3.8.21

Compre ações da Pfizer, pagamos todos



 

«As recomendações do mercado são para comprar Pfizer. Não a vacina, mas a ação cotada em bolsa. Os resultados agora publicados revelam que a farmacêutica registou receitas de vacinas covid-19 de oito mil milhões de dólares no segundo trimestre, o que levou a um aumento dos lucros de 59%.

As previsões para o total do ano foram assim ajustadas, de 26 mil milhões para 33,5 mil milhões de dólares. E com o aumento da variante delta, as perspetivas não podiam ser melhores para a Pfizer que, em parceria com a BioNTech, está muitíssimo bem posicionada para colher os benefícios da necessidade de novas vacinas.

Apesar do período feliz que atravessa desde o início da pandemia, o mercado considera que a Pfizer está subvalorizada. Isto porque o seu valor de mercado, estimado em 247 mil milhões de dólares, aumentou mas não disparou, como o de outras farmacêuticas do negócio covid-19. É o caso da Moderna, que viu o preço das ações aumentar, de 21 dólares, em março de 2020, quando a pandemia se tornou oficial, para 354 dólares, registados na semana passada.

Hoje [segunda-feira], enquanto escrevo, o "Jornal de Negócios" noticia ao minuto o estado dos mercados: "Wall Street cheira novos recordes com plano Biden a dar força... entre as empresas, o destaque vai para a BioNTech (5,1%), para a Pfizer (1%) e para a Moderna (2,5%)". O destaque das farmacêuticas tem uma explicação. O "Financial Times" tornou público neste domingo que ambas as empresas conseguiram renegociar os seus contratos com a União Europeia. A vacina da Pfizer custa agora mais 25% e a da Moderna mais 13%, estando garantida a provisão de 2100 milhões de doses até 2023. Assumindo de forma simplista que a Pfizer fornece metade destas vacinas, o aumento de 4 euros no seu preço unitário produzirá receitas adicionais de 4200 milhões de euros. Mas há também novidades do outro lado do Atlântico. Há uns dias, um site americano de investimentos falava nos "200 milhões de razões" para comprar ações da Pfizer, depois de o Governo de Biden ter anunciado a aquisição de mais 200 milhões de doses. Agora, o "Wall Street Journal" conta como o regulador americano está pressionado a aprovar novas vacinas da farmacêutica.

Para a Pfizer, para a BioNTech ou para a Moderna, assim como para os seus acionistas, as boas notícias parecem não ter fim. No extremo oposto estão os estados, os que podem pagar as vacinas e ainda mais os que não as podem pagar, sendo assim impedidos de defender a sua população.

Depois de sinais nesse sentido por parte dos EUA, a UE poderia ter levantado as patentes. Não o fez e nisso foi apoiada pelo Governo português. Hoje, pagamos todos mais pelas vacinas, não porque a sua tecnologia tenha mudado substancialmente, mas porque o poder negocial destes fornecedores aumentou. Boas novas para a Pfizer, péssimas notícias para os povos.»

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2.8.21

Zeca – Seriam 92

 


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Jogos e anti-racismo

 


Sempre que um português «colorido» ganha uma medalha nos Jogos Olímpicos, há uma borboleta anti-racista que bate as asas no coração da pátria – durante alguns dias, claro.
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Fraternidade, liberdade, igualdade



 

«Numa recente peça de reportagem da Euronews, um professor universitário francês, manifestante antivacinas, expõe assim o seu caso: “Sou contra as vacinas por razões médicas — não as considero nem seguras nem eficazes — e também por razões políticas, porque nos estão a ser impostas. Sendo contra a vacina, só posso ser contra a vacinação obrigatória.” Tem a sua lógica, este homem quer ser livre de desconfiar e de desobedecer e, em última análise, age de acordo com o mote, Liberdade, igualdade, fraternidade, em que a liberdade surge — não por acaso — escrita em primeiro lugar.

