11.5.21

Sporting – Pandemia? Qual pandemia?

 


Exterior do Estádio de Alvalade, 2h antes do jogo. E continuará tudo assim, com ecrã gigante para o jogo ser visto. milhares de pessoas, muitas sem máscara, consumo de álcool, brincadeiras pirotécnicas (informação das TVs)

Não teria sido mais sensato admitir público dentro do Estádio? Isto é de loucos!
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Este país é um colosso!

 


Expresso, 11.05.2011
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Salvador Dali

 



Seriam hoje uns improváveis 117 anos.
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Mariana Mortágua versus Luís Filipe Vieira

 


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T[omámos] C[onhecimento]

 


«Eu tinha prometido a mim mesmo não voltar a falar na covid-19 por uns tempos. Mas a posição da Europa "oficial" diante da maka da suspensão das patentes das vacinas contra o novo coronavírus não me permite esquecer esse assunto facilmente. Se alguém ainda tem esperanças de que a humanidade sairia melhor da atual pandemia, é melhor desenganar-se de uma vez por todas.

Faltam-me adjetivos para qualificar a posição dos líderes europeus que se recusam a apoiar a pretensão dos países pobres (por uma vez, esqueçamos os eufemismos) de levantamento temporário das patentes das vacinas anticovid, para permitir a sua produção e a sua distribuição a custos menores pelas regiões que continuam escandalosamente discriminadas no atual processo de vacinação global, em especial a África.

Como se sabe, tal pretensão, manifestada por centenas de países, é apoiada pelo presidente da maior potência mundial, Joe Biden, e pelo Papa Francisco, duas lideranças que não são, digamos assim, negligenciáveis. Mas os mesmos líderes europeus que, servis - e apenas para dar esse exemplo -, apoiaram a invasão do Iraque decidida pelos EUA com base numa comprovada mentira, agora rebelam-se "corajosamente" contra a correta posição norte-americana de subscrever a proposta de levantamento das patentes em questão.

A posição europeia é apoiada por todos os seus líderes, da direita à esquerda (os leitores decidirão se usarão aspas ou não). Ou seja, o grande "centrão" europeu está unido contra a suspensão das patentes.

Os seus argumentos são de uma clareza assustadora, não escondendo ao que vêm: defender os interesses estratégicos das grandes farmacêuticas - um dos pilares do sistema neoliberal, ao lado dos conglomerados financeiros e das big tech - e manter as nações pobres numa posição de dependência.

Comentarei aqui, brevemente, apenas dois deles.

O primeiro é que apenas a iniciativa privada é capaz de fomentar a inovação. Falácia. A história das invenções e do desenvolvimento tecnológico está cheia de descobertas e inovações realizadas pelos próprios estados ("inspiradas", por exemplo, em razões militares), sem esquecer que grande parte da pesquisa privada é financiada pelos governos. Por falar nas vacinas anticovid, lembro que apenas 3% (leram bem: 3%) da pesquisa da AstraZeneca foi feita com fundos privados.

O segundo argumento é patético: a suspensão das patentes não resolve o problema da produção e da distribuição de vacinas. Como assim? O que os países pobres reclamam é precisamente ter acesso livre às patentes para poderem produzir as vacinas de maneira massiva e distribuí-las a um preço mais reduzido. No caso de Angola, por exemplo, seria muito mais barato adquirir vacinas produzidas na África do Sul do que na Índia, na China, na Alemanha ou nos Estados Unidos.

O continente africano conseguiu vacinar até agora apenas 2% da sua população. O que dizer, portanto, quando o presidente francês, Emmanuel Macron, jura, com o ar mais seráfico possível, que a suspensão das patentes não resolve esse problema e que os africanos poderão (talvez fosse mais honesto dizer "terão de") continuar a contar com a "Europa solidária", seja lá o que isso for?

Quanto à declaração da presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, de que tem problemas "mais importantes" com que se preocupar do que o tema das patentes, a mesma fala por si. É caso para dizer: T. C. (tomámos conhecimento).»

