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11.11.25

11.11.1975 – Independência de Angola

 



50 anos.

15.3.25

15.03.1961 – Angola, no «dia do terror»

 


Foi nessa data que se deu o ataque da UPA no Norte de Angola, naquele que foi considerado o primeiro acto para a libertação do país e que marcou o chamado «dia do terror». O vídeo resume bem os acontecimentos.

Foi também nesse dia que, pela primeira vez, os Estados Unidos votaram positivamente uma moção contra Portugal no Conselho de Segurança da ONU.

Nos primeiros dias de Março, o próprio Kennedy, através do embaixador em Lisboa, envolveu-se pessoalmente na questão, insistindo com Salazar para que Portugal anunciasse publicamente o princípio da autodeterminação e independência de Angola. Diz Franco Nogueira (Salazar – A resistência, Vol. V, p.211) que, no fim de uma reunião com o embaixador Elbrick, Salazar terá concluído: «Ouvi-o atentamente e agradeço-lhe a sua visita. Muitos cumprimentos ao Presidente Kennedy. Muitos boas tardes, senhor embaixador.» E nada mudou na posição portuguesa, como é sabido.

Assim se chegou a 15 de Março, quando Libéria, Ceilão e República Árabe Unida apresentaram um projecto de resolução no Conselho de Segurança, que sublinhava os perigos que a situação em Angola representava para a paz e para a segurança mundiais e exigia expressamente reformas que pusessem fim ao colonialismo. Kennedy deu instruções para que os Estados Unidos votassem positivamente, juntando-se assim aos três proponentes e à URSS. Cinco votos a favor, portanto, mas seis abstenções (França, Inglaterra, China, Chile, Equador e Turquia): a resolução não obteve a maioria de votos necessária para ser aprovada, mas as relações dos Estados Unidos com o salazarismo ficaram profundamente afectadas. Quanto a Angola, esperaria mais 14 anos para ser independente.


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11.7.22

José Eduardo dos Santos e novos colonos

 


«Quando morre uma figura pública, os comentadores decentes vivem sempre o dilema de como serem justos sem serem insensíveis. Até por saberem que os que partem deixam familiares e amigos que sofrem com as críticas a quem já não se pode defender. Mas este texto não é apenas sobre José Eduardo dos Santos. É sobre o que lhe é prévio e lhe sobrevive.

José Eduardo dos Santos foi escolhido como sucessor de Agostinho Neto porque parecia ser a escolha menos definitiva e o mais fraco e fácil de incluenciar. Não reforçou o poder pela força do revolucionário ou pela visão do líder, mas através da compra da elite do MPLA, movimento de inspiração socialista que hoje não é mais do que uma plataforma de negócios, distribuindo a riqueza pela outrora desavinda elite do partido. Conseguiu, depois 27 anos de guerra e meio milhão de mortos, a paz. É verdade. Com a paz, construiu uma nação onde, apesar das imensas riquezas, mais de metade dos angolanos sobrevive com menos de 1,90 dólares por dia e onde permanecem das piores esperanças médias de vida e mortalidades infantis do mundo. A oportunidade falhada de construir uma democracia resume-se no facto dele próprio nunca ter sido eleito nominalmente presidente – a segunda volta das eleições nunca se realizou e, para não correr riscos desnecessários, José Eduardo dos Santos mudou a Constituição para que a eleição deixasse de ser direta. Depois da exibição pública da morte de Savimbi, também comprou a UNITA e reforçou assim o poder do MPLA. Foi e continuará a ser dentro dele que as lutas pelo poder se fazem.

Depois da queda do muro de Berlim, afastou os poucos a quem a ideologia ainda dizia alguma coisa e instituiu uma cleptocracia de estilo capitalista como sistema económico. Não houve qualquer reflexão política na mudança ideológica do MPLA (que deixou de ser dos “trabalhadores”), houve puro oportunismo de uma elite que tratava de si própria. O CEO-ditador, principal acionista de Angola, adaptou-se ao mercado. Acumulando o estatuto de dirigentes partidários, militares e empresários, muitos dos que chegaram ao poder como libertadores iriam construir a nova classe dominante de Angola. À cabeça do roubo pornográfico, os herdeiros mimados do presidente. Com o aparelho repressivo do Estado, que nunca deixou de recorrer ao assassinato, tortura e prisão, ao serviço desta nova casta de milionários.

