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17.3.17

Ok, põe-me ko



«Numa entrevista ao jornal Público, Assunção Cristas revelou pormenores surpreendentes sobre a resolução do BES e não só. Não sei por onde começar. Talvez pela frase: "o Conselho de Ministros nunca foi envolvido nas questões da banca". Provavelmente estavam convencidos de que a troika tratava disso. Se no estado em que estava o sistema financeiro português (BES, BANIF, CGD) no Conselho de Ministros não se falava de banca, mais valia fazerem as reuniões num elevador e falar do tempo. Imagino que nessa altura andassem mais preocupados com os aldrabões do RSI e os chupistas dos pensionistas e não tinham vagar para falar de banqueiros. (…)

Este OK cego da Assunção é uma espécie de KO do discurso de exigência que a líder do CDS/PP exibe na Assembleia. (…) Curioso que isto é mais ou menos como o Salgado fazia na gestão do BES. Para a Assunção, a Maria Luís era a DDT. (…)

Tenho dúvidas se a única atitude que podemos ter, sem conhecer os dossiês, é confiar e dizer que damos o OK. Se calhar, também podemos enrolar o páreo com motivos frutícolas, deitar fora o corneto de morango, interromper as férias e ir saber o que se estava a passar. Custa pensar que alguma das nossas desgraças podiam ter sido evitadas se a água naquele dia não estivesse tão boa. Ainda para mais, para infelicidade nossa, ao mesmo tempo que Cristas estava de férias, a máquina das finanças, do indivíduo de elevado carácter, também tinha tirado uns dias de folga. Maldito bom tempo.»

João Quadros

28.10.15

Sobretaxa e manipulação



Nicolau Santos, no Expresso Diário de 27.10.2015:

«Não foi sério. O que o governo cessante fez no caso da devolução da sobretaxa sobre o IRS tem um nome suave (manipulação) e outro menos suave (falcatrua). (...)

O Governo calou-se, guardou os dados para si e começou a soltá-los no Verão: 12%, 20%, em agosto ultrapassava os 35% e, com a euforia no ar e as eleições a aquecer, os “spin doctors” foram fazendo chegar às redacções a mensagem de que, por este andar, seria mesmo possível devolver 50% da sobretaxa no próximo ano devido à espectacular recuperação da economia.

Azar. Em Setembro, a quebra na cobrança do IRS colocou a devolução do IRS em apenas 9,7%, o que significa que em vez de os contribuintes continuarem a suportar uma sobretaxa de 3,5% ela poderá reduzir-se para apenas 3,2%. Mas claro que este valor, por uma enorme coincidência, só foi conhecido depois das eleições de 4 de Outubro.

Não há duas formas de classificar o comportamento do Ministério das Finanças e do Governo: manipularam deliberadamente a informação para captar o voto dos eleitores. E receberam a discreta ajuda de empresas como a Somague e a Unicer, que só fizeram os despedimentos colectivos que já tinham previstos na semana a seguir às eleições. É bom recordar estes comportamentos quando vierem falar ao país de ética.» 
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26.8.15

O crash chinês já cá chegou




Prejuízo de cem milhões de euros da Fidelidade, vendida à chinesa Fosun. 
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A maratona das privatizações



«Marco António Costa, no seu estilo monotonamente áspero, conseguiu tirar do bolso a ideia que o espírito governamental é de "maratonista". Como ideia embalsamada é louvável, mas tem o aroma estragado. (...)

É incompreensível esta fúria, a um mês das eleições, para despachar contra tudo e contra todos um serviço público ao primeiro turista que passe defronte do Ministério da Economia. António Pires de Lima poderia tê-lo feito antes, com tempo e transparência total. Fazer tudo a correr, diminuindo inclusivamente os prazos, e enviando cartinhas perfumadas a dezenas de entidades para ver se alguma avança, não causa apenas estupefacção. Causa um arrepio na espinha.

Pior: o Ministério da Economia diz ir fazer um "ajuste directo", como se o único objectivo fosse encontrar alguém que tome conta da ocorrência. Sem que haja transparência total na decisão do Estado, sem ouvir a autarquia do Porto, ignorando os prazos decentes para se decidir com juízo e recato. Fala Marco António Costa de maratonas? António Pires de Lima corrige-o com acções: corre, sabe-se lá para onde, com os pulmões a saltar-lhe pela boca. O Ministério da Economia diz ainda que a urgência é ditada pelo "interesse público". Como momento de humor era melhor terem contratado John Cleese. Sempre levaríamos a piada a sério. Assim percebem-se melhor as palavras de Marco António Costa: no dicionário consultado pelo Governo uma maratona é uma prova de 100 metros. Sem barreiras.»