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10.5.21

Do bom senso

 

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A morte de Ihor

 


Diz-se que não ficou provado que tivessem conhecimento de que aquilo que fizeram iria causar a morte. É pena que não tenham dado logo uns tiros à vítima, pelo menos não mostravam tanta ignorância e nós, cidadãos, não fazíamos figura de parvos.

«Três inspetores do SEF estavam acusados do homicídio do ucraniano Ihor Homeniuk, em março de 2020, após o Ministério Público pedir a sua condenação e a defesa a absolvição dos arguidos. Acabaram condenados por ofensas à integridade física qualificada, agravada pela morte, com penas inferiores às pedidas pela acusação.
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10.05.1958 – Humberto Delgado: «Obviamente demito-o!»

 


Durante a conferência de imprensa de lançamento da sua campanha para as eleições presidenciais, no Café Chave d’Ouro em Lisboa, Humberto Delgado proferiu uma frase que viria a ficar célebre: «Obviamente, demito-o!»

Interessa o seu significado, independentemente das outras versões da frase em questão, que foram sendo reivindicadas.

«A 10 de maio de 1958, no café Chave d` Ouro, no número 38 do Rossio, em Lisboa, o candidato da oposição às presidenciais deu a conferência de imprensa em que o correspondente em Lisboa da agência noticiosa France Presse (AFP), Lindorfe Pinto Basto, fez a pergunta.
"Senhor general, se for eleito Presidente da República, que fará do senhor Presidente do conselho?", perguntou, depois de ter notado que, num país que vivia em ditadura, os jornalistas "estavam todos `nas encolhas`".
"Vi que os meus colegas estavam todos nas encolhas. Eles não podiam falar. Eu pertencia à France Presse. Fiz a pergunta. Tinha de a fazer. O general parecia que estava à espera", lembrou Lindorfe Pinto Basto numa conversa com Iva Delgado, filha do general que "perdeu" as eleições para o candidato do regime, Américo Thomaz, no meio de acusações de fraude.
"Obviamente demito-o!" foi a resposta usada pelos jornalistas, mas, mesmo passado meio século, as versões não são todas coincidentes, como descreve o neto do general, Frederico Delgado Rocha, no livro "Humberto Delgado - Biografia do General sem Medo" (Esfera dos Livros), agora reeditado por ocasião dos 50 anos do seu assassinato.
A frase, lê-se no livro, foi registada com "nuances" pelos diferentes jornalistas desde a pontuação ao tempo verbal e à própria ordem das palavras.
As duas variações assinaladas no livro são: "Demito-o, obviamente" e "mas obviamente demito-o".
Em 1998, numa conversa com Iva Delgado, Pinto Basto, que era correspondente da AFP desde 1948, registou outra frase: "Demito-o, é óbvio".»

(Fonte)

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Os flirts de Costa

 


«Rui Rio queixou-se do tom rasteiro da entrevista de António Costa à TSF e ao DN. Parece-me que “rasteiro” é demasiado forte e, verdade seja dita, Costa não disse nada que fosse mentira. O namoro do PSD com a extrema-direita e o convite a Suzana Garcia, vindos de quem queria recolocar o PSD ao centro, e as contradições de quem se batia contra “julgamentos de tabacaria” e agora cavalga todos os que lhe possam render votos, exibem um desnorte por parte de quem nos prometia banhos de ética. Mas se António Costa desejasse acordos de regime e saídas políticas deixaria esta análise para quem a faz de fora. Não pode passar o tempo a dinamitar pontes e depois queixar-se de que ninguém atravessa o rio para o ajudar em tempo de crise. Sobretudo quando não lhe tem faltado compreensão e ajuda por parte da oposição.

Na entrevista que Rui Rio deu à RTP, que até lhe poderia ter corrido bem porque soube falar com clareza do combate ao corporativismo na Justiça, do que aconteceu em Odemira ou da instrumentalização da Justiça no caso da escolha do provedor europeu, acabou por confirmar o desnorte em que vive. Quer pelas respostas para lá de criativas que deu para justificar a escolha de alguns candidatos autárquicos, quer pela justificação da ida à Convenção do Movimento Europa e Liberdade porque lá está Sérgio Sousa Pinto, quer pela infelicíssima referência ao julgamento da Casa Pia, um caso que deveria tratar com pinças por revelar quase tudo aquilo de que se queixa na Justiça. Tinha tudo para dar uma boa resposta ao primeiro-ministro, estragou tudo com a incapacidade de determinar a sua própria narrativa, perdendo-se nos costumeiros comentários laterais.

