5.4.20

Para sossegar a consciência dos fumadores


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Veados no asfalto



Ontem, em Odivelas.


E cabras algures no Reino Unido: 



(Daqui)
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Os tempos vão mudar?



«Quando editou, em 1964, The times are a’Changin, Bob Dylan previa o futuro. O seu e o da América. John F. Kennedy fora assassinado meses antes e Dylan rompia com o passado. Fora o trovador da renovação da música folk. Mais uns meses e transformar-se-ia num herético: deslumbrado por Rimbaud e pelo LSD, trocava a viola por uma guitarra eléctrica. Os tempos tinham mudado. Recorda agora isso numa canção sem fim, Murder Most Foul. Diz ele, que já viu tudo: “Thousands were watchin'/No one saw a thing”. Fala da morte de JFK em Dallas e da misteriosa digressão mágica das décadas de 60 e 70. Poderia estar a falar de um vírus invisível que dinamitou todas as certezas das sociedades modernas.

Tal como nesses dias, os tempos estão a mudar? É verdade.

Só que, agora, ninguém sabe onde colocar os pés: estes campos colocados à nossa frente, outrora floridos e globais, estão minados. Cheios de espantalhos, de Jokers, de Freddy Kruegers. Estamos num labirinto onde não vemos o Minotauro, mas sentimos a sua presença. Todos desejam respostas. Mas, no mercado, estão esgotadas, como as máscaras ou o álcool etílico. Em Delfos, os gregos perguntavam o futuro à pitonisa. Hoje o Google não nos dá respostas. Nem os políticos. Nem os mercados. Nem os videntes. Como será o mundo depois da covid-19? Sabemos apenas o que desejávamos ignorar. Seremos mais pobres e haverá uma astronómica dívida por pagar. Pior: até quando existirá dinheiro, em países que não emitem moeda, para pagar a paz social? O Estado não é o cofre do Tio Patinhas.

A história do coronavírus é um duelo entre a saúde e a economia. Desejamos que ambas sobrevivam. Mas, até lá, temos de lidar com os vencidos da vida. Do país outrora conhecido como Holanda e agora novamente chamado Países Baixos, esperávamos a subtileza dos quadros de Rembrandt, frutos belos de uma sociedade aberta ao mundo. Pelo contrário coube-nos, nestes dias mais sombrios, o sr. Hoekstra, holograma do sr. Dijsselbloem.

Julgou-se, por momentos, que o Ferrão dos “Marretas”, resmungão que vive num caixote do lixo, e que deseja que a sua vida seja o mais miserável possível, tinha agora assento no Eurogrupo. Não. Esta é uma personagem real, menos carinhosa do que o Ferrão e usa fato e gravata. Cómodo, com a barriga cheia, pensa nele. E não nos outros. Fez bem Portugal, por intermédio do sr. António Costa, em fazer ouvir a sua voz. Não se pode jantar com uma personagem destas. Jean Monnet disse que a Europa será forjada nas crises. O surto de covid-19 é uma dessas crises. É sanitária e económica. Será moral e ética. Não poderá perder tempo com personagens como o sr. Hoekstra.

Portugal vive um momento crucial. No meio da sensatez política, tem sobrado espaço para o dislate. Transformar o Hospital Curry Cabral, por desígnio político do sr. António Costa, numa unidade exclusivamente para o combater a covid-19 é um deles. Tal como foram, antes, as iniciativas políticas para acabar com o Laboratório Militar e o Hospital Militar. Colocar-se já na fila da frente para um sebastiânico governo de “salvação nacional”, como faz o sr. Rui Rio, é outro. Os políticos portugueses usam demasiadas vezes a improvisação como almoço. Raras vezes desenham estratégias. Os resultados costumam ser desastrosos.

Nada que os diferencie, aqui, da Europa dita comunitária. Há um velho ditado grego que apetece recuperar agora: “Aquele a quem os deuses desejam destruir, primeiro enlouquecem”. A Europa, antes de se destruir, está a enlouquecer. Os deuses europeus actuais simbolizam instituições pós-modernas: são indiferentes ao que os cerca. No centro de toda esta tragédia sem solução está uma União Europeia sediada burocraticamente em Bruxelas. E que reage em vez de agir. Poderá assistir, a prazo, a democracias mais musculadas. E quem pagará a crise? E como? E como será a gestão social de um mundo empobrecido, sem presente e com um futuro muito nebuloso? Uma roleta russa?

