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9.1.26

09.01.1908 – Simone de Beauvoir

 


Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir chegaria hoje a uns improváveis 118 anos.

Tudo já foi escrito sobre esta escritora, intelectual, activista política e feminista, mas vale talvez a pena recordar o papel decisivo de uma das suas obras – Le Deuxième Sexe –, publicada em 1949. Esteve longe de ser um manifesto militante ou arauto de movimentos feministas que, em França, só viriam a surgir quase duas décadas mais tarde, já que as mentalidades não estavam preparadas para a problemática da libertação da mulher tal como Simone de Beauvoir a abordou, nem para a crueza da sua linguagem.

As reacções não se fizeram esperar, tanto à esquerda (onde o problema da mulher estava fora de todas as listas de prioridades), como, naturalmente, à direita. François Mauriac escreveu: «Nous avons littérairement atteint les limites de l’abject», Albert Camus acusou Beauvoir de «déshonorer le mâle français».

Para a compreensão e a consagração da obra foi decisivo o sucesso nos Estados Unidos, onde foi publicada em 1953. O movimento feminista, em que Betty Friedman e Kate Millet eram já referências, estava aí suficientemente avançado para a receber. Efeito boomerang: Le Deuxième Sexe «regressou» à Europa no fim da década de 50, com um outro estatuto, quase bíblico, e teve a partir de então uma longa época de glória.

Simone de Beauvoir nunca provocou grandes empatias e foi sempre objecto de discussões sem fim sobre a sua importância relativa quando comparada com a de Sartre. Mas, goste-se ou não, estava no centro do Olimpo que Paris era então – quando, no Café de Flore, toda a gente vivia envolta em fumo e Juliette Greco cantava «Il n’y a plus d’après».


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3.1.26

Quando os portugueses eram o “Bangladesh” para os franceses

 


«Como a memória é uma coisa muito frágil — entre outras razões, porque ter ou não ter memória é uma questão central da política —, vale a pena revisitar memórias que nos ajudam muito a perceber o que se passa nos nossos dias com a questão da imigração.

O título deste artigo é deliberadamente provocatório, mas a razão por que provoca é conter uma memória incómoda, a do facto de que também os portugueses foram um povo de emigrantes durante grande parte dos últimos 150 anos. E o que acontece hoje aos imigrantes aconteceu connosco há bem pouco tempo. Não foi sempre o mesmo, nem sempre para os mesmos locais de destino, mas com vantagem dos portugueses, por serem brancos e católicos, e não “monhés” e muçulmanos. E também porque o panorama político era diferente e isso moderava de algum modo a hostilidade aos imigrantes. Havia os émulos dos negreiros alentejanos, dos polícias comprados, das redes clandestinas das duas nacionalidades, a de cá e a de lá, mas não havia Trump, nem Musk, nem AfD, nem Vox, nem Chega, com a relevância e força que têm hoje. Havia pieds-noir e retornados, mas moviam-se numa franja percebida pela opinião como radical e minoritária.

Mas muita coisa era comum, a começar pela motivação da emigração — simplesmente viver melhor, quer nos que foram, quer nos que ficaram, unidos pelo laço das remessas para Portugal. Essa é uma motivação digna, que hoje vilipendiamos por todos os meios, porque a maldade, a falta de empatia fazem parte de vários programas políticos e da conversa mesquinha de café que hoje alimenta as redes sociais.

Por isso, convém lembrarmo-nos das centenas de milhares de portugueses que de mala à cabeça atravessaram ilegalmente duas fronteiras para, no nosso exemplo escolhido, a França, chegar aos bidonvilles dos arredores de Paris e trabalhar no duro, principalmente no “batimento”, na construção civil. A inspiração para este artigo foi abrir uma mala, uma valise de carton, que pertence ao espólio de José Carlos Ferreira de Almeida que se encontra no Arquivo Ephemera, um pioneiro do estudo da emigração. Essa mala contém uma das fontes do seu trabalho, muitas centenas de recortes de jornais portugueses, do Algarve a Trás-os-Montes, sobre os anos mais duros da emigração para França, a primeira década dos anos 60.

