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29.12.20

Mais médicos no SNS? Leva-os o vento

 



«Entre as 1385 vagas disponíveis para reforçar a saúde pública, medicina geral e as áreas hospitalares, apenas 908 foram transformadas em contratos efetivos. Médicos queixam-se da falta de condições.» 

Era absolutamente óbvio que isto ia acontecer, porque não se mexeu em carreiras, salários e porque não se regulamentou a Lei de Bases da Saúde aprovada na Assembleia da República. E foi por isso que o governo, mais ciente do que nós de que seriam estes os resultados, cedeu a pôr no OE2021 números astronómicos de médicos a serem contratados em troca de uma abstenção na votação final do OE para este passar - se é que me faço entender.
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28.12.20

Não, os “vistos gold” não acabaram... sequer em Lisboa e no Porto

 


«Várias notícias têm vindo a público dizendo que Governo aprova o fim dos “vistos gold". É preciso não nos deixarmos ir por certos títulos. A precipitação pode levar-nos ao engano. 

Está anunciado desde 2019, através de uma autorização legislativa aprovada no Orçamento do Estado para 2020, que este regime seja alterado nas áreas de maior pressão imobiliária como Lisboa e Porto, prevendo que fosse interrompida a possibilidade de sua aplicação no imobiliário, uma vez que cerca de 90% do investimento no âmbito deste programa é aplicado na compra de imóveis. O Governo deixou passar 2020 e, a poucos dias do seu fim, anuncia novo decreto que prevê que as Autorizações de Residência para Investimento, os chamados “vistos gold”, continuem a investir em imobiliário, nas áreas metropolitanas de Lisboa, Porto e litoral até ao final do 2022. A partir de 1 de Julho de 2021 o valor do imobiliário adquirido nestas áreas terá de ser mais elevado (gerando ainda maior pressão nos preços) para as pessoas poderem, através dessa compra, adquirirem também uma autorização de residência. Teremos então mais dois longos anos de “vistos gold” através da aquisição de imobiliário, nas áreas de grande pressão, onde falta habitação a preços acessíveis, assim como teremos a continuação dos mesmos no resto do país. 

Na verdade, os sucessivos anúncios do Governo têm promovido uma corrida aos “vistos gold” e, consequentemente, ao imobiliário nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, fomentando o processo especulativo. Agora sabemos que essa corrida prolongar-se-á até 2022, com preços a subir. Para não falar do impacto que isto terá também no interior do país e ilhas, aí sem data para terminar. 

Vale a pena contar aqui uma pequena história: um dia, entrevistando um agente imobiliário, ele disse-me que não vendia casas, vendia vistos, e que, por isso, uma casa que poderia valer 200 mil era vendida a 500 mil porque era isso que interessava ao comprador. Para bom entendedor, meia palavra basta. 

Os “vistos gold” devem acabar. Colocam inúmeros problemas, já referidos por diversas organizações e que estão suficientemente comprovados: 

  • Podem ser usados para lavagem de dinheiro e formas de evasão fiscal, aumentam riscos de corrupção, falta de transparência e potenciam condutas duvidosas.
  • Promovem o tratamento desigual e discriminatório, que dá ao estrangeiro que pode comprar direitos pagando o visto (e pouco depois a nacionalidade) um tratamento mais favorável que ao trabalhador imigrante que, anos a fio neste país, não consegue muitas vezes obter a sua regularização. É injusto e imoral transformar, uma vez mais, direitos em mercadoria.
  • O Parlamento Europeu veio declarar-se contra os “vistos gold", defendendo que a cidadania não deve estar à venda, reafirmando os aspetos potenciadores de branqueamento de capitais e atração de criminosos que já eram referidos pelas organizações da sociedade civil.
  • Os “vistos gold” têm sido fundamentais para inflacionar preços na habitação, desconectando-os da realidade de quem vive e trabalha em Portugal. Aprovados pela mão de Paulo Portas em 2012, foram das primeiras medidas estatais que apoiaram o disparar dos preços da habitação. Conjuntamente a outras medidas, vieram promover um mercado imobiliário virado para os altos rendimentos e transformar a habitação em produto de investimento em vez da sua função social.
  • Os “vistos gold” não são investimento útil, são antes formas de guardar (e esconder) dinheiro no tijolo, não criam sequer emprego e têm fraco contributo fiscal, contribuem para a especulação imobiliária, cujos ganhos acabam depois por voltar a sair do país.
  • Os “vistos gold” são responsáveis, direta e indiretamente, por milhares de expulsões e despejos. Tornaram uma parte da população mais pobre e precária, vieram contribuir para o aumento da desigualdade social. E, pelo que parece, assim vão continuar. Os interesses do imobiliário acabaram por prevalecer.» 

