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7.12.19

Vergonha



«Há quase dez anos, entrei pela primeira vez em Gaza. O bloqueio persistia e, depois de muitas horas de espera, do outro lado fomos recebidos com cravos vermelhos. Foi a primeira vez que me confrontei com vidas fechadas em prisão e suspensas por uma ameaça constante. Nos últimos anos, as visitas repetiram-se a Gaza, aos territórios ocupados na Cisjordânia e a campos de refugiados no território e em países vizinhos.

Foi há cerca de seis anos que encontrei, num campo de refugiados no norte do Líbano, um senhor palestiniano de idade avançada, que todos os dias de manhã colocava no bolso das calças as chaves de casa. Todos os dias desde o dia em que abandonou a sua aldeia em 1967. Nesse guardar de chaves, guardava a esperança do regresso. Na altura que o encontrei soube que a casa que deixou já não era território palestiniano, que o regresso ao lugar de onde partiu era mesmo só uma esperança como modo de vida.

As vidas dos palestinianos são vidas cercadas, perseguidas. São vidas em suspenso. Vidas precárias em consequência de um processo de ocupação mortífero, imoral e incompreensível à luz da dignidade e do direito internacional.

Em todos estes anos de ocupação, raras foram as vezes em que se fez justiça a um povo abandonado e esquecido pela comunidade internacional. Foi por isso que, nos últimos anos, senti verdadeiramente satisfação quando o governo português reconheceu o Estado da Palestina. Foi uma justiça tardia, mas merecida. É neste contexto, de mais de 40 anos de ocupação abusiva e conhecida, que o governo português decide marcar uma reunião, em Lisboa, com Benjamin Netanyahu, um dos rostos mais visíveis e presentes da ocupação dos territórios palestinianos. Não há nenhuma razão diplomática ou de direito internacional que possa justificar esta visita. Tratou-se mesmo de negócio à frente das vidas e passar um pano molhado sobre décadas de ocupação, opressão e apartheid. António Costa nunca poderá dizer que não sabia do que se passa com o povo palestiniano, e ainda assim decidiu escolher um lado que não é muito diferente do escolhido por Cavaco Silva quando decidiu chamar Nelson Mandela de terrorista, numa altura que já quase todo o mundo sabia que o lado certo era estar com ele.

A política externa portuguesa nos últimos anos não tem sido muito famosa. Nem uma palavra ao lado dos mais atacados povos do mundo, sejam palestinianos ou indígenas, e todas as vassalagens para Bolsonaro ou Netanyahu. Um país tem de dar-se ao respeito para ser respeitado. Fazer negócios com Netanyahu é negociar com quem promove o genocídio de todo um povo. Costa sabe bem disso. Mas se na altura em que furámos o bloqueio, os palestinianos nos ofereceram cravos vermelhos, com esta visita Costa esqueceu-se do próprio significado do 25 de Abril. A liberdade e a autodeterminação não são valores que se negoceiem ou que se ponham à venda. Costa sabe bem disso, mas preferiu envergonhar-nos.»

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21.7.18

Israel: um novo Estado racista



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Sempre fui amigo de Israel e não só pelas razões que vêm do Holocausto. Era também por outras razões, desde aquelas a que, no tempo da fundação do Estado de Israel, o seu primeiro amigo, a URSS, e o Avante! eram pró-israelitas contra “as monarquias feudais árabes”, até aos eventos mais recentes que colocavam uma pequena democracia armada no meio de inimigos governados por ditaduras, umas mais cruéis do que as outras, mas nenhuma recomendável. Havia muita coisa que era genética no Estado de Israel, fundado por sionistas que eram na sua maioria socialistas, e que tinham ideias utópicas sobre a sociedade, construíram os kibutz no meio dos desertos, e os políticos não usavam gravatas, eram muitas vezes mulheres de força num oceano de homens por todo o lado, Europa e Oriente, e havia uma pulsão igualitária pouco comum. E era um país eficaz pela necessidade absoluta de estar rodeado de inimigos, ia apanhar nazis na América Latina e julgava-os, tinha os melhores serviços de informação, e um exército de cidadãos comandado pelo mérito que os promovia a oficiais.

