Mostrar mensagens com a etiqueta católicos progressistas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta católicos progressistas. Mostrar todas as mensagens

15.12.17

O padre Felicidade morreu há 19 anos



Com um dia de atraso, faço questão de recordar que José da Felicidade Alves morreu em 14 de Dezembro de 1998, com 73 anos. 

Com uma vida atribuladíssima, foi certamente uma das figuras centrais da oposição dos católicos à ditadura, sobretudo a partir de meados da década de 60. Não se estranhe que continue a chamar-lhe «padre Felicidade»: faço-o unicamente porque foi como ele sempre desejou ser tratado – até ao fim. 

Prior da paróquia de Santa Maria de Belém, em Lisboa, desde 1956, foi sobretudo a partir de 1967 que as suas intervenções começaram a causar incómodo tanto ao poder político como ao eclesiástico (embora já em 1965 tivesse sido enviado por Cerejeira para Paris). 

No início de 68, ausentou­‑se de novo para aquela cidade (continuando, no entanto, como prior titular de Belém) para prosseguir estudos de Teologia Ecuménica. De visita a Lisboa por ocasião da Páscoa, resolveu fazer uma comunicação ao Conselho Paroquial, na presença de oitenta pessoas, comunicação essa que desencadeou um longo e atribulado processo que iria culminar no seu afastamento da paróquia, na suspensão das funções sacerdotais e, já em 1970, na excomunhão (ou seja exclusão da própria comunidade eclesial). A comunicação de 19 de Abril tinha duas partes: Perspectivas de transformação nas estruturas da Igreja e Sentido da responsabilidade pessoal na vida pública do meu país, sendo abordados, nesta última, problemas que iam da necessidade da abolição da censura, ao direito à informação e à discussão da guerra colonial. 

O cardeal Cerejeira avançou com uma tentativa de o retirar da paróquia logo em Maio, mas seguiu-se todo um processo, recheado de peripécias, que terminou com a referida suspensão das funções sacerdotais.

Houve então inúmeras reacções de paroquianos e de centenas de padres e de leigos. A páginas tantas, não me recordo exactamente quando, um grande grupo de pessoas, solidário com o padre Felicidade, dirigiu­‑se de Belém para o Patriarcado, onde se acantonou no átrio e numa pequena área do passeio, protegida por um gradeamento e por isso a salvo da intervenção policial. Foi pedida uma audiência a Cerejeira que não apareceu mas enviou um secretário para dispersar os presentes. Ficará na memória de todos «Esta casa é nossa!», um grito repetidamente lançado nessa tarde, no seu jeito bem peculiar, por Francisco de Sousa Tavares. O cardeal não nos recebeu, mas estava reunido, a essa mesma hora, com alguns paroquianos de Belém muito activos contra o padre Felicidade. Quando esta reunião terminou e os participantes desceram a escada do paço patriarcal, deu­­­‑se uma cena patética: uma dessas pessoas, salazarista ferrenho, viu no meio da multidão que se encontrava no átrio a mulher acompanhada pela filha. Ele gritou mandando­‑as para casa, elas choraram abraçadas, silenciosamente. Inesquecível. 

Uma das principais iniciativas do padre Felicidade depois do afastamento da paróquia de Belém, em Novembro de 1968, foi a publicação de onze números dos Cadernos GEDOC, em 1969 e 1970, dos quais foi o grande impulsionador (juntamente com Nuno Teotónio Pereira e Abílio Tavares Cardoso). Publicação que começou por ser legal, embora à revelia e prontamente condenada pelo cardeal Cerejeira, passou à clandestinidade quando os seus principais responsáveis, incluindo o padre Felicidade, foram presos pela PIDE.

Depois do 25 de Abril, Felicidade Alves aderiu ao PCP, onde se manteve até morrer, embora sem actividade de militância nos últimos anos. Até neste aspecto a sua vida foi atípica, já que foram poucos os chamados «católicos progressistas» que escolheram tal percurso.

Mas verdadeiramente decisiva foi a sua grande influência nos meios católicos, a frontalidade das atitudes e do discurso. Como muito bem definiu Abílio Tavares Cardoso, um dos seus principais compagons de route, os textos do padre Felicidade «não traduzem só um novo paradigma de estar e de lutar na Igreja, mas vão ficar na história como páginas antológicas para uma literatura de indignação».

Tinha-se casado civilmente em 1970, mas só em 10 de Junho de 1998, seis meses antes de morrer, trinta anos após o início de um longo processo dramático com a Igreja e quando, finalmente, foram resolvidos os problemas a nível do Vaticano, é que o cardeal José Policarpo celebrou o seu casamento canónico – tal como o padre Felicidade sempre desejara. 



P.S. – Este texto resulta, em parte, de transcrição e adaptação de algumas páginas de um livro que publiquei em 2007: Entre as brumas da memória. Os católicos portugueses contra a ditadura, Âmbar, 248 pág.
.

6.11.16

Sophia, 97



Sophia de Mello Breyner nasceu no Porto, em 6 de Novembro de 1919.

Escolho recordá-la como a resistente à ditadura, que foi durante décadas. Juntamente com o seu marido, Francisco Sousa Tavares (o «Tareco», para os que éramos seus amigos), nunca recusou uma presença, uma assinatura, uma voz, integrada no universo dos chamados «católicos progressistas».

