21.2.24

Cinco momentos que marcam a derrota de Montenegro

 


«Pedro Nuno Santos vinha de uma série de debates em que esteve aquém das expetativas, Luís Montenegro vinha de uma série de debates em que esteve além das expetativas. Por isso, para o debate de segunda-feira as posições tinham-se invertido: esperava-se mais de Montenegro. Só que o que aconteceu ali foi mais do que a superação ou frustração de expetativas.

Num debate onde, estranhamente, os moderadores não trouxeram o tema da justiça quando um juiz de instrução torpedeou mais um pouco o processo que nos trouxe a estas eleições, cada candidato esteve melhor nuns temas do que noutros, até porque um deles está num lugar que só foi ocupado por Ferro Rodrigues e Fernando Nogueira – o de ser incumbente sem o ser. Havia pastas onde empatar seria o melhor que Pedro Nuno Santos poderia conseguir. Perder claramente, perdeu no debate sobre o Serviço Nacional de Saúde. Pelo contrário, venceu claramente no terreno da AD – o choque fiscal. Quando falo de vitória e derrota não estou a falar de performance. Estou a falar de argumentos substantivos.

Mas há cinco momentos que explicam porque o debate de ontem esteve longe de ser equilibrado. Pode tê-lo sindo quando seguiu a velocidade de cruzeiro. Mas em tudo o que deixou marca política, foi Pedro Nuno Santos que ficou a ganhar e Luís Montenegro a perder. E em nenhum dos casos estiveram em causa truques, interrupções ou rasteiras. Mas traços políticos. Não foi a forma, foi o conteúdo.

1. UMA QUESTÃO DE SENTIDO DE ESTADO

O debate começa com um caso que não estava previsto: a deslocação de uma manifestação de polícias marcada para o Terreiro do Paço, local comunicado às autoridades, para o Capitólio, no Parque Mayer, local para onde nunca seria autorizada. Os polícias bloquearam e cercam o acesso ao espaço do debate. Mas muito mais importante: violaram a lei, de que são agentes. Perante isto, é inacreditável que haja quem trate aquela manifestação como se fosse de qualquer outro grupo profissional.

Não houve assessores, conselheiros ou “media training” para preparar a reação àquele momento. Houve instinto político (no que a expressão tem de mais relevante) de cada um dos candidatos. E, ao contrário de Luís Montenegro, Pedro Nuno Santos percebeu a gravidade do que estava a acontecer e que quem se candidata a primeiro-ministro candidata-se a representar a autoridade do Estado. Sobretudo perante os que, tendo o dever de exercer essa autoridade nas ruas, a subvertam. E disse: “Não se negoceia sob coação. Disponibilidade total para chegarmos a acordo. Mas sempre com respeito pela ordem”.

Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro não se candidatam a secretários de Estado. Devem estar tecnicamente preparados, mas, para quem percebe que a democracia não se substitui pela tecnocracia (que, de qualquer das formas, nenhum deles representa), o mais relevante é a preparação política. E se há momento em que essa preparação política foi testada, na simulação do que pode acontecer a um primeiro-ministro que tem de agir perante pressão em casos concretos e inesperados, foi aquele.

Pedro Nuno Santos não se limitou a falar de forma mais clara a um eleitorado institucionalista – que a direita está a abandonar num crescente abandalhamento do seu discurso –, esteve, logo no início do debate, à altura do que se espera de quem tenciona dirigir o Estado. Luís Montenegro fez o oposto do que fizera, de forma preparada, com Ventura, e preferiu piscar o olho aos votos dos polícias a mostrar que tipo de primeiro-ministro poderia vir a ser.

2. UMA QUESTÃO DE CLAREZA

Há semanas que se exige que Pedro Nuno Santos clarifique se o PS viabiliza um governo minoritário da AD, caso esta vença. Do meu lado, tenho sido claro no que considero ser mau para a democracia: que PS e PSD desistam de liderar a oposição, entregando essa função ao Chega e restringindo a escolha política entre os democratas e os seus inimigos. Voltarei ao tema dos blocos centrais informais brevemente. Mas à pergunta, Pedro Nuno Santos foi de uma clareza cirúrgica. Que não inviabiliza a tomada de posse de um governo de direita se não houver outra alternativa. Que não criará um impasse num momento em que o parlamento não pode ser dissolvido. E que, chegado o momento do Orçamento de Estado, não contem com ele para entregar a oposição ao Chega e servir para apoiar um rumo de que discorda frontalmente.

