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21.8.23

Juventude poupada

 


«O otimismo em relação ao impacto económico da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) era, como alguns desconfiavam, excessivo. Demasiado excessivo. A euforia que tomou conta de membros da Igreja Católica e, sobretudo, da política nacional roçou a propaganda pura e dura. Com a Jornada, o efeito na economia seria extraordinário e, para não haver dúvidas, fizeram-se estudos, encomendados a entidades credíveis - essas entidades confirmavam a euforia.

A realidade, porém, é menos emotiva. Dados agora divulgados pelo Banco de Portugal demonstram exatamente o contrário. Como o JN hoje escreve, houve menos dormidas em hotéis, menos consumo em restaurantes, assim como no comércio. Em suma, a partir de 11 de julho, a atividade económica entrou em território claramente negativo, mantendo a tendência durante a semana do Papa, até dia 5 de agosto.

O estudo encomendado pela organização da JMJ, recorde-se, apontava para um impacto económico de 411 milhões de euros, em valor acrescentado bruto, na economia portuguesa. Para chegar a este valor, a autora do estudo, a PWC, previa a presença aproximada de um milhão de visitantes, entre peregrinos inscritos, não inscritos, outros participantes e voluntários. Um valor inferior ao número inicialmente anunciado que oscilava entre 1 e 1,5 milhões de pessoas.

Os gastos médios previstos, ainda segundo o estudo, andariam entre 30 e 163 euros por pessoa, e a estadia média entre dois e seis dias. Nestas contas, previa-se um gasto mínimo dos peregrinos de 162 milhões de euros, mas poderia atingir os 273 milhões.

Vieram os peregrinos, sem dúvida, e voltaram às suas terras sem o comércio sentir, verdadeiramente, a sua presença. Terá valido o investimento público, a obra que fica para a cidade e pontes para batizar. E a imagem de um grande evento, apresentado como um grande negócio para Portugal, a colidir com a mensagem do Papa Francisco.»

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16.8.23

Ite Missa Est

 

Ora leiam este grande texto de Carlos Matos Gomes:

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Parolice de perna curta para esquecer Francisco

 


«O patético episódio da escolha do nome para a ponte sobre o rio Trancão pode ser visto de vários modos e dificilmente se encontrará algum que abone pela sensatez dos intervenientes. Foi uma inflamação de Moedas, surfando a sua onda do aproveitamento político dos Jornadas, depois de se ter feito filmar a carregar uma cruz, o que até foi tomado como uma graçola? Teria ele avisado o cardeal, que agradeceu por vaidade e não pensou nas consequências, ou agido de surpresa? Estarão aqueles autarcas tão habituados a dar nome de pessoas vivas a avenidas (Av. Cavaco Silva) ou a estátuas e aeroportos (Cristiano Ronaldo) que nem se dão conta da parolice que isso representa? Em qualquer caso, fez bem Manuel Clemente em, dias depois da polémica lançada, se ter retirado desta vergonha. No entanto, há aqui alguns sinais que se adensaram depois das Jornadas. O primeiro foi esta corrida política em que o autarca de Lisboa e o governo competiram: que Moedas diga agora que não a comenta a ponte para não desvalorizar o impacto da iniciativa com o Papa não deixa de ter a sua piada, atirou a pedra e agora esconde a mão; e que o governo tivesse tratado aqueles dias não como uma ação de uma comunidade religiosa mas antes como uma procissão política não deixa de ser revelador. O segundo é o ressurgimento dos discursos conservadores e restauracionistas daquela Igreja que Francisco combate. Não me surpreendeu, por isso, ler um cronista a insistir na ideia de que a interdição das ideias de Copérnico e a proibição do seu livro demonstra a abertura daqueles juízes da Inquisição à ciência, invocando ainda o testemunho de Galileu para o mesmo efeito iluminante (convirá lembrar que, tendo Galileu sido condenado ao silêncio e a prisão perpétua em 1633, só o Papa João Paulo II reparou esta ignomínia depois de um processo que levou 13 anos de estudo e em 1992, 359 anos depois).

