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31.5.25

O PS e a crise da esquerda

 


«O desastre eleitoral da esquerda tem como epicentro o PS, mas vai muito mais longe do que o PS. Por razões de oportunidade política e do efeito de rebanho na comunicação social, os argumentos explicativos da AD, desenvolvidos na campanha eleitoral – a culpa foi de Pedro Nuno Santos e da sua liderança “radical”, que derrubou o Governo e colocou o PS como súbdito da “geringonça” –, tornaram-se um discurso único que acabou também por infectar o PS. Na verdade, nada disto é um argumento sério, nem Pedro Nuno Santos é um “radical”, a palavra mais abastardada destas eleições, nem o PS derrubou o Governo, que se suicidou em público, nem o PS tem uma qualquer nostalgia da “geringonça”, tem é nostalgia do Costa da maioria absoluta, que tinha um discurso nas eleições em que a ganhou claramente anti-“geringonça”.

O domínio da comunicação social pela direita fez com que este tipo de “explicações” se tornasse dominante, sem muitas vezes a percepção de que estavam a reproduzir como análise aquilo que era o argumentário da AD. Não é novidade, já aconteceu antes esta submissão a um argumentário que se torna dogmático, perdendo a origem e a marca inicial, para se tornar uma explicação útil. Uma das razões do actual sucesso da direita na comunicação social vem de ter um comentário muito mais agressivo e grupal à direita, face ao “outro” lado, muito mais mole, ou ele próprio mais próximo do argumentário de direita por razões de fracção ou luta interna. Com o eficaz lobby do Observador de um lado e do outro António José Seguro, o que é que se esperava?

A ecologia comunicacional, sendo relevante pelo seu efeito potenciador, não é a razão principal da crise da esquerda, que está presente nos resultados do PS, mas também na quase desaparição do Bloco e na sobrevivência desesperada do PCP.

Na verdade, há factores comuns na crise da democracia na Europa e nos EUA e a crise nacional, mas, no caso português, há também factores endógenos a explicá-la. Do mesmo modo que a ascensão do Chega tem a ver com o crescimento da extrema-direita noutras democracias, esta ascensão tem também de ser interpretada junto com a crise da esquerda, como um processo que tem factores comuns. Esses factores têm a ver com a crise interior dos mecanismos da democracia, a erosão das mediações na sociedade, seja da família, seja da escola, seja de sindicatos e partidos, seja mesmo das igrejas institucionais. Essa erosão dissolve mecanismos institucionais de autoridade que funcionavam com a democracia, para mediar o conflito e dar uma maior qualidade à expressão de interesses e ideias num quadro menos antagonista, individualista e solitário, e ignorante agressivamente. As redes sociais, o deslumbramento tecnológico, a crise do silêncio e do tempo lento, a moldagem dos indivíduos numa aceleração da vida, com a dissolução do conflito social no ressentimento, são hoje característicos da ecologia social que se vive nas democracias ocidentais. Ou seja, o “admirável mundo novo” em que estamos a viver e cada vez mais a entrar é hostil às democracias não por fora, mas por dentro, e por isso a ascensão de políticas de força, com homens fortes, com domínio do pathos, e a liquidação do logos e do ethos, implantadas numa vida percebida como reality show, são factores de mudança particularmente destrutivos da “paz” democrática. Não é apenas social, é educativo no sentido lato e cultural. É uma Weltanschauung, pedindo desculpa por este termo alemão que tem o mérito de ser mais rigoroso.

Ou seja, é tudo mais grave do que se pensa, vai mais fundo do que se imagina, e processos como o Chega (cujo crescimento vem também do bloqueio do crescimento da AD) e a crise da esquerda são epifenómenos. Se formos para a “juventude”, que, como se sabe, em Portugal vai até aos 35 anos infantilizados, vemos em perfeita plenitude os efeitos de uma socialização feita à margem de todas as mediações, seja da escola, seja da família, resultando no antagonismo e radicalização, na ignorância agressiva.

A esquerda há muito tempo que não percebe o que se passa à sua volta, envolveu-se em guerras culturais que perdeu e maximizaram a radicalização, perdeu identidade, subordinou-se às ideias dominantes à direita no PS, castrou-se no PCP no apoio a guerras injustas, e diminuiu-se no Bloco face a sectores radicais urbanos, o que, uma vez passada a novidade e a complacência da comunicação social, o deixou na situação de o “rei vai nu”.

Os resultados eleitorais podem oscilar para um lado ou para o outro, mas o Chega está para ficar e bloquear a governação, o PS a caminhar para ser capturado como pajem da AD, o PCP a tornar-se uma antiguidade de culto, e o Bloco a ser o partido de “todes”. Por baixo de tudo, há um Deus ex machina que move os cordelinhos, que sabe bem de mais como manipular um mundo de fragilidades, de solidão, de ignorância, convencido de que é “moderno”. Há gente que ajuda ao que está acontecer, há gente que sabe o que está a acontecer, há gente que ganha com o que está a acontecer, por isso pode e deve ser combatida em nome da democracia.»


16.2.24

O mundo cheira perigosamente a pólvora

 


«A Conferência de Segurança de Munique, um acontecimento anual que agora celebra a sua 60.ª edição, começa hoje e decorre até domingo. Como se tornou hábito, é uma reunião de alto nível. Desta vez, contará com a participação de cerca de 50 Chefes de Estado e de Governo, mais uma centena de ministros e um bom número de líderes de organizações internacionais, de académicos, de pensadores e de jornalistas de relevo internacional.

O relatório que serve de base à conferência deste ano faz um diagnóstico dos principais conflitos em curso e, em resumo, sugere duas conclusões. Primeiro, a competição geopolítica continua a agravar-se, atingindo agora um nível de intensidade e de complexidade sem precedentes desde a criação das Nações Unidas. Segundo, o restabelecimento da cooperação internacional deve ser visto como uma prioridade absoluta. Só assim será possível resolver os desafios mais perigosos, que na realidade não conhecem fronteiras e têm um impacto que não pode ser ignorado. É uma recomendação positiva, num relatório que é, na sua essência, pessimista.

