Mostrar mensagens com a etiqueta crise. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crise. Mostrar todas as mensagens

21.9.18

Dez anos de neoliberalismo mórbido



«O colapso do banco Lehman Brothers há precisamente dez anos simbolizou a eclosão da crise financeira que viria a dar origem à maior recessão mundial desde a Grande Depressão. Esta ficaria conhecida como a crise do sub-prime, em virtude da sua origem próxima nos incumprimentos ao nível dos empréstimos para habitação por parte de alguns dos segmentos relativamente mais pobres da população norte-americana. Com efeito, este segmento do mercado de crédito cedeu em primeiro lugar devido à sua especial vulnerabilidade. No período que antecedeu a crise, era comum nos Estados Unidos a concessão de empréstimos a mutuários de baixos rendimentos, com elevado risco de incumprimento e sem garantias reais (nalguns casos extremos conhecidos como empréstimos ninja: “no income, no job, no assets”) com vista à sua posterior titularização em combinação com empréstimos de menor risco. A ideia seria que o risco menor de uns compensasse o risco maior de outros, mas o processo de titularização e revenda sistemáticos fez com que o risco sistémico se tornasse cada vez maior e a vigilância fiduciária por parte das instituições de crédito cada vez menor.

No entanto, esta não é senão a primeira camada da explicação desta crise. Indo um pouco mais fundo, devemos recordar a evolução da política monetária norte-americana, que passou de muito acomodatícia nos primeiros anos deste século em resposta ao pessimismo decorrente da crise do dot.com e do 11 de Setembro a bastante contraccionista no período antes da crise. Entre 2004 e 2006, a taxa directora da Reserva Federal subiu de 1% para mais de 5%, o que terá desencadeado a catadupa de incumprimentos que levaria ao pânico generalizado e ao congelamento do crédito. Mas o Fed não esteve sozinho na adopção de uma orientação de política que, em retrospectiva, quase parece desenhada para provocar uma recessão: na zona euro, o BCE também subiu gradualmente a sua taxa directora de 2% para 4,25% entre 2005 e 2008.

Por outro lado, é também verdade que a crise financeira não teria tido as características ou a magnitude que teve sem a profunda desregulamentação do sistema financeiro que teve lugar nas décadas anteriores, cujo exemplo mais acabado terá sido provavelmente a revogação em 1999, pela administração Clinton, da Glass-Steagall Act, que datava do tempo da Grande Depressão e que impunha a separação entre as actividades de banca comercial e de investimento. Foi esta desregulamentação que permitiu a acumulação e ocultação de um risco sistémico cada vez maior a coberto de instrumentos financeiros cada vez mais bizantinos e opacos, sem contrapartidas adequadas ao nível da solidez das instituições financeiras.

Mais profundamente, porém, o enorme aumento do endividamento cuja insustentabilidade subitamente desvendada provocou a crise financeira não pode deixar de ser considerado uma consequência do projecto político de transferência de rendimento e restabelecimento do poder das elites cuja implementação remonta ao início da década de 1980 e a que damos o nome de neoliberalismo. Em grande medida, este endividamento sem precedentes correspondeu à reciclagem, sob a forma de concessão de crédito, da parte do rendimento crescentemente apropriada e acumulada pelas elites em resultado do aprofundamento da desigualdade. É nesse sentido que se pode afirmar que a crise financeira de 2007-2008 e a Grande Recessão que se lhe seguiu constituem a primeira grande crise do neoliberalismo: porque resultaram directamente da conjugação dos processos de desregulação, sobre-endividamento, financeirização e aumento da desigualdade que são característicos do neoliberalismo.

