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18.2.19

Provar do veneno no meio da tempestade



«Quando o Presidente chinês foi recebido como um herói pelas autoridades portuguesas, uma das cerimónias mais notadas foi a assinatura de 17 protocolos e acordos entre as duas partes. Havia de tudo: entre os donos e as suas empresas, fica sempre bem, como foi o caso entre a Three Gorges e a EDP ou entre a State Grid e a REN, com a particularidade que não deixa de ser notada de haver mais uma oficialização da relação estabelecida pela privatização e venda ao Estado chinês, a propriedade da energia portuguesa passa a ser uma questão diplomática; entre a CGD e o Banco da China; entre a RTP e uma congénere; com universidades para o ensino do mandarim; de exportação de uva de mesa; e, para mostrar que não se esquece a boa vontade partidária, entre as câmaras de Tinjin e de Setúbal. Mas o acordo mais importante, rubricado sob os sorrisos do nosso primeiro-ministro e do Presidente chinês, foi entre a Altice/MEO e a Huawei, o gigante chinês que está a investir na tecnologia 5G, e que assim cresceria em Portugal na base desta parceria.


Posso, quero e mando

Poucos dias depois desta feliz assinatura, a diretora financeira da empresa chinesa e filha do seu presidente foi detida no Canadá, havendo um procedimento para extradição para os Estados Unidos. A acusação, que talvez seja o que menos importa, é de violação das sanções norte-americanas contra o Irão.

O Governo dos EUA faz assim demonstração de dois poderes. O poder de perseguir criminalmente quem quer que seja e onde quer que seja em função das suas próprias decisões (a União Europeia recusou as sanções contra o Irão, em função de um acordo de que os norte-americanos se retiraram por ordem de Trump) e a vontade de preservar o controlo sobre uma tecnologia de ponta, que será decisiva para os processos de automação no futuro imediato. Alegando riscos de segurança para o seu país, os governos da Austrália, Nova Zelândia, Japão e Reino Unido anularam ou impediram os contratos com a Huawei para o fornecimento de serviços nesta área. A Universidade de Oxford rescindiu acordos com financiamentos para projetos de investigação, patrocinados pela empresa. E outros aliados de Washington seguiram o exemplo. Deste modo, o Governo português (e o francês) ficou numa posição difícil, e aliás declarou que não acompanhava as sanções contra a empresa.

A alegação norte-americana é que, tendo sido criada por um engenheiro que no passado trabalhou para as forças armadas chinesas, a Huawei é suspeita de criar portas por onde possa entrar a espionagem chinesa nos equipamentos que vende. A partir daqui, sem factos, mas com estas suspeitas, não se sabe mais nada.

Uma interpretação para este processo é que as autoridades trumpianas temem que a Huawei, que é a empresa mundial que regista mais pedidos de patentes internacionais e é desde há seis anos o maior fornecedor do mundo em comunicação móvel (200 milhões de smartphones vendidos no ano passado, 110 mil milhões de dólares de vendas de equipamentos), venha a liderar a inovação num sector estratégico e, por isso, pretende barrar-lhe o caminho usando todos os meios ao seu alcance.


Um mundo bipolar

Ora, é evidente que o controlo de tecnologias de comunicação permite um poder especial, como se verificou quando, em benefício de Trump e de outros, a Cambridge Analytica acedeu a quase noventa milhões de perfis do Facebook, que utilizou em campanhas políticas. Assim, o que está em causa não é propriamente a nacionalidade da empresa e o controlo pelo governo do partido, mas antes o facto de esse poder eventualmente se exercer na fronteira tecnológica, com riscos militares e estratégicos a prazo curto. O problema é mesmo ser tecnologia de comunicação, pois é certo que, ainda há pouco, a relação destas empresas com o Partido Comunista Chinês não pareceu impressionar muito os reguladores norte-americanos quando a Three Gorges passou a dominar a EDP, que controla a energia em Portugal e que, aliás, também tem instalações importantes nos Estados Unidos.

Este conflito tem ainda outra implicação mais vasta. Caminhamos para um mundo em que se podem vir a delimitar duas redes distintas de internet, a norte-americana e a chinesa. A Huawei já dirige redes que representam um terço da população mundial, particularmente na Ásia. A ofensiva de Washington pode portanto ser lida como um ataque preventivo. Os canhões do protecionismo disparam agora com proibições e tutela de contratos. Não deixam de ser letais. Mais uma vez, esta dupla escolha seria um desastre para a Europa.»

