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6.5.25

Quando um deputado quer aceder ao registo telefónico de um jornalista é grave, senhor Presidente. Não é só campanha

 


«Não sei se foi a extrema-direita que se aproveitou da beligerância que vive acampada nas redes sociais, e cresceu, ou se foi ela própria que, com a sua violência, fez das redes sociais o chiqueiro certo para funcionar como campo de treino. Certo é que essa forma de debater, em que ninguém ouve ninguém, não sendo já um exclusivo seu no teatro político, mostra-a como o original que as cópias tanto valorizam. Transportam consigo uma agenda que não precisa que eles cheguem ao poder para si impor. Vejam como o governo está em campanha: no Algarve e no Alentejo, o PSD faz da imigração o tema central da sua propaganda, no dia seguinte a AIMA anuncia que deu ordem de marcha a milhares de imigrantes.

Ainda assim, sendo mau que a agenda mediática fique contaminada pela forma de tratar os temas mais sensíveis acrescentando divisão a uma sociedade já muito polarizada, há coisas piores a acontecer. O sorriso nervoso de Marcelo, gracejando com a ameaça feita a políticos da oposição e a jornalistas, por parte do partido que está no poder, diz-nos que o Presidente sabe que nós sabemos que ele sabe que não é apenas campanha. Não se quer comprometer e percebe-se porquê. Agora, que há reais possibilidades de deixar Belém com estabilidade política e uma maioria (AD+IL) no Parlamento, Marcelo não dirá nada que possa prejudicar a sua família política. E, sobretudo, que possa prejudicar o seu legado político. Imaginem a festa de arromba no Palácio de Belém, se no dia 18 se formar uma maioria parlamentar.

Só que a ideia de vasculhar registos telefónicos para descobrir a fonte de um jornalista do Expresso é tão estúpida que dá para perceber que não se resume a um simples desvio de atenções sobre a nova lista de empresas da Spinumviva. Se fosse só isso, Marcelo tinha razão, era só campanha. Só que a ideia também é atingir o Expresso conotando-o com uma fonte socialista, contando para isso com a preciosa ajuda da notícia do Observador sobre Pedro Delgado Alves. Seguramente, a Hugo Carneiro não lhe passaria pela cabeça pôr a PJ a investigar quem são as fontes que informaram o Observador em matérias que estavam em segredo de justiça. Ao Expresso, aposto, também não. Revelar possíveis fontes de um jornalista para responder a uma declaração política do líder da oposição, que apontava ao primeiro-ministro a responsabilidade da divulgação da informação, pode parecer assunto de grande relevância jornalística, mas é só mais um passo no caminho de descredibilizar o jornalismo, entrincheirando-o. Coloca o jornalismo no ponto onde ele pode ser manietado, insinuando que é apenas fiel depositário de interesses alheios. Pode não ter sido essa a intenção, mas foi esse o resultado. No final, ficou a insinuação de que a fonte do Expresso foi o deputado socialista.

Aliás, para contraditar a insinuação do líder do PS, bastaria dizer que o primeiro-ministro garantia não ter sido ele a fonte do Expresso e acrescentar que havia uma série de pessoas, na Entidade da Transparência e no Parlamento, com acesso àquela informação. Ir mais longe do que isto é pretender insinuar a fonte. Eu não sei quem foi, nem estou interessado em saber, o Observador não sabe quem foi, o PSD não sabe quem foi e ninguém ficará a saber. Nem mesmo com a peregrina ideia de pôr a PJ a vasculhar o registo telefónico do jornalista do Expresso por interposto registo de um deputado. Sim, para o efeito pretendido só haveria interesse se no registo de Pedro Delgado Alves houvesse uma chamada para um telefone de um jornalista do Expresso. Sim, o deputado do PSD queria aceder ao registo telefónico de um jornalista. Quando a campanha terminar, faça o favor de se meter ao caminho, senhor Presidente, e avise os deputados que não há Democracia sem liberdade de imprensa. Se quem faz as leis não as conhece, estamos muito mal entregues.»


3.12.24

O oxigénio da publicidade

 


«Em 1985, após o desvio de um voo da Trans World Airlines por um grupo muçulmano xiita, a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher acusou os media de fornecerem aos terroristas o “oxigénio da publicidade”. Com esta afirmação, pretendia dizer que a grande visibilidade concedida ao ataque não seria exclusivamente uma consequência do atentado, mas uma componente constitutiva do próprio atentado. Ou seja, este não havia terminado com o desvio do avião, tendo continuado, de uma outra forma, através da intensa cobertura mediática. Num tempo em que a lógica comercial e competitiva dos media se estava a consolidar, os grupos terroristas teriam aprendido a rentabilizar essa lógica emergente a seu favor, tornando os meios de comunicação seus cúmplices não intencionais. Deste modo, um atentado sem uma forte amplificação, mesmo que materialmente executado, falharia na sua plenitude.

Salvaguardadas as devidas distâncias, é possível usar um raciocínio semelhante para analisar o mais recente evento do Chega. Na manhã em que os media estavam em direto da Assembleia da República para acompanhar o derradeiro dia de um Orçamento do Estado que esteve no topo da agenda político-mediática durante meses infindáveis, o partido de Ventura organizou um happening em vários atos: através das tarjas nas janelas, das peripécias com os bombeiros e do embaraço e impotência institucional que gerou no hemiciclo, sequestrou o Orçamento em direto, disputando-lhe o protagonismo.

Astuto gerador de notícias, o partido pretendia marcar a agenda e o debate parlamentar, mas também (e sobretudo) a agenda e o debate mediático. De facto, a “ação de comunicação”, como Ventura lhe chamou, foi encenada de acordo com a lógica dos media. Apanhados na armadilha, estes acabaram por ser co-construtores involuntários de um evento que teria sido um fiasco sem a mediatização de que beneficiou durante e após o incidente. Alguns comentadores assinalaram o destaque excessivo que lhe estava a ser dado, mas tais desabafos não impediram a extensão da cobertura.

Com variações em grau, as emissões seguiram padrões semelhantes: o “invento” abriu as horas informativas seguintes e, depois de uma peça (ou mais) sobre o assunto, convidados em estúdio debatiam o sucedido. Mesmo quando a conversa era desviada para o Orçamento, ela era acompanhada por imagens em loop do episódio matinal e/ou de oráculos a destacá-lo. Deste modo, hora após hora, cumpriam-se os objetivos do happening: capturar a agenda mediática, enquanto se perpetuavam as imagens da impotência e desadequação das instituições a novas modalidades de ação política que se edificam no estraçalhar das normas informais que regem a cultura democrática.

