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30.8.23

Ronaldo, os sauditas matam inocentes

 


«1 - Muhammad al-Ghamdi tem 54 anos, foi professor. Tinha duas contas no Twitter (agora X) em que criticava o regime saudita. É irmão de um dissidente, exilado em Londres. Foi preso, passou vários meses numa solitária, sem direito a visitas da família nem acesso a um advogado. Em julho, foi condenado à morte. Aguarda a execução da sentença.

2 - Salma al-Shehab tem 34 anos, estava a fazer um doutoramento em Medicina em Londres. Tem duas filhas, de seis e quatro anos. Tinha conta no Twitter e usava-a para criticar o regime saudita. Em dezembro de 2020, de férias no país, foi detida e acusada de terrorismo. No ano passado, os tribunais ampliaram a pena para 34 anos de cadeia (entretanto reduzidos para 27).

3 - São sete rapazes, todos detidos antes de fazerem 18 anos (um deles tinha 12 anos). Foram condenados à morte. Seis deles foram considerados terroristas por participarem em protestos contra o Governo saudita, ou comparecerem em funerais de vítimas da violência do regime. Foram torturados e assinaram as confissões. Sete crianças aguardam o dia da execução.

4 - São migrantes etíopes e fazem a travessia do mar Vermelho até ao Iémen, em direção à Arábia Saudita. Assim que atravessam a fronteira, são abatidos, ora com morteiros, ora com tiros à queima-roupa pelo sauditas. Tornou-se um padrão. São centenas de mortos. Há testemunhos, vídeos, fotografias e imagens de satélite que o comprovam. Corpos de homens, mulheres e crianças com os corpos desmembrados e espalhados pela terra de ninguém.

5 - Os sauditas gastaram sete mil milhões de euros, desde 2021, com o desporto e, sobretudo, com o futebol. Os futebolistas e treinadores portugueses alinham, como outros, nesta operação pornográfica para desviar a atenção sobre as atrocidades do regime, de sorriso rasgado pela chuva de dólares: Jesus, Rúben Neves, Otávio e, antes de todos, Ronaldo são os promotores de um regime atroz. Bastariam uns minutos de navegação pelos sites da Amnistia Internacional ou da Human Rights Watch para perceberem que Muhammad, Salma, as sete crianças, as centenas de etíopes vivem e morrem num Inferno. Coisas desagradáveis que não interessam quando a bola rola e há milhões para faturar. Mas é verdade que não estão sozinhos na hipocrisia.»

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17.8.23

Arábia Saudita: o dinheiro tudo lava

 


«Sportswashing é o nome dado à utilização do desporto como meio de melhorar a reputação de um Estado ou instituição, associados a injustiças como a violação sistemática de direitos humanos. O termo entrou no vocabulário corrente das discussões sobre política e futebol durante o Campeonato do Mundo de 2022, realizado no Catar, em estádios construídos por trabalhadores migrantes sujeitos a condições sub-humanas, muitos dos quais falecidos durante essa tarefa. Mas parece ter sido rapidamente esquecido.

Ao invés, o que tem ocorrido é a normalização e banalização da utilização do desporto para mascarar atrocidades. O exemplo mais evidente é o da Arábia Saudita, que financia milionariamente, através do seu fundo soberano, uma liga de futebol energizada com contratações a peso de ouro das maiores estrelas do desporto-rei. A mais recente foi a contratação de Neymar, por pouco menos de cem milhões de dólares.

Pouco se discute, a propósito destas e de outras contratações, como Benzema e o nosso Cristiano Ronaldo, o facto de na Arábia Saudita a pena de morte ser aplicada sistematicamente, na sequência de processos judiciais sem as mínimas garantias de defesa, inclusive por crimes praticados durante a menoridade dos arguidos. Que a liberdade de expressão e de protesto, mesmo se apenas exercida online, como no Twitter, seja punida com penas de prisão entre os quinze e os quarenta e cinco anos. Que as organizações de defesa dos direitos humanos estejam legalmente banidas, e os ativistas sejam perseguidos, impedidos de se deslocar livremente, e condenados a penas de prisão de vários anos. Que migrantes, incluindo mulheres e crianças, sejam submetidos a tortura e condições degradantes apenas por se encontrarem no território em situação irregular. Que a legislação estabeleça que apenas os homens podem ser tutores legais, impondo a obrigatoriedade de as mulheres terem um tutor masculino para se casarem, sendo depois obrigadas a obedecer ao marido. Que homossexuais sejam decapitados, sob alegadas confissões de sexo com outros homens, pois a homossexualidade é banida por lei.