Foi candidata pela oposição (CEUD) às eleições legislativas de 1969 e um ano antes escreveu um poema que muitos cantam mas poucos sabem ser de sua autoria: a Cantata da Paz, tão divulgada por Francisco Fanhais depois do 25 de Abril, e que foi por ele «estreada» numa Vigília contra a guerra colonial, na passagem do ano de 1968 para 1969 (onde Sophia esteve obviamente presente).



Foi há muito tempo. Mas quem esteve lá não esquece.
,

15.12.14

O padre Felicidade já morreu há 16 anos




Com um dia de atraso, e retomando, em parte, um texto que em tempos publiquei, faço questão de recordar que José da Felicidade Alves morreu no dia 14 de Dezembro de 1998, com 73 anos. 

Com uma vida atribuladíssima, foi uma das figuras centrais da oposição dos católicos à ditadura, sobretudo a partir de meados da década de 60. Não se estranhe que continue a chamar-lhe «padre Felicidade»: faço-o unicamente porque foi como ele sempre desejou ser tratado – até ao fim. 

Prior da paróquia de Santa Maria de Belém, em Lisboa, desde 1956, foi sobretudo a partir de 1967 que as suas intervenções começaram a causar incómodo tanto ao poder político como ao eclesiástico (embora já em 1965 tivesse sido enviado por Cerejeira para Paris). 

No início de 68, ausentou­‑se de novo para aquela cidade (continuando, no entanto, como prior titular de Belém) para prosseguir estudos de Teologia Ecuménica. De visita a Lisboa por ocasião da Páscoa, resolveu fazer uma comunicação ao Conselho Paroquial, na presença de oitenta pessoas, comunicação essa que desencadeou um longo e atribulado processo que iria culminar no seu afastamento da paróquia, na suspensão das funções sacerdotais e, já em 1970, na excomunhão (ou seja exclusão da própria comunidade eclesial). A comunicação de 19 de Abril tinha duas partes: Perspectivas de transformação nas estruturas da Igreja e Sentido da responsabilidade pessoal na vida pública do meu país, sendo abordados, nesta última, problemas que iam da necessidade da abolição da censura, ao direito à informação e à discussão da guerra colonial. 

O cardeal Cerejeira avançou com uma tentativa de o retirar da paróquia logo em Maio, mas seguiu-se todo um processo, recheado de peripécias, que terminou com a referida suspensão das funções sacerdotais.

Houve então inúmeras reacções de paroquianos e de centenas de padres e de leigos. A páginas tantas, não me recordo exactamente quando, um grande grupo de pessoas, solidário com o padre Felicidade, dirigiu­‑se de Belém para o Patriarcado, onde se acantonou no átrio e numa pequena área do passeio, protegida por um gradeamento e por isso a salvo da intervenção policial. Foi pedida uma audiência a Cerejeira que não apareceu mas enviou um secretário para dispersar os presentes. Ficará na memória de todos «Esta casa é nossa!», um grito repetidamente lançado nessa tarde, no seu jeito bem peculiar, por Francisco de Sousa Tavares. O cardeal não nos recebeu, mas estava reunido, a essa mesma hora, com alguns paroquianos de Belém muito activos contra o padre Felicidade. Quando esta reunião terminou e os participantes desceram a escada do paço patriarcal, deu­­­‑se uma cena patética: uma dessas pessoas, salazarista ferrenho, viu no meio da multidão que se encontrava no átrio a mulher acompanhada pela filha. Ele gritou mandando­‑as para casa, elas choraram abraçadas, silenciosamente. Inesquecível. 

Uma das principais iniciativas do padre Felicidade depois do afastamento da paróquia de Belém, em Novembro de 1968, foi a publicação de onze números dos Cadernos GEDOC, em 1969 e 1970, dos quais foi o grande impulsionador (juntamente com Nuno Teotónio Pereira e Abílio Tavares Cardoso). Publicação que começou por ser legal, embora à revelia e prontamente condenada pelo cardeal Cerejeira, passou à clandestinidade quando os seus principais responsáveis, incluindo o padre Felicidade, foram presos pela PIDE.

Depois do 25 de Abril, Felicidade Alves aderiu ao PCP, onde se manteve até morrer, embora sem actividade de militância nos últimos anos. Até neste aspecto a sua vida foi atípica, já que foram poucos os chamados «católicos progressistas» que escolheram tal percurso.

Mas verdadeiramente decisiva foi a sua grande influência nos meios católicos, a frontalidade das atitudes e do discurso. Como muito bem definiu Abílio Tavares Cardoso, um dos seus principais compagons de route, os textos do padre Felicidade «não traduzem só um novo paradigma de estar e de lutar na Igreja, mas vão ficar na história como páginas antológicas para uma literatura de indignação».

 Tinha-se casado civilmente em 1970, mas só em 10 de Junho de 1998, seis meses antes de morrer, trinta anos após o início de um longo processo dramático com a Igreja e quando, finalmente, foram resolvidos os problemas a nível do Vaticano, é que o cardeal José Policarpo celebrou o seu casamento canónico – tal como o padre Felicidade sempre desejara. 