O que nos dizem esses recortes que, convém não esquecer, passaram na censura? Que há tanta coisa de parecido com tudo o que é o actual discurso anti-imigrantes, um dos mais fortes pontos programáticos do Chega para o Governo, nos últimos anos! Eu disse “parecido”, não disse igual, a começar, porque hoje a situação é pior, há atitudes idênticas, há problemas idênticos, há hostilidades idênticas, há racismo idêntico, mas sempre em pior. A intensidade da hostilidade aos “outros”, fosse aos pobres lavradores portugueses com as mãos encardidas e com os fatos coçados, seja aos jovens escuros com a mochila às costas e que nas sextas-feiras rezam na rua, é hoje, no segundo caso, muito mais forte e popular.

O que é que nos dizem os recortes? Muito de semelhante, que a exploração dos emigrantes começava em Portugal com os engajadores e prolongava-se em França com as redes de habitação e emprego organizadas por franceses. Que passavam as fronteiras “vestidos com dois pares de calças e camisas”, a roupa que se levava. Que se podia ter como habitação “uma carrinha que é quarto de dormir de 17 pessoas”, que havia uma máfia luso-francesa na exploração das barracas, que a emigração clandestina é um terreno ideal para o crime. Que a situação era pior para as mulheres, como de costume:

“Muitas dessas raparigas fogem para França. Sujeitam-se aos dramas da clandestinidade. Entregam-se aos gangster-engajadores. Estes roubam-lhes tudo: dinheiro e honra. Muitas chegam grávidas e despojadas de tudo quanto tinham”, escrevia o Comércio de Portimão, em 1966.

Que a vida na emigração era de “sofrimentos, injustiças e andanças várias”, assentes na exploração do trabalho dos portugueses que ganhavam mais em França do que em Portugal, mas muito abaixo dos franceses para o mesmo trabalho, sem regras, nem horários. Que para obterem um documento esperavam sete horas (hoje é pior), tendo de se deslocar centenas de quilómetros, com a polícia francesa à perna. E que os franceses olhavam para os portugueses como os habituais feios, porcos e maus, que, para espanto dos franceses, assavam uma sardinha em papel de jornal, escreve o Jornal do Comércio. O livro de Nuno Rocha publicado em 1965 tem um título que diz tudo: França, A Emigração Dolorosa.

Esta era a informação que chegava a Portugal, mas, à medida que começa um outro padrão da emigração, o dos exilados que fugiam à guerra, com a crescente presença de organizações da esquerda e o interesse das centrais sindicais e partidos políticos franceses, acumulou-se informação mais concreta sobre as condições de vida e trabalho dos imigrantes, que não tinha censura. Com excepção das organizações da Igreja que acompanhavam os imigrantes nas suas “missões”, as instituições da ditadura, como sempre, pouco faziam pelos emigrantes, que, em vez de irem colonizar Angola e Moçambique, fugiam ilegalmente para França. Mas gostavam das remessas dos emigrantes. É por isso que a falta deliberada de memória esconde a pior das hipocrisias.»


9.9.25

Um epitáfio em Paris

 


«Em França caiu mais um primeiro-ministro. A queda não nasceu de conspirações de bastidores nem de golpes parlamentares. Foi ele próprio a traçar o desfecho, oferecendo-se a uma moção de confiança que não tinha como sobreviver. Sabia que ia perder e perdeu. O discurso, porém, foi feito como se fosse epitáfio. Um homem que sobe à tribuna já de joelhos, mas que escolhe cair de pé.