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26.12.20

À beira de um ataque de nervos

 


«Ao cabo de dez meses de pandemia, o país está exausto de tensão e medos acumulados. A compressão da economia e a compressão do espaço das vidas torna-se cada dia mais insuportável. Para muitos, isso significa desespero causado pelo desemprego ou pela perda quase total de rendimento, logo agora que as coisas pareciam levar um rumo de recuperação, ainda que tímida. Comparamo-nos com outros povos e animamo-nos por não estarmos sós nesta provação, mas isso mesmo acrescenta medo ao nosso medo porque torna a nossa viragem dependente da de outros. 

Para não sermos vítimas do desinvestimento de muitos anos na saúde e no trabalho, aceitamos “achatar a curva” achatando os nossos direitos. Para que a fragilização dos nossos velhos, esquecidos das políticas públicas há muito, não degenere em tragédia coletiva, deixamos de os tocar e impomo-nos distâncias. O país chega ao fim deste ano com uma ansiedade brutal. 

Para um país assim, há três respostas que estão aí. A primeira é a da extrema direita. É uma resposta que explora os medos e o desespero e que alimenta a zanga de quem tem medo e desespera. É uma resposta apontada à culpabilização difusa, à segregação social e à acumulação de capital de queixa, sem nunca ambicionar mudar o que, no funcionamento da sociedade, provoca a fragilidade que é a verdadeira raiz do desespero. A segunda reposta é a da contenção de danos e tem nas diretrizes de Mário Centeno sobre a “intervenção na margem” sem medidas estruturais a sua cartilha. 

É uma resposta resignada, por antecipação, ao mais que previsível regresso de Bruxelas às imposições de redução de défices e da consequente limitação da despesa social, agora que ela é o resguardo único da massa dos atirados para o vazio. Tudo nela é temporário e a bazuca europeia é o seu resguardo. A terceira reposta é a da determinação em mudar agora de fundo as condições de segurança das pessoas. 

A segurança feita saúde, com um SNS redimensionado nos seus meios humanos e na sua gestão. A segurança feita emprego, com direitos do trabalho que previnam a facilidade de despedir e de recorrer a mão de obra sem direitos. A segurança feita proteção social, reforçando-a onde ela é fraca e trazendo para mecanismos robustos de apoio – e não para medidas pontuais – os muitos milhares de pessoas sem proteção. 

O país precisa de esperança concreta. E isso faz-se de horizontes que mobilizem todas as nossas forças. No ano que aí vem, em cada decisão coletiva, é isso que se joga.» 

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20.12.20

12:59, à porta do Fonte Nova em Lisboa

 


Pode alguém viver sem comprar chouriços antes de se confinar às 13h? Aparentemente, a resposta é «Não». E podem estas barracas levantar arraiais um minuto mais tarde, como são obrigadas a fazê-lo? Claro que também não. 

Siga o baile, as Emergências já foram chão que deu uvas.
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SEF: é preciso mudar tudo

 


«Já quase tudo foi dito sobre o bárbaro assassinato de Ihor Homenyuk nas instalações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras no aeroporto de Lisboa, às mãos das autoridades portuguesas. Além da punição exemplar dos torturadores, das condolências e da indemnização à família, é preciso questionar profundamente o modelo político de acolhimento que temos e a estrutura institucional que permitiu que este crime ocorresse. Deixo quatro notas para esse debate urgente. 

