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1.1.26

E o horror continua

 


«Trinta e sete organizações não-governamentais (ONG), incluindo os Médicos Sem Fronteiras (MSF) e a Oxfam, não cumpriram os novos requisitos legais para manter as suas atividades humanitárias nos territórios palestinianos ocupados, informou hoje o Governo israelita. (…)

Sem este registo, as ONG não podem incluir funcionários internacionais com conhecimentos técnicos, por exemplo, nas áreas da saúde, água ou saneamento, nem transportar bens essenciais de ajuda humanitária através das fronteiras controladas por Israel para a Faixa de Gaza ou Cisjordânia.»


8.10.25

Na minha família, ao Holocausto, sobreviveram

 


«…a minha bisavó materna, a minha avó e três irmãs, o meu avô, sua mãe e duas irmãs. O pai do meu avô foi morto à paulada por um grupo de estudantes polacos quando saía da sinagoga, em Varsóvia.

Quem não conseguiu fugir, foi enviado para os campos de concentração. Crianças, velhos, mulheres e homens. Família que me foi vedada.

Quem sobreviveu, para seguir em frente, abafou a dor. A minha bisavó materna tirou a peruca e disse: Deus Não Existe.

NUNCA MAIS, ouvi desde criança. NUNCA MAIS, orientou a minha vida. NUNCA MAIS, é o farol do qual não abdico.

No dia 7 de Outubro de 2023, tremi. Benditos mãe e pai que já não estavam cá para viver esse novo horror. Dois anos antes a minha mãe assistia às notícias sobre a Palestina e colocava as mãos na cabeça: não foi por isto que lutei toda a minha vida.

Com o 7 de Outubro, GAZA cresceu de dor. Nunca ousei, por respeito às vítimas, colocar na balança uns e outros mortos. É imperativo que se reconheça o terror de ambos.

GAZA continuou a crescer de dor enquanto Israel enlameava os nossos mortos.

NUNCA MAIS, voltou a ser um grito desesperado.

HOJE, dia 7 de Outubro de 2025, as famílias de Israel continuam a sofrer. HOJE, dia 7 de Outubro de 2025, os palestinos continuam a morrer e os que sobrevivem acumulam sofrimento.

Perguntei-me, desde que me conheço capaz de pensar, como foi possível o mundo só acordar depois de um povo ter sido praticamente dizimado. Hoje entendo. O mundo está a fazer o mesmo com os palestinos.

O assunto, senhores, é este: GAZA e o GENOCÍDIO.

De cada vez que vejo a direita detonar contra os integrantes da flotilha, VOMITO.

Ontem, a desilusão: sobre a flotilha, Luis Carneiro não teve mais nada a acrescentar senão ter-se congratulado pelos portugueses terem chegados sãos e salvos. Sobre GAZA, NADA.

Nas autárquicas o assunto também continua a ser GAZA porque GAZA fala do que somos enquanto espécie.

O assunto é GAZA e quem ainda não entendeu isso que vá para o inferno.»

Ethel Feldman no Facebook

Plano da paz ou plano de guerra?

 


6.9.25

Gaza

 


«As condições de insegurança são flagrantes: à medida que avançam na Cidade de Gaza, as Forças de Defesa de Israel deixam tudo em ruínas, e os palestinianos deixarão de ter os prédios ainda habitáveis. O Exército israelita destruiu um edifício alto no sul da Cidade de Gaza, alegando que servia como centro de informações do Hamas. O ataque marca o início de uma ofensiva em larga escala, que ameaça milhares de civis encurralados e o sistema de saúde já em colapso.»


11.8.25

Israel matou cinco jornalistas de Al Jazeera

 


«ISRAEL MATOU CINCO JORNALISTAS em Gaza. No mesmo dia matou mais 52 palestinianos. Matar os jornalistas que ainda conseguem trabalhar na Faixa de Gaza é matar os olhos que ainda podem ver e contar o que está a acontecer. O grande inimigo de Israel, neste momento, já não é o Hamas, é a verdade! E a verdade pode ser ainda pior se Israel concretizar o que Benjamin Netanyahu anunciou: a tomada e controlo da cidade de Gaza. O ataque aos jornalistas, todos da Al Jazeera, foi um ataque directo a uma tenda de jornalistas à entrada de um Hospital. Israel assumiu o ataque e argumentou que um deles, Anas al-Sharif era um "terrorista". Na foto, dois dos jornalistas assassinados: Anas al-Sharif e Mohammed Qreiqeh.»

José Manuel Rosendo no Facebook.

Texto completo AQUI.

3.8.25

Voltar a dar esperança

 


«Portugal está mais perto do que nunca de reconhecer um Estado Palestiniano, sendo esse o sentido óbvio do comunicado agora divulgado pelo gabinete do primeiro-ministro. (…)

Mário Soares foi nisso exímio, ou não fosse ele o presidente português que estava a jantar em Gaza com Yasser Arafat quando em Telavive Yitzhak Rabin, com quem o presidente português tinha almoçado antes na visita que fez a Israel, foi assassinado por um extremista judeu contrário aos Acordos de Oslo. (…)

Não será em Nova Iorque em setembro que a paz final entre israelitas e palestinianos será obtida. Mas seria importante o mundo, seja o Ocidente sejam os países árabes, envolver-se de uma forma menos cínica do que no passado. (…)

Acontecerá a breve prazo? Há uma solução para pôr fim ao ciclo de ódio? Que cada um dê a sua resposta. Mas que a mortandade que grassa naquele recanto do mundo tem de parar, é uma questão de humanidade. É preciso voltar a dar esperança.»

Ler na íntegra AQUI.

26.6.25

O engenheiro do caos deixou tudo mais perigoso

 


«Já nem falo da violação do direito internacional como referencial mínimo de comportamento. É dele que dependem nações mais frágeis, como o Taiwan ou a Ucrânia, pelo menos na sua defesa política contra o regresso da lei do mais forte, ao gosto de Putin, Trump e Netanyahu, primos políticos e morais. Fico-me pelos resultados práticos da intervenção de Israel contra o Irão. Na sua rápida aventura iraniana, Israel teve vitórias simbólicas e práticas relevantes.

Conseguiu levar a guerra para dentro do Irão, depois de este passar décadas a combatê-lo através do apoio a guerras por procuração fora de casa.

Terá deixado em mau estado o sistema de mísseis balísticos iraniano, mas, em troca, o seu território foi bombardeado por mais do que rockets, uma experiência rara para as populações de Telavive e Jerusalém, o que mostrou a diferença entre o Irão e os outros alvos que Israel escolheu no passado recente. Imagino que, para a decisão de não continuar a guerra, terá pesado o impacto psicológico dos bombardeamentos.

Terá conseguido decapitar parte da liderança militar iraniana.

E mostrou que a aliança do Irão com a Rússia, demasiado enterrada na Ucrânia, e com a China, pouco dada a intervencionismos militares, é menos sólida do que parecia. Não sabemos, é verdade, o que aconteceria se a guerra fosse mais longe e estivesse em causa a circulação no estreito de Ormuz ou a sobrevivência do regime. Mas, depois de neutralizar o Hamas e o Hezbollah (quem acha que foram destruídos conhece mal aquela realidade), de ver cair o regime de Assad e de só restarem os hutis, no Iémen, esta prova de fogo, no momento em que o Irão está económica e politicamente mais fragilizado, foi importante.

