8.12.21

John Lennon

 



41 anos sem ele.
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Quando eu perdi uma Nossa Senhora

 


Quando chega o 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, lembro-me às vezes de um pavilhão ao ar livre que servia de sala de aula ao que hoje seria a minha pré-primária, com um calor absolutamente abrasador de um Verão moçambicano, não muito longe da praia da Polana.

Devia ter uns quatro ou cinco anos e tive o primeiro choque religioso de que guardo memória, quando percebi que só havia uma Nossa Senhora e não duas, tão diferentes que me habituara a vê-las! A da Conceição sempre me tinha parecido mais bonita do que a outra porque tinha aos pés muitos anjinhos e não umas pobres alpercatas, pairava nas nuvens e não em cima de uma árvore mais ou menos raquítica, marcava no calendário o Dia da Mãe (e a minha até se chamava Conceição…) e devia ser mais importante porque dava direito a um dia com praia e sem escola.

«Avant la lettre», talvez achasse mais do que normal que uma criança que tinha dois pais não ficasse atrás no que às mães dizia respeito…
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Parece que será de novo deputado e diz-se que tem grandes hipóteses de substituir Ferro Rodrigues na presidência do Parlamento, se o PS ganhar as eleições e embora haja outros que também apreciassem o cargo. Quem puder que se alegre com a ideia neste cinzento feriado.
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Covid-19, aumento das desigualdades e eleições



 

«As estatísticas são muitas vezes difíceis de compreender, mas quando mostram que os 10% mais abastados do planeta possuem três quartos da riqueza global e que a metade mais pobre da humanidade se fica pelos 2% a sua clareza não podia ser maior. Os dados são do Relatório Mundial das Desigualdades (World Inequalies Repport), elaborado por uma equipa onde se inclui o economista-estrela francês Thomas Piketty e cuja conclusão mais chocante é de que a pandemia fez aumentar o fosso entre ricos e pobres, e isto apesar da intervenção dos governos nos países mais desenvolvidos para protegerem as camadas mais frágeis da população, mesmo que a custo de endividamento recorde. A valorização do imobiliário e dos mercados financeiros fez mesmo com que os magnatas espalhados pelo mundo reforçassem a sua riqueza em quatro biliões de dólares (trillions para os anglo-saxónicos), o que é mais do que o PIB da Índia, mais do dobro do PIB do Brasil ou ainda 16 vezes o PIB de Portugal.

Um mapa das desigualdades no mundo evidencia que estas são sobretudo muito fortes no Brasil, México e Chile e ainda na África Austral, também fortes em vários outros países da América Latina além dos já citados, no Golfo Pérsico e na Índia, e que a Europa Ocidental se destaca em sentido contrário, por ser a região do mundo menos desigual. Os bons resultados europeus têm muito que ver, explicam os especialistas, com as enraizadas políticas de redistribuição da riqueza, que atenuam parte do fosso naturalmente criado pelo capitalismo. Mas sem reforço do ensino público de qualidade e de um serviço nacional de saúde também de qualidade, mesmo na Europa Ocidental as desigualdades correm risco de aumentar.

Duas outras estatísticas reveladas por este relatório dão conta de realidades evidentes, mas nem sempre abordadas: as mulheres, que são 49,6% dos 7,9 mil milhões de habitantes do planeta, apenas possuem 35% da riqueza; os 10% mais ricos são responsáveis por 48% das emissões de carbono. Ou seja, a luta contra as desigualdades sociais passa também por uma luta contra a discriminação sexual e o combate às alterações climáticas exige uma espécie de fiscalidade verde, que obrigue os mais poluidores a financiar a revolução energética.

O nome Piketty, que se tornou célebre depois do livro O Capital no Século XXI, ajuda, sem dúvida, à divulgação deste relatório, mas em termos gerais segue a linha de anteriores estudos. E obriga a refletir se estamos satisfeitos com o rumo das coisas ou se, pelo contrário, as queremos mudar. E era interessante que estatísticas como estas, nada áridas, entrassem no debate político das próximas semanas em Portugal. Como vê cada partido esta bizarra consequência da covid-19 - a de enriquecer os ricos empobrecendo os pobres - e sobretudo como se pode atuar para a contrariar? No quadro nacional, como no internacional. Certamente que seria uma campanha eleitoral para as legislativas diferente.»

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7.12.21

Albufeira

 


Albufeira, anos 50/60.
Fotografia de Artur Pastor.
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Maçãs que mudaram o mundo?