Fernando Sobral

17.8.15

Queridos idosos



«O "estatuto do idoso", legado de Paula Teixeira da Cruz para ser recordado como o maior exemplo de não-legislação desde que existe Diário da República no nosso jardim à beira-mar especado, foi aprovado em Conselho de Ministros. Faltou, claro, o "champagne" para comemorar a alucinação.

Ninguém duvida da necessidade de uma estratégia para proteger os mais idosos, especialmente vinda de um Governo que, desde o início, fez da guerra entre novos e velhos uma forma de dividir para reinar. (....) Depois de aplicar aos mais idosos uma política de bolsos vazios, a política do Governo é de uma generosidade psicadélica. Olhemos para o absurdo. O Governo tira da cartola uma resolução do Conselho de Ministros. Mas como o "estatuto do idoso" implica criminalização, há que fazer alterações ao Código Penal. E estas só podem ser feitas pelos deputados. Como estes estão de férias, só o poderão fazer na próxima legislatura.

Não se sabendo se este Governo vencerá ou terá maioria, a legislação aprovada é um monte de papel atirado ao ar à espera de que alguém, no futuro, se digne apanhá-lo. Já se viram muitos truques de magia, mas este é notável. O Governo finge legislar para que os mais idosos corram a votar nos partidos que o suportam. Mas o que foi aprovado tem tanto valor legal como um rabisco em papel pardo. Aquele que se usava, antigamente, nas mercearias. Só faltou o ministro da Presidência apresentá-lo com um lápis atrás da orelha.»

Fernando Sobral

7.8.15

O nosso Maçães



«Bruno Maçães é mais conhecido no mundo inteiro pelos seus tweets do que pela sua actividade como secretário de Estado. Não deveremos ficar muito preocupados com o assunto.

Afinal os constantes duelos florais de Maçães com todos os que ousam pôr em causa a "linha justa" do Governo e de Berlim e Bruxelas fazem já parte de um folclore banal. Assim os portugueses sabem que existe um secretário de Estado chamado Bruno Maçães. O secretário de Estado julga que, existindo no Twitter, existe. Todos têm direito, até constitucional, a acreditarem na sua importância. E a comprar holofotes para que se sintam como actores de Hollywood. Nada a objectar. Mas esta constante guerrilha no mundo digital mostra como as prioridades continuam trocadas em Portugal: deveria ser o mundo real que deveria preocupar os governantes, ou aqueles que são acusados de o serem.»

Fernando Sobral

4.8.15

A mentira fica



«O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho dá uma entrevista e, ostentando o olhar mais cândido que consegue, mente sobre uma questão fundamental - os dados do desemprego - para tentar convencer os portugueses de que as coisas estão no bom caminho, de que a economia está a recuperar, de que a austeridade funcionou e de que o seu governo merece ser reeleito em Outubro.

O irrevogável vice-primeiro-ministro Paulo Portas repete a mesma mentira em todos os púlpitos da pré-campanha que encontra pela frente, mas com um dedo esticado de autoridade e a voz pausada que Portas sabe que se podem fazer passar por gravitas e com os fatos de bom corte que Portas sabe que se podem fazer passar por seriedade.

Escândalo, porque os chefes do governo mentem? Escândalo porque não se trata apenas de uma declaração que não corresponde à realidade, mas de uma operação de manipulação da opinião pública, com estágios inventados para fingir que milhares de pessoas não estão no desemprego, com milhares de desempregados transformados em não-pessoas para os apagar das listas do desemprego, com os emigrantes varridos para debaixo do tapete? Sim, um pequenino escândalo. Vinte vozes indignadas. (...) A oposição cansa-se. Afinal, já todos sabem que os membros do governo são uns aldrabões, para quê insistir? Os telespectadores não reparam, a mentira fica. Parece que o desemprego está a diminuir. Talvez eu afinal tenha emprego e ainda não tenha dado por isso. Não iam mentir na TV pois não? O governo não ia mentir, ia? (...)

Achamos que é falta de educação dizer a alguém que mentiu mesmo quando essa pessoa mente descaradamente e há milhões que sofrem por isso. E os jornalistas vivem no pavor de ser considerados "parciais", de "ter uma agenda". (...)

