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14.3.19

14.03.1975 – O tempora, o mores


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8.6.18

Carlucci, essa criatura «cínica»



Francisco Seixas da Costa divulgou no Facebook o texto de um artigo publicado hoje no JN. Mas já que este jornal é useiro e vezeiro em não respeitar links (quantos textos de Manuel António Pina eu não perdi…), copio aqui na íntegra.

Carlucci

Há dias, uma televisão convidou-me a dar um testemunho, por ocasião da morte de Frank Carlucci, o embaixador que os americanos enviaram para Portugal, alguns meses depois do 25 de abril. Agradeci, mas não aceitei.

Faço parte de uma geração que, por algum tempo, viveu com a imagem regular de Carlucci na nossa (à época única) televisão. Aquela figura de rictus estranho, com umas patilhas de forcado, foi então uma espécie de vedeta nacional. Eu já era diplomata e tenho bem presente a sua importância na sociedade política portuguesa.

Segundo alguns historiadores, Carlucci terá convencido o chefe da diplomacia do presidente Nixon, Henry Kissinger, de que a deriva revolucionária portuguesa, subsequente ao 25 de abril, não condenava necessariamente o país a converter-se numa república socialista radical, que este via como uma espécie inevitável de "vacina" para a Europa ocidental. Para o embaixador, havia a opção de apoiar os líderes dos partidos moderados, tentando, com a ajuda de regimes pluralistas europeus, promover a instauração da democracia no país. O facto de isso ter assim sucedido é tido por muitos a crédito de Carlucci.

Por este facto, Carlucci transformou-se, aos olhos de alguns, num "herói" da democracia portuguesa, uma espécie de "santo padroeiro" do 25 de novembro. E os descendentes políticos dessa gratidão apresentaram, na Assembleia da República, votos (diferenciados) de pesar pelo passamento do político americano. Esse voto tem de ser respeitado. Quero, porém, deixar aqui claro que, se acaso fosse deputado, não me teria associado a ele, abstendo-me ou saindo da sala. Porquê? Porque não aplaudo cínicos.

Frank Carlucci apoiou os democratas portugueses, não pelo sentido humanista decorrente de uma opção a favor da vida política em liberdade no nosso país, mas exclusivamente porque esse era o interesse geoestratégico americano de ocasião. Mas não será isto um preconceito? Não creio. Em outras ocasiões, a História prova que o mesmo Frank Carlucci deu apoio, claro e deliberado, a golpes políticos conducentes à instauração de ditaduras e regimes opressivos noutras partes do Mundo. Com orgulho declarado e sem o menor remorso.

Aliás, não é necessário ir muito longe para constatar essa duplicidade: a mesma administração americana que enviou Carlucci, para substituir um diplomata que não tinha "visto chegar" a Revolução cujas consequências pretendia combater, era precisamente o mesmo que até então se mostrara plenamente confortável com o regime ditatorial de Marcelo Caetano. Desejo assim que Carlucci descanse em paz. Nada mais.
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10.1.17

8.1.17

Mário Soares no Gato Fedorento






Tem piada rever isto agora.
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Mário Soares, PCP e BE – Descubram-se as diferenças



Pode não se ser apenas laudatório quando se refere a morte de alguém de quem se divergiu em vida, mas o texto divulgado pelo PCP (refiro-me ao carácter inoportuno do último parágrafo), e lido publicamente por um dirigente desconhecido do grande público, e não pelo seu secretário-geral, foi, na minha opinião, de uma índole inqualificável e que «legitimou», nas redes sociais, ataques a Mário Soares absolutamente execráveis. Registe-se para memória futura.

«Mário Soares, fundador do Partido Socialista, seu Secretário-geral, personalidade relevante da vida política nacional, participante no combate à ditadura fascista, no apoio aos presos políticos, desempenhou após o 25 de Abril os mais altos cargos políticos, designadamente como Primeiro-Ministro, como Presidente da República e membro do Conselho de Estado.

Lembrando o seu passado de antifascista, o PCP regista as profundas e conhecidas divergências que marcaram as relações do PCP com o Dr. Mário Soares, designadamente pelo seu papel destacado no combate ao rumo emancipador da Revolução de Abril e às suas conquistas, incluindo a soberania nacional.»

«Mário Soares foi um dos maiores protagonistas da política portuguesa e marcou o século XX. Foi combatente anticolonial e antifascista, preso político e exilado. Foi constituinte e fundador do regime constitucional de 76, ministro de governos provisórios, Primeiro-Ministro e Presidente da República. Socialista, republicano e laico, como ele próprio se definiu, foi o mais comprometido obreiro da integração de Portugal na União Europeia.

