29.6.22

Transportes noutros mundos (2)

 


Os autocarros guatemaltecos são um festival de cores! Antígua, Guatemala (2014).
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Quando se partilham títulos sem ler o resto morre um bebé coala na Austrália

 


Não é só o Expresso: vários jornais, que vi até agora, optaram por títulos que falseiam o sentido da afirmação de Marcelo. Direitolas e feministas da 25ª hora, que só lêem «as gordas» partilhadas nas redes sociais, rasgam as vestes quando, desta vez, o homem parafraseou uma frase mais do que batida e certeira.

O que Marcelo terá dito (e cito o próprio Expresso) foi isto: “Está a melhorar, de facto está, mas verdadeiramente eu costumava dizer o seguinte: só haverá verdadeiramente igualdade entre homens e mulheres, quando chegar aos mais altos postos uma mulher tão incompetente como chega em vários casos, em inúmeros casos, aos mais altos postos, um homem”.

Daqui.
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José Manuel Tengarrinha

 


Partiu há 4 anos.

A ler: Uma noite, uma vida
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Jéssica: não é mau jornalismo, é um ataque ao jornalismo

 


«Nunca acompanho pelas televisões casos como os de Jéssica. Quando envolve crianças, sei que virá manipulação emocional e o que sinto perante a barbaridade chega-me para não precisar de ser entretido por ela. Prefiro acompanhar pela imprensa, que me dá mais informação útil. Assim, só os protestos de várias deputadas e queixas à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) me levaram a ir à box para ver, por dever de ofício, aquilo que a maioria dos portugueses viu.

Até ao momento do velório foi o costume. Acusações de anónimos à mãe da criança – uma vizinha não identificada até explicava que não tinha a certeza do que dizia e que seria bom esperar pelo bom trabalho da PJ, mostrando mais bom senso do que quem a entrevistava. Julgamentos feitos com base em quase nada. Imagens de protestos de “populares” que, quando se indignam com qualquer abuso que veem na televisão, fazem à porta do tribunal o que se esquecem de fazer com a violência que acontece ao lado de sua casa. Jornalismo instantâneo, que finge não saber que há uma diferença entre investigar com cuidado, rigor e critério e recolher depoimentos dispersos para os transmitir, no próprio dia, na televisão. Até ouvi Marcelo Rebelo de Sousa comentar o caso, pedindo que se tirem lições daquilo de que tão pouco se sabe com certezas.

Ouvi as críticas lestas à CPCJ, que recebeu 40 mil queixas num ano e acompanha 70 mil casos. Não vou comentar o caso concreto, porque não padeço dessa pressa de julgar para aliviar a dor de alma que sinto. Mas este tipo de pressão, que acerta no totobola à segunda-feira, tem levado os serviços sociais de alguns países a adotar políticas defensivas que retiram os filhos aos pais ao mínimo sinal, criando um clima de terror nas famílias mais pobres, que têm menos defesas perante a cegueira das máquinas burocráticas quando preferem errar por excesso.

Aconselho, para quem queira, o filme “Listen”. Tudo é mais complicado do que o julgamento fácil depois das coisas acontecerem. Às vezes a escolha é afastar uma criança dos pais, causando traumas profundos, ou deixá-las com eles, causando traumas profundos. Com poucos meios, num Estado orgulhosamente minguado, mais difícil ainda. Veremos, no fim, o que falhou. E julgue-se então.

Mas foi quando cheguei aos telejornais do dia do velório, já exausto de tanto voyeurismo vazio de jornalismo, que percebi porque é que os protestos tinham sido mais claros do que o habitual. Aquilo que me indignou em 2016, quando um programa da manhã da CMTV acompanhou o velório de Samira, uma criança de 4 anos, tinha-se tornado o novo normal entre jornalistas. Todos os telejornais, com a honrosa exceção da RTP, se plantaram à porta de uma igreja para transmitir, em direto e sem filtro, o momento mais íntimo e privado de uma família. Vários transmitiram, em “loop”, imagens de explosões emocionais de uma avó. Para quem não tenha percebido, não há qualquer relevância informativa num velório de uma criança. É entretenimento macabro, apenas.