A tudo isto poderia a imprensa e a opinião pública, sobretudo ocidentais, fechar os olhos se o futebol na Arábia Saudita fosse um assunto privado, gerido por entidades privadas apenas condicionadas pelas práticas repressivas de um Estado cujo líder, sabemo-lo com pouca margem para dúvidas, é o responsável direto pelo assassinato do jornalista do Washington Post Jamal Khashoggi, no consulado saudita em Istambul, em outubro de 2018.

Mas a utilização do desporto, nomeadamente do futebol, como estratégia de soft power faz parte do Vision 2030, um grande programa desenhado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman para diversificar a economia saudita, impulsionar o turismo, diminuir a dependência do petróleo e modernizar o país.

Soube-se há poucos dias que o Instituto Tony Blair continuou a ser financiado pelo Vision 2030 mesmo após o assassinato de Kashoggi. Segundo o The Guardian, o próprio Blair considerou que, não obstante aquele “crime terrível”, se justificava manter a cooperação, dado o interesse estratégico para a região do programa.

Esta cínica troca de valores por dinheiro pode chocar, mas o certo é que as várias potências ocidentais se têm vindo a reaproximar de Riade, não obstante os públicos e generalizados atropelos aos direitos humanos praticados pelo regime. O Canadá decidiu, em maio, restabelecer relações diplomáticas com a Arábia Saudita, interrompidas em 2018. O Reino Unido e os Estados Unidos são os principais fornecedores de armas da Arábia Saudita, que por sua vez são usadas em ataques devastadores ao Iémen, causando a morte a milhares de civis e originando aquela que é a maior catástrofe humanitária do mundo.

Não é só o desporto, portanto. Também a política se move por caminhos tortuosos, onde os direitos humanos e a vida são sempre colocados num patamar inferior se do outro lado da balança pesam fortes interesses económicos.

E 2018, e a indignação internacional que aquele assassinato gerou, já vão longe. Hoje lemos e ouvimos as notícias destas transferências milionárias do futebol sem que as peças, provavelmente por fadiga ou esquecimento, nomeiem Khashoggi, o seu algoz, Mohammed bin Salman, ou o facto de a violação dos direitos humanos, na Arábia Saudita, ser prática corrente e, até, política de Estado.

Assistimos, indiferentes, à normalização do regime saudita na cena internacional, com Biden a cumprimentar Mohammed bin Salman em enorme familiaridade, e Rishi Sunak a convidá-lo para uma visita oficial ao Reino Unido no próximo outono. No desporto e na política, o dinheiro lava tudo.»

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14.8.12

Cidades industriais só para mulheres



Algures na Arábia Saudita, vai ser construída a primeira de cinco cidades industriais exclusivamente para mulheres, pretendendo-se que estas tenham mais oportunidades de trabalho e «adquiram maior independência financeira, ao mesmo tempo que se mantém a segregação por género».

Um dirigente de uma instituição ligada à propriedade industrial explica que será oferecido «um ambiente e condições de trabalho em consonância com a privacidade das mulheres, de acordo com as directivas e normas islâmicas para as trabalhadoras». É um grupo de mulheres empresárias que promove este projecto que também ajudará a diminuir o fosso entre percentagens de emprego masculino e feminino.

E tenham esperança, cidadãs desse país: já terão direito a voto nas eleições locais de 2015 e nas de uma «assembleia consultiva»...

Quem quiser considerar que isto é um progresso, esteja à vontade. Só vejo negritude como nas vestes da foto. E não haverá revolução árabe que resista a este obscurantismo religioso, aqui, e em outras paragens, bem regado a petróleo. Como as notícias que chegam da Tunísia (o «melhor» dos casos...) infelizmente o demonstram: «Proposta para nova Constituição apresenta a mulher tunisina como "complementar" ao homem».

(Fonte)