No ambiente mediático altamente competitivo que se articula com a lógica algorítmica das redes sociais, poderiam os media não concentrar a atenção num episódio criativo, inesperado, surpreendente, desafiador, provocador, sarcástico, espetacular? De um ponto de vista informativo, claro que não! Mas o “oxigénio da publicidade” podia ter sido bem mais rarefeito.

Por tudo isto, está mais do que na hora de os media repensarem o modelo de cobertura que pretendem seguir quando eventos semelhantes tornarem a acontecer – provavelmente ainda mais criativos e surpreendentes, sendo mais difícil resistir-lhes. Se o não fizerem, as televisões arriscam-se a ser pouco mais do que cúmplices dos seus organizadores.»


11.10.24

O Governo que não gosta de perguntas de jornalistas

 


«No ano passado, assisti à conferência de imprensa do orçamento que fez o antigo ministro das Finanças, Fernando Medina, e aquilo não acabava. Esta tarde, Joaquim Miranda Sarmento "despachou-se" num instante.

A decisão do Ministério das Finanças é muitíssimo grave e põe em causa o direito à informação. Não vale a pena estar com rodriguinhos. Põe em causa, ponto final.

Não estamos a falar de uma proposta que seja simples (e mesmo se fosse…). O ministro das Finanças apresentou um documento de alta complexidade e acha que pode ser explicado ao povo sumariamente. Pior: acha que não tem que explicar nada, ou muito pouco, através da mediação jornalística, porque eventualmente os jornalistas não são de "fiar". Já sabemos que quem não sabe coisas estará sempre mais feliz do que quem sabe. Esta parece ser a regra determinada por este Governo e a sua gravidade não tem sido suficientemente escalpelizada.»

Ana Sá Lopes
Newsletter do Público, 10.10.2024

9.10.24

Acabar com a RTP e ter jornalistas domesticados?

 



A crise dos média, os governos e os jornalistas

 


«Os governos acham sempre que sabem melhor do que ninguém como se faz bom jornalismo. Normalmente preferem-no vagaroso a ofegante, esperam que os jornalistas se mantenham tranquilos e com uma visão positiva da actividade governativa. Há uma fase em que, para a generalidade dos governos (talvez a excepção tenha sido o governo de Santana Lopes), esse vagar e essa tranquilidade são mesmo a marca de água de uma comunicação social que entende dar o benefício da dúvida a quem chegou recentemente ao poder. Chama-se estado de graça.

Como é por demais evidente, este governo goza desse estado de graça e não vive com uma comunicação social particularmente agressiva. O exercício do poder desgasta a relação com os jornalistas e há uma grande diferença entre meio ano e oito anos e meio no governo. Importa pouco que quem deixa o poder mude de líder, o estado de graça não se aplica à oposição.

Feito este preâmbulo, importa dizer igualmente que a comunicação social, que faz uma análise crítica do exercício do poder, também pode ser criticada. Este texto não é a defesa corporativa da profissão que exerço. Acompanho o primeiro-ministro na crítica que faz ao surfar permanente na crista da onda de um jornalismo que muitas vezes é incapaz de ver para lá da polémica, que alimenta à exaustão. É claro que Luís Montenegro não deve fazer a mínima ideia do que é um direto de televisão, nem qual é a função de um auricular e de um bloco de notas digital incorporado num smartphone, mas isso são outros quinhentos.

O que verdadeiramente me incomodou como jornalista, numa conferência organizada pela Plataforma de Media Privados em que o governo foi anunciar o plano que tem para o sector, foi ver o primeiro-ministro aproveitar o palco que lhe foi oferecido para, na prática, dizer aos jornalistas: vocês não são qualificados, eu ajudo, mas vejam lá se amansam. Montenegro é, talvez, o primeiro-ministro que mais recusa responder às perguntas dos jornalistas e o que tem para nos dizer é que essas perguntas (essência da profissão) são muitas vezes sopradas aos ouvidos desses mesmos jornalistas. Por quem!? Se é por outros membros da redação significa que as redações funcionam e isso é bom, se é por alguém fora das redacções então a acusação é grave e convém que o chefe do governo concretize.

Acompanho o elogio generalizado à vontade do Governo assumir a responsabilidade de fazer a sua parte para garantir uma comunicação social livre, mas fico sempre com a pulga atrás da orelha quando vejo alguém destratar quem diz querer ajudar. O negócio da comunicação social não aguarda pela resolução do problema da quadratura do círculo, ele é inviável a longo prazo se não assentar na independência do jornalismo face ao poder instituído. É, por isso, que também me parece saudável que se separe o serviço público de comunicação social do negócio da comunicação social.»


1.4.24

Mendes e Portas serão as novas “conversas em família”?

 


«Um estudo tratou de mostrar que o comentário político nas televisões foi dominado, no ano de 2023, pela direita. Isto apesar de haver, nesse período, uma maioria parlamentar de esquerda. Arrisco-me a dizer, sem dados para além da minha observação, que a situação se agravou durante a campanha eleitoral, como é verificável em painéis de comentário em que as áreas próximas da AD, que se ficou pelos 29%, estiveram sobrerrepresentadas.

O resultado da coligação de direita (o pior de sempre, apesar da vitória, na soma entre o PSD e o CDS) ajuda, apesar de tudo, a relativizar a influência dos comentadores. Mas, ainda assim, pela pressão que o comentário crescentemente exercer sobre os espaços noticiosos e de debate político, e se queremos preservar a credibilidade dos órgãos informativos, não devemos deixar de ser exigentes. Não se trata de defender uma representação partidária. As televisões não são reproduções do parlamento. Trata-se de cumprir mínimos de pluralismo político.

Não preciso de me dedicar a especulações sobre o peso relativo de cada um. Chega-me falar de uma originalidade portuguesa: dois ex-líderes dos partidos que se juntaram numa mesma coligação têm o monopólio do comentário sem contraditório em canais abertos generalistas. Espaços que garantem, à partida e de longe, maior audiência. De tal forma poderosos que já ajudaram a eleger um Presidente (também ex-líder do PSD) e têm outro na calha para o mesmo projeto.