A CMTV vai sempre mais longe, já se sabe. Mas é só o líder do pelotão. Num exercício pornográfico de desrespeito pelos mais básicos direitos das pessoas, incluindo o direito à imagem, a cena da avó foi repetida com música de fundo e uma narração totalmente vazia de conteúdo informativo, mas carregada de adjetivos hipocritamente. Quando a tragédia é um produto, não estamos perante jornalismo. É outra coisa, que pode ser feita por qualquer pessoa. Pela Maya e pelo Nuno Graciano, por exemplo. Na realidade, só não podem ser feitas por jornalistas, que têm um código deontológico a cumprir.

Mas a CMTV não esteve sozinha no cerco a outra avó, quando esta saía, em choque, de casa, a caminho de velório, e era psicologicamente torturada e inquirida sobre os seus possíveis arrependimentos por uma horda de jornalistas. Excitados pela adrenalina do direto, foram incapazes de perceber até que ponto degradavam uma das mais nobres profissões.

Apesar do voyeurismo ser transversal nas suas vítimas, e até ter uma especial apetência por “famosos” – sobretudo os que aceitam entrar na perigosa carreira do exibicionismo da vida privada –, as coisas vão sempre mais longe quando chegam à porta dos mais pobres, sem qualquer defesa perante a máquina comercial do entretenimento da “vida real” que se trasveste de jornalismo. Não é jornalismo, e por isso não devia ter direito à proteção que damos à função de informar. Para ter direitos é preciso ter deveres - e está na altura de começarmos a fazer este debate a sério. Começando por quem trabalha no meio.

Neste tema, não há muito que enganar. Está tudo no código deontológico dos jornalistas:

“O jornalista deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor.”

“O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade, dignidade e responsabilidade das pessoas envolvidas.”

“O jornalista deve respeitar a privacidade dos cidadãos exceto quando estiver em causa o interesse público ou a conduta do indivíduo contradiga, manifestamente, valores e princípios que publicamente defende.”

“O jornalista deve combater e a censura e o sensacionalismo”.

No meio da orgia de exploração dos mais fracos, uma das suas principais promotoras (seria injusto para todos os que fizeram iguais figuras nomeá-la) disse que, e cito de cor, “este é o momento de Jéssica, que deixem ao menos que ela tenha este momento de paz”. Disse-o em frente à porta da igreja, onde decorria o velório que profanava. Ao mesmo tempo, condenava o Tribunal de Menores, a CPCJ, a segurança social. Se a função do jornalista fosse julgar, faltaria autoridade a todos os que se prestaram a isto. Se estivessem no lugar de qualquer um dos responsáveis que tenha falhado, também falhariam, como falham na sua função de informar.

São os jornalistas que têm de pôr fim a este contínuo atentado aos direitos de cidadania levado a cabo em nome de um negócio que instrumentaliza o jornalismo para funções que não são as suas. A transformação desta profissão numa forma de lucrar com a dor dos mais desprotegidos está a tornar o jornalismo numa atividade degenerada, vergonhosa e rasteira. Não é mau jornalismo, é um ataque ao jornalismo. Que, por atentar contra outros direitos essenciais dos cidadãos, põe em risco a defesa da liberdade de imprensa.»

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28.6.22

Transportes noutros mundos (1)

 


Fiordes vistos do 15º andar de um navio. 
Doubtful Sound. Nova Zelândia (2017).
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Isto vai, camaradas

 


Ontem descobri a Anitta, hoje já fiquei a saber que existe a Prozis e que vai por lá uma tempestade que mete fuga de influencers e outros dramas. Que seria de mim sem as redes sociais!

O tempo nunca mais aquece para começarmos a ter reportagens sobre intoxicações com bacalhau à Brás.
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Do passado

 


(Não é tanto o passado que entristece, é o que acabou.)
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Encontrar os culpados

 


«Quando as coisas não correm bem, precisamos de encontrar culpados. Temos muito para onde nos virar agora. O mundo está profícuo em más notícias e na própria banalização do mal.

É um processo normalmente pouco isento. Cada um encontra os culpados que mais convêm à sua visão do mundo e, já agora, os que mais lhes convêm pessoalmente. Li há pouco que Pedro Sánchez, presidente do Governo da Espanha, perante a tragédia que matou 37 emigrantes em Melilla, afirmou que os culpados são os grupos/máfias que se dedicam ao tráfico humano.