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11.2.19

Portugal a calçar chineses




Quando Portugal conseguir vender um par de sapatos por ano a cada chinês, poderemos esquecer todas as outras indústrias, o dr. Centeno não precisará de cativar mais nada, o SNS será salvo e nós ficaremos estendidos e felizes ao Sol…
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4.2.19

O novo ano chinês e a árvore inclinada



«António Costa ainda era presidente da Câmara de Lisboa quando viu um dos fundadores do PS (Alfredo Barroso) deixar o partido por causa de uma intervenção sua na cerimónia do novo ano chinês, em 2015. Na altura, as palavras do autarca – que agradeceu aos chineses a sua contribuição para o facto de Portugal estar, então, melhor do que quatro anos antes – foram consideradas um “tiro de canhão no coração do PS”, e um desrespeito para com os portugueses que continuavam no desemprego e a viver abaixo do limiar da pobreza.

Passaram mais quatro anos. António Costa é primeiro-ministro. A relação com a China evoluiu. As contas portuguesas também. Os chineses são hoje donos de várias empresas estratégicas, públicas e privadas, em Portugal. Relacionam-se bem com as altas esferas da política e da economia. Já cá veio o presidente Xi Jiping para retribuir uma anterior visita do Governo português que tinha uma missão bem definida: captar mais investimento. E, em Abril, há um novo momento nas relações bilaterais, com a visita de Estado de Marcelo Rebelo de Sousa a território chinês.

Este ano, o convidado especial do novo ano chinês foi Rui Rio, na sexta-feira. O líder do PSD aproveitou o palco no Casino da Póvoa para dizer aos portugueses que deviam copiar mais os chineses, em vez de viverem tanto no imediato. “Se queremos uma sociedade justa, equilibrada e desenvolvida, não podemos estar sempre a olhar para o amanhã imediato”, aconselhou Rui Rio. E acrescentou que “Portugal tem de crescer do ponto de vista económico”, tendo como eixos desse crescimento as exportações e o investimento. “Se olharmos à carência de capital que Portugal tem e ao investimento que temos de fazer, é evidente que a China é um parceiro privilegiado nessa matéria”.

O clima é hoje outro e as declarações do social-democrata não causaram nenhum tipo de alvoroço, o que mostra que há grande concordância - homogenia mesmo - de pensamento em relação à China.

Entre 2010 e 2016, os chineses investiram em Portugal mais de 7,5 mil milhões de euros, ocupando o sétimo lugar no ranking europeu dos países que mais investimento receberam da China. Se considerado o rácio de investimento acumulado, ponderado pela dimensão da sua economia, Portugal passa para segundo lugar, só atrás da Finlândia. Os números constam do relatório sobre as “Tendências do investimento chinês na Europa”, da responsabilidade de Ivana Casaburi, professora na ESADE Business School (Barcelona).

Em tempos, “aconteceu-nos” uma dependência económica tal face a Angola que, quando os angolanos se viram em dificuldades, também muitos portugueses, em Lisboa e em Luanda, foram contaminados.

É certo que a China mantém um crescimento económico ainda acima dos 6%, apesar da “guerra comercial” com os EUA. O colosso que é a China lidera hoje a globalização e Portugal está a tirar partido, naturalmente, do facto de estar na sua rota de crescimento. E acreditamos todos que uma constipação lá não chegará para causar nenhuma pneumonia cá. Mas como diriam os chineses: “Se o vento soprar de uma única direcção, a árvore crescerá inclinada.”»

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17.1.19

A China, enquanto a Europa dorme




O corredor aéreo de Chongqing. 430 metros de largura a 300 metros de altura. (Ler mais informação aqui.)

Em 2004, quando lá estive, Chongqing, era uma cidade caótica, feiíssima, com uma poluição devastadora, nas margens do rio Yangtse. Era então «uma aldeia» com 9 milhões de habitantes e leio que tem crescido mais de 600.000 por ano. Safavam-se os pandas do Jardim Zoológico e os palácios do tempo de Chiang Kai-shek quando esta cidade foi capital da China. Hoje é assim…



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11.12.18

Na rota da China, claro!