Ao refletir sobre 2024, os relatores chamam sobretudo a atenção para os riscos crescentes em quatro regiões do globo. Dizem-nos que a cena internacional tem mais fogos que bombeiros, que há um acumular de crises graves por resolver e um sistema internacional que deixou de ser respeitado. É uma interrogação clara: em vez de ganharmos todos, preferimos todos perder?

Uma dessas regiões é o leste da Europa. A visão geopolítica que prevalece no Kremlin é uma ameaça que deve ser levada a sério. Consiste numa arrogância e agressividade crescentes, baseadas nas práticas antigas de primeiro inventar conflitos com os vizinhos olhados como rivais, e depois procurar resolvê-los à espadeirada. A minha leitura desta região é conhecida: ou a Rússia se retira e reconhece a soberania da Ucrânia, ou o que agora ocorre nesse país acabará por propagar-se a outros da região. Uma crise desse género traria imensos problemas à unidade da NATO e dos grandes países do mundo ocidental. Em contextos democráticos, estas alianças são mais frágeis do que dão a entender.

No Médio Oriente, que é um barril de pólvora. É uma região de grandes fraturas, onde à xenofobia e à absurdidade das decisões tomadas no século XX, se acrescentam ódios culturais e religiosos, e uma multiplicidade de fronteiras que não respeitam as identidades históricas e dão lugar a nações sem homogeneidade e sem recursos, para além do petróleo e do gás.

O que se convencionou chamar de Indo-Pacífico é outra área problemática. Exige uma atenção crescente, por poder ser o teatro de um conflito de grandes proporções à volta da questão de Taiwan e não só. Xi Jinping acaba de ser reconduzido pela terceira vez como líder do partido único e como Presidente da China, para novos mandatos de cinco anos. Terá, no termo desses mandatos, 74 anos feitos e ninguém sabe se existirão condições para ser reeleito de novo. Ora, na minha opinião, Xi quer ficar na história como o líder que conseguiu subjugar a rebelião de Taiwan. Se essa for de facto a sua ambição máxima, é muito provável que a ação militar contra Taiwan aconteça antes de 2027. E se Trump estiver na Casa Branca, distraído a perseguir os seus adversários internos, a começar pela família Biden, Xi poderá concluir que chegou o momento de avançar e inscrever o seu nome no topo da lista dos heróis da China comunista.

O Sahel forma a quarta região de profunda insegurança. Neste momento, o rol de países absolutamente inseguros inclui o Burkina Faso, o Mali e o Níger. Também deve englobar o Sudão, mergulhado que está numa guerra civil sem dó nem piedade e numa crise humanitária de proporções inimagináveis. Mas o Sudão tem sido excluído dos títulos dos media, de uma maneira inaceitável. As crises no Sahel têm todas as condições para se alastrarem, como já acontece em larga escala na Nigéria e agora no Senegal, por motivo da confusão política criada pelo presidente. No mesmo Senegal que sempre fora considerado como um exemplo de estabilidade e de democracia.

Três outros grandes temas são igualmente discutidos no relatório deste ano: as crescentes disparidades e rivalidades económicas entre diversos blocos do globo, incluindo no que respeita ao que pode acontecer com o desenvolvimento dos BRICS; as consequências das alterações climáticas sobre as relações internacionais, incluindo as migrações; e o impacto da revolução tecnológica e digital.

O relatório descreve um mundo a evoluir num sentido preocupante. E ficaria ainda pior se fosse reeleito em novembro o espectro que vagueia pelos corredores de Munique, silenciosamente, pois ninguém gosta de falar de maus espíritos. Mas novembro ainda vem muito longe e até lá tudo pode acontecer.»

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2.6.22

Eterno retorno das crises

 


«A crise implica sempre escassez de um qualquer recurso, seja ele financeiro, energético ou outro. Portugal parece viver, em períodos curtos, numa lógica de eterno retorno a essa penúria causada por diferentes fatores.

Atualmente, em consequência da guerra, vivemos uma crise de escassez de bens energéticos e alimentares, o que está a provocar a subida acelerada dos preços e uma pressão considerável sobre os orçamentos das famílias e das empresas.

Apesar de termos desprendido um dos pés das areias movediças da crise sanitária e económica provocada pela pandemia de covid-19, estamos já com o outro bem enterrado no terreno da espiral inflacionista.

Um interessante projeto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que dá pelo nome de "Crises na economia portuguesa", mostra de forma científica que o país viveu seis recessões em apenas quatro décadas, sem contar com a atual conjuntura, que indicia um eventual sétimo episódio de aperto nas finanças de todos nós. E de que crises falamos? A de 1983/84, a de 1992/93, a de 2002/03, a de 2008/09, a de 2010/13 e a de 2019/20. A primeira delas (1983/84) tem algumas semelhanças com o presente, uma vez que implicou uma alta do preço do petróleo (bem maior do que os solavancos dos últimos meses) e, por arrasto, dos bens essenciais. À semelhança de 2022, a inflação tornou-se uma dor de cabeça. O resgate da economia por parte do FMI foi inevitável.

Tal como na Física, os próximos episódios são uma incógnita, assentando no princípio da incerteza. Vamos cair numa crise resultante da espiral inflacionista? O custo de vida vai aumentar, não pelo corte dos rendimentos (como aconteceu em 2010/13), mas antes devido à escalada dos preços, sem o devido contrapeso da atualização salarial? Os pedidos de ajuda alimentar vão continuar a crescer? A crise económica e social é inevitável? A regra do eterno retorno à crise, em ciclos curtos de tempo, vai ser de novo confirmada?»

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21.3.22

A guerra aumenta a exploração

 


«Nos debates político e económico a palavra crise surge convocada, vezes sem fim, para justificar políticas duras ou injustas, independentemente de se estar apenas perante uma hipótese de crise, de esta ser encenada ou ser real. Pelo seu impacto destrutivo, pelas cargas de injustiça e violência que gera, pelo seu potencial de horrores e morte, a guerra é a crise das crises, aquela que mais assusta os seres humanos, a que mais nos subjuga, a que mais intensifica a exploração humana. Por tudo isso a exigência de que se ponha fim à guerra é a prioridade das prioridades.