1.Parece que se está a chegar finalmente a um consenso sobre o absurdo que é tratar a relação entre o Estado e as pessoas migrantes como se fosse uma questão de polícia, em que pessoas que não cometerem qualquer crime podem ser detidas, privadas de liberdade sem qualquer garantia de apoio e proteção jurídica, e submetidas a todo o tipo de arbitrariedades, humilhações e agressões. Há anos que é assim e não faltaram denúncias das associações de direitos humanos e da Provedora de Justiça sobre o tema. Não basta, pois, encerrar estes “centros de instalação temporária” nos aeroportos, nem basta garantir – coisa que aliás devia ter sido assegurada desde sempre - o acesso imediato a advogados nos aeroportos. Pequenas adaptações humanizadoras do modelo policial não chegam. É preciso acabar definitivamente com a ideia de que a relação entre os imigrantes e o Estado português é estabelecida através de uma polícia (tratando as pessoas, à partida, como criminosos em potência) e não de uma autoridade administrativa. 

2.O caso de Homenyuk não é um caso isolado, embora nem todos os abusos e maltratos nos Centros de Instalação Temporária tenham tido consequências tão trágicas. Além disso, os disfuncionamentos do SEF não são apenas nestes centros. Milhares de imigrantes que trabalham em Portugal e fazem os seus descontos para a Segurança Social ficam anos à espera de ver os seus documentos emitidos. Ao longo dos anos privilegiou-se o reforço do corpo policial, em lugar de se ter apostado em reforçar o pessoal administrativo. Esta decisão fez com que hoje em dia seja quase impossível obter uma marcação, o que deixa milhares de pessoas sem acesso aos documentos mais básicos. Ao SEF faltam meios, mas abunda, também na componente administrativa, uma incompreensível arbitrariedade e injustiça. 

Portugal deve ter uma polícia para investigar as redes de tráfico e essa é uma boa missão para o SEF, em relação à qual não falta o que fazer. Basta pensar, por exemplo, na dimensão do trabalho forçado na agricultura nos campos do olival intensivo do Alentejo, ou nas vindimas, a norte. Essas missões de investigação e combate às redes de tráfico e exploração, para as quais não basta a atuação da Autoridade para as Condições de Trabalho, precisam de mais meios e de um corpo profissional com a experiência que equipas do SEF acumularam. Por outro lado, existe uma dimensão policial do controlo da fronteira que o Estado assegura. Mas o acolhimento de migrantes e de requerentes de asilo não é competência para uma polícia. Como não o é a renovação dos vistos ou autorizações de residências, que têm de ser feitas nas mesmas lojas dos cidadãos ou conservatórias onde qualquer cidadão português renova o seu cartão de cidadão. Lidar com uma polícia para assuntos administrativos é um absurdo que tem de ser definitivamente eliminado. Esperemos que seja desta. 

3.Infelizmente, a discriminação, a xenofobia e a violência racista não são casos isolados nas polícias portuguesas. A Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância tem produzido relatórios em que acusa explicitamente a hierarquia da PSP e a Inspeção-geral da Administração Interna de serem tolerantes ao racismo, apelando mesmo a que estes organismos parem de “relativizar a violência grave” contra as pessoas racializadas e migrantes, bem como a “pôr termo ao sentimento de impunidade que prevalece entre os seus agentes”. Este organismo do Conselho da Europa tem insistindo que o Estado português deveria por em marcha uma política de tolerância zero relativamente ao racismo nos seus serviços. O SEF tem sido também objeto de várias denúncias deste tipo de comportamentos de violência racista, encontrando-se alguns sob investigação pelo Ministério Público. A morte de Homenyuk não foi, infelizmente, um mero acidente de percurso em instituições que seriam exemplares. 

Também por isso, a proposta de Magina da Silva, no encontro com o Presidente da República, de fusão do SEF e da PSP numa grande polícia nacional é duplamente disparatada. Em primeiro lugar porque não cabe ao chefe da PSP anunciar decisões políticas desse tipo, por mais que sonhe em liderar uma super-polícia com um corpo militarizado. Em segundo lugar, porque isso tenderia a reforçar o próprio modelo policial na relação com os estrangeiros, o que é um erro absoluto. Não é a primeira vez, aliás, que Magina da Silva brinda o país com um discurso irresponsável de pistoleiro, como quando defendeu a compra de carros blindados como os que foram usados na Guerra do Iraque para intervir nos “bairros de risco”. É exatamente deste tipo de discursos que precisamos de nos libertar. 