«Quando Portugal sofreu uma intervenção externa, a que os próprios intervenientes chamaram “resgate”, todos os investidores fugiram. Da Europa, só conhecíamos um interesse: transferir a dívida que tínhamos para com os bancos alemães e franceses para instituições europeias e internacionais que tivessem os instrumentos para impedir uma renegociação que nos fosse favorável. Que investidor sobrou? A China. Que comprou barato, claro está.

Note-se que não estou a fazer qualquer distinção. Num momento de aflição, a Alemanha só se preocupou em garantir que portugueses e gregos pagassem as dívidas aos seus bancos. Se isso significava arrasar a nossa economia, paciência. Como perdemos todos os instrumentos monetários, aceitámos. A China só se preocupou em fazer boas compras, mesmo que isso significasse deixar-nos sem grandes empresas. Como o dinheiro das privatizações ia todo para pagar a dívida, também aceitámos. A China trata tanto de si como a Alemanha. O “Hino da Alegria” é excelente para órfãos que substituíram o império benigno de Moscovo, Pequim ou de Washington pelo de Berlim. Mas se queremos ter futuro é melhor deixarmos de procurar faróis e voltarmos ao realismo político, fazendo o que eles fazem: o que, sendo eticamente aceitável, é melhor para nós.

Como um pouco por todo o lado, os chineses compraram seguros, bancos, imobiliário. Para o ano deverão ser uma potência mais poderosa do que a União Europeia e lá para 2030 ultrapassam os EUA. Têm sobre outros investidores uma diferença: um plano político e pensam a longo prazo. Não querem espalhar a ditadura e o comunismo (de que já se esqueceram há algum tempo) pelo mundo. Querem o que os EUA, a Rússia, o Reino Unido, a França, Espanha, Portugal e por aí adiante quiseram: ser a maior potência. A única piada de quem repete que o nacionalismo está a regressar é alguma vez terem acreditado que ele se tinha ido embora. O que se está a ir embora é a soberania democrática, que se exerce nas nações. As nações sempre lá estiveram.

Sente-se por aí uma grande indignação com o peso crescente da China na nossa economia. Curiosamente, essa indignação não vem daqueles que alguma vez tenham defendido que devíamos manter sectores estratégicos em Portugal ou nas mãos do Estado português. Pelo contrário. Parece que teríamos o dever de torcer por outros investidores estrangeiros. Os alemães, por exemplo. Mas o investimento chinês é pior? Acreditarão que há dinheiro mais democrático do que outro?

Sim, foi um erro privatizar a REN, um monopólio natural estratégico. Mas o erro não foi vender aos chineses, foi vender a fosse quem fosse. Fossem outros os proprietários e não estaríamos melhor. Que me recorde, a Cimpor e a PT não foram vendidas a chineses. E foram alegremente destruídas. Assim como estão a ser destruídos os CTT, privatizados em bolsa. Aqueles que nos prometeram um futuro risonho com as privatizações e nos ofereceram a destruição de muitas das nossas principais empresas escusam de esconder as suas culpas atrás dos chineses. Ao contrário dos fundos de investimento, que compram para revender aos pedaços, a China até investe com os olhos num horizonte mais distante do que o ano seguinte.

A ideia de que podemos ficar longe do investimento chinês é absurda. A China será cada vez mais incontornável e é fundamental estarmos na sua rota. Não ceder a qualquer pressão de outros estados europeus que estarão apenas a pensar nos seus próprios interesses. Já chega de ser o corno romântico da Europa. Temos de pensar em alemão: faremos os negócios que sejam melhores para nós. Isto não invalida a crítica política à China, que se faz através de uma solidariedade cidadã para com os chineses que querem democracia, sindicatos, liberdade. Mas invalida esta estúpida ideia de que, num confronto entre as potências europeias, os EUA e a China, nós somos uma parte de qualquer um deles. Não somos, como bem aprendemos, com os gregos, em 2011.»

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10.12.18

Trump é uma ameaça à democracia e Xi Jinping não é?