P.S. – Este texto resulta, em parte, de transcrição e adaptação de algumas páginas de um livro que publiquei em 2007: Entre as brumas da memória. Os católicos portugueses contra a ditadura, Âmbar, 248 pág.
.

22.9.12

Maria Benedita, 91 anos



Esteve ontem em Belém. 

Conheço-a há muitos anos, nem sei dizer quantos. Pertenceu, tal como eu, a várias gerações de católicos que não se conformaram com a ditadura e que participaram, à sua maneira, nas lutas que a fariam cair. Em condições especiais: mãe de nove filhos, a MB pertencia a «boas famílias», do mais salazarista que imaginar se possa, tanto no plano estritamente político como religioso. Tinha dois cunhados que recordo como figuras absolutamente sinistras do clero português, um marido de que já falarei.

Esteve sempre «presente», sobretudo a partir da década de 60 e até ao 25 de Abril. Participou, por exemplo, na vigília da capela do Rato e, muito antes, vivi com ela um episódio que aqui recordo. 

Entre Abril e Novembro de 1967, desenvolveu-se todo um processo relacionado com a perseguição ao padre Felicidade Alves, uma das figuras centrais da história da luta dos católicos contra o fascismo, que era prior de Belém (paróquia a que MB pertencia) e que acabou por ser destituído do cargo. Houve inúmeras reacções ao facto e, a páginas tantas, um grande grupo de pessoas solidárias com o padre Felicidade dirigiu-se de Belém para o Patriarcado, onde se acantonou no átrio e numa pequena área do passeio, protegida por um gradeamento e por isso a salvo da intervenção da polícia que se perfilava frente ao palácio. Foi pedida uma audiência a Cerejeira que não apareceu mas enviou um secretário com a missão de dispersar os presentes. Ficará na memória de todos «Esta casa é nossa!», um grito repetidamente lançado nessa tarde, no seu jeito bem peculiar, por Francisco de Sousa Tavares. O Cardeal não nos recebeu, mas estava reunido, a essa mesma hora, com alguns paroquianos de Belém muito activos contra o padre Felicidade. Quando essa reunião terminou e os participantes desceram a escada, deu-se uma cena patética: uma dessas pessoas, salazarista ferrenho, viu, no meio da multidão que se encontrava no átrio, a mulher (a MB) acompanhada por uma das filhas. Gritou mandando-as para casa, elas não arredaram pé e choraram abraçadas, silenciosamente. Inesquecível, por muito tempo que eu viva.... 

Estive anos sem ver a MB. Em 2004, encontrei-a, já com 83 anos, lindíssima e muito calma como sempre, numa manifestação, frente ao palácio de Belém, contra a possível nomeação de Santana Lopes como primeiro-ministro. Disse-me então: «Sabe? Eu estou cansada mas era importante vir, não consegui ficar em casa.»

Ontem, no mesmo local, não a encontrei. Mas soube que lá esteve por uma imagem num vídeo e por esta fotografia que a Myriam Zaluar hoje me «ofereceu». Quando meteu conversa com ela, sem a conhecer, obteve como resposta: «Nós temos de lutar!»

Exacto. Continuemos.
.

15.9.10

Manuel Bidarra


Para os poucos leitores desde blogue que o terão conhecido, deixo aqui a notícia da sua morte e algumas linhas em jeito de homenagem a um duro lutador, primeiro ferroviário e depois operário na Lisnave, que começou a militância nas fileiras da Juventude Operária Católica e que esteve depois nas principais arenas da resistência dos católicos contra o fascismo. Foi aí um dos primeiros e principais elos de ligação entre os meios operários e os universitários, nomeadamente como um dos inspiradores e fundadores da Cooperativa PRAGMA, na década de 60. Mais tarde, no início dos anos 70, esteve também envolvido na fundação da SEDES.

P.S. – Agradeço ao Rui Almeida a foto e, também, algumas notas trocadas por e-mail.

P.S. (21/9) - Recebi de Regina Bidarra, filha de Manuel Bidarra, o seguinte esclarecimento: «Em nome da veracidade dos factos peço-lhe que seja feita uma correcção ao texto. O meu Pai nunca foi ferroviário (o meu avô paterno sim, fez parte dos quadros da CP), nem tão pouco operário. Do seu percurso profissional constam as funções de chefe do serviço de pessoal da Lisnave e, posteriormente, director administrativo da Gaslimpo, donde se reformou.
Como homem ligado à cultura, foi também um dos fundadores e administrador da editora Multinova até à data da sua morte.»
...
...

30.12.08

Há 40 anos, uma vigília contra a guerra colonial






Este texto foi publicado hoje no Caminhos da Memória. Porque é longo, transcrevo aqui apenas a primeira parte e indicarei onde poderá ser lido na íntegra.

1968 foi de facto um ano alucinante e 2008 não poderia terminar sem que se assinalasse um último 40º aniversário. Em 31 de Dezembro de 1968, cerca de cento e cinquenta católicos entraram na igreja de S. Domingos, em Lisboa, e nela permaneceram toda a noite, naquela que terá sido a primeira afirmação colectiva de católicos contra a guerra colonial, numa actividade formalmente «disciplinada». Com efeito, o papa Paulo VI decretara, em 8 de Dezembro, que o primeiro dia de cada ano civil passasse a ser comemorado pela Igreja como dia mundial pela paz e, alguns dias depois, os bispos portugueses tinham seguido o apelo do papa em nota pastoral colectiva.

