Mostrar mensagens com a etiqueta 25A_40 anos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 25A_40 anos. Mostrar todas as mensagens

5.5.14

A cantiga ERA uma arma




O documentário de Joaquim Vieira «A Cantiga Era uma Arma», sobre os músicos e as músicas do 25 de Abril e do PREC, e com intervenções de Carlos Alberto Moniz, Ermelinda Duarte, Fausto, Fernando Tordo, Francisco Fanhais, José Jorge Letria, José Mário Branco, Luís Cília, Manuel Freire, Maria do Amparo, Paulo de Carvalho, Samuel e Sérgio Godinho, além dos já desaparecidos Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso e José Carlos Ary dos Santos, estreia-se amanhã, terça-feira 6 de Maio, na RTP2 pelas 23h30. 

Sublinho o «ERA», era uma arma...
.

28.4.14

Os que vão morrer, te saúdam!


A Ana Cristina Leonardo tem desprezado muito a sua Pastelaria, mas anda bem activa no Facebook e divulgou hoje lá este texto que deixo aqui na íntegra:

Os que vão morrer, te saúdam!

Pronto. Já está. Já passou. Já foi e não doeu nada. Daqui a 10 anos, os sobreviventes festejarão de novo a data apesar do reumático. A pergunta “onde é que você estava no 25 de Abril?” fará cada vez menos sentido e haverá cada vez mais gente a baralhar 1974 com 1794, ano em que Robespierre mandou guilhotinar Danton, para morrer ele próprio de cabeça decepada pouco tempo depois, episódio que ainda hoje contribuirá em muito para fundamentar a ideia de que a natureza humana é mesmo do piorio.

Por cá, tivemos o Salgueiro Maia mas, ainda assim, há quem ache que nunca fiando... “O caso do Salgueiro Maia é um caso comovente, para nós portugueses e para nós sociedade foi um bem ele ter morrido. É muito cru dizer isto, para a família e para ele é uma infelicidade, mas nós precisávamos de um puro. (...) Se ele continuasse a viver não sei se aguentaria isso. Não é possível tanta aspiração de beleza e de pureza numa figura viva”, resumiu cruamente Lídia Jorge, naquilo que poderá ser interpretado como uma defesa do axioma “um herói bom é um herói morto”, e isto apesar de Tolstoi se ter fartado de escrever romances que provam o contrário.

Claro que Tolstoi só há um e mais nenhum, mas se o cinismo entretanto não nos matar a todos, e a descrença não nos liquidar de tristeza, alguns estarão cá para os festejos, portanto, daqui a 10 anos, mas daqui a 100, pevides.

Daqui a 100 talvez nem haja Portugal, conforme apontam as estatísticas da nossa escassa reprodução, cumprindo-se por essa via (ínvia?) o desabafo de Sena: “O nosso problema não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal”.

O tempo, esse grande escultor, aproximará ainda mais o 25 de Abril do 5 de Outubro, mandando para o galheiro da História as declarações pomposas de Luís Montenegro (que, aliás, tinha um ano e usava fraldas no 25 de Abril): “Isto não é o 5 de Outubro na Praça do Município”, justificando assim o inconseguimento de não deixarem falar os militares de Abril na Assembleia da República, e eu se fosse militar também me chateava, pá e mandava o Luís Montenegro mudar de fraldas (citando naturalmente Eça...), já que a ingratidão é uma coisa muito feia e esta coisa do “25 de Abril é de todos”, como disse o ministro da Defesa, pode cair muito bem num salão 40 anos depois, mas o facto é que alguém teve de dar o corpo ao manifesto que não se foi lá por geração espontânea nem por obra e graça de nenhum soft power sagrado. 
.

26.4.14

Regressando a 25: à noite, quando a PIDE matou


(A nova placa, colocada esta semana, depois de a anterior ter desaparecido.)

Por volta das 20:30 do dia 25 de Abril de 1974, a partir das janelas da sede da PIDE, hoje transformada no condomínio de luxo, os pides abriram fogo indiscriminado, do qual resultaram quatro mortos e algumas dezenas de feridos que foram socorridos pela Cruz Vermelha e encaminhados para o Hospital S. José e Hospital Militar.

Pouco depois, unidades de Infantaria 1 (Amadora) e Cavalaria 3 (Estremoz), equipados com dois carro de assalto e uma autometralhadora, criam um perímetro estratégico em volta do edifício da PIDE/DGS.


(Som do Rádio Clube Português)
.