Ao longo da sua vida, Mário Soares foi contraditório e frontal nas lutas que escolheu. Marcou todos os momentos determinantes da vida do país, por vezes em conflito e outras vezes em aliança com forças de esquerda. No tempo mais recente, levantou-se contra a invasão do Iraque e as guerras no Médio Oriente, assim como na defesa da Constituição da República Portuguesa contra as novas regras sociais impostas pela troika. Opôs-se às políticas de austeridade do governo PSD-CDS e saudou a mudança imposta pelas eleições de 2015.

O Bloco de Esquerda saúda a sua memória, dirigindo os seus pêsames a toda a família de Mário Soares e aos militantes do Partido Socialista.» 
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7.1.17

Caminhos da Liberdade




O documentário da RTP foi realizado em 1974 e recupera alguns dos momentos-chave do 25 de Abril, em particular o regresso de Mário Soares depois do exílio.

(Via esquerda.net)
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Deportação para S. Tomé - uma terrível data para Mário Soares




No dia em que Mário Soares morreu, e quando praticamente ninguém se cala em inúmeras declarações laudatórias, prefiro retomar um texto antigo que retrata um dia bem importante da sua atribulada vida – a deportação para S. Tomé – e a solidariedade que a mesma suscitou em todos os que então resistiam e lutavam contra o fascismo.

Mário Soares foi deportado para S. Tomé, pouco depois de ter estado preso e incomunicável, durante três meses, pretensamente por ter fornecido a um jornalista do Sunday Telegraph informações relativas a um escândalo sexual que envolveu suspeitas de actos pedófilos por parte de várias figuras públicas – o chamado caso dos «Ballet Rose». No fim de Fevereiro de 1968, conseguiu sair em liberdade na sequência de um pedido de habeas corpus.

O que se seguiu, aqui resumido por Maria João Avillez (Soares. Ditadura e Revolução, 1996, Círculo de Leitores, p. 197):


Detido pela PIDE nesse 19 de Março, foi-lhe comunicado que partiria para S. Tomé no dia seguinte, por volta das onze horas da noite. Rapidamente espalhada a notícia (sem internet, sem telemóveis...), centenas de pessoas, de todos os quadrantes da oposição, dirigiram-se para o velho aeroporto da Portela, na tentativa de chegarem a uma varanda de onde então se podia assistir a descolagens e aterragens de aviões. Em vão, porque a polícia correu tudo à bastonada. Recordo bem algumas cabeças partidas e correrias atabalhoadas por corredores e escadarias. Alguns escaparam: Maria Belo, por exemplo, porque era loira, foi tomada por estrangeira e saiu calmamente, sem pressas e sem que os bastões lhe tocassem. Eu não era loira, mas só um me tocou – e de raspão.

In illo tempore, havia um consenso sagrado: contra a PIDE, sempre, quaisquer que fossem as afinidades ou as divergências. E, se existiam algumas (poucas) excepções, não faziam mais do que confirmar a regra. 
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3.6.14

Uma bela piada de Soares



Hoje, no DN:

«Mas[António José Seguro] nunca [esteve] claramente à esquerda, como foi sempre a posição do PS desde que se tornou um partido em 1973, data da sua constituição.»

Importa-se repetir??? 
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19.3.14

1968: Mário Soares detido e deportado



Mário Soares foi deportado para S. Tomé, pouco depois de ter estado preso e incomunicável, durante três meses, pretensamente por ter fornecido a um jornalista do Sunday Telegraph informações relativas a um escândalo sexual que envolveu suspeitas de actos pedófilos por parte de várias figuras públicas – o chamado caso dos «Ballet Rose». No fim de Fevereiro de 1968, conseguiu sair em liberdade na sequência de um pedido de habeas corpus.

O que se seguiu, aqui resumido por Maria João Avillez (Soares. Ditadura e Revolução, 1996, Círculo de Leitores, p. 197):


Detido pela PIDE nesse 19 de Março, foi-lhe comunicado que partiria para S. Tomé no dia seguinte, por volta das onze horas da noite. Rapidamente espalhada a notícia (sem internet, sem telemóveis...), centenas de pessoas, de todos os quadrantes da oposição, dirigiram-se para o velho aeroporto da Portela, na tentativa de chegarem a uma varanda de onde então se podia assistir a descolagens e aterragens de aviões. Em vão, porque a polícia correu tudo à bastonada. Recordo bem algumas cabeças partidas e correrias atabalhoadas por corredores e escadarias. Alguns escaparam: Maria Belo, por exemplo, porque era loira, foi tomada por estrangeira e saiu calmamente, sem pressas e sem que os bastões lhe tocassem. Eu não era loira, mas só um me tocou – e de raspão.

In illo tempore, havia um consenso sagrado: contra a PIDE, sempre, quaisquer que fossem as afinidades ou as divergências. E, se existiam algumas (poucas) excepções, não faziam mais do que confirmar a regra. 
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30.11.13

Importa-se de repetir, dr. Mário Sores?



«Graças à intervenção do PS, depois do 25 de Abril, a Igreja portuguesa tornou-se muito aberta , com o patriarca D. António Ribeiro, e progressista (...). Mas parece que, com o novo patriarca português, tudo está a mudar, o que é péssimo e triste para o futuro.
Porquê? Porque a Igreja portuguesa tem mantido um silêncio inaceitável, tal como o actual patriarca, em relação ao Papa. Parece que não gosta dele ou mesmo que o detesta.»


1 – Dizer que o cardeal António Ribeiro era mais progressista do que Manuel Clemente é assim a modos que afirmar que «OMO lava mais branco». Porque sim. E porque se sabe que a memória de muitos é curta, a de outros inexistente, e a de MS selectiva.

2 – Sobre o contributo de MS para o «progressismo» do cardeal de Lisboa em 1975, recordo parte de uma entrevista que concedeu ao «i» em Novembro de 2011 (com link agora indisponível): 

«Nessa altura conversei algumas vezes com o patriarca [António Ribeiro]. Antes do 25 de Novembro estávamos à beira da guerra civil e resolvemos fazer uma grande manifestação na Fonte Luminosa, que foi a maior manifestação de sempre em Portugal. Fui falar com o cardeal, por intermédio da Maria de Lourdes Pintasilgo, que nessa altura estava totalmente comigo. Aliás, esteve quase sempre. Só houve alguma rivalidade quando foi candidata à presidência. Mas deu-me muito jeito, porque teve 7%. Se não fosse isso, talvez não tivesse chegado a número dois. Nessa altura disse a Maria de Lourdes Pintasilgo que precisava de falar com o cardeal. (…) Estivemos uma hora a conversar. Disse: “Senhor cardeal, se nos quer ajudar, tem uma maneira. Diga aos padres da área de Lisboa que no final das missas vão à Fonte Luminosa.” E foram. Uma boa parte da gente que estava na Fonte Luminosa era católica.» (Realce meu.)

Entendidos?

(Foto: Protesto no Patriarcado, em 18 de Junho de 1975, contra a administração da Rádio Renascença, com contramanifestantes que se refugiaram no átrio – apoiantes do Patriarcado, com os quais o PS viria a solidarizar-se por comunicado.) 
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14.1.13

A propósito do internamento de Mário Soares



Nas redes sociais, e em alguma blogosfera, vai longa a discussão em torno do internamento de Mário Soares no Hospital da Luz. O Daniel Oliveira já escreveu o que se impunha sobre o aproveitamento político da situação, mas há mais.

Chegada a hora de precisar de recorrer a uma instituição hospitalar, não deve alguém que sempre defendeu o Serviço Nacional de Saúde recorrer à rede pública, sobretudo num momento em que esta passa por uma fase crucial da sua existência (e mesmo subsistência)? Não é esse dever agravado por se tratar de um ex-presidente da República, que tem uma obrigação especial de dar o exemplo?

Em termos gerais, ninguém ainda conseguiu convencer-me que aqueles que defendem acerrimamente o SNS – universal, tendencialmente gratuito e excelente (e eu defendo) – devem, que mais não seja por uma questão de coerência consigo próprios, sentir-se obrigados a não recorrer ao privado ou fiquem minimamente desconfortáveis quando o fazem.

Toda a gente sabe que, pelo menos até agora, é mais seguro recorrer ao público num determinado número de casos especialmente graves. Mas argumenta-se que, se os «mais ricos» vão ao privado (sempre ou pontualmente), o SNS será cada vez mais só para os realmente pobres. Não vislumbro por que razão, necessariamente. Por falta de utentes? Porque passam a ter pior fama, pior aspecto? Para citar apenas o dito Hospital da Luz, quem o frequenta vê as salas de espera cheias de gente igualzinha à de um centro de saúde, tantas são as convenções (alô ADSE...), PMEs em que o seguro de saúde é negociado como parte do salário, etc. etc. etc. Porque são tirados recursos ao público? Não duvido que o actual governo e as suas troikas só não matam o SNS porque não podem, mas certamente que ninguém espera, ou sequer pretende, eliminar o privado. E a luta pelo SNS é colectiva, não passa por estados de alma e culpabilidades individuais.

