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12.10.25

12.10.1960 – A sapatada de Nikit

 


Quem tem idade para tal lembra-se certamente deste episódio cujas imagens deram volta ao mundo, quando este era muito mais politicamente respeitador do que hoje: durante uma agitadíssima Assembleia Geral da ONU, Nikita Kruschev tirou um sapato e bateu furiosamente com ele na sua bancada.

O incidente produziu-se num momento de grande tensão na Guerra Fria, cinco meses depois de um avião-espia americano ter sido abatido em território soviético e quando o recentíssimo governo de Fidel Castro se aproximava cada vez mais da URSS.

Na origem do gesto de Kruschev esteve uma intervenção do representante das Filipinas, em que este acusou a União Soviética de «colonizar» os países da Europa de Leste e os privar de direitos civis e políticos.

Seguiu-se uma sequência rocambolesca: Nikita protestou com o sapato, o presidente da Assembleia tentou controlá-lo batendo na mesa com um martelo, partiu-o, apagou a comunicação das traduções simultâneas e interrompeu a sessão.


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21.9.25

Eurovisão Russa

 


«Proibida de participar na Eurovisão, devido à invasão da Ucrânia, a Federação Russa reativou um antigo festival internacional de canções. A Rússia sobe a palco com um cantor pró-Rússia, o evento será apresentado por uma dupla oriunda da China e da Índia e também estarão presentes os EUA.»

Daqui.

23.6.25

Um louco guia um cego para tentar repetir o Iraque

 


«Antes que a memória recente se perca, foi Israel que atacou o Irão, ao que se seguiu um ataque dos Estados Unidos, por ordem do mesmo presidente que pôs fim ao acordo de supervisão do programa nuclear do país atacado. Ache-se o que se achar do regime iraniano (imaginam o que acho de um regime teocrático que desrespeita os direitos das mulheres e reprime os opositores), é ele que se está a defender, não o oposto.

Logo depois de fazer um ataque que diz ter sido um sucesso, Trump disse que o poderia continuar, assumindo o que Israel já assumira: que o risco de o Irão ter armas nucleares não passou de um pretexto. Um pretexto para Netanyahu puxar Trump para uma guerra. Em Telavive, é claro que se quer derrubar o regime de Teerão sem saber o que vem depois, porque é no caos que Netanyahu sobrevive. Em Washington, cada um insinua coisas diferentes sobre os objetivos da intervenção.

Parafraseando Lídia Jorge, que citou Shakespeare: um louco guia um cego. O primeiro sabe que busca o que Bush procurou no Iraque. O segundo talvez acredite (acreditará?) que a sua intervenção foi mesmo por causa do risco de uma bomba nuclear e confirma o monumental falhanço da sua política externa: prometeu tirar os EUA de todas as guerras, mas não conseguiu dar um passo na direção da paz na Ucrânia e envolveu os EUA num confronto direto com o Irão, sem autorização do Congresso.

Em 1995, Netanyahu disse que, daí a três ou cinco anos, o Irão teria a bomba; em 1996, disse que o tempo se estava a esgotar; em 2006, que estava muito próximo; em 2012, faltavam seis meses; em 2015, estava a semanas; em 2018, faltava mesmo muito pouco tempo; em 2025, era daqui a poucos meses. E, no entanto, não temos qualquer evidência de que o Irão estivesse próximo de uma arma nuclear.

Trump até teve, para acompanhar a narrativa israelita, de dizer, na sexta-feira, que a diretora nacional de Inteligência, Tulsi Gabbard, estava errada ao sugerir que não havia provas de que o Irão estivesse a desenvolver uma arma nuclear. E teve de ignorar o diretor-geral da AIEA, que disse, na quarta-feira, que o relatório da AIEA foi deturpado e que não há "nenhuma prova de um esforço sistemático do Irão para conseguir a bomba atómica". Ontem, reiterou que não dispunha dos elementos necessários "para demonstrar que o Irão planeava desenvolver uma arma nuclear".

Estamos, é bom recordar, a falar de um país que foi atacado por outro, que, esse sim, tem armas nucleares à margem de qualquer tratado ou supervisão internacional. O que parece ser ignorado, apesar da agressividade, desrespeito sistemático pelo direito internacional e atual participação num genocídio de Israel.

Já vimos isto tudo. A assunção, contrariando a informação dos serviços de inteligência, da ameaça iminente de uma arma de destruição em massa. O ataque preventivo que o direito internacional não permite. A tentativa de mobilizar as opiniões públicas com a natureza ditatorial e atentatória aos direitos humanos do regime do país atacado, como se o novo regime sírio, cúmplice de Israel, não fosse liderado por um carniceiro vindo da Al-Qaeda e o maior aliado dos EUA na região não fosse a Arábia Saudita, que nega direitos às mulheres e ataca direitos humanos e liberdades cívicas. A promessa de reinvenção do Médio Oriente, ignorando as consequências destas aventuras. Os delírios de mudar um regime através de uma ofensiva externa, sem fazer ideia de quem sejam os sucessores e que dinâmicas internas serão libertadas. Visto daqui, a utilização da Base das Lajes é a cereja em cima do bolo no déjà vu iraquiano.

A intervenção no Iraque foi responsável por um número ainda indeterminado de mortos, mas que andará pelas centenas de milhares. Foi responsável por um vácuo de poder, lutas sectárias e uma desestabilização que levou ao nascimento e crescimento do Estado Islâmico, que acabaria por transbordar para a mortífera guerra da Síria que, por sua vez, levaria a mais umas centenas de milhares de mortos e estaria na origem da onda migratória que atingiu a Europa e fez crescer a extrema-direita. Na altura, não faltou quem explicasse que a queda da primeira peça do dominó faria cair as seguintes, encaminhando a região para a democracia. Encaminhou-a para o caos, como os que se opuseram à guerra previam.