Os franceses amam a liberdade, sabemo-lo bem desde a Revolução Francesa. Mas liberdade para não confiar na produção de conhecimento não parece uma causa iluminista, ou sequer razoável, muito menos durante uma pandemia. Outro argumento ouvido entre os que ainda não se vacinaram é que primeiro vão ver como é que nos corre a nós e depois, com calma, decidem – ou seja, à minha frente vai toda a humanidade, tipo ratos; na eventualidade de correr bem, segue-se então este ser humano, avisado, lúcido e singular que sou eu. Constitucionalmente é-se livre de ter esta posição; as pessoas são livres de se excluírem das equações até que estas apresentem resultados seguros. Mas arriscam-se a que, no plano existencial, essa auto-exclusão possa ser considerada uma falha moral, se não mesmo cobardia, tout court.

A definição de liberdade é um trabalho em processo, mas, de forma simplificada, passa pela possibilidade de se fazer seja o que for, desde que não prejudique os outros. Aqui, duas posições: por um lado, aqueles que consideram que ninguém lhes pode impor uma vacina, porque presumem que isso os vai prejudicar e, por outro, aqueles que pensam que esses outros, ao não se vacinarem, os prejudicam. Se a primeira posição está por verificar, a segunda é já hoje uma certeza.

Este modo de discordar por presunção é inquietante, porque raia o obscurantismo, num momento em que é precisa tanta claridade. Trata-se agora de reunir evidências e agir de acordo, não de fazer suposições, muitas com aspectos risíveis. Coisas do tipo a autoria disto tudo é de Bill Gates; a vacina contém um chip para nos controlar (extraordinária, a capacidade de produzir tantos nanochips em tão pouco tempo); estamos debaixo de um sistema de vigilância implacável com um plano para nos subjugar – nunca se terá produzido tanta e tão má sy-fy.

Por outro lado, talvez as pessoas que não se querem vacinar estejam a fazer uma certa confusão entre liberdade e autonomia, na medida em que agem como se não estivessem enterradas até ao pescoço na tessitura do mundo, como todos estamos. E ainda bem que assim é: vivemos em rede e são extraordinárias as benesses que, em rede, proporcionamos uns aos outros, das infra às superestruturas.

Não creio que as pessoas que se opõem à vacinação vivam fora das redes de conforto que colectivamente criámos, é, aliás, na net que mais expressam o seu devir libertário. Beneficiam de vacinas que contribuíram para a erradicação de inúmeras doenças que mataram antepassados seus, mas desconfiam agora da celeridade do processo. Já me foi dito que “a comunidade científica no início da pandemia foi clara: uma vacina ia levar entre dois a três anos a encontrar, logo estas vacinas, criadas em tão pouco tempo, não são seguras”. Intrigada, pergunto porque é que a comunidade científica do início da pandemia merece mais respeito do que a atual, sendo a mesma. E aí a coisa adensa-se: há interesses diabólicos em curso, eu é que estou a ser naive, avisam-me.

A descoberta de uma vacina em tão curto período de tempo é entendida como uma perigosa precipitação e não como um feito extraordinário. É, aliás, frequente, entre muitas destas pessoas, que o sentido de urgência seja substituído por uma desaceleração em várias frentes: sair do mainstream; amar a natureza e viver de acordo com os seus ciclos; limitar e até proibir o uso do telemóvel; preferir de longe as leis do universo às da política.

Compreende-se que haja quem acredite numa outra ordem das coisas — com o seu quê de adorável —, mas o resultado prático, ainda que involuntário, é o abandono de todos os outros à sua sorte. Corre veloz um rio, cheio de gente vacinada e estas pessoas estão na margem a gritar-nos sobre os perigos da corrente. Teremos de encontrar tempo e energia para lhes gritar de volta, não para que se calem, mas para que se deixem de manias e mergulhem. É na corrente do rio que tudo acontece, até a contracorrente.