«1. Se não tivéssemos qualquer ideia da China poderíamos ser tentados a pensar que é um caso único no mundo. Um país onde só há negócios, comércio, exportações e investimentos. Um mercado importante, gigantesco na sua dimensão, com imensas oportunidades. Quanto à política — e às questões políticas — não existem, nem para os chineses, nem para quem se relaciona com estes. Esta representação, com raras excepções, feita na imprensa portuguesa, no contexto da visita do Presidente chinês, Xi Jinping, é admirável. É a mesma imprensa onde, todos os dias, vemos preocupações com as ameaças à democracia e aos direitos humanos, oriundas do populismo, dos nacionalismos, da xenofobia, do racismo, etc. Mas nada disso existe, ou parece existir, na China. Assim, nas relações com os chineses só existe a economia, só existem exportações, só existem investimentos, só existem negócios. Tudo o resto é irrelevante. O facto de Xi Jinping presidir ao maior Estado autoritário do mundo não interessa nada. Não se pode, nem deve, criticar um país que investe em massa em Portugal e dá oportunidades de mercado às empresas portuguesas. (Ver “Presidente chinês é ‘dono disto tudo’. Comentário de chefe de divisão no MNE é ‘lamentável’, diz ministro” in Público, 4/12/2018). Nem também fazer mini-manifestações de apoio ao Tibete anexado pela China: estragam a imagem boa imagem que Xi Jinping tem dos portugueses e os negócios. (Ver “Chineses tapam protesto de activistas pela libertação do Tibete” in Público, 4/12/2018).

2. Tudo na política e economia internacional tem múltiplas facetas e normalmente também um reverso. Sob uma imagem superficial de grande amizade e cooperação económica com a China, Portugal já está a ser condicionado na sua política interna e externa. É uma ilusão habilmente alimentada pelo governo chinês a existência de uma relação paritária, de benefícios mútuos simétricos. Pela importância mundial da China (que, obviamente, Portugal não tem), pelos investimentos estratégicos — na energia eléctrica, nas redes de distribuição, na banca e na própria imprensa portuguesa —, o Estado chinês tem já, nas suas mãos, instrumentos eficazes de condicionamento do Estado e da sociedade portuguesa. Tudo indica que não foi por acaso que o presidente chinês publicou um artigo no Diário de Notícias. (Ver “Presidente chinês escreve artigo no DN e fala de "uma parceria virada para o futuro" in Diário de Notícias, 2/12/2018). Esse jornal está inserido num grupo de empresas de comunicação social detidas por empresários de Macau / chineses — o que, de uma forma, ou de outra, leva também ao Estado chinês. (Ver “Chineses formalizam entrada no capital da dona do ‘DN’ e ‘JN’”? in Expresso, 9/10/2016). É verdade que, no contexto da visita de Xi Jinping, é perfeitamente normal o grande destaque dado à China na imprensa, bem como a publicação de diversos artigos analisando as ligações económicas já existentes, ou a desenvolver, entre os dois países. Ao mesmo tempo, há também uma significativa comunidade chinesa a viver entre nós, a grande maioria de gente humilde e muito trabalhadora, a qual faz um esforço notável de integração. Pelas ligações históricas e culturais do passado, é também natural que o presidente chinês tenha feito uma alusão à rota da seda, a Macau e a Camões. É uma competente estratégia diplomática de softpower para criar empatia. O problema é outro.

3. A China tem sido extraordinariamente bem-sucedida a ditar os termos em que se processa (e se discute publicamente) a sua relação com ela. Portugal, como “bom aluno”, aprendeu rapidamente. E os nossos governos gostam de agradar aos poderosos, seja na União Europeia (Alemanha e França), seja fora dela. Neste caso, o que chama mais à atenção foi o que não se falou durante a permanência de XI Jinping: economia, comércio e investimento sim; política, democracia e direitos humanos não. O Estado português evadiu completamente os assuntos políticos, da democracia e dos direitos humanos. A própria imprensa, em grande parte, os minimizou, seja por falta de espírito crítico analítico, seja por uma quase (auto)censura neste assunto. Tibete, uigures do Xianjiang, sistema de vigilância e controlo da Internet, repressão de críticos e dissidentes, inexistência de pluralismo político, liberdade de imprensa e de eleições livres, conflitos com os vizinhos no mar do Sul da China. Quase nada. Terra ignota. São assuntos de soberania e meras questões internas, como afirma oficialmente a diplomacia chinesa. Nada que deva preocupar o mundo exterior. Se aceitamos que seja assim, acabemos, então, com a hipocrisia europeia. Os direitos humanos só são direitos humanos se valerem (e forem aplicáveis) a toda humanidade. O resto é idealismo ou retórica vazia. Quando muito, serão direitos europeus ou ocidentais. Nada mais do que isso. Se não se aplicam à China onde vive cerca de 18% da humanidade — pois são uma ingerência interna na soberania desse Estado —, então os valores europeus, que a União Europeia afirma também ligar ao comércio, são uma abordagem hipócrita, uma ingerência externa nos Estados vulneráveis. São um instrumento de pressão sobre Estados fracos, como é o caso da maioria dos africanos, aos quais os europeus estão sempre a apontar o dedo (casos do Zimbabwe, Guiné Equatorial, etc.).