Claro que Israel tinha também lados negros igualmente genéticos. Para se constituir como Estado expulsara, com a colaboração de muitos dirigentes árabes que lhe fizeram o jogo criando uma situação de alarme, uma parte da população que vivia em cidades como Jaffa, violou até hoje os termos reconhecidos pela comunidade internacional das suas fronteiras com a instalação de colonatos, tinha no seu seio comunidades judaicas tão fundamentalistas como os seus vizinhos muçulmanos, e, nos últimos anos, recorreu a métodos de terrorismo de Estado em várias terras vizinhas a começar por Gaza. Com a direita no poder e Benjamim Netanyahu tudo se agravou e já estão longe as perspectivas de paz assentes na solução dos dois Estados, que estiveram quase a ser consagradas no tempo de Yasser Arafat. Agora não foi sequer a gota de água, foi uma torrente que se abriu com a nova lei da nacionalidade que institui na prática uma situação de apartheid e de racismo.

Quando se pergunta de onde vem o súbito agravamento da situação internacional em vários focos, no Irão, na Coreia do Norte, no Médio Oriente, a resposta é Trump. Não é o único, mas é o principal. Foi ele que deu carta-branca à monarquia absolutista saudita e a Benjamim Netanyahu, e no dia seguinte, ainda o avião presidencial americano voava de regresso, a Arábia Saudita agravou as hostilidades no Iémen, e voltou-se contra o Qatar, e, em Israel, iniciou-se a mais inútil das escaladas com a deslocação da embaixada americana para Jerusalém em desprezo do direito internacional, e o Exército israelita começou a atirar a matar contra manifestantes em Gaza. Duas cartas-brancas e dois conflitos que imediatamente se agravaram, com Trump a colocar-se do lado sunita de uma velha guerra religiosa e geopolítica contra os xiitas, e a bater palmadinhas nas costas do seu “querido Bibi”, envolvido ele e a sua família em escândalos de dinheiros e benefícios próprios.

Como é óbvio, o “querido Bibi” acossado pela Justiça empurrou a actual legislação racista que acaba com os últimos traços de um Estado de Israel que pertencia a judeus e árabes, assente na “completa igualdade de direitos políticos e sociais (...) para todos os seus habitantes”, independentemente de religião, raça e sexo, como se lia na Declaração de Independência de 1948.

Agora, passa a haver uma situação que institucionaliza o estatuto de cidadãos de segunda, aos árabes israelitas, muitos dos quais, aliás, são cristãos, retirou o árabe de língua oficial de Israel e tornou Israel uma variante de Estado mais parecido com a teocracia iraniana. Israel era um pólo cosmopolita numa zona do mundo cada vez mais envolvida em ancestrais conflitos de religião e poder, agora tornou-se mais uma nação do Médio Oriente, mais parecida com os seus vizinhos na sua recusa da democracia e do primado da lei. Esta legislação é racista e num país como Israel implica uma nova forma de apartheid, mas é acima de tudo um golpe no que de melhor tinha Israel, que era ser uma democracia num mar de ditaduras. Mais um passo no caminho da crise mundial das democracias.

Resistam ou vão a caminho da servidão, moderna, tecnológica, “social”, branca, bruta e malévola.»
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15.5.18

Israel e Eurovisão



Gostava tanto, mas tanto, que a final da festa das cantigas tivesse lugar uma semana mais tarde para saber se a vencedora seria a mesma…
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10.12.17

Trump farto de história(s)



«“Os presidentes que me precederam fizeram [da mudança da embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém] uma das suas principais promessas eleitorais, e não a cumpriram. Hoje, eu estou a cumprir a minha.” É assim, com lógica puramente eleiçoeira, que Donald Trump justificou outro dos seus gestos incendiários em política externa. Esta era uma velha e repetida promessa eleitoral e uma decisão do Congresso que nenhum dos presidentes, desde 1995, tinha concretizado, e Trump, o conseguidor, deu o passo "corajoso" que ninguém tinha dado. “Vocês sabem que este é um governo único. Que toma medidas ousadas", terá dito Trump ao governo israelita (The Guardian, 8.12.2017). Que o fogo se propague pelo Médio Oriente e que, dentro de meses, se contem provavelmente por milhares os palestinianos mortos, tudo isso é secundário. Estamos habituados. E tanto melhor se, já agora, a decisão ajuda um aliado, Netanyahu, outro encenador de testosterona, a conseguir ser o primeiro dirigente israelita a dispor desta consagração do aliado americano e a desviar as atenções das acusações de corrupção que impendem sobre ele e vários membros do seu staff. Mais do que verificarmos o fracasso de negociações de paz israelo-palestinianas, o que vemos é não haver sequer processo algum desde há anos - não por responsabilidade das duas partes, como se gosta de salomonicamente dizer, mas porque Israel, tratado com toda a condescendência pelo Ocidente e pela Rússia, nem precisa de fingir querer negociação alguma.

PUB Duas parecem-me ser as motivações de Trump. Ambas decorrem de extraordinárias leituras históricas. A primeira de natureza religiosa, com objetivos políticos: agradar aos 81% de evangélicos norte-americanos que votaram Trump em 2016 e que acreditam que a sua decisão relativamente a Jerusalém ajudará ao desencadeamento da "Batalha do Armagedão", na qual "Cristo regressará à Terra e vencerá os inimigos de Deus", antes de mais os infiéis palestinianos que povoam a cidade há séculos. "Para alguns evangélicos", lembra a Diana Butler Bass, historiadora das religiões, "este será o clímax da história. E Trump está a conduzi-los até ele. Ao Juízo Final, à vitória certa." A quem parecer desolador que semelhante retórica religiosa possa ter peso na formação de opinião política de muita gente, Bass faz notar que "milhões de cristãos americanos acreditam nisto e nisto basearam a sua fé e a sua identidade.” (Haaretz, 8.12.2017) Os que estão ainda convencidos que o islamismo político é a fonte de todos os perigos, não se esqueça de acrescentar à lista os delírios políticos que se reclamam do cristianismo e do judaísmo.

Augúrios bíblicos destes podem parecer alheios a um empresário com a ética de predador sexual. Seguramente mais associável à sua mundivisão é aquela que me parece ser a segunda motivação: a da "adoção da política da vitória de Israel" como base, não mais implícita, mas absolutamente explícita, da posição dos EUA no Médio Oriente. Essa é a batalha há muito do lobista pró-israelita Daniel Pipes, cujo "objetivo é convencer Washington a deixar Israel vencer" e deixar os israelitas "decidir livremente como atingir este objetivo". Pipes sabe bem que "quebrar a vontade palestiniana de ir à luta não será nem fácil, nem agradável" - como, aliás, já se está a comprovar. Mas se ela não for "quebrada", a "única alternativa é o desaparecimento de Israel", retórica que há muito se tornou hegemónica entre os israelitas e que se traduz na determinação em não aceitar qualquer Estado palestiniano. Que lição tira Pipes da história? A de que "o compromisso e 'concessões dolorosas' não acabam conflitos; pelo contrário, a história mostra que tal só se consegue com a desistência de um dos lados" (Pipes, Israel National News, 14.5.2017).

De "lições" destas se fez a história do belicismo. De resto, e como o genro de Trump, Jared Kushner, foi apanhado há meses a dizer sobre a Palestina, "não queremos mais lições de história. Já lemos livros suficientes. É altura de perceber como resolver a situação” (The Guardian, 8.12.2017). Pois aí está. Cem anos depois do arranque da aventura sionista na Palestina, os outros que desistam dos seus direitos, da sua terra, da sua vida. E que Trump, armado em árbitro, julgue poder proclamar o vencedor.»

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29.7.14

Gaza / Israel: sem fim à vista



«Dois canhões israelitas disparam de uma base no sul de Israel para a Faixa de Gaza. O primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, já disse aos seus cidadãos que se preparassem para uma “campanha duradoura” reiterando que o exército irá pressionar os militantes palestinianos que vivem em Gaza. A neutralização dos túneis que ligam Gaza a Israel é um dos objectivos de Netanyahu.» Expresso diário de 29/7.


«Um soldado israelita assiste ao funeral do colega de armas, Liad Lavi, que morreu durante a operação terrestre israelita em território árabe. A comemoração do Eid al-Fitr, a celebração muçulmana que marca, ao longo de três dias, o fim do jejum imposto pelo Ramadão, terminou com a morte de 13 palestinianos e de quatro soldados israelitas. Por sua vez, estas mortes puseram o fim às tréguas não oficiais que Israel e a Palestina acordaram para celebrar o nono mês do calendário islâmico.» Expresso diário de 29/7. 
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