29.9.25
28.9.25
Cálices
Cálice "Pin Cones". Combinando ourivesaria e vidro, este objecto utiliza várias técnicas de artesanato do artista. Vidro de dupla camada, com uma base prateada. 1902.
René Lalique.
Daqui.
O PS na sua «retração»
«Estudo de especialista da GfK Metris mostra que partido enfrenta uma “retração eleitoral sem precedentes”. Em 122 concelhos, os socialistas estão sob alerta “elevado ou “crítico”.»
28.09.1974 - A «Maioria [que ficou mesmo] Silenciosa»
O país esteve agitado. Esperava-se a realização da chamada «Manifestação da Maioria Silenciosa» – uma iniciativa de apoio ao apelo do general Spínola, convocada alguns dias antes por cartazes que invadiram Lisboa.
Acabou por ser proibida pela Comissão Coordenadora do Programa do MFA. Antes disso, Spínola que tinha tentado, sem sucesso, reforçar os poderes da Junta de Salvação Nacional, emitiu um comunicado, pouco antes do meio-dia, a agradecer a intenção dos manifestantes, mas declarando que, naquele momento, a manifestação não seria «conveniente».
Os partidos políticos de esquerda (CARP M-L, CCRM-L, GAPS, LCI, LUAR, MDP/CDE, MES, PCP m-l, PCP, PRP-BR, URML), sindicatos e outras organizações tinham desencadeado, no próprio dia, uma gigantesca operação de «vigilância popular»: desde as primeiras horas da manhã, dezenas de grupos de militantes distribuíram panfletos e pararam e revistaram carros em todas as entradas de Lisboa.
Em 30 de Setembro, Spínola demitiu-se do cargo de presidente da República, sendo substituído pelo general Costa Gomes. Fechou-se assim o primeiro ciclo político do pós 25 de Abril.
.
Uma criança poderosa
«Para exibir a inutilidade da ONU e exigir o Nobel da Paz, Donald Trump congratulou-se por ter acabado com sete guerras em sete meses, misturando escaramuças, conflitos de poucos dias, tensões que se mantêm e duas guerras inexistentes — entre a Sérvia e o Kosovo (um acordo de normalização económica sem qualquer sinal de confronto) e entre o Egito e a Etiópia (meras tensões diplomáticas por causa de uma barragem, que a última guerra foi no século XIX). De fora ficaram, claro, guerras reais, como na Ucrânia e em Gaza, que Trump jurara que acabaria num ápice, até amuar com os seus responsáveis por não lhe fazerem a vontade. Para o herdeiro mimado, o Nobel tem a mesma função de quase tudo o que faz: alimentar o seu ego inseguro. E para isso servem todas as cimeiras, negociações, visitas de Estado: evitar a birra do bebé grande que se transformou no homem mais poderoso do mundo.
Não sei se Trump tem consciência da mentira, se a acha irrelevante ou se a ignorância não lhe permite fazer esta distinção. Sei que, há não muitos anos, se um Presidente dos EUA inventasse, perante a Assembleia-Geral da ONU, ter posto fim a duas guerras inexistentes, e isso não resultasse de uma gafe, o tema seria a sua saúde mental. Foi com falhas menores que desconfiámos de Biden. Não é assim com Trump porque, tal como todos os que lhe copiam o estilo, os critérios para os líderes forjados por este tempo são diferentes. A mentira é detetada pela bolha que se informa pelos meios que usávamos no passado. Mas uma realidade paralela segue o seu caminho. Não é que haja mais ignorância, mas horas de scroll nas redes dão a ilusão do saber. E estamos só no início da distopia, ainda sem o impacto mais profundo do conforto da inteligência artificial capaz, que nos dispensa o pensamento crítico. O ser humano está, como um demente, a desligar-se da realidade. Porque deixámos de nos informar e comunicar através de meios de intermediação falíveis e parciais, mas escrutináveis, para o fazermos em plataformas falsamente horizontais, ilusoriamente neutras e, graças à sua opacidade, muito fáceis de manipular. A democracia está a morrer porque morreu qualquer ideia de verdade partilhada por uma comunidade. Nem a verdade científica, transformada em cabala de elites, sobrevive.