É a esta luz, mais do que com base na evolução conjuntural das taxas de crescimento, que faz sentido analisar até que ponto é que a economia global superou a crise. Se tomarmos como critério a alteração ou manutenção destes factores mais profundos, somos forçados a concluir que esta não foi ultrapassada. Embora a regulação e supervisão financeiras tenham sido aprofundadas tanto nos Estados Unidos como na Europa, a tendência actual é novamente de desregulação (por exemplo, com o processo em curso nos EUA de revogação de parte substancial dos requisitos introduzidos em 2010 pela Dodd-Frank Act em resposta à crise). E mais fundamentalmente ainda, nem os níveis de desigualdade, nem os níveis globais de endividamento, nem o enorme poder da finança sofreram qualquer tipo de redução significativa desde a crise – antes pelo contrário. A crise demonstrou os limites e vulnerabilidades do neoliberalismo, mas ao contrário do que chegou a supor-se não o pôs verdadeiramente em causa. Entretanto, a nível político, as ondas de choque da Grande Recessão incluíram a chegada ao poder por parte de um conjunto diverso de líderes de perfil iliberal e autoritário, na maior parte dos casos cavalgando o descontentamento popular resultante da própria crise. Porém, independentemente do carácter frequentemente populista dos seus discursos, as agendas políticas destes líderes continuam a servir as elites, muitas vezes de forma especialmente agressiva, pelo que eles próprios não deixam de contribuir para acentuar os factores profundos da crise. São, no fundo, sintomas mórbidos de um regime velho que resiste enquanto o novo não consegue nascer.»

.

7.8.18

Eleições na descontinuidade



«As crises de descontinuidade, aquelas em que o presente não liga o passado com o futuro, não encontram solução satisfatória através da utilização dos procedimentos eleitorais se antes da próxima data eleitoral os partidos concorrentes não tiverem feito a actualização dos seus programas e das suas propostas. Sem a orientação actualizada dos partidos, os eleitores ficarão presos nas suas memórias, porque não haverá nenhuma entidade política que os informe do que está a ser esta crise e do que a mudança vai implicar. Os eleitores têm os seus interesses e as suas expectativas e escolhem os que prometem defender os seus interesses e confirmar as suas expectativas. Quando há uma crise de descontinuidade, os interesses já não se definem nem se defendem do mesmo modo e as expectativas, pela natureza das coisas, já não vão ser confirmadas depois de tudo o que mudou.

A crise financeira de 2008 pertence ao tipo de crise de descontinuidade, mas foi tratada como se fosse um desequilíbrio temporário que poderia ser corrigido e controlado dentro da mesma estrutura de interesses e expectativas. Por isso, os debates que estimulou estabeleceram-se entre os defensores da austeridade para controlar défices e dívida, e os defensores dos estímulos ao crescimento, que também prometiam controlar défices e dívida. Como nem os défices nem a dívida foram controlados, como nem a austeridade nem o crescimento foram suficientes, será melhor admitir que a crise não era um desequilíbrio temporário, era o efeito de uma mudança de natureza nos movimentos de capitais, nos movimentos de pessoas em função dos diferenciais demográficos, nas condições de competitividade na economia mundial.

Quando hoje é evidente que Estados Unidos e Rússia, Trump e Putin, estabelecem uma aliança estratégica para fragmentar a União Europeia, apoiam os movimentos do nacionalismo populista, promovem as soluções autoritárias e a formação de barreiras alfandegárias, também se tornou evidente que os debates sobre austeridades e estímulos não captaram a natureza da crise nem anteciparam as suas consequências.»

.

2.1.18

Varoufakis: «Não se enganem, a crise continua: o euro corre perigo»



Excertos de um texto publicado em El País de hoje, a propósito de um livro de Varoufakis (Adults in the room, Comportarse como adultos em castelhano). A ler aqui na íntegra.

«Europa crece a un ritmo superior al 2%. El paro ha bajado de la cota del 9%. Los déficits mejoran. Los populismos acechan, pero de momento siguen quedándose a las puertas de llegar al Gobierno en los grandes países. Las instituciones europeas presumen, en fin, de recuperación. Sin embargo, Varoufakis desdeña todo eso – “Una reactivación cíclica”, lo llama – y brinda un mal dato por cada dato bueno. Y, sobre todo, esboza un relato mucho menos complaciente que el de las élites de la UE.

