16.12.25

Interior sem papel e sem voz

 


«A expressão "doce como um pastel de nata" foi usada pela revista "The Economist" para descrever o bom desempenho económico de Portugal, resultado da combinação do crescimento do PIB acima da média europeia, inflação controlada e valorização do mercado acionista.

O turismo e os novos residentes estrangeiros com maior capacidade financeira foram decisivos para impulsionar a procura de investimento. Apesar disso, o primeiro-ministro reconhece o desafio de transformar os bons resultados macroeconómicos na melhoria de salários e de condições de vida.

A doçura da atual conjuntura contrasta com a amargura de um país cada vez mais assimétrico. O alerta mais recente vem da única distribuidora nacional de imprensa, que admite ajustar rotas em oito distritos do Interior. A subida de custos, a quebra de vendas e a redução da receita comprometem a continuidade da distribuição de jornais nessas regiões.

A confirmar-se, parte significativa do território ficaria privada de acesso à imprensa diária, passando a depender de canais televisivos e plataformas digitais. A exclusão informativa atinge sobretudo populações envelhecidas, com menor literacia digital, agravando o esvaziamento populacional que há décadas fragiliza o Interior.

O país assiste, assim, a um novo tipo de centralismo - o digital - que reforça o sentimento de abandono nas regiões afastadas dos grandes centros urbanos. O distanciamento face às fontes de informação e decisão política são propícios à expansão de discursos populistas, fenómeno visível em Portugal e a nível global.

Um país antigo, desafios persistentes: durante nove séculos o país preserva a coesão cultural e identitária; contudo, o imobilismo político e a ausência de estratégias para o território têm ampliado as desigualdades territoriais.

As políticas públicas têm, de forma constante, falhado em inverter o declínio de parte do país. Ao Interior cabe-lhe sempre a fava do bolo-rei.» 


Marques Mendes e a Constituição

 


15.12.25

Bem útil para sabermos o que aí vem

 


Um belo termómetro Arte Nova, em estanho, com uma imagem de mulher na base.1906.
Fábrica WMF.

Daqui.

SNS: soma e segue…

 


«Sentados em cadeirões ou deitados em macas, acumulam-se dezenas de doentes nas várias salas de observação do hospital Amadora-Sintra. Os vídeos a que a SIC teve acesso espelham o agravamento da situação nas urgências.

Os tempos médios de espera para doentes com pulseira amarela, considerados urgentes, têm estado muito acima do recomendado. Este sábado chegaram a ser mais de 14 horas para a primeira observação, quando estes casos têm de ser vistos por um médico em menos de uma hora.»

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Idiotas

 


A força da greve geral nota-se na ginástica de Ventura

 


«O tão celebrado prémio da Economist, que merecerá outro texto qui, destaca o dinamismo do nosso mercado de trabalho. Até os mais liberais veem coisas diferentes do que a ministra. Sim, temos um problema com a justiça. Sim, temos um problema com a burocracia. Sim, temos um problema com a baixa qualificação da nossa economia. Sim, temos um problema com os custos da habitação que têm de ser pagos nos salários. Não, não temos um problema com a lei laboral. E se ela não está preparada para novas realidades, não é seguramente este anteprojeto que responde a isso. Pelo contrário, como já aqui escrevi.

Não é por acaso que estas mudanças radicais à lei laboral estão ausentes do programa eleitoral da AD. Claro que o governo as decidiu esconder por sabe da sua impopularidade. Mas não foi só isso. Apesar de ter ido mais longe no programa de governo, juntou-se a fome da AD à vontade de comer da ministra, que foi, na forma e no conteúdo, mais longe do que se esperava.

Como académica, a ministra é conhecida pela sua radicalidade ultraliberal. Como advogada, nunca terá, apesar de especialista em direito do trabalho, representado um trabalhador. Sem experiência política e com uma reforma inteirinha na cabeça, Palma Ramalho sonhava com um código com o seu nome. A vaidade e a inexperiência levaram-na a acreditar que isso se faria sem negociação profunda. Que a UGT aceitaria assinar um acordo se caíssem umas propostas sobre a amamentação, lá postas como lebre. Acredito, sinceramente acredito, que a ministra tenha sido apanhada de surpresa pelo “rotundo não” da UGT e ainda mais pela consciência sindical dos Trabalhadores Social Democratas (TSD).

Luís Montenegro sabia quem era esta ministra e esperava uma reforma. Mas não esperaria que ela nem falasse com os TSD e avançasse desta forma. Subitamente, rebenta-lhe isto nas mãos: a reação sindical a uma reforma laboral talibã que nem os patrões pediram (mas agradecem os saldos, obviamente). Sem grande sensibilidade para esta área da governação, o primeiro-ministro só se terá apercebido da gravidade da coisa quando a UGT anunciou a sua adesão a uma greve geral conjunta.