O NARCISO E O ENGENHEIRO DO CAOS

Benjamin Netanyahu conseguiu, por fim, arrastar os Estados Unidos para uma guerra com o Irão. Era o sonho de uma vida. Mas, aí, a vitória foi pífia. As divisões dentro da base de apoio de Trump, o risco de ver o preço do petróleo disparar (e se o regime de Teerão tivesse sido encostado à parede, cometeria o suicídio económico de encerrar o estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo do mundo, afetando a China, que é o seu principal destino) e a forte possibilidade de, com uma baixa americana, o envolvimento do homem que sonha com o Nobel da Paz se tornar incontrolável na escalada dos eventos levaram Trump a picar o ponto, fazendo os mínimos para cumprir o papel de aliado de Israel, apenas no que os Estados Unidos eram indispensáveis.

Como o Irão não desejava a escalada, as suas respostas foram sempre proporcionais e, no caso dos EUA, totalmente coreografadas. Para Trump, chegou para mudar o alinhamento da Fox News, que tinham Israel como estrela, alimentando o seu narcisismo. O problema de Netanyahu é ter pouco para dar e demasiado para pedir a Trump, que pensa em tudo como pensa nos negócios.

Havia um objetivo secundário, um extra desejado, que felizmente ficou pelo caminho: fazer o regime iraniano (ou o país) colapsar através de uma intervenção externa. Até se apresentaram soluções delirantes, como a do filho de Reza Pahlavi. Não é que eu não deseje o fim de uma ditadura teocrática e brutal. Mas talvez os engenheiros do caos devessem ter aprendido com os erros passados. Iraque, Líbia e Afeganistão foram as suas extraordinárias obras. No caso do Iraque, ela levou a centenas de milhares de mortes, ao nascimento do Estado Islâmico, à guerra civil na Síria, a uma crise migratória para a Europa, ao crescimento da extrema-direita.

Para Netanyahu, é indiferente. É do caos à sua volta que se tem alimentado. Para o resto do mundo, seria uma tragédia. O regime iraniano terá de mudar por dentro. Não sendo, ao contrário do que eram o Iraque ou a Líbia, uma ditadura unipessoal; tendo uma classe média relativamente forte e instituições mais sólidas, há condições para isso acontecer. Até havia bons sinais, com a crise económica e algumas cedências do moderado Masoud Pezeshkian. Veremos se, depois desta intervenção, não foi a linha dura dos Guardas da Revolução a reforçar o seu poder. Esperemos que não.

ADIADO POR MESES

Onde o ataque conseguiu pouco foi onde dizia que tinha de conseguir tudo. Segundo a Defense Intelligence Agency (DIA), a agência de informações do Pentágono, os ataques terão apenas atrasado o programa nuclear iraniano por alguns meses – as reservas de urânio do Irão não terão sido destruídas e uma das fontes até diz que as centrifugadoras estão praticamente intactas. Num país que é autossuficiente na capacidade de o refazer.

O ataque não aconteceu porque a bomba nuclear estivesse iminente. Netanyahu diz que está iminente desde 1995. O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica e os serviços de inteligência norte-americanos nunca confirmaram evidências de que tal fosse verdade. O ataque foi decidido há um ano, aliás. Aconteceu agora por causa do enfraquecimento dos aliados iranianos e das condições operacionais. O sentido de urgência foi fabricado.

Este ataque pode ter conseguido outra coisa: uma machadada na participação do Irão no Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e na sua participação séria em negociações, depois de Trump ter posto fim ao Joint Comprehensive Plan of Action, acordo que realmente susteve o plano nuclear iraniano (depois desta decisão, em 2018, o programa acelerou), e de ter bombardeado o país a meio de conversações.

A desnuclearização total do Irão, exigida por Israel, nunca acontecerá. Não é uma questão de regime, mas de Estado. O programa nuclear começou em 1954, com o Xá Reza Pahlavi e apoio de França e dos Estados Unidos. Por outro lado, o Irão está próximo de potências nucleares, como o Paquistão, a Índia, Israel e a China, sendo, com a Turquia (debaixo do guarda-chuva nuclear da NATO) e a Arábia Saudita (aliado preferencial dos EUA), a única grande potência sem instrumentos de dissuasão. Que lição tirou deste ataque? Que se tivesse a arma, não teria sido atacado.

A grande lição que o Irão pode tirar de tudo isto é que precisa de ter capacidade nuclear. Não obrigatoriamente a bomba, mas, como explicou Daniel Pinéu na entrevista que lhe fiz no Perguntar Não Ofende, uma capacidade de dissuasão latente. Na realidade, o TPN só funcionou contra eles. O caminho pode ser o de abandonar o TPN e a fátua que não lhes permite usar armamento nuclear. E fazer o mesmo que fez Israel: construir a arma em segredo, fora dos limites de qualquer tratado ou supervisão. O que leva à pergunta óbvia: ficámos mais ou menos seguros depois desta intervenção?»


9.6.25

Gaza: sequestro de activistas

 


«O Ministério das Relações Exteriores de Israel confirmou, em nota oficial, o ataque ao barco Madleen e o sequestro dos ativistas da Flotilha da Liberdade, grupo que navegava em direção a Gaza com ajuda humanitária. Em tom ofensivo e debochado, a chancelaria israelense classificou a embarcação como um “iate de selfies e celebridades” e afirmou que os passageiros seriam deportados para seus países de origem.

A nota também buscou justificar a interceptação com alegações de que a ação dos ativistas seria uma “provocação midiática” e minimizou a ajuda humanitária levada pelo barco. Israel ainda exaltou a atuação da chamada “Gaza Humanitária Foundation”, uma entidade sem credibilidade no campo humanitário, acusada por organizações independentes de colaborar com ações militares israelenses e de participar de execuções de civis sob pretexto de “entregas de comida” em Gaza.

O episódio foi amplamente criticado por organizações de direitos humanos e movimentos internacionais solidários ao povo palestino, que denunciam a violência sistemática de Israel contra missões civis de apoio à população cercada em Gaza.»

Mídia NINJA no Facebook

16.1.25

Um dia feliz, a vitória de Trump e a fatura que virá

 


«O acordo de cessar-fogo em Gaza não é muito distante ao que Hamas queria, há meses. E isso diz-nos que poderiam ter sido poupadas milhares de vida. Porque há meses que se sabia que nenhum novo objetivo militar ainda poderia ser conquistado. O prolongamento da guerra resultou de interesses políticos de Netanyahu e da espectativa de ver Trump chegar à Casa Branca. E o Hamas não foi aniquilado, porque nunca poderia sê-lo, com esta ação. Foi o próprio Antony Blinken a confirmar que o grupo “recrutou quase tantos novos militantes quanto perdeu”.

Na primeira fase deste acordo, haverá cessar-fogo, com a retirada das tropas israelitas das zonas habitadas, mantendo-se em parte do território; o regresso dos refugiados palestinianos; a libertação de 33 reféns israelitas e de cerca de mil presos palestinianos, incluindo crianças. Falta perceber se, entre os libertados, está Maruan Barguti, uma possível liderança palestiniana, tal como foi pedido por Mahmoud Abbas. Apostaria que não. Isso seria retirar aos islamistas a liderança política da Palestina, coisa que Israel nunca quis, como já aqui documentei.

O cessar-fogo permitirá apoio humanitário a Gaza. Esta fase durará seis semanas, que podem ser prolongadas se as negociações para entrar na segunda fase demorarem mais tempo. A segunda fase corresponderá ao fim da guerra, retirada de Israel e libertação do resto dos reféns. A terceira fase, corresponderá à reconstrução de Gaza e entrega dos corpos dos refugiados mortos.