Luís Montenegro tinha prometido, nos últimos dias, voltar ao tema da governabilidade. Preparava-se para responsabilizar o PS por alianças da direita com o Chega. Mas, como se viu, não se preparava para clarificar, ele próprio, a sua posição sobre um governo no PS, alimentando um desequilíbrio de exigência que a comunicação social tem aceitado. A pergunta que tem de ser feita a Montenegro é simples: o que nos está a esconder? Uma pergunta especialmente relevante quando temos o líder do Chega a dizer que tem a garantia de gente no PSD de que, com ou sem Montenegro, a direita governará. Alguma coisa explicará estes insistentes silêncios de Montenegro e os recuos de Nuno Melo e Pedro Duarte. Supeito que também regressarei a este tema.

3. UMA QUESTÃO DE PREPARAÇÃO

Usando os episódios que levaram à demissão de Pedro Nuno Santos, a direita tem baseado a sua campanha na ideia de que o candidato do PS é impreparado. Não foi isso que se notou neste debate, mas nem sequer é esse o meu argumento, que seria sempre de uma enorme subjetividade. Até porque a exibição da preparação, em debates, consegue-se direcionando a discussão para o assunto para o qual os candidatos se sentem mais à vontade. Só que houve um deslize muito preocupante, tendo em conta o que estava em discussão.

O momento resultou de uma intervenção de Pedro Nuno Santos, quanto este disse que, na proposta fiscal da AD, a perda acumulada seria, numa legislatura, de 16,5 mil milhões de euros (acumulando todos os cortes até chegar à velocidade de cruzeiro, em 2027). Luís Montenegro negou com veemência, dizendo que seria de cinco mil milhões (noutro momento disse que seria de três), porque é dinheiro que só se perde de uma vez.

Se olharmos para os polígrafos, já todos os candidatos mentiram ou se enganaram em praticamente todos os debates. Mas o que estava em causa não era um tema qualquer. É a bala de prata da AD para a economia, na qual se baseia boa parte do seu programa, que aumenta a despesa. Não ter consciência, nem sequer aproximada, da dimensão do rombo nas contas públicas e da perenidade desse rombo, achando que ele só se sente uma vez, é dar um tiro no seu próprio porta-aviões. Não percebo como pode este episódio ser tratado como mera distração, quando, ainda por cima, houve insistência, dizendo que o efeito da descida de impostos é imputado ao ano em que se verifica e não se repete.

4. UMA QUESTÃO DE HONESTIDADE

Luís Montenegro já tinha dito que, “nos últimos anos, o único partido e único governo que cortou pensões foi o do PS” e que, com Passos Coelho, o “corte que houve e que salvaguardou todas as pensões mais baixas foi inscrito no memorando negociado pelo PS". A narrativa é falsa, como já escrevi aqui. Sim, Sócrates foi o primeiro a cortar as pensões. Sim, havia novos cortes inscritos no memorando. Mas Passos Coelho introduziu ainda mais cortes e em escalões de rendimentos ainda mais baixos.

Talvez embalado pela complacência com que o comentário (não tanto o jornalismo) tratou esta forma expedita de se “reconciliar” com os reformados, Luís Montenegro deu um passo mais perigoso, tentando vender a ideia de que o governo de Costa cortou mil milhões de euros aos reformados e que só depois recuou e repôs o que tinha cortado.

Devo ter estado entre os comentadores mais ativos na denúncia do truque de Costa que, se tivesse acontecido, levaria a um corte nas pensões futuras: Costa fazia uma atualização das pensões de 4,5% (em vez dos 7% ou 8% que a lei impunha, em 2023) que seria tratada como um adiantamento que não contaria para a base a partir da qual se viriam a fazer as atualizações subsequentes. Voltei a ser vocal, e dessa vez com menos companhia, quando a ministra da Segurança Social cometeu a enorme irresponsabilidade de acenar com uma falsa insustentabilidade da segurança social, fragilizando a confiança no sistema para justificar este truque. Mas isto não muda os factos: não só António Costa acabou mesmo por cumprir a lei, como nem sequer repôs o que tinha retirado, como disse Montenegro, porque, talvez graças à pressão política, não chegou a retirar coisa alguma.