Esse duplo investimento na banalização e na restauração conservadora, e foi uma vaga desde que Francisco tomou o avião, tem sido a forma de ignorar os seus discursos incómodos: contra a pedofilia, uma patologia a cuja irradicação a cúpula da Igreja católica portuguesa foi das mais resistentes; contra a guerra, que agora é o pilar das políticas que se defrontam na Europa e que se estende ao mundo; pelos direitos dos migrantes, e quem o quer ouvir?; e, presumo que mais do que tudo, contra o economia e a finança que matam, os termos que escolheu para retomar a lição paulina (“A raiz de todos os males é a ganância do dinheiro”, Paulo a Timótio, 1 Tim 6:10) e que ressoam como uma heresia para uma instituição construída na convivência com os poderes. A facilidade com que os conservadores abandonaram o simbolismo do nome na ponte pedonal não será a mesma com que cederão a uma noção de igualdade ou democracia que inclua toda a gente. O “todos, todos, todos” está por cumprir e Francisco será o primeiro a sabê-lo.»

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14.8.23

Carlos Moedas, Manuel Clemente e uma comunidade melhor

 


«A escolha do nome para a nova ponte ciclopedonal que liga Lisboa a Loures não terá passado pela Comissão de Toponímia, como deveria. Desconhece-se também que tenha sido aprovada em reunião de câmara ou que tenha sido ouvida a junta de freguesia da área. Tratou-se de uma escolha deste executivo, ou seja, de uma escolha de Carlos Moedas, que ignorou os vários preceitos legais e boas práticas aplicáveis ao procedimento. Outro exemplo é o de dar o nome de uma personalidade ainda viva. Qual a razão para esta exceção à regra de que se deve aguardar cinco anos após o óbito da pessoa que se pretende homenagear?

Não foi por isto que a decisão de Carlos Moedas desagradou. Há mais e é pior. Manuel Clemente é um nome ligado ao encobrimento dos casos de abuso sexual por parte de padres da Igreja. Esta ligação foi amplamente noticiada na comunicação social e chegou a ser relatado que a atuação do cardeal contrariou as próprias normas internas da Igreja Católica ao não comunicar um caso às autoridades civis e tendo deixado o alegado abusador continuar em funções.

Quem se dedicou à leitura do relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa terá uma menor tolerância a qualquer iniciativa que tenha implícito ignorar a sensibilidade das vítimas. São mais de quatrocentas páginas de horror. Não falo de opiniões e considerações, falo de factos e de relatos. O relatório continua disponível para quem o quiser ler.

A JMJ correu bem. Correu bem sobretudo a Carlos Moedas, que compareceu a todos os eventos, chegou a carregar um crucifixo publicamente (apesar de não ser católico) e contratou várias empresas especializadas em comunicação para garantir que tudo seria bem comunicado. Montou uma verdadeira máquina de propaganda. Pode-se duvidar do retorno da JMJ para todos nós, mas o de Carlos Moedas está à vista. O seu entusiasmo com o sucesso da JMJ é evidente e notório. Talvez propício a esquecimentos e distrações. Certo é que tomou uma decisão que ignora completamente o sofrimento de milhares de vítimas e que dá uma nova razão para o reavivar.

Não tenho elementos para avaliar a atuação do cardeal e este artigo não pretende fazê-lo. Mas há aqui evidências. Se o seu nome está ligado ao encobrimento de abusos sexuais e essa ligação nunca foi claramente esclarecida ou afastada, devemos todos exigir que equipamentos construídos com dinheiros públicos não sirvam para o homenagear. Essa é a nossa solidariedade para com as vítimas. É uma pena que o poder político não seja porta-voz desse princípio ético.

E existe aqui um aspeto que deve ser esclarecido. Ao contrário do que resulta do comunicado da CML, a nova ponte resultou de uma ideia e de um projeto anteriores à JMJ e numa altura em que ainda não se falava do evento. Veio do gabinete de José Sá Fernandes, na altura vereador na CML, a decisão de fazer a ponte e o respetivo desenho. Foi também Sá Fernandes que tentou, e conseguiu, obter fundos europeus para a sua construção, e o concurso para a obra foi lançado pela Emel. Mais: a obra teve início antes das eleições autárquicas que elegeram Carlos Moedas. Do outro lado do rio, Bernardino Soares candidatou a fundos um passadiço junto ao rio e assim ficou na calha uma ligação ciclopedonal de Lisboa a Vila Franca, passando pela frente ribeirinha de Loures. Associar tudo à JMJ é uma moda que aborrece.