Assim sendo, nada melhor do que tirar partido de uma oportunidade única: depois da missa presidida pelo cardeal Cerejeira, quatro delegados do numeroso grupo de participantes comunicaram-lhe que ficariam na igreja, explicando-lhe, resumidamente, o que pretendiam com a vigília:

«1º - Tomar consciência de que a comunidade cristã portuguesa não pode celebrar um "dia da paz" desconhecendo, camuflando ou silenciando a guerra em que estamos envolvidos nos territórios de África.
2º - Exprimir a nossa angústia e preocupação de cristãos frente a um tabu que se criou na sociedade portuguesa, que inibe as pessoas de se pronunciarem livremente sobre a guerra nos territórios de África.
3º - Assumir publicamente, como cristãos, um compromisso de procura efectiva da Paz frente à guerra de África.»

Entregaram-lhe também um longo comunicado [agora online] que tinha sido distribuído aos participantes, no qual, entre muitos outros aspectos, era sublinhado o facto de a nota pastoral dos bispos portugueses, acima referida, tomar expressamente partido pelas posições do governo que estavam na origem da própria guerra, ao falar de «povos ultramarinos que integram a Nação Portuguesa».

(...)
Na íntegra, aqui.


Cantata da Paz por Francisco Fanhais, com versos de Sophia Mello Breyner

17.12.08

Evocação do padre Felicidade

José da Felicidade Alves morreu no dia 14 de Dezembro de 1998, com 73 anos. Realizou-se ontem uma sessão, organizada pelo Centro de Reflexão Cristã e pelo Centro Nacional de Cultura, onde amigos de velhas lutas se reencontraram e o recordaram.

Com uma vida atribuladíssima, foi uma das figuras centrais da oposição dos católicos à ditadura, sobretudo a partir de meados da década de 60 e é como tal que aqui será recordado. Não se estranhe que continue a chamar-lhe «padre Felicidade»: faço-o unicamente porque foi como ele sempre desejou ser tratado - até ao fim.

Texto na íntegra aqui.

16.9.08

Natália Teotónio Pereira

«Que força é essa?»
Aqui ao lado, mais uma biografia.

Sobretudo a partir dos primeiros anos da década de 60, foi uma das grandes impulsionadoras de grande parte das iniciativas dos chamados «católicos progressistas»
«Na linha da frente ou na retaguarda, toda a gente sabia – mesmo quando não podia ser dito – que a Natália estava envolvida.»

24.4.08

Os «católicos progressistas» e a deserção

As diferentes posições tomadas relativamente ao problema da deserção durante a guerra colonial provocaram um encadeamento de textos na blogosfera, que tenho tentado manter actualizado.

Alguém me recordou, entretanto, que também os chamados «católicos progressistas» tiveram um papel neste domínio – o que é verdade.

Não vou falar aqui do posicionamento face à guerra colonial em geral, nem da evolução do mesmo, embora seja nele que se inscreve a problemática da deserção.

Tenho escrito repetidas vezes que uma das características da oposição dos católicos à ditadura, para o bem e para o mal (mais para o bem, na minha opinião), foi a grande maleabilidade com que as múltiplas organizações e publicações se interligavam e agiam em diversas plataformas – legais, semi-legais e clandestinas. É nesse contexto que deve ser entendido como se lidou com refractários e desertores.

Nunca existiram tomadas de posição «colectivas» ou quaisquer incentivos generalizados para que se fugisse. Mas houve sempre uma natural aceitação / aprovação / sentimento de dever de apoio / apoio efectivo a refractários e desertores.

Diria que não foram elaboradas nem invocadas teorias sobre o tema – não as tínhamos, pura e simplesmente. Não me lembro de ouvir alguém discutir se x era mais corajoso que y por decidir ir ou decidir ficar, se era mais meritório fugir ou não fugir, se era melhor desertar individual ou colectivamente (questão que ainda hoje me parece absolutamente bizantina).

Numa mancha alargada de pessoas, que ia muito para além dos católicos (e que, para simplificar, diria que abrangia quem estava, activamente, na oposição e não era membro primeiro só do PC, mais tarde também dos chamados partidos da extrema-esquerda), foi crescendo o número daqueles que recusavam qualquer hipótese de ir matar e/ou morrer em África. E, dentro deste extenso universo, sabia-se que haveria sempre alguém que, se necessário, ajudaria outros a «dar o salto». Dentro da tal informalidade organizativa, acabava por se chegar à porta certa – quantas vezes por portas bem travessas (*).


Confesso que, perante a discussão desencadeada na blogosfera, cheguei a duvidar do simplismo destas minhas recordações. Decidi então conferi-las (e acabar por confirmá-las) com Nuno Teotónio Pereira que, neste caso como em muitos outros, esteve sempre no centro das operações. (Uma casa que ele tinha em Marvão, perto portanto de uma fronteira, foi ponto de partida para várias fugas, concretizadas com grande recurso à imaginação.)

Fomos demasiado pragmáticos, pouco «ideológicos»? Talvez. Mas a Bíblia, enquanto a lemos, não nos dava grandes pistas neste domínio e o centralismo democrático da Igreja deixava-nos já perfeitamente indiferentes.