O problema deste momento é que os reformados, que acabam de ter um aumento simpático e não perderem, de facto, um cêntimo de reforma com este governo, puderam assistir ao vivo como se constrói uma falsa narrativa, contrariada pela sua própria experiência. Como Pedro Nuno Santos rapidamente aproveitou para assinalar.

4. UMA QUESTÃO DE TATO POLÍTICO

Dos cinco episódios, o menos relevante para a generalidade das pessoas terá sido o que envolveu o nome de dois ex-primeiros-ministros. Mas não deixa de ter impacto político interno. Quando, num momento de guerrilha política que nada acrescentava ao debate (ao contrário de outros, mesmo que crispados), Pedro Nuno Santos decidiu ir buscar a ausência de Pedro Passos Coelho na campanha de Montenegro, este respondeu de forma automática, com a cartada de José Sócrates, que já nem é militante do PS.

Sou dos que acham que, ao contrário do que pensa a direita mediática, Pedro Passos Coelho é um ativo tóxico do ponto de vista eleitoral. E, ao contrário de Sócrates, não faz apenas parte do passado. É um futuro que paira sobre o PSD. Mas, por mais crítico que eu seja de Passos, não há equivalência moral entre ele e Sócrates. E foi Montenegro que resolveu trocar os dois cromos, ofendendo, com isso, o seu próprio partido.

Sem analisarmos a energia com Pedro Nuno Santos (por vezes até exagerada) e os momentos mais altos e baixos de cada um no ataque e na defesa de cada proposta, estes cinco episódios chegariam para decidir um debate. Porque são politicamente sintomáticos. E é isso que fica para além do jogo do dia. Como se viu nas tentativas de Montenegro conter os danos com saiu do Capitólio.»

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20.2.24

Alexandra Leitão. O programa do PS é de ruptura ou de continuidade?

 

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Cá vamos

 

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José Medeiros Ferreira

 


Chegaria hoje aos 82.

Já divulguei uma parte deste «post» que publicou no seu blogue (e também num jornal) em Abril de 2011, mas hoje fica aqui na íntegra. Sublinho: escrito há quase treze anos e não perdeu a característica de uma espécie de premonição, arte em que JMF foi mestre.

«UM APELO ESPERANÇADO

Nesta altura, o país tem muitas dúvidas. E uma certeza: vença este PS ou o PSD, prosseguirá a austeridade que leva a mais austeridade, o PEC IV, V, N. Será inevitável? A última coisa que apetece é acrescentar mais crise. Mas, além da financeira, da economica- social, da dívida soberana, da Europa, existe a crise da esquerda. Do seu projecto. Daí que essa ala não tenha impedido nem as outras crises, nem que aqueles que as provocaram lucrem agora com elas.

Logo, ao PCP, ao BE, a muitos socialistas, sindicalistas, independentes e à esquerda órfã, a que continua não representada, não basta continuar a gritar que vem lá o Lobo. Devem juntar-se e, a partir das propostas já avançadas e outras que surjam, criar plataformas de compromisso. Essa base, articulada com a contestação a nível europeu, pode até apresentar ao PS um conjunto de condições mínimas para uma maioria de esquerda parlamentar. O actual PS nunca a aceitará? Provável. Mas nada dura sempre, o Largo do Rato não poderia continuar a vitimizar-se, o ónus da recusa seria seu e a semente ficaria lançada. Sobretudo, numas eleições que serão crispadas e profundamente marcadas pelo medo e pela lógica do voto útil, essa esquerda criadora mostraria que existe alternativa à barbárie. Essa mesmo que, de outro modo, triunfará.»

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Um jogo com nervos e substância

 


«O equilíbrio das sondagens, os anúncios de um combate decisivo nas televisões ou a manifestação dos polícias à porta do Capitólio tinham criado um natural clima de tensão que só por milagre não contaminaria o debate entre Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro desta segunda-feira. A truculência das interrupções que se multiplicaram ao longo de 79 minutos expôs essa tensão e criou um ruído excessivo e incómodo. Mas seria uma enorme injustiça dizer que o debate foi tempo perdido. Não foi porque, no essencial, foi possível distinguir os perfis dos dois candidatos a primeiro-ministro, bem como os programas que os separam.