Mesmo que este acordo tenha sido construído por Blinken e tenha sido Joe Biden a dar a cara por ele, só a proximidade do dia em que Donald Trump chegará à Casa Branca que o permitiu. Porque a sobrevivência política de Benjamin Netanyahu depende do apoio do novo presidente. E porque o estilo destemperado de Trump é mais assustador do que o jogo do costume, dos democratas. Israel sabe que não pode fazer com Trump o que fez com Biden. E isso é triste. É uma vitória tremenda de Trump, para usar um termo que ele gosta.

Ou Netanyahu tem medo dos humores de Trump, ou foi-lhe prometida qualquer coisa para depois disto ou, provavelmente, as duas coisas. Sem pôr o carro à frente dos bois, quando apenas a primeira fase deste acordo parece fazível, podendo ser destruída a qualquer momento pelos dois lados, o futuro pode ser o reconhecimento das pretensões mais radicais de Israel para os colonatos, os territórios ocupados e Jerusalém. Pode ser o enterro definitivo da cada vez mais distante solução dos dois Estados. Em troca, Israel tem carta branca para lidar o Irão, única preocupação de Trump.

Para Trump, é importante recuperar a dinâmica dos acordos de Abraão, que desequilibraram os poderes no Médio Oriente, ajudando a enterrar os palestinianos na areia dos interesses e negócios das ditaduras árabes. Deixando os iranianos sozinhos a defender, por interesse próprio, o abandonado povo da Palestina. Transformar a causa palestiniana naquilo em que se tornou a causa curda: em vez de uma disputa territorial, a luta solitária e perdida de um povo sem Estado.

A solução trumpista para o conflito não é defender a causa palestiniana, é isolá-la e matá-la. O que não é difícil, tendo em conta a natureza ditatorial dos regimes árabes, distantes da opinião popular. O que quer dizer que se isolam os moderados e ficam os aliados de Irão. Mas, para chegar a isso é necessário pôr fim a um genocídio que não permite que qualquer país árabe converse sequer com Israel.

Mas isto é o futuro. Agora, é tempo para celebrar a interrupção do massacre, permitindo que o povo mártir de Gaza saia do inenarrável inferno em que vive há mais de um ano e receba o apoio humanitário que um mundo que se demitiu de todos os deveres lhe deve. É tempo para celebrar a libertação dos reféns criminosamente capturados pelo Hamas, que nunca estiveram nas prioridades de Netanyahu. Sabendo que a fatura virá a ser apresentada. Tem sido sempre. Não será seguramente diferente com Donald Trump.»


7.1.25

Como podemos obrigar Portugal a exigir o fim do genocídio em Gaza?

 


«Sem comida.
Sem água potável.
Sem escolas.
Sem aquecimento.
Sem privacidade.
Sem cuidados de saúde.
Sem electricidade.
Sem abrigo seguro.
Sem jornalistas para testemunhar.
Sem moralidade…

Há 15 meses que é esta a realidade em Gaza e a culpa é do regime israelita, de quem o apoia e de quem é seu cúmplice, como Portugal é. Portugal condenou o Hamas, e bem, mostrou-se solidário com as mortes de israelitas inocentes, e bem, mas nada diz sobre Israel, e nada fez, nem uma bandeira pelas dezenas de milhares de mortos palestinos civis, entre 45 a 200 vezes em maior número do lado palestiniano, o que faz de nós, portugueses, cruéis, desumanos e xenófobos. Porque umas vidas contam, mas outras não, para o Estado Português.

“A forma como o governo israelita está a usar a memória do Holocausto, para justificar aquilo que estão a fazer aos palestinianos é um completo insulto para a memória do Holocausto e é repugnante. Quando eu vi o embaixador israelita das Nações Unidas colocar uma estrela amarela (ao peito) causou voltas ao estômago, para alguém, como eu e a minha família inteira, que teve que usar uma, isso é insultuoso. Aquilo que distingue o Holocausto judeu é a sua escala industrial, e os métodos industriais que foram usados. E aquilo que está a acontecer em Gaza é semelhante em termos de escala, dos bombardeamentos, e a forma indiscriminada dos bombardeamentos, e o total desprezo por crianças e mulheres, que são a maioria das vítimas, o que evidencia a escala industrial do genocídio.” Isto foi dito por Stephen Kapos, de 87 anos, judeu, um dos muitos sobreviventes do Holocausto que são peremptórios a afirmar “O genocídio em Gaza não está a acontecer em meu nome”, assim como incontáveis grupos de judeus já o afirmaram pelo mundo fora.

Mas o que me deixa absolutamente perplexo, triste, revoltado e envergonhado é que os meus representantes no Governo e na Presidência da República estão a fazer com que eu e mais 11 milhões de portugueses sejamos cúmplices de crimes, como p.e. matar crianças à fome, como arma de guerra. Eu não quero ser cúmplice, diria que a maioria dos portugueses, da esquerda à direita, que têm uma opinião sobre o assunto não querem ser cúmplices do crime mais horrendo da humanidade, e continuam a sê-lo por falta de coragem, falta de moral, e falta de vergonha de, pelo menos, Presidente da República, primeiro-ministro e ministro de Negócios Estrangeiros. E para que percebam que para mim não há qualquer “partidarite”, à excepção do primeiro, os outros foram, entretanto, substituídos, eram do PS e agora são do PSD, e nenhum teve coragem para fazer o que se impõe, legal e moralmente, e as consequências para o povo palestiniano e para a toda a humanidade serão eternas e gravíssimas.

Segundo as Nações Unidas, todos os Estados, ratifiquem ou não a Convenção de Genocídio, são obrigados por conclusão do Tribunal Criminal Internacional a evitar que um genocídio ocorra, mesmo fora do seu território nacional. Portanto, Portugal tem a obrigação legal de evitar um genocídio... e nada faz.

Porque é que Portugal despreza então o direito internacional? É esta a mensagem que o Estado passa aos portugueses, de que a lei só é para ser cumprida quando é conveniente?

Acho que é a primeira vez que escrevo um texto em que pergunto na esperança de que me ajudem a encontrar as respostas: como é que podemos obrigar Portugal a exigir o fim do genocídio em Gaza?

E não digam que somos pequenos e que não depende de nós, porque é mentira. Depende de todos, e cada pessoa e cada país tem de fazer o que está ao seu alcance.

É sem qualquer ironia que afirmo que sindicatos, greves e protestos na rua, de professores, polícias, enfermeiros, colectores do lixo (como agora em Lisboa), etc. sejam temas mais importantes para a maioria dos portugueses, e que com estas acções de luta consigam obrigar quem os representa a mudar ou moldar o seu posicionamento sobre determinada reivindicação. Mas, quanto aos direitos humanos, que eu sei que “todos” concordam serem prioritários, como base de uma sociedade, base da humanidade, como é que se obriga quem nos representa a não nos tornar cúmplices do extermínio de crianças, numa carnificina indiscriminada sem precedentes?

É com mais protestos na rua?
É com greves de fome?
É com cartoons com a cara de Paulo Rangel ou Marcelo com bigode à Hitler?
Mais arte de intervenção para acordar as pessoas anestesiadas com futilidades?
Há algum sindicato de direitos humanos?
Há alguma greve que possamos fazer?
Como? Como? Como? Como se acaba de imediato com a nossa cumplicidade?

Bastava duas tomadas de posição nada radicais ou extremadas:
. Reconhecer ou mostrar intenção de reconhecer o Estado da Palestina (como Espanha, Irlanda, Eslovénia e Noruega já fizeram, e mais de 140 países fora do “Ocidente”).
. Condenar Israel e Netanyahu pelos crimes contra a humanidade mais do que documentados e comprovados. Mesmo que deixemos de lado a palavra “genocídio” enquanto o TCI avalia se este crime se comprova ou não.