Disse Bayrou: “A submissão à dívida é a mesma que a submissão às armas”. Palavras densas, carregadas de solenidade, lançadas a uma sala onde já ninguém as podia escutar. O eco perdeu-se logo ao nascer. O que ficou, depois da votação, foi o inventário imediato: quem sucede, quem negocia o Orçamento, quem recolhe a força da jogada. O aviso morreu no mesmo instante em que foi proferido.

O essencial morreu logo ali, no silêncio que se seguiu, porque já não há gramática comum para sustentar um aviso. Quem fala de dívida fala de tempo — de gerações futuras, de riscos acumulados, de responsabilidades invisíveis —, mas a política europeia habituou-se a viver sem esse horizonte. A dívida alonga-se como anestesia, a defesa fica sempre para amanhã, as reformas reduzem-se a slogans. O presente estende-se como uma tenda frágil onde todos cabem por uns instantes, mas que cede à primeira rajada.

Repare-se: em França, a fúria popular não se inflamou tanto pelo défice ou pelos números, mas pelo gesto prosaico de cortar dois feriados. Isso bastou para expor o que se tornou intolerável: a ideia de pagar hoje para preparar o amanhã. Bayrou caiu porque falou a língua do tempo longo num continente que já só reconhece o imediato.

A contradição é gritante. A Europa fala de autonomia estratégica, mas não sabe de onde virá o esforço. Promete gastar mais em defesa porque a guerra na Ucrânia lhe mostrou o preço da dependência, mas não quer admitir que cada euro posto nos tanques será retirado das escolas, dos hospitais, das pensões. Durante décadas, foi possível viver no conforto de delegar essa função nos Estados Unidos, libertando recursos para o seu vasto Estado social. Agora que esse arranjo se esgota, descobre-se o impasse: a ambição de se proteger exige cortes que nenhuma democracia em crise de confiança parece disposta a assumir.

Por isso a moção de Bayrou tem a textura de um epitáfio. O que disse não é novo. O que o tornou insuportável foi a lembrança de que o futuro cobra sempre juros. Mas o Parlamento, ocupado com sucessões e alianças, fechou-se à advertência. A política europeia já não vive na gramática da prudência. Vive na gramática da gestão de humor público. O ciclo é curto, o horizonte estreito, e nesse encurtamento a própria ideia de reforma transformou-se em veneno.

Entretanto, os espaços vazios vão sendo ocupados. A direita radical não cresce tanto por virtude, cresce porque se alimenta desse vazio de reformas, desse medo de pedir sacrifícios. Oferece urgência sem projeto, inimigos fáceis em vez de escolhas difíceis. O círculo fecha-se: o medo de perder poder impede reformas; a ausência de reformas gera raiva; a raiva alimenta populismos; e os populismos tornam reformas ainda mais impossíveis.

O gesto de Bayrou é trágico porque expôs essa espiral sem saída. Caiu não apenas pela sua fragilidade, mas pela fragilidade do tempo que habita. Falou de dívida como quem fala de guerra, de gerações futuras como quem fala de herança moral. Mas encontrou um auditório que só reconhece urgências imediatas: salários, preços, feriados. A tragédia é dupla: a queda de um homem e a queda da própria escuta.»


22.6.25

Paris 1889

 


Ao pé da Torre Eiffel em 1889, podia-se visitar chalés que retractavam a história da habitação em todo o mundo, projectados por Charles Garnier, o arquitecto da Ópera. Aqui, um chalé escandinavo no qual foi recriada a atmosfera de uma casa de pescador.

14.6.25

14.06.1940 - «Les loups sont entrés à Paris»

 


Há 85 anos, o exército alemão entrou em Paris de onde já tinham fugido dois terços da população. 

Como primeiro acto da ocupação foi retirada a bandeira tricolor do Ministério da Marinha e colocada uma com a cruz gamada no cimo do Arco do Triunfo.