Quanto ao segundo ponto – o exemplo a ser dado por um antigo presidente da República, ainda por cima socialista –, o clamor vem da direita e também de alguma esquerda. Mas exemplo de quê? O cidadão Mário Soares deixou de ter liberdade «moral» de escolha porque, há quase três décadas, foi eleito e exerceu um cargo durante dez anos? Se ele tivesse ido para Santa Maria, exigido um tratamento sem favores, estivesse numa enfermaria com mais 5 ou 6 pessoas, não seria acusado de populismo? Se Cavaco Silva precisar de ser hospitalizado tem de ir para S. José? Somos mais papistas do que qual papa? Estamos na Coreia do Norte? Até Hugo Chávez escolheu um serviço de saúde aparentemente melhor que o do seu país e está em Cuba!...

Dar exemplos de outras áreas pode ajudar, fiz mais de uma vez esta pergunta no Facebook, mas ninguém respondeu: por defender que os transportes públicos devem ser excelentes e tão baratos quanto possível, para todos, em parte à custa dos meus impostos, devo deixar o carro á porta e a andar de autocarro? Isso é bom para quem? 
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22.10.12

O povo gosta do bloco central?



Segundo uma sondagem realizada pela Pitagórica para o jornal «i», 81,5% dos inquiridos respondem que «desaprovam a forma como o executivo está a governar o país». 

No entanto, desses mesmos inquiridos, 37,8% ainda votariam num dos dois partidos que formam a coligação (gente confiante na ressurreição desta, certamente...), embora a manta viesse a ficar demasiadamente curta.


Não vale a pena somar o que não interessa «se as legislativas se realizassem neste momento» – as percentagens de PS + CDU + BE –, por mais sonhos que por aí andem. Haverá túnel, mas (ainda?) sem luz.

PS + CDS não chega para nada.

Mas o que é assinalável é a constância no amor dos portugueses pelo «bloco central»: PS + PSD sempre com mais de 60%. 

Por muitas das afirmações que faz, é bem provável que, conscientemente ou não, o dr. Mário Soares ainda sonhe com o seu governo de 1983-1985, com Mota Pinto, como modelo para sairmos da actual crise. Mas o que não se sabe é se Cavaco Silva tem ainda, umas décadas passadas, o mesmo asco a que o seu partido de sempre governe de braço dado com os socialistas. Em 1985, assim que ganhou o congresso da Figueira da Foz (19 de Maio), não descansou enquanto não acabou com a coligação reinante e o «divórcio» só foi adiado por uns dias para não inviabilizar a assinatura do Tratado da nossa adesão à CEE, em 12 de Junho. (Logo a seguir, ganhou legislativas, primeiro com maioria relativa e depois absoluta.)

As pessoas não mudam tanto quanto se pensa e é por isso que não é inútil recordar alguns amores e ódios do passado quando os protagonistas ainda andam quase todos por aí. Os partidos também são bastante fiéis aos seus ADN, by the way, e esta é, provavelmente, uma das razões pelas quais ninguém consegue prever como sairemos do imbróglio governamental em que nos encontramos.

«Defendo» eu uma aliança PS + PSD? De modo algum (sinceramente, nem defendo nada, neste preciso momento...). Mas há um passarinho que me diz que lá chegaremos, com ou sem um berloque chamado CDS, se Cavaco não recusar a priori a hipótese, como o fez há vinte e muitos anos. 

(Fonte dos gráficos)

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10.10.12

Três ex-presidentes da República e um outro



Num mesmo dia, o de ontem, os três ex-presidentes da República eleitos em democracia pronunciaram-se, directa ou indirectamente, em registos diferentes mas todos especialmente preocupados e críticos, sobre o estado actual do país e da sua democracia. Goste-se, ou nem por isso, de todos ou de nenhum deles, trata-se de um facto importante pelo seu significado. 

Ramalho Eanes deu uma entrevista à Rádio Renascença, Mário Soares publicou um extenso artigo no Diário de Notícias, Jorge Sampaio respondeu a perguntas de internautas, numa iniciativa de Le Monde.

Três citações que ilustram o tom e o estilo de cada um: 

Ramalho Eanes: «O Estado não pode gastar muito menos do que aquilo que gasta, em áreas consideradas fundamentais num estado social.» 

Mário Soares: «Quando os governantes manifestam medo do Povo - e fogem dele - algo vai muito mal. (...) É próprio de uma Ditadura.». 

Jorge Sampaio: «Devo dizer que a austeridade pela austeridade, a austeridade excessiva, pode prejudicar terrivelmente a democracia. Porquê? Porque a democracia precisa de esperança. E se não se vê a luz ao fundo do túnel, a esperança vai-se.»

Ontem, o pior presidente português eleito em democracia, o actual, não disse nada. É verdade que já tem feito algumas declarações dispersas sobre excessos de austeridade. Mas ainda ecoam nas nossas cabeças os ecos do discurso inócuo, incolor e inodoro que fez no dia 5 de Outubro. Podia ter sido feito por algum dos seus três predecessores? Não creio. 
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