-----------------------------------------------------------------------------------

(*) Tenho a perfeita consciência de que estou a falar essencialmente de Lisboa e, repito, de quem «aparecia» em actividades oposicionistas.

13.7.07

«Será a Igreja legítima herdeira destas histórias?»

Recebi hoje um mail de Nelson Anjos, que transcrevo com autorização expressa do autor. Fui eu que dei relevo a algumas passagens.

Permito-me chamar a vossa atenção para o comentário que faço na segunda parte deste post.

Joana Lopes

Acabei de ler o seu interessante livro "Entre as Brumas da Memória" e, porque antevejo o meu comentário algo extenso, não vou abusar, para o efeito, do espaço do seu blog. Desconheço também se criou algum forum específico para a sua discussão, razão porque opto pelo e-mail.

A razão imediata destas considerações e dos dois aspectos principais que aqui vou abordar prende-se com o facto de também ter participado do tempo, das experiências e das andanças que o livro descreve. E do instinto solidário que a lembrança das "mesmas" recordações sempre desperta.

“Mesmas”, entre aspas, constitui a matéria da primeira questão. Ao ler o seu texto dei comigo a ter dificuldade em me rever na experiência que relata e que, supostamente, deveria ser no mínimo semelhante à minha: também fui católico, militante da Acção Católica (JOC – Juventude Operária Católica) e também militante da LUAR. Acontece porém que, principalmente no que respeita a vivência católica, a nossa experiência e as nossas recordações estão longe de terem sido as “mesmas”. A razão é simples: ao tempo em que os factos se passavam
Portugal era Lisboa e o resto era província. E isto era de facto verdade. A intervenção dos católicos progressistas na vida social, que descreve no seu livro, não teve lugar no país: circunscreveu-se a Lisboa.

Em Tomar, pequena cidade de província onde então vivia – hoje ainda menos cidade e mais província – a realidade, como deve supor era outra. E eram de longe muito mais divulgados e tinham mais impacto na opinião e sensibilidade locais os tais “cursilhos” ou cursos de cristandade, que as encíclicas de caris social inspiradas pelo Vaticano II. Julgo que os “cursilhos” representavam a contra-resposta dos sectores mais conservadores da igreja às propostas das “Popullorum Progressio” do concílio. Uma espécie de Contra-Reforma da altura. Tratava-se de uma terapia de choque, de oito ou quinze dias, a que não havia demónio, por mais maligno que fosse, que resistisse. Ainda me lembro de ouvir a minha mãe recomendar o remédio ao meu pai, para lhe tratar o mal de ser propenso a aventuras extraconjugais: “ – Vai, e verás que vens de lá mudado!” (naquele tempo o Francesco Alberoni ainda não tinha separado o sexo do amor e a Ana Lopes ainda não tinha proclamado a dignidade do trabalho sexual ).

O cristianismo de província era profundamente apolítico e associal. E a razão pela qual dele me viria a afastar também não se deveu a razões dessa natureza. Apenas não encontrei lá Deus. Nem sequer aquele que, na asserção de Feuerbach foi criado pelos homens à sua imagem e semelhança. E quanto mais me falavam dele mais incompreensível se me tornava. Creio que foi Kierkegaard (ou Emmanuel Lévinas ?) que disse/escreveu que, para falar de Deus todas as palavras são obscenas.

Mas embora não tenha encontrado Deus, reconheço ter encontrado óptimas pessoas e um espaço onde se cultivavam francos e saudáveis afectos. O Padre Adalberto Ramos, como se diria hoje, era um tipo “bué fixe”. E o velho Pároco David Paixão deve ter sido o primeiro adulto a oferecer-me um cigarro. Teria eu os meus 14 ou 15 anos. “ - Fuma um cigarro! O tabaco abre o espírito!” – disse, estendendo-me o maço de SG-Filtro, a meio de uma das nossas intermináveis e inconclusivas discussões sobre a existência, ou não, de Deus. Creio que se por lá tivesse continuado, mais tarde ou mais cedo ter-me-ia convidado para ir com ele à rua das prostitutas.

Posto isto, e não me querendo alongar muito, creio que, para além de se circunscrever a uma elite – como muito bem refere – a experiência de que dá testemunho no seu livro foi também circunscrita em termos de abrangência territorial. O que, contudo, na minha perspectiva, de modo nenhum a deslustra.

Passemos à segunda questão, que o serão já vai longo. Deverá de facto a igreja católica ser considerada a legítima herdeira deste património de história e de histórias? – Não tenho resposta taxativa e explicito resumidamente as razões da minha dúvida. Quando desertei da guerra colonial, na Guiné, fi-lo com o apoio de ex-padres; fui recrutado para a LUAR por ex-padres; participei em actividades da organização com ex-padres; estive preso com ex-padres. Alguns deles mesmo já ex-católicos ou até ex-cristãos. Como eu próprio. Ora, considerando todos estes “ex”, será que a igreja católica terá de facto alguma coisa a ver com tudo isto?

O leitor deseja-lhe continuação de boa escrita e o ex-jocista, à maneira de antigamente, deixa-lhe

Saudações jocistas (era assim, não era!?)

nelson anjos


Há vários temas neste post que mereceriam resposta ou comentário, mas vou restringir-me a um.