Não fazendo grande esforço para disfarçar a função política dos seus espaços exclusivos, Luís Marques Mendes e Paulo Portas não hesitaram em participar diretamente na campanha eleitoral das últimas eleições, saltando da cadeira de analistas para o palanque de comícios e, de novo, para a cadeira de analistas. Nada contra. Os comentadores não têm de ser neutros. Grave é que duas pessoas empenhadas na campanha da mesma força política tenham mantido este monopólio nas televisões portuguesas.

Já referi esta anomalia várias vezes por achar que isto merecia um debate antes de 10 de março. Mas, a partir da tomada de posse do próximo governo, a coisa passa a ser mais problemática. Porque, com o exclusivo da opinião sem contraditório em canal generalista aberto dada a dois apoiantes deste governo, que militantemente se empenharam na sua eleição, está em causa, pela desproporção de espaço dado ao poder e à oposição, a independência da comunicação social perante o poder executivo.

Ontem foi apenas mais um momento do que nos espera. A avaliação que Marques Mendes fez da composição do novo governo seria mais objetiva se fosse feita por Luís Montenegro. Tudo superlativo, magnífico, cheio de talentos, qualidade. Ou extraordinariamente óbvio ou positivamente surpreendente. O ex-lider do PSD conseguiu falar de todos os novos ministros sem encontrar uma única dúvida sobre qualquer qualidade de qualquer uma das escolhas. Provavelmente o melhor governo de sempre. Foram largos minutos de puro tempo de antena do novo poder, sem qualquer coisa que se assemelhe a uma análise. Digno de uma "conversa em família". É isto que teremos nos próximos meses?

O que já era uma aberração em qualquer país democrático passa a ser um prolongamento da estratégia política do poder executivo. A comunicação social também está sujeita ao escrutínio democrático. Ou acaba com estes espaços, ou cria espaços equivalentes em impacto para figuras independentes do governo, incluindo políticos próximos da oposição (que corresponde a 70% dos eleitores), ou pode ser confundida com a comunicação social (pública e privada) que conhecemos nas chamadas “democracias iliberais”.»

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24.3.24

Jornalistas

 

«Imaginemos 24 horas sem jornalistas em todo o mundo.

É um enredo para um livro distópico de terror.

Em 24 horas, todos estariam livres, humanos e máquinas, para produzir milhões de bytes de informação falsa ou até eventualmente verdadeira, mas não haveria ninguém para as distinguir. Nenhum órgão de comunicação social estaria em funcionamento para nos acalmar sobre as prováveis notícias loucas, alarmistas e falsas que circulariam.

E se não fossem 24 horas, mas uma semana de ausência total de jornalistas? Ou um mês? Ou um ano?

Nesse período, facilmente com notícias falsas indistinguíveis das verdadeiras, se escalariam ódios em relação a certas minorias, ou populações determinadas, e em relação a certas pessoas; poderiam circular notícias de tempestades iminentes na nossa cidade, notícias de assaltos numa certa zona da cidade; em suma, seria um caos total e uma desconfiança absoluta: o que será que está a acontecer? Ninguém saberia responder.

Poderíamos, então, fazer um livro de ficção com a premissa: e nesse dia acabaram os jornalistas em todo o mundo. E veríamos que esse livro de ficção descreveria a seguir um mundo em que ninguém saberia o que estava verdadeiramente a acontecer e que por isso seria gradualmente caótico, uma distopia que terminaria numa guerra civil generalizada. Porém, evidentemente, nunca saberíamos se essa guerra civil teria mesmo acontecido ou se seria apenas uma falsa informação.»

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6.3.24

Greve do “jornalismo mil euros”: em nome da democracia

 

@Gerhard Haderer

«Deixem-me fazer uma pausa na campanha. É que isto também tem a ver com a democracia. Tanto como a participação nas eleições.

Quando Pedro Coelho, que dirigiu o congresso dos jornalistas, anunciou, na antiga rede social Twitter, a marcação da primeira greve geral de jornalistas para 14 de março, os comentários dos leitores não foram de solidariedade. Deixando de lado fanáticos ou bots que combatem a comunicação social livre porque gostariam de não ter resistência à desinformação a que se dedicam, muitas seriam pessoas normais que olham para os jornalistas como inimigos. Uns lidam mal como o pluralismo, outros queixam-se, com razão, da falta dele. Uns não aguentam o escrutínio, outros lamentam a decadência (real) do jornalismo livre e independente.

Poucos, quase nenhuns, perceberão que a crise do jornalismo não resulta da incompetência dos jornalistas, apesar de ela existir, como em qualquer profissão. O jornalismo não é menos sólido, menos livre, menos rigoroso e até menos relevante porque os jornalistas são piores. O jornalismo não é uma atividade solitária, apesar de o “star system” que também adotou passar a essa ideia. É feito por estruturas e a sua qualidade depende de como elas funcionam e para aquilo para que foram pensadas. A mercantilização da informação nada tem de novo. É tão antiga como o jornalismo. Nova é a incapacidade de os jornalistas manterem a autonomia em relação à lógica estritamente mercantil. Hoje, os diretores de informação são diretores de vendas e os jornalistas produtores de conteúdos, atentos aos ecrãs que lhes dizem quantos cliques conseguiram. E isto explica-se pelas condições que alienaram o seu trabalho.

O crime empresarial cometido contra a TSF, a rádio que mudou a forma como se informa em Portugal, o “Diário de Notícias”, jornal nacional mais antigo do país, e o “Jornal de Notícias”, diário com maior implantação regional, foi o grito de alerta para todos: nós seremos os próximos. A situação na Global Media era má há muito tempo. Sofre, como toda a imprensa, com uma crise de modelo de negócio trazida pelas redes sociais, que sugaram grande parte da receita publicitária sem produzir muitos conteúdos e pagando muito poucos impostos. Sofre com uma nova cultura de consumo que não aceita pagar para ler notícias ou consumir conteúdos culturais. E sofre com o preconceito de quem vê o apoio cego do Estado a um bem essencial para a sobrevivência da democracia como mais perigoso para a independência do jornalismo do que o mecenato ideológico privado.