No filme de 2017 de Alexander Payne, Downsizing, um cientista norueguês inventou uma forma de encolher pessoas e coisas, numa tentativa de reduzir o impacto humano nos recursos do planeta. Mas esta miniaturização chega tarde, porque um envenenamento de metano compromete seriamente a atmosfera terrestre. A certa altura do filme, Matt Damon, que interpreta Paul, juntamente com Ngoc Lan (Hang Chau), uma invulgar parceira vietnamita, encontram uma comunidade de pessoas com um plano para salvar a espécie humana. Uma das personagens explica que cavaram “um túnel que conduz a um espaço de 1,6 quilómetros dentro da litosfera terrestre, isolado por uma camada dupla de Inconel 625, onde se criou um ecossistema habitável”. O grupo planeia ali permanecer durante cerca de oito mil anos, até que a atmosfera estabilize e a Terra se torne novamente habitável — assegurando assim a sobrevivência da humanidade. Convidados a juntar-se-lhes, Paul e Ngoc Lang discutem. Ele quer refugiar-se no túnel, ela opõe-se veementemente: “Aqui fora é que as pessoas precisam de ajuda, não no estúpido do buraco.”

Não revelarei quem vence a discussão, mas o que Ngoc Lang sugere a Paul é que fiquem cá fora a lutar por soluções comuns. Mais difícil ainda, ela tem a coragem amorosa de apostar na sobrevivência de todos — ainda que possa falhar, ainda que não se encontre uma solução e o envenenamento da atmosfera seja inevitável.

Para esta heroína, a fraternidade vem muito antes da liberdade de salvar o próprio coiro. Assim deveria ser para cada um de nós — e para os franceses, já agora. Enquanto perdemos tempo a bradar por liberdades individuais — enquanto, em vez de nos vacinarmos, entretemos a ideia de cavar túneis privados para lá enfiarmos um grupo de amados e conhecidos —, tudo em nosso redor grita, alto e bom som que, sem um amplo sentido de fraternidade e comunidade, estamos todos feitos — por igual.»

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1.8.21

Autárquicas – Marketing (2)



 

É só fazer as contas, como dizia o outro: se todos usarem ciclovias com um anito como o João, o futuro será mesmo verde!
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Agosto

 


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Autárquicas – Marketing

 


Nenhum partido precisa de um candidato apessoado como eu? Olhem que dava um belo outdoor, bem melhor dos que vejo por aí.
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A pandemia e a democracia



 

«Sabemos, desde o início, que a pandemia não atingiria, como não atingiu, todos os cidadãos em pé de igualdade. O discurso inicial que a catalogava como "democrática" servia o objetivo de submeter os mais atingidos, acantonando-os nas suas desgraças e agravando a sua descrença na democracia.

Foi o primeiro passo de um caminho de agravamento de desigualdades e injustiças. Daqui resultou um enfraquecimento progressivo da democracia.

As medidas de emergência e exceção chocaram, em muitos casos, com direitos e liberdades individuais e coletivas; a garantia de direitos fundamentais por parte do Estado foi posta à prova, nomeadamente na educação, na justiça, na segurança social, na saúde; há setores da economia que multiplicaram lucros, enquanto toda a reparação de prejuízos aos que foram afetados é entregue à responsabilidade do Estado; impuseram-se poderes unilaterais no trabalho que não podem ser a base da estruturação do novo normal; o enfraquecimento da participação cívica e política favorece forças e programas políticos conservadores e fascistas.

A expectativa de uma recuperação económica "imediata" depois da pandemia - por efeito de bazucas milagrosas - que faça tudo voltar ao normal precisa de ser questionada. É perigoso criarem-se expectativas infundadas. Primeiro, o rombo foi muito grande e a sua reparação será prolongada: a recuperação tem de ser feita, por um lado, através da retoma de atividades que tínhamos, mas buscando melhores posições nas cadeias de valor, por outro lado, com reconversões que consubstanciem já respostas a transições em curso, como a climática. Segundo, a recuperação da economia pode ser lenta e apenas parcial, por compromissos com dívidas acumuladas, por ausência de estratégias empresariais e de investimento privado, por excesso de expectativa no investimento público. Terceiro, porque voltar a produzir e vender não é necessariamente o mesmo que distribuir de forma equilibrada os proveitos da produção e das vendas.