Todavia, a luta pela paz não se confina ao ato de terminar a guerra. É preciso uma atenção redobrada sobre o que se altera na vida das pessoas e da sociedade, sobre o funcionamento das organizações, instituições e poderes (instituídos ou fátuos), para que a invocação oportunista dos efeitos da guerra não seja instrumento de intensificação da exploração dos povos. Se os "mecanismos" políticos, económicos e sociais que ficarem instalados aumentarem as injustiças, podemos ter a certeza de que a guerra seguinte estará mais próxima.

A recente pandemia, e agora a guerra na Ucrânia, vieram evidenciar em dimensões coincidentes ou distintas a obstrução dos canais que até hoje têm sustentado o aprofundamento dos processos de integração económica. E perspetivam-se disfunções e contradições nas cadeias de valor que não imaginávamos. Por outro lado, parte do acelerado aumento de preços de muitos produtos resulta de dinâmicas especulativas dos mercados de futuros, manipulados por grandes "consórcios" com enorme poder de mercado.

É tempo de alertas: o papel do Estado (s) não pode afunilar-se na missão de garantir lucros aos acionistas das empresas; a responsabilidade social das empresas não deve ser mero produto propagandístico; o risco não pode desaguar todo nas costas dos trabalhadores e no comum dos cidadãos; andam mal altos responsáveis do Estado que pregam a preparação dos portugueses para grandes sacrifícios, no abstrato, em vez de tudo fazerem para que cada sacrifício pedido seja cabalmente justificado.

Na sequência da invasão e guerra na Ucrânia, subiu de tom o "coro económico" de setores empresariais viciados em reivindicar apoios do Estado. Os preços sobem e aumentam custos de produção, logo, dizem-nos, que para salvar as empresas e o emprego que elas "dão", é urgente subsidiá-las ou dispensá-las de pagar impostos, num contexto em que se estão a ampliar os deveres do Estado e as áreas de investimento, em que o país necessita de uma profunda recuperação socioeconómica. Além disso, a situação que começamos a viver traz elementos novos - o processo inflacionista e outros - que exigem políticas distintas das desenhadas para a pandemia.

Os preços sem dúvida sobem, mas quem os sobe são empresas. Isto é, as empresas têm custos mais elevados porque há outras empresas que aumentam os preços, acabando as primeiras por fazer o mesmo para recuperarem a margem que perderam com o aumento dos custos. Neste processo de pescadinha de rabo na boca - em que infelizmente não falta quem aproveite para "melhorar o negócio" - as empresas mais frágeis face à concorrência tendem a perder, mas isso é improvável que aconteça com as grandes.

Uma coisa é certa, quem mais perde é quem paga o preço final dos bens de consumo e não consegue transformar esses acréscimos de custos em aumento de salário ou de pensão.»

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3.5.21

Normalidade chocante

 


«Os sinais de otimismo multiplicam-se. Setembro é apontado como sendo o começo de uma nova era. Um tempo de normalidade sanitária e, logo, social. Esse horizonte de esperança é fundamental para que evitemos depressões e receios que germinaram com a propagação da covid-19.

Ao terceiro dia sem mortes, desde o início da pandemia, rejubilámos. Curiosamente, bem longe de nós, na Índia, a palavra "caos" peca por defeito. Apesar de vivermos num mundo globalizado, muito por mérito das companhias aéreas, a verdade é que perdemos a sensibilidade quando a morte não ocorre ao nosso redor.

Seis casos da variante indiana detetados em Portugal não são suficientes para refrear as multidões de jovens que têm invadido nos últimos dias os grandes centros urbanos. Procuram desanuviar após mais de um ano de "cercas", sanitárias, mentais e sociais.

Setembro pode constituir também o começo de um desastre económico e social. Por essa altura, muitas indústrias terão já perdido a capacidade de resistir e para os trabalhadores de pouco consolo servirá o controlo da pandemia devido a uma intensa vacinação.

Atendo o telefone e do outro lado relatam-me um drama humano. Há mesmo cerimónia em dizer a palavra certa. Ocorre o mesmo quando nos referimos a uma determinada "doença prolongada". Ele, trabalhador com guia de marcha da sua empresa, desistiu. Não encontrou motivação. Ignorando o crescente controlo da pandemia, deitou a toalha ao chão. A vida não se reduz ao vírus e não salvaremos todos se o nosso foco estiver só em calibrar vacinas para matar o "bicho". Temos de estar atentos aos sinais de uma sociedade desestabilizada por um agente maligno que atua ao nível físico, mas que também tem consequências no plano psicológico. Fechámo-nos demasiado, não só em casa mas também sobre nós mesmos. Quando isolados, tudo nos parece mais negro.»

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2.9.20

Setembro chegou



… e mais pequenos restaurantes estão a fechar – o da esquerda acabou há dois dias. (Junto à Loja do Cidadão das Laranjeiras em Lisboa.)
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23.4.20

Talvez nos safemos, sei lá!



Estava eu hoje na rua, numa das poucas actividades que me são permitidas, numa curta fila à porta de um estabelecimento que fornece bens alimentares, quando vi, mesmo ao lado, uma modesta lojeca aberta, que não me pareceu fazer parte do conjunto de excepções para encerramento obrigatório (o que eu via eram flores de plástico e outras bugigangas similares). Meti conversa com a dona, que estava à porta, e comentei o facto simpaticamente.

- Olhe, pus-me a fazer máscaras e colei um papel no vidro a anunciar. Se vierem chatear-me, digo que estou a contribuir para o bem. E sempre vou vendendo outras coisitas, sabe, e talvez me safe, sei lá!

Quem quiser que atire a primeira pedra.
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5.11.19

«Não são 30 pesos. São 30 anos!»