Os cortes de pessoal e de meios têm levado à insustentabilidade de um jornalismo com mínimos de exigência e qualidade em todos os grupos de comunicação social. Mas na Global Media as coisas degradaram-se até ao absurdo. Depois da entrada de empresários sem qualquer relação ou conhecimento do setor, o toque de finados veio com a entrada de um fundo com sede nas Bahamas que ninguém sabia a quem realmente pertencia, que interesses promovia e que parecia depender da venda da participação da Global Media na Lusa ao Estado para pagar os salários nos meses seguintes.

O que aconteceu na Global Media vai acontecer a grande parte das empresas de comunicação social, presas fáceis para se transformarem em instrumentos de propaganda do poder do dinheiro. Isso, se me permitem, tem sido visível nesta campanha eleitoral. E só é possível porque os jornalistas se proletarizaram.

Jornalismo mil euros

O Inquérito Nacional às Condições de Vida e de Trabalho dos Jornalistas em Portugal, encomendado pelo Sindicato dos Jornalistas, diz-nos que o salário médio da classe está nos 1250 euros líquidos. Um terço recebe menos de mil euros – a grande maioria vive e trabalha nas regiões mais caras do país. Há muitos repórteres e editores de imagem com falsos recibos verdes, estagiários a receber 150 euros por mês, freelancer a trabalhar por 20 euros à peça. Esqueçamos a questão social, que atinge outras classes. É possível escrutinar os poderes públicos e privados com este nível de proletarização?

Os jornalistas perderam autonomia em relação aos editores e diretores, respondendo a eles como um operário responde ao encarregado. Perderam sentido critico, porque é impossível mantê-lo quando produzem em série várias peças por dia para manter ativos os portais de conteúdos em que se transformaram os órgãos de comunicação social. Hoje, muito menos jornalistas que recebem muito menos fazem muitíssimo mais. Segundo o inquérito referido, metade fala em “esgotamento”.

As redações deixaram de ser intergeracionais, porque o os jornalistas mais novos, mais baratos, substituem quase todos os mais velhos, mais caros. Não sou dos que acham que as novas gerações estejam menos preparadas. Mesmo no jornalismo, que se tornou menos atrativo, isso não é verdade. Mas as redações perderam memória, o que é tantas vezes evidente no que chega às pessoas. E perderam o lastro deontológico que passa de geração para geração. O “jornalismo mil euros” não pode cumprir a função de informar.

A primeira greve…

O Sindicato dos Jornalistas deu um passo arrojado para uma classe com poucos hábitos de luta e de organização, em que tantos não se sentem “trabalhadores” até serem despedidos e em que tantas pessoas estão numa situação muito precária: marcar, quando o ambiente da comunicação social é de pré-colapso, uma greve geral para dia 14 de março, poucos dias depois das eleições. Uma decisão que resulta de uma deliberação do congresso dos jornalistas, realizado em janeiro. A mensagem principal deveria ser esta: resolver a insustentabilidade do modelo de negócio com a proletarização total do jornalismo pode resolver o problema aos empresários, não resolve os problemas do jornalismo e do seu papel para a democracia. Pelo contrário, agrava-os.

O que os jornalistas exigem é quase o regresso ao início do mais básico das relações laborais: contratos de trabalho estáveis, pondo fim a falsos recibos verdes, aos estágios ilegais e aos contratos a termo, que são, entre os jornalistas, estatisticamente mais comuns do que noutras profissões especializadas. Um aumento dos salários para mínimos de decência. Pagamento de horas extraordinárias ou isenção de horário. Compensações por trabalho noturno ou fins de semana. Tudo o que qualquer operário exige numa fábrica. E, já agora, que o governo português acompanhe o debate europeu para encontrar soluções de sustentabilidade para uma atividade que, sendo económica, é indispensável à sobrevivência da democracia e tem proteção constitucional. Não pode falir, como um todo.

Não nos podemos deixar limitar pelos discursos dos que conseguiram transformar o apoio dado ao setor durante a pandemia num ataque à liberdade e não no oposto. Mesmo que se tenham de encontrar soluções mais neutras, esse é o discurso de interesses privados e políticos que querem ver a comunicação social insustentável para mais facilmente a quebrar, pondo a desinformação nas redes no seu lugar, ou comprar, pondo-a ao serviço da propaganda.

...em muitos lugares

Apesar de muito difícil, esta greve não é uma aventura. Está alinhada com uma luta global em quase todas as democracias de que os jornalistas portugueses não se devem alhear. Nos EUA, houve greves de jornalistas um pouco por todo o país. Ao contrário de outros setores, como o automóvel, os jornalistas não conseguiram estancar a brutal perda de rendimento com a inflação. E as reduções de pessoal sucedem-se, com cada vez mais exigências para quem fica. Houve greves no Chicago Tribune, Los Angeles Times, New York Times, Washington Post, New York Daily News, Forbes, Vanity Fair ou Business Insider. Quase todas inéditas em mais de um século.

Também tem havido greves no Reino Unido, incluindo na BBC, e em Espanha (com marcações de greves e lutas no ABC, El Pais, El Mundo, La Vanguardia e El Perodico, protestando contra uma década de congelamento ou cortes salariais). A melhor imprensa internacional também deve ser referência no grau de exigência de quem nela trabalha.

Pelo menos por agora, os cortes brutais, mesmo nos órgãos de comunicação social mais globalizados, não resultam de uma modernização que permite fazer o mesmo com menos. Pelo contrário, está-se a fazer muito mais com muito menos. Resultam de uma crise do modelo de negócio (e da entrada de empresários sem qualquer relação com o setor) que não pode ser tratada como noutros setores. A economia sobrevive sem imprensa livre. A democracia é que não.

Por isso, o debate tem de ser diferente. Não pode ser de como as empresas de jornalismo podem ser viáveis, mas de como o jornalismo pode ser viável nestas empresas. Debate que só acontecerá quando a redução de pessoal e de salários até nenhum jornalista ser realmente livre de informar deixar de ser uma opção. A greve de dia 14 é dos jornalistas. Mas está muito mais em jogo do que eles.»