4.A reação das instituições ao assassinato de Ihor Homenyuk esteve muito aquém do exigível. O Presidente da República, conhecido pela abundância dos seus telefonemas e notas de felicitação e condolências, utilizou a esfarrapada desculpa de não querer “interferir na investigação” para justificar não ter tido uma palavra para a família do cidadão ucraniano assassinado por agentes do estado português. A direção do SEF esteve meses sem assumir que havia responsabilidades, parecendo mais empenhada em encobrir o sucedido do que em ser motor de uma transformação profunda na instituição. E o Ministro da Administração Interna – que, reconheça-se, abriu de imediato um inquérito e processos disciplinares aos envolvidos – não contactou a família, resistiu meses a pagar a indemnização e só por arrasto e sob altíssima pressão política e mediática substituiu a direção do SEF (cuja saída foi, no entanto, apresentada como “voluntária”) e anunciou uma reestruturação cujos contornos são ainda desconhecidos. 

Este caso trágico, contudo, tem de ser a oportunidade para mudar tudo no SEF. O modelo de relacionamento do Estado com as pessoas migrantes e refugiadas não precisa de uns remendos ou alterações cosméticas. Tem de ser integralmente substituído. E haverá pouco quem acredite que Eduardo Cabrita tem ainda condições para conduzir tal empreendimento.» 

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18.12.20

Confinamento de vilões

 


«Os melhores momentos vivem de um "timing" perfeito. Sem o tempo certo, assomam as oportunidades perdidas, acontecimentos espantosos que se precipitam, incapazes de encontrar a hora, para a infelicidade de aparecerem nas piores alturas. Qualquer reaparecimento público de Cavaco Silva ou de Durão Barroso é um acontecimento equiparável à permanência de crédito malparado: convoca sempre um ajuste de contas com o passado. Esta semana, ambos reapareceram publicamente para gáudio de Marcelo Rebelo de Sousa e de António Costa. Os momentos felizes existem. 

Mesmo com a renovação do estado de emergência a contemplar o crime de desobediência, ninguém confina vilões cegamente obedientes ao seu perfil. Cavaco Silva regressa às entrevistas e faz campanha implícita pela reeleição de Marcelo: o reaparecimento do ex-presidente é o melhor espelho sobre as diferenças entre o passado e o presente. Cavaco Silva critica PCP e BE pelo apoio dado à governação de António Costa, destilando que o PCP "de democracia tem pouco", ao mesmo tempo que elogia o acordo alcançado pelo PSD nos Açores com a extrema-direita. Se as presidenciais fossem apenas um exercício de elogio à memória, Marcelo desejaria a sombra de Cavaco como prenda de Natal e aspiração de ano novo. Já Durão Barroso, presidente da Goldman Sachs vindo da porta giratória da Comissão Europeia, interpõe processo de 292 milhões de euros contra a República Portuguesa. Para António Costa, serve-se cherne na ceia de Natal. 

No cardápio europeu positivo à covid-19, Emmanuel Macron ascende a uma espécie de teste "super-spreader" de algodão entre heróis e vilões. De uma assentada ibérica, isolou os primeiros-ministros Pedro Sánchez e António Costa, assim como o "seu" primeiro Jean Castex e Charles Michel, presidente do Conselho Europeu. Incapaz de confinar os vilões húngaros e polacos, Macron permitiu o desrespeito pelos mecanismos do Estado de direito e consentiu, com os seus pares, que a extrema-direita continue a condicionar a tomada de decisões na União Europeia. Involuntariamente ou porque o hábito faz o monge, impôs uma quarentena geográfica à esquerda. 

Bem para além da moda. Vestir ou não vestir "casaco-camisa-gravata" durante um teste pandémico está longe de ser o único hábito que traça a distinção entre Costa e Marcelo. Se enquanto aguardava o resultado do teste inaugural, o primeiro promovia uma videoconferência, já o segundo simulava um eclipse público. Resta saber se António Costa e a UE irão continuar a olhar serenamente para os vilões como se estivessem num ecrã, convidando-os a partilhar a casa, esperando que não esperneiem em bicos de pés na altura em que podem discutir a alimentação de todos. É que o inimigo vive dentro e Portugal tem a presidência da UE a partir de Janeiro. Há sinais que remetem para o passado. A ideia de que os princípios não se discutem à boleia dos números, como António Costa defendeu aquando da sua visita a Viktor Orbán, é algo que Durão Barroso não desdenharia abraçar.» 