Pedro Nuno Santos mostrou finalmente um pouco do seu nervo. Por vezes de mais. Luís Montenegro confirmou que as boas prestações em debates anteriores não foram por acaso. Mas foi mais vulnerável ao jogo de nervos que o seu opositor. Ambos se interromperam vezes de mais, mas a dado momento parecia que o líder do PSD estava a entrar em transe.

Pedro Nuno Santos entrou em grande, classificando com as palavras certas o que estava a acontecer lá fora: uma coação que ameaça a garantia da ordem pública. Montenegro ficou-se por uma declaração anódina. Daí para a frente, Montenegro explorou as vantagens de ter uma folha em branco (com excepção das heranças da troika) e Pedro Nuno Santos revelou as dificuldades em defender os legados do PS na Saúde, na Educação ou na Habitação.

Pedro Nuno Santos foi mais eficaz a demolir o programa económico do PSD exactamente pela mesma razão: a economia e as finanças públicas são, neste momento, o ás de trunfo dos socialistas. O líder do PS foi melhor no curto esclarecimento que fez sobre os cenários pós-eleitorais. Mas, como seria de esperar, teve dificuldades em dizer que vai mudar as políticas públicas essenciais depois de ter passado sete anos num Governo que as deixou avolumar.

Para os militantes, é possível dizer que os seus líderes estiveram bem. Para os eleitores mais à esquerda ou à direita, talvez fiquem os dois mal na fotografia. Para os indecisos, porém, o debate pode ter sido esclarecedor. Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro revelam estilos diferentes e puderam mostrar que os seus programas, mesmo tocando-se em questões essenciais, são diferentes e obedecem a prioridades diferentes. Não foi assim tão mau.»

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19.2.24

Retrosarias

 


A "Retrosaria Bijou" é uma loja Arte Nova, situada na Rua da Conceição, em Lisboa. 1910.

Daqui.
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19.02.1997 – O dia em que morreu Rómulo de Carvalho (António Gedeão)

 


Rómulo de Carvalho (António Gedeão) foi um grande professor de Química, estudioso e grande divulgador da História da Ciência, que os seus alunos do Liceu Pedro Nunes e do Liceu Camões nunca esqueceram.

Também poeta, autor de numerosos livros e do texto que deu vida à inesquecível canção Pedra Filosofal. Um pretexto como qualquer outro para a ouvir de novo, com a beleza de sempre e oportuna, hoje como em 1969, quando Manuel Freire musicou o poema publicado em Movimento Perpétuo (1956).



Fica também este manuscrito com parte do poema «Como será estar contente», publicado em Máquina de Fogo, 1960:


Lançar os olhos em volta, / moderado e complacente, / e tratar com toda a gente / sem tristeza nem revolta? / Sentir-se um homem feliz, / satisfeito com o que sente, / com o que pensa e com o que diz? / Como será estar contente?

Deve haver qualquer mecânica, / qualquer retesada mola / que se solta e desenrola / no próprio instante preciso, / para que um homem de carne, / de olhos pregados no rosto, / possa olhar e rir com gosto / sem estranhar o som do riso. (...)

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Nova Sondagem

 


ESQUERDA (sem PAN) = 44,5%
DIREITA (sem Chega nem PAN) = 32,6%


(Clicar na imagem para ver maior.)

Daqui.
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Montenegro e o corte das pensões: como rescrever a história

 


«Vencedor do óscar de melhor documentário de 2011, Inside Job fala-nos da corrupção moral, política e económica que nos levou à crise financeira de 2008. Especialistas universitários revelaram-se uma peça chave na construção de um modelo de desregulação bancária que nos trouxe gigantes financeiros “demasiado grandes para deixar falir”. Tão ou mais importante do que o caminho ideológico que foi traçado até ao crash bolsista, foi o movimento seguinte, reescrevendo a história da maior crise financeira do século. Três anos depois, o narrador finaliza o documentário antecipando que as vítimas passariam a ser os culpados e os responsáveis sairiam incólumes. Assim aconteceu.

Com o estimável auxilio de um sem número de académicos, os mais importantes dos quais com números martelados e comprovadamente falsos, os anos seguintes foram o da culpabilização dos Estados pelo despesismo social (com que tentaram minar as consequências devastadoras da crise financeira na economia). Do crash da banca passámos à crise das dívidas, da crise das dívidas ao despesismo do Estado e daí para o moralismo sobre os povos do sul da Europa, que “viviam acima das suas possibilidades” e gastavam o dinheiro “em vinho e mulheres”.