4. Pelas denúncias da Amnistia Internacional sabemos que a China está a proceder a violações em massa dos Direitos Humanos no Xinjiang (ver “China: Families of up to one million detained in mass “re-education” drive demand answers” in Amnesty International). Não sendo a situação exactamente a mesma, faz, todavia, sentido colocá-la em paralelo com o caso dos rohingyas na Birmânia / Myanmar. (Ver “Quem são os rohingyas, povo muçulmano que a ONU diz ser alvo de limpeza étnica”, in BBC, 13/09/2017). Em ambos os casos há, nesta mesma altura, denúncias de violações graves de direitos humanos. Trata-se, nas duas situações, de minorias ligadas a grupos étnicos e/ou religiosos diferentes da componente maioritária do país onde vivem — os uigures na China e os rohingyas da Birmânia/Myanmar. Em ambos os casos esses grupos minoritários queixam-se de ser objecto de discriminação e/ou perseguição pelas respectivas autoridades estaduais. Claro que, na óptica do Estado chinês e do Estado birmanês, a explicação é outra: o que está em causa são grupos separatistas que praticam actos de violência e terrorismo, pondo em causa a segurança nacional. Mas o contraste é flagrante: o caso dos rohingyas tem tido bastante atenção mediática a nível europeu e ocidental. Já o caso dos uigures do Xinjiang passa praticamente despercebido. A conclusão é cristalina: azar dos Estados pobres e fracos que estão sujeitos a escrutínio e ingerências externas. Se a Birmânia/Myanmar tivesse algo comparável ao poder da China — e os seus instrumentos económicos e comerciais — rapidamente os europeus e ocidentais deixariam de ver graves violações de direitos humanos. Tal como acontece com a China, ditaria os termos em que realizaria e discutiria publicamente a relação a esta. Só comércio e negócios.

5. Donald Trump é visto por muitos com grande apreensão, como trazendo uma ameaça séria à democracia liberal (ver “Donald Trump is a unique threat to American democracy” in Washington Post 22/07/2016). Essa preocupação é comum também fora dos EUA, especialmente na Europa. Não ocorre por acaso. Donald Trump não é presidente de um país qualquer, mas da maior potência mundial, com grandes tradições democráticas e liberais. Influencia o mundo exterior. Os sucessos de partidos e líderes populistas — como Jair Bolsonaro no Brasil —, têm sido também explicados pelo “efeito Trump”. Rodrigo Duterte (nas Filipinas), Viktor Orbán (na Hungria), Matteo Salvini (em Itália) e outros populistas / nacionalistas um pouco pelo mundo ganharam força pela proximidade com o estilo de liderança e visão do mundo de Donald Trump. Alguns receiam que até possa fazer regressar ao nacionalismo dos anos 1920/1930. Tudo isso é extraordinariamente contrastivo com a ignorância, ou benevolência acrítica, face ao impacto internacional da liderança de Xi Jinping no mundo. Como se a China — e a liderança de Xi Jinping —, que combinam capitalismo com autoritarismo e nacionalismo, suprimindo qualquer veleidade de democracia liberal, não tivessem qualquer importância, nem fossem um modelo em expansão no mundo. Não, o mundo dos anos 1920 e 1930 não vai voltar. A Europa já não é centro do mundo e quem dita o rumo dos acontecimentos são outros. Convém perceber a realidade: a China tem cada vez mais seguidores, sobretudo nas partes do mundo que os europeus ignoram (Ásia e África) nas suas narrativas eurocêntricas e obcecadas com Trump. No Ocidente, Vladimir Putin (Rússia) e Recep Tayyip Erdogan (Turquia), são criticados por serem autoritários. Mas ainda se dão ao trabalho de fazer eleições, ou um simulacro delas. Na China de Xi Jinping não se perde tempo com tais detalhes. Trump é um problema sério para a democracia liberal pela sua deriva populista, mas a democracia norte-americana tem mecanismos que o constrangem e limitam. Quanto à China de Xi Jinping, é um modelo em ascensão, um caso de sucesso de poder absoluto e irrestrito do Estado. Quando vemos a ameaça populista à democracia de Trump e ficamos míopes e calados face ao autoritarismo de Xi Jinping, estamos a descredibilizar a democracia liberal. Pior, estamos a abrir a porta ao autoritarismo entre nós.»