«30 pesos chilenos – menos de oito cêntimos – foi o valor do aumento do preço do bilhete de metro que despoletou a onda de protesto no Chile no passado dia 18. O governo respondeu: “São só 30 pesos.” Mas os chilenos retorquiram, em massa e nas ruas: “Não são 30 pesos. São 30 anos!” Os protestos no Chile não são um caso isolado. Nas últimas semanas, milhões de manifestantes saíram à rua um pouco por todo o mundo. Em Hong Kong, Londres, Barcelona, Beirute, Cairo, milhões manifestaram-se contra o sistema de poder instituído. Quase sempre com a ajuda das redes sociais. Muitas vezes com violência. É a maior onda global de protesto desde a que levou à queda do Muro de Berlim em 1989. Nestes 30 anos, centenas de milhões saíram da pobreza. Mas muitos mais sentiram ficar para trás em sociedades cada vez mais desiguais.

A desigualdade corrói as fundações da sociedade. Transforma comunidades coesas em territórios segregados. Divide populações entre aqueles que têm um emprego para a vida e os resignados a uma vida de precariedade. Separa gerações, roubando aos mais jovens a esperança de um futuro melhor do que o dos seus pais e dos seus avós. O aumento de 30 pesos no metro de Santiago foi, deste ponto de vista, apenas a gota de água que fez transbordar um copo há muito cheio. O Chile é, convém não esquecer, a décima sociedade mais desigual do mundo.

Mas se há uma coisa que salta à vista é que não há uma causa comum a estes protestos. Não existe tão pouco uma agenda comum. Sim, estes protestos coincidem no tempo e muitos deles partilham símbolos e estratégias. Mas a verdade é que a presente onda global de protesto é, no fundamental, uma onda sem história. Pelo menos, não existe uma narrativa coerente que a sustente. Uma grande narrativa de que faça parte e lhe dê sentido. Uma grande narrativa como as ideologias que, ao longo dos séculos XIX e XX, ajudaram a animar o movimento abolicionista, o movimento dos trabalhadores, as sufragistas, o movimento pelos direitos civis, os movimentos de libertação nacional, entre tantos outros. Por mais paradoxal que possa parecer à primeira vista, esta ausência é um sinal dos nossos tempos. Vivemos em sociedades “líquidas”, sem estabilidade nem raízes profundas. Vivemos em nódulos de uma rede global, em que a competição por um local de trabalho há muito que deixou de ser local para ser global. Vivemos num mundo em que a esperança no progresso foi substituída por um futuro que se confunde, tantas vezes, com a distopia e a catástrofe. Esta incerteza, esta competição desenfreada, esta falta de esperança num futuro melhor – quem mais sofre com elas? A resposta a esta pergunta leva-nos ao cerne do que está aqui em causa.

Com efeito, se olharmos com atenção, há um denominador comum a todos estes movimentos de revolta e protesto – são quase sempre jovens que estão na linha da frente.

Foram jovens, como a sueca Greta Thunberg, que se tornaram na face mais visível de um problema que nos afeta a todos – as alterações climáticas. Mas, na esmagadora maioria dos casos, são jovens anónimos que estão na linha da frente. São jovens anónimos, muitas vezes Anonymous, que estão a lutar pela democracia e pelos direitos humanos nas ruas de Hong Kong. No Líbano, quem primeiro saiu à rua para protestar contra o governo de Hariri foram jovens: duas semanas depois, o governo caiu. O mesmo se passa nas Américas, onde, para além do Chile, o Equador e o Haiti têm sido palco de protestos, muitas vezes violentos. Um pouco por todo o mundo, têm sido os jovens a tomar a dianteira nos protestos contra os problemas do nosso tempo.

São problemas que afetam todas as gerações. Donde que nem todos os manifestantes sejam jovens. Mas são os jovens quem mais têm a perder e quem mais sente estar a ser prejudicado pelas mudanças dos últimos 30 anos.

Portugal tem-se mantido à margem desta onda global de protesto. Mas os jovens portugueses têm tantas razões de queixa como os outros. É certo que é difícil mobilizar os mais novos para as formas tradicionais de participação política: votar, assinar petições, filiar-se em partidos políticos. É assim em Portugal, como em qualquer outra democracia consolidada. Isto não significa que os jovens estejam necessariamente alheados da coisa pública. Significa apenas que, como qualquer nova geração, esta ainda está a criar o seu próprio repertório de instrumentos de intervenção política. A voz desta nova geração já se está a fazer ouvir, porém. Por vezes, com recurso a soluções clássicas de protesto, noutras de forma inovadora. Por exemplo, quem diria que o lema de Bruce Lee – “be water, my friend” – viria a transformar-se numa estratégia eficaz contra a repressão policial no mesmo palco – Hong Kong – que o transformou numa lenda do cinema de ação? Seria, portanto, um erro ver na ausência de uma grande narrativa um sinal de taticismo.

Pelo contrário, eu diria, esta é justamente uma das grandes inovações que esta nova geração tem para nos dar. A recusa de jogar com narrativas herdadas do passado é sinal de que querem escrever o seu próprio destino. A julgar pela onda de protestos atual, estão dispostos a ir até às últimas consequências para fazê-lo. Mas, para a maioria de nós, cuidar do ambiente, combater a desigualdade, voltar a ter esperança no futuro são causas pelas quais vale a pena lutar; não há aqui qualquer razão para uma divisão geracional. É certo que há obstáculos pela frente. Por exemplo, entre nós, urge fortalecer os princípios de justiça inter-geracional de modo a evitar que o nosso Estado Social continue a beneficiar desproporcionalmente as gerações mais velhas – em prejuízo das mais novas, e da própria sustentabilidade do sistema como um todo. Este, como tantos outros, são problemas que nos afetam a todos. Ainda que sejam os jovens quem parece estar a tomar a dianteira em resolvê-los.»

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5.6.19

O regime da crise na crise do regime



«Que cada um puxa a brasa à sua sardinha, essa é uma velha lei da Humanidade e ninguém será exceção (muito menos este cronista, a bem dizer). No entanto, essa sabedoria não basta para interpretar a pequena quezília provocada pela declaração do Presidente numa sessão na Fundação Luso-Americana, onde antecipou uma longa crise das direitas. Poderia resumir-se tudo a um Presidente que teme o desequilíbrio do sistema político e que sabe que, nesse caso, a cooperação com o Governo do PS, no que alguém chamou um “bloco central institucional”, passaria a ser desvalorizada pelo predomínio do primeiro-ministro depois de uma vitória por larga margem, ou a um líder do PSD que, na emergência, se refugia em banalidades sobre uma crise universal dos regimes políticos para evitar comentar a perspetiva do seu partido, ou a uma líder do CDS que só quer que as festas juninas cheguem o mais depressa possível.