As repercussões sociais do recuo da economia ainda não se manifestaram em toda a sua gravidade, e só virão à tona quando os apoios públicos cessarem por completo e a fatura do crédito se fizer sentir. Sendo um facto que a profundidade da crise social está muito para além dos impactos diretos da crise económica, é, contudo, uma ilusão considerar-se possível combater a pobreza com êxito, garantir proteção social digna, travar as desigualdades e o desemprego e evitar a emigração das gerações mais jovens, sem colocar no centro a valorização do trabalho, a melhoria dos salários e a criação de emprego mais seguro e com qualidade.

Alguns governantes, o presidente da República e líderes patronais continuam a impingir-nos aquela ilusão. Persistem em querer deixar a democracia à porta das empresas e dos serviços públicos, em secundarizar o contributo dos sindicatos, quer na vida das empresas e da Administração Pública, quer na construção dos compromissos coletivos em que se suportam as respostas a crises profundas.

Não se admite que continuemos com um profundo desequilíbrio de poderes entre trabalhadores e patrões (ou empresários), sem negociação coletiva a funcionar com equilíbrio e dinâmica, ou com ministros que, por incompetência ou birra, não dialogam com os sindicatos.

A maior luta contra o tempo que temos pela frente é mesmo a de travar o enfraquecimento da Democracia.»

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31.7.21

Vacinações



 

Li há dois dias, num comentário do Facebook, que um puto de 12 anos esperava ser vacinado. Caso não fosse essa a decisão oficial, iria lamber todos os corrimãos de um centro comercial para ver se conseguia apanhar o vírus e obter o sacrossanto Certificado.

O pai, que contava a história, aplaudia e eu não me importava nada que esse puto fosse meu neto. Quem não tem cão caça como gato. 

Quase aposto que dentro de poucas semanas (ou mesmo dias) a DGS virá dizer que afinal está tudo bem e que os adolescentes dos 12 aos 15 podem, e devem, ser vacinados. Entretanto, só aumentou as angústias e dúvidas de muitos pais.
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E ela terá a App instalada para os ler?

 

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As quotas não fazem mal a ninguém

 


«O Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação, publicado esta quarta-feira em Diário da República, não se limita a reconhecer o que todos reconhecemos: existem grupos que são alvo de discriminação muito precisa, em cujos meios é importante intervir.

A medida mais prática e simbólica deste plano é a criação de mais de 500 vagas extras no ensino superior, e nos cursos técnicos superiores profissionais, para alunos oriundos de escolas situadas em zonas desfavorecidas que, sem elas, não acederiam a estes níveis de escolaridade.

Ninguém escolhe o local onde nasce. Mas o ecossistema em que crescemos determina-nos. Crescer no bairro da Lapa, em Lisboa, ou no bairro da Jamaica, em Setúbal, não oferece as mesmas condições no ponto de partida e não garante o mesmo êxito no ponto de chegada. Este desequilíbrio não é forçosamente uma fatalidade. Mas é-o na maioria dos casos.

Portugal não é mais nem menos racista do que outros países. Ainda recentemente, Joe Biden admitiu que os EUA têm um problema estrutural chamado racismo — nunca o supremacismo branco teve tanto impulso como na anterior presidência norte-americana. Temos é um trauma colonial para resolver e sempre que nos é possível fugimos a correr do divã do terapeuta.

Acreditamos no nosso próprio discurso sobre a lengalenga do luso-tropicalismo, convencidos de que a nossa colonização até foi benigna, ou, pelo menos, não tão maligna como a das outras potências europeias. A realidade, todavia, não é tão delicodoce.

Alcino Monteiro, espancado por um bando de cabeças rapadas, no Bairro Alto, há 26 anos, ou Bruno Candé, atingido a tiro por um ex-militar, em Moscavide, no ano passado, morreram por causa da cor da sua pele. Não foram crimes comuns. Quem mata é o racismo, não é o anti-racismo.

O que incomoda é quando as vítimas saem da sombra e ganham voz e protagonismo. O primeiro rapper português, General D, não aguentou a pressão de ser o primeiro a expressar o sentimento do que é ser negro e viver em Portugal, depois de lançar PortuKKKal É Um Erro, em 1994, e emigrou. O SOS Racismo, uma organização com reconhecido trabalho cívico, parece ter-se tornado uma questão desde que começou a ser liderada por um negro.