N.A. pergunta se a Igreja católica deve ser considerada «legítima herdeira deste património de história e de histórias». Quer se queira quer não, ela É herdeira – ela e nós. Não apaguemos nada nem ninguém das fotografias do passado. Para o bem e para o mal, nem a Igreja portuguesa nem nós seríamos hoje os mesmos sem estas etapas da década de 60, vividas em pleno fascismo e no auge das esperanças e das derrotas do Vaticano II.

Mas, entre todos os ex- que somos e os que lá estão hoje que mais se aproximam dos ideais (passe o chavão) que defendíamos, há enormes diferenças que tenho vindo a tentar compreender. Eles vivem o cristianismo de um modo muito mais «privado» (individualmente ou em pequenas comunidades). Consideram-se Igreja APESAR de muitas coisas – do papa, dos bispos, da maior parte dos dogmas em que não acreditam. Não têm grande esperança em mudanças a este nível e, sobretudo, não se empenham, activa e publicamente, para que aconteçam. Há razões culturais para isto - por exemplo, o facto de as hierarquias de toda a espécie terem hoje muito menos importância do que no passado, o que é verdade mesmo nas culturas e práticas empresariais (isto daria pano para mangas, mas não numa tarde de 6ª feira, no mês de Julho...).

E no entanto...
Dizia-me recentemente alguém que muito prezo (com menos vinte anos que eu) que sempre invejou os pais porque viveram num tempo em que admiravam profundamente o papa que tinham – João XXIII...
Por isso, talvez alguns tenham, de vez em quando, uma visão nostálgica e escatológica, na qual um papa de um futuro longínquo possa ser mulher, casada com um muçulmano e, de preferência, chinesa...

Brincadeiras à parte, nunca serei eu a atirar-lhes a primeira pedra.

4.6.07

Ainda no rescaldo de Coimbra


No debate que decorreu durante a secção de lançamento do meu livro em Coimbra, a Manuela Cruzeiro fez-me uma pergunta relacionada com a evolução psicológica que levou tantos dos chamados «católicos progressistas» da década de 60 não só a abandonarem a prática religiosa como a optarem por formas de luta radicais.

Lembrei-me agora de que poderia ser interessante pôr aqui parte de um artigo que escrevi para o nº 3 dos Cadernos Socialistas, publicados no estrangeiro por exilados políticos portugueses. Não que acrescente algo de novo ao que foi dito em Coimbra, mas porque foi escrito no verão de 1968 (poucos dias antes de Salazar cair da cadeira) e mostra como me aparecia já como inevitável a debandada de católicos que veio a verificar-se pouco depois e a evolução para formas mais radicais de luta (explico este aspecto na última parte do artigo, em texto que constitui o Anexo 16 de Entre as Brumas..., pp. 237-239.)

N. B. – O artigo é longo e, por essa razão, inadequado para ser transcrito aqui na íntegra. Mas se alguém estiver interessado, terei o maior prazer em o enviar por mail.

Acção Eclesial e Acção Política
Por: Manuela Gomes (pseudónimo de Joana Lopes). Usei pseudónimo, porque, ao contrário dos outros colaboradores deste número dos Cadernos Socilaistas, eu vivia em Portugal...

«4. Foram-se fazendo diferentes tipos de evoluções pessoais que têm, pouco a pouco, dividido os “cristãos conciliares”. Essa divisão parece-nos não só inevitável mas salutar, mas ela é objecto de inúmeras discussões e é dificilmente aceite pelos que querem agarrar-se a uma unidade que já não existe.

Alguns (cada vez menos) continuam sinceramente a querer antes de mais “reformar” a Igreja, tendo dela uma visão renovada, a querer levar por diante, mesmo que muito dificilmente, a tarefa de “aggiornamento” que o Concílio prometeu e fez desejar, mantendo uma colaboração mais ou menos estreita com a hierarquia e o conjunto dos católicos. Crêem contribuir assim para a efectivação de uma sociedade portuguesa mais humana.

Mas sem dúvida alguma que a maior parte dos católicos de que temos vindo a falar, desde há um certo tempo que pretende simultaneamente, ou mesmo acima de tudo, o fim do salazarismo e subordina a esse objectivo o esforço principal da sua acção, mesmo quando tem consciência de que esta só pode corresponder longínqua e indirectamente a esse objectivo.

Uns deixaram já há um certo tempo de assinar cartas aos bispos e afirmam que deixaram de se considerar como fazendo parte da Igreja institucional.

Mas muitos mais são os que até agora mantêm ligações, mais ou menos estreitas segundo os casos, com as estruturas eclesiásticas, que assinam todas as cartas de protesto, que vibram intensamente com o caso do Pe.Felicidade, que ocupam longas horas em conversas e discussões mais ou menos religiosas sobre Deus, moral, violência ou não violência, que organizam colóquios, que passam noites a policopiar papéis e dias a distribui-los. Tudo isto pode parecer pouco, mas ocupa muito tempo de muitas vidas.

E, no entanto, para alguns a realidade começa a mudar:

• Eles sentem que o reformismo da Igreja, por que têm vindo a lutar, esbarra sistematicamente com inércia e conservantismo acompanhados de um exercício abusivo de poder – e se revela portanto globalmente ineficaz.