Poderiam acrescentar-se os disparos de alguns avulsos históricos do PSD contra Marcelo, e nem foram muitos e nem sequer expressivos, que vieram pedir contenção ou outras rimas. Ficamos então com uma conversa em circuito fechado, que se esboroará logo que os resultados das eleições de outubro destaparem a incapacidade da direita em criar polarizações políticas, em sair do seu passado amargurado – tudo isto navega em torno do ansiado regresso de Passos Coelho, o que já diz tudo sobre a novidade que a direita apresenta ao país – e em disputar o centro, onde o PS se instalou solidamente.

Ora, há nisto ainda mais fogo do que fumo. a UE é o alfa e o ómega de toda a ideologia e política das direitas e do centro, obrigando-os a uma convivência comprometedora, esta instabilidade destapa as suas Há de facto uma crise de regime e é em vários países, crise larvar nuns casos, explosiva noutros. Pelo menos na União Europeia é assim, ainda havemos de ver que solução é alcançada para os cargos da Comissão, do Conselho e do BCE. E, como dificuldades estruturais. Em vários dos países mais poderosos já não se sabe o que é o regime, nem quais são os partidos, nem qual o caminho imediato. Amontoam-se fantasmagorias, os tratados são substituídos por atos discricionários, a economia é incompetente, os entendimentos são minúsculos e as soluções são perversas, da imigração à moeda, os dirigentes são um susto. Ainda por cima, a nossa crise de regime nacional tem ainda outros contornos, além da contaminação europeia. O modelo atual, adiando a restruturação da dívida para uma gestão de curto prazo das contas públicas, impõe restrições pesadas ao desenvolvimento social e à reconversão energética, como se vai verificando pelo estertor de alguns serviços públicos e pela falta de investimento noutros, apesar do alívio nas bolsas de quem trabalha. Dez anos de restrições (ou vinte, no caso da ferrovia) têm um preço elevado em hospitais, escolas e transportes, que rebentam pelas costuras. Não sei por isso que vantagem consegue a direita ao sugerir que há uma crise de regime, para alegar que a coisa é mais vasta do que as suas misérias correntes: lembra simplesmente que andou por aí a fazer das suas e, no melhor dos casos, limita-se a exibir aquele argumento trivial de que são todos culpados.

Então, se há uma crise de regime, há um regime de crise nessa crise de regime. E é isso que atinge a direita e, aliás, pode não poupar o centro, assim como constitui um desafio às esquerdas. Começo pelas direitas: o regime de crise é essa forma de ser em que a direita se limita a ensaiar truques para se safar. As campanhas de Nuno Melo e de Paulo Rangel foram exemplares a este respeito. Houve muitas fotos, casos, acusações, a política foi substituída pelo frenesim. Vai continuar a ser assim. Tenho escrito, e estou cada vez mais convencido disso, de que o efeito Trump ou Steve Bannon vai ser profundíssimo nas direitas, vão imitar as tecnologias tóxicas (quem foi que lançou o sms anunciando a eleição do Basta! e do Aliança na tarde do domingo das eleições?), vão radicalizar as políticas (a “ideologia de género” é repetida pelos mais inesperados bolsominions), vão tentar criar uma agenda de “corrupção”, vão multiplicar o ódio, vão entrar nos debates ao tiroteio. Foi um fiasco nas europeias e, em vez de ficar de lição, a parada será aumentada nas legislativas. A crise das direitas, como adivinhou o Presidente, veio para ficar, vai substituir os dirigentes atuais, vai redirecionar as políticas destes partidos e será para pior. Este regime de crise é um caminho em que não se volta atrás.

No centro, a questão não é menor. O regime da crise é neste caso a substituição da política pela ânsia do poder absoluto. Maioria absoluta ou morte, é uma chantagem que já foi ensaiada na crise da demissão do Governo por causa dos professores, episódio caricato que mostra até onde se pode chegar neste desvario. Agora acumulam-se os erros de presunção: a escolha da lista para as europeias teve o seu preço, o afastamento forçado de Ferro Rodrigues poderá ter mais ainda, e o deslumbramento de alguns dos dirigentes socialistas e opositores dos acordos com a esquerda, que agora namoram a ideia de uma aliança PS-PAN, desmerecendo o PAN como se se tratasse de um novo Daniel Campelo, diz muito da forma descuidada e impante como se tratam as respostas que um partido deve ao país. Percebo a pressa: intuindo tempos difíceis e uma União em desgaste, com tensões económicas e custos adicionais para manter o status quo das políticas sociais, o Governo quer ganhar margem de manobra que evite as pressões da esquerda e lhe permita desenvencilhar-se com uma navegação à vista, regressando ao que sempre gostou de ser. Assim, o PS, erigido em partido do regime, quer voltar ao mais subtil e perigoso dos seus inimigos, ele próprio.

Finalmente, o regime da crise não poupará as esquerdas. Exige-lhes que apresentem propostas consistentes e gente capaz de responder à crise do regime. O regime da crise, neste caso, é o duplo desafio de manter a sua representação social e de ampliar o seu espaço de ação para passar a ser protagonista das alternativas. Se a direita vai viver os seus anos de crise, a esquerda deve passar a ser a condição da política portuguesa. Veremos se é capaz.»