Porque, em termos de organizações nacionais e internacionais que representam os direitos humanos e o direito internacional, todas, sem excepção, estão a condenar os crimes de guerra cometidos por Israel, assim como os crimes contra a humanidade, do qual o genocídio é o mais grave. ONU, Amnistia Internacional, Comité Internacional da Cruz Vermelha, todas as ONG que estão no terreno, Human Rights Watch, até o Tribunal Criminal Internacional, que embora ainda esteja a apreciar o caso já afirmou que Israel tem que terminar com o seu comportamento genocida, e até o Papa Francisco já o fizeram. Porque é que o Estado português é cúmplice e conivente com o governo israelita? Todos sabemos a resposta: interesses económicos e hipocrisia da real politik fazem com que o medo seja mais forte do que o humanismo.

Senhores que nos governam, por favor, tenham decência e tenham coragem, porque o dinheiro não se respira, não se bebe e não se come, e condenem Israel, porque, se nos calarmos em relação ao sofrimento de um povo para não ferir relações com um Estado governado por um dos maiores criminosos da história contemporânea, um dia alguém nos vai fazer o mesmo, e vamos sofrer no futuro a culpa da imoralidade do presente. Israel é um Estado criminoso, fundado no sionismo que vai contra os direitos humanos, aplica um regime de apartheid bem comprovado e desde há 15 meses mostra ao mundo o que é o seu plano de uma forma por demais evidente: eliminar ou expulsar o povo palestiniano da terra que sempre foi Palestina, e é reconhecida pela ONU como sendo Palestina.

Neste momento, é uma vergonha ser português, pela imoralidade e cobardia de quem nos representa, porque todos os dias Israel assassina em média 41 crianças há 15 meses, e Portugal aceita isto com o silêncio de um assassino em série sociopata.

Em Portugal o silêncio é ensurdecedor. Porque é que o povo português não reage? Porque é que as grandes figuras públicas não dizem nada sobre um genocídio? E acima de tudo: como podemos obrigar Portugal a exigir o fim do genocídio em Gaza?

Numa democracia, tal como em Portugal, os políticos eleitos são os nossos líderes e representantes, mas, mais do que líderes, os políticos são seguidores das nossas vontades enquanto povo, na sua maioria. E nós portugueses, temos de lhes mostrar que a nossa vontade é ser moral e legalmente correctos e que não queremos ser, nem um pouco, cúmplices da carnificina dos israelitas que vitima palestinianos, libaneses, sírios e não só.

Israel, neste momento, é um Estado-pária e Portugal vai ficar para a história como cúmplice.»


23.12.24

Acontecimento internacional de 2024: Gaza, o genocídio e a morte moral do ocidente

 


«Segundo a Amnistia Internacional, e deixo os humanistas seletivos a debater com ela, o que se passa em Gaza cumpre três dos cinco requisitos de um genocídio: matar membros do grupo, causar danos físicos ou mentais graves a membros desse grupo, e submetê-lo intencionalmente a condições de vida destinadas a causar a sua destruição física, no todo ou em parte. Com base em declarações públicas e vídeos de militares e responsáveis políticos, a AI estabeleceu a intenção, ilustrada por apelos e justificações.

Quando um jornalista perguntou à secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, porque é que a AI era a primeira grande organização a chegar à acusação do genocídio, acompanhada por relatores da ONU, ela respondeu que esperava a pergunta contrária: “porque demorámos?”

Já morreram, em Gaza, mais de 44 mil pessoas. Nunca tantas crianças em tão pouco tempo – cerca de 20 mil, o que corresponde a 44% das vítimas mortais. Nunca tantas crianças ficaram amputadas e órfãs. E 90% população sente fome ou risco de insegurança alimentar extrema.

Um estudo de junho, conduzido, em Gaza, pelo Centro de Formação Comunitária para a Gestão de Crises (CTCCM) com o apoio da War Child Alliance e Dutch Relief Alliance, junto de 504 crianças feridas, incapacitadas e/ou separadas dos seus cuidadores, concluiu que 96% das crianças sentem que a morte é iminente e quase metade quer morrer em consequência do trauma. 92% das crianças “não aceitavam a realidade”, 79% sofriam de pesadelos e 73% apresentavam sintomas de agressividade. O inquérito revela que 88% das famílias foram deslocadas várias vezes, 21% forçadas a mudar-se seis ou mais vezes.

Há muito que deixámos de falar de vítimas de uma guerra. São vítimas da limpeza de um território e de uma ação de punição coletiva que caracteriza todos os agressores motivados por fortes sentimentos racismo. Neste caso, lideradas por um primeiro-ministro suprematista e criminoso. A forma como olho para os que o apoiam ou se mostram complacentes com ele não é diferente da forma como olho para um apoiante de Putin. Apenas me espanta que a nossa comunicação social trate uns com muito maior bonomia do que os outros. É por serem mais? É por estarem no poder? É por alguns até dirigirem órgãos de comunicação social?

Não é apenas Israel que morre moralmente em Gaza. Isso acontece desde que Yitzhak Rabin foi assassinado por um fanático e que o poder político foi definitivamente tomado pela corrente política que Hannah Arendt, Albert Einstein e mais 25 judeus disseram, em 1948, ser próxima “na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, dos partidos nazis e fascistas”. O que se passa em Gaza é a morte moral do Ocidente, cúmplice, por atos e omissão, do líder que arma para que continue a chacina. Cada criança morta em Gaza é-o com armas europeias e norte-americanas. No caso dos EUA, pagas pelos seus impostos. A colaboração com Israel é superior à de quase todos os líderes e Estados que acusamos, com justiça, de apoio a Putin.

A outra vítima desta guerra é a memória, na forma como o antissemitismo, e o Holocausto e pogroms a ele associados, é instrumentalizado para defender o genocídio de um povo. Não é por acaso que entre os mais empenhados apoiantes de Israel estão muitos dos descendentes políticos do antissemitismo. A extrema-direita não abandonou a cultura do ódio pela diferença e da violência para a esmagar. Mudaram apenas as vítimas.

Quem, neste momento, apoia o que Israel (e é Israel, como Estado) está a fazer em Gaza não honra a memória das vítimas do antissemitismo. Segue as pisadas dos agressores. O que define o crime não é a identidade da vítima, são os atos e as motivações do agressor e as suas consequências.»


11.12.24

Israel: cultor e vencedor do caos

 


«Sobre o que penso em relação ao que se passa na Síria, escrevi o fundamental na segunda-feira. A simplificação emocional a que assisto, que confunde a natural esperança do martirizado povo sírio perante a queda de um sanguinário ditador com uma “libertação” levada a cabo pelos que ainda há uma semana eram tratados como terroristas, dependentes de uma coligação que tem como único cimento o ódio ao carniceiro caído, confirma o que temia. Mas não é preciso transformar fanáticos religiosos em libertadores para festejar a queda de um carniceiro.

Um dos exemplos que dei no texto anterior para ilustrar as contradições que impedem histórias simples ou esperanças infundadas foi a posição da Turquia e de Israel. Guardo a Turquia e o novo e o miserável sacrifício dos curdos para outro momento. Concentro-me em Israel porque foi o primeiro a revelar, da forma a que Netanyahu nos habituou, o seu absoluto cinismo na relação com esta guerra.

Mal tinha Assad aterrado em Moscovo, já Israel conduzia uma intensa campanha de ataques aéreos em quase todo o território sírio. Mais de 300 operações em apenas 48 horas. Destruição de toda a força aérea síria. Portos militares e outras instalações sem interesse militar destruídas. Muito para além do risco de armamento químico. Esse é o argumento impressivo, para calar o mundo perante a violação recorrente das regras internacionais. Curiosamente, ou nem por isso, as bases militares russas foram poupadas. O objetivo deste ataque é impedir que a Síria seja um Estado com capacidades militares próprias, ficando, por isso, entregue às suas milícias sectárias. Que se mantenha, como o Líbano, um Estado falhado.