Julgar que em 50 anos de independência se vencem 500 de colonialismo, delapidação, opressão e subdesenvolvimento é o conforto dos ex-colonos. Que, no nosso caso, vivem das memórias forjadas pelo seu próprio privilégio. Outra das características da desigualdade, que no colonialismo tem a marca acrescida da discriminação racial, é que a parte privilegiada julga saber muito sobre o país onde vive, mas ignora os sentimentos, as condições de vida e as aspirações da maioria que colonizava. E por isso os processos de descolonização são, logo à partida, tão traumáticos para o colonizador. Ele não compreende o que não pode compreender. Porque, se pudesse, a sua revolta – e houve brancos que se revoltaram – teria vindo com a consciência da realidade.

O colonialismo de séculos não morre em décadas. Não morre nas relações internacionais. Aquilo a que chamamos neocolonialismo não é mais do que o prolongamento de dominação dos que aproveitam a vantagem da exploração do passado para a continuar. O colonialismo não acaba com a independência de um país. Podem mudar os colonos, mas não muda a convicção de que recursos e a soberania não pertencem aos povos que vivem nos territórios coloniais. É impossível compreender os movimentos nacionalistas da América Latina sem compreender que, dois séculos depois de Bolívar, estes povos ainda lutam contra o colonialismo do Norte.

Em África, o colonialismo deixou marcas especialmente difíceis de ultrapassar, seja pelo legado da escravatura, seja por fronteiras desenhadas para o capricho dos interesses coloniais, seja pela criação de instituições sem qualquer relação com as realidades sociais e culturais dos povos, que arrogantemente consideramos universais.

Mas o colonialismo também perdura como cultura económica e social interna às nações. Nuns casos, copiaram o modelo capitalista ocidental, noutros o modelo soviético ocidental, em quase todos uma nova elite de libertadores substituiu a elite colonial e, sem realmente garantir a autodeterminação do seu povo, perpetuou as relações coloniais de poder. Com uma economia extrativista que não garante desenvolvimento e soberania. E com a construção de uma elite "colonial" que, concentrando toda a riqueza, se isola do povo. Tiveram nos mestres coloniais o seu modelo. E, como tantas vezes acontece – veja-se Israel –, o oprimido mimetiza o opressor quando muda de lugar. Porque aquelas são as relações de poder em que foi formado.

Que não haja equívocos: celebro a descolonização e os que dizem que foi “mal feita” parecem acreditar que, apesar de ter acontecido tão fora de tempo, ainda era nosso direito determinar como se faria. É sempre preferível que os povos cometam os seus próprios erros, combatam as suas próprias elites. Recuso qualquer paternalismo. Mas o colonialismo, anterior e posterior à independência (é impossível ignorar como EUA, URSS, regime sul africano do apartheid e Cuba usaram a guerra civil como uma guerra por procuração) é a base da tragédia angolana.

Numa entrevista à SIC, José Eduardo dos Santos, socorrendo-se das suas longínquas memórias marxistas, disse que Angola vivia a fase da acumulação primitiva de capital. Uma forma sofisticada de dizer que as suas futuramente respeitáveis elites capitalistas tratavam do saque do seu povo para o serem. E que ele e a sua família não podiam deixar de participar na construção, já não do “homem movo”, que Zeca Afonso julgava ter vindo da mata angolana, mas da classe de "novos colonos". A nossa suposta relação de “amizade” com Angola passou, no essencial, por termos, como antiga potência colonial, a função de recetores do roubo.

Mas nem tudo são más notícias. Os pequenos focos de rebelião de jovens urbanos sem filiação partidária ou a transição pacífica, apesar de crispada (como se vê na polémica em torno do funeral), para um sucessor que não teve de recorrer aos velhos golpes militares são a notícia que não tem notícia: depois de séculos de colonialismo, a descolonização é um processo, não é um momento. Na vida dos angolanos e nas nossas cabeças ocidentais.»

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29.5.22

Sita Valles

 


É imprescindível que este documentário de Margarida Cardoso seja visto.