A história é escrita pelos vencedores e, com a máquina ideológica permitida por um mundo académico ligado ao sector financeiro e um exército de comentadores que defendem o status quo económico, tem sido possível ir reescrevendo a história das crises financeiras e económicas.

Mas há limites e um está a ser repetidamente atravessado por Luís Montenegro. Por duas vezes, uma no debate com o líder do PCP, outra na apresentação do programa eleitoral da AD, afirmou que “nos últimos anos, o único partido e único governo que cortou pensões em Portugal foi o do Partido Socialista”. No debate com Paulo Raimundo precisou o seu ponto, garantindo que, no governo de Passos Coelho, o “corte que houve e que salvaguardou todas as pensões mais baixas foi inscrito no memorando de entendimento negociado pelo PS".

É verdade que Sócrates foi o primeiro a cortar as pensões. É verdade que havia mais cortes inscritos no memorando de entendimento. É mentira que Passos Coelho não tenha introduzido novos cortes, e em escalões de rendimentos muito mais baixos. Como a memória parece faltar aos que não estão entre as centenas de milhares de visados que ainda se lembram do que lhes aconteceu, vale a pena recapitular, com a ajuda de dois excelentes trabalhos jornalísticos do Público e Observador.

O Orçamento do Estado para 2011, na aproximação acelerada para a troika que foram os sucessivos PEC, estabelecia uma Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES), que cortava 10% do valor acima de 5000 euros às pensões mais elevadas. Congelava ainda a atualização de todas as pensões do regime geral e da Caixa Geral de Aposentações. Apenas quatro meses depois, no memorando assinado com a troika, ficou estipulado que o corte de pensões devia acompanhar o efetuado aos funcionários públicos, reduzindo o valor das pensões acima de 1500 euros por mês. Uma negociação, já agora, que a direita se vangloriou de “ser essencialmente influenciada pelo PSD”.

Se no primeiro ano de mandato, Passos Coelho descongelou as atualizações das pensões mínimas, no segundo tudo mudou. A CES passou a representar um corte de 25% no montante que excede os 5030,64 euros e 50% na parcela acima de 7545,96 euros. Mas, acima de tudo, em junho desse ano, cortou-se o pagamento do subsídio de férias e de Natal a todos os que recebiam pensões acima de 1100 euros, reduzindo-se estes subsídios a quem recebia entre os 600 e os 1100 euros.

Em 2012, os juízes do Tribunal Constitucional chumbam os cortes, mas permitiram que estes se mantivessem até ao fim desse ano. O acórdão é bem claro: “A cumulação das medidas da Lei do OE 2011, que são mantidas, com aquelas que são objeto das normas a que se reporta o presente requerimento, leva a que uma parte das pessoas atingidas possa perder até cerca de 1/4 dos montantes anuais das suas retribuições e das pensões ou reformas, e isto pelo menos em dois anos consecutivos, em contraste com o máximo de 10% que o Tribunal Constitucional estimou no Acórdão; em todos os casos, o valor total agora retirado a cada um dos atingidos representa, no mínimo, um múltiplo do que acontecia no OE anterior”.

Nada que demovesse a fúria restritiva do Governo que, no ano seguinte, defendeu o alargamento da Contribuição Especial de Solidariedade para pensões acima de 1350 euros, com um corte entre 3,5% e 10%. Repare-se que o que era uma contribuição para pensões acima de 5000 euros, no Governo Sócrates e no memorando, passou a abranger pessoas que recebiam quase quatro vezes menos. Não satisfeitos, PSD e CDS resolveram reformular os cortes dos subsídios de férias e de Natal chumbados pelo TC, dirigindo-os agora “a quem recebe pensões de valor superior a 1100 euros, que tem uma suspensão de 90% do subsídio de férias, e quem recebe entre 600 e 1100 euros também é afectado por um corte nesta prestação”. Estes novos cortes também foram chumbados pelo Tribunal Constitucional que, desta vez, obrigou o Governo a devolvê-los.