Agora, um homem que foge do seu próprio destino (a prisão) acredita que pode moldar toda a região aos seus próprios interesses, prendendo a maior potência do mundo e a paz internacional à sua infinita arrogância. E o mundo parece estar disposto a permiti-lo.

Mesmo sendo esta aventura liderada por dois irresponsáveis encartados, um deles com um longo currículo de crimes de guerra e contra a humanidade, vejo os mesmos que deixaram cair uma lágrima furtiva quando viram os tanques americanos chegar a Bagdad a recuperarem a superioridade moral de quem não aprendeu nada com a história. Até estou à espera das mesmas acusações de apaziguamento e cumplicidade com tiranias que então se ouviram.

Só que o Irão não é o Iraque. É uma sociedade muito mais consolidada, uma civilização milenar, uma potência regional e um território impossível de invadir que controla o estreito de Ormuz, por onde circula 20% do abastecimento global de energia. As caricaturas de um regime que, sendo ditatorial, corresponde a uma sociedade e uma realidade política bastante mais complexas e contraditórias do que eram as do Iraque explicam a leviandade com que se está a abrir esta Caixa de Pandora.

Trágico é ver o mundo depender de os líderes da maior teocracia do mundo não retaliarem (como teriam legitimidade para fazer) e não aprenderem nada com estes dias. Se aprenderam, concluirão que, se continuarem a negociar com uma administração que não mantém a mesma palavra durante 24 horas, continuarão a ser atacados enquanto o mundo exige que se sentem na mesa de negociações de que nunca saíram, e que o melhor a fazer para a sua defesa é terem mesmo a arma nuclear. A tragédia desta ação é explicar ao Irão que o melhor para eles é o pior para todos.»


20.2.25

Três dias que abalaram o mundo

 


«Tudo começou com um telefonema entre Trump e Putin. Continuou com as declarações do secretário da Defesa na reunião da NATO e acabou com as do vice-presidente na Conferência de Munique. Há momentos em que a História acelera e dias que valem por décadas. Se for o que parece, este é um desses momentos históricos que se seguem ao fim das guerras e mudam a ordem mundial. Como o Tratado de Versalhes, em 1919, os de Ialta e Potsdam, em 1945, ou a queda do Muro de Berlim, em 1989.

Trump pôs fim à guerra na Ucrânia e tornou claro ao que vinha. Falou primeiro com a Rússia. E é entre a América e a Rússia que se definem os termos da paz. Só depois falou com a Ucrânia. Para a informar. E à Europa nem isso.

A Rússia conquista todos os seus objectivos de guerra. Primeiro, os objectivos explícitos: a Ucrânia não entra na NATO e não regressa às fronteiras pré-2014. Isto é, a Rússia ganha a Crimeia e o Donbass. Depois, os objectivos implícitos: a divisão do Ocidente, a fractura transatlântica e o enfraquecimento da Europa. Mais: de um só golpe, deixa de ser um Estado-pária e passa a ser um interlocutor credível e um dos grandes do mundo.

A Ucrânia, pelo contrário, é a grande perdedora: perde 20% do seu território e perde, sobretudo, a liberdade para decidir do seu destino: europeu e democrático. E quem sabe, se nas próximas eleições, sob coacção, não se torna uma segunda Bielorrússia?

Perdedora é, igualmente, a Europa. Menorizada, marginalizada e apagada das grandes questões internacionais, a começar pelas da sua própria segurança. Trump nunca escondeu a sua concepção transaccional da Aliança e desde o seu primeiro mandato que avisou que, se a Europa não pagasse, a América não a defenderia. Agora reafirmou tudo o que sempre disse e os europeus não quiseram ouvir. Que não se sente comprometido com o artigo 5.º e que a Europa, se quiser garantir a sua defesa colectiva, terá de o fazer sem a América. Isto é, a NATO como a conhecíamos deixou de existir.

Entre o abandono americano e a ameaça russa, a Europa está, agora, entregue a si própria. E se, como se antevê, o acordo de paz premiar o agressor e consolidar as suas conquistas territoriais, que melhor incentivo pode ter Putin para ir mais longe na Europa? O objectivo final como ele próprio o disse, nas condições que pôs à NATO antes da invasão, são as fronteiras do antigo Pacto de Varsóvia. E mesmo que o não consiga, militarmente, não parará a guerra híbrida para desestabilizar, dividir e enfraquecer a Europa.

Dito isto, sejamos claros: não foi a Rússia que ganhou a guerra, foram EUA que impuseram a derrota aos aliados e deram a vitória ao inimigo. Mas o que está em jogo vai muito para além da Ucrânia e a da segurança europeia. A mudança é a da própria ordem mundial.

Desde a Segunda Guerra que os EUA promoveram um sistema internacional assente no livre comércio, na democracia liberal e numa rede de instituições multilaterais que asseguraram a cooperação internacional, a segurança e a paz. Uma ordem internacional baseada em regras que lideram, no Ocidente, durante a Guerra Fria e, globalmente, no pós-Guerra Fria. Ora, é essa ordem internacional baseada em regras, já em erosão, que Trump rejeita e a que agora pôs termo. Porquê? Porque as regras e as instituições internacionais impõem limites à sua acção nacionalista e unilateral, transaccional e predadora. No plano económico, como no plano político.