“En la fase más aguda de la crisis del euro, hubo serios riesgos de fragmentación. El BCE supo contenerlos, pero las amenazas aún existen, aunque adopten otras formas: el Brexit, una Alemania que no logra formar Gobierno, la extrema derecha en Austria, Cataluña, el hundimiento del bipartidismo en Francia y los reflejos autoritarios en Europa del Este son claros síntomas de un malestar profundo. Las grandes crisis son momentos de revelación de las fallas del sistema: en Europa le hemos visto las costuras al euro y si nada cambia la amenaza es el hundimiento gradual de lo que solíamos llamar democracia liberal”.

¿Lo peor ha pasado? No. Varoufakis, que ha fundado un nuevo partido (DiEM 25) para luchar contra ese malestar, se ríe cuando se le recuerda que el apocalipsis casi siempre defrauda a sus profetas: “Los análisis más pesimistas, entre ellos los míos, no han fallado en los últimos años; lo siento, pero es así”. ¿Lo peor ha pasado, al menos? “La situación actual me recuerda a la de 2001: veníamos de veinte años de encadenar burbujas, estalló la de las puntocom, y aun así nos las arreglamos para seguir igual y provocamos una crisis aún más grave con una burbuja aún mayor que estalló en 2008. Corremos el riesgo de volver a las andadas. En España, la deuda total va al alza. En Italia hay fuga de capitales, una crisis bancaria en ciernes, una situación política explosiva. Lo que tenemos en Grecia no puede llamarse recuperación, y la deuda es impagable. Los ejemplos son inagotables. En toda la periferia hemos cambiado empleos a tiempo completo por trabajos precarios, y con ello se ponen en peligro las pensiones futuras y las bases de la economía europea. Los desequilibrios financieros y macroeconómicos no solo no se han reducido, sino que son incluso mayores: me temo que no estamos para celebraciones. El euro, tal como está hoy, es insostenible”. (…) Varoufakis se retrata a sí mismo como una suerte de héroe trágico en su libro. Alude a algunos de los errores que cometió como miembro del Gobierno de Alexis Tsipras, aunque su capacidad de autocrítica no está a la altura de su talento literario. Y aun así merece la pena prestar atención a su análisis. “Grecia no podía aceptar ningún acuerdo sin reestructurar su deuda, que era y es insostenible. Pero a los acreedores no les interesaba que pagáramos: simplemente querían dar una lección a Grecia como aviso a otros países. Al final, desgraciadamente, Tsipras capituló. En el póquer, si tienes malas cartas, solo tienes una posibilidad de ganar si tu farol es creíble y lo mantienes hasta el final, pero si crees que el oponente no va a retirarse no deberías jugar. Estoy orgulloso del auténtico susto, aunque breve, que se llevó la troika. Pero no supimos resistir”. “Nuestra derrota tuvo unos costes enormes”, admite en el libro. “Maldigo a mi Gobierno por no haber resistido”, añade durante la conversación.»
.

31.12.15

O grande mal-estar continua



Um importante texto de Joseph E. Stiglitz.

«O ano de 2015 foi globalmente difícil. O Brasil entrou em recessão. A economia chinesa registou os seus primeiros solavancos sérios depois de quase quatro décadas de crescimento alucinante. A Zona Euro conseguiu evitar um desmoronamento à conta da Grécia, mas manteve-se numa situação de quase-estagnação, contribuindo para o que seguramente será visto como uma década perdida. Para os Estados Unidos, 2015 era suposto ser o ano que finalmente viraria a página da Grande Recessão que teve início em 2008, mas, em vez disso, a retoma norte-americana tem sido mediana. (…)

A estrutura económica desta inércia é fácil de compreender e existem remédios facilmente acessíveis. O mundo confronta-se com uma deficiência da procura agregada, resultante da conjugação de uma desigualdade crescente e de uma insensata vaga de austeridade orçamental. Os que estavam no topo gastaram muito menos do que aqueles que estavam no fundo – e, por isso, à medida que o dinheiro sobe, a procura desce. E países como a Alemanha, que mantêm excedentes externos de forma consistente, estão a contribuir significativamente para o problema-chave da insuficiência da procura global. (…)

A única cura para o mal-estar mundial reside no aumento da procura agregada. A ambiciosa redistribuição de rendimentos poderia ajudar, tal como uma profunda reforma do nosso sistema financeiro – não só para evitar que este penalize as restantes pessoas como também para conseguir que os bancos e outras instituições financeiras façam aquilo que é suposto fazerem: fazerem corresponder as poupanças de longo prazo com as necessidades de longo prazo em matéria de investimento.