Foi Manuel Clemente quem, junto de Fernando Medina e de António Costa, primeiro defendeu a ideia de apresentar uma candidatura para se realizar em Lisboa a JMJ. Faz sentido chamar-lhe o principal impulsionador do evento. É justo, esse mérito é seu. Talvez por isso, Manuel Clemente foi pronto a aceitar e a agradecer a homenagem. Tal como aconteceu a Carlos Moedas, não lhe terá passado pela cabeça a situação das vítimas. Sobretudo não passou pela cabeça de nenhum dos dois que isto não iria passar em branco e que as pessoas iriam reagir. Mas enganaram-se bem. Está a circular uma petição pública contra o nome do cardeal e milhares de pessoas já a assinaram. Estamos a ficar melhores, enquanto comunidade.»

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10.8.23

O Papa não foi à Serafina

 


«Ir à Serafina sem ver as condições indignas de habitação, para este século e até para o anterior, de uma parte da população é como… “ir a Roma e não ver o Papa”. Na sua visita ao bairro que me viu crescer, o Papa Francisco foi vítima daquilo que denunciou: “A maquilhagem.” O que lhe foi dado a ver no seu trajeto de carro foi somente a parte superior do bairro, a que nós chamamos “bairro novo”, feito de vivendas, assim como a moderna Paróquia S. Vicente de Paulo, que é de facto uma instituição que colmata falhas do Estado em matéria de apoio social, saúde e educação.

Mas não foi só na Serafina que a aparência se revelou diferente da realidade, a maquilhagem foi uma constante nesta Jornada Mundial da Juventude, parecendo por vezes que estávamos a assistir a um filme com legendas erradas ou mal dobrado. Quando se ouviam palavras como humildade, igualdade e inclusão de “todos, todos, todos”, viam-se pessoas com bandeiras LGBTI+ a serem excluídas, viam-se palcos megalómanos, via-se hierarquia, viam-se homens de Igreja à frente ou acima, mulheres da Igreja atrás misturadas com o povo, povo este separado das zonas VIP para as quais se congratularam socialites no Instagram por terem sido convidadas.

Onde se ouvia separação do Estado e da Igreja, Constituição e democracia, viam-se políticos em bicos dos pés para aparecer na foto, via-se o Estado como patrocinador oficial do evento. Onde se ouvia paz e preocupação com o dinheiro investido em armas, viam-se a PSP e as Forças Armadas. Onde se ouvia recato e reserva, via-se uma performance voyeurista de numerosos confessionários públicos.

O evento foi um sucesso segundo a organização religioso-estatal, mas apesar da maquilhagem deixou a descoberto cicatrizes na democracia que importa não camuflar. O evento acabou, mas o mundo continua a girar, e pur si muove!, e existem transformações político-societais que precisamos de levar a sério. Os poderes religiosos não se coíbem de participar nessa transformação. Se não nos ocuparmos da religião, ela ocupa-se de nós. E exemplos disso é o que não falta no mundo, basta olhar para os EUA ou Itália e para os retrocessos a que estamos a assistir em matéria de direitos das mulheres e das pessoas LGBTI+.

Fosse a religião, e nomeadamente a católica, uma pura escolha privada, uma prática individual ou mesmo coletiva, mas sem incidência na polis, muito deste debate não seria necessário. Aliás, que debate? Não houve, nem há, debate. As poucas vozes que ousaram pôr em causa o discurso dominante e consensual, apontar as contradições como “não façais da casa de Meu Pai uma casa de negócio”, que ousaram lembrar o legado imoral da Igreja e a sua contribuição fundamental para a preservação de estruturas patriarcais, imperialistas e supremacistas ainda vigentes, foram desde logo castigadas. Foram submersas numa narrativa chantagista, difamatória e até humilhante, tendo sido acusadas de “intolerância religiosa”, de prática de “discurso de ódio”, de defesa de “extinção da fé” ou outras designações menos informadas de jacobinismo ou anticlericalismo.

Sem esquecer o ataque à liberdade de expressão de “artivistas” como Bordalo II e a falsa e problemática equivalência entre o apoio do Estado às artes e à religião, confundido um mundo de liberdade e de constante recriação com um mundo da autoridade, do dogma e das verdades eternas, esquecendo ainda a Constituição e as razões que levaram à essencial separação do Estado e das Igrejas.