 


Mais duas:

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Ary dos Santos

 



Seriam 85 hoje.
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O vírus ri-se das fronteiras

 


«No final de novembro de 2020, uma petição de 99 países, liderados pela África do Sul e pela Índia, pediu à Organização Mundial do Comércio que suspendesse as regras das patentes associadas a medicamentos, vacinas e tecnologia para combater a covid.

Só assim seria possível contrariar os efeitos do açambarcamento das vacinas pelos países ricos e proteger a população mundial. Já nessa altura, uma coligação de organizações não governamentais como a Oxfam e a Amnistia Internacional denunciou que 14% da população detinha 53% das vacinas e que, em cada dez pessoas dos países pobres, nove não teriam acesso à vacinação.

Contra todas as evidências científicas e contra a toda a racionalidade - humanitária ou mesmo egoísta (a baixa vacinação potencia o desenvolvimento de novas estirpes que se tornarão sempre globais) -, contra os apelos da Organização Mundial de Saúde e das Nações Unidas, os países mais ricos do Mundo impediram o levantamento das patentes. Nesse grupo esteve sempre a União Europeia, com o apoio do Governo português, protegendo os interesses das farmacêuticas em vez da população mundial.

A vacina contra a covid não se tornou um bem público, como defendia António Guterres, mas um fator de reprodução da pobreza e das desigualdades que dividem o Mundo.

Recentemente, uma nova variante SARS-CoV-2, a B.1.1.529., também conhecida por ómicron, foi identificada por cientistas na África do Sul, que imediatamente alertaram o Mundo para a sua descoberta. A nova variante foi encontrada por toda a Europa, onde as infeções aumentaram muito (ainda que com muito menos internamentos e sem qualquer morte). Não existe qualquer opinião científica consolidada sobre a perigosidade da ómicron face às variantes anteriores, ou sobre a sua resistência à vacina. A ausência de casos mortais estende-se aos países da África Austral, como a África do Sul e Moçambique. Ainda assim, contra todas as evidências e bom senso, a resposta dos países mais ricos do Mundo à descoberta da ómicron foi o encerramento das suas fronteiras aos viajantes de vários países africanos. Em vez de reconhecer o seu rigor e transparência da África do Sul, os países ricos decretaram o seu isolamento.

Na segunda-feira, 29 de novembro, Portugal suspendeu os voos para Maputo, mesmo sabendo que Moçambique registava, nesse momento, cinco novos casos de infeção, zero internamentos e zero mortes por covid. O escritor José Eduardo Agualusa, que embarcou no último voo de repatriamento de Maputo descreve uma situação de caos à chegada a Lisboa, num ambiente de apertado policiamento e "desrespeito total pelos direitos das pessoas e pelas regras básicas de distanciamento e higiene num contexto de pandemia".

Recusada a via da solidariedade e da defesa comum face ao vírus, os governos dos países ricos, dominados pelo calculismo e pela pressão xenófoba, erguem muros. Mas, como escrevem Agualusa e Mia Couto, os vírus não fazem distinção geográfica: "pode haver dois sentimentos de justiça. Mas não há duas pandemias".»

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6.12.21

Legítima defesa

 

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Francisco Assis

 



Entrevistado por Daniel Oliveira. Concorde-se ou não, há aqui muita informação e matéria para reflexão.
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Pois...

 

Pergunta para um milhão de dólares.
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Precisamos de uma nova estirpe de globalização

 


«António Guterres chamou-lhe “apartheid de viagens”. O secretário-geral da ONU condenou a injustiça de que a África do Sul foi objecto por ter detectado uma nova variante da covid-19. O facto de aquela variante ter sido referenciada primeiro naquele país deve-se, antes de mais, à experiência e conhecimento dos laboratórios sul-africanos e à sua rede de vigilância genómica do SARS-CoV-2 (que já tinha permitido identificar a variante Beta no fim de 2020).

Mas isso não pode ser motivo para que os países ocidentais tenham sido tão expeditos a interromper os voos com a África austral. Ao fazê-lo, como sublinham os cientistas, estão a quebrar o normal fornecimento de reagentes importantes para que os laboratórios continuem a fazer o seu trabalho, assim como de medicamentos, vacinas ou material de protecção individual.

A injustiça é ainda maior depois de sabermos que foram identificados casos de doentes infectados com a variante Ómicron nos Países Baixos, antes de esta ter sido revelada pelos cientistas sul-africanos. Historicamente, África sempre foi alvo de todo o tipo de estereótipos e de origem de todos os males.