«Sita Valles viveu 26 anos. Nasceu em Angola em 1951 e ali morreu, em 1977, em circunstâncias misteriosas. Estudou Medicina em Lisboa, e foi uma dirigente estudantil carismática e militante do PCP. No Verão de 1975 decidiu voltar a Angola, que considerava o seu país, ligando-se a um grupo de pessoas, mais tarde apelidados de fraccionistas, que questionavam a linha ideológica do MPLA. Acusada de ser uma das cabecilhas da alegada tentativa de golpe de estado de 27 Maio de 77, Sita é perseguida e presa. Rumores indiciam que foi torturada e morreu frente a um pelotão de fuzilamento. Nos dois anos que se seguiram mais de trinta mil pessoas tiveram o mesmo fim, ou passaram anos em cadeias e campos de concentração.
Testemunhos dos sobreviventes, guiam-nos na possível reconstituição da vida e do tempo de Sita Valles, vida que terminou num episódio traumático, de uma violência absurda, e há muito silenciado.»

A Vida e o Tempo de Sita Valles
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15.3.22

15.03.1961 – Angola, no «dia do terror»

 


Foi nessa data que se deu o ataque da UPA no Norte de Angola, naquele que foi considerado o primeiro acto para a libertação do país e que marcou o chamado «dia do terror». O vídeo resume bem os acontecimentos.

Foi também nesse dia que, pela primeira vez, os Estados Unidos votaram positivamente uma moção contra Portugal no Conselho de Segurança da ONU.

Nos primeiros dias de Março, o próprio Kennedy, através do embaixador em Lisboa, envolveu-se pessoalmente na questão, insistindo com Salazar para que Portugal anunciasse publicamente o princípio da autodeterminação e independência de Angola. Diz Franco Nogueira (Salazar – A resistência, Vol. V, p.211) que, no fim de uma reunião com o embaixador Elbrick, Salazar terá concluído: «Ouvi-o atentamente e agradeço-lhe a sua visita. Muitos cumprimentos ao Presidente Kennedy. Muitos boas tardes, senhor embaixador.» E nada mudou na posição portuguesa, como é sabido.

Assim se chegou a 15 de Março, quando Libéria, Ceilão e República Árabe Unida apresentaram um projecto de resolução no Conselho de Segurança, que sublinhava os perigos que a situação em Angola representava para a paz e para a segurança mundiais e exigia expressamente reformas que pusessem fim ao colonialismo. Kennedy deu instruções para que os Estados Unidos votassem positivamente, juntando-se assim aos três proponentes e à URSS. Cinco votos a favor, portanto, mas seis abstenções (França, Inglaterra, China, Chile, Equador e Turquia): a resolução não obteve a maioria de votos necessária para ser aprovada, mas as relações dos Estados Unidos com o salazarismo ficaram profundamente afectadas. Quanto a Angola, esperaria mais 14 anos para ser independente.


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29.1.20

Luanda Leaks: licença para “matar” sem irritar



«Nos anos duros da crise, o dinheiro roubado ao povo angolano ajudou a tapar muitos buracos da nossa economia. Recebemos esse dinheiro, que entrava em empresas portuguesas e por isso na economia, entre o nojo e a gratidão. Todos os que diziam que isto não só era imoral como insustentável, porque se perderia entre os dedos das mãos mal as coisas mudassem, eram chamados irresponsáveis. Recebi mensagens de muitos emigrantes em Angola que me explicavam o mal que lhes fazia quando criticava o poder angolano, indispondo-o contra os portugueses. Respondia-lhes que compreendia a sua frágil situação mas um erro não deixava de ser um erro, uma aposta insustentável não passava a ser sustentável, só porque garantia emprego (cá e lá) num determinado momento. E é por isso que a política tem de ser mais do que a gestão quotidiana das coisas.

Sente-se o alívio ético. Subitamente, todos podem dizer que a mulher que canalizou tanto dinheiro de Luanda para Lisboa, enchendo os bolsos a tantos portugueses, é uma ladra. E quanto maior foi a dependência maior é o asco. E mais adjetivados são os ataques morais. É sempre assim. Compreende-se o alívio. Estamos a exorcizar a amoralidade que marca o comportamento das nações em crise.