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21.9.18

Dez anos de neoliberalismo mórbido



«O colapso do banco Lehman Brothers há precisamente dez anos simbolizou a eclosão da crise financeira que viria a dar origem à maior recessão mundial desde a Grande Depressão. Esta ficaria conhecida como a crise do sub-prime, em virtude da sua origem próxima nos incumprimentos ao nível dos empréstimos para habitação por parte de alguns dos segmentos relativamente mais pobres da população norte-americana. Com efeito, este segmento do mercado de crédito cedeu em primeiro lugar devido à sua especial vulnerabilidade. No período que antecedeu a crise, era comum nos Estados Unidos a concessão de empréstimos a mutuários de baixos rendimentos, com elevado risco de incumprimento e sem garantias reais (nalguns casos extremos conhecidos como empréstimos ninja: “no income, no job, no assets”) com vista à sua posterior titularização em combinação com empréstimos de menor risco. A ideia seria que o risco menor de uns compensasse o risco maior de outros, mas o processo de titularização e revenda sistemáticos fez com que o risco sistémico se tornasse cada vez maior e a vigilância fiduciária por parte das instituições de crédito cada vez menor.

No entanto, esta não é senão a primeira camada da explicação desta crise. Indo um pouco mais fundo, devemos recordar a evolução da política monetária norte-americana, que passou de muito acomodatícia nos primeiros anos deste século em resposta ao pessimismo decorrente da crise do dot.com e do 11 de Setembro a bastante contraccionista no período antes da crise. Entre 2004 e 2006, a taxa directora da Reserva Federal subiu de 1% para mais de 5%, o que terá desencadeado a catadupa de incumprimentos que levaria ao pânico generalizado e ao congelamento do crédito. Mas o Fed não esteve sozinho na adopção de uma orientação de política que, em retrospectiva, quase parece desenhada para provocar uma recessão: na zona euro, o BCE também subiu gradualmente a sua taxa directora de 2% para 4,25% entre 2005 e 2008.

Por outro lado, é também verdade que a crise financeira não teria tido as características ou a magnitude que teve sem a profunda desregulamentação do sistema financeiro que teve lugar nas décadas anteriores, cujo exemplo mais acabado terá sido provavelmente a revogação em 1999, pela administração Clinton, da Glass-Steagall Act, que datava do tempo da Grande Depressão e que impunha a separação entre as actividades de banca comercial e de investimento. Foi esta desregulamentação que permitiu a acumulação e ocultação de um risco sistémico cada vez maior a coberto de instrumentos financeiros cada vez mais bizantinos e opacos, sem contrapartidas adequadas ao nível da solidez das instituições financeiras.

Mais profundamente, porém, o enorme aumento do endividamento cuja insustentabilidade subitamente desvendada provocou a crise financeira não pode deixar de ser considerado uma consequência do projecto político de transferência de rendimento e restabelecimento do poder das elites cuja implementação remonta ao início da década de 1980 e a que damos o nome de neoliberalismo. Em grande medida, este endividamento sem precedentes correspondeu à reciclagem, sob a forma de concessão de crédito, da parte do rendimento crescentemente apropriada e acumulada pelas elites em resultado do aprofundamento da desigualdade. É nesse sentido que se pode afirmar que a crise financeira de 2007-2008 e a Grande Recessão que se lhe seguiu constituem a primeira grande crise do neoliberalismo: porque resultaram directamente da conjugação dos processos de desregulação, sobre-endividamento, financeirização e aumento da desigualdade que são característicos do neoliberalismo.

É a esta luz, mais do que com base na evolução conjuntural das taxas de crescimento, que faz sentido analisar até que ponto é que a economia global superou a crise. Se tomarmos como critério a alteração ou manutenção destes factores mais profundos, somos forçados a concluir que esta não foi ultrapassada. Embora a regulação e supervisão financeiras tenham sido aprofundadas tanto nos Estados Unidos como na Europa, a tendência actual é novamente de desregulação (por exemplo, com o processo em curso nos EUA de revogação de parte substancial dos requisitos introduzidos em 2010 pela Dodd-Frank Act em resposta à crise). E mais fundamentalmente ainda, nem os níveis de desigualdade, nem os níveis globais de endividamento, nem o enorme poder da finança sofreram qualquer tipo de redução significativa desde a crise – antes pelo contrário. A crise demonstrou os limites e vulnerabilidades do neoliberalismo, mas ao contrário do que chegou a supor-se não o pôs verdadeiramente em causa. Entretanto, a nível político, as ondas de choque da Grande Recessão incluíram a chegada ao poder por parte de um conjunto diverso de líderes de perfil iliberal e autoritário, na maior parte dos casos cavalgando o descontentamento popular resultante da própria crise. Porém, independentemente do carácter frequentemente populista dos seus discursos, as agendas políticas destes líderes continuam a servir as elites, muitas vezes de forma especialmente agressiva, pelo que eles próprios não deixam de contribuir para acentuar os factores profundos da crise. São, no fundo, sintomas mórbidos de um regime velho que resiste enquanto o novo não consegue nascer.»

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7.8.18

Eleições na descontinuidade



«As crises de descontinuidade, aquelas em que o presente não liga o passado com o futuro, não encontram solução satisfatória através da utilização dos procedimentos eleitorais se antes da próxima data eleitoral os partidos concorrentes não tiverem feito a actualização dos seus programas e das suas propostas. Sem a orientação actualizada dos partidos, os eleitores ficarão presos nas suas memórias, porque não haverá nenhuma entidade política que os informe do que está a ser esta crise e do que a mudança vai implicar. Os eleitores têm os seus interesses e as suas expectativas e escolhem os que prometem defender os seus interesses e confirmar as suas expectativas. Quando há uma crise de descontinuidade, os interesses já não se definem nem se defendem do mesmo modo e as expectativas, pela natureza das coisas, já não vão ser confirmadas depois de tudo o que mudou.

A crise financeira de 2008 pertence ao tipo de crise de descontinuidade, mas foi tratada como se fosse um desequilíbrio temporário que poderia ser corrigido e controlado dentro da mesma estrutura de interesses e expectativas. Por isso, os debates que estimulou estabeleceram-se entre os defensores da austeridade para controlar défices e dívida, e os defensores dos estímulos ao crescimento, que também prometiam controlar défices e dívida. Como nem os défices nem a dívida foram controlados, como nem a austeridade nem o crescimento foram suficientes, será melhor admitir que a crise não era um desequilíbrio temporário, era o efeito de uma mudança de natureza nos movimentos de capitais, nos movimentos de pessoas em função dos diferenciais demográficos, nas condições de competitividade na economia mundial.