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5.12.18

Dúvidas existenciais



Quando houve a hipótese da Le Pen vir ao Web Summit caiu o Carmo e a Trindade (e bem, na minha opinião).

Se por azar histórico ela viesse a ser presidente da França e nos visitasse, seria recebida como o sr. Xi por autoridades e por representantes de (quase...) todos os partidos políticos?
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A era dourada da China em Portugal



«Ao contrário da Rainha Isabel II em 2015, o Presidente da República português não acolherá o seu homólogo chinês, Xi Jinping, a bordo de uma carruagem dourada, quando este aterrar hoje em solo português para a sua visita de Estado. Ainda assim, o país encontrou maneira de estender à China uma passadeira (pincelada com tons de ouro) de acesso expedito à Europa.

Poucos dias depois de a União Europeia ter finalizado o esboço de um mecanismo de escrutínio ao investimento de países terceiros nos Estados-membros, Portugal recebe Xi Jinping para reforçar a cooperação entre os dois países. Ao abrir as portas ao espaço Schengen a mais de 4000 cidadãos chineses com a emissão de “vistos gold” como contrapartida de vários investimentos em território nacional, Lisboa sabe que, sendo o quarto maior recipiente de investimento chinês na UE, desempenha um papel central na estratégia geoeconómica europeia da China e, como tal, está sob o olhar atento de Bruxelas.

PUB Ainda que Portugal não seja caso isolado, já que existem iniciativas semelhantes ao programa luso de “vistos gold” noutros países europeus, várias entidades, como a Transparência Internacional, já apelaram “à suspensão do programa” até que “todos os efeitos sejam avaliados de forma isenta” e “um debate real [tenha lugar] na opinião pública”.

Até agora, qualquer proposta legislativa em tal sentido foi rejeitada, mas o actual contexto político português terá levado o Partido Socialista a considerar novas medidas. A 16 de Novembro, a bancada socialista apresentou uma proposta de alteração ao Orçamento do Estado de 2019, em que sugere que qualquer requerente de um “visto gold” seja obrigado a providenciar aos serviços competentes em Portugal o seu número de identificação fiscal e residência fiscal na jurisdição de origem. Não há nada que me leve a crer que esta iniciativa será rejeitada pelo Parlamento – mas será esta proposta suficiente para assegurar a tão desejada transparência do mecanismo dos “vistos gold”? Provavelmente não.

Aos olhos de Pequim, Portugal não é apenas um país europeu de dimensão intermédia que acolhe o líder supremo chinês para uma visita de Estado. Desde 2004, o país tem desenvolvido uma “parceria estratégica” com a República Popular da China.

A crise financeira, que assolou o país entre 2008 e 2013, serviu como catalisador para a ofensiva chinesa, já que Lisboa, sob condições definidas pela troika, teve de privatizar diversos activos que até aí pertenciam ao Estado português. À data de hoje, o investimento directo estrangeiro da China atinge um total de 12 mil milhões de euros, abarcando sectores desde a energia (Galp, REN, EDP) aos transportes (TAP), passando também pela área dos seguros (Fidelidade), saúde (Grupo Luz Saúde), serviços financeiros, imobiliário e meios de comunicação social – um investimento cujo crescimento não parece abrandar.