Maquilhar o interlocutor de demónio é uma estratégia bastante eficaz de diversão e de silenciamento, e que permite a abstinência do incómodo do debate de fundo. Estamos longe da capacidade de diálogo do arcebispo Onaiyekan e da deputada conservadora britânica Ann Widdecombe face aos ateus militantes Hitchens e Fry, no célebre debate sobre a papel da Igreja católica no mundo, que vale a pena ver ou rever. Um dos únicos argumentos várias vezes repetidos às vozes críticas foi o exemplo do “Papa mais progressista”, confirmando assim, involuntariamente, os argumentos das vozes críticas.»

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7.8.23

JMJ – Foi um bom servicinho

 

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A Jornada Mundial da Juventude 2023 e os ajustes diretos

 

“Acorrupção exprime a forma geral da vida desordenada do ser humano decaído (…) é mais desastrosa do que a lepra infame (…) “ela nasce de um coração corrupto e é a pior chaga social”
Papa Francisco, in “Corrosão: combater a corrupção na Igreja e na sociedade / Peter K. A. Turkson, Vittorio V. Alberti, (ed. Paulinas), janeiro 2018.

Assistimos por estes dias a um dos mais magnificentes eventos para a comunidade católica (na qual me incluo) – a Jornada Mundial da Juventude, uma emulsão profilática da fé individual expressa na Igreja universal, de inegável conforto espiritual para todos quanto nela participam e irrefutável valor para o reforço e futuro da congregação cristã.

Sobre esta peregrinação da juventude vinda dos quatro cantos do mundo, para neste Estado laico, mas de maioria católica, se encontrarem com Sua Santidade o Papa Francisco, considerável vozearia tem ecoado, não tanto sobre a oportunidade do evento, mas antes no que sugere a opção do seu modelo de financiamento.

Portugal decidiu (ao contrário do que sucedeu por exemplo em Espanha em 2011, em que os 50 milhões de euros gastos na preparação do evento foram integralmente financiados por privados, incluindo peregrinos) por uma solução do género “parceria público-privada”: constituiu-se a Fundação JMJ, entidade que representa juridicamente a organização da Jornada, de caráter privado, na qual três entidades públicas (Governo e Câmaras Municipais de Lisboa e Loures) investiram o que não se conseguiu ainda apurar com precisão, postergando-se para ulterior momento, a contabilidade final do evento.

Estima-se, contudo, que o impacto económico global da JMJ seja francamente superior ao investimento, de acordo com o estudo encomendado à PWC Portugal, pela Fundação. Um evento desta envergadura, com uma organização necessariamente complexa, não podia ter deixado de ser eficientemente planeado, relativamente a todas as suas condicionantes. Mas em Portugal, sê português.

Ao contrário do que os mais elementares princípios de gestão pública exigem, e como mestres que somos da arte da improvisação, ao termos assistido impávidos à natural (e sempre ávida) inexorável passagem do tempo (aliás dilatado, atendendo à situação pandémica), sem concretizar atempada e eficazmente as várias fases do projeto, através de uma estrutura inequívoca de comando que se responsabilizasse pelo sucesso deste, eis que, no que à condicionante financeira respeita, desatámos a contratar freneticamente, com recurso a, pois claro, ajustes diretos.

E foi assim que, com suporte na hábil norma jurídica introduzida no Orçamento Geral do Estado (artigo 118.º da Lei n.º 24-D/2022), votada favoravelmente inclusive por aqueles que, na oposição, brandem agora a espada da transparência, 82% do total da contratação pública para efetuar este evento foi realizada através de ajuste direto, em especial a 10 singelas empresas, as quais arrecadaram cerca de 85% do valor total contratado.

Esta constatação teria o interesse que lhe quiséssemos dar, malgrado uma panóplia (também ela inexorável) de alertas e proclamações públicas (bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz) disseminadas em:

1. Estratégia Nacional Anticorrupção 2020-2024/Regime Geral de Prevenção da Corrupção: “as entidades públicas … adotam as medidas que, de acordo com as circunstâncias, se revelem adequadas e viáveis no sentido de favorecer a concorrência na contratação pública e de eliminar constrangimentos administrativos à mesma, desincentivando o recurso ao ajuste direto”;

2. “Acompanhamento da Contratação Pública abrangida pelas Medidas Especiais previstas na Lei n.º 30/2021”, Tribunal de Contas: “o risco [de fraude e de corrupção] aumenta quando os processos de formação dos contratos não são concorrenciais”;

3. Recomendações de 2015 e 2019 do Conselho de Prevenção da Corrupção sobre prevenção de riscos de corrupção na contratação pública;