Como é obvio, Trump quer precisamente o contrário: uma ordem internacional baseada nos negócios e na diplomacia coerciva que os sustenta: as tarifas; as sanções; e as ameaças. Uma ordem internacional em que a força vale mais que a lei, e o poder vale mais que a razão. Uma ordem internacional desenhada sobre esferas de influência e em que a expansão territorial das grandes potências é considerada legítima e um comportamento normal. A Rússia na Ucrânia, os EUA na Groenlândia, ou a China em Taiwan. É o regresso à velha rivalidade entre as grandes potências e ao choque dos imperialismos. E, nesse jogo, os EUA não me parece que vão sair vencedores. Nós, na Europa, infelizmente, sabemos como isso acaba. Por duas vezes acabou mal. O historiador francês, Jacques Bainville, dizia a propósito do Tratado de Versalhes, que se tratava de “fechar a ferida deixando a infecção no interior”. Ou muito me engano, ou vamos pelo mesmo caminho.


20.11.24

Na Rússia continua a cair-se acidentalmente de varandas

 


«Na Rússia continua a cair-se acidentalmente de varandas Na noite de sábado, Vladimir Shklyarov, um dos mais consagrados bailarinos mundiais da atualidade e primeiro-bailarino da companhia do Teatro Mariinsky, em São Petersburgo, caiu da janela de sua casa e teve morte imediata. De acordo com os relatos da agência noticiosa estatal russa, Shklyarov deslocou-se à varanda estreita do seu apartamento num 5.º andar para fumar e tombou em direção à rua. Os relatos acrescentam que o bailarino ia ser submetido a uma operação à coluna, estava a tomar analgésicos e a morte é descrita como um acidente estúpido. Como sabemos, quem toma analgésicos tende a cair de varandas e os bailarinos são caracterizados por uma propensão particular ao desequilíbrio.»


12.10.24

12.10.1960 – A sapatada de Nikita

 


Quem tem idade para tal lembra-se certamente deste episódio cujas imagens deram volta ao mundo, quando este era muito mais politicamente respeitador do que hoje: durante uma agitadíssima Assembleia Geral da ONU, Nikita Kruschev tirou um sapato e bateu furiosamente com ele na sua bancada.

O incidente produziu-se num momento de grande tensão na Guerra Fria, cinco meses depois de um avião-espia americano ter sido abatido em território soviético e quando o recentíssimo governo de Fidel Castro se aproximava cada vez mais da URSS.

Na origem do gesto de Kruschev esteve uma intervenção do representante das Filipinas, em que este acusou a União Soviética de «colonizar» os países da Europa de Leste e os privar de direitos civis e políticos.

Seguiu-se uma sequência rocambolesca: Nikita protestou com o sapato, o presidente da Assembleia tentou controlá-lo batendo na mesa com um martelo, partiu-o, apagou a comunicação das traduções simultâneas e interrompeu a sessão.


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25.7.24

Não temos cá disto (3)

 


Metro de Moscovo, Rússia, 2012.

Com um luxo decorativo único no género, inaugurado em 15 de Maio de 1935, o metropolitano de Moscovo merece, sem dúvida, que se lhe dedique o tempo necessário para ver uma parte das mais de 200 estações de que dispõe actualmente. Algumas são fabulosas arquitectonicamente, todas as que vi são lindíssimas em termos de decoração.

Relevo especial para a «Praça da Revolução», com as suas dezenas de estátuas em bronze, sendo a de um homem com um cão a mais popular: os moscovitas passam e afagam o nariz do animal, ao mesmo tempo que exprimem um desejo.

17.2.24

O desdém de Navalny

 


«Testemunha de terror político e vítima de perseguição, Hannah Arendt constatou que, ao contrário da opinião comum, o verdadeiro inimigo da autoridade não é a violência, mas o desprezo. E o melhor aliado do desprezo é o riso.

Para Alexei Navalny, o riso e o desprezo foram armas de eleição para contestar o atual regime político da Rússia, também porque lhe restavam poucos outros instrumentos. O desprezo surgia como resposta à incapacidade de participar efetivamente como igual na política do seu país. Após uma carreira de sete anos no partido político Yabloko, no início do século XXI, Navalny aliou-se a alguns partidos ligados ao nacionalismo russo, uma opção que muitas vezes suscitou dúvidas sobre as ideias que defenderia, caso chegasse ao poder. No entanto, essa hipótese nunca se concretizou, uma vez que o regime político da Rússia enraizava-se no poder, em 2012, e placava a contestação popular.

Foi neste contexto que Navalny se tornou uma figura de oposição destemida. Intentou lutar contra as autoridades russas vigentes por via do desdém e riso, que tanto o singularizava. Através do Youtube e do seu blogue Livejournal, expunha o rol de esquemas que facilitavam o enriquecimento ilícito de determinadas elites na Rússia em conjunto com os respetivos métodos ilegais utilizados para manter o poder. Tornou-se, portanto, uma figura popular incontornável, aquando da tentativa de reeleição de Putin, entre 2011 e 2012. Alvo de perseguição crescente, Navalny tentou candidatar-se à presidência da câmara de Moscovo, em 2013, opção negada através de processos judiciais que lhe foram movidos por entidades estatais em meses subsequentes. Procurou ainda ser candidato à presidência russa em 2018, mas novamente decisões judiciais impediram a apresentação oficial da sua candidatura. Putin, inevitavelmente, foi de novo reeleito, desta vez para um quarto mandato.