Devemos, no entanto, ser moderados no contentamento. Por cá, está tudo na mesma em relação a Angola. Não foram todos os jornalistas que acompanham esta investigação um pouco por todo o mundo que finalmente apanharam Isabel dos Santos. Tiveram um papel central no tratamento e confirmação da informação. Mas ela chegou-lhes por via indireta. Já sabemos que a fonte é Rui Pinto, mas não sabemos muito mais do que isso. Nem sabemos em pormenor como Rui Ponto opera. É impossível ignorar que esta informação, toda concentrada numa figura, é libertada numa nova circunstância política: Isabel dos Santos deixou de ter a proteção política do regime angolano.

Estarão muitos empresários, bastantes políticos e até alguns jornalistas e comentadores moderadamente embaraçados com tudo isto. Uns falam, outros calam-se e esperam. Mas todos sabem que passará. O que não vemos nem veremos é alargar a crítica e a denúncia política a quem esteja demasiado próximo do atual círculo de poder de João Lourenço. Nas investigações até há algumas incursões a figuras muito gratas ao “novo” poder. Mas isso não se traduz nem se traduzirá num discurso político e empresarial, porque isso seria mudar o satus quo que determinou o papel de Isabel dos Santos na economia portuguesa: que é o regime de Luanda, e não a lei ou a ética, a determinar a legitimidade ou ilegitimidade do dinheiro angolano.

Nisto, e apenas nisto, Isabel dos Santos tem razão: ela é vítima de uma perseguição política. Isto não retira nenhuma legitimidade à “perseguição” mediática e à “perseguição” da Justiça. Toda a informação que recebemos demonstra de forma gritante a sua justeza. Apenas quer dizer que se está a atingir seletivamente um elemento que foi expulso do círculo do poder, porque ele pretende renovar parte da elite económica angolana para reforçar o seu próprio poder. E é por isso que o ataque a Isabel dos Santos, sendo justo, não corresponde a qualquer mudança na cultura de submissão do poder político e económico português. Pelo contrário, a escolha seletiva deste alvo, por parte das críticas que se fazem em Portugal, apenas a confirma. Denunciar os negócios de Manuel Vivente, que foi protegido por João Loureço, será o sinal do fim dessa submissão. Ou do fim do estatuto de intocável do ex-vice-Presidente.

Nada disto é uma crítica à denúncia e cerco que se está a fazer a alguém que construiu uma colossal fortuna à custa do roubo dos recursos que pertencem a todos os angolanos. Como alguém que, nos últimos 15 anos, escreveu e falou sobre Isabel dos Santos, celebro-o. Foi uma das principais beneficiárias de um regime que usou a gestão desse roubo para se perpetuar. É apenas um lembrete: nada mudou na relação de Portugal com Angola. Percebemos os recados: Isabel dos Santos já não conta, mas aborrecer outros, como Manuel Vicente, continua a ser “irritante”. Foi e continuará a ser compreendido pelo poder político e económico do país. Espero, e tenho algumas razões para o esperar escrevendo num jornal que nunca deixou de fazer o que tinha de fazer em relação ao poder instituindo em Angola, que não o seja pela comunicação social.»

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28.1.20

Do assalto ao BES Angola às injeções no Novo Banco



«BES Angola (BESA) foi fundado em 2001. Três anos depois, o BES vendeu 19% à Geni, do general Dino, sócio de Isabel dos Santos. Em 2009, vendeu 24% à Portmill, de Manuel Vicente e dos generais Kopelipa e Dino, o triunvirato próximo de José Eduardo dos Santos.

Esta participação foi comprada com um crédito de 375 milhões de dólares concedido pelo próprio BESA. A Portmill recebeu ainda outro crédito de 375 milhões, concedido pelo Banco Angolano de Investimentos (o banco da Sonangol), cujo destino se desconhece. Os acionistas mais pequenos do BESA eram Álvaro Sobrinho, seu presidente, e Hélder Bataglia, da Escom.

Já depois do afastamento de Sobrinho, tornou-se público que o BESA teria concedido 5700 milhões de dólares em empréstimos secretos (e irrecuperáveis...) a figuras do regime angolano e ao próprio Sobrinho. Estes créditos foram suportados por constantes financiamentos vindos do BES Lisboa.