Acordando tarde demais, fez o que sabe fazer. Disse que a greve era partidária, até ser desmentido pelos sindicalistas do seu partido. Lançou números absurdos de salários médios e mínimos futuros de que o país inteiro se riu e que o ministrio das Finanças veio relativizar. E, no dia da greve, atirou o ministro da propaganda para o palco, para destratar uma greve que, sejam quais forem os números, existiu e teve impacto económico e político. Um comportamento que só dificulta ainda mais o diálogo.

A ajudar a paralisação, um barómetro terá assustado Montenegro. Assustou-se com uma maioria tão clara contra esta reforma laboral e pela greve. Assustou-se com a maioria dos eleitores da AD com a mesma posição. Mas tem quatro anos para os fazer esquecer, fiando-se numa economia pendurada no turismo que já crescia quando o governo do PS caiu e continua a crescer, porque, como disse várias vezes (com Sócrates, Passos, Costa e Montenegro), estes ciclos económicos têm pouco a ver com a política interna. Mas a sua maior preocupação será outra: a grande maioria dos eleitores do Chega também se opõe ao pacote laboral. Porque essa parte Montenegro não controla.

Ventura, que se preparava para dar a mão ao governo e a quem lhe paga as campanhas, é o bom termómetro dos humores populares. E se alguém tinha dúvidas da eficácia da greve, bastava ver a cambalhota que deu no dia 11 de dezembro: da defesa da mudança de uma lei laboral “soviética” passou para recusa do “bar aberto para despedimentos”; de uma greve geral “em que só os partidos de extrema-esquerda conseguem ver algum beneficio” passou para uma greve “legítima” que mostra “um descontentamento generalizado.

Agora, o governo está com o menino nas mãos. Não pode enjeitar tão repugnante cria, mas ela é imprestável para chegar a um acordo. Reforçada pela greve, a UGT não pode exigir apenas cedências simbólicas. Sabendo que o Chega, indispensável para aprovação parlamentar, hesita, o poder negocial dos sindicatos está reforçado. Mas o que têm à frente é inegociável. Um edifício completo, totalmente inclinado para um lado, em que se pede ao outro que se limite a escolher a derrota. Ainda mais quando o primeiro-ministro diz que estamos no “topo do mundo”. Pediram-se sacrifício no tempo das vacas magras e votam-se a pedir quando as vacas engordam? Por isso, o secretário-geral adjunto da UGT, Sérgio Monte, chegou a declarar que se devia começar do zero.

Disse, desde que soube o nome desta ministra, que vinha aí uma reforma radical. Digo, desde que ouvi o nome de Jorge Bravo, que se prepara outra, para a segurança social. Os interesses que orbitam à volta desta enorme maioria de direita têm vida própria. Vemos o mesmo nos negócios da saúde. Neste caso, ficou claro que Montenegro não controla como as coisas se fazem seu governo. O comboio partiu e é provável que ele já tenha percebido que não tem como travar a sua marcha, seja para chegar à estação, seja para se descarrilar. Ou talvez já nem o queira fazer, pensando que o pior já passou.

Rui Rocha, ex-lider do aliado incondicional da ministra nesta reforma, escreveu, nas redes sociais: “A reforma laboral não chumbará por causa da força da rua. Chumbará porque Ventura está alinhado com a visão da CGTP e do PCP. A esquerda não pode cantar uma vitória que não será sua. E o Chega não pode continuar a esconder a sua natureza.” Não. A natureza do Chega está, nestes temas, genericamente alinhada com a da IL. O seu eleitorado é que é diferente. E o Chega não pretende ser um partido de nicho, como a IL. Se chumbar esta contrarreforma, é mesmo por causa da rua.

Neste momento, o governo está nas mãos do Chega. Mas não nos devemos ter ilusões. Ao contrário do que nos quer vender a IL, para escavar a fronteira que, para além das boas maneiras, lhe sobra com Ventura, os seus financiadores do Chega são os que são e a natureza do partido é a que é (voltarei a isso noutro texto). Esta conversa durará até às eleições presidenciais, em que Ventura pretende crescer.

Uma coisa é certa: a greve geral foi apenas o primeiro episódio de uma luta que será longa. Sindicatos, que deram uma enorme lição de unidade na semana passada, e trabalhadores que não se podem fiar nos cálculos de Montenegro e Ventura. Têm de mostrar o preço que terá esta afronta. Certo é que no dia 12 de dezembro já estavam mais fortes do que a 10.»


14.12.25

Há sempre mais uma porta

 


Porta da “Villa Viardot », Troyes, França, 1908.
Arquitecto: Gaston Viardot.


Daqui.

Edgar Morin com 104 anos

 


«Morin defende que os caprichos do clima podem ter impacto essencial nos acontecimentos históricos e que a História se alimenta de conhecimentos de todas as disciplinas. Entre as principais lições, destaca que o resultado de uma ação pode ser contrário à intenção inicial e que não existe observação válida sem auto-observação, alertando ainda que o improvável pode acontecer na História.»