O oposto de não combater o racismo é incentivá-lo. Este plano impede-nos de fingir que não há racismo em Portugal e é um passo para remediar as consequências que sofre quem já nasceu discriminado. Afinal, as quotas não fazem mal a ninguém.»

30.7.21

30.07.1974 - «A morte do colonialismo»



 

Há 47 nos, milhares de pessoas concentraram-se junto ao Palácio de Belém para manifestarem ao Presidente da República a alegria pelo fim da guerra colonial. A manifestação foi convocada pelos três partidos representados no II Governo Provisório: PS, PPD e PCP.

Na véspera, tinha sido assinado, em Argel, o acordo que reconhecia a independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.

Vale a pena ver a composição do II Governo Provisório:

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Dizem que é jornal de referência



 

Parem as máquinas porque o Expresso acaba de lançar uma notícia de arromba: O CARDEAL CEREJEIRA TINHA UM NETO!
Descobriram que Nuno Cláudio Cerejeira não é sobrinho-neto do cardeal, mas sim neto? Uau!

E não foi lapso no título. Lê-se na notícia: «Nuno Cláudio Cerejeira, neto do cardeal Cerejeira, aliado de Oliveira Salazar, é um dos 27 PHS que vão a julgamento.» 

P.S. - Entretanto, já corrigiram.
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O dinheiro da Extrema Direita contra as mulheres

 


«O Fórum Parlamentar Europeu para os Direitos Sexuais e Reprodutivos acaba de apresentar um relatório sobre o modo como é financiada, na Europa, a ação dos movimentos extremistas contra a autodeterminação das mulheres e a igualdade de género (https://www.epfweb.org/node/837 ). Chama-se “A ponta do iceberg” e é um retrato detalhado das redes de apoio à extrema direita neste continente.

Primeiro dado relevante: entre 2009 e 2018, cerca de 707 milhões de dólares foram mobilizados por 54 organizações – de ONG’s a partidos ou a organizações religiosas – para financiar a sua ação contra a igualdade de género na Europa. Segundo dado relevante: nas três principais fontes geográficas desse financiamento (Estados Unidos, Rússia e Europa), as elites conservadoras juntam-se às organizações de extremismo religioso. Assim, na Rússia, os cerca de 190 milhões de dólares mobilizados foram originados em organizações associadas a dois oligarcas (Yakunin e Malofeev) que se destacam na lavagem de dinheiro para financiamento das campanhas eleitorais de partidos da extrema direita europeia. Nos Estados Unidos, 81,5 milhões de dólares foram, neste período, canalizados para organizações europeias de combate à igualdade de género por 10 think tanks da direita evangélica financiados por fundações ligadas a bilionários do campo trumpista. Terceiro dado relevante: os 438 milhões de dólares mobilizados na Europa para financiamento da agenda contra os direitos das mulheres vieram tanto de organizações católicas ultraconservadoras (polacas, espanholas e alemãs, sobretudo) como de elites empresariais de mais de 20 países.

Portugal não aparece no relatório. Engana-se quem repousar sobre isto. Tanto como se enganou quem repousou na convicção de que Portugal continuaria a ser uma exceção ao crescimento da extrema direita patente em toda a Europa. E é por ajudar a prevenir este repouso distraído que este relatório é tão importante.

Seguir o rasto do dinheiro com que a extrema direita financia as suas campanhas contra a igualdade de género permite-nos desmontar duplamente a ficção de que a extrema direita é “contra o sistema”. Primeiro, porque fica patente que o sistema contra que a extrema direita se move é o sistema dos direitos e da igualdade, de que os direitos das mulheres são um elemento nuclear. Segundo, porque o grosso do dinheiro mobilizado pela extrema direita para este fim vem da aristocracia económica que é o motor do sistema da desigualdade no trabalho, na posse dos bens e no acesso aos direitos.

Siga-se o rasto do dinheiro e perceba-se como a extrema direita é a guardiã do sistema. Na Europa e em Portugal também.»