4. Relatório anual de contratação pública em Portugal 2021, IMPIC: “o peso dos valores contratuais [de ajustes diretos] comunicados ao portal BASE representou 6,40% do PIB, que face ao ano anterior representa um acréscimo de 1,19 pp. Dos contratos celebrados durante o ano de 2021, o tipo de procedimento a que se recorreu com maior frequência foi o ajuste direto, representando 53,2% do número total de procedimentos”, e

5. A lista, não fosse tornar-se fastidiosa, podia continuar.

É facto unanimemente considerado que o recurso (excessivo e indevidamente justificado) a ajustes diretos na contratação pública constitui um risco sério de distorção da transparência administrativa, favorece a despesa pública desnecessária, alimenta os conflitos de interesses e carbura lentamente a ordem jurídica democrática.

Termino como comecei citando Sua Santidade o Papa Francisco: “Não sejam patrões clérigos de Estado, mas pastores do povo de Deus. Que a Igreja seja sempre lugar de misericórdia e esperança, onde cada um possa ser acolhido, amado e perdoado”.»

Rute Serra
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3.8.23

JMJ é tsto

 

«uma palavrinha muito pessoal sobre a JMJ e o (pouco) que acompanhei: compreendo as polémicas, tenho as minhas opiniões sobre elas, não interessam para o momento. O que me choca - perdoar-me-ão o cinismo - não é saber se houve milhões gastos assim ou assado, justos ou injustos ajustes diretos (sim, é uma cacafonia propositada) ou se a Jornada é essencialmente boa ou má. A minha aversão mais profunda é à idolatria irracional, à adulação mística, à taumaturgia, ver o papa, ver o papa, o papa sorriu, o papa acenou. Adular o papa e comentar cada frase do papa, como se as suas palavras (mais banais, repetidas e mornas ou mais interessantes) contivessem o segredo da juventude eterna, um mistério revelado, a chave da felicidade. Jornalistas submissos, rendidos, acríticos, babam, papagueiam elogios sonsos, não questionam, não reportam nada. Hoje o papa beijou um bebé e as televisões explodiram em êxtase com o "bebé abençoado pelo papa". Levar os filhos bebés para o papa abençoar, achando que, tocados pelo papa, abençoados pelo papa, viverão livres de perigo, não é fé, é idolatria pagã. Perdeu-se a noção do ridículo. Bergoglio é um homem, não é um deus, e impressiona-me a forma como o transformaram num bezerro de ouro.»

Paulo Pinto no Facebook.
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2.8.23

A agonia do Estado laico

 


«O envolvimento do Estado (Governo e autarquias) no financiamento e organização da Jornada Mundial da Juventude da Igreja católica é, provavelmente, a mais grave violação do princípio constitucional da separação do Estado e das Igrejas desde que foi institucionalizada a democracia. Por três ordens de questões.

A primeira é de moralidade social. Apesar de ninguém querer fornecer dados globais da despesa pública com este evento da Igreja católica, os números conhecidos apontam para bem mais de 80 milhões de euros. O Governo e as autarquias de Lisboa e Loures forneceram terrenos, prepararam infraestruturas, fizeram pontes, construíram palcos megalómanos, asseguraram telecomunicações, mobilizaram forças de segurança à escala nacional, arranjaram transportes, cortaram trânsitos e acessos para que a Igreja católica pudesse levar a cabo a sua majestática mobilização religiosa. De tal forma que soa estranha ao discurso desclericalizante e de justiça social do Papa Francisco.

Num país com um dos mais altos índices de desigualdade e dos mais baixos salários da União Europeia e com gravíssimos problemas de acesso à habitação ou de sustentação de serviços públicos essenciais, investir somas do erário público deste montante como privilégio cerimonial de uma crença religiosa é social e politicamente imoral. Poupem-nos às justificações deliquescentes dos idílicos jardins floridos que vão ficar, ou às mais cínicas piscando o olho às expectantes negociatas do turismo e do alojamento local. Precisamente o que se reclamaria de gasto público tamanho é que fosse aplicado no interesse geral, ou seja, que ajudasse a resolver algumas das mais urgentes prioridades que enfrenta o país. Por isso, obrigado, Bordalo II.