Jennifer Nuzzo escrevia, na Foreign Affairs de Janeiro/Fevereiro deste ano, que a covid-19 revelou tanto a fragilidade das cadeias de abastecimento globais como a distribuição desigual de medicamentos e de material de protecção em todo o mundo. Nessa altura, a epidemiologista norte-americana, professora associada da Johns Hopkins, dizia que “os países de baixos rendimentos, em particular, sofreram uma grave escassez de máscaras respiratórias, luvas, batas, e muito mais”. Quase um ano depois, a vacinação desigual acentuou o fosso.

Uma pandemia não deixará de ser uma pandemia se essas disparidades se mantiverem. Não deixaremos de ter novas estirpes se o processo de vacinação não se tornar, também ele, global, como insiste a Organização Mundial da Saúde. Neste momento, não se trata, simplesmente, de solidariedade, mas também. É do maior interesse dos países ricos que assim seja.

A globalização tinha posto em causa a era dos Estados-nação, como dizia Giddens. Um vírus veio estorvar esse modelo de globalização económica e financeira e obrigar os países a empenharem-se mais no Estado-Providência do que na procura das vantagens competitivas do mercado global. A incógnita é saber se sobreviverá a uma pandemia que se renova. Chegados aqui, é de uma nova estirpe de globalização que precisamos.»

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5.12.21

Mais imprevisível do que porcos a andar de bicicleta

 


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Assim vamos no aeroporto da capital

 

«...Já sofri muito em aeroportos. Já passei por algumas situações caóticas. Nada que se pareça com o que se passou ontem, sábado, em Lisboa, à chegada do voo procedente de Maputo. Acho que nem nunca vi em toda a minha vida uma desorganização tão bem organizada. Em primeiro lugar os funcionários contratados para fazerem a triagem dos passageiros para o teste obrigatório (85 euros) eram poucos, mal treinados e muito mal informados. Embora estivesse nas primeiras filas demorei quase três horas até conseguir sair do aeroporto. Houve gritaria, tentativas de rebelião e até de fuga, que não resultaram, porque depois do teste nos colocaram pulseiras e quem não as tinha foi forçado a voltar para trás na polícia de fronteira (fecharam as cancelas automáticas). Enfim, um caos total e absoluto. Filas e mais filas. Famílias com crianças. Doentes. Tudo amontoado, num desrespeito total pelos direitos das pessoas e pelas regras básicas de distanciamento e higiene num contexto de pandemia. As bagagens empilhadas num canto e, já na saída, mais filas e mais polícias para controlar, uma última vez, quem tinha e não tinha testes. Uma vergonha!...»

José Eduardo Agualusa, hoje, no Facebook
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Mandela

 


Oito anos sem ele.
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Por uma zona de conforto para todos

 


«Nos últimos anos, a nossa realidade foi sendo maquilhada com linguagem motivacional de segunda. Antes da pandemia já era assim. Agora é quase pornográfico. Há dias, ao ver um vídeo de um daqueles gurus que nos querem transformar a todos em líderes de qualquer coisa, com uma linguagem vinda da gestão, fiquei atónito. Pensava que a coisa se havia atenuado no actual contexto, mas não. De duas em duas frases, lá surgia o é preciso “pensar fora da caixa” ou o “sair da zona de conforto.”

Uma zona de conforto remete para um ecossistema que cada um vai construindo com os seus recursos para superar problemas materiais ou afectivos básicos. Parece uma aspiração essencial que, infelizmente, está longe de ser cumprida por uma larga percentagem dos cidadãos. Como é evidente, só pode querer sair da tal zona quem nela já está. A maioria queria aceder-lhe, mas muitos, infelizmente, estão longe de o conseguir.

É por isso estranho que tal zona raramente seja referida em termos elogiosos. É quase sempre lugar a abandonar. Espaço de conformismo. Algo que impede o desenvolvimento. Um cenário de auto-satisfação. De resistência à mudança. Neste tipo de retórica, mais não se faz do que mascarar a realidade, forma de normalizar dificuldades económicas ou emocionais, em novas tendências, onde as contingências passam a ser vistas como opções. São termos utilizados para os mais diversos sofismas, como esse de transformar pobreza, provisório ou precariedade em flexibilidade ou cenoura para mais competitividade, todos eles apontando para a ideia de que a verdadeira existência começa onde termina a zona de conforto, visto aqui como lugar de resistência ao capital. Daí os estigmas.