• Fizeram uma evolução interior do ponto de vista religioso que os vai desinteressando de um certo número de querelas e para a qual o Concílio pertence já a um passado que se encerra.

• Começam a ver que o papel policopiado (cartas, manifestos, “Direito à Informação”) têm a sua função, mas é por si só incapaz de abalar as forças opressoras ou mesmo de modificar em profundidade a opinião pública.

• Os padres que compartilham este estado de espírito interrogam-se cada vez mais sobre o mal-entendido em que se sentem envolvidos vitalmente e sobre os resultados destes anos de esforço e de incompreensão. Como em todos os países, alguns dos mais válidos pediram a redução ao estado de leigo, outros estudam no estrangeiro.

• Alguns leigos, que no período pós-conciliar tinham começado ou recomeçado a trabalhar em instituições eclesiais, estão a deixá-las, cansados e desiludidos, ou considerando, simplesmente, que elas correspondem a interesses de outros, mas não aos seus.»

11.5.07

Fátima 1967 - A visita polémica de um Papa


Paulo VI com a irmã Lúcia (13/5/1967)
(Postal da época)


Há quarenta anos, era grande a consternação nas hostes dos chamados «católicos progressistas» portugueses. Desde que se levantou a hipótese de Paulo VI vir a Fátima em Maio de 1967, para as comemorações do 50º aniversário das aparições, que se temia que essa visita funcionasse como uma quebra do isolamento internacional a que Portugal estava sujeito, sobretudo desde o início da guerra em África, e como um aval às orientações políticas do governo português.

Em Entre as brumas da memória..., dedico um capítulo não só a esta viagem de Paulo VI como a outras que tiveram a ver com Portugal, nomeadamente à sua ida a Bombaim, que Salazar considerou uma afronta inaceitável (por causa da anexação pela União Indiana, alguns anos antes, de Goa, Damão e Diu). Deixo aqui um extracto desse capítulo (pp. 52-56):

«Na segunda metade do ano de 1966, começou a ser ventilada a hipótese de Paulo VI se deslocar a Fátima por ocasião do cinquentenário das aparições, em 13 de Maio de 1967.
Em Novembro de 1966, a Conferência Episcopal dirigiu-lhe um convite formal nesse sentido, mas só em 1 de Maio de 1967 é que foi oficiosamente comunicada a decisão definitiva à embaixada de Portugal no Vaticano. (...)

Já há algum tempo que os que se tinham alegrado com as viagens a Jerusalém, a Bombaim e à ONU temiam que a vinda a Fátima se concretizasse. (...)
Mas já que a vinda do papa se apresentava como inevitável, havia que recorrer à imaginação e tentar tirar partido de uma situação de facto. E o tempo era muito escasso.
Foi entregue na Nunciatura uma carta que um dos filhos do Coronel Varela Gomes escreveu ao papa, pedindo-lhe que intercedesse pela libertação do pai que se encontrava preso pela PIDE. Terá havido fuga de informação por parte da Nunciatura: segundo Maria Eugénia Varela Gomes, o
Correio da Manhã publicou, alguns dias mais tarde, um artigo em que o conteúdo da carta foi mencionado e distorcido. No entanto, ela crê na eficácia da iniciativa, já que está convencida de que à mesma se ficou a dever a redução das medidas de segurança a que o marido estava sujeito, de um ano e meio para seis meses.
(...) José Manuel Galvão Teles e eu pertencíamos à Junta Central da Acção Católica e essa condição abria-nos muitas portas. Decidimos pedir uma audiência particular ao Núncio Apostólico. Audiência concedida, apresentámo-nos, juntamente com Nuno Teotónio Pereira, e expusemos as nossas preocupações sobre o que nos parecia inevitável: o aproveitamento da visita do papa para fins políticos favoráveis ao regime. Insistimos na importância de tudo ser feito para o evitar. Fomos tão incisivos quanto soubemos. (...)

Aproximava-se o dia 13 de Maio. Soube-se que o Vaticano tinha “despolitizado” a viagem: o papa não viria a Lisboa (o avião papal aterraria em Monte Real), não condecoraria ninguém (em Bombaim, o presidente da União Indiana tinha recebido a mais alta condecoração concedida pelo Vaticano a não cristãos), não seria hóspede do governo mas sim do bispo de Leiria.
Sabe-se agora que, cerca de uma semana antes da viagem, o governo recebeu uma informação da Embaixada de Portugal em Madrid, segundo a qual se preparavam atentados contra personalidades portuguesas de vulto e contra o próprio papa. De Nova York, terá vindo uma outra notícia dizendo que um grupo de oficiais estava a organizar um golpe de estado contra Salazar. Estes boatos obrigaram a um reforço das medidas de segurança em Fátima, impedindo, por exemplo, que Paulo VI fizesse alguns percursos a pé, como inicialmente previsto.