Enquanto a visibilidade de Navalny aumentava e os seus canais de media desmontavam a corrupção, frequentemente no tom jocoso que tanto o caracterizava, as restrições à sua liberdade não se cingiriam à arbitrariedade da mera admoestação judicial. O regime não respondia da mesma forma; não ironizava com o que era difícil de ironizar. Endurecia as respostas face ao atrevimento de Navalny. Este foi então envenenado com novichok, em 2020, num avião que seguia de Tomsk para Moscovo. Tratou-se da mesma substância aplicada ao antigo espião Sergei Skripal e à sua filha, Yulia Skripal, em Salisbury, no Reino Unido, em 2018.

Depois de sobreviver ao envenenamento, Navalny não se inibiu de continuar a demonstrar o seu desdém contra quem o tentara assassinar. Com o auxílio de outros meios de comunicação, dissimulou a própria identidade para filmar a sua conversa telefónica com um dos alegados responsáveis pela tentativa de assassínio de que foi alvo. O jornalista que o auxiliou nessa revelação mal escondeu o sorriso, perante a revelação do suposto responsável. A tentativa de assassinato parecia agora menos diabólica do que tragicómica.

Depois de convalescer na Alemanha, Navalny regressou à Rússia, no início de 2021. Questionado sobre se continuaria as suas investigações, Navalny afirmou que sim, pois era precisamente esse o motivo para o seu regresso. Foi preso à chegada. Morreu quase três anos depois, com apenas 47 anos, encarcerado na Sibéria, a quase 1500 km de Moscovo; porém, o riso e o sarcasmo permanecerão para sempre ligados ao seu legado.

Depondo online para um longínquo tribunal, poucas horas antes da sua morte, Navalny troçava do juiz, solicitando-lhe dinheiro para pagar as alegadas coimas que lhe pretendiam aplicar, enquanto permanecia preso. Fica para a história a coragem e o desdém com que Alexei Navalny enfrentou o regime que lhe retirou a liberdade.»

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12.10.23

12.10.1960 – A sapatada de Nikita

 


Quem tem idade para tal lembra-se certamente deste episódio cujas imagens deram volta ao mundo, quando este era muito mais politicamente respeitador do que hoje: durante uma agitadíssima Assembleia Geral da ONU, Nikita Kruschev tirou um sapato e bateu furiosamente com ele na sua bancada.

O incidente produziu-se num momento de grande tensão na Guerra Fria, cinco meses depois de um avião-espia americano ter sido abatido em território soviético e quando o recentíssimo governo de Fidel Castro se aproximava cada vez mais da URSS.

Continuar a ler e ver um vídeo AQUI.
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26.8.23

Será Prigojin o último rir?

 


«Há poucos dias, Evgueni Prigojin, chefe do grupo Wagner, foi ao Mali, a sua maior base em África, onde se fez fotografar de arma na mão e anunciou que ia "fazer uma Rússia ainda maior em todos os continentes". Fez depois uma escala em Damasco, voltou à Rússia, a bordo de um Ilyushin, aterrando em Moscovo. Tomou imediatamente o seu avião pessoal, um Embraer, na companhia de outros chefes do Wagner, entre eles o número dois, Dmitri Utkin, com destino a São Petersburgo. O avião explodiu pouco depois. Dias antes, Prigojin exibira-se na cimeira russo-africana de São Petersburgo. Pouco mais sabemos e o enigma do desastre pode perdurar por muito tempo. Apenas não há dúvidas quanto ao mandador: Vladimir Putin.

Em lugar de saber se o avião foi abatido pela artilharia antiaérea ou, mais provavelmente, por uma bomba escondida numa caixa de vinho, a digressão do mercenário suscita duas grandes dúvidas. "Foi claro durante dois meses que Prigojin foi deixado voar quando e para onde quisesse", disse ao Financial Times uma fonte próxima do Ministério da Defesa russo.

"Agora compreendemos porquê: aquela liberdade era a armadilha em que caiu o chefe dos mercenários do Wagner." Segunda perplexidade: os chefes militares, tal como os chefes dos governos ou das máfias, não costumam viajar no mesmo avião. É patente o excesso de confiança de Prigojin, que passava por ser desconfiado.

Prigojin é o nome que faz os títulos, mas o sujeito desta história é Vladimir Putin. "Os autores de golpes raramente morrem velhos", diz o politólogo Brian Klaas ao magazine The Atlantic. Todos ficaram surpreendidos pelo perdão de Putin ao chefe do amotinamento do Wagner e da "marcha sobre Moscovo," a 23 de Junho.

Putin denunciou a "traição" e a "punhalada pelas costas". Mas a seguir foi clemente e tanto Prigojin como Utkin voltaram à vida normal. "Nenhum ditador se pode dar ao luxo de tolerar este tipo de deslealdade. Em todo este período, Prigojin viveu fazendo Putin parecer fraco, um ditador forçado ao compromisso com o homem que o desafiou, simplesmente porque a Rússia ainda precisava do grupo Wagner na sua desastrosa guerra", argumenta Klaas.

Foram meses anormais. Explica o analista Abbas Galyamov, antigo speechwriter do Presidente: "Prigojin continuar a viver baralhava a nossa compreensão do regime de Putin. A regra era que ninguém podia fazer nada contra Putin. Durante dois meses, tudo parecia virado do avesso. Prigojin criou um tremendo problema a Putin, humilhou-o."

O "czar" sabia certamente que deixar Prigojin vivo reforçava os seus inimigos e a criava novas ameaças. As ditaduras podem organizar pseudo-julgamentos contra opositores. Mas o Kremlin não podia submeter Prigojin a um tribunal marcial: ele sabia demais e vangloriava-se disso. De resto, era popular perante uma parte dos russos: uma sondagem indicou que, depois da insubordinação, tinha a simpatia de 20% dos inquiridos. Putin não perdoou. Soube esperar. Mas a decisão, crêem os analistas, foi tomada logo após o 23 de Junho.