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17.12.20

Ceias por pequenos-almoços – o que falha na comunicação da DGS

 


«Ontem fomos surpreendidos por mais uma comunicação errática da DGS. Da escolha do porta-voz à mensagem, aparentemente nada foi pensado e por isso falhou. 

Desde Aristóteles que a comunicação persuasiva é construída em função dos destinatários. A mensagem, o tom usado pelo orador, tudo deveria ser tido em conta para assegurar que a mensagem é compreendida pelos destinatários. Os três livros da Retórica dedicam-se aos três elementos centrais no processo persuasivo: o orador, a mensagem e o auditório, dos quais o auditório é a figura principal e em função do qual se prepara todo o discurso. 

Quando Graça Freitas sugeriu que os portugueses recorressem às hortas dos vizinhos (Observador, 10/03/2020) deixou o país de olhos esbugalhados a olhar para os ecrãs (“Onde estão as hortas? Eu nem conheço os meus vizinhos!”), levando-nos a indagar que imagem de Portugal e dos portugueses tem a responsável pela DGS. Fora de Lisboa ainda andamos descalços, em estradas sem alcatrão, a encaminhar o gado para a serra? Temos todos hortas nas nossas “aldeias”? Em algum momento a DGS investiu tempo a conhecer o alvo das suas mensagens e considerou avaliar a perceção dos portugueses sobre a comunicação que profere? Conhecer o público é o primeiro ponto para que uma comunicação seja eficaz e esse trabalho está por fazer. 

O médico é o mensageiro 

Os responsáveis pelo Ministério da Saúde e pela DGS têm aparecido diariamente nos media. Não deviam. Cansam-nos e cansam-se com mensagens repetitivas e pouco claras porque trabalham numa área que não é a sua. 

Como podem os responsáveis pelas decisões políticas e operacionais ocupar parte do seu dia a esclarecer os media quando deviam estar ocupados a supervisionar as operações no terreno? Mais, porque perdem tempo a fazer uma coisa que não sabem – nem precisam de saber-fazer? E o que esperar de diretores institucionais, com currículos bastante relevantes na área da medicina, transformados em porta-vozes quando a sua especialidade não é comunicar? Poderei eu, professora de Relações Públicas, ser virologista por um dia e ser bem-sucedida na minha função? É pouco provável, para não dizer impossível. 

É desejável escolher bem o mensageiro. Ter alguém formado e com experiência em comunicação estratégica. Que seja empático, assertivo nas mensagens e capaz de antecipar os efeitos da sua comunicação nos públicos. A declaração de Rui Portugal mostrou que a DGS desconhece esses princípios. Sugerir a troca de ceias por pequenos-almoços não funcionou e só contribuiu para a crescente descredibilização do trabalho da DGS, medido pela opinião pública tendo em conta a qualidade da comunicação. 

Estamos em guerra com um inimigo invisível, um vírus ainda pouco conhecido. Sairíamos à rua durante um bombardeamento? Visitaríamos os nossos pais? Estaríamos dispostos a correr o risco de ver um familiar morrer num destes cenários? Julgo que não. 

Os portugueses são capazes de encontrar formas criativas para viver o Natal de 2020 mas a DGS pode ajudá-los, convocando profissionais especializados em comunicação estratégica aptos para transformar a estratégia operacional numa estratégia de comunicação. Para resultados excelentes há que contratar profissionais excelentes. 

A comunicação estratégica não é o parente pobre das outras áreas. É aquela que diagnostica, investiga, executa e avalia a comunicação que faz; que trabalha ao lado dos gestores para transformar mensagens técnicas em mensagens segmentadas de acordo com os destinatários e totalmente alinhadas com os objetivos de comunicação. 

Os investigadores e académicos de comunicação estratégica não fazem vacinas mas gerem comunicação e sabem como fazê-lo muito bem. Se a DGS precisar de ajuda, pode convocar-nos. Estamos disponíveis.» 

