13.7.24

Gentes de vários mundos (5)

 


Samarcanda, Uzbequistão, 2011.

Num país esmagadoramente muçulmano, são muitas as mulheres, sobretudo jovens, de cabeça destapada. E todas, velhas e novas, fazem gala de terem belos vestidos de cores variadas e mesmo garridas.

Vêm aí os Jogos Olímpicos

 


Karel Pott (à esquerda na imagem), meu padrinho, que terá sido o primeiro mulato moçambicano a licenciar-se (em Direito), concorreu às Olimpíadas de 1924, tenho ficado em 3º lugar numa das eliminatórias dos 100 metros.

13.07.1958 - Carta de um bispo do Porto a Salazar

 


Foi há 65 anos, cerca de um mês depois das eleições presidenciais de 1958 às quais Humberto Delgado tinha concorrido, que António Ferreira Gomes, bispo do Porto, escreveu uma longa e corajosa carta a Salazar, que lhe valeu dez anos de exílio em Espanha, França e Alemanha, entre 1959 e 1969.

Para muitos, sobretudo católicos, a conjugação destes dois acontecimentos – eleições com Delgado e carta do bispo do Porto – foi o verdadeiro pontapé de saída para a resistência e luta contra a ditadura durante as décadas que se seguiram.

Vale a pena ler ou reler o texto para se perceber a importância que teve na época.
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O corpo imaculado: o que o maestro da minha orquestra me mandou fazer

 


«1. Hoje de manhã, sabedor de que tenho um artigo para escrever, o maestro da minha orquestra, a dos políticos corruptos e dos poderosos que não querem escrutínio dos seus crimes, e de uma elite que acha que está acima lei e da gente comum, mandou-me escrever sobre a entrevista da procuradora-geral da República. Perguntei-lhe se valia a pena fazê-lo, visto que toda a gente tinha passado a semana a falar e a escrever sobre a dita entrevista. Disse-me que valia por duas razões: uma, é que as reacções à entrevista são interessantes de per si; outra, porque tinha fama de não ter punhos de renda, ou seja, ser mais bruto. O elogio do meu maestro animou-me.

2. Foi bom a procuradora ter dado a entrevista que deu. Para quem não tinha a verdadeira dimensão de com quem estava a lidar, ficou ali mais evidente, a arrogância, o poder sem responsabilidade – o que em democracia é antidemocrático –, a indiferença aos efeitos de acções precipitadas e pouco fundamentadas, o desprezo pelo valor da obrigação de responder pelo que se faz. Ou seja, o Ministério Público (MP) no entendimento da sua chefia é uma entidade divina, um corpo imaculado, perfeito, sem mancha, sem desejos. Como sou avesso a perfeições e não acredito em corpos imaculados, ainda com mais vontade fiquei de servir o meu maestro e participar na minha orquestra.

3. Também percebi por que razão a procuradora não queria dar entrevistas – o que ela tem para dizer tem um efeito de revelação e o poder não gosta de ser revelado. Um dos poderes que protegem o poder é o silêncio, a descrição e o segredo. Quebrado o silêncio, manda-se menos.

4. Eu assinei o Manifesto maldito dos 50, o que levantou uma tempestade genuína nos ares fétidos do pântano do medo e, por isso, enfraqueceu a barreira que protegia o comportamento abusivo do justicialismo e o seu sistema de cumplicidades. Mas, sim meu maestro, as reacções à entrevista são reveladoras e centram-se em três grupos: o jornalismo receptáculo das fugas de informação e que é, ele próprio, corrompido porque sabe que elas dão fama e audiências e estes são dois ingredientes fundamentais no mercado de emprego; a corporação justicialista e os seus apêndices “cívicos” pouco interessados nos direitos fundamentais; e a direita que nunca há-de agradecer o bastante por a procuradora ter atirado abaixo António Costa, coisa que nunca conseguiu fazer.

5. Vejo com muita ironia o desprezo com que jornalistas acusam as críticas à procuradora-geral da República e ao MP de virem de uma elite que nunca se preocupou com as pessoas comuns. É em parte verdade, muitos chegaram tarde. E depois? Têm razão ou não? Esta crítica volta-se contra os seus autores porque tem implícita a ideia de que é vulgar haver abusos sobre as pessoas comuns, só que são invisíveis. Também não os vi muito preocupados, mas, voltando à ironia, é curioso ver tanto zelo na defesa das pessoas comuns quando olho para os jornais e o modo como tratam as mesmas pessoas comuns, violando qualquer presunção de inocência retratando em desenhos as vítimas de violação, mesmo crianças, de uma forma concupiscente, reproduzindo a má-língua de vizinhos e parentes. Respeito pelas pessoas comuns? Tretas. Sim, de facto, estão mesmo muito preocupados com as “pessoas comuns”. Elas não são o manjar real, mas a comida de todos os dias, e há que comer todos os dias para ter o jornal em cima das mesas do café. Concordo, no entanto, numa coisa: talvez no caso das pessoas comuns as fugas de informação não venham dos mais altos níveis das autoridades judiciais, mas sim dos mais baixos.

6. Há uma coisa também interessante nas reacções à entrevista da procuradora, o apoio entusiástico que a nossa direita radical dá ao MP pela sua actuação à volta de Costa. Percebe-se, o MP deu-lhe um gigantesco presente, e ser-lhe-á reconhecida até ao fim dos dias, porque derrubou Costa, que nunca conseguiria deitar abaixo.