Sob risco de falência, o saque do BESA - e do BES - acabaria exposto. Para o evitar, no fim de 2013, Salgado negociou com José Eduardo dos Santos uma garantia estatal sobre os créditos ruinosos. Tarde demais. Em 2014, os destroços do BES caem sobre o Estado português e o presidente angolano apressa-se a cancelar a garantia angolana. Começa aqui a segunda parte da nossa história.

Do BESA, ficaram duas heranças. No Novo Banco, os créditos concedidos ao BESA, 3 mil milhões. No BES "banco mau", a participação de 55,7% na instituição angolana. Em outubro de 2014, o banco central (Banco Nacional de Angola) reúne os acionistas do BESA em Luanda - estão representados Kopelipa, Dino, Sobrinho. A representante do BES (55,7% do BESA) é retida numa operação stop. Quando chega à assembleia, a estrutura acionista do BESA é já outra.

O BNA decidiu novos donos, liderados pela Sonangol, que se comprometeu a injetar 650 milhões de dólares, por si e pelos generais: Dino ficou com 19,9%, Kopelipa com 30,9%. O BES perdeu 273 milhões naquele dia. O Novo Banco, em vez de créditos de 3 mil milhões de euros, levou uma pequena participação no novo BESA, rebatizado como Banco Económico e agora administrado pelo responsável do BNA pela mudança. Das instituições portuguesas - Governo PSD/CDS, fundo de resolução, Banco de Portugal -, nem uma palavra.

Em 2018, os créditos do BESA representavam 80% dos prejuízos do Novo Banco nos cinco anos anteriores. O Novo Banco, entretanto privatizado, voltará a pedir injeções de dinheiro público. É por esta e outras razões que o Bloco quer retirar do Orçamento do Estado o aval ao Governo para continuar a sangria.»

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25.1.20

Angola: Louçã versus Sócrates em 2009


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A moral, as virgens ofendidas e os donos disto



«Somos de tal forma um país de virgens ofendidas que em poucas línguas a expressão é tão popular como entre nós. Talvez esta seja, aliás, a melhor forma de descrever as reações às revelações do Luanda Leaks. Não é que estas não sejam relevantes e ilustrativas, só que têm ajudado a expor uma tremenda hipocrisia.

Pormenores à parte (que tenderão a ser mais relevantes judicialmente em Angola do que por cá), no essencial, a história já era sobejamente conhecida. Bastava, na verdade, que, a título de exemplo, se tivesse prestado atenção a um pequeno livro publicado em 2014 (já lá vão, portanto, seis longos anos), por Jorge Costa, João Teixeira Lopes e Francisco Louçã. Em “Os Donos Angolanos de Portugal” fica exposta com clareza — e sem grandes interpretações subjetivas — a extensão e a teia de cumplicidades entre capital angolano e empresas portuguesas.

De forma circunstanciada, é demonstrado que há uma linha direta entre o processo de acumulação primitiva em Angola e as transformações recentes do capitalismo português. Não deixa, aliás, de existir uma certa ironia sinistra na forma como a elite angolana, ilustrando a sua formação marxista, resgatou o conceito a “O Capital”, de Marx, para legitimar a cleptocracia.

Se há uma justificação funcional para o roubo em Angola, há também uma convergência de interesses objetivos entre a nova elite angolana e o nosso depauperado capitalismo. Do lado de Angola, o nosso país oferece uma oportunidade para investir em sectores estratégicos, com pouca ou nenhuma regulação, permitindo a legitimação de negócios e escancarando a porta para os mercados europeus; do lado português, Angola assegura os fundos de que as empresas portuguesas necessitam para ultrapassar o défice crónico de capitais. Que ninguém, por isso, se comporte como virgem ofendida.

A metáfora dos donos disto tudo é, de facto, exata. À imagem do que aconteceu aquando da introdução do primeiro pesticida moderno, o DDT, o surto de investimento em Portugal com capitais angolanos foi eficiente no curto prazo, mas a longo prazo os efeitos serão muito prejudiciais para a nossa economia e para a própria ideia moral que o país faz de si próprio.

Para já, arranjam-se uns bodes expiatórios e uma tragédia absoluta. Mas a questão será sempre mais profunda. Depois de termos perdido a PT, o BES, a Cimpor, o país pode dar-se ao luxo de, desta feita, perder a Efacec? E, mais dramático, o que tudo isto nos diz sobre as nossas debilidades: os reguladores que não regularam, os auditores que nada viram, os empresários que se acocoraram no beija-mão, as sociedades de advogados que a tudo se prestaram e os políticos que foram complacentes na exigência moral.»