Se nos cingirmos às definições mais canónicas, a zona de conforto está ligada à construção de espaços de equilíbrio em que o bem-estar, material ou emocional, sejam garantidos. Muita da nossa energia vai para a tentativa de neutralizar, até onde isso é possível — porque não existe vida sem ausência total de riscos — tudo o que possa ameaçar esse equilíbrio que almejamos. Não era preciso a pandemia ter vindo acentuar essa realidade, mas resulta incompreensível que estigmatizemos quem procura algum tipo de segurança no meio de um mar de imprevisibilidade e de impotência. O não saber o que vai acontecer amanhã, do ponto de vista económico ou mental, é o quotidiano de muita gente. O sentimento de insegurança está lá, alojado, há muito tempo. Dito isto, ter iniciativa e ideias próprias é necessário. Mas é a partir de uma estrutura mínima de confiança que se atravessam tormentas como uma pandemia, ou que se pode arriscar, como é desejável, seja no amor, ou no campo profissional.

Não é verdade que tendamos à inacção quando as questões de estabilidade pessoal são satisfeitas. Os itinerários estão longe de serem lineares. São cheios de paradoxos. Ansiamos por certezas, mas sentimos necessidade de saber mais. Exploramos para além do que percebemos. Testamos as nossas capacidades. Extrapolamos a partir da nossa experiência para novos cenários e outras pessoas. Descobrimos, criamos, interagimos.

Procuramos reconhecimento, identidade social ou afecto, mas também sentirmo-nos bem connosco próprios, para nos desafiarmos, recriarmos e desenvolvermos, dessa forma (quem sabe?) iluminando o mundo. E isso só é possível com alguma segurança. A incerteza não edifica. E a certeza, sem novidade, pode enfadar. A zona de conforto devia ser o lugar de todos, não para dela sairmos em debandada, como nos dizem, mas porque é esse chão que poderá criar espaço para ousarmos ir muito mais além.»

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4.12.21

04.12.1961 – Uma espectacular fuga de Caxias

 


Em 1961, oito presos políticos personificaram uma fuga do forte de Caxias, não menos espectacular do que a de Peniche, ocorrida quase dois anos antes, mas muito menos conhecida provavelmente por não envolver Álvaro Cunhal.

Mais informação e um vídeo AQUI.
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O passageiro que chegou atrasado

 

«Na hora de bater com a porta da Administração Interna, não teve, porém, a coragem e a decência de admitir que foi, única e exclusivamente, uma vítima da sua própria sobranceria, impunidade e irresponsabilidade políticas. Num exercício propagandístico e autoelogioso, em que exibiu dados estatísticos que nada têm a ver com o caso que o fez abandonar o cargo de ministro da Administração Interna, comunicou ao país que só não saiu antes porque António Costa não deixou. Um agradecimento envenenado a quem, durante demasiado tempo, deu cobertura institucional aos seus desmandos. Porém, a imagem que ficará para a história será a de um ministro que, a propósito da morte de um homem atropelado por uma viatura de Estado que seguia a velocidade excessiva com ele no banco de trás, perdeu mais tempo a dourar as suas conquistas governamentais do que a dirigir-se à família enlutada e a proteger o motorista agora acusado pelo Ministério Público de homicídio por negligência. Não assumiu a sua responsabilidade política, não defendeu a dignidade das funções que desempenhava.»

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Tarde partiu Cabrita, sublinhado a desumanidade

 


«Tive, no início de toda esta lamentável história de Eduardo Cabrita, o cuidado de me resguardar de comentários excessivos. De não participar nos tribunais plenários que hoje funcionam em permanência na comunicação social e nas redes sociais. E, ainda menos, no exército de moralistas tão deslocado para um país onde são muito poucos os que cumprem os limites de velocidade (incluo-me nos prevaricadores e já fui multado por isso). Por uma simples razão: pouco sabia e o caso, envolvendo uma morte e uma possível acusação de homicídio involuntário, não permite a mais pequena leviandade.

A acusação parece confirmar a ausência de responsabilidades criminais do demissionário ministro da Administração Interna. Ao dizer que era apenas um passageiro o ministro expôs um facto indesmentível, moral e criminalmente relevante. Se essa era a forma e o momento para o dizer, é outra questão. Antes e depois desta acusação, várias coisas podiam ter sido ditas pelo ministro sem beliscar a investigação. E não foi seguramente para preservar a investigação que se manteve no lugar. A prova de que a sua demissão não perturbava a investigação, por nada ter a ver com ela, é ela acontecer depois de se conformar que ele não tem responsabilidades criminais. Exatamente porque não era por responsabilidades criminais que se poderia ter de demitir. Era pelas mesmas razões políticas que o levam a demitir-se quando António Costa passou a ter uma campanha eleitoral pela frente. Razões políticas.