A segunda é uma questão de princípio e de legalidade. Ao apadrinhar financeira e politicamente a mobilização religiosa da Igreja católica, ao atribuir-lhe um tratamento que configura um enorme privilégio sustentado pelos dinheiros públicos, o Governo e as autarquias que se lhe associaram violam abertamente a natureza laica do Estado, constitucionalmente estabelecida. E com isso atentam contra o princípio democrático e também constitucional da liberdade religiosa e de crença, pois a primeira condição para ela existir é a neutralidade religiosa do Estado. Neste melancólico entardecer das democracias, parece que em Portugal se vai regressando, sem protesto de quase ninguém, aos tempos do neorregalismo funcional em matéria de relações do Estado com a Igreja católica que caracterizaram a ditadura estado-novista.

A terceira é a questão da atitude simbólica de quem nos representa. Quando o Presidente da República faz questão de misturar sistematicamente no exercício das suas funções o seu papel de chefe do Estado com o de exuberante coadjutor da hierarquia católica; quando o primeiro-ministro socialista entende, enquanto chefe do Governo e sem vislumbre de estados de alma, participar nas missas papais; quando o presidente da Câmara de Lisboa, fingindo trazer a cruz da procissão às costas, se desdobra em exteriorizações patéticas de uma devoção toda ela bafejada pelo espírito mais prosaico de caça ao voto; quando os partidos parlamentares (com as honrosas exceções do Bloco e do Livre) se acotovelam para ficarem na fila da frente das cerimónias eclesiais; perante um tão beatífico cenário de unção religiosa por parte dos que deviam ser os primeiros a respeitar e a fazer respeitar a neutralidade religiosa das instituições públicas, eu pergunto se é possível deixar de pensar que estamos, despreocupadamente, a assistir à agonia do Estado laico enquanto pilar fundamental do regime democrático.

No que me toca, sou um cidadão republicano, ateu e socialista, e consequentemente convicto defensor da liberdade de crenças e descrenças. Por isso mesmo, não concebo que os impostos pagos por todos sirvam para financiar as espaventosas cerimónias religiosas só de alguns. Mesmo que estes se considerem religião maioritária. E precisamente por isso mesmo.»

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1.8.23

O tão velho Portugal desta jornada

 

«Dois séculos após a revolução liberal que deu o pontapé de saída na laicização da sociedade portuguesa, a amálgama entre identidade nacional e católica continua a ser descarada e reverencialmente promovida por um Estado que nunca operou a vital separação face à religião "oficial".»

Continuar a ler o texto de Fernanda Câncio AQUI.
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31.7.23

A fé é de cada um, o escrutínio é de todos

 


«O ano, 2019. O local, Panamá. Decorria a Jornada Mundial da Juventude. Marcelo Rebelo de Sousa, esfusiante, não cabia em si de alegre: “Conseguimos! Conseguimos, Portugal, Lisboa. Esperávamos, desejávamos, conseguimos. Vitória.” Descontando o natural exagero na reação do católico Marcelo, a visita do Papa Francisco a Portugal na próxima semana para, entre quarta-feira e domingo, participar na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, é um daqueles eventos cujo impacto e significado ultrapassam em muito os domínios reservados da fé, que a cada um dizem respeito. No final do ano, quando olharmos para 2023, este terá sido seguramente um dos acontecimentos, se não o acontecimento, mais importante no nosso país.

Portugal é ainda o quinto país da União Europeia com maior percentagem de população cristã, o que naturalmente inclui católicos, ortodoxos e protestantes, embora os primeiros sejam largamente maioritários no nosso país. Dessa forma, não só não choca como é perfeitamente natural que, sem prejuízo do respeito integral pela separação entre Estado e confissões religiosas, aliás consagrada constitucionalmente, a vinda do Papa Francisco a Portugal na próxima semana para participar na Jornada Mundial da Juventude tenha a maior relevância e mereça a maior das atenções e interesse.

Para mais, a vinda do líder católico ao nosso país surge num momento de enorme desconforto, entre crentes e não crentes, com a atuação da Igreja. Depois do enorme abalo que significou a denúncia e investigação dos abusos sexuais continuados, e escondidos, no seio da instituição ao longo de anos a fio, esta visita a Portugal do Papa e as palavras e ações que possa ter neste caso merecem um olhar muito atento — como na altura se disse, o destapar do horror dos abusos e encobrimentos exige ao mesmo tempo uma atuação firme e determinada para que nada fique como dantes na instituição.