Pedro Adão e Silva
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24.1.20

Luanda Leaks - efeitos colaterais



Será que a EFACEC (e não só) não vai acabar na mira do Estado Chinês, com Isabel dos Santos a recuperar para ela o dinheiro que o Estado Angolano lhe deu para comprar?

P.S. às 22h25: Chineses estão a comprar bancos angolanos em Portugal.
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O sorriso de Isabel dos Santos



«A propósito do dilúvio de notícias sobre Isabel dos Santos, empresária que graças à relação de parentesco com um discreto ex-ditador de uma antiga colónia portuguesa construiu um império e se tornou mundialmente conhecida por antonomásia como “A Mulher Mais Rica de África” ou, nos circuitos angolanos, “a Princesa”, lembrei-me de uma frase de Honoré de Balzac dita por uma das suas personagens, Vautrin, no Tio Goriot: “O segredo das grandes fortunas sem causa evidente é um crime esquecido, por ter sido cometido como deve ser.” Uma versão reduzida da frase, e a mais conhecida e divulgada, diz que “por trás de uma grande fortuna esconde-se sempre um crime.”

Embora o sentido seja semelhante, há diferenças. Vautrin fala de grandes fortunas sem causa evidente — e não de qualquer fortuna. E acrescenta que o crime cai no esquecimento porque é cometido com arte e engenho. A nós, pobres mortais pobres, alegra-nos a versão popular porque não poupa nenhuma fortuna à suspeita de que na sua origem esteve um crime e somos confortados pela ideia de que todo o dinheiro a sério, não os trocos que levamos nos bolsos ou os míseros saldos das nossas contas bancárias, é sujo, tem a mácula de um pecado original.

Desconheço a sensação de ser possuidor de uma fortuna, lícita ou ilícita, mas desconfio que o homem ou a mulher de fortuna extraia mais gozo, mais prazer sensual, de uma fortuna acumulada através de jogadas e lances obscuros e de moralidade duvidosa do que de milhões conquistados pelo suor do rosto à luz do dia.

Veja-se o sorriso de Isabel dos Santos. Até há pouco tempo um traço fisionómico luminoso e hoje transformado num ricto tenso de fase de inquérito, na sua rasgada e económica horizontalidade que jamais se abastardava no descontrolo obsceno da gargalhada, o sorriso da primogénita de José Eduardo dos Santos tornou-nos cúmplices de todos os seus hipotéticos atos de gestão danosa, de todas as suas eventuais malfeitorias. Tinha inscrito em cada pequeníssima ruga de esforço a branda malícia daqueles que se sabem favorecidos pelo acaso, pela astúcia e, quando estes não chegam, por advogados peritos em alçapões legais, gestores fiéis e disponíveis para a imolação e redes clientelares de amigos de negócios. (Se repararem, em virtude do lugar secundário que ocupam na cadeia alimentar, os sorrisos destes são geralmente mais amplos, mais genuínos, mais desavergonhados).

Ao contrário do sorriso da impunidade, que é arrogante e desafiador, o de Isabel dos Santos denotava uma certa bonomia, uma jovialidade sedutora. Mesmo quando desfilava com ares de imperatriz por uma Lisboa ajoelhada pela crise, e se resguardava tanto quanto a sua posição lho permitia num silêncio esfíngico que inspirava temor, como se a qualquer momento, qual Salomé, pudesse exigir a cabeça dos inimigos em salvas de prata, o sorrisinho malandro, mais caluanda do que King’s College, onde se licenciou, nunca desaparecia. Era o sorriso do prazer físico proporcionado pelo dinheiro e pelo poder. Desconfio que Isabel dos Santos queria que fôssemos testemunhas desse prazer por saber que a quantidade de dinheiro em que navegava a tornava imune à inveja popular.

O pobre, meus amigos, não inveja quem tem 50 milhões de euros ou dois mil milhões de euros, abstrações inconcebíveis para a sua cabeça remediada, mas o vizinho que tem mais 50 euros do que ele. É essa quantia irrisória que o atormenta — e não os 300 mil euros que Isabel dos Santos pagou para remodelar um apartamento de quatro milhões. Por isso vê-se mais indignação por causa de um bilhete de autocarro do que pelos milhões que terão sido desviados por Isabel dos Santos.