30.5.25

30 de Maio, o dia em que acabou o «Maio de 68»

 



Há 57 anos o general de Gaulle pôs fim a um mês verdadeiramente alucinante que a França viveu em 1968. Numa alocução difundida pela rádio, que ficou célebre, dissolveu a Assembleia Nacional e anunciou a realização de eleições antecipadas: contra o perigo do «comunismo totalitário», «La Réplubique n'abdiquera pas!»



Nessa mesma noite, uma gigantesca manifestação de apoio (500.000 pessoas?) invadiu os Campos Elíseos e marcou o desejo de «regresso à ordem», que os resultados das eleições, que tiveram lugar em 23 e 30 de Junho, confirmaram com uma vitória esmagadora da direita.

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6.5.25

06.05.1968 – Barricadas em Paris



 

Na segunda-feira, 6 de Maio, começou a semana das barricadas. A partir das 15:00 horas, registaram-se muitos e graves confrontos entre estudantes e polícia. Neste vídeo, o resumo do que se passou durante os dias que se seguiram, até à reabertura da Sorbonne:



Na véspera, 5 de Maio, Cohn-Bendit, fizera a seguinte declaração: «Nous disons que l'État est partie prenante de l'antagonisme de classe, que l'État représente une classe. La bourgeoisie cherche à préserver une partie des étudiants, futurs cadres de la société. Le pouvoir possède la radio et la télévision, et un parlement à sa main. Nous allons nous expliquer directement dans la rue, nous allons pratiquer une politique de démocratie directe.»
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3.5.25

O 3 de Maio na Sorbonne

 


Foi numa 6ª feira da primeira semana de Maio de 1968 que o mítico movimento estudantil francês, que arrancara em 22 de Março com a ocupação da Universidade de Nanterre e chegara ao Quartier Latin na véspera, 2 de Maio, tomou maiores proporções. Depois de reuniões várias e de confrontos entre grupos de estudantes rivais, o reitor da Sorbonne ordenou a evacuação desta pela polícia e seguiram-se horas de verdadeira batalha campal, com barricadas, cocktails Molotov, pedradas, matracas e gases lacrimogéneos. Tudo resultou em dezenas de feridos e mais de 500 prisões e os distúrbios continuaram nos dias que se seguiram.

Depois, o movimento extravasou para o mundo do trabalho, a nível de operários, de camponeses e do sector terciário, reuniu-se numa gigantesca manifestação em 13 de Maio e esteve na origem de uma longa greve geral incontrolada.

Foram-se acalmando as hostes, foi dissolvida a Assembleia Nacional em 30 de Maio e realizaram-se eleições legislativas (que os gaulistas ganharam por larga maioria) no mês de Junho. Mas nada ficaria na mesma e não só em França.

A recordar:

A célebre intervenção de Daniel Cohn-Bendit no pátio da Sorbonne e a evacuação pela polícia:



E uma canção da época, pela emblemática Dominique Grange:


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2.5.25

02.05.1968 – Nanterre

 


Foi em Nanterre que se deu o pontapé decisivo para o 3 de Maio na Sorbonne.

29.4.25

29.04.1945 – As francesas votam pela primeira vez

 


Em França, foi só em 1945 que as mulheres exerceram pela primeira vez o direito de voto. Em eleições municipais, 87 anos depois dos homens.

Em Outubro do mesmo ano, foram 33 as eleitas para a Assembleia Constituinte, num total de 586 deputados. Isto no país que, em 1789, gritou: «Liberé, égalité, fraternité». Foi longo o caminho.

(Note-se que só em 1965 é que as francesas puderam abrir uma conta bancária, ou aceitar um emprego, sem autorização do marido.)




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14.4.25

Simone de Beauvoir morreu num 14 de Abril

 


Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir morreu em 14 de Abril de 1986, com 78 anos. Ela que disse um dia que «a vida não é uma coisa que se tenha, mas sim algo que passa».