Sem uma verdade partilhada, um sentido de comunidade e mediadores que estruturem a nossa vida social não há ética que sobreviva. É por isso que, no meio de um genocídio, o risonho ministro das Finanças israelita pode dizer que tem, para uma Gaza em escombros, um projeto imobiliário que pagará o investimento na carnificina. Não é que ninguém se choque. Ainda sobra passado neste presente que anuncia o futuro. Mas a alienação em que vivemos permite que a vida continue sem um sobressalto tal que os Estados europeus sejam obrigados a mais do que umas declarações simbólicas. Não é que a amoralidade supremacista seja nova. A sua exibição desabrida é que era pouco habitual. Mas a verdade foi substituída por um subproduto: a boçalidade. Se a verdade passou a ser indiferente, ser hipócrita, cimento de uma civilização em que as pessoas não se agridem quotidianamente com a expressão sem filtro dos seus sentimentos, é o pior dos crimes. Perdemos o que nos faz adultos: distinguir a realidade da fantasia e manter regras so¬ciais de contenção para não tornar a convivência num inferno.
Esta infantilização coletiva, com o endeusamento amoral do sucesso individual, é uma das causas para a ascensão de egomaníacos como Trump. Sempre houve narcisistas em todo o lugar onde está o poder. Mas, neste tempo de redes e burburinho, o povo parece ter recuperado o fascínio por mentes perturbadas. Aquelas que as ditaduras unipessoais forjavam depois de décadas de poder sem escrutínio. Se nada é realmente mentira, nada é realmente errado. Como numa ditadura, o único imperativo que sobra é a vontade do ditador.
Sou dos que acreditam que vivemos o ocaso da democracia moderna, experiência curta na história da humanidade. Sem estruturas mediadoras que enquadrem a vida social com regras, com milionários tecnológicos mais ricos do que os Estados, concentrando uma riqueza e um poder nunca vistos, com um capitalismo global financeirizado, com a Ágora ateniense transformada em Coliseu romano, com a mercantilização de todas as necessidades humanas e sem qualquer noção de futuro, por sabermos da caminhada para o inferno climático, não sei se é possível travar a queda. Mas gostava que ainda fôssemos, como os brasileiros, à luta. Mesmo que seja inútil, a mais falhada das gerações (a minha) cumprirá um dever histórico para com os que pôs num mundo que destruiu a uma velocidade sem precedentes.»
27.9.25
André Ventura a exceder os limites?
Esta imagem foi obra de Inteligência Artificial, feita a partir deste vídeo. Já foi denunciada pelos Polígrafos deste mundo. Mas continua, continua…
27.09.1975 – Os últimos fuzilamentos do franquismo
Há 50 anos, foram fuzilados cinco antifascistas espanhóis: José Luis Sánchez Bravo, José Humberto Baena Alonso, Ramón García Sanz, Juan Paredes Manot e Ángel Otaegui. As pressões para que o acto não fosse consumado não resultaram, Franco não cedeu.
Portugal, em pleno PREC, não esperou pela execução e iniciou na véspera, 26 de Setembro, assaltos aos consulados de Espanha em Lisboa e no Porto, ataque a sedes de empresas espanholas e incêndio e destruição da embaixada de Espanha em Lisboa.
(Vídeo e mais informação aqui)
.
Ao que nós chegámos
«Nestas eleições, como em geral em toda a actividade política, não há qualquer movimento ascendente em política que não seja o populismo dominado pela questão central do combate à imigração. A sua expressão política é o Chega, que domina toda a vida política, o discurso político, a agenda mediática, os debates, e as campanhas eleitorais em grande parte do país. Apesar de ser um partido bastante minoritário — teve menos de um quarto dos votos nas eleições legislativas de 2025, o que nem sempre é lembrado —, tudo o que “mexe” em Portugal acontece à volta do Chega.
Esta situação é uma enorme vitória política, que contrasta com a estagnação e a cedência aos temas do Chega por parte do PSD, com o bloqueio do crescimento da Iniciativa Liberal, com a crise profunda de identidade do PS que gera a paralisia do partido, e com a decadência acentuada do PCP e do Bloco — com a única excepção à esquerda de algum crescimento do Livre. É um panorama que, no seu conjunto, aponta para uma grave crise do sistema partidário pós-25 de Abril, crise que é estrutural e não conjuntural. Sendo assim, tudo está a mudar, sem ser no sentido de reforçar a democracia, nem a governação, nem o centro “moderado”, com um desequilíbrio no par direita-esquerda, claramente a favor da direita, criando um caos e uma errância cujos únicos efeitos previsíveis são a crise institucional e política da democracia. Este processo não é apenas português, é europeu e mundial.
Se não se partir daqui, desta análise fria e cruel, com elementos de catástrofe, não se parte da realidade, e essa é a primeira resposta aos que dizem que não basta análise, são precisas respostas. A primeira resposta é mesmo reconhecer que se está muito mal e que, tendo em conta a Lei de Murphy, vai ser tudo muito pior.