O mundo tem surfado pelo Instagram, pelo Twitter, pelo Facebook e pelo WhatsApp. Com cada vez menos contacto com a realidade. Algo vai mudar, mas talvez não tanto como alguns desejaríamos. A grande dúvida, no meio do cataclismo, será uma: ficaremos melhores ou piores pessoas do que antes da covid-19? Foi a forma como tentámos domesticar o planeta aos nossos interesses que nos tornou alvos mais fáceis de vírus como estes. Julgávamos ser os conquistadores. Acabámos encurralados. A globalização, o viver numa rede sem fim, fez agora reerguer fronteiras e desconfianças. A economia vencerá a saúde. Mas, mais ou menos mutante, o mercado regressará sedento, como salvador. O vírus será o culpado de todas as desgraças. E, como sempre, serão os mais frágeis que pagarão a crise, no meio das cinzas.»

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4.4.20

Última Ceia 2020


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Até quando?


«Depois de há uns meses, a pretexto do debate sobre a eutanásia, tantos terem questionado se a nossa sociedade não estava a desistir dos velhos e dos doentes, é bonito ver a sociedade mobilizar-se para os proteger. Mas este isolamento não pode durar meses e meses. Privar os nossos velhos de contactos físicos com filhos e netos não será uma condenação à morte; pelo menos imediata. Mas é impor-lhes uma pena de solidão cruel, capaz de minar a sua vontade de viver. Soubemos legalizar a eutanásia, respeitando a autonomia dos mais idosos e permitindo que muitos peçam assistência para morrer. Saibamos agora aceitar que a mesma autonomia pode levá-los a pesar os riscos e decidir que querem, apesar de tudo, estar com os seus netos. Conscientemente. E nós, em consciência, queremos impedir isso?»

Luís Aguiar-Conraria, Expresso, 04.04.2020
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O coronavírus mata



«Comecemos pelos números: em 2019, morreram em média 399 pessoas por dia em Portugal. Um valor que corresponde a um decréscimo face a 2018 (o ano com mais mortos desde 1949, quando a Europa vivia a ressaca económica dos anos de guerra). O envelhecimento da população explica, em larga medida, este padrão de incremento do número de mortos por ano em Portugal.

Curiosamente, o ano de 2020 parecia ser auspicioso no que toca à mortalidade. De acordo com os cálculos de Pedro Almeida Vieira, entre janeiro e fevereiro, morreram menos 2440 pessoas do que no ano anterior e menos 667 na comparação com a média de 2010-19. Ou seja, se consideramos apenas os dois primeiros meses do ano, a média de óbitos diários desceu para 358, um valor inferior aos 399 de 2019 e aos 369 do período entre 2010-19.

Com a chegada de março, os valores costumam atenuar-se. Passada a fase mais aguda da gripe e a chegada da primavera, com um clima mais ameno, a mortalidade tende a diminuir ao longo do mês, com diferenças significativas entre a primeira e a segunda quinzena. Foi a tendência dos anos anteriores. Este ano é exceção. Se até dia 10 de março não houve um único dia em que não tivessem morrido menos pessoas do que nos mesmos dias do ano passado, a partir de dia 15 dá-se uma súbita inversão de tendência, com um crescimento sistemático do número de óbitos, fazendo da segunda quinzena de março de 2020 a mais mortífera dos últimos dez anos. As 144 mortes com covid-19 explicam uma parcela desta variação. Contudo, continua bem longe de ser suficiente para explicar o acréscimo de 495 óbitos no período. Um aumento que não pode ser coincidência.

Há explicações para o fenómeno: o confinamento social tem efeitos mais agudos na saú¬de mental e física dos mais idosos, precipitando mortes; quer os suicídios, quer as mortes por violência doméstica podem ter aumentado; e, fundamental, os serviços de saúde estão a recentrar a sua atividade na resposta ao coronavírus, secundarizando outros tratamentos, ao mesmo tempo que os utentes se dirigem menos ou tardiamente aos hospitais (as notícias que dão conta da diminuição drástica de chamadas para o INEM e das dádivas de sangue, acompanhadas pelo aumento de reservas, são disso sintoma).