Tudo já foi escrito sobre esta escritora, intelectual, activista política e feminista, mas vale talvez a pena recordar o papel decisivo de uma das suas obras – Le Deuxième Sexe –, publicada em 1949. Esteve longe de ser um manifesto militante ou arauto de movimentos feministas que, em França, só viriam a surgir quase duas décadas mais tarde, já que as mentalidades não estavam preparadas para a problemática da libertação da mulher tal como Simone de Beauvoir a abordou, nem para a crueza da sua linguagem.

As reacções não se fizeram esperar, tanto à esquerda (onde o problema da mulher estava fora de todas as listas de prioridades), como, naturalmente, à direita. François Mauriac escreveu: «Nous avons littérairement atteint les limites de l’abject», Albert Camus acusou Beauvoir de «déshonorer le mâle français».

Para a compreensão e a consagração da obra foi decisivo o sucesso nos Estados Unidos, onde foi publicada em 1953. O movimento feminista, em que Betty Friedman e Kate Millet eram já referências, estava aí suficientemente avançado para a receber. Efeito boomerang: Le Deuxième Sexe «regressou» à Europa no fim da década de 50, com um outro estatuto, quase bíblico, e teve a partir de então uma longa época de glória.

Simone de Beauvoir nunca provocou grandes empatias e foi sempre objecto de discussões sem fim sobre a sua importância relativa quando comparada com a de Sartre. Mas, goste-se ou não, estava no centro do Olimpo que Paris era então – quando, no Café de Flore, toda a gente vivia envolta em fumo e Juliette Greco cantava «Il n’y a plus d’après».


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2.4.25

Le Pen: guardem os foguetes que as notícias não são boas

 


«Não conheço a legislação em causa e não me vou envolver no debate jurídico em torno da condenação de Marine Le Pen. Olhando de fora, tenho dúvidas quanto à pena de prisão num caso desta natureza, e ainda mais quanto à inelegibilidade, que deveria ser absolutamente excecional. Essas dúvidas só são agravadas pelo facto de a sua aplicação ter lugar antes de o processo transitar em julgado. Imagino que isto corresponda à lei francesa, mas recordo que François Fillon teve um caso que, sendo menor na sua dimensão, até era mais grave em profundidade: a sua mulher era dada como falsa assessora. Perdeu as eleições presidenciais por isso. Não foi impedido de concorrer.

Claro que os sistemas legais são diferentes, mas nada disto tem que ver com a situação de Donald Trump ou de Jair Bolsonaro. Sempre achei um erro afastar Trump das eleições através nos tribunais por questões que não fossem a invasão do Capitólio. O mesmo se aplica a Bolsonaro. É a tentativa de golpe de Estado que o devia impedir qualquer um de concorrer. Nestes casos, a justiça deve ser implacável. Quem recusa os resultados eleitorais e o poder democraticamente sufragado viola o fundamento das eleições e, assim sendo, não pode participar no jogo.

Seja qual for o entendimento jurídico, não vejo razão para celebrar as consequências políticas desta sentença. Tem tudo para ser trágico. E com o tempero, especialmente apetitoso para a extrema-direita francesa, de a acusação vir de Bruxelas. Não é por acaso que Jean-Luc Mélenchon, apesar de sublinhar a gravidade da condenação, veio contestar a inelegibilidade. Primeiro, porque espera conquistar-lhe alguns votos. Depois, porque sabe que esta decisão pode ser um presente envenenado para a democracia.

Jordan Bardella é considerado, por 59% dos eleitores da União Nacional, melhor líder do que Marine Le Pen, que tem a preferência de apenas 37%. Junte-se a esta preferência a vitimização face a um ataque vindo de fora, e temos o caldo perfeito.

O que me deixa triste é ver a mesma Europa que se mostra incapaz de regular as redes sociais ou afastar a Hungria da UE em permanente busca de atalhos para travar a ascensão da extrema-direita. Atalhos que a própria não deixará de aproveitar. Isto não vai correr bem. Se Le Pen não concorrer, como é quase certo que não concorra, Bardella poderá fazer uma campanha ainda mais forte. Se concorrer, Le Pen irá a votos como vítima perseguida por Bruxelas. Ache cada um o que achar desta sentença, não vejo razões para lançar foguetes.