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29.7.21

Pedro Tamen

 


Calou-se hoje.

Quando a lua de joão penha se põe por sobre as casas
A deitar branco e azul por superabundância,
O fofo descritivo deste começar
Faz-se caroço e tapa a voz que há-de chegar.
E são então os pássaros sem asas
Cheios de bicos, brumas, e de infância,
Na capoeira atada e toda rede
Onde a visão de perto é falta de ar,
onde a memória é sede.

Pedro Tamen, in Daniel na Cova dos Leões, 1970
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Luis Buñuel morreu num 29 de Julho



 

Luis Buñuel morreu em 29 de Julho de 1983. Nascido espanhol, naturalizado mexicano, foi certamente um dos realizadores mais controversos, irreverentes, e mesmo «escandalosos», do século passado.

Com 17 anos rumou a Madrid para frequentar a universidade, entrou em círculos ligados a cineclubes e inseriu-se em grupos onde se tornou amigo de Dalí, García Lorca e mais uns tantos. Em 1925, partiu para Paris, onde via três filmes por dia, iniciou actividade como crítico de cinema e aproximou-se cada vez mais dos surrealistas, que o adoptaram definitivamente depois da exibição do seu primeiro filme – «O Cão Andaluz» (em 1929).



Seguiu-se «A Idade de Ouro» (1930). Cinco dias depois da estreia, grupos de extrema direita atacaram a sala onde o filme era exibido, as autoridades francesas proibiram-no e recolheram as cópias existentes. Depois de meio século de censura, reapareceu em Nova Iorque em 1980 e um ano depois em Paris.



Seguem-se etapas complicadas nos Estados Unidos, no México e de novo em França, mas recorde-se apenas um dos seus filmes mais emblemáticos, «Viridiana», absolutamente inesquecível, de 1961. Ganhou nesse ano a Palma de Ouro em Cannes, mas, depois de ser condenado pelo Osservatore Romano que o classificou como «blasfémia» e «sacrilégio», foi proibido pela censura em Espanha e só veio a ser exibido em 1977. (Vale a pena ler este texto de Lauro António.)



A célebre cena da Última Ceia:


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Marcelo igual a si próprio

 

«Há uns anos, quando caiu uma avioneta no Lidl, o Marcelo pôs-se em 15 minutos em Tires. Agora não foi capaz de ir ao funeral do Otelo em Alcabideche, o trânsito devia estar terrível. Se tivesse caído uma avioneta no funeral do Otelo, o Marcelo estava lá batido.»

MC Somsen no Facebook
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Para onde fomos?

 


«Não está certo. Uma pessoa vira as costas e, de repente, faltam 213.286 portugueses. E, logo por azar, nos sectores que fazem mais falta.

Sou do tempo em que dizíamos que Portugal tinha 11 milhões de habitantes, mais coisa, menos coisa. Toda a gente sabia que não era mais coisa, que era menos, mas não fazia diferença, por haver tanta gente.

Depois, tivemos de bater a bolinha mais baixo e dizer que éramos 10 milhões e meio. Este “meio” era pindérico. Os países com populações decentes não dizem que têm 60 ou 120 milhões “e meio”.

O “meio” denunciava o nosso complexo de inferioridade. Fazíamos questão de esclarecer que não éramos apenas dez milhões, ó não, nem pensar, ora acrescenta lá mais quinhentos mil tugas, se fizeres favor.

Agora é um pesadelo. O melhor é mudar de assunto mas, caso alguém insista em perguntar, teremos de baixar a voz e dizer que somos “dez milhões”, resistindo absolutamente à tentação de acrescentar “e quase 350 mil”.

Note-se que, como lisboeta e veraneante algarvio, enxoto qualquer responsabilidade neste descalabro. Tanto Lisboa como o Algarve conseguiram aumentar substancialmente o número de portugueses. Em Lisboa lográmos atrair quase 50.000 e no Algarve apanharam mais 16.489.