A segunda, é perceber como se chegou aqui, com um modelo de economia que favoreceu os de cima, cada vez mais ricos, deixou ficar a meio do elevador social todos os que estavam a sair da pobreza, fez descer uma parte da pequena e média burguesia e colocou numa redoma os mais pobres, deixando que dentro dessa redoma a inveja e o ressentimento social crescessem, com pobres a combaterem pobres. O combate por uma economia que incorpore um forte elemento de justiça social não é comunismo, é a doutrina social da Igreja.
Terceira, a evolução da economia capitalista associou-se a uma ecologia comunicacional que premeia a ignorância agressiva, a solidão, a desagregação de todas as relações que não passem pelas redes sociais, sem contacto humano, a não ser a competição por likes, e por frases assassinas, e insultos, e memes imbecis. Ao mesmo tempo, o deslumbramento tecnológico destruiu muito da função da escola, e diminuiu drasticamente o papel das mediações sociais, culturais, associativas, políticas e, no limite, familiares e religiosas.
A quarta resposta é o combate, sem transigência, pela democracia, combate esse que existe muito menos do que se possa pensar. Há mais moleza do que combate, e esse combate assume duas dimensões. Uma é contra as manifestações políticas do populismo, que conta nesse plano com um sistema de mentiras canalizado pelas redes sociais, nas quais se manipula o modo emotivo, que hoje é o mecanismo dominante do discurso nesses locais. Respondam, respondam a tudo, em todo o lado. Denunciem os grandes mentirosos, os violentos, os manipuladores, os falsificadores, a invasão das redes sociais por repetidores da extrema-direita que, como não têm emprego, e estão todo o dia disponíveis para fabricar vídeos, têm de ser pagos por alguém. Eles vivem de mostrar como qualquer berro à direita “arrasa”, “destrói”, “esmaga” os que a confrontam.
O exemplo de Isaltino mostra como é possível confrontar com sucesso esse mundo de mentira, violência, e aquilo a que se chama na ópera braggadocio. Outro é o exemplo do vitelo que combateu a fanfarronice toureira e nem sequer deu a Núncio, do CDS, o privilégio de lhe tocar o dorso. Isaltino e o vitelo viraram o feitiço contra o feiticeiro.
Outra resposta é mostrar a enorme contradição entre a brutalidade populista e os ensinamentos e a actuação das igrejas cristãs, que ainda são uma referência para milhões de portugueses. Denunciar a hipocrisia diante do altar, ou do padre, ou do pastor, e a falta de sentimentos cristãos face aos mais desprotegidos é eficaz, porque torna ridículo o bater no peito e o ajoelhar em pose.
Outra resposta é o combate intransigente pelos direitos humanos, cívicos, laborais dos imigrantes. Valorizando uma das coisas que este populismo de extrema-direita quer combater, o alvo de gente como Elon Musk: a empatia. E de novo a hipocrisia. Os militantes do Chega mandam vir comida pelos estafetas ou não? Não deviam, pois não? Porque isso é ajudar a imigração ilegal. Eles usam-nos nas estufas em condições de calor extremo? Não deviam, pois não? Deviam apenas contratar portugueses. E isso implica uma dura pressão sobre os governantes, cujas “autoridades” deviam multar a sério quem despreza as “condições de trabalho”, e quem viola a lei para ganhar dinheiro com os párias da imigração.
Há mais para os próximos artigos, o papel da nossa história, o patriotismo, e no fim e no princípio de tudo, a coragem. Estou mesmo a ver quem vai dizer, “mas isso é pouco, isso não é nada, isso não vai travar o Chega”. Não sei. O que sei é que não fazer nada não trava coisa nenhuma.»
26.9.25
26.09.1968 – A primeira noite sem Salazar
Nunca esquecerei aquela hora que marcou o fim do salazarismo. Não por ter tido qualquer esperança na «Primavera» marcelista, iniciada naquela noite de Outono de 1968, mas porque foi um marco. E ainda «oiço» o discurso histórico e sinistro de Américo Tomás quando anunciou a substituição de Salazar por Marcelo Caetano:
No dia seguinte tomou posse o novo governo e, do discurso de MC, ficaria a célebre uma frase: «Não me falta ânimo para enfrentar os ciclópicos trabalhos que antevejo.» (Texto do discurso aqui.)
Sabendo o que se seguiu entre 1968 e 1974, não é fácil perceber hoje que muitos, mesmo resistentes antifascistas, tenham criado grandes expectativas com a nomeação de Marcelo. Mas foi um facto: a «Primavera Marcelista» alimentou grandes sonhos quanto ao sucesso de uma «evolução na continuidade». Não durou muito, o desfecho é conhecido.
Começariam as «Conversas em Família»:
.
Subscrever:
Mensagens (Atom)