Mas o pior está mesmo para chegar. Os fatores económicos são o determinante mais poderoso da saúde pública (mais até do que o papel dos serviços de saúde). A ideia de que há uma escolha a fazer entre prioridade à saúde pública ou preservação da economia é, aliás, totalmente errada. O colapso anunciado da economia, o brutal aumento do desemprego previsto e um longo período de austeridade que se seguirá mostrarão que a tendência nos óbitos da segunda quinzena de março não foi coincidência e tenderá a intensificar-se. Vão ser muito mais aqueles que vão morrer por causa do coronavírus do que os que vão morrer com coronavírus.»

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Metade da humanidade em confinamento


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3.4.20

Velhos



Guida Vieira
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Índia, a tal tragédia inevitável




«Num artigo de opinião no The New York Times, o economista e epidemiologista Ramanan Laxminarayan, vice-presidente para a Investigação e Políticas da Fundação de Saúde Pública da Índia, admitia, citando “estimativas iniciais”, que entre 300 a 500 milhões de indianos pudessem vir a ficar infectados até ao final de Julho.

Mesmo considerando que “a maioria dos casos não teria sintomas ou teria apenas infecções ligeiras”, os números apontavam para que entre 30 a 50 milhões pudessem ter sintomas mais graves. (…)

Numa entrevista ao Nouvel Obs, a escritora indiana Arundhati Roy reforça a ideia: “Não temos um sistema de saúde como deve ser para os pobres, nem sequer para a classe média. Imaginem o que é falar de distanciamento social, de gel hidro-alcoólico, de confinamento e mesmo de lavagem de mãos a pessoas que vivem em bairros de lata, nas ruas, em campos de refugiados, pessoas cujas casas foram queimadas na onda de violência anti-muçulmana poucos dias antes do início da epidemia… não tem qualquer sentido.”

Um exemplo da abissal diferença de universos é, segundo a escritora, o facto de o primeiro-ministro Modi ter apelado a que as pessoas fossem às varandas bater as palmas contra o coronavírus. Mas “quantas pessoas têm varandas na Índia”? É por isso que, alerta Arundhati Roy, “se o coronavírus atacar a Índia como atacou a Europa, será um cataclismo”.»
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A bem-aventurança dos aerofóbicos



«Foi o pingo no nariz que me deprimiu. Com a exceção antibiótica, uma ou outra operação e com o diabo surdo, cego e mudo, perneta e maneta e o que mais for de peçonhas, e sempre nas graças de Deus, tenho convenientemente assassinado à Aspirina C efervescente, com limão, sff, as maleitas que afligem um ser humano que se preze, espécie na qual orgulhosamente me incluo.

Mas o pingo no nariz colocou-me num dilema embaraçoso que adicionou um quanto baste de ansiedade à minha dose diária de estupefação corrente. Ao fim de 35 minutos na fila de espera para entrar no supermercado, com um frio que não rachava muito, mas, mesmo assim, um frio de 5 graus, o pingo, como é normal, começou a pingar, estava eu já a entrar. Como enxugar o pingo com luvas de látex e, pior ainda, como limpar o nariz com a máscara de cirurgião? Muito pior ainda, se tiro a máscara, posso apanhar o vírus; se não tiro a máscara, não posso apanhar o pingo. Foi este o meu dilema.

Não conseguia arranjar uma maneira elegante para resolver uma situação normal e nem digo como a resolvi, mas fartei-me de esfregar o nariz enquanto olhava para um molho de brócolos ou para um nabo, que é como eu me sentia naquela figura. Se ficas ansioso, na melhor das hipóteses, tens três ou quatro meses de ansiedade, o que é uma chatice, pensei.

O melhor é passar entre os pingos da chuva viral para ficar com menos sintomas de doenças imaginárias. No entanto, o facto é que o fantasma do Corona me aparece sempre que tusso, espirro, me dói o corpo e a cabeça de tanto magicar.

De cada vez que me cruzo com alguém, já se sabe, lá fico eu mais ansioso. E mais fico em espaços abertos, em espaços fechados, sei lá, em tudo o que é sítio, em todas as situações que acamam um maníaco-depressivo. Uma pessoa por 10 m2 (como manda a lei antiviral para a frequência de supermercados) parece-me uma multidão, e mesmo à distância de dois metros um carrinho de supermercado parece um buldózer carregado de latas e embalagens de todos os vírus que acompanham a cadeia de produção alimentar.