Cada um desses portugueses custou-nos caro. Para cada um nascer, foi preciso apresentar pessoas, escolher a música certa e esperar que chegassem a vias de facto. Mas, cada vez que morria alguém, lá estávamos nós a telefonar da maternidade, a dizer que tinha sido encontrado um substituto.

E ainda pudemos pôr alguns de parte, para compensar as asneiradas do Alentejo (menos 6,9 %), da Madeira (6,2 %), do Centro (4,3%), dos Açores (4,1%) e do Norte (2,7%), mal adivinhando que não iria chegar para as encomendas.»

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28.7.21

Lutos nacionais (2)




Segundo a Wikipedia, é esta a lista de pessoas ou acontecimentos pelos quais foi decretado Luto Nacional desde o 25 de Abril, decisão que é da competência do Governo.

Na mesma, não couberam Salgueiro Maia, Melo Antunes e Otelo Saraiva de Carvalho (casos referidos ontem pelo actual PM.)  Mas não faltam Anwar Al Sadat presidente do Egito, imperador Hirohito do Japão e rei Hassan II de Marrocos.  

·        1977 - vítimas do acidente aéreo no Funchal 

·        1980 - vítimas do sismo dos Açores de 1980 

·        1980 - falecimento do primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, e do ministro da Defesa Nacional, Adelino Amaro da Costa (Caso Camarate)

·        1981 - falecimento de Anwar Al Sadat, presidente do Egito 

·        1985 - vítimas do desastre ferroviário de Moimenta-Alcafache 

·        1986 - falecimento de Samora Machel, presidente de Moçambique 

·        1989 - falecimento do imperador Hirohito do Japão 

·        1991 - vítimas do massacre de Santa Cruz, em Timor-Leste 

·        1996 - falecimento de António de Spínola, antigo presidente da República - 2

·        1998 - falecimento de D. António Ribeiro, cardeal-patriarca de Lisboa

·        1999 - falecimento do rei Hassan II de Marrocos 

·        1999 - falecimento de Amália Rodrigues 

·        2001 - vítimas da tragédia de Entre-os-Rios 

·        2001 - falecimento de Francisco da Costa Gomes, antigo presidente da República

·        2001 - vítimas dos ataques de 11 de setembro de 2001 

·        2004 - vítimas dos atentados de 11 de março de 2004 em Madrid 

·        2004 - falecimento de António de Sousa Franco 

·        2004 - falecimento de Carlos Paredes 

·        2004 - falecimento de Luís Nunes de Almeida, presidente do Tribunal Constitucional

·        2005 - falecimento de Jorge Alberto Aragão Seia, presidente do Supremo Tribunal de Justiça

·        2005 - falecimento da Irmã Lúcia 

·        2005 - falecimento do Papa João Paulo II 

·        2005 - falecimento de Álvaro Cunhal 

·        2010 - vítimas da tempestade na ilha da Madeira 

·        2010 - falecimento de José Saramago 

·        2013 - falecimento de Nelson Mandela 

·        2014 - falecimento de Eusébio 

·        2014 - falecimento de D. José Policarpo 

·        2015 - falecimento de Manoel de Oliveira 

·        2017 - falecimento de Mário Soaresantigo presidente da República

·        2017 - vítimas do incêndio florestal em Pedrógão Grande 

·        2017 - vítimas da tragédia com queda de árvore na ilha da Madeira 

·        2017 - vítimas dos incêndios florestais nas regiões Centro e Norte do país 

·        2018 - falecimento de António Arnaut 

·        2019 - vítimas de violência doméstica

·        2019 - vítimas do acidente com autocarro de turismo na ilha da Madeira 

·        2019 - falecimento de Agustina Bessa-Luís 

·        2019 - falecimento de Diogo Freitas do Amaral 

·        2020 - vítimas da pandemia de COVID-19 

·        2020 - falecimento de Gonçalo Ribeiro Telles 

·        2020 - falecimento de Eduardo Lourenço 

.       2021 - falecimento de Carlos do Carmo



E cantou-se a Otelo com Fanhais

 


Francisco Fanhais e um coro improvisado, ontem, no velório de Otelo Saraiva de Carvalho.
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