Os efeitos políticos não são ainda claros. Putin voltará a ser temido. E, diz o opositor russo Marat Gelman, é um óbvio sinal para as elites, para as mais liberais e para as ultranacionalistas: "Vocês não podem ser contra a guerra, não podem conduzir a guerra melhor do que Putin. [O general] Girkin e Prigojin eram mais entusiastas sobre a guerra do que Putin, mas foram punidos."

O historiador Dmitri Minic, especialista na Rússia, escreve no Monde: "Longe de ser uma anomalia, a evolução do Wagner e o percurso do seu chefe são uma emanação lógica dos fiascos militares russos numa guerra imprevista e não controlada, das especificidades do regime putiniano, mas também do pensamento e da cultura estratégicos pós-soviéticos. Uma situação extremamente perigosa para elites político-militares pouco aptas às profundas transformações e para um regime interessado na sua própria sobrevivência, mas que não se pode reformar sem assumir o risco de se desmoronar."

Putin deve ganhar a curto prazo. Mas adverte Klaas: "Quando um ditador assassina um alto oficial e não jornalistas, candidatos da oposição e dissidentes, então o medo generaliza-se. (…) Por vezes, erros catastróficos tornam-se mais prováveis – e podem de facto desencadear o fim do regime. Ninguém diz que o mortífero regime de Putin esteja nas últimas horas. Mas, a longo prazo, os custos do aparente assassínio de Evgueni Prigojin podem levar a que o falecido Evgueni Progojin venha a ser o último a rir na sua sepultura."»

Jorge Almeida Fernandes
Newsletter do Público, 25.08.2023
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27.6.23

Nazis de sexta e 25 de Abril de sábado

 

«Este fim-de-semana tivemos uma pequena amostra daquilo que nos separa, como povo e como sistema político, da Rússia. Quer tenha sido real, quer tenha sido uma encenação, estamos perante um universo paralelo. Não sei se alguém entre nós está apto a fazer de intérprete da realidade russa e a torná-la inteligível e lógica. Tenho sérias dúvidas que sim.

Mas vi muitos a torcer pelo grupo Wagner e até por uma guerra civil na Rússia. Vi referirem o Prigozhin como se fosse o Salgueiro Maia. Os nazis de sexta já eram o 25 de abril de sábado. Quase que houve uma festa e bonita. É o que temos. Também não somos inteligíveis e lógicos.»

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24.6.23

Tudo a correr normalmente

 


As TVs já substituíram o Titan por Prigozhin.

N. B. – Está o mundo inteiro cautelosamente à espera do desenvolvimento dos acontecimentos e, nas redes sociais portuguesas, não se resiste a dar ou pedir bocas sobre o futuro, como se não existisse um dia de amanhã que todos desconhecemos.
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10.6.23

A estúpida, ignorante e perigosa perseguição à cultura russa

 


«Toda a gente sabe que não tenho a mínima intransigência face à responsabilidade criminosa de Putin e da Federação Russa na invasão da Ucrânia. Nenhuma, bem pelo contrário: desejo que a Rússia seja derrotada e que pague um preço pela invasão, pela tentativa de anexação de territórios de um outro país, pelos crimes de guerra cometidos, pelos ataques indiscriminados a civis, pela destruição de infra-estruturas ucranianas, pelas ameaças nucleares, pelo reforço da ditadura na Rússia, pelas perseguições a dissidentes e mesmo, ironia das ironias, pelo efeito de militarização do mundo em resultado do expansionismo e imperialismo russo. Não é lista pequena, pois não?

Para achar isto tudo, não preciso de considerar a Ucrânia um farol da democracia, nem a sua história recente exemplar, nem aceitar a corrupção endémica, nem muitos aspectos de condução da guerra que incluem também crimes de guerra e perseguições. Não preciso mesmo, porque a guerra do lado ucraniano tem uma legitimação na invasão e todos os que desejam a paz sem aspas sabem que a Ucrânia não pode perder esta guerra, sob pena de o benefício do infractor ser muito perigoso para a segurança mundial e, claro, uma enorme injustiça aos ucranianos.

Mas a União Europeia e Portugal não são a Ucrânia, deviam ser diferentes em todas as matérias que envolvem democracias mais consolidadas, que implicam uma latitude quase absoluta para a liberdade de expressão. Uma coisa são as sanções económicas cujo objectivo é travar o esforço de guerra russo contra um país que nesta altura é nosso aliado. Outra, a proibição de canais informativos russos e as restrições aos meios de comunicação russos, que é inútil e, pior do que isso, é uma afronta a um direito de liberdade de informação muito semelhante ao que Putin faz na Rússia.

É verdade que as comunidades ucranianas na Europa e em Portugal têm um envolvimento afectivo muito directo com uma guerra que lhes está a matar familiares e a destruir as suas cidades e aldeias. Mas vivendo num país democrático podem e devem fazer todos os protestos e pressões para condicionar a opinião pública e os governos a apoiarem a causa ucraniana. Outra coisa é quererem nesses países replicar as medidas de guerra ucranianas, que podem ser explicadas pela situação de guerra, mas são más para a Ucrânia e inaceitáveis ao serem replicadas nas democracias ocidentais. Os ucranianos podem, com alguma legitimidade, querer “desrussificar” a Ucrânia, cuja paisagem pública, manuais escolares, símbolos são ainda os da antiga URSS. Mas os ataques à cultura russa, aos seus grandes escritores, com o derrube de monumentos e estátuas, são condenáveis.