25.4.14

Clandestinos — «running on empty»


A minha irmã e eu, depois da prisão do meu pai e já no meio do mundo intrigante dos outros

Um magnífico texto da Rita Veloso, divulgado hoje no Facebook e enviado também para este blogue:

Já por várias vezes escrevi textos com as minhas memórias do período da ditadura e da revolução. Neles, adoto sempre uma perspetiva feliz, dada pelos olhos da criança que era. O Sol e o mar de Peniche, as brincadeiras nas visitas ao meu pai, as ingenuidades de uma criança que tinha de lidar com termos confusos, como clandestinidade ou preso político. Afinal, se não guardarmos da infância memórias felizes, de quando guardaremos?

No entanto, é óbvio que essa perspetiva resulta de um filtro aplicado a uma realidade bem diferente.

Além de todas as misérias que afetavam a generalidade das crianças no período da ditadura – a subnutrição e a fome, o analfabetismo, o trabalho de sol a sol, as doenças vorazes – e que contrastavam brutalmente com as regalias das elites, havia as dificuldades específicas dos miúdos que nasciam em famílias de quem se atrevia a combater o regime, as quais se podiam somar ou não às anteriores.

Crescer na clandestinidade implicava estar-se privado de qualquer sociabilização fora do universo da família nuclear, à exceção de idas fugazes ao médico ou às compras de rotina. Não se usufruía de mimos e ensinamentos dos avós ou dos tios, não havia as brincadeiras com primos ou amigos, aspetos essenciais ao pleno desenvolvimento da personalidade do indivíduo, que se quer num ambiente seguro, carinhoso e estimulante, que questione o intrigante mundo dos outros. Em contrapartida, convivia-se vinte e quatro horas por dia com pais e irmãos. Desenganem-se os que pensam que isso era um privilégio: a tensão em que estas famílias viviam, resultante não só da situação de foragidos como também do convívio forçado e anatural, era sufocante e repercutia-se inevitavelmente nas suas crianças. Vivia-se numa bolha hiperprotegida e asfixiante. A isso juntava-se a instabilidade da contínua troca de casa, com mudanças feitas à pressa, que deixavam para trás as nossas referências físicas afetivas.

Quando chegava a idade escolar, o mais tardar, tudo mudava inexplicavelmente. Com mais ou menos conversas incompreensíveis, as crianças eram subitamente entregues a alguém da família, para poderem ir à escola sem levantar suspeitas e de forma estável. Não é preciso explicar o quão dolorosa era para pais e filhos esta separação. Em muitos casos, o contacto só foi reestabelecido na idade adulta, resultando, geralmente, em mágoas e acusações imperdoáveis. Muitos filhos questionaram o direito dos seus pais a constituir família naquelas condições, agravando ainda mais a dor que os pais já sentiam com o afastamento forçado.

O que levava tantos homens e tantas mulheres a optar por uma forma de vida que, de previsível, só tinha o dinheiro contado, a insegurança, a prisão e a tortura, o isolamento da família? Não seria, certamente, a sede de protagonismo, nem se tratava de semideuses ou heróis.

Serão, porém, seres com um profundo sentido de justiça e uma imensa capacidade de abnegação; indivíduos para quem o bem-estar próprio ou dos filhos vale tanto quanto o bem-estar de todos e para quem o primeiro não existe sem o segundo. Nem sequer se trata de abdicar de uma vida tranquila em prol dos outros; são indivíduos para quem a vida não é tranquila enquanto não houver justiça, igualdade e liberdade.

Eu tenho, assumidamente, muito orgulho nos pais que tive e não os recrimino pelos eventuais danos que as suas opções me causaram. Mas não os admiro nem lhes devo mais do que a todos os homens e mulheres, anónimos ou famosos, que um dia decidiram que iam mudar o mundo, mesmo que não viessem a ver o resultado.

A 25 de Abril de 1974 saiu-se da ditadura, mas não se construiu um mundo justo, igual e livre. Um mundo assim não é nunca uma obra acabada; exige um trabalho permanente de construção e manutenção, para que os direitos de hoje não sejam os privilégios de amanhã, para que a tradição de ontem seja uma discriminação hoje e conduza a um direito amanhã.

Hoje em dia, lutar por um mundo melhor não envolve os riscos que existiam antes do 25 de Abril, mas é mais difícil do que há 20 ou 30 anos. Se nada fizermos hoje, daqui a 10 anos será pior e daqui a 20 pior ainda será. Afinal, que mundo queremos nós deixar aos nossos filhos?



.

Mas certamente, esqueceram alguma semente



.