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20.1.24

As notícias “nossas” e as “deles”

 


«O recente Congresso dos Jornalistas foi dominado pela crise dos aspectos económicos e sociais que hoje avassalam o exercício da profissão, muitas vezes entregue a interesses que nada tem a ver com o jornalismo e a alguns abutres que vão ganhar dinheiro pelo caminho. No caso da Global Media é inadmissível que não se saiba quem são os donos de uma parte significativa da comunicação social portuguesa e que um sector que está sempre a reclamar pela transparência seja opaco numa questão fundamental. Imaginem que é um fundo russo, manipulado pelo Kremlin, ou o resultado de uma lavagem de dinheiro da droga?

Mas o problema do jornalismo é também o da sua qualidade, das ideias dominantes entre os jornalistas e da mecânica da criação e circulação das notícias. O problema do modo como as notícias são dadas é uma das manifestações do contínuo político-mediático que é hoje é um genuíno factor de crise da democracia afectando o “jornalismo de cima” e ampliando muito do “jornalismo de baixo”, que não é jornalismo mas é muitas vezes citado como produtor de notícias sem qualquer cumprimento de regras da profissão. O jornalista que usa como fonte as redes sociais está a suicidar-se como jornalista, como se frases sem edição ou contexto, pseudofactos ou fake news pudessem ser consideradas fontes noticiosas.

Duas questões moldam esse contínuo: uma é a crescente politização do “jornalismo”, outra é a subordinação do discurso jornalístico a lugares comuns, modas, superficialidade, incompetências, estereótipos, que faz com que a politização seja muitas vezes involuntária, pela dificuldade de se sair do rebanho, e ter autonomia de julgamento. Este efeito é potenciado pelo papel amplificador das classificações correntes nas redes sociais que imediatamente designam quer jornalistas, quer comentadores (e hoje o comentário não separa os jornalistas que o fazem dos restantes comentadores) de direita ou esquerda conforme as conveniências do autor de mensagens e entram na habitual guerra radical, que marca o contínuo político-mediático nestes dias.

Este é um processo que já não é novo, é mesmo anterior à existência de redes sociais, mas retrata a fragilização dos critérios jornalísticos. O Independente, que foi um jornal que moldou uma escola de jornalistas, como antes o Expresso o tinha feito com o jornalismo de cenários, preparou a ascensão da direita “popular” que mudou o nome do CDS, com uma mistura de snobismo de burgueses que tinham a nostalgia de não serem nobres, e os admiradores do “velho dinheiro” em contraste com o “novo dinheiro” da democracia, ridicularizando os homens das “meias brancas” que não sabiam comer à mesa. Esse forte snobismo social marcou muito do ataque ao chamado cavaquismo. Do mesmo modo, repete-se sistematicamente que a “geringonça” é que gerou a crise do PCP, quando não há qualquer evidência que tenha sido isso que afectou o eleitorado do PCP.

Vejamos alguns exemplos actuais. Por exemplo, quando se está a discutir o aumento significativo de mortalidade nos últimos meses a pergunta que ouvi feita a um especialista que estava a falar de vários factores explicativos foi a seguinte: “Não se deverá esse aumento de mortalidade aos problemas do SNS?” Essa pergunta tem sentido em abstracto, mas imaginemos que ela era formulada de outra maneira: “Não se deverá esse aumento de mortalidade à greve dos médicos?” Na verdade, a greve dos médicos é um “problema do SNS”, mas a forma como é apresentada a causalidade da mortalidade não é inocente. Aliás, a greve dos médicos nunca aparece como causa, ao contrário da greve dos ferroviários para as paragens de comboios. No entanto, nunca houve tantos simpatizantes das greves e de movimentos como o dos polícias desde que contribuam para atacar o Governo. Imagino que, se a “Aliança Democrática” governar, as greves e movimentos reivindicativos de trabalhadores tornar-se-ão de novo malditos e outras greves como a dos médicos não existirão.

Aliás quase todas as peças sobre os “problemas do SNS” que abrem noticiários, muitas vezes de formas casuística para ter um feito cumulativo, não têm qualquer paralelo com a informação comparativa com o sector privado. Os tempos de espera nos hospitais privados raramente são citados, nem referido como é feita a triagem de doentes não rentáveis devolvidos aos hospitais públicos, e o que aconteceu durante a pandemia.

Outro exemplo é a queda de favor da Iniciativa Liberal, que passou de dada dos jornalistas, ocupando o antigo lugar do Bloco, ao anátema desde que a sua actuação autónoma pareceu prejudicar os interesses da “Aliança Democrática”. Esta antipatia para com a Iniciativa Liberal é interessante, tanto mais que ela não parece traduzir-se ainda em sondagens. O Chega é valorizado pelos resultados nas sondagens, sejam quais forem os seus conflitos internos, a IL vê os seus problemas internos hipervalorizados, mesmo que eles não pareçam afectar o eleitorado.

Todos os dias em múltiplos casos, antigos ou modernos, se verifica esta duplicidade e isso favorece uma das razões da crise da nossa democracia: aumenta a radicalização, as notícias deixam de ser vistas pelo seu valor factual, mas como partes de um combate político entre “nós” e os “outros”. Isto é o habitual nas redes sociais, não devia ser no jornalismo.»

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11.1.24

Sobre a decadência do jornalismo

 

«Na primeira metade da minha carreira, aí até 2010, 2012, mais coisa menos coisa, a Visão tinha uma redação grande, mas que ainda assim parecia pequena para os níveis de exigência de então. Um artigo de abertura (6 a 10 páginas) era obrigatoriamente uma reportagem com vários casos pessoais, muitas vezes espalhados pelo País (chegávamos a fazer centenas de quilómetros para ir buscar uma história, porque Portugal não é só Lisboa e se o tema era nacional, tinha de ser nacional). Davam-nos pelo menos duas semanas para fazer o trabalho, porque, diziam-nos os mais velhos, a Visão não é um pasquim qualquer, cada prosa tem de ser escrita como se fosse uma peça de literatura. E a exigência não era só no nível de escrita: havia uma série de apertadas regras jornalísticas e do livro de estilo a seguir (“Tens de pedir sempre o nome e apelido, idade e profissão”, e ainda hoje tenho suores frios com as vezes que me esqueci de pedir a idade). O texto passava depois por um editor (que muitas vezes o mandava para trás para ser reescrito; sim, havia tempo para isso), depois um desk e finalmente um revisor. No caso de ser capa, ia ainda ao diretor.