Nós, europeus, logo, ucranianos, fomos feitos por Pushkin, Tolstoi, Tchekov, Maiakovski, Pasternak, Akmatova, Tsevtaieva, Gogol, Gorki, e mesmo pelos eslavófilos como Dostoievski e muitos outros. Fomos “ouvidos” por Stravinski, Prokofiev, Chostakovitch e, de novo, por muitos outros. Fomos “pintados” por Repin, Surikov, Serov e, mais uma vez, por muitos outros. A lista é demasiado grande para todo este artigo, porque a cultura russa, e uso aqui “cultura” num sentido muito mais vasto do que as artes e letras, incluindo a mundovisão, é tão ocidental como o “Ocidente” que os teóricos de Putin esconjuram, ou os fundamentalistas ucranianos. E por estranho que pareça, também por Lenine, Estaline, mesmo Dugin. O que nós temos cá, eles têm lá; cortemos o de lá, estamos a cortar o de cá.

O caso mais absurdo desta fronda anti-russa, que leva o anti-“russismo” da guerra para onde não deve estar, foi o afastamento sem audição, nem próprio processo, do professor de Cultura Russa da Universidade de Coimbra Vladimir Pliassov, baseado em acusações de ucranianos ampliadas pela irresponsabilidade jornalística. O professor foi acusado de fazer “propaganda russa”, de ter funções na fundação Russkiy Mire, que apoia a divulgação da língua e cultura russas e estar ligada ao Governo russo. No que diz respeito à fundação, gostaria de saber como é que as escolas universitárias lidam com o Instituto Confúcio… Quanto a fazer propaganda política, se fosse um crime susceptível de punição com expulsão, deixaria muitas universidades portuguesas vazias, a começar pelas faculdades de Direito e acabar nas escolas de Economia.

Mais tarde, para controlar o efeito de indignação suscitado pela expulsão do docente pela universidade, acusaram-no de ser um antigo agente do KGB. Esta acusação não está fundamentada e, mesmo que seja verdadeira, se o “antigo” permanece actual, é matéria para os nossos serviços de segurança e para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, os quais, que se saiba, não se pronunciaram, nem informaram a Universidade de Coimbra. Num país democrático, que está ao lado da Ucrânia contra a Federação Russa, as coisas não se fazem assim e, mesmo que haja autonomia da universidade, o ministério respectivo devia repor a legalidade e próprio processo.

Apoiemos a Ucrânia, aprendamos melhor a cultura russa, respeitemos a democracia e defendamos a liberdade de expressão, que, como de costume, só tem sentido quando é para o “outro”, não para nos vermos ao espelho. Para isso basta viver nas redes sociais, como a Universidade de Coimbra parece ter vivido.»

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23.3.23

A deportação de civis e crianças para a Federação Russa



 

«As deportações de civis ucranianos, entre os quais muitos milhares de crianças que são enviadas para campos de reeducação ou para adoção por famílias na Federação Russa ou para territórios sob ocupação russa, constitui uma clara violação do Direito Internacional Humanitário em todas as suas dimensões, sendo considerado um crime de guerra e um crime contra a Humanidade.

A deportação de crianças assume maior gravidade, porque além de estar tipificada como um dos crimes de genocídio, considerado o crime dos crimes, está associado a um processo de "russificação", que inclui o despojamento da nacionalidade originária. As autoridades russas nem cuidaram minimamente de ver se as crianças tinham pais ou tutores legais, como obrigam as normas internacionais, nem facilitam os contactos com familiares ou conhecidos. Algumas foram "roubadas" de instituições pediátricas ou de orfanatos, apesar de poderem não ser órfãs, ou foram separadas ou retiradas dos pais que foram presos ou mortos.

Um ano depois do início da guerra, os casos de deportação e deslocações forçadas de civis e crianças está bastante documentado, mesmo que os números sejam muito variáveis em função das fontes que os apresentam. Os relatórios da Human Rights Watch, da Amnistia Internacional e do Humanitarian Reseach Lab da Yale School of Public Health e de várias outras Organizações Não-Governamentais e das autoridades da Ucrânia, revelam provas sólidas sobre essas práticas.

Por isso, é sem surpresa e com grande satisfação, que o TPI, perante a evidência das provas, tenha emitido um mandado de captura de Vladimir Putin e para o rosto mais visível na organização das deportações de crianças ucranianas, nas diligências para facilitar a aquisição da nacionalidade e na sua distribuição por famílias russas para adoção, a Comissária para os Direitos das Crianças, Maria Lvova-Belova.

Grande parte das deportações de civis ocorreram essencialmente a partir das regiões que foram mais fustigadas pelos bombardeamentos, como Mariupol e Kherson, não tendo, na altura, os civis que esperavam por um corredor humanitário possibilidade de ir para território seguro na Ucrânia, sendo muitas vezes transportados contra a sua vontade para a Federação Russa ou para zonas sob domínio russo, incluindo para a península ocupada da Crimeia.

As autoridades ucranianas conseguiram comprovar até ao momento 16 226 casos de crianças deportadas, não obstante o número global ser de 280 mil, num total de 1,2 milhões de deportados civis. Já as autoridades russas dizem que entraram na Federação 4,8 milhões de ucranianos, entre os quais perto de 800 mil crianças, número impossível de confirmar e que é, acima de tudo, utilizado como instrumento de propaganda. Seja como for, há um universo muito grande de civis cuja sorte se desconhece, calculando-se que haja cerca de 6 mil crianças em, pelo menos, 43 centros de reeducação na Federação Russa, alguns no extremo oposto da fronteira com a Ucrânia, e na península ocupada da Crimeia, incluindo dois onde os jovens estão a ter treino militar.