Nisto, só tem graça uma coisa: ouvir o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, dizer que os caminhos da Europa são cada vez mais a “violação das normas democráticas”. De facto, não é tão eficaz como o encarceramento seguido de “acidente” de Alexei Navalny. Seria mais limpo atirar a senhora de uma varanda. Nisso, as democracias europeias ainda têm muito a aprender com Putin.»


1.4.25

A queda (provisória) de Marine Le Pen

 


«A condenação de Marie Le Pen levanta uma primeira questão: trata-se de aplicar a justiça, “doa a quem doer”, ou de uma sentença política para a afastar das eleições presidenciais de 2027?

La Pen defende obviamente a segunda interpretação. Após o primeiro julgamento em Novembro de 2024, lançou uma campanha de denúncia da Justiça, acusando os magistrados de impedir que sejam os cidadãos a eleger os seus representantes. Na iminência de se ver fora da eleição presidencial, clamou: “É uma pena de morte política.”

Mas Marine falou também contra si mesmo. Em 2013, depois de assumir a presidência da Frente Nacional (hoje, União Nacional), exigiu “penas de inelegibilidade vitalícia para os condenados por desvio de fundos públicos”.

Toda a extrema-direita europeia se solidariza com Marine. O porta-voz de Vladimir Putin denuncia as crescentes violações das regras democráticas na Europa Ocidental. No actual clima criado pela escalada de Trump contra o Estado de Direito, o caso Le Pen terá renovadas repercussões internacionais. E o americano Elon Musk não podia faltar: "Quando a esquerda não consegue ganhar pelo voto democrático, abusa do sistema legal para aprisionar seus rivais. Essa é sua estratégia padrão ao redor do mundo.”

Aos que denunciam o “governo de juízes”, responde, no Le Monde, o magistrado Vincent Sizaire. “A ordem jurídica republicana não pode ser mais clara. Numa sociedade democrática (…) com o primado da lei, ninguém pode pretender beneficiar de um regime de excepção, e os eleitos ainda menos que os outros.”

Milhares de franceses sofreram de condenações de inelegibilidade por análogos delitos. Entre eles, figuras políticas de primeiro plano: o socialista Henri Emmanuelli, em 1996; Jean-Marie Le Pen, por várias vezes, o ex-primeiro-ministro Alain Juppé, em 2004, Nicolas Sarkozy, em 2020, ou o antigo primeiro-ministro François Fillon, em 2020, este com 10 anos de inelegibilidade.

Claro que, no caso de Marine, há uma diferença fundamental. Declarou o primeiro-ministro, François Bayrou, antes de conhecer a sentença: “Se Marine Le Pen não puder apresentar-se, há o risco de um choque na opinião pública.” É evidente, já que ela está no topo das sondagens presidenciais. Jordan Bardella, o presidente do partido de Le Pen, lançou um apelo a uma “mobilização geral e pacífica”.

É previsível que estale uma nova crise política em França, onde a situação do Governo é particularmente vulnerável. Surge também num crítico momento político para a Europa, em conflito crescente com a América de Trump e a braços com a guerra na Ucrânia.

A arma do referendo

A queda (provisória) de Marine Le PenMarine Le Pen tem uma carreira política de excepção. Logo após suceder ao pai, Jean-Marie Le Pen, na liderança da Frente Nacional, em 2011, muitos disseram: ela é muito mais perigosa do que “o abominável” Jean-Marie Le Pen, porque, ao contrário dele, quer o poder.