Ah, se eu fosse um aerofóbico seria bem-aventurado, mas não sou. Consolo-me com a ideia de que só acontece aos outros e tento levar uma vida tão normal quanto possível.

Bem-aventurados os aerofóbicos, porque é deles o reino do confinamento. Não saio de casa tão cedo… só quando a Luna precisar!»

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O (não) admirável mundo novo


Exactamente há dois anos, andei pelo Oriente (sobretudo pelas várias Chinas e pela Coreia do Sul). Leio hoje o último texto que escrevi, em 31.03.2018, antes de regressar a Portugal, e copio o último parágrafo. Prefiro não comentar.

«Por tudo isto, regresso a casa com uma ideia que não me sai da cabeça: preparemos os nossos filhos e os nossos netos para aprenderem a viver em sociedades pós-democráticas, porque é bem provável que elas sejam uma realidade por aí, talvez mais depressa do que possamos imaginar.»
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2.4.20

E a América Latina?



Somos todos muito eurocêntricos ( «EUA-cêntricos e Brasil-cêntricos, também) e continuamos por isso a ser detalhadamente informados sobre o Covid-19 em meia dúzia de países. Mas o drama avança noutras paragens e o EQUADOR é uma delas. Talvez por ter estado neste país, e por dele ter guardado belas recordações, dói-me espcialemente o que leio.

(Na imagem, a fotografia que fiz a uma simpática iguana, numa praça de Guayaquil onde hoje se acumulam cadáveres.)

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Hoje, na Assembleia da República




Sobre uma das questões mais polemicas e mais discutidas nas redes sociais do novo decreto sobre o Estado de Emergência:

«Compreendemos que os prazos legais de consulta aos sindicatos e organizações patronais sejam incompatíveis com a celeridade de medidas a que este período obriga. Mas a solução não tem de ser suspender em absoluto a obrigação constitucional de ouvir os representantes dos trabalhadores sobre normas laborais. O governo deve encontrar um modelo expedito para manter esta auscultação essencial à democracia e ao acerto das medidas.»
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O estado de emergência não institui a impunidade laboral


Ana Santos, Arménio Carlos, Constantino Alves, Januário Torgal Ferreira, Fausto Leite, Joana Manuel, Maria da Paz Lima, Manuel Carvalho da Silva, Paulo Pedroso, Ricardo Paes Mamede, Sara Barros Leitão, Sérgio Monte, Tiago Gillot:

«A situação de emergência em que vivemos apela à partilha de sacrifícios e à solidariedade. No entanto, nas últimas semanas, têm-se multiplicado atropelos gritantes à lei laboral. As denúncias feitas incluem o recurso à chantagem sobre os assalariados, levando-os a renunciarem “livremente” ao exercício de direitos fundamentais.»

Ler na íntegra AQUI.
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Se é para enfiar dinheiro na TAP, que desta vez se renacionalize mesmo



«Mal tudo isto começou, a TAP mandou encerrar o seu call center. Fez bem, em nome da segurança dos trabalhadores. Mas não tratou de fazer, como tantas empresas e serviços com muito menos meios, a migração imediata para teletrabalho. Em plena crise, com milhares de passageiros a tentar regressar a casa e outros milhares a tentarem recuperar o dinheiro ou vouchers de viagens perdidas, a TAP ficou sem ligação telefónica para clientes.

A TAP vai colocar 90% dos seus trabalhadores em lay-off simplificado, um mecanismo criado para garantir o emprego e impedir despedimentos. Mas foi das primeiras empresas a dispensar pessoal, em plena crise, não renovando contratos e contrariando o espírito das medidas apresentadas pelo Estado. Ou seja, o abuso vem logo de uma empresa que tem o Estado como acionista. A administração preparava-se para distribuir prémios por administradores e trabalhadores de topo em ano de prejuízos colossais. Pelo menos isso teve a decência de suspender.

Não há forma de dizer isto com carinho: a Comissão Executiva liderada por Antonoaldo Neves e escolhida por David Neeleman é provavelmente a mais incompetente da história da companhia aérea. E se ela teve administrações incompetentes... Isso verifica-se na degradação da qualidade dos serviços, nos resultados comerciais e nos sucessivos danos reputacionais que os gestores foram provocando à empresa.