7. Mas há uma coisa que não percebe: é que o justicialismo é de direita pelos métodos e pelo desprezo pela democracia, mas é de esquerda pela ideia de que toda a actividade económica é pela sua natureza corrupta – portanto, ir-lhe-á bater à porta. Em seu devido tempo, já não se recordam que andaram anos a dizer que o MP tinha sido tomado pelo PCP, que o sindicato era uma emanação da UEC?

8. O Manifesto dos 50 é um ponto sem retorno, não na questão da justiça, mas sim na denúncia dos abusos que são feitos em seu nome. Eles, sim “eles”, sabem disso muito bem e por isso estão numa fase de contenção dos danos. Mas hoje não é possível, sem controvérsia da pesada, e com o apoio de muito mais do que os políticos, mas da maioria da opinião pública, actuar com a displicência e a irresponsabilidade arrogante dos últimos tempos.

9. É pouco provável que haja a coragem de fazer reformas de fundo, nem em bom rigor elas são necessárias para corrigir os abusos, mas há obrigação de conhecermos o que pensa o futuro/a procurador/a-geral da República sobre estas situações, e de se encontrarem mecanismos que protejam mais eficazmente os direitos fundamentais do abuso justicialista.

10. A culpa última da actual situação não é da corporação justicialista e dos seus espúrios braços “cívicos”, mas dos políticos que fizeram a arquitectura e as escolhas do actual sistema de irresponsabilidade e poder sem controlo do MP. Deitam-se numa cama que foi feita por eles, com uma mistura de cedências populistas, medos e sentimentos de culpa. Será, meu maestro, que dei um bom contributo para a campanha orquestrada?»


12.7.24

Gentes de vários mundos (4)

 


Iximche, Guatemala, 2014.

Que será feito deste pequeno herdeiro da Civilização Maia que vi há dez anos?

E dói mesmo

 


Pablo Neruda

 


Pablo Neruda nasceu em 12 de Julho de 1904, em Parral, no Chile, e morreu em Santiago, em Setembro de 1973, poucos dias depois do golpe que vitimou Salvador Allende. Não se tinha candidatado às eleições presidenciais de 1970 por ter considerado que Allende tinha mais possibilidade de as vencer, como veio a verificar-se.

Recordemo-lo um pouco, com a sua voz inconfundível.




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Mania da perseguição na óptica do utilizador

 


«Quando dizemos de uma pessoa que tem a mania da perseguição, pretendemos significar que ela acredita que os outros a perseguem. Mas a expressão também pode ser entendida noutro sentido: o de que a pessoa tem a mania de perseguir os outros. São duas manias muito diferentes que podem, no entanto, ser designadas com a mesma expressão. Ao que se ouve dizer, Lucília Gago, a procuradora-geral da República, sofre de ambas as estirpes da maleita. Muita gente está convencida de que ela persegue, ela acredita que é perseguida. Em entrevista à RTP, a procuradora-geral respondeu à acusação de que conspira contra certas pessoas afirmando que certas pessoas conspiram contra ela. “Há uma campanha orquestrada contra o Ministério Público”, disse a procuradora-geral. A pessoa que alegadamente orquestra campanhas é alegadamente alvo de campanhas orquestradas. Ora, é muito improvável que, num país em que tudo é feito à balda, haja alguma coisa bem orquestrada, quanto mais duas. Mas é preciso não esquecer que Lucília Gago tem acesso a escutas. É possível que já tenha ouvido conversas entre pessoas que estão a orquestrar uma campanha contra si. Infelizmente, nem referiu essas conversas nem identificou essas pessoas. Ou seja, estamos perante mais um megaprocesso na Justiça portuguesa. Desta vez, é um megaprocesso de intenções. Além disso, o anúncio de que existe uma campanha orquestrada contra o Ministério Público (MP) foi também uma nova ocorrência de uma situação habitual: mais uma vez, o país fica a saber de uma suspeita importante porque o MP a comunica em primeiro lugar a um jornalista.

Infelizmente, na entrevista à procuradora-geral da República não se falou de literatura. É pena. Creio que todos concordamos que Lucília Gago é a maior escritora portuguesa viva. Nenhum outro autor nacional conseguiu ser tão influente e obter tamanha repercussão social. Com um parágrafo apenas, Lucília Gago transformou profundamente o país. Outros autores têm escrito páginas e páginas sem qualquer resultado tangível. Mas Lucília Gago, com apenas cinco linhas, fez cair um Governo de maioria absoluta. O parágrafo foi estudado e analisado durante semanas, inspirou debates intensos, incluiu expressões como “contexto suprarreferido” e “foro competente”, que a generalidade dos escritores, incompreensivelmente, tem esquecido. Ainda assim, o talento literário de La href="" target="_blank">ucília não é reconhecido pela academia. Creio que há uma campanha orquestrada para que isso se mantenha assim.»


Front Populaire

 


11.7.24

Gentes de vários mundos (3)

 


Rotorua, Ilha do Norte da Nova Zelândia, 2017.
Um enorme maori (são mesmo grandes os maoris…)

É em Rotorua que vive a maior população maori do país. Perseguidos por colonizadores vários durante séculos, os maoris são hoje especialmente acarinhados pelo governo, dispondo de uma série de privilégios e incentivos. Pensa-se actualmente que os primeiros exploradores, vindos provavelmente da Polinésia, terão chegado há 700-1200 anos. No Triângulo da Polinésia, os povos têm línguas, culturas e crenças similares e há um sem número de histórias sobre viagens e trocas comerciais dos maoris nesta área.

Bons conselhos

 


França: o que vai sabendo

 


Libération, 10.07.2024

O que está por baixo do título para que se leia melhor: