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8.2.23

Querer ajudar é muito diferente de saber ajudar

 


«A primeira nota que gostaria de deixar, não me traz muitos amigos, mas ouvir repetidamente “não há portugueses entre as vítimas” é uma frase que me repugna. Temos de cultivar e alimentar os princípios mais basilares dos direitos humanos: todas as vidas são iguais. Em primeiro lugar somos seres humanos, cidadãos de um mundo cujas fronteiras são meras organizações administrativas, e só depois é que somos portugueses, não por orgulho, mas por obra do acaso.

Estamos a falar de um cenário de catástrofe humanitária causado pela natureza, que já nos aconteceu, que pode voltar a acontecer-nos e que gostaríamos que os outros países não “salientassem” a não-morte dos seus cidadãos, se tivéssemos milhares de mortos e feridos portugueses a sofrer.

Há duas realidades muito distintas, a da Turquia que tem serviços de saúde e de resgate de “1.º mundo”; e a da Síria cuja população vive em condições miseráveis e que se divide (infelizmente) também em duas realidades muito desniveladas dentro da miséria comum. As zonas controladas pelo governo, e o enclave da região de Idlib controlado por forças da oposição ao regime, que são 4,5 milhões de pessoas, das quais 90% precisa de ajuda humanitária para sobreviver, e que é vítima de bombardeamentos do regime de Bashar Al Assad, com o apoio tácito da Rússia, do Irão e do Hezbollah.

A maioria das pessoas que decide não ser cobarde e olha de frente esta triste realidade que entra pelo nosso coração adentro, quer ajudar, mas não sabe ajudar, e eu, mal ou bem, tenho muitas reflexões maturadas sobre este tema, que espero que vos sejam úteis, para hoje, amanhã e sempre.

1. Empatia é o que nos permite sentir a dor do outro, e compaixão é o ímpeto para a acção de ajudar. São as pedras basilares da humanidade. Sentir e fazer.

2. Sem querer ser ofensivo: pensamentos, energia e orações só ajuda o próprio, nada chega a quem precisa. Isso é inacção.

3. Donativos. A frieza do dinheiro é difícil de ultrapassar. Eu compreendo que as pessoas se sintam melhor a comprar e enviar medicamentos, seringas e compressas, e esse ímpeto é o mais bonito do ser humano, mas não faz qualquer sentido e é totalmente ineficaz. Transformem essa vontade em donativos.
  1. As organizações têm material pré-preparado para este tipo de catástrofes. Precisam é de o reforçar rapidamente.
  2. A logística de quem sabe o que faz é essencial. Transporte, desafios alfandegários, escolher quem precisa, tudo isso tem de ser coordenado.
  3. É mais barato comprar localmente do que o envio em si.
  4. A resposta às necessidades específicas é meticulosamente estudada.

4. Organizações não governamentais (ONGs) e outros profissionais. A palavra “voluntariado” é muito bonita e foi assim que nasceu o humanitarismo, mas este tipo de desafios precisa de profissionais humanitários. A boa vontade não chega. A experiência, as reflexões maturadas de décadas e o saber trabalhar em equipa, quer médica, quer logística, são a chave da solução. Na minha opinião as organizações mais bem preparadas são os Médicos Sem Fronteiras, o Comité Internacional da Cruz Vermelha, e os militares. Se quiserem dar um apoio local recomendo os White Helmets da Síria, que é o povo que mais sofre neste momento.

5. Voluntários? Eu não digo que não possam ser úteis, mas tentem integrar equipas já estruturadas e que não estão a fazer isto pela primeira vez.

6. Desconfiança. Não sei porquê, mas em Portugal há uma enorme desconfiança nas organizações e como tal refreiam-se os donativos. Compreendam que as organizações podem cometer erros, como qualquer sistema têm falhas, mas são auditadas interna e externamente e fazem análises permanentes sobre a melhor forma de ajudar. Não alimentem esta desconfiança, pelo amor das vidas que ainda podem ser salvas.

7. Oportunidade de ser, humano. Da forma mais cruel que podíamos imaginar estas catástrofes permitem-nos, por exemplo, olhar para a Síria e para o sofrimento do seu povo dos dois lados do conflito, após 12 anos de uma guerra civil que atirou milhões para a miséria humana, e por arrasto percebemos que o nosso humanismo de nos levar para todas as zonas do planeta, por exemplo, o corno de África que passa por uma fome devastadora.

8. Cuidados médicos. É muito complexo, mas eu resumiria em:
  1. Organização e coordenação entre equipas e países.
  2. Politraumatizados cujo maior desafio são as hemorragias, com a agravante que hipotermia mata muito rapidamente quem está a sangrar.
  3. Triagem. Fazer o máximo pelo maior número de pessoas. Saber quem deixar morrer, e quem pode esperar por cuidados cirúrgicos 24 a 48 horas, para rapidamente identificar as vítimas cujas hemorragias têm de ser estancadas nas primeiras horas e com suporte transfusional.
  4. Descompensação de doenças crónicas. As outras doenças não esperam e agravam quando se vive em tendas com temperaturas negativas.
  5. Grávidas. Principalmente as que precisam de cesarianas, porque “competem” com os feridos que precisam de cirurgias urgentes.

9. Infraestruturas. As vidas que estão em risco não se resumem aos mortos e aos feridos do imediato. A destruição do sistema eléctrico, de água e saneamento, de estradas, e de tudo mais que faz um país funcionar a curto/médio prazo, se não forem reparados por obras de grande porte, causam muito mais mortes do que aqueles que estão nos escombros.

Os portugueses gostam de proclamar que são um povo muito solidário. Isso não é verdade. Eu não digo que não tenhamos bom coração, nem acho que faça sentido comparar bondade entre países. A verdade é que os números dizem que podíamos fazer muito mais pela humanidade. O Good Country Index, que analisa criteriosamente o que cada país faz pela humanidade coloca-nos em 29.º lugar, atrás de muitos países europeus.

Querer ajudar é muito diferente de saber ajudar, e lamentando profundamente as mortes, e os feridos do povo turco, e sírio, espero que esta ferida aberta da humanidade seja uma dor que se transforma em aprendizagem de como ajudar de forma mais eficaz, e alargar esse pensamento a toda a humanidade.

Sentir e fazer.»

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18.7.22

4.7.22

Transportes noutros mundos (7)

 


À espera de turistas para grandes passeios no Bósforo. Istambul, Turquia (2011).
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2.11.19

Quem lucra com a guerra?



«Como sabemos, a 9 de outubro a Turquia iniciou uma invasão dos territórios curdos no norte da Síria e uma vez mais as populações de Rojava ficaram sob ataque. Há duas semanas, escrevi nestas páginas sobre esta invasão. Na altura, quis falar do povo curdo e da forma como tem sido massacrado ao longo da história. Sabemos bem que, nos tempos que correm, a razão principal das guerras é o lucro.

São vários os países no mundo que fizeram depender as suas economias do negócio da guerra. A invasão do Curdistão sírio por parte da Turquia não é uma exceção. Falemos então do negócio da guerra com os números que lhes estão associados. É importante fazê-lo porque a questão dos curdos, a nação sem Estado mais numerosa do mundo, ficou também ela refém de quem lucra com esta ofensiva militar turca.

É verdade que a União Europeia condenou a invasão turca e que alguns Estados membros anunciaram que poriam um fim aos contratos de venda de armas à Turquia. Contudo, nem os países da União Europeia conseguiram declarar um embargo total à venda de armas, e muito menos os países que tão prontamente anunciaram o fim dos contratos explicaram que isso seria só para novos contratos, mantendo os que vigoram atualmente e que continuarão a levar até à Turquia as armas que estão a ser usadas no conflito. Este "pequeno detalhe" é o que faz da União Europeia não um mero observador, mas uma parte ativa deste conflito.

Na União Europeia, só em 2017, foram emitidas licenças para venda de armas à Turquia no valor de 2,8 mil milhões de euros. O negócio das armas e de equipamento militar com a Turquia rendeu 34 milhões de euros à Alemanha, 736 milhões de euros à França, 266 milhões de euros à Itália e mil milhões de euros ao Estado espanhol. Podemos ainda detalhar mais, de forma não exaustiva, para que não restem dúvidas.

No caso da Alemanha, foram 18 milhões de euros em bombas, mísseis e engenhos explosivos e sete milhões em agentes químicos e biológicos, agentes antimotim e materiais relacionados. No caso da França, foram 112 milhões de euros em equipamentos blindados e de proteção e 90 milhões de euros em veículos terrestres e componentes. No caso da Itália, foram 197 milhões de euros em aeronaves e drones e 55 milhões de euros em munições e dispositivos de ajustamento de espoletas. No caso do Estado espanhol, foram 946 milhões de euros em aeronaves e drones e quatro milhões em navios de guerra e equipamento naval.

Estes são apenas os contratos em curso e nenhum destes foi denunciado. São estas as armas que estão a ser usadas contra civis, contra o povo curdo. Não haverá fim à vista para a guerra enquanto o negócio das armas continuar a prevalecer sobre os direitos humanos. Para inverter este ciclo, o povo curdo precisa mesmo do apoio da comunidade internacional e da sociedade civil, já que esperar por uma ação concreta dos governos que fazem negócio é mesmo tempo perdido. Não podemos dizer que não sabíamos.»

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16.8.18

A delícia turca de Trump



«Em 1889, o Expresso do Oriente partiu da Gare de l'Est em Paris e chegou, finalmente, a Istambul. Os europeus puderam, finalmente, ir de comboio até aos limites do continente e vislumbrar o Oriente. Istambul, já desde os tempos da Rota da Seda, era uma ponte geográfica entre o Ocidente e o Oriente. Foi a jóia de impérios e centro de poder político e espiritual. Do Império Romano do Oriente, Bizâncio, e do Império Otomano, até 1923. Ataturk modernizou-a. E a Turquia, na sua grandeza, tornou-se a porta por onde dois mundos se espreitavam e conheciam. Erdogan, rechaçado pela União Europeia, procurou um novo rumo, mais musculado, para a Turquia, tentando torná-la um exemplo para o Médio Oriente e para a Ásia Central. E foi aí que este importante país da NATO (com o seu segundo maior exército) entrou em choque com os Estados Unidos. Ancara está contra o apoio dos EUA aos curdos, está ao lado do Irão e do Qatar contra a Arábia Saudita e é a voz mais sólida para confrontar Israel na região. Nada disso agrada a Donald Trump. O caso do pastor americano preso na Turquia é um disfarce para as suas reais intenções: domar Erdogan.

A táctica é a mesma: a asfixia económica, transformada na arma política por excelência da era Trump. Cuidem-se pois todos os países que desafiem os "tweets" do CEO da Casa Branca. Só que esta pressão sobre Erdogan e sobre a economia da Turquia é inaceitável. Mesmo que a Europa não goste de Erdogan e das suas políticas, uma crise profunda da sociedade turca é tudo o que menos interessa à Europa. Porque seria uma vitória de um Trump que quer destruir a União Europeia. Mas também porque a Europa não pode esperar que um país com uma economia arruinada seja uma barreira contra terroristas ao mesmo tempo que acolhe milhões de refugiados de África. Isto para já não falar da necessidade que a Europa terá do segundo maior exército da NATO. Desestabilizar a Turquia é correr um risco equivalente a brincar com a chegada de um tsunami imprevisível. A Europa não pode esquecer isto.»

Fernando Sobral
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9.7.18

Entretanto na Turquia




É a este homem que a UE confia refugiados, juntamente com milhões de euros. Em nome dos «direitos humanos» que sempre defendeu, é claro.
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7.7.17

Turquia: directora da AI Internacional detida



«URGENTE! Estamos chocados. Depois do presidente, agora foi a diretora executiva da Amnistia Internacional Turquia que foi detida. Se o objetivo era calar-nos, estratégia errada: vamos fazer ainda mais barulho! Hoje unimo-nos para defender quem defende os nossos direitos.»

Assinem a Petição.
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23.5.17

2.8.16

As novas alianças da Turquia



«A tentativa de golpe na Turquia está a servir para que a Rússia se volte a aproximar de Erdogan. Mas os Estados Unidos não querem, nem podem, deixar afastar-se um aliado fundamental na NATO.

A tentativa de golpe de Estado na Turquia não tornou apenas Recep Erdogan mais poderoso. Abriu novas janelas para alianças julgadas impensáveis há um mês. Por exemplo, Erdogan vai visitar São Petersburgo em Agosto para se encontrar com Vladimir Putin. Trata-se de uma forma de cimentar relações que estiveram no congelador após ter sido abatido um caça russo e que melhoram substancialmente após Moscovo ter sido um dos primeiros países a condenar de forma inequívoca o golpe. Ao contrário da forma dúbia como o fizeram os tradicionais aliados ocidentais de Ancara. A ironia tem destas coisas: os pilotos dos F-16 que abateram o caça russo foram agora acusados pelas autoridades turcas de fazerem parte do círculo de Fethullah Gülen e de um deles ter mesmo bombardeado Ancara na noite do golpe. Ou seja, Erdogan tem para oferecer a Putin uma boa desculpa para o esfriamento das relações: foi uma manobra do círculo de Gülen para cortar as ligações com os russos e enfraquecer o Governo turco. E assim vão poder reatar-se as relações económicas, muito importantes para a Rússia (o território turco é uma via de transporte do gás russo para a Europa devido aos problemas na Ucrânia) e para a Turquia (sobretudo no turismo e agricultura), entre os dois países.

Há ainda outro dado importante: a Rússia não tem qualquer ligação com o movimento de Gülen, ao contrário dos EUA. Têm de resto sido revelados na imprensa americana fortes donativos de apoiantes de Gülen para a campanha de Hillary. Os russos, pelo contrário, sempre viram o movimento de Gülen de forma suspeita, devido à sua presença em várias repúblicas da Ásia Central. Se bem que sejam evidentes as ligações americanas a Gülen, os EUA não se podem dar ao luxo de isolar Erdogan. A Turquia é fulcral na luta contra o Daesh. E a sua importância no flanco sul da NATO é decisiva. Daí que tenha estado em Ancara o chefe de Estado-maior General das Forças Armadas americanas, o general Joseph Dunford. A ideia é desanuviar a tensão entre os dois países no sensível sector militar. Dunford encontrou-se com o general Hulusi Akar, que continuará a liderar as Forças Armadas turcas. Akar tinha sido escolhido para o posto por Erdogan em Agosto de 2015 e a ele caberá "limpar" os militares turcos sem afectar a sua operacionalidade. E isso faz parte da estratégia de Erdogan de supervisionar directamente as Forças Armadas turcas. Daí que as conversas de Akar com Dunford, incidindo sobre a NATO e a base de Incirlik, tenham que ver com a manutenção da ligação de Washington a Ancara. Resta saber onde caberá aqui a extradição de Gülen.»

31.7.16

Mais preocupante foi o vergonhoso acordo ter sido assinado!




Mas, finalmente, parece que o inefável presidente da CE começou a raciocinar:

«Na Polónia, o Estado de direito está a ser fustigado pela nova abordagem do governo polaco. Na Hungria querem um referendo para votar se aceitam refugiados. Se referendos passam agora a ser organizados sobre cada decisão tomada pelo Conselho de Ministros e pelo Parlamento da UE, então o Estado de Direito está em perigo.» 
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26.7.16

O grande jogo na pátria dos sultões



«A tentativa de golpe de Estado na Turquia destapou diferentes interesses que concorrem entre si. E que têm que ver com o futuro da Turquia e também do Médio Oriente.

Ponte entre o Ocidente e o Oriente, a Turquia vive a ressaca da tentativa falhada de golpe militar. Que embateu frontalmente contra a resistência popular nas ruas. Mas agora as questões são outras: até onde irá a purga massiva de "gulenistas" que está a ser seguida nos sectores militar, da educação e da justiça? Até onde irá o braço-de-ferro entre os Estados Unidos e a Turquia por causa do pedido de extradição do clérigo Fetullah Gulen? E como irá funcionar a base aérea de Incirlik, fundamental para a força aérea americana actuar na Síria contra o Daesh? Todas as questões acabam por estar interligadas e a resolução de qualquer delas terá fortes implicações nas outras. Isto num momento delicado no Médio Oriente. A detenção do comandante da base de Incirlik, o general Bekir Ercan Van e dos seus mais directos subordinados, demonstra a área sensível onde tudo se move. Erdogan também já disse que seria um "grave erro" dos EUA se não extraditassem Gulen. Para já ninguém diz que há uma ligação directa entre a utilização de Incirlik e a extradição de Gulen, mas tudo indica o contrário. Só que muito dificilmente os EUA extraditarão Gulen, algo que a não acontecer acabará por ferir o orgulho de Erdogan. Afinal Gulen (e a sua teia de interesses e actividades) tem sido um valor seguro da "inteligência" americana nas últimas décadas. Há quem refira que Israel também tem interesses neste complexo caso: desconfia das relações de Erdogan com o Hamas e deseja a criação de um estado curdo.

Por outro lado, é também curiosa a posição da Arábia Saudita em tudo isto: Riade abriu recentemente um consulado em Erbil (Curdistão) e um artigo no diário saudita "Asharq Al-Awsat" (propriedade do príncipe Faisal, filho do rei Salman) referia que Erdogan poderia ser removido do poder se continuasse a pressionar pela extradição de Gulen (que terá também fortes ligações à família real saudita). Riade também está nervosa por Erdogan estar a aproximar-se do Irão (e ter voltado a encontrar ligações com a Rússia). Alguns analistas consideram que a "destruição do círculo Gulen" poderá ser usado pelos poderes ocidentais para isolarem Erdogan. Só que o Ocidente não pode isolar a Turquia, já que a NATO depende muito dela na zona Sul. Ou seja, há um grande jogo de xadrez político e militar a ser travado entre diferentes actores. E onde nem todos os interesses são muitos claros. Seja como for, a Turquia é, neste momento, um país crucial para toda a política futura no Médio Oriente (e mesmo na Europa). E Erdogan sabe isso.»

Fernando Sobral