O tiroteio no Carmo, na tarde de 74



Não houve só cravos, no Largo do Carmo, no dia 25 de Abril. Por volta das 12:30, as tropas cercaram o Largo e três horas mais tarde disparam contra a fachada, depois de um pedido de rendição feito por Salgueiro Maia 20 minutos antes, através de megafone, não ter sido atendido.

O som e os tiros, em reportagem de Adelino Gomes:


.

Naquele dia inteiro e limpo



O conteúdo deste post foi publicado numa brochura que a APRe! divulgou às 00:00 com textos relacionados com o 25 de Abril, escritos por um grande grupo de membros da Associação (*).

Noite cerrada, o telefone a tocar pouco depois das quatro da manhã, alguém que me diz que a tropa está na rua, uns minutos de espera, de ouvido colado a um velho aparelho de rádio, a voz inconfundível de Joaquim Furtado: «Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas portuguesas apelam a todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de se recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma.»

No primeiro acto de desobediência a novas autoridades, que ainda nem o eram, saí imediatamente e só regressei a casa na madrugada do dia seguinte. Fui ter com amigos, reunimos máquinas fotográficas, deambulámos de carro e a pé pela cidade – horas e horas primeiro pelas ruas da baixa, depois no Carmo até à rendição de Marcelo.

Pelas 11 da manhã, quando absolutamente nada estava ainda decidido, alguém me tirou esta fotografia, no Largo do Corpo Santo, em Lisboa – guardo-a como a mais preciosa de toda uma vida. Tinha acabado de perguntar àquele soldado, empoleirado no tanque, o que se passaria a seguir. Que não sabia, mas que estava com Salgueiro Maia e que tudo ia correr bem. E eu também não duvidei, nem por um minuto, que sim, que ia acabar o pesadelo em que vivera desde que tinha nascido. Sem me passar pela cabeça temer o que quer que fosse.

Já no Largo do Carmo, a espera, as dúvidas, os boatos, o megafone de Francisco Sousa Tavares – e também os cravos, a Grândola. Pelo meio algumas corridas, evacuação obrigatória do local quando se pensou que o quartel não se renderia a bem, almoço tardio com últimos feijões do fundo de uma panela numa tasca do Largo da Misericórdia, pelo mais total dos acasos na companhia de José Cardoso Pires; um carro estacionado mesmo em frente, com as quatro portas abertas para o que desse e viesse. Regresso ao Carmo, o desenrolar de tudo o que se sabe, o poder que Marcelo Caetano não quis deixar cair na rua antes de sair de chaimite, os gritos sem fim de vitória, que se cravaram na memória e ainda hoje fazem arrepiar. A liberdade, enfim, que nunca se imaginara poder ser tão grande.

******

Passaram 40 anos. Portugal é hoje, sem qualquer espécie de dúvida, um país melhor do que era naquela quinta-feira de Abril. Negá-lo não tem sentido. Mas não é aquilo que sonhámos, não foi por isto que tantos lutaram durante décadas de ditadura, que alguns morreram, não é o que podia e o que devia ser hoje. Falhámos uma oportunidade única, nós que tivemos na mão uma das mais belas revoluções dos tempos modernos. Os humanos não são deuses omniscientes, e ainda bem, porque teria sido absolutamente insuportável, naquela primeira semana luminosa, naquele 1º de Maio triunfante, uma espécie de «regresso ao futuro» em que pudéssemos ver o Portugal de 2014. Resta-nos agora lutar pela democracia de hoje e de amanhã, com a mesma força com que festejámos a sua chegada há quatro décadas. Não vai ser fácil. Mas é para isso que ainda estamos vivos.

(*) A brochura pode ser lida AQUI.
.

24.4.14

Tão, mas tão actual!...



.

Poema de Abril



A farda dos homens
voltou a ser pele
(porque a vocação
de tudo o que é vivo
é voltar às fontes).
Foi este o prodígio
do povo ultrajado,
do povo banido
que trouxe das trevas
pedaços de sol.


Foi este o prodígio
de um dia de Abril,
que fez das mordaças
bandeiras ao alto,
arrancou as grades,
libertou os pulsos,
e mostrou aos presos
que graças a eles
a farda dos homens
voltou a ser pele.


Ficou a herança
de erros e buracos
nas árduas ladeiras
a serem subidas
com os pés descalços,
mas no sofrimento
a farda dos homens
voltou a ser pele
e das baionetas
irromperam flores.


Minha pátria linda
de cabelos soltos
correndo no vento,
sinto um arrepio
de areia e de mar
ao ver-te feliz.
Com as mãos vazias
vamos trabalhar,
a farda dos homens
voltou a ser pele.