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13.12.20

Domingo, 13.12.2020, 12h41

 

Já almoçada (sozinha e a distância). Restaurante quase cheio com os tais almoços familiares a evitar aos Sábados e Domingos. Passei por filas incríveis em tudo quanto é loja, com multidões a comprarem prendas. Acredita-se mesmo que não haverá almoçaradas e jantaradas familiares no Natal como dantes? Sejam mais criativos a lidar com latinos. Ou aprendam com a Merkel: tudo fechado a partir de 16 de Dezembro, excepto farmácias e supermercados. Assim é que não dá.
98 mortos, nas estatísticas divulgadas hoje. 
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Uma questão de botões



 

«Há dias, a comissária europeia dos Assuntos Internos disse que confiava estar Portugal "a tratar apropriadamente a horrível violação de direitos humanos" acontecida no aeroporto de Lisboa. Acrescentou pensar que "haverá algumas mudanças na liderança e nos regulamentos". E premiu um botão de alarme... nos corredores do poder. 

A 9 de Dezembro soube da demissão da directora do SEF. Revisitei um artigo do "Público" de 16 de Novembro com as suas declarações à RTP, dizendo estarmos na presença de "uma situação de tortura evidente". Mas demitir-se "não iria introduzir nenhuma mudança positiva" para que os acontecimentos não fossem esquecidos e jamais se repetissem. 

Mudou de ideias. Confortando a líder parlamentar do PS, que considerou a demissão "tardia" e o seu silêncio de meses revelador de "pouco cuidado". Quanto ao ministro, considerou que ela "tinha feito bem em cessar funções". Dúvida legítima - se o partido do Governo e o ministro da tutela tinham essa opinião, porque não sugeriram há muito uma epifania demissionária, evitando este cenário de canhestra estratégia de redução de danos? 

O ministro esteve perto de assumir o estatuto de cavaleiro andante solitário em defesa da sua dama, os Direitos Humanos, em que catacumbas se esconderam comentadores e Oposição? Sublinhou que reunira com a embaixadora da Ucrânia para lhe apresentar condolências e assegurar o compromisso do Estado português no apuramento de todos os factos e na tomada de medidas que evitem a repetição de situações semelhantes. Esta semana entregou-lhe uma carta para a viúva, assegurando o pagamento de uma indemnização. 

O presidente da República, sibilino, afirmou que "se não funciona este SEF, não serve... temos de avaliar se os protagonistas que deram corpo ao sistema que falhou podem ser os mesmos no período seguinte". "Os" protagonistas... 

Interrogo os "meus" botões. Desaparecem as pessoas e o seu sofrimento quando os estados dialogam entre si? Porque pagou esta viúva a trasladação do corpo de quem faleceu à guarda do Estado português? Porque só agora se desencadeia o processo de indemnização? E porque não houve uma única consciência a sentir a obrigação moral de pegar num telefone e falar a esta mulher? Sobretudo sabendo nós que muitos políticos colonizam os holofotes destinados a desportistas, agentes culturais ou vítimas de desgraças domésticas. 

O dicionário diz de botão que também significa flor antes de desabrochar. Esta actividade frenética não desabrochou espontaneamente, pegou de empurrão; como os carros, quando a bateria cede aos achaques da idade. 

Talvez seja mais seguro para todos pedir à comissária europeia dos Assuntos Internos que nos visite com regularidade.» 

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11.12.20

Eduardo Cabrita, ainda

 

@Alexandre Martins


Irresistível...
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O ódio da viúva e a ironia do ministro

 


«Percebe-se que o ministro da Administração Interna esteja nervoso. Entende-se que Eduardo Cabrita esteja inquieto com o desenrolar do caso da morte de Ihor Homeniuk nas instalações do SEF e que levou à acusação de três inspetores daquele serviço por homicídio qualificado. 

Compreende-se que ataque diretamente a Comunicação Social e os comentadores televisivos que escreveram e opinaram sobre a tragédia do cidadão ucraniano. 

Percebe-se porque esta postura do governante não é novidade. Já em julho do ano passado acusou a Imprensa de causar alarmismo, após o "Jornal de Notícias" ter divulgado que as 70 mil golas antifumo entregues pela Proteção Civil no âmbito do programa "Aldeia Segura - Pessoas Seguras" foram fabricadas com material inflamável e sem tratamento anticarbonização. 