Nestes centros estará em curso um processo de "russificação", que consiste no despojamento da identidade cultural originária e corte com os contactos de familiares e amigos na Ucrânia, e a imersão na cultura russa, com aulas de língua e diversas formas de doutrinação para o patriotismo russo.

Tal como referem vários documentos, e a próprio imprensa russa retrata, trata-se de uma política de Estado bem estruturada, que tem no topo da hierarquia o presidente Vladimir Putin, com ligação direta à muito mediática comissária Maria Lvova-Belova, à comissária para os Direitos Humanos, Tatyana Moskalkova e ao ministro da Educação, Sergey Kravtsov, e, daí, para as estruturas regionais e locais, com um papel ativo dos respetivos governadores.

À luz da importância de fazer cumprir a Justiça Internacional, o TPI deu agora um passo muito importante, porque a evidência das provas de violação do Direito Internacional Humanitário é de tal modo flagrante que não há como escapar, havendo claramente elementos de crime de genocídio, tal como considerado no Estatuto de Roma e na Convenção Contra a Prevenção do Crime de Genocídio.

É este o tema central do relatório de que sou autor para a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, que será discutido e aprovado na sessão de abril, em Estrasburgo.»

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22.3.23

A Rússia cai na órbita da China

 


«Todos têm os olhos postos na Ucrânia, mas não é este o tema real da cimeira entre Vladimir Putin e Xi Jinping. Pequim e Moscovo, por esta ordem, procuram dar corpo ao que chamamos uma “nova ordem mundial”. É uma demonstração diplomática antiamericana. Mas também a prova de que a asfixia económica coloca a Rússia na órbita da China.

Os dois líderes definem a relação entre os seus países como uma “amizade sem limites”. Mas Pequim tem o cuidado de frisar que isso não significa uma “aliança”. Será mais exacto falar em “parceria estratégica”.

Washington lançou o aviso de que Pequim pode vir a fornecer armas à Rússia. Tudo indica que não o fará, pelo menos de forma directa, mantendo aquilo a que os diplomatas chamam, com ironia, “uma neutralidade pró-russa”. É esse, aliás, o sentido do seu plano de “12 pontos” para a Ucrânia.

Para Pequim, Moscovo é um instrumento de primeiro plano para a dita remodelação da ordem mundial: é uma grande potência nuclear que ajuda a equilibrar o peso dos EUA.

A China deseja tudo menos uma derrota russa, que alteraria as relações de força a favor do campo ocidental. Mas sabe que uma intervenção directa na guerra lhe traria grandes problemas, produzindo uma escalada e dando ao conflito ucraniano uma dimensão mundial. Do ponto de vista económico, a China teria muito mais a perder do que a Rússia com a generalização da instabilidade e, numa fase de grande tensão com Washington, não quer alienar por completo as relações com os europeus. O seu problema é encontrar um equilíbrio entre o fortalecimento das relações com Moscovo e os laços com os aliados da América.

Num artigo publicado num jornal de Moscovo, Xi lança uma mensagem à comunidade internacional, dirigido às médias potências do chamado "Sul global". “A comunidade internacional reconheceu que nenhum país é superior aos outros, que nenhum modelo de governação é universal e que um único país não deve ditar a ordem internacional.” Outro objectivo de Xi é oferecer um “conceito de modernização chinês”, contra a ideia de que “modernização significa ocidentalização”.

Depois do sucesso diplomático do acordo entre Riad e Teerão, Xi tem em mente países influentes como a África do Sul ou o Brasil – o Presidente Lula assinará em Pequim, neste fim-de-semana, importantes acordos comerciais.

A dependência russa

A invasão da Ucrânia desequilibrou a favor da China a relação entre os dois Estados. No plano político, Pequim reforçou a sua influência, enquanto a Rússia foi largamente ostracizada. As relações económicas conheceram um rápido surto, que foi para Moscovo um importante balão de oxigénio, minorando os efeitos das sanções internacionais, e também um maná para a economia chinesa.

No ano de 2022, a China representou quase 30% das exportações russas e 40% das importações. Com a guerra, o apetite da China pelo petróleo, gás e carvão russos cresceu desmesuradamente, sublinham os correspondentes em Pequim. E, nos primeiros dois meses deste ano, a Rússia ultrapassou a Arábia Saudita como fornecedora de petróleo à China.

Está em estudo o projecto de um segundo gasoduto, Força da Sibéria 2, de 2600km, para levar gás russo para a China. É inútil dizer que os preços são francamente favoráveis a Pequim. “Moscovo está a aprofundar uma relação assimétrica que limitará a sua soberania económica”, escreve Pierre Briançon, analista da Reuters Breakingviews. No ano de 2022, a economia sofreu uma quebra de dois por cento, desafiando as mais pessimistas previsões. “As dificuldades financeiras estão a arrastar a Rússia ainda mais para a esfera de Xi Jinping,” conclui o analista.

Não é só a soberania económica que está em causa. Escreveu há dias na Economist Alexander Gabuev, director do Carnegie Eurasia Center, de Berlim: “Na medida em que a dependência da Rússia reduz a influência do Kremlin, a China poderá pedir à Rússia maiores concessões políticas. Poderá pedir a partilha de tecnologias militares sensíveis, a aceitação da sua presença naval no Árctico russo, assim como a instalação de Exército Popular de Libertação na Ásia Central.” É a força das coisas.»





25.2.23

O que é um ponto sem retorno da história: a invasão da Ucrânia

 


«A um ano da invasão russa da Ucrânia não há maneira de fugir do tema, porque qualquer outra matéria é infinitamente menos importante. A invasão é um daqueles pontos sem retorno que na história do mundo marcam um antes e um depois, e a partir do qual nada é semelhante. Precisamos de pensar diferente, e agir de modo novo, até porque uma das características destes pontos sem retorno é serem sempre uma surpresa.