Um exemplo disso é a oferta de compra da EDP pela empresa detida pelo Estado chinês, China Three Gorges, que actualmente controla 23,3% do capital – gradualmente adquirido desde o resgate financeiro ao país em 2011. Possuindo a EDP várias subsidiárias no sector das renováveis em Espanha, no Brasil e nos Estados Unidos (para além de receber subsídios do Estado português), não é surpresa para ninguém que esta OPA tenha gerado dúvidas quer no contexto europeu, quer no contexto americano. Enquanto a autoridade da concorrência brasileira já deu luz verde à operação, o actual embaixador dos Estados Unidos em Portugal, George Glass, criticou o acordo, ao considerar que “ter um outro país a controlar parte de infra-estrutura fundamental” portuguesa, como a rede eléctrica, é “um caminho perigoso”.

Importa, por isso, perguntar: por que razão é que outros países receiam a iniciativa chinesa em Portugal mais do que a própria opinião pública e classe política portuguesas? O que é que impede um debate público alargado sobre este tema, como sucede na Grécia, Polónia e República Checa, indo para além das restritas e habituais elites portuguesas?

PUB O facto de a ligação com Pequim ser sistematicamente definida como um caso de sucesso, nos vários quadrantes, constitui certamente um factor de especial importância. O ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, referiu no mês passado que o “investimento Chinês tem sido significativo nos últimos anos e é bem-vindo” – especialmente no quadro de crescimento económico luso. Se tal não bastasse, em 2017, o executivo português flexibilizou um artigo do Código de Valores Mobiliários, demovendo uma barreira relativa à imputação conjunta de direitos de voto de accionistas de empresas que têm relações entre si – facilitando assim o caminho à China Three Gorges e à congénere chinesa CNIC (que detêm mais de 28% da EDP actualmente) num cenário de uma eventual OPA.

Para além disso, e em preparação para a chegada do Presidente Xi a Lisboa, um número de iniciativas bilaterais têm sido apresentadas pelo Governo. O recente anúncio da construção do StarLab, um novo laboratório tecnológico em Matosinhos e Peniche, financiado conjuntamente por Portugal e pela China e a inaugurar antes de Março de 2019, com objectivo de promover a construção de microssatélites e a observação dos oceanos, comprova esse reforço das relações luso-chinesas.

Como indiciado em Outubro pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, a elaboração de um memorando de entendimento entre os dois países esteve também em curso, incluindo cinco novos projectos de cooperação sobre os quais se esperam novos desenvolvimentos durante a visita. Entre os vários activos estratégicos de Portugal, o porto de Sines – um de muitos portos europeus que a China pretende adquirir – é uma potencial plataforma de colaboração, já que permitiria a Pequim ligar a rota terrestre e a rota marítima da sua iniciativa Belt and Road – um projecto que já recebeu apoio inequívoco de vários ministros do executivo português.

Significará tudo isto que Portugal pretende permanecer um membro activo da União Europeia e da NATO, ao mesmo tempo que se torna “o porta-aviões do investimento chinês na Europa”? De acordo com um estudo da Carnegie, 90% dos cidadãos vêem a UE como o vínculo institucional mais importante para o país nos dias de hoje, mas a diferença entre a importância relativa dos EUA e da China tem reduzido de forma bastante substancial em comparação à última década.»

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2.12.18

Não queremos ser servos da China?


Queremos, pois... 


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29.11.18

那里有火车。 Lá vai comboio, lá vai?




«Os portos de Leixões e de Sines, a modernização da linha ferroviária que pode até passar pela privatização parcial ou total da CP, cooperação tripartida entre a China, Portugal e países africanos ou da América Latina para assegurar investimentos de grande escala são alguns dos exemplos dados por docentes e investigadores numa antevisão da visita oficial do Presidente chinês, Xi Jinping, a Lisboa.»

Não se trata propriamente de «privatizações», mas sim de «nacionalizações» pelo Estado chinês. Não é o mesmo que o sr. Smith ou o sr. Silva comprarem x, y ou z. Não estaremos a vender a «privados».
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25.11.18

Debate sobre a China



«Curiosamente, algo de importante está a acontecer em Portugal. Parece estar em curso uma transferência silenciosa da tradicional confiança nos Estados Unidos para o Império do Meio. Isto ficará mais claro daqui a duas semanas, quando o Presidente chinês, Xi Jinping, visitar Portugal.