Um dia alguém contará a verdadeira história da privatização da companhia aérea portuguesa, feita na 25ª hora do governo de Passos Coelho a gente com má reputação no mercado. Assim como um dia se fará a história da tentativa de concessão dos transportes urbanos de Lisboa e do Porto. Não estamos a falar apenas de erros estratégicos por puro preconceito ideológico, como a privatização dos CTT, feita em bolsa e impedindo a existência de um acionista de referência. Nem o crime contra a soberania nacional, como as privatizações da REN e da ANA. Estamos a falar de histórias muito mal contadas que o jornalismo português ainda não se encarregou de vasculhar.

Mas não é apenas o governo de Passos Coelho que tem de nos dar explicações. A renacionalização parcial da TAP, feita pelo governo de António Costa, também foi uma farsa que ficou evidente aos primeiros desentendimentos entre o Estado e estes inenarráveis acionistas: o Estado mete dinheiro e não manda nada. Nem sequer é consultado. A renacionalização parcial da companhia aérea portuguesa nunca aconteceu. É uma fantasia. E confesso que cheguei, por uns dias, a acreditar nessa mentira.

Estou certo que, depois de todas as ajudas que dará como está a dar a outras empresas, o acionista Estado vai ser chamado a salvar a empresa nesta hora de crise profunda para todo o negócio aeroportuário. Todos os Estados vão, porque o discurso contra o Estado paternalista só serve para quando tudo está bem. É o discurso do adolescente, que quer uma liberdade radical para ir à festa mas dispensa-a na doença. Ainda vamos ver muitas coisas estranhas depois desta crise.

Todas as crises, mesmo as mais dramáticas, são uma oportunidade. E não têm de ser uma oportunidade apenas para os oportunistas. Podem ser para o Estado. Quando for chamado a injetar dinheiro na empresa, onde suspeito que o senhor Neeleman e os seus parceiros não vão querer enfiar um cêntimo, o Estado deve aproveitar para recuperar a maioria ou totalidade do capital e o controlo real da empresa. Gastando o mesmíssimo dinheiro que, de qualquer das formas, vai ter de desembolsar. Até porque, nos próximos anos de chumbo, vamos precisar de algumas empresas estratégicas. E podem esquecer as sacrossantas interdições europeias ao apoio público a empresas nacionais. Com o que aí vem, nenhum dos gigantes europeus o vai dispensar. Isto, se não formos todos suicidas. Ou se não voltar a vigorar a regra comunitária de que todos os Estados são iguais mas uns são mais iguais do que outros.»

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02.04.1976 - 44 anos e um Estado de Emergência


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1.4.20

Empreendedorismo deve ser isto




«Os pacotes disponíveis no Hotel Real Palácio e nos apartamentos turísticos Real Residência contemplam sete noites, em regime de meia pensão e oferta de estacionamento (€730), sete noites com pensão completa e oferta de estacionamento (€840) ou sete noites de alojamento, em apartamento, em regime de self-catering a partir de €380. Seguem todas as diretrizes da Direção-Geral da Saúde para manter os clientes seguros, providenciando “instruções contínuas” às equipas “para estarmos constantemente a atualizar os protocolos e acompanhar o cenário em incessante mudança”.

Asseguram ainda, no Hotel Real Palácio e na Real Residência que “a cada 30 minutos desinfetamos todas as superfícies com uma solução que mata 99,9% de bactérias e vírus, prestando atenção específica às áreas de refeições, maçanetas, telefones, botões do elevador e WC’s”. É garantido ainda que “ajustamos continuamente o serviço de alimentos e bebidas para permanecermos alinhados com as recomendações mais atualizadas de segurança alimentar” e que “todas as refeições são servidas nos quartos” do Hotel Real Palácio. Complementa esta oferta a possibilidade de “providenciar testes de Covid-19 no conforto do seu quarto, mediante um custo extra”.»
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Teletrabalho


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Um gráfico interessante


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Os corvos que para aí andam



«Pelo mundo inteiro, milhões de cidadãos vivem confinados. Os pássaros de Hitchcock tornaram-se realidade. Os corvos, que aparecem por todo o lado, têm agora o nome de um vírus; os outros corvos a que o filme alude, e que são hoje os do neofascismo, aguardam a sua vez.