Como todos os coletivos, o “martirizado povo angolano”, a vítima de que a nossa indignação necessita para condenar com alguma veemência “a princesa”, é outra abstração. Um povo inteiro não tem rosto. Eis a razão pela qual a indignação contra os corruptos nasce de um esforço racional, de civismo forçado, enquanto a indignação contra o ladrão de galinhas vem das vísceras, de um sentimento urgente, epidérmico, de injustiça.

Apartamentos de 50 milhões de euros no Mónaco são uma ficção, uma galinha roubada é real. O “povo angolano” é uma ficção, o proprietário da galinha é real. Isabel dos Santos, que diz ter começado a vender ovos nas ruas de Luanda, deve saber uma ou duas coisas sobre galinhas, ovos e abstrações, sobre os pequenos delitos que nos agravam e os crimes que toleramos mesmo que estejam na origem de fortunas faraónicas. Só quem sabe sorri daquela maneira.»

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22.1.20

O dominó angolano ainda mal começou a cair



«O dominó começou a cair e nunca foi difícil adivinhar que viria o tempo. Durante quase quarenta anos à frente de Angola, o presidente José Eduardo dos Santos constituiu uma oligarquia que se alimentou fartamente dos recursos nacionais, mas o inevitável esgotamento do consulado, as contradições entre cleptocratas ou a pressão popular para a democracia acabaram por se impor. João Lourenço teve de afirmar o seu poder protegendo-se do clã Dos Santos, a desesperante falta de recursos em tempos de petróleo barato obrigou ao esforço de recuperação de capitais, o povo exigia medidas contra o saque e, assim, o dominó desabou. Mas, ao desfazer-se, desencadeou uma curiosa valsa de justificações em Portugal.

Com aquele gosto florentino que tem aprimorado, o ministro dos Negócios Estrangeiros, falando de si próprio na terceira pessoa, na boa tradição literária de um treinador de futebol, explicou que “talvez agora se perceba melhor a insistência do ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal - desde pelo menos dezembro de 2015 - de manter o melhor relacionamento possível com as autoridades angolanas; de manter o nível de relacionamento entre os dois Estados no mais alto dos patamares”. Maravilha da diplomacia, este “melhor relacionamento possível” foi estabelecido desde finais de 2015 mas não antes, ou seja, desde a nomeação do próprio, com a “autoridade angolana” do “mais alto dos patamares”, ou seja o próprio José Eduardo dos Santos, eventualmente na presunção futurista de que aquele seria substituído por alguém que o pusesse em causa. Nisto, o governante só peca por um menosprezo injusto pelos que estiveram nas Necessidades antes dele e que, aliás, fizeram exatamente o mesmo, o “melhor relacionamento possível” com esse “mais alto dos patamares”.

Esse “relacionamento” resume-se a uma guarda pretoriana que foi recrutada em Portugal para proteger os assaltantes de Angola. Os banqueiros (no BCP, no BPI), os empresários (Amorim primeiro que todos, depois a Sonae, José de Mello e tantos outros) e os governos multiplicaram-se em vénias para atrair esses capitais e as suas alianças. O Banco de Portugal fechou os olhos às investidas de personalidades “politicamente expostas” e, salvo ter evitado na 25ª hora que Isabel dos Santos viesse a ser administradora do BIC, não opôs qualquer reserva a nenhuma das suas outras funções nem sequer à compra em saldo deste último banco.

Assim, protegida por alguma imprensa que a apresentava como a rainha do glamour, por uma câmara municipal que oferecia ao marido a medalha de ouro da cidade a troco de uma inútil promessa de um museu, pelo deslumbramento dos políticos e pela ganância dos capitais, Isabel dos Santos instalou uma rede de conivências em Portugal, com que pretendeu abrir caminhos para o reconhecimento internacional.

É cruel lembrar, mas não deixa de ser verdade, que estas aplicações do dinheiro extorquido de Angola eram barradas noutros países europeus. Nada que demovesse um ex-presidente do PSD, ex-ministros de várias cores, um ex-governador do Banco de Portugal, um ex-deputado do PS e tantos outros de trabalharem para esta rede de interesses da constelação Dos Santos e, em particular, de Isabel. Ser pago em dinheiro angolano passou a ser uma das etiquetas de muita da elite portuguesa.