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14.12.1962 – Portugal fortemente condenado na ONU



 

No fim do ano de 1962, a Assembleia Geral da ONU insistiu na condenação da política colonial portuguesa em várias resoluções, com especial destaque, pela sua dureza, para a 1807, aprovada em 14 de Dezembro por 82 votos contra 7 (Bélgica, França, Portugal, Reino Unido, África do Sul, Espanha e EUA) e 13 abstenções (onde se incluíam os restantes membros do «grupo NATO»).
Qual o seu âmbito?

– A Portugal, cuja atitude condenava, porque contrária à Carta, pedia a adopção das seguintes medidas:
a) Reconhecimento imediato do direito dos povos dos seus territórios não autónomos à autodeterminação e independência;
b) Cessação imediata de todos actos de repressão e retirada das forças, militares e outras, utilizadas com tal fim;
c) Amnistia política incondicional e liberdade de funcionamento dos partidos políticos;
d) Início de negociações, na base da autodeterminação, com os representantes autorizados, existentes dentro e fora do território, com o fim de transferir os poderes para instituições políticas livremente eleitas e representativas da população;
e) Rápida concessão de independência a todos os territórios, de acordo com as aspirações da população;

– A Estados membros dirigia um duplo convite, no sentido de pressionarem o governo português e de não lhe concederem qualquer assistência que favorecesse a repressão;

– À Comissão de Descolonização pedia a máxima prioridade ao problema dos territórios portugueses;

– Ao Conselho de Segurança, que, caso não fossem acatadas esta e as anteriores resoluções da Assembleia, tomasse medidas para Portugal se conformar às suas obrigações de Estado membro. 


Portugal manteve-se inabalável e a guerra continuou. Hoje, sabemos o resto da história. 
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Contra o cinismo, a esperança

 


«A grande participação dos trabalhadores, dos setores público e privado e de todas as faixas etárias, na greve geral da passada quinta-feira e a compreensão com que grande parte dos portugueses encara as posições que os sindicatos estão a assumir face ao conteúdo do pacote laboral desarmaram a inverdade e o cinismo utilizados pelo Governo na construção e gestão política das suas propostas.

A afirmação do primeiro-ministro, feita à última hora, de que pretende colocar o salário mínimo em "1500 ou 1600 euros" e o salário médio nos "2500, 2800 ou 3000 euros" e a leitura manipuladora que fez dos resultados da greve são duas expressões cabais de uma prática política manipuladora que ficou mais a descoberto. Como vai o Governo dar os passos seguintes? Prossegue o afrontamento? Em caso afirmativo, como agirá tendo em conta que os trabalhadores e o povo português estão agora mais alertados, e se confirma que podem surgir caroços de azeitona na engrenagem das alianças políticas de que necessita para formar maiorias parlamentares?

Tornou-se mais evidente que a extrema-direita pode fazer colagem ao descontentamento laboral e popular abjurando, quantas vezes for necessário, os seus objetivos estratégicos, para esconder o que pretende fazer se instalada no poder. Um outro elemento importante que a greve fez emergir foi a constatação de que uma parte dos empresários tem consciência de que lhes é prejudicial esta guerra desencadeada no mundo do trabalho e que a agenda neoliberal não lhes traz vantagens numa perspetiva de desenvolvimento qualitativo. Mas, se lhes for oferecido o maná do trabalho barato, tenderão a acolhê-lo.

Os retrocessos políticos e sociais podem ser impedidos se as pessoas nos locais de trabalho, na rua, nas suas vidas privadas e nos espaços coletivos tomarem consciência dos problemas com que se deparam e se conseguirem interpretar e afirmar princípios fundamentais da recusa da exploração do homem pelo homem, do direito de todos a uma vida digna e do respeito pelos direitos laborais.

Uma greve geral, construída sobre conteúdos objetivos e percetíveis, dá muita força aos trabalhadores. Tem sempre um grande impacto social e pode gerar condições para mudanças no plano político. Os portugueses deram sinais de que não se deixam convencer facilmente pela retórica individualista, mercantilista, egoísta e regressiva que a Direita tem para oferecer.

Ainda é muito cedo para se perspetivar como serão "os dias seguintes". A unidade laboral e sindical construída para dar êxito à greve pode e deve ser mantida sem a mínima cedência a maldades. O apoio político das forças da Esquerda à agenda sindical existiu e foi importantíssimo. Se prosseguir em agendas político-partidárias próprias, mas convergentes, pode abrir chamas de esperança no plano político.»


Nuno Brederode Santos

 


Chegaria hoje aos 80 e faz-me mesmo muita falta.



13.12.25

Assim vai o SNS da AD

 


«No caso dos doentes urgentes, com pulseira amarela, a espera era superior a seis horas.»

«Segundo o sistema de triagem, as situações muito urgentes (laranja) têm um atendimento recomendado nos 10 minutos seguintes à triagem, enquanto os casos urgentes (amarela) são de 60 minutos e os pouco urgentes (verdes) de 120 minutos.»