No momento em que escrevo ainda não é claro até que parte do território sírio avançaram as forças militares israelitas. Os media internacionais, desmentidos por Israel, diziam que estava a cerca de 25 quilómetros de Damasco. Certo é que, aproveitando o vazio de poder, as forças israelitas ocuparam a zona desmilitarizada, protegida há cinco décadas por forças da ONU, numa violação do acordo de cessar-fogo de 1974, firmado após a Guerra do Yom Kippur. Quem o disse foi o enviado especial da ONU para a Síria, Geir Pedersen, não aceitando as justificação de que se trata de uma medida de segurança.

A ideia de que está a criar uma zona tampão para segurança de Israel é esclarecedora de como vai expandido o seu território. É uma zona tampão para proteger o que já era, supostamente, uma zona tampão. E, de tampão em tampão, lá se vai conquistando território aos vizinhos. É provisório, diz Israel. As ocupações provisórias, por supostas razões de segurança, tendem a tornar-se definitivas no projeto expansionista israelita.

Tudo isto aconteceu perante o silêncio despreocupado do Ocidente, para quem o respeito pela integridade territorial das nações só se aplica à Ucrânia, assim como as acusações de cumplicidade com criminosos só se aplicam à relação de Putin com Assad, não a si próprio, perante a chacina em Gaza. Quem aceite o argumento da defesa preventiva teria de o aceitar para a Rússia, porque a lógica cínica e mentirosa é a que foi usada para o Donbass.

Israel foi fundamental para a vitória dos islamistas descendentes da Al-Qaeda. Não apenas pelo apoio indireto, enfraquecendo o Hezbollah e o Irão, mas por ações mais direcionadas. O objetivo foi impedir que o Irão se estabelecesse no norte, nunca foi a queda de Assad, que não era prevista para próximo, aliás. Pelo contrário, interessava-lhe o prolongamento da guerra, que desmobiliza forças, enfraquece qualquer poder no país e garante que os sírios estão entretidos consigo mesmos. Como Israel bem sabe, o HTS não significa qualquer risco para ele. Tem de segurar o poder interno e partilha um inimigo comum: o Irão. Sendo uma fação mais sectária do que nacionalista, tem nos xiitas, não em Israel, o seu alvo prioritário. Não é por acaso que EUA e Ocidente estão satisfeitos com este desfecho.

A oposições é, neste momento, liderada pelo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), descendente do Jabhat al-Nusra, ramo da Al-Qaeda na Síria. Mas conta com o Exército Nacional Sírio, que combateu, aliou-se e pode voltar a combater o HTS. Esta força é composta por uma coligação variada e contraditória, que foi apoiada pela Turquia para controlar os curdos. Junta a Brigada Sultão Suleiman Shah, a Divisão al-Hamza e a Divisão Sultão Murad, alinhadas com Ancara, e a Ahrar al-Sham, que tinha como objetivo "derrubar o regime de Assad" e "estabelecer um estado islâmico governado pela sharia". E há as Forças Democráticas Sírias, uma coligação de combatentes curdos, mas também de árabes e outros grupos étnicos, que contaram com o apoio dos EUA para combater o Estado Islâmico.

Ao deixar fugir o Presidente Assad e ao negociar a transição com o seu primeiro-ministro, o líder do HTS, Al-Jolani, parece totalmente concentrado em segurar o poder que existe, aproveitando a benevolência do Ocidente a inesperada vitória relâmpago. Apesar de não ser provável, bom para o resto do mundo e para a região que, apesar dos riscos, essa transição fosse pacífica. Mas é certo que Israel não o permitirá, porque estabilidade interna dos vizinhos é poder consolidado de possíveis inimigos.

O lema de Israel tem sido o de dividir para reinar. Desgastar o poder dos vizinhos e de quem o possa conquistar. Alimentar o caos e a desordem à sua volta. Promover Estados falhados para ser quem, na região, vai impondo a ordem. Seja no sul do Líbano, no sul da Síria ou em Gaza. E nunca respeitar a integridade territorial dos vizinhos, perante a bonomia do Ocidente.

Israel não está sozinho na interferência direta na guerra da Síria. Tem uma vasta companhia, da Rússia aos EUA, do Qatar e Emirados ao Irão, da Turquia ao Hezbollah. A única coisa que o distingue é a rapidez com que mudou de lado, para ter a certeza que ninguém conquista realmente o poder. Israel não é o único foco de destabilização do Médio Oriente. Mas quem mais vai ganhando com o caos que ajuda a promover.»


13.11.24

Amsterdão: relatar factos não é antissemita, é jornalismo

 


«Não vou desenvolver muito sobre o que aconteceu em Amsterdão, no último fim de semana. Fico por isto: condeno, à dimensão da gravidade de cada ato, os gritos islamofóbicos da claque do Maccabi Tel Aviv (conhecida pelo seu racismo); a violação do minuto de silêncio pelas vítimas de Valência; o vandalismo contra bandeiras palestinianas penduradas em casas de cidadãos de Amsterdão; o ataque a cidadãos da cidade; e os ataques violentos, planeados (parece que vários o foram previamente) ou reativos, contra adeptos e/ou membros da claque israelita. Nenhuma das coisas justifica a outra. E nada justifica a incompetência das forças de segurança holandesa, que não conseguiram impedir estes atos.

Saltar desta infeliz confluência entre a violência no futebol e a violência política (de parte a parte) para a utilização de termos como “pogrom” é um insulto abjeto à memória do povo judeu. Já nem discuto a transformação automática de ataques a Israel ou israelitas, sejam graves e violentos, como estes foram, ou apenas críticas a políticas do governo ou do Estado, em antissemitismo. Confundir pogroms, perseguição de brutal violência contra uma minoria religiosa e étnica com apoio das autoridades, com o que aconteceu com uma claque em Amsterdão é ajudar a relativizar o que foi e é a perseguição aos judeus – aconselho este “fio” de Brendan McGeever, estudioso do antissemitismo.

Não é por acaso que a extrema-direita holandesa, como boa parte da extrema-direita europeia, acompanhou o absurdo. Hoje, os seus judeus são outros. A cultura do ódio é que se mantém. E contam com os que, da trágica história europeia, retiveram a identidade das vítimas, não o processo político que leva ao horror.

Mas o meu tema neste caso é outro. É a forma como a comunicação social é condicionada pela chantagem, a ponto de considerar que os factos são, eles próprios, antissemitas. É um dos poucos casos onde praticamente nenhum órgão de comunicação social mainstream europeu resiste. Não por uma especial sensibilidade, mas por medo de uma acusação que se tornou tão mais banal, quanto mais brutal vai sendo a carnificina em Gaza. Quanto mais crimes comete, mais Netanyahu se socorre da memória dos crimes contra os judeus para se defender. Da estrela amarela de David na lapela, nas Nações Unidas, à utilização recorrente de expressões como “pogrom” e “Holocausto”, passando pela acusação de antissemitismo conta qualquer pessoa ou instituição que não o apoie incondicionalmente, a falta de pudor tem sido absoluta. Porque resulta.

Algumas pessoas nas redes sociais, com especial destaque para o jornalista e colunista do “The Guardian” Owen Jones, deram-se ao trabalho de verificar as imagens que nos foram sendo apresentadas dos confrontos e seguir o fio dos acontecimentos. O resultado é um dos mais evidentes casos de desinformação, criada não pelas redes sociais, mas por alguns dos mais prestigiados títulos e canais da imprensa ocidental.