Quando hoje é evidente que Estados Unidos e Rússia, Trump e Putin, estabelecem uma aliança estratégica para fragmentar a União Europeia, apoiam os movimentos do nacionalismo populista, promovem as soluções autoritárias e a formação de barreiras alfandegárias, também se tornou evidente que os debates sobre austeridades e estímulos não captaram a natureza da crise nem anteciparam as suas consequências.»

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2.1.18

Varoufakis: «Não se enganem, a crise continua: o euro corre perigo»



Excertos de um texto publicado em El País de hoje, a propósito de um livro de Varoufakis (Adults in the room, Comportarse como adultos em castelhano). A ler aqui na íntegra.

«Europa crece a un ritmo superior al 2%. El paro ha bajado de la cota del 9%. Los déficits mejoran. Los populismos acechan, pero de momento siguen quedándose a las puertas de llegar al Gobierno en los grandes países. Las instituciones europeas presumen, en fin, de recuperación. Sin embargo, Varoufakis desdeña todo eso – “Una reactivación cíclica”, lo llama – y brinda un mal dato por cada dato bueno. Y, sobre todo, esboza un relato mucho menos complaciente que el de las élites de la UE.

“En la fase más aguda de la crisis del euro, hubo serios riesgos de fragmentación. El BCE supo contenerlos, pero las amenazas aún existen, aunque adopten otras formas: el Brexit, una Alemania que no logra formar Gobierno, la extrema derecha en Austria, Cataluña, el hundimiento del bipartidismo en Francia y los reflejos autoritarios en Europa del Este son claros síntomas de un malestar profundo. Las grandes crisis son momentos de revelación de las fallas del sistema: en Europa le hemos visto las costuras al euro y si nada cambia la amenaza es el hundimiento gradual de lo que solíamos llamar democracia liberal”.

¿Lo peor ha pasado? No. Varoufakis, que ha fundado un nuevo partido (DiEM 25) para luchar contra ese malestar, se ríe cuando se le recuerda que el apocalipsis casi siempre defrauda a sus profetas: “Los análisis más pesimistas, entre ellos los míos, no han fallado en los últimos años; lo siento, pero es así”. ¿Lo peor ha pasado, al menos? “La situación actual me recuerda a la de 2001: veníamos de veinte años de encadenar burbujas, estalló la de las puntocom, y aun así nos las arreglamos para seguir igual y provocamos una crisis aún más grave con una burbuja aún mayor que estalló en 2008. Corremos el riesgo de volver a las andadas. En España, la deuda total va al alza. En Italia hay fuga de capitales, una crisis bancaria en ciernes, una situación política explosiva. Lo que tenemos en Grecia no puede llamarse recuperación, y la deuda es impagable. Los ejemplos son inagotables. En toda la periferia hemos cambiado empleos a tiempo completo por trabajos precarios, y con ello se ponen en peligro las pensiones futuras y las bases de la economía europea. Los desequilibrios financieros y macroeconómicos no solo no se han reducido, sino que son incluso mayores: me temo que no estamos para celebraciones. El euro, tal como está hoy, es insostenible”. (…) Varoufakis se retrata a sí mismo como una suerte de héroe trágico en su libro. Alude a algunos de los errores que cometió como miembro del Gobierno de Alexis Tsipras, aunque su capacidad de autocrítica no está a la altura de su talento literario. Y aun así merece la pena prestar atención a su análisis. “Grecia no podía aceptar ningún acuerdo sin reestructurar su deuda, que era y es insostenible. Pero a los acreedores no les interesaba que pagáramos: simplemente querían dar una lección a Grecia como aviso a otros países. Al final, desgraciadamente, Tsipras capituló. En el póquer, si tienes malas cartas, solo tienes una posibilidad de ganar si tu farol es creíble y lo mantienes hasta el final, pero si crees que el oponente no va a retirarse no deberías jugar. Estoy orgulloso del auténtico susto, aunque breve, que se llevó la troika. Pero no supimos resistir”. “Nuestra derrota tuvo unos costes enormes”, admite en el libro. “Maldigo a mi Gobierno por no haber resistido”, añade durante la conversación.»
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31.12.15

O grande mal-estar continua



Um importante texto de Joseph E. Stiglitz.

«O ano de 2015 foi globalmente difícil. O Brasil entrou em recessão. A economia chinesa registou os seus primeiros solavancos sérios depois de quase quatro décadas de crescimento alucinante. A Zona Euro conseguiu evitar um desmoronamento à conta da Grécia, mas manteve-se numa situação de quase-estagnação, contribuindo para o que seguramente será visto como uma década perdida. Para os Estados Unidos, 2015 era suposto ser o ano que finalmente viraria a página da Grande Recessão que teve início em 2008, mas, em vez disso, a retoma norte-americana tem sido mediana. (…)

A estrutura económica desta inércia é fácil de compreender e existem remédios facilmente acessíveis. O mundo confronta-se com uma deficiência da procura agregada, resultante da conjugação de uma desigualdade crescente e de uma insensata vaga de austeridade orçamental. Os que estavam no topo gastaram muito menos do que aqueles que estavam no fundo – e, por isso, à medida que o dinheiro sobe, a procura desce. E países como a Alemanha, que mantêm excedentes externos de forma consistente, estão a contribuir significativamente para o problema-chave da insuficiência da procura global. (…)

A única cura para o mal-estar mundial reside no aumento da procura agregada. A ambiciosa redistribuição de rendimentos poderia ajudar, tal como uma profunda reforma do nosso sistema financeiro – não só para evitar que este penalize as restantes pessoas como também para conseguir que os bancos e outras instituições financeiras façam aquilo que é suposto fazerem: fazerem corresponder as poupanças de longo prazo com as necessidades de longo prazo em matéria de investimento.

Mas alguns dos problemas mundiais mais importantes exigirão investimento dos governos. Essas despesas públicas são necessárias em infra-estruturas, educação, tecnologia, ambiente e facilitação das necessárias reformas estruturais em todos os cantos do mundo.