O apoio dos governos do PSD-CDS e do PS e da maioria das elites empresariais aos investimentos chineses tem sido entusiástico, mesmo quando tem estado em causa a entrada da China em sectores estratégicos da economia nacional.

A maior parte dos decisores nacionais está grata à China pelos investimentos feitos após a crise financeira de 2011. Esquecem-se que os mesmos foram feitos para adquirir tecnologia nacional moderna e processos de gestão essenciais à modernização económica da China. Acresce que estes investimentos apoiam uma grande estratégia nacional chinesa de dominância e autossuficiência a nível geoeconómico.

O instrumento mais visível desta estratégia são as novas Estradas da Seda terrestres e marítimas propostas por Xi Jinping. Tudo indica que Lisboa lhes dará apoio político nas próximas semanas.

A transferência da confiança de Washington para Pequim ignora ou desvaloriza três coisas. A primeira é a geografia interna. Em 1935, o demógrafo Hu Huanyong dividiu a China a partir de uma linha imaginária entre a cidade de Heihe, na fronteira com a Rússia, a nordeste, e a de Tengchong, no sul, junto à Birmânia. Oitenta anos depois, esta realidade geográfica não se alterou. A oeste da linha Hu, a China continua a ser um país ainda em vias de desenvolvimento.

A segunda coisa a ter em consideração é o nível de literacia da sociedade chinesa. Hoje consideramos a China um país altamente desenvolvido em termos de educação, ciência e tecnologia. Na realidade, como sublinham Scott Rozelle e Nathalie Johnson no livro “China’s Invisible Crisis”, apenas 30% da população chinesa concluiu o ensino secundário ou tem formação universitária (48% em Portugal, segundo a Pordata). Dois terços das crianças chinesas vivem em áreas rurais onde a qualidade da educação e serviços públicos é muito inferior à de Pequim, Xangai ou Guangdong. Esta é a China que nunca vemos.

Por fim, temos as consequências políticas e económicas da centralização do poder no Presidente Xi Jinping. O reforço do poder Partido Comunista da China nas empresas públicas e privadas é visto como essencial para o controlo do país. A médio prazo, este facto não deixará de ter consequências negativas para a sociedade e economia da China.

Portugal ignora muito do que se passa na China e desvaloriza as suas intenções estratégicas. Sempre foi assim. Tendo em conta a importância dos seus investimentos na nossa economia e a sua crescente influência, parece indispensável um debate nacional informado sobre as consequências políticas e económicas desta nossa crescente confiança na China. A ignorância ou o silêncio têm sempre um alto preço. A visita de Xi Jinping em dezembro é uma boa oportunidade para iniciar esta conversa em benefício de ambas as partes.»

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29.9.18

China: os números ultrapassam a nossa capacidade de imaginação




«O programa de 10 dias de transporte ferroviário de passageiros, estabelecido para atender à elevada demanda do feriado do Dia Nacional, foi oficialmente iniciado ontem (28). É esperado que cerca de 129 milhões de pessoas viagem durante este período.»
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22.9.18

Bispos à pequinense




Confesso que esta notícia me deixa perplexa sobre um assunto que sempre segui com alguma atenção. O Vaticano reconhece a nomeação de bispos católicos por um Estado, ainda por cima mais que totalitário (o que não acontece, que eu saiba, em mais nenhum país do mundo).

E não estamos a falar apenas de bispos nomeados no passado, já que leio isto: «Apesar de ainda não se conhecerem os pormenores do acordo ou como vai evoluir, o Vaticano deverá passar a ter a última palavra sobre a escolha dos bispos.» A China continuará a ter a primeira? Alguém acredita que o governo chinês venha a aceitar bispos que não lhe «agradem» politicamente?

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20.9.18

Para ver e ler – devagar, do princípio ao fim




«China is building a digital dictatorship to exert control over its 1.4 billion citizens. For some, “social credit” will bring privileges — for others, punishment.»
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17.9.18

E quanto à China: surpresa?




«Os 10 primeiros lugares são agora ocupados por Nova Iorque, Londres, Hong Kong, Singapura, Shanghai, Tóquio, Sydney, Beijing, Zurique e Frankfurt. (…)
O relatório indica também que nos 10 principais centros financeiros globais, a região da Ásia-Pacífico conta com seis, a região da Europa Ocidental com três, e a região norte-americana com apenas um.»
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