Mas voltemos à entrevista de António Costa. Se Rio mereceu muitos mimos, o saco de boxe em que se tinha transformado o Bloco de Esquerda teve direito a novo namoro. Vão longe os tempos em que Costa dizia que o BE era “pouco confiável” e um partido “oportunista que parasita a miséria alheia”. Mas vão perto os tempos em que lhe chamou “partido mass-media” e ainda mais perto quando mandou dirigentes do PS mais fiéis fazer-lhe ataques violentíssimos por não viabilizar o último Orçamento. Esta relação ciclotímica do primeiro-ministro com aqueles com quem deseja negociar dificulta qualquer relação de confiança.

Há, neste novo namoro ao Bloco, em que Costa até fala de novo casamento depois do divórcio, duas possibilidades: a mais e a menos cínica. Com Costa tendo a inclinar-me para a mais cínica. Estou convencido que, a haver uma crise política, António Costa prefere que ela aconteça no próximo orçamento, antes de a crise social e económica rebentar em todo o seu esplendor e ainda colada à popularidade de que gozam os governos que geriram decentemente a crise pandémica. E, já agora, colada a uma previsível vitória autárquica.

Posso estar a ser injusto, mas é possível que Costa queira atirar a bola para o Bloco de Esquerda para o responsabilizar por uma crise futura, sem qualquer intenção de abrir um processo negocial sério para o próximo Orçamento de Estado. Para que o BE seja responsabilizado é necessário que seja visto como parceiro, como era antes da votação do OE de 2021 e como é hoje o PCP. Para agarrar os partidos à sua esquerda à responsabilidade de uma crise política o PS precisa de ressuscitar a defunta “geringonça”, que manteve artificialmente viva nos primeiros anos deste segundo mandato sem que nela realmente acreditasse.

Há, no entanto, a possibilidade de António Costa ter deixado de ser um jogador e estar genuinamente interessado em garantir a solução de estabilidade que recusou logo depois das últimas eleições legislativas. Essa possibilidade não depende da proposta de Orçamento de Estado que apresentar para 2022. Depende da execução orçamental do OE de 2021. É importante recordar que a execução do Orçamento de 2020, aprovado antes da pandemia, ficou bem abaixo do esperado – já nem falo do retificativo. Nem a pandemia fez o Governo executar o que tinha negociado antes de saber que ela viria. Isso foi relevante na negociação do OE de 2021: os partidos à esquerda do PS sabiam que estavam a negociar uma fantasia. Que, aprovassem o que aprovassem, João Leão faria o que quisesse. Se assim continuar a ser, e não temos nenhum sinal de que tenha mudado, não vejo que relação de confiança pode existir para que PCP e BE aceitem um acordo que sabem não ter valor real. E pagarem eleitoralmente por uma austeridade orçamental que não aprovaram.

Costa tem de fazer uma escolha. Se não quer que a extrema-direita cresça tem de permitir que os partidos à esquerda tenham vitórias para apresentar aos seus eleitores, deixando para o PSD o papel de fazer oposição. Se continuar a tentar secar tudo à sua volta, empurrado Rio para a extrema-direita, Catarina para o espaço e Jerónimo para o seu regaço, sabemos o que sobrará. Por isso, desta vez não chega o entusiasmo inicial da geringonça. Costa tem de perceber que a soma com os partidos à sua esquerda tem de ser boa para todos, permitindo que os eleitores compreendam a utilidade de votar em parceiros do PS. Ela não serve para lhes conquistar votos. Caso contrário, até se pode evitar uma crise política, mas aprofunda-se uma crise de regime. Sem um BE e um PCP fortes, à esquerda, e um PSD forte, na oposição, teremos a extrema-direita como única alternativa a um PS instalado no centrão. Foi o sonho de Macron e o pesadelo está quase a chegar a Paris.»