Entretanto, em Lisboa, continuavam os protestos.
Foi preparada uma iniciativa importante: a elaboração de um documento altamente sigiloso, a fazer chegar directamente ao papa, no qual um numeroso grupo de antigos e então actuais dirigentes da Acção Católica e de outras organizações de leigos, que como tal se identificavam individualmente a seguir à respectiva assinatura, informavam detalhadamente Paulo VI da situação existente em Portugal, por eles considerada contrária aos ensinamentos da Igreja e do próprio papa. Havia que garantir que o documento fosse entregue em boas mãos. Alguém nos disse que a pessoa a ser procurada em Fátima era Monsenhor Loris Capovilla, que tinha sido secretário particular do papa João XXIII e que integraria a comitiva de Paulo VI. E foi assim que o nosso livre trânsito, como convidados oficiais por sermos membros da Junta Central da Acção Católica, permitiu que encontrássemos Capovilla e que José Manuel Galvão Teles lhe entregasse a carta. (...)

Nos bastidores do poder, passaram-se episódios que só muito mais tarde viemos a conhecer. Com a aversão que tinha a Paulo VI e com a sua proverbial misantropia, Salazar ficou furioso quando soube, na véspera das comemorações e já em Monte Real, que o Papa queria que a irmã Lúcia estivesse presente, porque considerou tratar-se de um acto puramente demagógico. Ameaçou mesmo regressar imediatamente a Lisboa, mas acabou por ficar – no Hotel de Monte Real, onde a estadia, com meia pensão, custou 220$00.
Confessaria no dia seguinte que o que mais apreciara na visita do Papa fora a fúria que ela provocara nos seus inimigos.

As cerimónias decorreram em Fátima com toda a pompa e emoção generalizada, na presença de mais de um milhão de pessoas. Os membros da Junta Central da Acção Católica foram convidados privilegiados, juntamente com as autoridades civis e eclesiásticas, e estiveram por isso presentes, como tinham exigido, na tribuna de honra, erguida em frente da Basílica. Foi estranho ver, a poucos metros de distância, Américo Tomás, Salazar, a irmã Lúcia e o papa, quando desejávamos tanto que tudo aquilo não estivesse a acontecer, que não passasse de um simples pesadelo.
Entretanto, Paulo VI foi almoçar, recatadamente. Como tinha pedido: sopa, frango, um pouco de vinho tinto e um cálice de Porto.
Recebeu-nos mais tarde, numa das muitas audiências que se seguiram às cerimónias religiosas.
Tínhamos feito o que pareceu ser possível – e que foi bem pouco.
Nunca mais voltei a Fátima.

Para Franco Nogueira, “foi um dia de grande emoção popular, de grande espectáculo, de grande política para a ala conservadora da Igreja.”
Para os que não se incluíam nessa “ala conservadora”, as feridas estavam abertas e, para alguns, não se fechariam.(...)»

* * *

Como os leitores deste blogue se distribuem por grupos que dão para vários peditórios, deixo, aos eventuais interessados, os links para os discursos que Paulo VI fez em Fátima, em 12 e 13 de Maio de 1967:
* Discurso ao Presidente da República
* Discurso ao Corpo Diplomático
* Discurso ao Episcopado Português
* Discurso aos Representantes dos Leigos Católicos
* Discurso aos Representantes das Comunidades Cristãs Não Católicas
* Homilia durante a Missa no dia 13 de Maio
* Discurso de Despedida

15.4.07

Aniversário nas «Brumas»





A M. da Conceição Moita (Xexão para os amigos), personagem incontornável das «Brumas», fez 70 anos - pretexto para um almoço muito agradável, nada brumoso e cheio de excelentes memórias.




Com as companheiras de cela em Caxias: Fátima Fonseca Ribeiro e M. José Campos

Com Nuno Teotónio Pereira e com Francisco Fanhais













Com amigas de juventude, da União Noelista: Joana Veloso, Joana Lopes, M.Cândida Arruela, Fátima Neuparth e Olga Pinheiro

Cantata da Paz

«A passagem do ano de 1968 para 1969 foi marcada por um acontecimento de forte impacto. Depois de uma missa, celebrada pelo Cardeal Patriarca na Igreja de S. Domingos em Lisboa para assinalar o Dia Mundial da Paz, representantes de muitas dezenas de pessoas informaram­‑no de que permaneceriam em vigília na igreja durante toda a noite. Acusaram os bispos portugueses de revelarem "mais uma vez a realidade do compromisso político da Igreja frente ao Estado", em nota pastoral datada de 13 de Dezembro, na qual convidavam os católicos a participarem nas iniciativas de celebração do Dia da Paz e se referiam aos "povos ultramarinos que integram a Nação Portuguesa". Os promotores da vigília pretenderam, nomeadamente, "assumir publicamente, como cristãos, um compromisso de procura efectiva da Paz frente à guerra de África", que disseram não poder "desconhecer, camuflar ou silenciar"». Uma "Cantata da Paz", com versos de Sophia de Mello Breyner e música de Francisco Fernandes – Vemos, ouvimos e lemos –, ficaria para sempre associada a este evento» (Entre as Brumas da Memória..., p. 133).

Divulgo hoje a letra dessa Cantata.


Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Nós, o Povo de Deus,
Reunidos imploramos
A graça da Paz .

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome,
O caminho da injustiça,
A linguagem do terror.

A bomba de Hisoshima,
Vergonha e todos nós,
Reduziu a cinza
A carne das crianças.

O corpo humano foi
Queimado em Buchenwald.

Os países inventam,
A máquina produz
Bombas e prisões,
Perfeitas sujeições.

E no terceiro mundo,
Nos campos e na rua,
A fome continua.