Mas alguns dos problemas mundiais mais importantes exigirão investimento dos governos. Essas despesas públicas são necessárias em infra-estruturas, educação, tecnologia, ambiente e facilitação das necessárias reformas estruturais em todos os cantos do mundo.

Os obstáculos com que a economia global se confronta não têm as suas raízes na economia, mas sim na política e na ideologia. O sector privado criou a desigualdade e a degradação ambiental com que temos agora que contar. Os mercados não conseguirão, por si só, resolver estes e outros problemas críticos que criaram nem devolver a prosperidade. São necessárias políticas governamentais activas. (…)

Os optimistas dizem que 2016 será melhor do que 2015. Isso até pode vir a acontecer, mas só de forma imperceptível. Se não solucionarmos o problema da insuficiente procura agregada global, o Grande Mal-Estar vai continuar.» 
.

11.6.15

As finanças crescem como um cancro



«Es asombroso como cada semana se presentan acciones judiciales en varias partes del mundo contra el sector financiero por delitos e irregularidades, sin que se registre una reacción considerable por parte de la opinión pública.

Es sorprendente, porque esto pasa en medio de una crisis muy grave, con altos índices de desempleo, trabajo precario y un aumento sin precedentes de las desigualdades, lo que en buena medida puede atribuirse a las finanzas especulativas.

Todo comenzó en 2008 con la crisis hipotecaria y el estallido de la burbuja de los derivados financieros en Estados Unidos, seguido por la explosión de la crisis de la deuda soberana en Europa. (...) Se calcula que habrá que esperar al menos hasta 2020 para regresar a los niveles económicos existentes en 2008. Eso significa una década perdida.

Para rescatar a los bancos, el mundo ha gastado en conjunto alrededor de cuatro billones (millones de millones) de dólares sustraídos a los contribuyentes. (...)

Cabe destacar que hasta ahora, las multas acumuladas impuestas desde 2008 por el gobierno de Estados Unidos a solo cinco bancos importantes, ascienden a 250.000 millones de dólares. Pero ningún banquero ha ido a la cárcel, las multas han sido pagadas y el problema ha sido sepultado.

Cabe preguntarse si todo esto se debe a la mala conducta de algunos administradores codiciosos, o a la nueva “ética” del sector financiero. (...)

Una nueva “ética” se está instaurando y se propagará si no se interrumpe… y no es esto lo que está sucediendo. (...) La “nueva ética” es en realidad un cáncer de muy rápida metástasis.»

O texto de Roberto Savio merece ser lido na íntegra
 .

24.5.15

O fim da política como a conhecemos



«A crise financeira trouxe à tona de água muito do que se escondia no fundo dos rios de Portugal: o estilhaçar do Estado social, a corrupção endémica, a partidarização excessiva que contaminou a administração, a pobreza geral do país (económica, moral e cultural).

A crise vai contaminar os partidos políticos que se sucedem na governação desde o 25 de Abril, numa espécie de condomínio privado, como sucede mesmo aqui ao lado, em Espanha. A destruição acelerada das classes médias, que trocavam a sua segurança pelo voto no PS, PSD e CDS, está a destruir o palco fulcral destes partidos: o centro. A insegurança geral veio para ficar, porque faz parte da globalização. Por isso esquerda e direita, liberais e marxistas, estão confundidos. A política submeteu-se à gestão, os políticos aos técnicos, os visionários aos burocratas. É neste ácido sulfúrico que os partidos do sistema se estão a corroer. (...)

Há uma sociedade em mutação profunda, das relações de trabalho (e este deixou de ter o valor que tinha há décadas) aos comportamentos sociais. E os partidos não entenderam ainda que isto está a demolir os pilares da democracia como eles a entendiam e a partir da qual organizavam o seu assalto ao poder.