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, foi responsável pelo maior esquema de fuga ao fisco na história da Europa, roubando milhares de milhões de euros aos contribuintes europeus? O presidente do EuroGrupo, Jeroen Dijsselbloem, inclui no seu CV um mestrado inexistente que apagou quando foi descoberto? O FMI sofre de esquizofrenia financeira, impondo à força aos países medidas que condena nos seus documentos internos? Que importa. Pode falar-se nisso uma vez nos jornais, mas insistir seria falta de educação, "ter uma agenda". Dizemo-nos indignados mas não queremos ser considerados indelicados.»

José Vítor Malheiros

3.8.15

CGD – O braço armado do Estado



«Durante muitas décadas, a Caixa Geral de Depósitos foi o amigo número um do Estado. O seu braço armado, em tempos de tempestade, e o refúgio perfeito para os que tinham deixado de ter lugar no Governo ou no Parlamento.

Quando o rei D. Luís a criou em 1876, para "incitar o espírito da economia", talvez se imaginasse já que viria a transformar-se no banco do Estado. Salazar transformou-a num instrumento da sua política económica. Mas, sobretudo, pela sua pujança e peso na sociedade portuguesa, a CGD foi sempre o palco perfeito para se observar o teatro político e as motivações que mudam consoante o rumo do vento. (...)

A CGD simboliza o Estado português e a força que ainda julga ter. Se imagem mais poderosa não existisse, bastava olhar para a sua sede: a caixa-forte do Estado português, agora que a emissão de moeda é decidida lá fora.

O actual Governo, que convive mal, por razões ideológicas, com empresas do Estado, já privatizou quase tudo. Como símbolo, só resta a CGD. O "fastio" com que Passos Coelho encarou o facto de a CGD ainda não ter reembolsado ao Estado a ajuda pública que recebeu, é um sinal eloquente de que velhos fantasmas regressam como convicções. A administração de José de Matos foi, com uma frase, colocada entre a espada e a parede. Sairá, pelo fim do mandato. Mas a questão é que Passos, sem mais nada para privatizar (excepto as águas), poderá estar a recuperar o seu velho sonho (transferir a CGD para o sector privado), como dizia há muitos anos. É uma opção. Mas então o Estado ficará sem o seu último Robocop.» 

Fernando Sobral

1.8.15

O Pátio das Cantigas



«Também na política se assiste a um "remake" pimba de "O Pátio das Cantigas". A apresentação do programa eleitoral da coligação PSD/CDS é uma espécie de farsa depois da tragédia que foi a aplicação do modelo da troika (negociado e desenvolvido por mentes nacionais, não o esqueçamos). O primeiro capítulo foi encerrado: a dívida e a austeridade serviram para se cumprir a primeira parte da imolação do Estado como o conhecíamos: desagregou-se o que ele tinha de bom (substituindo os mais capazes da administração por "jotinhas" que impuseram a sua lei e incompetência), abriu-se o precedente de incumprir os contratos do Estado com os cidadãos relativamente à troca de impostos por reformas seguras, privatizou-se tudo o que estava à vista e conseguiu-se reduzir o custo do trabalho à insignificância material e moral. (...)

A coligação não nos diverte com um "remake" do "Ó Evaristo, tens cá disto?" porque o seu discurso é sonâmbulo: parece o de um zombie ideológico que quer transformar Portugal no laboratório do futuro. Afinal, não é Vasco Santana que está no palco: é Passos Coelho. Este é um país sem classe média, sem perspectivas de segurança, onde todos lutam contra todos para se salvar, enquanto o Estado (ocupado por uma elite) assiste e divide entre os seus cúmplices o que amealha dos impostos. Só falta mesmo Passos Coelho recuperar a sua velha ideia de privatizar a Caixa Geral de Depósitos para que o génio retirado da garrafa cumpra o seu objectivo. Toda a farsa se transforma nesta tragédia desenhada. Que ainda não terminou. »

Fernando Sobral

28.7.15

A política do açúcar



«Após a crise de 1929 muitos americanos passaram a viver entre a miséria absoluta e a insegurança total. Um produto surgiu como uma salvação precária.