É certo que estes têm responsabilidades. Mas é ofensivo elogiar as autoridades espanholas e marroquinas, condenando apenas a atuação destas máfias. Fica o assunto encerrado. Pois que fique em paz quem se conforma com essa análise de um problema que parece irresolúvel e que vai continuar a matar pessoas. Pessoas que estão mesmo dispostas a morrer para tentar uma vida melhor.

Para termos uma ideia do nível de sofrimento em que vivem, basta pensar nos riscos que estão dispostas a correr, muitas vezes trazendo consigo crianças. Apesar de não serem tratadas dessa forma, são pessoas iguais a nós; que amam igualmente os seus filhos. O que nos faria iniciar uma viagem com um filho nos braços, sabendo que não conseguíamos garantir a sua segurança?

A primeira vez que ouvi falar neste assunto foi numa conferência do Gonçalo Ribeiro Telles há quase vinte anos. O GRT previu o que temos vindo a assistir. Dizia que o nosso egoísmo nos impedia de ver a situação de miséria extrema em que viviam milhões de pessoas e que, mesmo que não fosse pelas razões altruístas de as querermos ajudar, devíamos fazê-lo pelas egoístas: é que um dia viriam em debandada para a Europa e o Mediterrâneo seria um cemitério se não os deixássemos entrar. Nisto tinha razão.

Temos à porta um cemitério. Podemos sacudir a água do capote, encontrar uns culpados que não nos comprometam e que nos excluam do problema. Mas a morte vai continuar.

O papel das autoridades marroquinas e espanholas não pode ser elogiado. Têm em mãos um problema que ninguém queria ter mas a vida é assim: irredutível. Não vai passar. Não se adivinham soluções fáceis e instantâneas, mas ninguém pode compactuar com a forma como isto está a ser gerido. O que estas autoridades estão a fazer envergonha-nos. E mata vidas, vidas que como todas as outras, têm o mesmo valor que as nossas.

E isto deve ser perguntado: será que a maioria dos portugueses reconhece na vida daquelas pessoas o mesmo valor que nas suas? Será que sabem que aquelas crianças são iguais às nossas? Porque somos tolerantes com esta chacina?

GRT dizia que a solução era ajudar as pessoas nos seus países de origem. Na altura, e antes de todos os conflitos que viemos a conhecer, preocupavam-no as dificuldades que tinham com a escassez de água e a ausência de desenvolvimento nas técnicas agrícolas. Também Angela Merkel, que revelou alguma coragem e humanidade na forma como lidou com o problema dos refugiados, falou na importância de melhorar as condições de vida destas pessoas mais perto dos seus países de origem. E acolheu muitos.

Escolho duas pessoas com as quais não me identifico politicamente. Ribeiro Telles foi também um grande ambientalista, talvez o maior, contrariando a ideia de que o verdadeiro ambientalismo só pode vir da esquerda. Lá está; devemos ser justos. E devemos ter essa preocupação acrescida quando as coisas não estão a correr bem. É impossível viver bem num mundo onde pessoas desesperadas morrem como tordos.

A União Europeia tem sido desastrosa em todas as intervenções que fez nestes países. Mesmo quando segue esta corrente de pensamento. A relação de desigualdade que está sempre implícita não ajuda. O Regulamento de Dublin marcou o princípio da não reciprocidade que caracteriza as relações entre os europeus e estes cidadãos. Somos todos cúmplices desta hipocrisia.

Certo é que é vergonhoso o que aconteceu e vergonhosas são também as palavras de Pedro Sánchez. Não vou dizer que é ele o culpado. De culpados estamos nós cheios. Escrevo quando também dos Estados Unidos chegam notícias miseráveis. E novamente neste caso os culpados amontoam-se: até a esquerda ativista, que não se conseguiu decidir entre Trump e Hillary, veio à berlinda. As pessoas ficam mais descansadas quando encontram causas para as coisas e culpados. É pena que não se deem muito ao trabalho nessa averiguação. É também graças a estes simplismos que o mundo não melhora.»

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27.6.22

Mas também há vírgulas assassinas

 

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Lorca

 

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Anita só há uma!

 


E só com um «t».
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O que estará Deus a pensar?