E tudo se sabia. Pepetela, que conhecia cada uma dos personagens desta clique, retratou-as em vários romances em que apresenta a sua desilusão e raiva contra a corrupção e o seu regime. Rafael Marques denunciou durante anos muitos destes esquemas, com dados detalhados. O livro que Jorge Costa, João Teixeira Lopes e eu publicámos em 2014, “Os Donos Angolanos de Portugal”, resumindo muito do que nos anos anteriores já tínhamos investigado e escrito sobre a cleptocracia luandense e os seus aliados portugueses, chegou a milhares de pessoas em Angola e por cá. Incluímos nomes e gráficos com as ligações das diversas empresas. Contamos a história e revelamos de onde vinha o dinheiro. O general Kangamba alegou o direito de resposta e respondeu-me na imprensa portuguesa, não era de menos o que dele contamos no livro, as investigações judiciais internacionais sobre redes de prostituição ou automóveis com malas de dinheiro a circular pela Europa.

O “Jornal de Angola” dedicou-nos editoriais e insultos. Luaty Beirão e os seus camaradas puseram todas as denúncias na rua. Como Rafael Marques, foram presos, enquanto no Parlamento português, confrontados com votos pela liberdade de imprensa e de opinião contra a repressão pelo regime de Luanda, o PS, o PSD, o CDS e o PCP alinhavam na recusa sobranceira, com José Eduardo dos Santos ninguém se mete.

Nos congressos do MPLA desfilava uma procissão de políticos portugueses a tecer loas ao cônsul. Mesmo sendo membro da Internacional Socialista e parceiro do PS, o partido do poder procurava aliados em quase todos os quadrantes. Em 2016, de 17 a 20 de agosto, em mais um congresso de consagração de Dos Santos (e no período em que o nosso atual ministro já cuidava do “melhor relacionamento possível” com o “mais alto dos patamares”), o PS fez-se representar pela secretária-geral adjunta, Ana Catarina Mendes, e pelo presidente, Carlos César, que enfaticamente brindou os anfitriões com um “o MPLA e o PS têm trilhado um caminho comum, um continuado diálogo político e uma colaboração concreta em áreas de interesse mútuo, incluindo no âmbito da nossa família política no seio da Internacional Socialista. Estou convencido que esse caminho de proximidade será cada vez mais produtivo e a nossa presença neste congresso e a nossa saudação neste congresso é justamente para aqui testemunhar a garantia desse caminho novo de proximidade, de afetividade, de colaboração e de luta comum”.

Diz o DN, que assistiu ao congresso, que César acrescentou que “o líder do MPLA e Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, é uma figura referencial da história angolana e da emancipação africana”. Helder Amaral, em nome do CDS (Paulo Portas estava também, mas como “convidado pessoal”, e não falou), explicou que o seu partido estaria mais próximo do MPLA, com “muitos mais pontos em comum”, desejando “fortalecer essa relação”. Dois vice-presidentes do PSD, Teresa Leal Coelho e Marco António Costa, abrilhantaram a cerimónia, bem como Rui Fernandes, membro da comissão política do PCP.

Pois é. O que ninguém pode agora dizer é que não se sabia de nada. Mais se vai descobrir, mas surpresa é que não será. Foi roubo e não foi o mordomo.»

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«Donos Angolanos» por quem os descreveu há seis anos


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7.3.19

Angola? É do Marcelo




«O próprio Presidente contou aos jornalistas, à beira do esmagamento, no meio da turba e dos gritos: “Parei muitas vezes, mas fui sempre fora do carro. Para não cair, vinha pendurado com uma mão e por isso não podia ir muito rápido. É que” - explicou - "como a viatura é blindada não dá para abrir a janela. Vinha com um pé no estribo e uma mão a segurar. Para cumprimentar todos, ou saía do carro ou íamos tão devagar que por isso demorámos muito tempo…” Ouvia “Marcelo, amigo, o povo está contigo”, gritos de “Angola!”, “Portugal!”, era disto que Marcelo Rebelo de Sousa estava à espera.»

Comentários, para quê.
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