Nessa época, o açúcar era barato nos Estados Unidos e isso fez com que os americanos se tornassem dependentes dos doces para aquecer os seus dias. A cozinha do medo, como lhe chamaram, encheu-se de guloseimas e sobremesas. Dava energia. A atracção dos doces em Portugal é longínqua, e tanto teve a ver com a riqueza do nosso mel, como com a chegada da cana-de-açúcar à Madeira.

Com a crise dos últimos anos, os portugueses tiveram de se voltar para o açúcar e, claro, para as meias doses nos restaurantes e para a comida barata dos hipermercados. Para iludir o estômago vazio de presente e de futuro. A questão é que o Governo não entende que não se pode pedir uma dieta destas durante anos e depois não se prometer no programa eleitoral uma sobremesa qualquer. Passos Coelho não tem aptidão para ser um Ratatui ou um "chef" com estrelas Michelin. Quando conjuga ingredientes, a sopa fica estragada ou com falta de sabores. Nisso tem de aprender com Paulo Portas.

A sua ida à Madeira serviu para dar largas à imaginação gastronómica, criando uma espécie de gaspacho político. Disse ele: "Os portugueses não comem TGV, os portugueses não comem auto-estradas nem comem dívidas." Esqueceu-se de dizer que não comem também com o saque da "contribuição extraordinária" que se tornou uma norma. Mas a sua frase mostra que Passos Coelho come queijo em excesso. Já nem se fala de, com a frase, ter disparado sobre o PS (por causa da dívida) mas, sobretudo sobre Cavaco Silva (o grande impulsionador do "país das auto-estradas e do betão").

Sendo económico com a sua própria memória, Passos Coelho esquece que em 2009 na conferência do The Economist dizia que "o TGV é um projecto estratégico que envolve compromissos assumidos por vários governos". Nada de grave: Passos Coelho não come TGV. Degusta a própria memória.»

Fernando Sobral

27.7.15

Dizem que foi gralha



«O Governo redigiu, como se fosse uma redacção, um simpático documento onde olha para o umbigo. No meio das felicidades conquistadas tropeçou num pedregulho: diz que os mais pobres foram afectados pela crise.

É uma gralha, clama o Governo. A intenção dos redactores de serviço era dizer que os mais pobres foram menos prejudicados do que os mais ricos. Nada que admire: os membros do Governo trocam tantos números à sua vontade que, muito provavelmente, vivem numa realidade virtual onde já não sabem o que é realidade e o que é alucinação. (...)

A redacção do Governo faz parte da ideia de que o país vive numa escola primária e come tudo o que se lhe põe diante dum prato. O Governo consegue dizer que a dívida pública está a descer. Onde? Nas Berlengas? Sobre a emigração diz-se nada. O brutal aumento de impostos é varrido para debaixo da cama. Os cortes nas pensões e nos salários devem também ter ocorrido em Marte. Ou seja, na redacção do Governo, há muitas mais gralhas do que aquela que foi detectada. Para o Governo parece ser um baralho de cartas: reparte e dá. Como se as suas acções e omissões não tivessem tido efeitos devastadores na vida dos cidadãos. Esta redacção é um bocejo. Apetece dormir quando o lemos. O problema é que o Governo acredita no que diz.»

Fernando Sobral

9.7.15

«Não se pode enganar toda a gente o tempo todo!»



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Anos de inox?



«Um dos grandes axiomas deste Governo é a sua capacidade de síntese: frases feitas e ideias fixas. E a vaidade de se ver ao espelho e acreditar que é Claudia Schiffer capaz de fazer suspirar Portugal e o mundo cada vez que desfila.

Passos Coelho, no debate sobre o Estado da Nação, fez do elogio próprio a sua filosofia política: "Sabemos que a estratégia que seguimos de rigor, de crescimento e de credibilidade foi a mais acertada." Só acredita quem quer. (...)

Portugal, a acreditar no auto-elogio governamental, é hoje aço inoxidável capaz de resistir à corrosão dos elementos, seja a dívida pública que não pára de aumentar, o desemprego crónico, a carga fiscal insustentável e mesmo o humor dos mercados. É claro que os indicadores económicos que Passos Coelho levou para o Parlamento são os que mais lhe ficam bem na lapela. E o argumento de que Portugal não é a Grécia é de prestidigitador: se Atenas sair da Zona Euro o tabu implode e qualquer país pode ser corrido a pontapé da moeda única. E Portugal está ali, em terra de ninguém, como um alvo disponível. Protegido por Angela Merkel, enquanto lhe der jeito.»

Fernando Sobral
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