Sidónio Muralha, Poemas de Abril
.

Os miúdos de 74


@Alfredo Cunha

«Eu tinha 10 anos quando se deu o 25 de Abril. (...) Veio o 1.º de Maio na Alameda, onde vi mulheres a fumar, barbudos, cabeludos - eu nem sabia que o cabelo de um homem podia crescer aquilo - e canções que tinham uma letra que era o oposto ao que eu estava habituado a ler nos livros da escola - havia mesmo outro mundo, e eu já suspeitava: naquele, dos meus livros, não era possível viver.

Agora, anda por aí gente a fingir que antes do 25 do 4 aquilo não era mau, eu estive lá e era muito mau, miúdos. Depois veio aquele dia e tudo mudou. Foram tempos incríveis em que os adultos estavam distraídos a ser miúdos e se esqueciam de nós: as revelações e surpresas, sobre o mundo em que vivíamos, sucediam-se. Para mim, com 10 anos, era como poder espreitar por detrás do cenário. Por tudo isto, o 25 de Abril foi o meu melhor amigo de infância. Foi ele que me salvou. É um amigo imaginário que se tornou real. Nunca me esqueço dele.

Agora que já desabafei, posso confessar que aquela que considero a verdadeira, e digna, comemoração dos 40 anos da revolução de Abril aconteceu em meados de Fevereiro, quando, segundo foi noticiado, o "mau tempo arrasou com a casa de Salazar no Vimeiro". É que para quem ainda tinha dúvidas, São Pedro sempre foi antifascista. (...)

A queda da casa de Salazar é uma bela metáfora dos 40 anos do 25 de Abril porque a casa caiu por si. Passaram 40 anos e ainda ninguém tinha deitado aquilo abaixo. Isto diz muito de nós. É melhor estar calado que a Assunção Esteves é menina para mandar reconstruir a casa do Botas (pelo Souto de Moura) para festejar o 25 do 4.»

João Quadros
(O link pode só funcionar mais tarde.)
.

23.4.14

«Nunca pensei viver…»



Nunca pensei viver para ver isto:
a liberdade – (e as promessas de liberdade)
restauradas. Não, na verdade, eu não pensava
– no negro desespero sem esperança viva –
que isto acontecesse realmente. Aconteceu.
E agora, meu general?


Tantos morreram de opressão ou de amargura,
tantos se exilaram ou foram exilados,
tantos viveram um dia-a-dia cínico e magoado,
tantos se calaram, tantos deixaram de escrever,
tantos desaprenderam que a liberdade existe –
E agora, povo português?


Essas promessas – há que fazer depressa
que o povo as entenda, creia mais em si mesmo
do que nelas, porque elas só nele se realizam
e por ele. Há que, por todos os meios,
abrir as portas e as janelas cerradas quase cinquenta anos -
E agora, meu general?


E tu povo, em nome de quem sempre se falou,
ouvir-se-á a tua voz firme por sobre os clamores
com que saúdas as promessas de liberdade ?
Tomarás nas tuas mãos, com serenidade e coragem,
aquilo que, numa hora única, te prometem ?
E agora, povo português?


Jorge de Sena, 40 anos de servidão
.

22.4.14

Mulheres na Revolução



«Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.»

Maria Velho da Costa, Cravo

Por Mário Viegas, na parte final deste vídeo:


.

21.4.14

Como tempo novo, sem mancha nem vício


@Maria Keil

Revolução

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas
.

25/4/2014 - 11:00

20.4.14

Cidade ocupada e radiosa



«A cidade apareceu ocupada e radiosa. Deparámos com colunas militares inundadas de sol; e povo logo a seguir, muito povo, tanto que não cabia nos olhos, levas de gente saída do branco das trevas, de cinquenta anos de morte e de humilhação, correndo sem saber exactamente para onde mas decerto para a LIBERDADE!

Liberdade, Liberdade, gritava-se em todas as bocas, aquilo crescia, espalhava-se num clamor de alegria cega, imparável, quase doloroso, finalmente a Liberdade!, cada pessoa olhando-se aos milhares em plena rua e não se reconhecendo porque era o fim do terror, o medo tinha acabado, ia com certeza acabar neste dia, neste Abril, Abril de facto, nós só agora é que acreditávamos que estávamos em primavera aberta depois de quarenta e sete anos de mentira, de polícia e ditadura. Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias, só agora.»

José Cardoso Pires, Alexandra Alpha
.

Alfredo Cunha - A25 (15)


.

19.4.14

Abril de Sim Abril de Não




Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.


Manuel Alegre
, Atlântico.

.