A fuga de portugueses deste país mostra que se ainda há uma válvula de escape, isso não durará para sempre. O neoliberalismo global está a destruir a segurança e as obrigações e vínculos. Nenhum emprego está já seguro. Nenhum sistema de segurança pode ser garantido. A "competência" atropela todos os outros valores sobre os quais as sociedades que ainda conhecemos foram construídas. É uma panela de pressão que tem todos os perigos imagináveis. Os partidos políticos portugueses, para lá dos floreados, vão um dia destes confrontar-se com isso.»

Fernando Sobral

4.1.15

O vale do desespero



Um texto de Paul Krugman, que pode ser lido, na íntegra, aqui.

Excertos:

«Digámoslo claramente: el aumento de las rentas en los países emergentes ha generado enormes mejoras en el bienestar humano, al sacar a cientos de millones de personas de la pobreza agobiante y darles una oportunidad de tener una vida mejor.

Y ahora, las malas noticias. Entre esas dos cumbres gemelas (la élite mundial cada vez más rica y la creciente clase media china) se encuentra lo que podríamos llamar el valle de la desesperación. Para la gente alrededor del percentil 20 de la distribución de la renta mundial, los ingresos han crecido, si acaso, a un ritmo lento. ¿Y quién es esa gente? Básicamente, las clases trabajadoras de los países avanzados. (...)

Los ricos ejercen una influencia enormemente desproporcionada sobre la política. Las prioridades de las élites —la preocupación obsesiva por los déficits presupuestarios, con la consiguiente supuesta necesidad de cercenar los programas públicos— han contribuido en gran medida a ahondar el valle de la desesperación. (...)

Todo esto hace pensar en algunas analogías históricas desagradables. Recordemos que esta es la segunda vez que hemos experimentado una crisis financiera global seguida por una prolongada recesión en todo el mundo. Entonces, como ahora, cualquier respuesta eficaz a la crisis fue bloqueada por las élites que exigían presupuestos equilibrados y divisas estables. Y el resultado final fue dejar el poder en manos de personas, por así decirlo, no muy agradables.

No estoy insinuando que estemos al borde de repetir al pie de la letra la década de 1930, pero sí que afirmaría que los líderes políticos y de opinión tienen que afrontar el hecho de que nuestro actual sistema mundial no está funcionando bien para todos. Es fantástico para la élite y ha sido muy positivo para los países emergentes, pero el valle de la desesperación es algo muy real. Y van a pasar cosas malas si no hacemos algo al respecto.» 
.

27.7.14

Como estamos, os portugueses



«– Insatisfeitos, pessimistas e sem esperança. 96% acham que a situação económica do país é má. Repito, 96%, um número daqueles que se costumam chamar “albaneses”. Só que neste caso é bem português. Ou seja, quase todos os portugueses descrêem do “milagre” económico que, com cada menos convicção, Passos Coelho, Portas e Pires de Lima propagam por todo o lado. Não lêem a imprensa económica, não lêem os blogues governamentais, não lêem os comentadores do Observador, não acreditam no PSD e no CDS, mesmo quando deles fazem parte. Nenhum país da Europa tem estes resultados, nem a Grécia. (...)

– Muito preocupados com o futuro. São gente sábia e razoável e realista e pensam na sua maioria que o “pior está para vir”. Os europeus, pelo contrário, acham que o pior já passou. Os franceses, os cipriotas, os eslovenos, os italianos e os gregos também acham que o pior está para vir, mas acham menos do que os portugueses. Nenhum povo da Europa tem tanto medo do futuro como os portugueses. (...)

– Não acreditam em nada, nem em ninguém. Nem nos políticos, nem na política. Quase que já não acreditam na democracia. Não têm qualquer confiança no actual Governo. 85%, repito, 85%, não têm confiança no Governo. Outro número “albanês”, mas bem português, acima de todos os outros na Europa. (...)