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9.5.21

Não sei se chore



 


«A presidente da Junta de Freguesia de Longueira-Almograve considerou este domingo “não exequível” o despacho do Governo que permite a entrada e saída daquele território mediante a apresentação de comprovativo de teste negativo à covid-19.»
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Para colar na porta do frigorífico

 

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Cuidar da coisa pública

 


«Insultuoso. Obsceno. Inaceitável. Inadequado. Vergonhoso. Os adjetivos variam, mas todos coincidem na condenação generalizada do prémio de 1,86 milhões de euros atribuído à equipa de gestão do Novo Banco. Conhecido, além do mais, na semana em que a auditoria do Tribunal de Contas apontou falhas ao processo de venda e ao acompanhamento do financiamento público.

A novela Novo Banco fornece lições infindáveis, mas vale a pena alargar o olhar e tentar compreender a cultura que justifica o facto de, pelo segundo ano consecutivo, um banco a receber ajudas do Estado distribuir prémios tão avultados de gestão. A mesma cultura que em empresas privadas permite comissões e prémios chorudos mesmo quando a gestão é danosa e os resultados negativos, com a diferença crucial de que no primeiro caso há verbas públicas envolvidas, e no segundo um problema que cabe aos empresários ou acionistas assumir.

É esta mesma cultura que explica uma certa passividade perante a corrupção, a aceitação de que condenados em crimes próprios do exercício de cargos públicos voltem a candidatar-se, a ineficiência ou falta de transparência na contratação pública, ou ainda as falhas na avaliação e capacitação da Função Pública. Uma cultura, no fundo, de falta de exigência, e que mostra pouco respeito pelo rigor, pelos resultados e pelos princípios e valores que orientam a gestão de recursos por definição limitados.

Cuidar melhor da coisa pública é uma tarefa que deve mobilizar-nos a todos os que pagamos impostos. Faz sentido o sobressalto cívico e debate público, mas a mudança só se consegue com mais do que isso. Não basta o voto quando há eleições ou considerar que os nossos direitos democráticos se esgotam na urna. Desde acompanhar reuniões de assembleias municipais e executivos camarários a olhar para a contratação, participar em consultas públicas, promover petições, são muitos os mecanismos à disposição dos cidadãos. É de todos a tarefa de promover a mudança que queremos ver em quem gere ou utiliza recursos públicos.»

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8.5.21

Cimeira do Porto (2)

 

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Cimeira no Porto



 

Tirem-me remorsos da alma: só eu é que não liguei nenhuma à cimeira da UE no Porto?

(Não estou sozinha: percorri agora alguns jornais europeus importantes e encontrei… nada!)
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Onde é que precisamos de liberais e não os temos

 


«O país está a ficar cheio de “liberais”, do “liberalismo” da moda. A palavra “liberdade” está a ser capturada pela direita mais radical. Confortável nas sondagens, a esquerda do PS, como o centro do PSD, perde todos os dias o debate ideológico. O BE está demasiado mole e autocentrado e o PCP preso num gueto verbal, ambos consideravelmente ineficazes face à crescente agressividade da direita. O único partido com dinamismo político e eleitoral é o Chega. O centro, centro-esquerda e centro-direita está errático e pouco afirmativo. As asneiras acumulam-se em todas as áreas que são de não direita. Em modo tribal, a agressividade dá frutos. A seu tempo, o conforto nas sondagens diminuirá. Aproximam-se tempos de mudança e o número de cegos que não querem ver é cada vez maior.

Falta muito a gente da liberdade, sem aspas, que reaja a todo o caminho que se está a fazer debaixo dos nossos pés. Faltam liberais sem aspas à esquerda e à direita, capazes de serem firmes em defesa da liberdade, muito duros na sua firmeza, mas moderados na acção. E uma das razões por que isso acontece é por medo. Ninguém quer ser alvo da avalanche de insultos, dos processos de intenção, das ameaças que hoje pululam nas redes sociais e nas caixas de comentários. Não sabem onde está tudo isto? Eu digo-lhes onde está.