Veja-se a forma como a Sky News, que tinha uma repórter em Amesterdão, faz uma primeira reportagem falando “nos ataques a adeptos israelitas”, para depois editar e apagar a peça das suas redes, passando a noticiar os mesmos confrontos como um “ataque antissemita”. Como na peça do “The New York Times”, com o mesmo conteúdo, não há qualquer prova dessa alegação e as citações do responsável pela polícia nunca referem essa suspeita. A única prova de ódio étnico, e que aparece no mais prestigiado jornal norte americano, é precisamente a dos membros da claque israelita a gritarem mensagens de ódio contra os árabes e a celebrar a destruição das escolas palestinianas.

Uma prestigiada fotojornalista radicada em Amesterdão viu a cobertura que fez dos confrontos ser usada como prova das agressões à claque israelita. Problema, a própria fotógrafa diz que as suas imagens mostram o contrário e exigiu, publicamente e junto dos órgãos de comunicação social que as difundiram, que escrevessem o que ela viu e fotografou: “Adeptos do Maccabi atacaram cidadãos de Amesterdão em frente à Estação Central após o jogo”. Podem ver a entrevista que Owen Jones lhe fez aqui.

À hora em que escrevo, apenas os canais públicos de TV da Alemanha e Luxemburgo corrigiram a informação que tinham veiculado. BBC, CNN, “The Guardian”, “Bild” e “The New York Times” nunca se retrataram ou corrigiram a peça e continuam a usar imagens de hooligans a espancar cidadãos de Amesterdão como um caso de antissemitismo.

Em Gaza, a que Israel nega o acesso à imprensa internacional, ainda há condicionantes que explicam falhas do trabalho jornalístico. As fontes são escassas e a credibilidade do Hamas não é cartão de visita que se apresente. Mas no centro da Europa, à luz de todos, com imagens vídeo e fotografias a relatar que houve confrontos entre uma claque e habitantes locais, como acontece vezes sem conta todos os anos, a delirante narrativa criada pelo governo israelita foi seguida por todos os principais canais e órgãos de informação do planeta sem qualquer rebuço.

Quem um dia procure, nos arquivos, o ano em que Gaza foi arrasada e se levou a cabo limpeza étnica (assim foi denominada pelo jornal israelita Haaretz), encontrará a notícias de que finalmente os poderes europeus se ergueram, pela voz da presidente da Comissão. Não para falar de Gaza, mas para condenar um lamentável episódio envolvendo hooligans de uma claque, transformado num “pogrom” através da remontagem e reescrita dos factos inicialmente revelados pelos próprios jornalistas. O contrastante com a cumplicidade passiva perante cinquenta mil mortes é uma obscenidade política. A que nos estamos a habituar demasiado facilmente.»


12.10.24

A nossa degradação moral face à impunidade da guerra de Israel

 


«Moral e política são maus parceiros. A chamada realpolitik é exactamente a expressão que traduz esse divórcio. Ou seja, uma política feita em função, acima de tudo, de um conjunto de interesses, sejam nacionais, sejam de segurança, sejam de puro exercício de poder, em causa própria ou numa causa colectiva e que, na sua execução, passa por cima de qualquer consideração moral, ou de direito internacional, que pretenda impor limites à acção política pela regulação livremente acordada, considera-se “realista”. Ou seja, tudo se pode fazer em função de um objectivo, sem qualquer espécie de constrangimento.

Nações democráticas e ditaduras actuam em função dessa realpolitik de uma forma muito semelhante, nenhuma está inocente da prática de actos que violam qualquer restrição moral e o direito internacional. No entanto, há diferenças de dimensão, dado que as democracias respondem perante as suas opiniões públicas traduzidas no voto, e as ditaduras e os ditadores não têm de dar nenhuma explicação a ninguém.

Isto significa que, mesmo sem garantia de eficácia, uma ideia moral do que se pode ou não fazer, sejam quais forem as circunstâncias, e a aceitação do primado do direito, é sempre relevante nas democracias. Mais, é uma parte constitutiva das democracias a ideia de que, para além da hipocrisia, haja coisas que não se podem fazer e que devem ser condenadas sem “mas” e punidas sem hesitação. Sancionadas duramente e os seus responsáveis punidos como criminosos que são.

É o caso da actual guerra regional que Israel conduz no Médio Oriente. Há muito que não é uma guerra de resposta ao massacre do Hamas que fez agora um ano, nunca foi uma guerra existencial pela defesa do Estado de Israel – legítima, caso fosse –, porque quem escreve estas linhas considera inaceitável a turma do “desde o rio até ao mar”. É uma guerra que aceita que, para matar um militante do Hamas ou do Hezbollah, se podem matar cem velhos, mulheres e crianças, com total indiferença, que considera normal destruir a precária infra-estrutura de Gaza, casas, hospitais, escolas, tudo, sem a menor hesitação, que enuncia claros objectivos de alargamento territorial.

E não me venham com a história de que o facto de dois grupos terroristas se esconderem num escudo de civis, e usarem escolas, hospitais, instalações da ONU – coisa que eles fazem – justifica o que Israel faz. Israel tem recursos e meios para chegar aos seus objectivos militares e tempo para o conseguir sem este massacre quotidiano. Não, não é a razão militar que justifica o que está a ser feito, é considerar que ser palestiniano é ser terrorista, é atribuir uma culpa colectiva às populações de Gaza e do sul do Líbano que, quando inclui as mulheres, as crianças e os velhos, é moralmente obscena. E é, pela simultaneidade do que está a acontecer com os colonatos e as violências incentivadas pelo actual Governo de extrema-direita, uma guerra por território e uma limpeza étnica.

Israel é uma democracia, que beneficiava de uma simpatia em muitas democracias, mesmo sem que essa simpatia tivesse que ver com importantes comunidades judaicas, como nos EUA. Tinha simpatia muito para além do sionismo, à esquerda por exemplo, pela sua origem em certas experiências socializantes, como os kibutz. E tinha simpatia porque os seus adversários ou eram ditaduras árabes ou grupos terroristas capazes das maiores atrocidades. Israel estava no pior sítio do mundo para ser uma democracia e, mesmo quando havia preocupação pelo destino imerecido e violento dos palestinianos, a ideia de que tinha todo o direito de se defender dos seus péssimos vizinhos era muito consensual.

Hoje, tudo isto mudou e são evidentes os estragos que Netanyahu e o seu Governo fizeram ao prestígio de Israel, actuando de forma criminosa, palavra que resume tudo. E começo pelo prestígio, porque ele existiu em muita gente que era amiga de Israel e para quem a acusação, hoje vulgar, de ser anti-semitas é insultuosa. Essa parte da opinião pública protegia e apoiava Israel junto dos governos das democracias. Isso hoje acabou.

Do mesmo modo, o tratamento criminoso, volto à mesma palavra, dos palestinianos deu uma nova visibilidade à sua causa, criou uma grande solidariedade e deu alento à reivindicação dos dois estados e a uma maior condenação das acções dos colonos israelitas. Aqui também há um ponto sem retorno.

Dito tudo isto, é inadmissível a complacência que a União Europeia e o Governo português têm mostrado face a esta guerra. Lestos, e bem, em condenar e sancionar a Rússia pela invasão da Ucrânia, nem de perto nem de longe responderam às violências israelitas, nem às sistemáticas violações do direito internacional, nem sequer se mexeram muito para defender a ONU e António Guterres, ambos alvos de Israel, que ataca tudo à sua frente no terreno e na diplomacia, que não merece esse nome.