– Cansados de um imenso cansaço, cansados de um desesperante cansaço. Vão para férias, mas não vão ter férias. Podem mergulhar no mar, mas quando se encostam à toalha para secar, a sua cabeça não descansa. (Como é que vou pagar o carro em Setembro? Como é que vou pagar a prestação da casa? Já não posso mais receber aqueles avisos da Autoridade Tributária a explicar por um número infindo de artigos que o meu salário vai ser penhorado. Como é que vou sobreviver com a conta bancária confiscada para pagar o IRS? Como é que vou dizer à minha mulher que saio todos os dias de manhã como se fosse para o emprego, mas há um mês que fui despedido? Será que no meu serviço serei passado para a mobilidade especial? Vou ter de mudar de casa, por que não posso pagar a nova renda que o senhorio me pediu. A nossa filha entrou na universidade, mas onde é que vou arranjar o dinheiro para as propinas? Como é que vou de novo abrir o café, quando devo dinheiro a todos os fornecedores? E como vou continuar a ter o meu empregado de sempre na oficina quando ninguém paga nada? Apetece-me fugir. Fugir.)»

José Pacheco Pereira, no Público de ontem. 
.

16.7.14

É outro o nó górdio



«Em Portugal, desde há muito, o dinheiro serve para se conseguir poder e o poder serve para se conseguir dinheiro.

As elites transferiam o poder através das eleições e quem o detinha tentava nunca parecer demasiado perfeito, porque a inveja cria demasiados inimigos. Tudo sempre se resolveu pelas ligações, por não se criar riscos políticos, por nunca se ter inimigos reais. (...) Esse tempo de paz silenciosa ruiu algures em 2008 e, como sempre, as ondas de choque só se sentiram em Portugal anos depois.

A chegada ao poder de Pedro Passos Coelho trazia em si, como numa incubadora, um vírus de destruição maciça. Pensaram muitos que ele era algo que acabou por se revelar não ser. O seu alinhamento é com outros centros de poder. Por isso o poder dos banqueiros em Portugal estava condenado. Porque a austeridade foi o nó górdio dos banqueiros portugueses. O nó impossível de desatar, a dívida que não se transforma como a água em algo gasoso. Por isso, uns após outros, têm caído como um castelo de cartas. Hoje são outros mestres da magia que influenciam o poder português. Olhe-se quem faz e desfaz as leis e quem estabelece as ligações no círculo do poder. O fim do poder do GES e de Ricardo Salgado era o resultado de uma inevitabilidade: o controle do dinheiro e do poder faz-se hoje de outras maneiras. O nó górdio ata-se hoje de outra maneira.»

Fernando Sobral, no Negócios.
.

9.6.14

De regresso à barbárie



A notícia e as imagens correm mundo e o caso não é para menos: em Londres, à porta de um bloco de apartamentos, foi instalado um conjunto de picos metálicos para impedir que um sem-abrigo utilizasse o espaço para dormir.

A discussão vai longa nas redes sociais, onde as associações que se revoltam contra a iniciativa denunciam que o número de pessoas, na capital britânica, que vive nas condições da que foi agora visada, aumentou 75% nos últimos três anos.

É com pregos que se resolvem dramas sociais com esta dimensão? Parece que sim, nesta Europa do respeito pelos humanos. De regresso à barbárie, a passo acelerado.


.

29.4.14

A resolução da crise entregue ao acaso?



Sem surpresa, discordo globalmente de um texto de opinião de Joaquim Aguiar, hoje publicado no Negócios. Discordo dele há décadas mas nunca deixo de o ler (*). 

Mas realço, colocando no contexto, esta frase lapidar: « se não se rejeitar o que produziu a crise, esta será cada vez mais grave, até que a força do absurdo entregue ao acaso a resolução da crise».

«É natural que se multipliquem os protestos contra a situação. Mas se não se rejeitar o que produziu a crise, esta será cada vez mais grave, até que a força do absurdo entregue ao acaso a resolução da crise. A origem da situação está no sistema político, onde os candidatos seduzem os eleitores com as promessas que lhes apresentam e os eleitores se deixam iludir acreditando que essas promessas são realistas e realizáveis. (...) Os que protestam contra a situação estão, de facto, a protestar contra os candidatos (que seduziram pela ilusão) e contra os eleitores (que se deixaram seduzir pela ilusão).»