Os eventos mais importantes da história têm essa característica de não serem previsíveis, por muito que a posteriori se reconstruam sequências de causas que parecem apontar para aí. Na verdade, tanto podiam apontar no sentido do evento-surpresa como de muito outros eventos que não aconteceram. A razão desta surpresa é que há uma dimensão não-humana na história que vem da complexidade do mundo e do nome que têm estes artigos de “ruído do mundo”. Ninguém controla tudo, existe o acaso muito mais poderoso do que a necessidade e a “seta do tempo” na história não é diferente da da física: a desordem aumenta.

A invasão russa da Ucrânia vista a posteriori parece ter algumas “razões”. Os propagandistas pró-Putin repetem sempre essas razões com mais ou menos dolo. Uma é de que a guerra começou em 2014, com o “golpe” da Praça Maidan. Mesmo que se admita toda a descrição dos eventos que aparecem associados a esse “golpe”, só um, normalmente escamoteado por esses propagandistas, pode ser considerado o início da guerra, a anexação do território ucraniano da Crimeia, a que o tenebroso “Ocidente” fez vista grossa. Tudo o resto, incluindo o conteúdo anti-russo do “golpe”, está longe de justificar a invasão. A entrada da Ucrânia na NATO e na UE foi sempre recusada pelo “Ocidente”, mesmo que agora se perceba que a “razão” por que foi a Ucrânia invadida aplicava-se aos países bálticos, onde o sentimento anti-russo é virulento, e onde existe um enclave russo, mas que têm sido defendidos até agora por pertencerem à NATO.

A teorização mais ampla da invasão é uma variante da tese geopolítica de Alesandr Dugin sobre a necessidade de combater a unipolaridade resultante do fim da URSS, que implica a hegemonia de valores que são intrinsecamente anti-russos, os do capitalismo, do liberalismo político e traduzem o poder global americano. A Eurásia levantar-se-ia contra essa hegemonia com a ascensão de uma nova versão da URSS, e da China, criando um mundo multipolar em contrapartida da unipolaridade. As suas teses geopolíticas influenciam quer a extrema-direita, quer os restos do movimento comunista.

Em Portugal, Dugin foi editado muito antes da invasão, por uma pequena editora nacional-socialista – e aqui o nome não é um anátema, é mesmo o que é –, e influencia muitos artigos do Avante! e algumas publicações recentes, como o livro de Albano Nunes, um dos raros dirigentes do PCP com enormes responsabilidades na área internacional que ainda diz claramente que o derrube do capitalismo tem que ser feito “pela força”. Os comunistas, de um modo geral, não citam Dugin directamente, mas é evidente a sua influência geopolítica.

O “Ocidente” não tem as mãos limpas em muitos conflitos, particularmente no conflito israelo-árabe e no apoio político à Arábia Saudita, motivado pela necessidade de controlar as fontes de energia, fizeram asneiras trágicas no Kosovo, na Líbia, no Iraque, no Afeganistão, quase sempre com resultados inversos aos pretendidos (uma das características da frase weberiana do “ruído do mundo”), e na guerra mundial contra o terrorismo do ISIS, mas convém lembrar que o 11 de Setembro foi em Nova Iorque e não em Moscovo. Mas à data da invasão da Ucrânia o “Ocidente” estava em recuo, com a política errática de Trump e o seu isolacionismo anti-NATO, e com a renitência dos aliados europeus em cumprir as suas obrigações em despesas militares. Mais ainda: a opinião pública principalmente na Europa desligara-se do apoio à NATO e estava pouco disposta em gastar mais dinheiro na defesa.

Com a invasão, tudo mudou e esse foi talvez o maior erro de Putin. A maioria dos europeus e não só, as nações mais industrializadas do mundo, com excepção da China, conheceram um significativo crescendo da legitimação da NATO e o seu efeito imediato foi o apoio militar crescente à Ucrânia. A tudo isto acresce o apoio político: em nenhuma circunstância Putin pode ganhar a guerra que iniciou. E é isso que impede a “paz” russa e é a primeira grande consequência do ponto sem retorno da invasão.

O mundo depois da invasão russa mudou completamente, em particular a sensação de risco de guerra que induz tanto o medo como a vontade de resistir. Em Portugal, como em muitos outros países, a condenação da invasão é quase unânime e não é fruto da propaganda “ocidental” nem da desinformação. É isso, por exemplo, que num clima da contestação social impede o PCP de recuperar o que perdeu, porque o apoio, enviesado que seja, à invasão é um forte anátema junto da opinião pública, mesmo para muitos militantes do PCP. Acresce que não há nenhuma fidelidade a “princípios” que justifique a atitude ambígua face à invasão, e isto é um eufemismo, a Rússia de Putin é uma versão autocrática e imperial, eslavófila, e a ideia da Eurásia versus “Ocidente” é muito parecida com a de “espaço vital” hitleriano. Ambas têm em comum uma afirmação de valores entre o paganismo e a ortodoxia, contra a decadência do “Ocidente”, dito de outras maneiras, contra as democracias. A correlação entre a democracia e a decadência tem uma longa e sinistra história.

A partir do momento em que isso tem uma expressão militar agressiva, acabou a complacência. Não é uma guerra semelhante à Guerra Fria, é mesmo uma guerra a sério que tem que ser ganha no plano convencional. Se passar daí, é o Armagedão, mas isso também “eles” sabem.»

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