Os obstáculos com que a economia global se confronta não têm as suas raízes na economia, mas sim na política e na ideologia. O sector privado criou a desigualdade e a degradação ambiental com que temos agora que contar. Os mercados não conseguirão, por si só, resolver estes e outros problemas críticos que criaram nem devolver a prosperidade. São necessárias políticas governamentais activas. (…)

Os optimistas dizem que 2016 será melhor do que 2015. Isso até pode vir a acontecer, mas só de forma imperceptível. Se não solucionarmos o problema da insuficiente procura agregada global, o Grande Mal-Estar vai continuar.» 
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11.6.15

As finanças crescem como um cancro



«Es asombroso como cada semana se presentan acciones judiciales en varias partes del mundo contra el sector financiero por delitos e irregularidades, sin que se registre una reacción considerable por parte de la opinión pública.

Es sorprendente, porque esto pasa en medio de una crisis muy grave, con altos índices de desempleo, trabajo precario y un aumento sin precedentes de las desigualdades, lo que en buena medida puede atribuirse a las finanzas especulativas.

Todo comenzó en 2008 con la crisis hipotecaria y el estallido de la burbuja de los derivados financieros en Estados Unidos, seguido por la explosión de la crisis de la deuda soberana en Europa. (...) Se calcula que habrá que esperar al menos hasta 2020 para regresar a los niveles económicos existentes en 2008. Eso significa una década perdida.

Para rescatar a los bancos, el mundo ha gastado en conjunto alrededor de cuatro billones (millones de millones) de dólares sustraídos a los contribuyentes. (...)

Cabe destacar que hasta ahora, las multas acumuladas impuestas desde 2008 por el gobierno de Estados Unidos a solo cinco bancos importantes, ascienden a 250.000 millones de dólares. Pero ningún banquero ha ido a la cárcel, las multas han sido pagadas y el problema ha sido sepultado.

Cabe preguntarse si todo esto se debe a la mala conducta de algunos administradores codiciosos, o a la nueva “ética” del sector financiero. (...)

Una nueva “ética” se está instaurando y se propagará si no se interrumpe… y no es esto lo que está sucediendo. (...) La “nueva ética” es en realidad un cáncer de muy rápida metástasis.»

O texto de Roberto Savio merece ser lido na íntegra. 
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24.5.15

O fim da política como a conhecemos



«A crise financeira trouxe à tona de água muito do que se escondia no fundo dos rios de Portugal: o estilhaçar do Estado social, a corrupção endémica, a partidarização excessiva que contaminou a administração, a pobreza geral do país (económica, moral e cultural).

A crise vai contaminar os partidos políticos que se sucedem na governação desde o 25 de Abril, numa espécie de condomínio privado, como sucede mesmo aqui ao lado, em Espanha. A destruição acelerada das classes médias, que trocavam a sua segurança pelo voto no PS, PSD e CDS, está a destruir o palco fulcral destes partidos: o centro. A insegurança geral veio para ficar, porque faz parte da globalização. Por isso esquerda e direita, liberais e marxistas, estão confundidos. A política submeteu-se à gestão, os políticos aos técnicos, os visionários aos burocratas. É neste ácido sulfúrico que os partidos do sistema se estão a corroer. (...)

Há uma sociedade em mutação profunda, das relações de trabalho (e este deixou de ter o valor que tinha há décadas) aos comportamentos sociais. E os partidos não entenderam ainda que isto está a demolir os pilares da democracia como eles a entendiam e a partir da qual organizavam o seu assalto ao poder.

A fuga de portugueses deste país mostra que se ainda há uma válvula de escape, isso não durará para sempre. O neoliberalismo global está a destruir a segurança e as obrigações e vínculos. Nenhum emprego está já seguro. Nenhum sistema de segurança pode ser garantido. A "competência" atropela todos os outros valores sobre os quais as sociedades que ainda conhecemos foram construídas. É uma panela de pressão que tem todos os perigos imagináveis. Os partidos políticos portugueses, para lá dos floreados, vão um dia destes confrontar-se com isso.»

Fernando Sobral
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4.1.15

O vale do desespero



Um texto de Paul Krugman, que pode ser lido, na íntegra, aqui.

Excertos:

«Digámoslo claramente: el aumento de las rentas en los países emergentes ha generado enormes mejoras en el bienestar humano, al sacar a cientos de millones de personas de la pobreza agobiante y darles una oportunidad de tener una vida mejor.

Y ahora, las malas noticias. Entre esas dos cumbres gemelas (la élite mundial cada vez más rica y la creciente clase media china) se encuentra lo que podríamos llamar el valle de la desesperación. Para la gente alrededor del percentil 20 de la distribución de la renta mundial, los ingresos han crecido, si acaso, a un ritmo lento. ¿Y quién es esa gente? Básicamente, las clases trabajadoras de los países avanzados. (...)

Los ricos ejercen una influencia enormemente desproporcionada sobre la política. Las prioridades de las élites —la preocupación obsesiva por los déficits presupuestarios, con la consiguiente supuesta necesidad de cercenar los programas públicos— han contribuido en gran medida a ahondar el valle de la desesperación. (...)

Todo esto hace pensar en algunas analogías históricas desagradables. Recordemos que esta es la segunda vez que hemos experimentado una crisis financiera global seguida por una prolongada recesión en todo el mundo. Entonces, como ahora, cualquier respuesta eficaz a la crisis fue bloqueada por las élites que exigían presupuestos equilibrados y divisas estables. Y el resultado final fue dejar el poder en manos de personas, por así decirlo, no muy agradables.

No estoy insinuando que estemos al borde de repetir al pie de la letra la década de 1930, pero sí que afirmaría que los líderes políticos y de opinión tienen que afrontar el hecho de que nuestro actual sistema mundial no está funcionando bien para todos. Es fantástico para la élite y ha sido muy positivo para los países emergentes, pero el valle de la desesperación es algo muy real. Y van a pasar cosas malas si no hacemos algo al respecto.» 
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