Há que compreender que esta hesitação miserável da Europa (Portugal incluído), que nem sequer tem grande papel como realpolitik, a não ser nalguns países por medo eleitoral, significa uma abjecção moral e uma cumplicidade inaceitável. Degrada-nos como país e como pessoas pela imoralidade.»


10.10.24

Se em Gaza são homens

 


«Quando, a 27 de outubro, os soldados israelitas entraram em Gaza, levaram seus telemóveis. Como os atacantes do Hamas, nos massacres de 7 de outubro, deram muito material de horror ao mundo. Foi a partir daí que a Al Jazeera decidiu trabalhar, fazendo o que qualquer órgão de comunicação social poderia ter feito: contar os crimes de guerra filmados pelos próprios criminosos.

Este está a ser, como disse a romancista palestiniana Susan Abulhawa à Al Jazeera, o primeiro genocídio ao vivo. Está tudo no Instagram, no Facebook, Tiktok, no YouTube, filmado e muitas vezes assinado próprios autores, com detalhes do local e do dia. É um autêntico arquivo de crimes de guerra.

A sensação de impunidade resulta da banalização da barbárie, muito para lá do campo de batalha. No TikTok, jovens mulheres militares, com o especto ocidental que nos permite sentir empatia por elas, dançam e cantam, fardadas, nos quartéis, tornando o genocídio instagramável. O povo israelita vê e naturaliza a alegria da guerra e, numa discoteca à pinha, canta "que a aldeia pegue fogo!" Vídeos de influencers parodiam a falta de água e eletricidade em Gaza, que mata milhares de crianças em Gaza, e os ferimentos supostamente simulados dos palestinianos.

Apesar de ter contribuído fortemente, a insensibilidade coletiva, que acompanha todos os crimes mais monstruosos da história, não resulta apenas do trauma de 7 de outubro. Foi incutida por um governo de extremistas: “Não é verdade que os civis não estejam envolvidos, é uma nação inteira que é responsável”, disse o Presidente Isaac Herzog. Não são palavras. São atos quotidianos em Gaza, com uma punição coletiva em larguíssima escala, que dura há um ano.

CRIMES NAS REDES

O jornalismo e a justiça têm as provas que precisam, entregues pelos próprios criminosos, tal é o sentimento de impunidade que lhes foi incutido pelos superiores. A própria Al Jazeera, que investigou 2500 contas nas redes sociais, ficou espantada com a facilidade do trabalho, quando esperava gastar muito mais recursos e tempo. Mostrou-as a especialistas e cruzou com o trabalho de terreno das suas equipas, procurando testemunhas e as imagens de drones israelitas.

Nos vídeos e nas fotos, encontramos destruição arbitrária, sem qualquer fim militar, de infraestruturas e casas; maus tratos a detidos; e a utilização de escudos humanos, acusação que costumam fazer aos seus inimigos. Tudo violações do direito internacional, tudo crimes de guerra.

Podemos ver a destruição e a pilhagem do interior de casas de palestinianos, registadas com alegria, para publicar nas redes. Charlie Herbert, um ex-general britânico entrevistado pela Al Jazeera, fala de uma falta de disciplina institucionalizada, bem diferente de excessos pessoais. E a destruição de todas as infraestruturas, sem qualquer critério militar. Uma política de terraplanagem para tornar a reconstrução material, económica, cultural e emocional impossível. Basta ver as imagens de satélite de Gaza para perceber até que ponto esta ilegalidade foi levada. O inimigo não é o Hamas, é todo um povo, como avisou o Presidente.

O pináculo da destruição sem interesse militar, detonando edifícios vazios, aconteceu em Khirbet Khuza’a, uma cidade de 13000 habitantes perto do muro que separa Gaza de Israel. Foi toda, mesmo toda, dinamitada. Razão? É a cidade mais próxima de Nir Oz, o kibutz mais violentamente atacado a 7 de outubro. Vingança planeada pelos comandos, não uma loucura de jovens soldados perturbados pela guerra.

Também vemos a humilhação de detidos, exibidos e filmados nas suas roupas íntimas. Ou filmados vendados e de joelhos, urinam de medo. Ou em posições que os ridicularizam. Ou relatos de quem foi obrigado a deitar-se sobre cadáveres quase em decomposição. Detidos foram violados, espancados, arrastados pelo chão, exibindo com orgulho as marcas de umas costas torturadas... A estrela de David cravada nas costas de um deles talvez seja das imagens mais sinistras, por revelar, insultando o povo mais perseguido, a amnésia histórica de quem ali espetou a faca.

Depois, há os escudos humanos. De forma sistemática e organizada, soldados israelitas usam detidos como armadilhas para emboscadas ou para inspecionar edifícios, pondo-lhes câmaras e monitorizado-os através de drones, para evitar que sejam os soldados a correr riscos. Põem-nos à frente de tanques ou prendem-nos a veículos militares, para evitar ataques. Um detido, depois de ser espancado e torturado, foi usado como mensageiros para mandar evacuar um hospital. No fim, foi abatido à distância. Está tudo registado.

NINGUÉM OS IMPEDIRÁ

A Al-Jazhera complementa, para garantir que o contexto confirma as imagens, com testemunhos de familiares, no terreno. Um dos testemunhos conta o que ouviu de um militar israelita, enquanto o filho era torturado no quarto ao lado: “Nada nos impede de matá-lo. Poderíamos simplesmente matar-vos a todos. Ninguém nos impedirá e ninguém nos ligará para prestar contas.”

E há a utilização de snipers treinados para disparar sobre jornalistas, crianças, quem dá apoio médico. Ou os ataques a ajuda humanitária autorizada, porque a fome é, em Gaza, uma poderosa arma de guerra.

A parte menos impressionável deste programa é a que nos devia assustar mais. Exatamente pela sua limpeza tecnológica. Segundo a revista israelita “+972” (a IDF nega), Israel terá marcado milhares de habitantes como suspeitos, socorrendo-se de Inteligência Artificial, que tem um algoritmo que cruzou vários critérios para as selecionar. E, para que os ataques fossem mais rápidos do que um humano conseguiria, também a usou para a localização destas pessoas, escolhendo o momento em que estavam em casa (mais fácil) para o ataque – com os “danos colaterais” que se imagina. Este segundo programa chama-se "Onde está o papá?" Não é novidade a industrialização da morte, quando é preciso responder à necessidade de rápida produtividade, usando tecnologia avançada e organização metódica. É bastante admirada por quem tem pouca memória.

NO BANCO DOS RÉUS

Todos estes soldados têm comandantes que, se houver justiça, terão de ser punidos. No topo do comando está Benjamin Netanyahu, primeiro responsável pela morte de 40 mil pessoas em Gaza (nem dos reféns quis saber) e veremos por quantas mais no Líbano e na Síria. Como não partilho dos seus valores, não quero que façam com ele o que fez com Haniyeh ou Nasrallah. Desejo vê-lo no banco dos réus. Se isso não acontecer, assumamos o que diz Susan Abulhawa: “conceitos como diretos humanos e direto internacional são para pessoas brancas e ocidentais”.

Esta é a parte da lei. Mas os cúmplices políticos são os que podiam travar os crimes e não o fizeram. São os EUA, a Alemanha, a França ou o Reino Unido que, durante a carnificina, dão armas, informação e apoio militar e operacional ao criminoso, ao mesmo tempo que lançam sonsos apelos de cessar-fogo.

O título deste artigo é inspirado no livro de Primo Levi, “Se isto é um Homem”, que relata a sua terrível experiência em Auschwitz. Não procuro paralelos. Mas, se decidirmos isolar a experiência da desumanização do outro a um único momento da história, dificilmente aprenderemos alguma coisa com ela com ela.

