3.1.26

Quando os portugueses eram o “Bangladesh” para os franceses

 


«Como a memória é uma coisa muito frágil — entre outras razões, porque ter ou não ter memória é uma questão central da política —, vale a pena revisitar memórias que nos ajudam muito a perceber o que se passa nos nossos dias com a questão da imigração.

O título deste artigo é deliberadamente provocatório, mas a razão por que provoca é conter uma memória incómoda, a do facto de que também os portugueses foram um povo de emigrantes durante grande parte dos últimos 150 anos. E o que acontece hoje aos imigrantes aconteceu connosco há bem pouco tempo. Não foi sempre o mesmo, nem sempre para os mesmos locais de destino, mas com vantagem dos portugueses, por serem brancos e católicos, e não “monhés” e muçulmanos. E também porque o panorama político era diferente e isso moderava de algum modo a hostilidade aos imigrantes. Havia os émulos dos negreiros alentejanos, dos polícias comprados, das redes clandestinas das duas nacionalidades, a de cá e a de lá, mas não havia Trump, nem Musk, nem AfD, nem Vox, nem Chega, com a relevância e força que têm hoje. Havia pieds-noir e retornados, mas moviam-se numa franja percebida pela opinião como radical e minoritária.

Mas muita coisa era comum, a começar pela motivação da emigração — simplesmente viver melhor, quer nos que foram, quer nos que ficaram, unidos pelo laço das remessas para Portugal. Essa é uma motivação digna, que hoje vilipendiamos por todos os meios, porque a maldade, a falta de empatia fazem parte de vários programas políticos e da conversa mesquinha de café que hoje alimenta as redes sociais.

Por isso, convém lembrarmo-nos das centenas de milhares de portugueses que de mala à cabeça atravessaram ilegalmente duas fronteiras para, no nosso exemplo escolhido, a França, chegar aos bidonvilles dos arredores de Paris e trabalhar no duro, principalmente no “batimento”, na construção civil. A inspiração para este artigo foi abrir uma mala, uma valise de carton, que pertence ao espólio de José Carlos Ferreira de Almeida que se encontra no Arquivo Ephemera, um pioneiro do estudo da emigração. Essa mala contém uma das fontes do seu trabalho, muitas centenas de recortes de jornais portugueses, do Algarve a Trás-os-Montes, sobre os anos mais duros da emigração para França, a primeira década dos anos 60.

O que nos dizem esses recortes que, convém não esquecer, passaram na censura? Que há tanta coisa de parecido com tudo o que é o actual discurso anti-imigrantes, um dos mais fortes pontos programáticos do Chega para o Governo, nos últimos anos! Eu disse “parecido”, não disse igual, a começar, porque hoje a situação é pior, há atitudes idênticas, há problemas idênticos, há hostilidades idênticas, há racismo idêntico, mas sempre em pior. A intensidade da hostilidade aos “outros”, fosse aos pobres lavradores portugueses com as mãos encardidas e com os fatos coçados, seja aos jovens escuros com a mochila às costas e que nas sextas-feiras rezam na rua, é hoje, no segundo caso, muito mais forte e popular.

O que é que nos dizem os recortes? Muito de semelhante, que a exploração dos emigrantes começava em Portugal com os engajadores e prolongava-se em França com as redes de habitação e emprego organizadas por franceses. Que passavam as fronteiras “vestidos com dois pares de calças e camisas”, a roupa que se levava. Que se podia ter como habitação “uma carrinha que é quarto de dormir de 17 pessoas”, que havia uma máfia luso-francesa na exploração das barracas, que a emigração clandestina é um terreno ideal para o crime. Que a situação era pior para as mulheres, como de costume:

“Muitas dessas raparigas fogem para França. Sujeitam-se aos dramas da clandestinidade. Entregam-se aos gangster-engajadores. Estes roubam-lhes tudo: dinheiro e honra. Muitas chegam grávidas e despojadas de tudo quanto tinham”, escrevia o Comércio de Portimão, em 1966.

Que a vida na emigração era de “sofrimentos, injustiças e andanças várias”, assentes na exploração do trabalho dos portugueses que ganhavam mais em França do que em Portugal, mas muito abaixo dos franceses para o mesmo trabalho, sem regras, nem horários. Que para obterem um documento esperavam sete horas (hoje é pior), tendo de se deslocar centenas de quilómetros, com a polícia francesa à perna. E que os franceses olhavam para os portugueses como os habituais feios, porcos e maus, que, para espanto dos franceses, assavam uma sardinha em papel de jornal, escreve o Jornal do Comércio. O livro de Nuno Rocha publicado em 1965 tem um título que diz tudo: França, A Emigração Dolorosa.

Esta era a informação que chegava a Portugal, mas, à medida que começa um outro padrão da emigração, o dos exilados que fugiam à guerra, com a crescente presença de organizações da esquerda e o interesse das centrais sindicais e partidos políticos franceses, acumulou-se informação mais concreta sobre as condições de vida e trabalho dos imigrantes, que não tinha censura. Com excepção das organizações da Igreja que acompanhavam os imigrantes nas suas “missões”, as instituições da ditadura, como sempre, pouco faziam pelos emigrantes, que, em vez de irem colonizar Angola e Moçambique, fugiam ilegalmente para França. Mas gostavam das remessas dos emigrantes. É por isso que a falta deliberada de memória esconde a pior das hipocrisias.»


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