O que não se entende é o que o Estado português tenha ignorado durante nove meses a família do cidadão ucraniano morto no Aeroporto de Lisboa. Não tenha tido uma palavra de conforto. Que a demissão da diretora do SEF tenha demorado nove meses. E que o ministro da Administração Interna anuncie agora, numa comunicação carregada de dispensável ironia, que vai indemnizar a família, como se não fosse essa a obrigação. Uma indemnização, diga-se, paga por todos os contribuintes portugueses. 

São duras as palavras da viúva. "Não era nem criminoso, nem terrorista, nem assassino; era uma pessoa normal", diz, referindo-se ao pai dos seus dois filhos menores. E o "ódio" que confessa sentir pelo nosso país não se apagará certamente com uma conferência de Imprensa durante a qual um ministro tem a pretensão de achar que pode dar lições sobre direitos humanos aos portugueses. 

É legítimo que vários partidos peçam "consequências políticas" para o caso de um cidadão espancado até à morte e que defendam que a demissão da diretora do SEF não é suficiente. 

Por muito menos, já se demitiram ministros. Por muito menos.» 

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10.12.20

Vergonha alheia



 

… é o único sentimento possível de quem ouviu o ministro de Administração Interna, Eduardo Cabrita, na conferência de imprensa de hoje. Para além de tudo o resto, como é possível ele afirmar isto, depois de tudo o que se passou – e se escreveu – nos últimos nove meses! 

«Congratulo-me pelo facto de ter estado quase sozinho, perante o desinteresse de todos os comentadores, generalidade da Comunicação Social. Tantos que não ligaram nada ao que disse em Março ou Abril. Agora estão preocupados com esta situação. Bem vindos ao combate pela defesa do Direitos Humanos».

Esperemos para ver se Marcelo não vai dar o «empurrão» que falta para que Cabrita ceda a cadeira: as afirmações desta tarde parecem um remake do que aconteceu com a ministra Constança em 2017.
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9.12.20

SEF e vergonha alheia

 



«O director nacional adjunto, José Luís do Rosário Barão, vai assumir a direcção “em regime de suplência”. Com o também director adjunto Fernando Parreiral da Silva irá coordenar um processo de reestruturação do SEF.» 

Será que a reestruturação do SEF, assegurada pela velha prata da casa vai continuar a prever o inqualificável BOTÂO DE PÂNICO recentemente anunciado? 

Entretanto: «Até segunda-feira, ninguém do Estado — presidente da República, primeiro-ministro, ministro da Administração Interna, a própria directora nacional — tinha contactado a família de Ihor Homenyuk, que deixou uma viúva e dois filhos menores.»
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6.12.20

Directora do SEF, um escândalo inaceitável!

 



«Afirma que lhe "esconderam a verdade". Mas pelo menos desde 19 de março que Cristina Gatões sabia que havia suspeita de homicídio e que a PJ estava a investigar. Até 30 de março, porém, nada fez - e segundo o ministro da tutela nem a ele informou.» 

E continua a exercer o cargo!
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Natal em Agosto?

 


Os portugueses adaptam-se a tudo. Hoje, o restaurante onde almocei às 12h, estava bem mais «composto» do que nas semanas passadas e, em breve, teremos horários de europeus do Norte – benefícios colaterais de emergências. 

Pena é que o governo não tivesse proposto festejos do Natal em Agosto, quando as autoridades nos aconselharam a dar a volta em Portugal como turistas. A segunda vaga não teria sido pior do que foi por esse motivo, tinha-se evitado a complicação ontem anunciada e os respectivos riscos, até estavam cá os emigrantes que escusavam de gastar dinheiro agora, Marcelo tinha-nos desejado Boas Festas em calções e eu tinha recordado a minha infância em Moçambique, com árvores de Natal ao ar livre, luzinhas, flocos de neve e 40 graus no termómetro. Fica a sugestão para 2021, se necessário for.
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4.12.20

Plano de vacinação e imprudências inexplicáveis

 



Estas afirmações do secretário de Estado, que não fazem mais do que confirmar o que ontem foi anunciado oficialmente, são no mínimo imprudentes, já que criam demasiadas expectativas quando há tanto esforço e mil imprevisíveis em jogo. Não só, mas especialmente em Portugal, onde o planeamento está atrasadíssimo e quando os centros de saúde já estão a avisar de que não têm capacidade nem para assegurarem a primeira fase.
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