Creio que a frase em questão retrata bem o estado de espírito, inconsciente ou não, de uma parte significativa dos portugueses: a esperança de que um providencial acaso venha em breve salvá-los e que a tal força de um absurdo que não entendem ganhe a batalha contra ventos e marés, sem que se sintam obrigados a grandes esforços ou aventuras para nela participarem. Porque nem todos os fados acabam em tragédia e «isto há-de ir». Entretanto, vão protestando e votando (pouco) sem grandes riscos, esmagadoramente nos mesmos, porque «são todos iguais mas ainda assim..». E continuam a jogar na raspadinha. 

 (*) O link pode só funcionar mais tarde.
.

29.3.14

Da natalidade ou da falta dela



«As regressões dos nascimentos são como as regressões da poesia: dão-se quando se extingue um território de crenças e de sentimentos. É a este território que devemos atribuir a razão pela qual, nas sociedades ocidentais, a natalidade entrou em regressão, e não a critérios exclusivamente materiais.»
António Guerreiro, ípsilon, 28 Março 2014.

Bem a propósito disto:

26.1.14

Multimilionários



Clara Ferreira Alves, na Revista do Expresso, 25/1/2014

«É preciso um encontro de ricos para saber como vivem os pobres. A Oxfam apresentou um relatório sobre a distribui¬ção de recursos no mundo, de modo a ser lido e discutido durante o Fórum de Davos. O relatório conclui que as 85 pessoas mais ricas do mundo concen¬tram tantos recursos como a metade mais pobre da população mundial. (...) Em Portugal, o país mais desigual da Europa ociden¬tal, o peso dos rendimentos dos mais ricos no rendimento total do país mais do que duplicou desde 1980. (...)

No Estado democrático, a velha social-de¬mocracia ou a esquerda foram incapazes de pensar o mundo depois da revolução tecnológica, da globalização e da explosão de mão de obra barata nas economias e mercados emergentes, como antes ti¬nham sido incapazes de pensar o mundo depois da queda do Muro. Os anquilosados partidos socialistas, que tentaram adaptar-se aos tempos absorvendo as lições da expansão capitalista e financeira internacional, deixaram-se enredar num discurso que se limita a papaguear as vantagens e desvantagens da democracia igualitária, sem apresentar um único plano ou medida (como a uniformização fiscal europeia). (...)

Os funcionários políticos deixaram de ver o Estado como uma forma de poder e de enriquecimento próprio e passaram a usar o Estado como uma alavanca do poder das empresas e grupos com ambições sobre os recursos públicos. As privatizações, incluindo as privatizações de sectores estratégicos dos países, são o meio de enriquecimento ilícito de uma classe corrompida, como antes foram o poder local e a repartição de recursos e sinecuras.»
.

24.1.14

O discurso da falta de alternativas



De um texto de Gustavo Cardoso no Público de hoje:

«Défice e desigualdade, estas duas palavras encerram em si as causas, as explicações e, possivelmente, as soluções para a crise que vivemos actualmente em Portugal. Necessitamos não de uma “regra de ouro” mas sim de duas: uma para obrigar governos a limitar défices orçamentais e outra para os obrigar a limitar a desigualdade de rendimentos. (...)

A curiosidade do fenómeno da assertividade do “não haver alternativas” advém precisamente de a afirmação não ser produto de uma exaustiva procura e da consequente conclusão de que, efectivamente, "não podemos fazer senão o que estamos a fazer”. (...) A conclusão parece pois evidente: “não há alternativas” porque os que acham “não as haver” se encontram ideologicamente autolimitados em as procurar. (...)

Se tivéssemos de escolher um único, e simples, instrumento de gestão política para começar a equilibrar os nossos orçamentos e, ao mesmo tempo, lidar com o exagero psicológico que foi atribuir à “redução do défice” o papel de objectivo social último, esse deveria ser a inscrição em legislação nacional de um valor máximo de desigualdade que estamos dispostos a aceitar em Portugal e na Europa. (...)

Precisamos de crescimento económico junto com bem-estar e não de crescimento, desigualdade e mal-estar.» (Realces meus.)
.