“É guiada por uma única ideia, a conquista do Eliseu”, explicou o historiador Nicolas Lebourg. Para aceder ao poder, propôs-se destruir o sistema bipolarizador (esquerda-direita) da V República, criando uma nova direita por ela hegemonizada. Tratou de “devorar” a direita tradicional, gaullista e liberal. E conseguiu a “desdiabolização” da extrema-direita.

Qual a síntese do programa presidencial? Antes das presidenciais de 2022, prometeu que a primeira medida simbólica seria retirar a bandeira europeia de todos os edifícios públicos franceses.

Sabendo que se fosse eleita não teria uma maioria parlamentar, o seu modelo seria o do recurso maciço ao referendo, para contornar o Parlamento, de modo a ir impondo as grandes metas do partido, da imigração aos privilégios dos franceses, passando por um progressivo divórcio com a União Europeia.

Marine Le Pen sofre o primeiro grande desaire da sua carreira no momento que a contra-revolução de Trump lhe parecia abrir uma esplendorosa avenida para os seus desígnios. Resta-lhe, como sempre, a vitimização.»


9.1.25

09.01.1908 – Simone de Beauvoir

 


Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir chegaria hoje a uns improváveis 117 anos.

Tudo já foi escrito sobre esta escritora, intelectual, activista política e feminista, mas vale talvez a pena recordar o papel decisivo de uma das suas obras – Le Deuxième Sexe –, publicada em 1949. Esteve longe de ser um manifesto militante ou arauto de movimentos feministas que, em França, só viriam a surgir quase duas décadas mais tarde, já que as mentalidades não estavam preparadas para a problemática da libertação da mulher tal como Simone de Beauvoir a abordou, nem para a crueza da sua linguagem.

As reacções não se fizeram esperar, tanto à esquerda (onde o problema da mulher estava fora de todas as listas de prioridades), como, naturalmente, à direita. François Mauriac escreveu: «Nous avons littérairement atteint les limites de l’abject», Albert Camus acusou Beauvoir de «déshonorer le mâle français».

Para a compreensão e a consagração da obra foi decisivo o sucesso nos Estados Unidos, onde foi publicada em 1953. O movimento feminista, em que Betty Friedman e Kate Millet eram já referências, estava aí suficientemente avançado para a receber. Efeito boomerang: Le Deuxième Sexe «regressou» à Europa no fim da década de 50, com um outro estatuto, quase bíblico, e teve a partir de então uma longa época de glória.

Simone de Beauvoir nunca provocou grandes empatias e foi sempre objecto de discussões sem fim sobre a sua importância relativa quando comparada com a de Sartre. Mas, goste-se ou não, estava no centro do Olimpo que Paris era então – quando, no Café de Flore, toda a gente vivia envolta em fumo e Juliette Greco cantava «Il n’y a plus d’après».


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7.12.24

Notre-Dame salvará Macron?

 


«Poderá a “ressurreição” de Notre-Dame “salvar” Macron? Não por acaso ele fez desta obra um dos momentos mais relevantes do seu mandato presidencial.

Hoje, após o fiasco da dissolução do Parlamento e em plena crise de credibilidade, Macron pode dizer: “Sim, em Abril de 2019, decidimos que isto demoraria cinco anos. É verdade que na altura muitos disseram que não seria possível, que era uma loucura, que era arbitrário e correria mal. Mas, no fundo, o objectivo último era simples e houve uma agregação de todas as vontades.”

Que mensagem envia? Na visita à catedral a 29 de Novembro, homenageou as 2000 pessoas que trabalharam na reconstrução e que denominou como os ‘alquimistas do estaleiro que transformaram o carvão em arte’: “O braseiro da Notre-Dame era uma ferida nacional e vós encontrastes o seu remédio pela vontade, pelo trabalho, pelo empenho. (…) Conseguistes o que se pensava impossível. (…) Mostrastes ao mundo que nada resiste à audácia.”»


30.11.24

Notre Dame

 


Trabalhadores que estiveram nos últimos cinco anos a recuperar a catedral de Notre Dame.