E então veio o declínio. Com a oferta de notícias na internet, a revista (tal como os jornais) foi perdendo leitores. Os tempos de 65 mil revistas vendidas em banca, mais umas 30 ou 35 mil em assinaturas, rapidamente passaram a “É espetacular se vendermos 20 mil”. A publicidade passou a valer cada vez menos, os anunciantes fugiam para as redes sociais. Não havia dinheiro para contratar sangue novo, essencial para manter uma redação viva e estimulante, nem para aumentar os melhores jornalistas, que foram saindo na busca legítima de melhores condições, muitos deles abandonando o jornalismo. A redação envelheceu e emagreceu, ao mesmo tempo que o trabalho se multiplicou. Somos hoje um terço dos jornalistas que éramos e, em cima disso, passámos a ter de trabalhar muito, muito mais, porque é preciso “alimentar o site”. Deixámos de escrever e passámos a produzir. Já não há desks. Não há gente nem tempo para ler e editar os artigos publicados no site. Somos poucos e é preciso gerar volume e tráfego e há que trabalhar para o algoritmo, para nos mantermos relevantes no espaço noticioso. Quê, duas semanas para fazer uma reportagem?! Mas julgas que vai sair daí o Pulitzer, é? E o que vais dizer aos teus colegas do lado, que vão ter de trabalhar a dobrar para compensar o teu engonhar?

Não, já não me preocupo em pedir o nome e apelido, idade e profissão de cada um, porque estou mais preocupado em despachar o artigo e tenho mais dois para fazer ainda hoje. Não, já não percorro centenas de quilómetros para falar com “aquela” pessoa, apesar de o tema ser nacional. Não, já não vou ao estrangeiro fazer reportagem, porque não há dinheiro para viagens e hotéis. Não, nem sempre consigo cruzar a informação com todas as fontes que quero, porque há que dar a notícia já, antes que outro a dê, e as preciosas horas que passámos nisto vão por água abaixo. Não, não há a mínima perspetiva de ser aumentado, por mais que me esforce. Estamos todos presos neste ciclo de decadência contínua, em que o rigor e a qualidade se perdem por falta de tempo, e a falta de rigor e qualidade levam à perda de leitores, e a perda de leitores leva à perda de receitas, e a perda de receitas leva à perda e apatia de jornalistas, e a perda e apatia de jornalistas leva à perda de rigor e qualidade.

Caros leitores, isto não é uma justificação, mas apenas uma explicação. Vocês merecem mais. Nós sabemos isso. E fazemos o melhor que podemos. Não está fácil. Mas vamos continuar a lutar. O jornalismo é das profissões mais nobres do mundo. Acredito tanto nisso hoje como em 1999, quando entrei, fascinado até ao arrepio, pela primeira vez na Visão. Mais, até. Não é um trabalho, é serviço, é amor, é paixão, é a nossa vida.

Acompanhem-nos nesta luta. Ajudem-nos a fazer melhor. Continuamos a ser jornalistas até à medula. Não vamos desistir do jornalismo. Não desistam de nós.»

Luís Ribeiro no Facebook
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18.8.23

O que um jornalista ganha só pode ser fake news

 


«Neymar vai ganhar mais numa hora do que um jornalista com duas décadas de carreira num ano inteiro. É uma das conclusões que se pode tirar da tabela salarial do contrato coletivo de trabalho que o Sindicato dos Jornalistas revelou há dias, após oito anos de negociações. Diga lá, ilustre leitor, se não valeu a pena a espera: um jornalista com 10 anos de carreira terá um salário — base — a começar nos €1095; com 20 anos de carreira, €1328; com 40 anos de carreira, €2051. O novo valor de entrada na profissão passa a ser €903 e é apontado pela estrutura sindical como “um marco”. Só se for o marco alemão em 1923, pois não permite adquirir bens essenciais.

A primeira reação à tabela seria, naturalmente, “com sindicatos destes, quem é que precisa de patrões”, mas o mais deprimente é que o novo acordo representa efetivamente um avanço. Segundo um documento online em que profissionais da área partilharam anonimamente os seus vencimentos, há jornalistas com duas décadas de atividade a auferirem valores pouco mais altos do que o salário mínimo.

“Jovem, vem ser jornalista! Prometemos uma vida de constante pressão e responsabilidade. Em troca, oferecemos o salário de um trabalho de verão para adolescentes. Anda! Vem cobrir congressos partidários que acabam às quatro da manhã, momento em que poderás finalmente ingerir uma refeição encomendada no UberEats, entregue por um estafeta que ganha mais do que tu.” É, sem dúvida, uma carreira apelativa.

Há uma dúzia de cursos superiores de Jornalismo e Comunicação Social em Portugal. Seria interessante saber quantos dos formados vão efetivamente trabalhar na área. E, desses, quantos é que nela permanecem mais do que o tempo necessário para concluir que é um sector sem futuro. É que há toda uma geração de jovens que entraram em licenciaturas de Jornalismo convencidos de que chegariam à secção de internacional na “The Spectator”. Hoje são “colaboradores” no Departamento de Relações Públicas do ginásio Kalorias.

Desde que os jornais passaram a vender menos em banca e a dedicarem-se ao online, os aumentos salariais são praticamente inexistentes, mas um redator passou a ter de ser jornalista, videógrafo, gestor de redes sociais, especialista em SEO, blogger, podcaster, youtuber e tiktoker.

Simultaneamente, um jornalista precisa de saber quem é a ministra do Ambiente, estar a par das regras da utilização da vírgula de Oxford e dominar a pronúncia dos apelidos Aursnes, Gyökeres, Hjulmand, Schjelderup. Paradoxalmente, o declínio do jornalismo analógico tornou os profissionais da área em máquinas de escrever. Já não usam Remingtons, mas martelam furiosamente teclas em contrarrelógio para que o órgão para o qual trabalham seja o primeiro a revelar na homepage que o Marcelo deglutiu um gelado. Viver pelo clique, morrer pelo clique.

O estado atual do jornalismo representa bem a ideia de que a nova geração viverá uma vida mais precária do que a anterior. Jornalista nunca foi uma profissão que prometesse riqueza, mas, nos anos 90, o surgimento de novos e vigorosos meios de comunicação possibilitou salários justos e condições de trabalho atrativas. Na altura, ser jornalista era não só relativamente prestigiante como viável. Hoje, ser jornalista é mal pago e, frequentemente, malvisto. É difícil pensar numa função dentro dos media a que o público atualmente dê crédito. Talvez a de autor dos trocadilhos dos oráculos da CMTV.