Dito isto, uma coisa é o reconhecimento da importância de um evento que reúne no nosso país mais de um milhão de pessoas durante um conjunto de dias, vindos dos mais diversos pontos do globo, para um encontro religioso, festivo e celebrativo, outra é considerarmos que as entidades públicas, do Estado central à menor das autarquias devem nesta altura criar uma espécie de ‘bolha’ em que as regras que vigoram para o resto do tempo nesta altura não contam para nada. Em particular, as regras que dizem respeito à boa utilização dos recursos, escassos, públicos de que dispomos.

Sem radicalismos, jacobinismos ou confessionalismos, sem posições barricadas, com bom senso e moderação, mas sempre com determinação, a realização de visitas ou de grandes eventos populares não eliminam a necessidade de escrutínio jornalístico sobre o que se passa.

É por isso da maior relevância que um jornal como o Expresso, que procura informar o melhor possível e dentro da maior independência os seus leitores, olhe nesta última edição do semanário antes da chegada do Papa a Portugal na quarta-feira para os dinheiros públicos que estão a ser gastos, e de que forma, na preparação do evento (e ainda há faturas das quais desconhecemos o valor final, olhe-se por exemplo para as polémicas à volta dos palcos nos últimos meses).

Todos, a começar por Francisco e a terminar no peregrino que se deslocou do mais longínquo ponto do planeta até Lisboa, são muito bem vindos. Mas isto não retira o direito de questionar o porquê da multiplicação como cogumelos dos processos de contratação direta pelo Estado, para os mais variados serviços relacionados com a Jornada, sem o recurso a um concurso público. Ou seja, a regra de contratação pública em Portugal é o concurso público. Mas quando as coisas se tornam sérias, fechamos os olhos e a regra já não vale. O que se passou no Estado central e nas principais autarquias envolvidas na Jornada, em particular nos últimos meses, é mesmo um autêntico despautério. Multiplicam-se os contratos sem concurso, três quartos do total foram já em 2023 e metade só no último mês.

Alguém entende isto?»

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30.7.23

Por favor!

 



Preciso de comunicar com um milhão de seres que vagueiam agora nesse tal de Portugal!
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28.7.23

JMJ – Cada tiro, cada melro

 

«Em Portugal, vão realizar-se pelo menos cinco touradas durante o período da Jornada Mundial da Juventude. Sem clemência.» (JN)
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JMJ - A Caminhada da Vergonha

 


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26.7.23

JMJ: a fé que move montanhas?

 


Há muito que esperava que alguém se lembrasse de relacionar as JMJ com as pegadas carbónicas que deixarão. Mais: aqui ou em qualquer outra do mundo, não entendo como se põe um milhão de pessoas a circular, quando se sabe o que isso implica para o estado em que o mundo está.

Este texto do Expresso resume que «os peregrinos que virão a Lisboa para a Jornada Mundial da Juventude vão ter acesso a uma aplicação com uma calculadora que mede a sua pegada carbónica. A organização publicou um manual onde recomenda formas de compensar a poluição provocada pela viagem a Lisboa.» Não sei se alguém acredita na eficácia de tudo isto, mas copio o exemplo que é dado do que podia, e devia, fazer um grego para compensar uma viagem de ida e volta Atenas / Lisboa:

«1) A primeira sugestão é realizar a viagem casa-trabalho de comboio ao invés de carro pessoal durante dois anos, para um percurso de 10km (para estes cálculos a empresa usou fatores de emissão de comboio de 0,0235 kgCO2e/pessoa/km e de carro de 0,1815 kgCO2e/pessoa/km, duas viagens casa-trabalho de 10km/dia e 251 dias de trabalho/ano).

2) A segunda sugestão é aceitar o desafio de “ser vegetariano durante um ano” (para estas cálculos considerou-se uma redução das emissões de uma dieta omnívora, com elevado consumo de carne, de 3285kg CO2e/pessoa/ano para uma dieta vegetariana, de 1700kg CO2e/ pessoa/ano).

3) Finalmente, para compensar a totalidade das emissões da viagem, o manual recomenda “apoiar programas de conservação de árvores durante um ano, correspondente a 65 árvores (assume que cada árvore capta um valor médio de carbono de 26,6kgCO2e/árvore/ano)”.»

Eu sei que a fé pode transportar montanhas, mas não gosto de ser tratada como parva.

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15.7.23

JMJ: Queremos ser o primeiro país a torrar um papa

 


«O Papa Francisco ostentará assim paramentos brancos feitos em burel. Melhor dizendo: a lã da Serra da Estrela, como símbolo da tradição portuguesa.»