A fronda populista varre a prudência de pensar duas vezes e, pouco a pouco, a fragilidade crescente dos partidos políticos fá-los soçobrar aos princípios para responder à avalanche populista. O efeito mais pernicioso de casos como o de Sócrates-Ivo Rosa é criar, em nome da luta contra a corrupção, uma deriva autoritária e liberticida. A Justiça é numa sociedade democrática um pilar do Estado, é um dos poderes fundamentais na sua autonomia e independência, como o poder legislativo e executivo. A doutrina da separação dos poderes não retira o exercício dos diferentes poderes do âmbito do Estado, nem impede por si só a sua perversão e contaminação – ou seja, a dependência do poder político é uma possibilidade e um risco, mesmo sem se mudarem normas e procedimentos. E tudo aquilo que permitimos agora na convicção de que não haverá abusos pode amanhã ser usado de forma abusiva e persecutória.

Dou muitas vezes como exemplo a intromissão na liberdade individual por meios informáticos, feita em nome da eficácia, que nos parece inocente agora, mas cria todos os instrumentos para poder ser usada contra as liberdades. Digo muitas vezes que uma nova PIDE que acedesse às bases de dados das Finanças, aos pagamentos do Multibanco, aos trajectos da Via Verde, aos metadados dos telemóveis podia saber tudo sobre qualquer cidadão. Se uma autoridade legítima o precisa de fazer para perseguir uma actividade criminosa, e se o fizer sob controlo judicial, muito bem. Tudo o resto, muito mal.

Não estou a falar de abstracções. Já houve jornais que pagavam informação a pessoas do fisco com acesso aos dados para fazerem “investigações”. Já houve magistrados que foram para além da lei para fazerem “pesca de arrasto” para encontrarem culpados, mesmo que não houvesse qualquer indício de actividade criminosa. Há legislação que implica a violação do segredo profissional dos advogados face aos seus clientes com considerável indiferença destes. O fisco viola a privacidade dos cidadãos obrigando as facturas a terem não apenas o montante da transacção, mas discriminação, por exemplo, dos títulos dos livros que se compra numa livraria. Há tentativas de “acrescentar”, sempre em nome da eficácia, dados suplementares ao cartão de cidadão. A aplicação Stay Away Covid apoiada pelo Governo implicava a violação de dados pessoais e não é líquido que os novos “passaportes” com dados sanitários também não o façam.

A inversão do ónus da prova, para que agora há um clamor populista, a que quem de direito responde tibiamente, é um instrumento persecutório e de abuso nas mãos do Estado. O enriquecimento “ilícito”, se o é, deve ser provado pela Justiça, pelo Estado. Dê-se aos magistrados e às polícias todos os instrumentos necessários para essa prova, mas não se crie uma situação em que seja o próprio a ter de provar a sua inocência. O furor legítimo contra a corrupção não deve dar às mãos do Estado instrumentos potenciais para todos os abusos. Hoje parece que será contra o “ilícito” do enriquecimento, mas amanhã pode ser para qualquer um, para vinganças políticas, para abater adv.ersários. Dado o instrumento, destruído o princípio, o abuso é só uma questão de tempo.

Aqui é que precisamos de liberais e eles nos faltam. Muitos, aliás, dos “liberais” dos dias de hoje são indiferentes a estas liberdades e, para atacarem aquilo a que chamam a “corrupção do socialismo”, estão dispostos a dar ao Estado enormes poderes. Eu, que me dou bem com o honroso nome de liberal, na tradição de Garrett e de Herculano, ou da minha terra, o Porto, não estou disposto a dar ao Estado o direito de me obrigar a provar a minha inocência. É, se quiserem, uma posição humanista sobre a natureza humana, deixando o pecado original para os crentes, mas não para a democracia.»

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7.5.21

Cimeira da UE no Porto

 


Estão a despedir-se? Ó diabo…
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Luiz Pacheco – Seriam 96



 

Mais informação AQUI.
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Vacinas: podia ser uma cimeira social, mas parece que não



 

«Aquele Land-Rover modificado que transportou o caixão do príncipe Filipe do Castelo de Windsor à Igreja é uma boa metáfora da Europa: é visualmente agradável, sem dúvida, mas aquela lentidão própria de um enterro torna-se exasperante quando há uma profunda crise nas mãos.