Sim, já sei, já sei. A horda do “jornalixo” dirá que é bem-feita, que os jornais e os jornalistas ganham mais do que merecem, que foram subjugados à agenda globalista / capitalista / comunista / benfiquista / alfarrabista. Os jornais e os jornalistas são imperfeitos, mas sobretudo são “vendidos” quando noticiam coisas que não nos dão jeito e “corajosos” quando noticiam coisas que nos dão jeito. Agora, julgo que não é polémico afirmar que quem tem em mãos a responsabilidade do escrutínio deve ter direito a um salário digno. Especialmente quando o universo da informação é dominado por indivíduos como Elon Musk ou Mark Zuckerberg — homens adultos que, neste momento, estão a agendar um evento em que é suposto que andem literalmente à porrada.

Dir-me-ão, “Manuel, apresentaste um ou outro ponto interessante, mas não faz qualquer sentido que, no início do texto, tenhas comparado a situação dos jornalistas com a do jogador profissional de futebol Neymar”. Discordo, respeitável leitor. Também já houve jornalistas a acabar a carreira na Arábia Saudita.»

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2.7.22

Não sabe o que é o nó górdio? Se não sabe devia saber

 


«Ele há dias, em bom rigor cada vez mais dias, em que o meu interesse pela política corrente portuguesa, se não é nulo, é quase nulo. Não é uma atitude aconselhável, porque o desinteresse pela coisa pública não é uma atitude cívica que se deva ter, mas não consigo, pura e simplesmente não consigo, passar o dia a ouvir e a ler sobre as trapalhadas entre António Costa e Pedro Nuno Santos, ou sobre a tragédia da menina Jessica, ou sobre as “contingências” na saúde, ou as ciclópicas tarefas do novo líder do PSD. No entanto, em todas estas histórias há aspectos relevantes, seja a qualidade da acção governativa, seja o retrato da miséria física e moral do mundo da pobreza e a sua implícita violência, seja o conflito larvar entre corporações poderosas, interesses privados e, de novo, a incompetência da governação, ou sobre o dilema entre uma oposição dos decibéis ou uma oposição reformista num país demasiado pequeno e atrasado para poder ultrapassar os interesses instalados.

De novo, insisto, tudo isto é relevante e não merece indiferença, mas… a pasta informativa que nos é servida todos os dias transforma-o numa espécie de puré de batata, ou melhor num puré de maçã adornado por frutos vermelhos e uma pétala ou uma pequena flor por cima, como um pastiche da pseudo-comida francesa que por aí se come. E quando não é só isso, no meio do puré está um fio de veneno, com a crescente politização escondida da informação, que torna mais saudável ler o Abril, Abril, um site informativo do PCP que não engana ninguém, do que a mais sofisticada e profissional manipulação da Rádio Observador pelas manhãs. Isto para quem não seja seguidor de Mitridates do Ponto, como eu sou há muito tempo, e corra o risco de se envenenar mesmo a sério.

A culpa é dos jornalistas? Já foi mais do que o que é, porque, entretanto, o turnover geracional político e jornalístico criou uma espécie de simbiose no pensar, no falar, no viver entre os jovens políticos e jornalistas - jovem aqui segue o critério do Konsomol - que cada vez são mais parecidos na visão do mundo, no vocabulário, no modo de viver entre si, na frequência de lugares, de restaurantes, de leituras, de “sítios”, do que vêem na televisão e ouvem na rádio, que se entendem como quem respira. É uma coisa que se tem vindo a desenvolver nos últimos anos, uma comunidade de vida e cultura, uma redução da política a critérios mediáticos, uma espécie de contínuo entre a má política e o mau jornalismo feito de uma atenção quase obsessiva às chamadas “redes sociais”, de uma redução da complexidade a favor de um simplismo redutor, de uma pobreza vocabular de que resulta numa incapacidade expressiva e, por isso mesmo, ou uma brutalidade argumentativa ou uma sucessão de lugares comuns, muito pouco estudo e uma dose exagerada de comentários e debates televisivos.

Todos os rodriguinhos dos nossos tempos são absorvidos, quer como aspirações, quer como tabus, com um medo pânico e um não-pensar em relação às matérias proibidas, seja o racismo, seja a homofobia, seja a condição feminina, seja, noutra área de “negócios”, a interiorização da economia da troika, a começar pelo PS. A indiferença face aos estragos feitos à língua portuguesa pelo Acordo Ortográfico, que só subsiste pela inércia cultural da ignorância, é mais difícil de mudar do que pôr-nos a todos a dizer “todes” para sermos politicamente correctos.

Viver vidas a sério, ou seja as que têm dificuldades e escolhas, não garante experiência, mas as vidas de plástico aproximam-se muito do mundo imbecil das/dos influenciadores das revistas do jetset. Esperem para chegar a praia e vão ver como é. Ler muito também não garante nem qualidade nem razão, mas ler pouco garante muita ignorância e, para quem vive num mundo com uma forte componente explícita de símbolos e escondida de interesses, resulta num modus operandi de rotina e incompetência e de serviço aos glutões que por aí andam e comem estes políticos e jornalistas ao pequeno-almoço.

Dizer isto é elitismo e sobranceria? Talvez. Mas tenho por mim a memória de José Medeiros Ferreira e um seu momento numa entrevista em que falou do “nó górdio”, e a jornalista perguntou-lhe o que era. Medeiros Ferreira irritou-se e respondeu: “Se não sabe devia saber”.»

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29.6.22

Quando se partilham títulos sem ler o resto morre um bebé coala na Austrália

 


Não é só o Expresso: vários jornais, que vi até agora, optaram por títulos que falseiam o sentido da afirmação de Marcelo. Direitolas e feministas da 25ª hora, que só lêem «as gordas» partilhadas nas redes sociais, rasgam as vestes quando, desta vez, o homem parafraseou uma frase mais do que batida e certeira.

O que Marcelo terá dito (e cito o próprio Expresso) foi isto: “Está a melhorar, de facto está, mas verdadeiramente eu costumava dizer o seguinte: só haverá verdadeiramente igualdade entre homens e mulheres, quando chegar aos mais altos postos uma mulher tão incompetente como chega em vários casos, em inúmeros casos, aos mais altos postos, um homem”.