Na macabra contabilidade dos número de mortes, anunciada como as cotações na bolsa que as acompanha na queda, o medo vira terror em noticiários sensacionalistas. Na rua onde estou confinado, a vizinha da casa da frente — de onde me chega o som em contínuo da televisão —, com a terrível idade da população em alto risco, como somos lembrados constantemente, alerta-me: “Vizinho, veja a televisão, que medo, é terrível!” Medo do vírus, mas cada vez mais de um futuro de miséria, na maior recessão desde a que devastou os anos 1930.

Na Europa, os governos procuram canalizar o medo para impor medidas de emergência no combate à pandemia e fazem apelos à “união da nação”. Herdeiros do estado-providência, muitos governos, socialistas e do centro, tomam medidas para garantir os salários aos confinados, e salvar as empresas. A gripe espanhola já foi há 100 anos, e a peste negra pertence aos livros de História. As referências usadas são as da guerra e os discursos inspirados nos líderes que a venceram. Metáfora perigosa.

É bom lembrar que a extrema-direita, na Europa, renasceu da propagação do medo contra os muçulmanos e os migrantes, facilitada pela chamada guerra contra o terrorismo, da “guerra de civilizações”, do nós e eles que todas as guerras criam.

A extrema-direita tentou, sem sucesso, transformar a luta contra a pandemia numa cruzada racista, como Salvini que afirmou que o vírus tinha sido introduzido por migrantes africanos, e Trump que arengou contra o “vírus chinês” e tomou medidas de exceção contra os migrantes.

O estado de emergência tornou a extrema-direita na oposição inaudível, mas os seus líderes esperam que as medidas que limitam as liberdades habituem os cidadãos à ideia de que a autocracia é o sistema que melhor os protege. Exacerbando um discurso securitário à base de catastrofismo e teorias da conspiração, acreditam que o exemplo chinês lhes pode ser favorável.

O poder chinês, que começou por esconder a existência do novo coronavírus, impôs medidas de controlo dos cidadãos, acedendo aos seus telemóveis e vigiando, através de câmaras de reconhecimento facial, as suas deslocações, como já vinha fazendo.

O autocrata Orbán, na Hungria, mostra bem como a extrema-direita pensa aproveitar-se da crise, procura impor o estado de emergência por tempo ilimitado e penas pesadas a jornalistas.

As posições obscurantistas de Trump e de Bolsonaro, tentando negar a evidência científica, não são um exemplo que ajude a extrema-direita europeia. Se Trump decidiu, em ano eleitoral, assumir a posição de Presidente de Guerra, ambos, em declarações e atitudes criminosas, desvalorizam a pandemia e o número de mortos para salvar as bolsas e os seus interesses.

Para derrotar o vírus em democracia, para vencer a paralisia que o terror cria, é indispensável ter confiança nos cidadãos, garantir uma informação rigorosa e mostrar que a pandemia pode ser vencida. As medidas de exceção devem ser transitórias e sempre aplicadas no respeito pelo Estado de direito e pela liberdade de informação.

Da acção da União Europeia dependerá, em boa medida, o resultado deste teste dificílimo que enfrentam as democracias liberais.

A União Europeia, depois de todas as hesitações iniciais, tem tomado medidas sem precedentes para proteger o sistema financeiro e o mercado único. Medidas insuficientes, uma vez que é preciso mutualizar a divida e criar um mega-fundo europeu para proteger todos os europeus, sem exceção e socorrer os países mais carenciados. A Alemanha e os seus preconceituosos aliados têm de assumir que é a hora da Europa. Como declarou Jacques Delors, a falta de solidariedade é um perigo mortal.

Mais, a União Europeia tem sido negligente no domínio da ajuda humanitária, o que é incompreensível, dado que esse foi um domínio privilegiado da sua ação internacional. É inadmissível que os apelos de Itália tenham ficado sem resposta. Perante as insuficiências da União Europeia surgem a China e mesmo a Rússia, com operações de socorro humanitário.

Os neofascistas esperam que a crise reforce o nacionalismo, o “salve-se quem puder”, que as fronteiras que hoje se fecham não voltem a abrir. Desejam também que se prove a inutilidade da União Europeia e das organizações mundiais para nos proteger.

Mas outro destino é possível. Desta pandemia pode sair uma Europa mais democrática e fraterna, liberta do dogma do neoliberalismo, mais determinada e eficaz na defesa da vida na casa comum que é a Terra. Em suma, que a comunidade das Nações democráticas da Europa volte a ser uma esperança para o Mundo.»

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