“Poderíamos simplesmente matar-vos a todos, ninguém nos impedirá”, disse o soldado carregado de razão. Na reportagem, uma palestiniana grita, em desespero, para o cameraman: “Estás a filmar para quem? Ninguém se importa connosco!” Os palestinianos sabem isso. E ninguém pode dizer que não sabe. Está tudo espalhado nas redes.»


2.10.24

Israel: nunca a liberdade de um corrupto custou tantas vidas

 


«Há décadas que a guerra entre Israel e a Palestina não é uma guerra de fronteiras. É uma guerra colonial. Porque a relação é colonial. Basta olhar para o que se passa na Cisjordânia. Como é habitual nas relações coloniais, a insurgência é terrorista, a violência do Estado contra ela é defesa legitima em nome da segurança das populações. Atentados palestinianos são terror, que nenhuma pessoa civilizada pode deixar de condenar. Pagers a explodir em supermercados e a matar civis e crianças que estejam perto do operacional, são uma operação que, independentemente de algumas críticas éticas, não se pode deixar de admirar pelo engenho. O colono é racional na sua guerra à distância, o colonizado é selvagem na sua barbárie sangrenta.

Conheço o Líbano, assim como conheço Israel, Gaza e a Cisjordânia. Até assisti, pela triste coincidência de estar na Síria em 2006, à chegada de milhares de aterrados fugitivos da última guerra entre o Líbano e Israel. Tem, como toda a região, demasiada história para tão pouco espaço. Ficando-me pela história recente, a sua diversidade religiosa correspondeu sempre a uma estratificação social que ajuda a explicar o crescimento do Hezbollah entre os xiitas. E a corrupção endémica foi pasto para um Hezbollah que cumpriu o papel de um Estado social, confessional e autoritário em boa parte do território. A ocupação do sul do país, por Israel, entre 1982 e 2000, fez o resto.

A estes grupos religiosos corresponderam, de forma menos linear do que se pensa e com alianças improváveis, a influências externas – do Irão, da Arábia Saudita, da Rússia, dos Estados Unidos ou de Israel – que deixaram marcas em guerras civis por procuração. Com a proteção ativa de soldados israelitas, as milícias maronitas (cristãs) mataram mais de mil civis (incluindo crianças) palestinianos, em 1982, nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, num massacre que pode ser comparado ao que sucedeu a 7 de outubro, não tendo levado a igual reação militar e internacional. Mesmo nestes meses, o número de mortos libaneses é muitíssimo superior às baixas israelitas. 

Usando o argumento da inviabilidade do Estado do Líbano, que Israel sempre aproveitou e alimentou, o ministro da Diáspora e do Combate ao Antissemitismo defendeu que parte do sul do país deveria ser anexada porque as fronteiras existentes não fazem sentido. Este é o padrão: usando o argumento da segurança, criam-se “zonas tampão” que depois são anexadas e por fim povoadas, num processo de contínua expansão. Foi feito nos Montes Golã, que era território sírio, e é feito diariamente na Cisjordânia.

É interessante, por isso, ouvir líderes israelitas e seus aliados falarem de um país que luta pelo seu direito à existência (que tem) e de como outros não aceitam a solução dos dois Estados, enquanto Israel expande o seu território e torna cada vez mais inviável a existência do Estado da Palestina. Quem acredita em dois Estados promove a construção de colonatos, radicando 700 mil colonos em terra alheia? O risco existencial real, aquele que é palpável, é da Palestina. É um caso em que a retórica choca de frente com a realidade.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Jordânia (país que tem mantido boas relações com Israel), Ayman Safadi, respondeu, na última sexta-feira, à afirmação de Netanyahu de que Israel estava cercado por inimigos: "57 países árabes-muçulmanos querem paz; dentro do contexto do fim da ocupação de Israel e da criação de um Estado Palestiniano". Mas não é isso que Nethanyau procura. A sua resposta à proposta de cessar-fogo no Líbano, apresentada por Biden e Macron, foi matar Nasrallah e invadir o Líbano. Não faltam planos de paz. Nethanyau não tem nenhum. Porque recusa, de facto, uma solução de dois Estados. E, assim sendo, depois de fazer a guerra, só tem mais guerra para oferecer.

Se Nethanyau quisesse a paz começava hoje uma negociação para garantir dois Estados, aceitando o desafio das nações vizinhas, em vez de provocar o caos à sua volta, passando de uma guerra para outra. Elas podem enfraquecer os inimigos por uns tempos, mas deixam um rasto de ressentimento cujos efeitos virão a ser sentidos por milhares de inocentes e, provavelmente, durante décadas. Enfraquecer a OLP deu a origem ao Hamas. Ocupar o sul do Líbano deu origem ao Hezbollah. Não é fácil imaginar que monstros nascerão deste ano de carnificina.

A guerra de Israel com o Líbano é a continuação do que se passa em Gaza. O silêncio do Ocidente, a que arrogantemente costumamos chamar “comunidade internacional”, perante o genocídio e a violação desabrida do direito internacional, que teve o seu momento máximo na presença de um criminoso de guerra no Congresso dos Estados Unidos, entrega a resistência moral à ofensiva israelita ao Irão e ao Hezbollah. A ausência de qualquer referencial moral – ele fica-se, por estes dias, pelos gritos solitários de António Guterres – dá força a política a um e a outro. Até porque, perante o comportamento de Israel, começa a ficar difícil falar de “terrorismo” para distinguir uns dos outros. As guerras em Gaza e no Líbano são a mesma. Não são, na forma como Netanyahu as faz, guerras pela segurança de Israel – os ventos semeados neste ano serão colhidos em mortíferas tempestades pelas próximas gerações de israelitas, palestinianos e libaneses, para ficar pelos diretamente envolvidos.

Esta também nunca foi uma guerra para recuperar os reféns, para os quais Netanyahu não se poderia estar mais nas tintas, como a maioria dos israelitas já percebeu. A cada possibilidade de um acordo negociado em Gaza, o governo israelita inventou novas condições para boicotar uma solução pacifica. E quando a guerra de Gaza perdeu a “animação” ofensiva, Netanyahu teve de abrir uma nova frente, porque a guerra é a sua fuga em frente.

Nem a operação dos pagers nem o assassinato de Nasrallah são reações a seja o que for. São operações precisaram de anos de preparação. Com cem mil militares, armamento e a natureza de um exército quase regular, o Hezbollah pode ter ficado enfraquecido, mas recuperará. Com a importância que Nasrallah tem no mundo xiita, o objetivo de Netanyahu era outro: puxar o Irão para um envolvimento direto guerra, coisa que tenta, uma e outra vez, nos últimos meses. E que esse envolvimento trouxesse os EUA para dentro do turbilhão. O que Netanyahu procurava era o caos que o salvasse.

Está a conseguir o que desejava, pondo o seu país, a região e o mundo em enorme perigo. Haverá uma resposta de Israel aos bombardeamentos de ontem e depois uma resposta do Irão e depois uma resposta... E a guerra vai-se alastrando. Netanyahu só precisa de cinco semanas disto, sonhando com a vitória de Trump, o amigo que partilha com Putin – os dois principais desestabilizadores deste tempo. Netanyahu não procura a segurança de Israel, foge da sua própria prisão. Porque sabe que basta uma pausa no período necessariamente excecional da guerra – a contestação da oposição voltou a amainar com esta nova frente –, para ele cair. E, caindo, espera-o o julgamento que tem evitado de todas as formas, incluindo uma reforma da justiça que os israelitas contestaram na rua. Nunca a liberdade de um corrupto custou tantas vidas. Nunca pôs em perigo um planeta inteiro.»