Daqui.
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Jéssica: não é mau jornalismo, é um ataque ao jornalismo

 


«Nunca acompanho pelas televisões casos como os de Jéssica. Quando envolve crianças, sei que virá manipulação emocional e o que sinto perante a barbaridade chega-me para não precisar de ser entretido por ela. Prefiro acompanhar pela imprensa, que me dá mais informação útil. Assim, só os protestos de várias deputadas e queixas à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) me levaram a ir à box para ver, por dever de ofício, aquilo que a maioria dos portugueses viu.

Até ao momento do velório foi o costume. Acusações de anónimos à mãe da criança – uma vizinha não identificada até explicava que não tinha a certeza do que dizia e que seria bom esperar pelo bom trabalho da PJ, mostrando mais bom senso do que quem a entrevistava. Julgamentos feitos com base em quase nada. Imagens de protestos de “populares” que, quando se indignam com qualquer abuso que veem na televisão, fazem à porta do tribunal o que se esquecem de fazer com a violência que acontece ao lado de sua casa. Jornalismo instantâneo, que finge não saber que há uma diferença entre investigar com cuidado, rigor e critério e recolher depoimentos dispersos para os transmitir, no próprio dia, na televisão. Até ouvi Marcelo Rebelo de Sousa comentar o caso, pedindo que se tirem lições daquilo de que tão pouco se sabe com certezas.

Ouvi as críticas lestas à CPCJ, que recebeu 40 mil queixas num ano e acompanha 70 mil casos. Não vou comentar o caso concreto, porque não padeço dessa pressa de julgar para aliviar a dor de alma que sinto. Mas este tipo de pressão, que acerta no totobola à segunda-feira, tem levado os serviços sociais de alguns países a adotar políticas defensivas que retiram os filhos aos pais ao mínimo sinal, criando um clima de terror nas famílias mais pobres, que têm menos defesas perante a cegueira das máquinas burocráticas quando preferem errar por excesso.

Aconselho, para quem queira, o filme “Listen”. Tudo é mais complicado do que o julgamento fácil depois das coisas acontecerem. Às vezes a escolha é afastar uma criança dos pais, causando traumas profundos, ou deixá-las com eles, causando traumas profundos. Com poucos meios, num Estado orgulhosamente minguado, mais difícil ainda. Veremos, no fim, o que falhou. E julgue-se então.

Mas foi quando cheguei aos telejornais do dia do velório, já exausto de tanto voyeurismo vazio de jornalismo, que percebi porque é que os protestos tinham sido mais claros do que o habitual. Aquilo que me indignou em 2016, quando um programa da manhã da CMTV acompanhou o velório de Samira, uma criança de 4 anos, tinha-se tornado o novo normal entre jornalistas. Todos os telejornais, com a honrosa exceção da RTP, se plantaram à porta de uma igreja para transmitir, em direto e sem filtro, o momento mais íntimo e privado de uma família. Vários transmitiram, em “loop”, imagens de explosões emocionais de uma avó. Para quem não tenha percebido, não há qualquer relevância informativa num velório de uma criança. É entretenimento macabro, apenas.

A CMTV vai sempre mais longe, já se sabe. Mas é só o líder do pelotão. Num exercício pornográfico de desrespeito pelos mais básicos direitos das pessoas, incluindo o direito à imagem, a cena da avó foi repetida com música de fundo e uma narração totalmente vazia de conteúdo informativo, mas carregada de adjetivos hipocritamente. Quando a tragédia é um produto, não estamos perante jornalismo. É outra coisa, que pode ser feita por qualquer pessoa. Pela Maya e pelo Nuno Graciano, por exemplo. Na realidade, só não podem ser feitas por jornalistas, que têm um código deontológico a cumprir.

Mas a CMTV não esteve sozinha no cerco a outra avó, quando esta saía, em choque, de casa, a caminho de velório, e era psicologicamente torturada e inquirida sobre os seus possíveis arrependimentos por uma horda de jornalistas. Excitados pela adrenalina do direto, foram incapazes de perceber até que ponto degradavam uma das mais nobres profissões.

Apesar do voyeurismo ser transversal nas suas vítimas, e até ter uma especial apetência por “famosos” – sobretudo os que aceitam entrar na perigosa carreira do exibicionismo da vida privada –, as coisas vão sempre mais longe quando chegam à porta dos mais pobres, sem qualquer defesa perante a máquina comercial do entretenimento da “vida real” que se trasveste de jornalismo. Não é jornalismo, e por isso não devia ter direito à proteção que damos à função de informar. Para ter direitos é preciso ter deveres - e está na altura de começarmos a fazer este debate a sério. Começando por quem trabalha no meio.

Neste tema, não há muito que enganar. Está tudo no código deontológico dos jornalistas:

“O jornalista deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor.”

“O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade, dignidade e responsabilidade das pessoas envolvidas.”

“O jornalista deve respeitar a privacidade dos cidadãos exceto quando estiver em causa o interesse público ou a conduta do indivíduo contradiga, manifestamente, valores e princípios que publicamente defende.”

“O jornalista deve combater e a censura e o sensacionalismo”.

No meio da orgia de exploração dos mais fracos, uma das suas principais promotoras (seria injusto para todos os que fizeram iguais figuras nomeá-la) disse que, e cito de cor, “este é o momento de Jéssica, que deixem ao menos que ela tenha este momento de paz”. Disse-o em frente à porta da igreja, onde decorria o velório que profanava. Ao mesmo tempo, condenava o Tribunal de Menores, a CPCJ, a segurança social. Se a função do jornalista fosse julgar, faltaria autoridade a todos os que se prestaram a isto. Se estivessem no lugar de qualquer um dos responsáveis que tenha falhado, também falhariam, como falham na sua função de informar.

São os jornalistas que têm de pôr fim a este contínuo atentado aos direitos de cidadania levado a cabo em nome de um negócio que instrumentaliza o jornalismo para funções que não são as suas. A transformação desta profissão numa forma de lucrar com a dor dos mais desprotegidos está a tornar o jornalismo numa atividade degenerada, vergonhosa e rasteira. Não é mau jornalismo, é um ataque ao jornalismo. Que, por atentar contra outros direitos essenciais dos cidadãos, põe em risco a defesa da liberdade de imprensa.»

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