Joe Biden já tinha surpreendido bastante com a resposta económica à crise provocada pela Covid enquanto a Europa ainda anda a aprovar os Planos de Recuperação dos respectivos países e o comissário Dombrovski volta a ameaçar o regresso às metas do défice em 2023.

O anúncio do apoio da Administração Biden à suspensão temporária dos direitos das patentes das vacinas contra a Covid – como a Organização Mundial de Saúde, África do Sul, Índia, ex-primeiros-ministros como Gordon Brown têm vindo a pedir – é um passo de gigante no combate a um problema global. Ursula von der Leyen foi tímida a responder a Biden (a Europa iria discutir o assunto) mas Charles Michel foi mais incisivo sobre a bondade da proposta Biden e anunciou que o tema seria discutido na cimeira social do Porto, a jóia da presidência portuguesa.

Mas algum júbilo que o anúncio da administração Biden mais a abertura da Europa provocaram em parte da população global – nomeadamente em África – foi rapidamente arrefecido com o balde de água fria vindo da Alemanha: o motor europeu não está disponível para viabilizar a proposta. Com Merkel à distância e o seu veto antecipado, a oportunidade da cimeira do Porto ser, efectivamente, uma cimeira profundamente social parece comprometida, o que é lamentável. A falta de acesso a vacinas nos países mais pobres é um problema de direitos humanos e os tratados admitem que em situação de calamidade como a que vivemos a suspensão das patentes seja possível. Mas também é um problema para a livre circulação dos “ricos”, coisa que Joe Biden percebeu mas o seu interlocutor telefónico na Europa (que não é von der Leyen nem Michel mas por enquanto ainda é Angela Merkel) não.

Assim sendo, é natural que a declaração do Porto seja agradável – como o Land Rover do príncipe – mas não traga muito de novo. Pôr de pé o pilar europeu dos direitos sociais ou reagir à emergência sanitária global será à velocidade óptima para um enterro.»

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6.5.21

06.05.1968 – As Barricadas em Paris



 

Na segunda-feira, 6 de Maio, começou a semana das barricadas. A partir das 15:00 horas, registaram-se muitos e graves confrontos entre estudantes e polícia. Um bom resumo neste vídeo:



Na véspera, 5 de Maio, Cohn-Bendit, fizera a seguinte declaração: «Nous disons que l'État est partie prenante de l'antagonisme de classe, que l'État représente une classe. La bourgeoisie cherche à préserver une partie des étudiants, futurs cadres de la société. Le pouvoir possède la radio et la télévision, et un parlement à sa main. Nous allons nous expliquer directement dans la rue, nous allons pratiquer une politique de démocratie directe.»
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Drama na Colômbia

 



«A Colômbia viveu um conflito armado de mais de 50 anos que teria terminado em 2016 com a assinatura do Acordo de Paz entre as FARC e o Governo anterior, mas as várias ramificações do conflito, a economia de guerra em torno dele e a violência directa e estrutural permanecem. Desde esse ano houve 753 assassinatos de líderes sociais e, só em 2020, 66 massacres correspondentes a 255 assassinatos confirmados pela ONU, nomeadamente contra comunidades rurais, defensores ambientais e de direitos humanos, pessoas indígenas, afrodescendentes e sectores da esquerda.(…)

As hashtags #paronacional e #SOSColombia mostram vídeos das atrocidades cometidas contra os colombianos sem lei nem razão, coleccionam provas e tentam gerar atenção para as vítimas que nunca terão uma capa de jornal em seu nome. Entre 28 de Abril e 4 de Maio, a ONG colombiana Temblores reportou 1443 casos de violência policial, pelo menos 814 detenções arbitrarias, 77 disparos de armas de fogo e 31 assassinatos por parte da polícia, 21 agressões nos olhos e dez vítimas de violência sexual por parte da força pública. As redes sociais dizem #UribeDioLaOrden, indicando que é Alvaro Uribe, ex-presidente da ultra-direita, quem realmente manda no país e ordena os vis ataques.»

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