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14.7.23

JMJ: sem dúvida de sombras

 


«Estou com dúvidas sobre qual o evento que vamos receber em breve no nosso país, afinal é a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) ou o Burning Man? Esta semana, Ana Catarina Mendes, a ministra que tutela a JMJ, revelou à TSF estar inquieta com as condições climatéricas que se vão fazer sentir durante os dias previstos para o convívio. Ao que parece, a ideia de o recinto não ter qualquer sombra não foi brilhante. A ansiedade da ministra tem de merecer a nossa complacência: a organização deste tipo de certames implica sempre lidar com imprevistos, difíceis de gerir quando são impossíveis de vaticinar, como fazer sol e calor em agosto.

Há seis meses, o país parou para refletir sobre a moralidade orçamental da pala do altar-palco da JMJ, mas não houve grande celeuma em torno das centenas de milhares de indivíduos que, como não foram elevados a cardeais e não se podem sentar ao lado do Papa, vão torrar ao sol. Ainda tive esperança de que estivessem a acautelar esta situação na sombra, mas não. Há o governo-sombra e há o Governo que não trata atempadamente da sombra. Agora, é improvisar, talvez alterando o nome do evento para Fornada Mundial da Juventude.

É que os participantes são beatos, mas vão aquecer mais do que beatas. Lisboa será invadida por 4 mil autocarros, porém, quem vai ficar com um bronze à condutor de pesados são os peregrinos. Parece-me óbvio que os participantes têm a expectativa de que haja uma sombrinha, já que a última Jornada foi no Panamá. Não sei se plantaram árvores, mas o que não faltam lá são chapéus. Quanto aos voluntários, podem estar descansados. Ainda que não mexam uma palha, ninguém os vai acusar de não terem suado a camisola.

A inquietação de Ana Catarina Mendes não é partilhada pelos responsáveis ao nível autárquico, que talvez considerem que a sombra é sobrevalorizada e, fundamentalmente, um capricho. Filipe Anacoreta Correia, vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa e aparentemente um entusiasta da vitamina D, justificou a ausência de pontos de sombra com o facto de estes prejudicarem a visibilidade. Sou da opinião de que, mais do que árvores, o que prejudica a visibilidade são os desmaios. Quando muito, as árvores até permitem melhor vista, se as soubermos trepar. E muitos dos participantes terão essa destreza, uma vez que são escuteiros.

Nesta altura, a Igreja pouco ou nada pode fazer, até porque a Bíblia é demasiado grossa para ser eficaz como abanico. Ainda assim, tenho genuína esperança de que Sua Santidade já tenha submetido um requerimento junto do superior hierárquico, São Pedro, para que este destaque cinco ou seis nuvens do seu arsenal para a Bobadela. De outro modo, a desidratação generalizada é inevitável e será necessário recorrer a um segundo advento. Se Jesus Cristo transformou água em vinho, seria simpático que regressasse à Terra de 1 a 6 de agosto para transformar vinho em água. Fresquinha, de preferência. Nosso Senhor passava ali numa adega do Cartaxo, convertia as pipas em garrafas de Vitalis e deixava-as em Loures. Se tal não for possível, pelo menos que se abstenha de transformar o que quer que seja em moscatel quente.

Construir um extenso parque sem sombra é péssimo para os residentes que se espera virem a usufruir dele. Na verdade, provavelmente ninguém lá vai pôr os pés no futuro. A Jornada dura seis dias e o Parque Tejo vai descansar ao sétimo. Em Portugal, a infraestrutura é pensada como se se tratasse de uma máquina de gelados que compramos para casa. Usamos uma vez para uma ocasião especial, passados uns meses nem nos lembramos que existe.

Temos uma grave carência de espaços verdes onde seja agradável passar tempo. Quem governa deve ter alergias polínicas, mas a culpa também é nossa. Neste país, o Jardim com mais popularidade de sempre continua a ser o Alberto João. Quando um português pergunta “onde é que há um parque aqui perto”, não está à procura de um terreno arborizado e ajardinado, habitualmente só quer estacionar o carro. Sobretudo, esta opção para o recinto da JMJ demonstra enorme ingratidão para com a botânica. Não vamos plantar árvores para receber o Papa quando devemos toda a nossa relevância junto da Igreja Católica a uma azinheira?»

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