 


«O mundo está a ficar muito perigoso. Estão de volta os nacionalismos, muitos deles a reclamar o regresso de fronteiras que tínhamos esquecido, e está de volta a intolerância religiosa, alimentada por uma ignorância que é pasto para os fanáticos nas redes sociais e na vida real. A liberdade de decidir sobre a própria vida e o próprio corpo, até nos aspetos em que essas decisões em nada implicam com a vida dos outros, está a ser posta em causa pelos que não são capazes sequer de distinguir um direito de uma obrigação.

Talvez fosse bom começar por aí. O direito de duas pessoas do mesmo sexo casarem não obriga todos os homossexuais a casar. Nem sequer obriga ninguém a ir ao casamento, caso seja convidado. O direito à eutanásia não obriga todas as pessoas a optarem pelo suicídio medicamente assistido quando adoecem gravemente na velhice. O direito das pessoas transgénero assumirem uma identidade de género diferente do sexo com que nasceram não as obriga a mudar de sexo. O direito de todas as mulheres, em determinadas circunstâncias, interromperem voluntariamente a gravidez, não as obriga a abortar em nenhuma circunstância. Os que não são capazes de distinguir as coisas mais básicas, julgam-se capazes de decidir em nome de todos e fazem-no, tantas vezes, em nome de Deus. Estando certos de que Ele existe, arrogam-se o direito de garantir que Ele quer o que eles querem, mesmo quando o que eles querem faz dele um Deus violento, desumano e, portanto, desaconselhável.

Vejamos um exemplo flagrante de desconexão entre as criaturas e o criador. O direito a interromper a gravidez quando ela acontece fruto de uma violação não obriga todas as mulheres violadas a abortar. Mesmo nesta circunstância hedionda, as mulheres têm o direito de levar a gravidez até ao fim se esse for o seu desejo. Querer obrigar alguém a prolongar a gravidez nestas circunstâncias, como tentou fazer uma juíza no Brasil com uma criança de 11 anos ou querem fazer dirigentes políticos em vários Estados na América, é inaceitável. O que estará Deus a pensar destes crentes, nesta altura? Ninguém tem a resposta, mas eu arrisco dizer que não foi para esta gente que Ele desenhou o paraíso.

É provável que Deus esteja descrente nos seus crentes, divididos pelos profetas em que acreditam, criando a partir daí diferentes religiões monoteístas, onde ao longo dos séculos os homens se tornaram mais importantes que o Deus em que acreditam e, por isso, se subordinam a diferentes chefias. Foi pelos homens e nunca por Deus que os cristãos se dividiram em protestantes, ortodoxos e católicos, ou os muçulmanos distinguem entre xiitas e sunitas. E é em nome de religiões lideradas toda a vida por homens e que sempre trataram mal as mulheres, e que as remeteram para papéis secundários e submissos, que insistem em querer decidir o que elas podem ou não podem fazer com o seu corpo. O que estará Deus a pensar desta gente?»

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26.6.22

Salvador Allende nasceu num 26 de Junho

 


… há 114 anos.

O seu último discurso:



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25.06.1903 – George Orwell

 


George Orwell (pseudónimo de Eric Arthur Blair) faria hoje 119 anos. Nasceu em Motihari, nas Índias Orientais, onde ninguém deixa de reivindicar o facto quando a voz corrente o considera oriundo de Myanmar – reivindicação que ouvi mais de uma vez, quando andei por lá perto, a caminho do Butão. Mas, de facto, foi só em 1922 que Orwell chegou a Mandalay, em Burma, para frequentar a escola que o tornaria membro da Polícia Imperial Indiana naquela então colónia britânica. Manteve-se nessa função até 1927, ano em que contraiu dengue e regressou a Inglaterra.

Mais conhecida é o resto da vida que se seguiu como escritor, a participação na resistência durante a Guerra Civil de Espanha e a morte por tuberculose, em Londres, com 46 anos.

Uma citação bem actual, entre muitas possíveis:

«Uma sociedade torna-se totalitária quando a respectiva estrutura se torna manifestamente artificial, isto é, quando a respectiva classe dirigente perdeu a sua função mas consegue manter-se agarrada ao poder pela força ou pelo embuste. Uma sociedade assim, por muito tempo que persista, nunca pode dar-se ao luxo de se tornar tolerante ou intelectualmente estável. (…) Porém, para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não é obrigatório que vivamos num país totalitário.» (Livros & Cigarros)

Uma curta entrevista:


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Maria Velho da Costa

 


Chegaria hoje aos 84.
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