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14.9.09

Cogitações (10)

«Porque toda esta paixão agora parece gasta, e as paixões contrárias que despertou correspondentemente redundantes, os analistas de hoje tendem a menosprezar as “guerras culturais” ideológicas do século xx, e os desafios doutrinários e contradoutrinários, como um capítulo encerrado. O comunismo defrontou o capitalismo (ou o liberalismo): perdeu, tanto no campo das ideias como no terreno, e portanto ficou para trás. Mas ao desprezar as promessas falhadas e os falsos profetas do passado, também nos apressamos excessivamente a subestimar – ou simplesmente a esquecer – a sua sedução. No fim de contas, porque é que essas promessas e esses profetas atraíram tantos cérebros talentosos (para não falar de milhões de eleitores e activistas)? Devido aos horrores e receios da época? Talvez. Mas será que as circunstâncias do século xx foram realmente tão invulgares, tão únicas e irrepetíveis, que podemos ter a certeza de que não mais voltará aquilo que impeliu homens e mulheres para as grandes narrativas da revolução e na renovação? Será que os planaltos ensolarados da “paz, democracia e mercado livre” chegaram mesmo para ficar?»

Tony Judt, O século xx esquecido, p. 27.

5.9.09

O realismo segundo Woody Allen
















«A vida é muito dura, muito agreste, brutal, curta de mais, feia e má, e, no fim, não há esperança que nos salve. A isto eu chamo realismo. (…) Sinto mesmo que a nossa maior obrigação na vida é aceitar o facto de que a vida não quer dizer nada, é vazia, que somos o resultado de um acaso tendo por fundo um universo que também não tem significado nenhum. Universo esse que, claro, também vai acabar como tudo o resto. (…)

É preciso olhar esta realidade nos olhos e, apesar delas, encontrar o nosso caminho. É por isso que não me vejo como pessimista ou cínico. Quem me acha pessimista é que vive debaixo de uma enorme ilusão. Essas pessoas, não percebo. Venderam-se a si mesmas uma verdade sobre o significado final da existência quando toda a gente sabe que, lá para o fim, não há boas novidades para ninguém. Lá para o fim é tudo muito decepcionante.»

Woody Allen, em entrevista ao Expresso, revista Única, 5/9/2009, pp. 24-25

29.8.09

Cogitações (9)

«Se nós somos “os chineses do Ocidente”, nem um pouco nos assemelhamos aos japoneses. É porque não conhecemos o vazio nem por ele nos sentimos atraídos.

Há talvez uma barreira que contribui para isso, a fascinação-repulsa que sentimos pela ausência. A ausência não é o vazio, contraria-o mesmo, em certo sentido. A ausência diz-se de uma presença, enquanto o vazio não se reporta a um cheio. O vazio é primeiro, está aquém da ausência de tudo. Quando toda a presença desaparece e deixa de haver lugar a preencher por uma coisa, então surge o vazio primordial, de onde sairão as forças para, precisamente, criar, agir, pensar. Do vazio nascem os pensamentos únicos, nunca anteriormente pensados, como dele nasce a obra (eventualmente, de arte) absolutamente original. Para que ocorram, é preciso saber produzir o vazio.»

José Gil, O Medo de Existir, p. 103.

26.8.09

Cogitações (8)

«A realidade alimenta-se da perpétua vontade afirmada pelos defensores da regra do jogo liberal e capitalista de diluir o conflito, de o aniquilar logo à partida, ou mesmo de o tornar impensável evitando-o em toda a medida do possível. A negação da luta, de classes ou generalizada, é sempre o credo reivindicado por aqueles que a tornam possível e que a alimentam. Mascarada, sufocada, escondida, dissimulada, negada, transforma-se em avenida para a circulação dos interesses daqueles que lutam contra a luta.»

Michael Onfray, Politique du rebelle, pp. 271-272.

24.8.09

Cogitações (7)

«Recordo (…) uma interessante distinção assinalada por A.J.Saraiva, há muitos anos, num artigo de jornal sobre a tradução portuguesa do francês “engagement”. Propunha ele uma dupla tradução, correspondente ao duplo sentido da palavra original: por um lado, alistamento, por outro, empenhamento. Alistamento corresponderia ao “engagement” numa tropa, numa organização, num partido. Pressupõe uma adesão a regras pré-estabelecidas, uma atitude dominantemente passiva, “irresponsável". Ao contrário, o empenhamento é uma automobilização de natureza emotivo-intelectual, uma atitude activa em que assumimos perante nós e perante os outros uma total responsabilidade, o risco de não termos quem nos “cubra” em juízos, afirmações, decisões, actos em que nos jogamos por inteiro.»

João Martins Pereira, No Reino dos Falsos Avestruzes, p.105-106

18.8.09

Cogitações (6)

«Talvez certas contradições entre a democracia e a existência na vida do espírito sejam de ordem intrínseca. A democracia, que se compromete com uma exigência maioritária, aclama o homem comum. Cujo Deus é, em boa parte do planeta, o futebol. O credo das Luzes, o «melhorismo» do século XIX, que via no ensino de massa a via segura do progresso cultural, revelaram-se em boa parte ilusórios. A promoção da justiça social recuou. (...) Hoje, nas democracias de consumo e de comunicação de massa do Ocidente e do mundo em vias de desenvolvimento, deixou de ser possível separar o liberalismo político e o governo representativo do capitalismo. Houve esforços ardentes na busca de uma «terceira via». Um capitalismo humanizado e socializado obteve triunfos esporádicos em certas regiões bucólicas como a Escandinávia e a Suíça. Mas nas democracias pluralistas maduras é o dinheiro que impera. No sentido neutro e próprio do termo, as relações de poder são as de uma plutocracia mais ou menos dissimulada. O dinheiro exulta na sua omnipotência grosseira. Introduz-se em todas as frestas da existência pública e privada.»

