uma espécie de plataforma aglutinadora de elementos da esquerda não-PCP que, por não estarem integrados em qualquer estrutura organizativa, nela identificaram um espaço de debate e de encontro (foi o caso, por exemplo, de muitos activistas das lutas estudantis de 1962). Acabou por ser encerrada pela PIDE em 1967.

(Muito mais NESTE POST de 2019.)
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Sorriam, estão a ser filmados

 



«A Teleperformance emprega 380 000 funcionários e tem call centers espalhados pelo Mundo. Talvez de faiscante brainstorming nasceu uma ideia - instalar webcams em casa dos funcionários em teletrabalho.

Um programa de IA descortina infracções e comunica-as às chefias. O teclado e o rato são monitorizados, de modo a detectar períodos sem actividade. As mesas de trabalho devem ter iluminação suficiente para o equipamento funcionar durante turnos nocturnos e os ecrãs fitarão a parede, de modo a evitar olhares de outros membros do agregado familiar. Mas há espaço para a livre (?) iniciativa! Deseja alguém beber água? Carrega em "intervalo" numa aplicação e explica que o vai fazer.

Questionada pelo "Guardian", a quem roubei o artigo, a empresa afiançou que o equipamento se destina a reuniões e treino - talvez de candidatos a guardas prisionais... -, as virtualidades controladoras serão utilizadas... fora do Reino Unido! E eu alucinei os Concertos Promenade, agora regidos por Boris Johnson, a multidão cantando a plenos pulmões - Rule Britannia! Britannia rule the waves/Britons will never, never, never will be slaves. Eis uma boa razão para manter as webcams fora da loira Albion - serão outros os escravos.

Os sindicatos protestaram e o secretário de Estado para os Direitos Laborais do Governo Sombra - não é esse... - deixou um aviso sobre a prática: "uma vigilância invasiva que provocará a erosão dos seus direitos à privacidade e criarão um clima de medo e desconfiança". A Teleperformance, indignada e ofendida, esmagou as críticas malévolas ao desvendar o comovente propósito que preside à instalação do equipamento - as webcams são utilizadas para "combater a sensação de isolamento, a falta de apoio da equipa e o facto dos trabalhadores não verem ninguém durante dias seguidos". (Devem viver todos sozinhos e no estrangeiro...).

As crises abrigam oportunidades. Por isso esperamos que o crepúsculo da pandemia veja o raiar de uma Humanidade mais solidária. Atenta à Saúde Global e às injustiças que campeiam numa sociedade hipnotizada pelo lucro e indiferente ao agravar das desigualdades. Mas algumas reorganizações laborais, certas derivas políticas e o florescer da discriminação ao abrigo dos compreensíveis receios das populações são exemplos de como as crises também escancaram as portas a oportunidades... para os oportunismos.

Se este exemplo medrar, um dia destes sorriam, estarão a ser filmados. E se vos acometer um desejo visceral de praguejar, façam-no em surdina. Se não há fumo sem fogo, quem nos garante que haja câmaras sem microfones?

P.S. amargo - Isto não é ficção científica, acontece por aí em versões menos tecnológicas e tem um nome - assédio laboral.»

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