Atalhando, que a listagem de cortes e tentativa de diminuição das reformas é quase interminável, em 2013 o Governo tentou negociar com os sindicatos a convergência das pensões da Caixa Geral de Aposentações com a Segurança Social. A principal consequência, que tentou aplicar, era o corte de 10% de todas as pensões da função pública acima de 600 euros ilíquidos. Uma medida estrutural, inscrita definitivamente, e que não se encontrava circunscrita ao período de assistência internacional. Mais uma medida recusada pelo Tribunal Constitucional, considerando que se tratava de uma proposta que “visava apenas a consolidação do lado da despesa”.

Chegamos a 2014 e, com mais um ano, PSD e CDS tentam agora cortar as pensões de sobrevivência do setor público e privado para quem recebia mais de 2000 euros, numa poupança orçamental de 100 milhões de euros, pretensão novamente recusada pelo Tribunal Constitucional. Para compensar o valor negado pelo TC, ao chumbar o corte de 10% nas pensões da função pública, a CES foi mais uma vez reformulada, passando a abranger pensões acima de 1000 euros (recorde-se mais uma vez, que, no memorando, eram apenas acima de 5000 euros).

Nesse mesmo ano, já fora do período de emergência da troika, Passos Coelho revela a sua “solução duradoura” para as pensões, defendendo a criação de uma “contribuição de solidariedade (que substituirá a CES) que corta entre 2% e 3,5% nas pensões acima de 1000 euros, e pelo aumento da taxa normal do IVA (23% para 23,25%) e dos descontos dos trabalhadores para a Segurança Social (de 11% para 11,2%). Esta medida, atente-se, nada a tem a ver com o memorando, ou com a troika, ou com qualquer período de emergência. Era a visão de Passos Coelho e Paulo Portas para o futuro da Segurança Social e para garantir, diziam, a sua sustentabilidade.

A passos largos para as eleições, o Governo desiste de novas mexidas nas reformas até ter um entendimento com o PS, mas ainda vai a tempo de inscrever, em abril de 2015, uma poupança de 600 milhões de euros com a reforma dos sistemas de pensões a partir do ano seguinte.

Luís Montenegro foi líder parlamentar do PSD durante estes anos. Todos estes documentos passaram pela sua secretária e a sua aprovação dependeu do sentido de voto por si decidido. Sabe que mente. E o que aconteceu, como se vê, é simples. O Governo Passos Coelho pegou em cortes extraordinários em pensões acima de 5000 euros e foi descendo por ali abaixo até a contribuição solidária se aplicar a quem ganhava pensões de 1000 euros. O mesmo acontecendo nos cortes aos pensionistas, originalmente pensados para quem recebia mais de 1500 euros, e que tentaram abranger quem não levava mais de 600 euros para casa. Com o efeito cumulativo dos cortes e subsídios de férias e Natal, como lembrou o TC, algumas dessas pessoas perderam 25% do seu rendimento.

Montenegro sabe que mente, mas percebe o dano eleitoral que estas medidas implicaram junto do eleitorado mais velho. Confia no efeito anestesiador do plano inclinado do comentário político e televisivo. Apesar da falsidade descarada, que centenas de milhares de pessoas podem testemunhar, haverá sempre quem defenda a sua mentira se ela for repetida muitas vezes com convicção, até se tornar verdade. Esperemos que não a tente repetir no debate de hoje.»

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18.2.24

Tão a propósito!

 

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Governo de esquerda com políticas de direita?

 

«Na próxima legislatura, podemos viver a intrigante situação de um sistema com dois Governos: um, de direita, não formalmente investido, mas efetivo, sediado no Palácio de São Bento, que molda o conteúdo das políticas; outro, de esquerda, dirigido a partir da residência oficial do primeiro-ministro, impedido de qualquer política própria, embrenhado no dilema de executar as políticas da direita ou demitir-se.»

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18.02.1932 – Miloš Forman

 


Miloš Forman, o cineasta nascido checo, depois também norte-americano, chegaria hoje aos 92. Teve uma infância complicada com o pai, judeu, preso pela Gestapo quando tinha apenas 8 anos e levado para Buchenwald onde veio a morrer em 1944, um ano depois de a mãe ter tido a mesma sorte em Auschwitz. Durante a invasão da Checoslováquia, em 1968, Miloš partiu para os Estados Unidos e em 1977 adquiriu a sua segunda nacionalidade.

Pretexto para recordar três filmes que nunca esqueci: «Amadeus», «Voando sobre um ninho de cucos» e «O baile dos bombeiros». AQUI.
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