George Steiner, Os livros que não escrevi, pp.282-283.

5.8.09

Cogitações (5)

«E se prometerem não levar à letra o que vou dizer, atrever-me-ia a assegurar que, pelo menos em princípio, julgo ter inventado o remédio contra o fanatismo. O sentido de humor é uma grande cura. Jamais vi na minha vida um fanático com sentido de humor, nem nunca vi qualquer pessoa com sentido de humor converter-se num fanático, a menos que ele ou ela tivessem perdido esse sentido de humor. Os fanáticos são frequentemente sarcásticos. Alguns deles têm um sarcasmo muito agudo, mas de humor, nada. Ter sentido de humor implica a capacidade de se rir de si próprio. Humor é relativismo, humor é a habilidade de nos vermos como os outros nos vêem, humor é a capacidade de perceber que, por muito cheia de razão que uma pessoa se sinta e por mais tremendamente enganada que tenha estado, há um certo lado da vida que tem sempre a sua graça.»

Amos Oz, Contra o fanatismo, pp. 28-29.

31.7.09

Cogitações (4)

«Sem uma classe trabalhadora, sem um objectivo revolucionário a longo prazo, por muito benigno e não-violento que seja na prática, sem qualquer razão particular para supor que irá ter sucesso ou uma base transcendente para acreditar que merece tê-lo, a social-democracia actual é apenas o que os seus grandes fundadores do século XIX temiam que viesse a ser se abandonasse os seus pressupostos ideológicos e afiliação de classe: a ala avançada do liberalismo de mercado reformista. Agora, exactamente quando a morte do comunismo a aliviou da hipoteca paralisante das expectativas revolucionárias, deve a esquerda europeia reduzir-se à defesa de progressos sectoriais arduamente conquistados e olhar de relance, nervosa e ressentida, para um futuro que não consegue compreender e de que não tem a certeza?»

Tony Judt, O Século XX esquecido, pp.431-432.

30.7.09

Cogitações (3)

«Se a Esquerda é projecto, ela tem de constituir um sistema de ideias, que só o será se existir um critério (ou critérios) que o estruture(m). As ideias poderão ir evoluindo - pois não só o debate não tem fim, como ir-se-á modificando o contexto em que ele decorre -, mas aquilo que as liga e interrelaciona, que as estrutura enquanto projecto, terá de manter-se constante. Será pois parte da ideia de Esquerda e não as ideias que a subconstituem. Para não me alongar demasiado, exemplifico: o critério de emancipação, ou de “libertação”, se preferirem. Ao pronunciar-se sobre tudo - e a Esquerda tem de pronunciar-se sobre tudo -, parece aceitável que o conceito de emancipação deverá ser um elo de ligação permanente entre todas as ideias do sistema. O que já não é indiscutível é o próprio conceito de emancipação, que, ele próprio, para ser “operacional”, merecerá discussão, elaboração, “aperfeiçoamento”. Em termos ideais, dir-se-á que é emancipador tudo o que aproxime um indivíduo do ser responsável que “teoricamente” é. Será pois emancipador tudo o que tenda a reduzir os constrangimentos sociais, económicos e culturais que limitam a liberdade de escolha ou decisão do “indivíduo em sociedade”

João Martins Pereira, No Reino dos Falsos Avestruzes, p.104

28.7.09

Cogitações (2)

«Todavia, no presente, em cada presente, para muitos dos que aguardam uma salvação materializada na remissão do oprimido, e até que outro marco milenar o substitua, Outubro permanece como sinal sagrado de um desejo e de uma possibilidade. Como estrela que orienta a travessia nocturna de um inóspito deserto. Para quem desta forma alguma coisa espera do mundo e do tempo, os monstros que a sua materialização a certa altura produziu afiguram-se apenas como erros menores, desvios de percurso, pausas antes do retomar da caminhada. Para os outros, que olham para trás apenas na medida do indispensável mas acreditam ainda e sempre na aventura do possível, tratam-se de ilustrações em páginas incómodas mas provavelmente viradas.»

Rui Bebiano, Outubro, pp-99-100

27.7.09

Cogitações (1)

«Querer voltar ao poder como hoje – ou quase sempre se entendeu – não é programa de nada, só dos profissionais do Poder. A essência do socialismo é a de ser – até onde é pensável – uma ideologia do não-poder. É inútil buscar mais longe a razão última dos seus limites e dos seus desvarios como Ideologia e como Política, sem falar da sua inanidade como cultura. Se o Socialismo no Ocidente como horizonte e referência de milhões de pessoas deixou de estar na moda – a ponto até de se ter tornado «impopular»… - à sua incapacidade de ser uma outra visão do Poder e uma outra ética do seu exercício, em grande parte o deve. Não que a cultura do capitalismo neoliberal ou globalizante seja melhor, pois é impossível, mas tão-só e apenas porque o Socialismo nasceu e só tem sentido como crítica, resistência e contenção dos malefícios ou dos efeitos desumanizadores do Capitalismo.»

Eduardo Lourenço, A Esquerda na encruzilhada ou fora da História?, p. 95.