Eduardo Cabrita não se demite porque teve o azar de ir no banco de trás de um carro que colheu mortalmente um trabalhador. Isso até poderia levar uma demissão porque, independentemente das responsabilidades diretas, o fragilizava para o exercício do cargo. As demissões não correspondem sempre à assunção da culpa, podem corresponder à consciência de que fragilidade política de um ministro tornou o exercício do cargo impossível: é difícil um ministro da Administração Interna impor o respeito pelas regras da estrada quando esteve envolvido na morte de alguém por incumprimento dessas regras por parte do seu motorista. Mas também não é por isso que Cabrita não tinha qualquer futuro. É pela sua desumanidade.

Nada impedia que, durantes estes meses, Eduardo Cabrita tivesse dirigido palavras públicas à memória da vítima e à sua família, fosse qual fosse a sua responsabilidade no acidente. Nada impedia que fizesse o que qualquer ser humano normal, ainda mais um político, faria no seu lugar: contactar diretamente a família logo depois do acidente, disponibilizando-se pessoalmente para todo o apoio. E tudo lhe dizia para não ter dado aos seus serviços indicações para publicar imediatamente uma nota em que tentava responsabilizar a pessoa que tinha acabado de morrer. Aí não se preocupou em preservar a investigação que seguramente viria.

Da mesma forma, seria de esperar que, no momento da demissão, tivesse uma palavra para a família do falecido. E uma palavra para o seu motorista, homem que o acompanhou durante estes anos e está agora acusado de homicídio involuntário. Tudo isto grita aos nossos ouvidos uma assombrosa falta de empatia. A mesma falta que o levou a manter-se um silêncio de oito meses depois da morte de Ihor Homenyuk. E a esperar nove meses para escrever à viúva.

O político não se limita a tratar da gestão técnica mais ou menos competente dos dossiers que tem em mãos. Trata da gestão emocional da relação com os governados, porque dela depende a sua autoridade política e, em última análise, o cumprimento das suas funções. Se assim não fosse, bastavam-nos burocratas e tecnocratas. Se não ficarmos apenas pela decência humana, a ausência de empatia é uma questão política.

Usar este momento de despedida, em que todas as palavras deviam ser para os desgraçados desta história – a vítima mortal, a sua família e o motorista que pode acabar condenado –, para fazer um autoelogio político é grotesco e volta a confirmar a incapacidade de perder cinco minutos com o sofrimento dos outros. Nem naquele momento se recordou deles. Esse elogio, a ser feito, caberia ao primeiro-ministro e a terceiros.

Esta demissão, em vésperas da campanha eleitoral, não resolve a desumanidade, sublinha-a. Ela não resulta de qualquer leitura política do que se passou, porque o resultado da investigação não nos traz nada de novo que aumente a responsabilidade do ministro. Ela nem sequer resolve qualquer problema político da falta de autoridade de um ministro que só tinha mais dois meses de mandato. Ela resulta de um mero cálculo eleitoral. O que anula uma acusação que até podia ser junta: a do aproveitamento político da oposição desta tragédia. Porque a demissão não tem outra função que não seja a de diminuir o impacto eleitoral deste episódio. Ela corresponde à lógica de tudo aquilo a que podemos chamar de aproveitamento político. Não no que ele tem de natural – o escrutínio dos servidores públicos ou a consciência de que a sua autoridade não depende apenas de pressupostos formais –, mas no que ela tem de mais mesquinho – o mero cálculo eleitoral.

A culpa de tudo isto é, em última análise, do primeiro-ministro. A ele se deveu a manutenção de um cadáver político depois de oito meses de silêncio no caso do SEF. Deixar alguém neste estado político com uma pasta desta sensibilidade não foi apenas um insulto ao Estado e às suas instituições. Foi uma desumanidade para o seu amigo, que ele sabia que estaria, a partir daquele momento, irremediavelmente fragilizado e seria um alvo fácil de todos os ataques. Não ter feito a remodelação antes das autárquicas – apenas porque queria guardar a substituição de João Leão para depois do orçamento – correspondeu à habitual autoconfiança que tantas vezes trama António Costa. Esta demissão, feita neste momento, acaba por ser a cereja em cima do bolso. Não é por vir tão tarde. É por parecer tão conveniente. Tanto que não o será.»

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3.12.21

O eclipse



 

Eclipse do Sol, Lisboa, 17.04.1912.
Fotografia de Joshua Benoliel.

(Informação sobre este eclipse AQUI e AQUI.)
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