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29.11.24

𝐎 erro de Aguiar Branco

 


O PAR devia ter referido os penduricalhos do Chega em janelas de S. Bento, dito que ia entregar a questão às entidades judicias competentes, impedir imediatamente o debate e iniciar os trabalhos de votação do OE. Não podia? Ora…

Assim, deu – e continuará a dar – horas e horas de propaganda ao Chega e felicidade às TVs que não se calam. O vencedor foi André Ventura.

22.10.24

Um governo a jogar com o tempo

 

Gerardo Santos

«A decisão de Pedro Nuno Santos de viabilizar o orçamento tem a grande vantagem de dar tempo a quem precisa dele, a Luís Montenegro e a si próprio, mas não é certo que contribua para que o país recupere o tempo perdido. Há um certo desencanto à direita e um lamento à esquerda com um orçamento que não é nem carne nem peixe e que, por certo, não é o tal instrumento que o governo prometia para mudar estruturalmente a economia portuguesa – tanto assim que a previsão do crescimento do PIB apresentada em Bruxelas está um terço abaixo do prometido em campanha. A AD faz o mal e a caramunha, governando como quem sabe que tem de ir a eleições a meio do caminho ao mesmo tempo que responsabiliza a oposição por fazer oposição.

Habitualmente, os governos avançam com as medidas mais duras no início da legislatura para abrirem os cordões à bolsa na segunda metade, antes de irem a votos, mas o actual executa como se estivesse na fase final do anterior, beneficiando da folga que os socialistas tinham preparado para o que seria o seu próprio bodo mais perto das eleições. Por ser assim, Miranda Sarmento comprou tempo em Bruxelas para jogar com o tempo que já tinha conseguido da oposição.

Estando todos à espera da decisão do PS, não se deu muita atenção ao facto do governo já ter negociado com a Comissão Europeia uma subida da despesa líquida que é em 2025 e 2026 mais do dobro do que nos dois anos seguintes. A AD estava disponível para ir a eleições no próximo ano, confiando que seria a maior beneficiada dessa antecipação, mas prefere usar o tempo para alargar a sua base social de apoio à procura de uma maioria mais confortável.

A intervenção do líder do PS, explicando demoradamente as razões pelas quais deveria votar contra o orçamento, antes de anunciar que o viabilizava com uma abstenção, foi “violenta” porque pré-anuncia o voto contra nos orçamentos seguintes. Nada que não esteja previsto no plano de gestão do tempo por parte de Montenegro, que ficará numa situação bastante mais parecida com a que deu uma maioria absoluta a Cavaco Silva, governando com orçamento próprio e aparecendo como vítima de uma crise política que um novo presidente terá de resolver.

É bem possível que o Chega acabe por ter a mesma sorte que o PRD em 1987 e para que isso aconteça Montenegro não perde tempo. No encerramento do congresso, para lá de mais uns anúncios, surgiu um tipo de discurso mais à direita que levou Ventura a queixar-se de que lhe estão a roubar as bandeiras. O líder do PSD tem o mais queria, tempo para conquistar eleitores que fugiram para o Chega e que valorizam uma atitude mais dura em relação à imigração e ao que chamam ideologia de género. Será que o eleitorado do centro se vai sentir bem acompanhado? Só o tempo dirá!»


14.10.24

AD, PS e Chega

 

«Quanto às negociações Governo-Chega: independentemente da quantidade de mentiras que André Ventura possa ter dito nas entrevistas que deu esta semana, é óbvio que o Governo negociou com o Chega, mesmo que não tenha prometido nenhum lugar no Governo.

As duas reuniões do Governo com o Chega em São Bento estão confirmadas. Hugo Soares, o líder parlamentar do PSD, deu várias entrevistas onde afirmou que evidentemente o PS era “o parceiro preferencial”, mas a negociação era com “todos, todos, todos”. (…)

Nunca o “não é não” expresso por Montenegro excluiu a negociação do Orçamento do Estado entre Governo e Chega. O primeiro-ministro só diz agora o contrário porque lhe dá jeito encostar o PS à parede.»


OE: quando Pedro Nuno Santos se atirou para uma armadilha

 


«Serão os mesmos que pediram “responsabilidade” a Pedro Nuno Santos a falar dos seus ziguezagues e falta de clareza. Acham que, em negociações, não se avança e recua. E que se pode ser claro quando se gere uma derrota anunciada. Esta nunca poderia ser uma verdadeira negociação, porque duas forças só negoceiam quando as duas têm alguma coisa a perder. E, a Montenegro, tanto dava ter um OE com cedências mínimas como ir a eleições. Só precisava de gerir a responsabilização do PS, no que, ainda por cima, sabia contar com a ajuda de boa parte do aparelho mediático e dos derrotados internos do partido.

O que o PS fez na semana passada é o que devia ter feito desde o início, sem dar pasto a uma novela que apenas o desgastou: esperar pela apresentação do Orçamento de Estado, deixar que o governo decidisse, pelo conteúdo, que parceiro privilegiava, e tomar uma decisão. Como sempre aconteceu com governos minoritários sem acordos parlamentares. Por isso só tivemos negociações prévias, formais e públicas com a “gerningonça”.

Ao governo tudo isto interessava. Não só foi poupado à oposição durante meses, com a comunicação social concentrada no drama orçamental, como teve tempo para construir uma narrativa sobre a “inflexibilidade” do PS, primeiro, e a sua enorme cedência à esquerda, depois. Pedro Nuno Santos tinha o dever de saber que quem controla a narrativa, nestes processos, é quem está no governo. Estava no executivo quando BE e PCP foram fritos numa novela semelhante a esta, porque António Costa achava que estava chegado o momento de se ver livre deles e tentar a maioria absoluta.

Chegados aqui, o PS até poderia esperar pelo voto do Chega, mas isso seria, como se vê desde este fim de semana (fica para outro texto), demasiado arriscado. Luís Montenegro conseguiu o feito de ter Chega e PS no bolso, neutralizados, um a espernear e outro a ganhar tempo. Não porque seja um génio tático, mas porque lhe foram oferecidos meses de controlo da narrativa, com o PS a ter de reagir a quem governa e não o oposto.

Se voltarmos ao início disto tudo, temos de recordar que o Partido Socialista apresentou duas linhas vermelhas. No meu tempo, linhas vermelhas eram as coisas que nem se negociavam. E, essa é a ironia de tudo isto, foi mesmo a única coisa que se negociou. Os equívocos começaram logo no início da negociação, portanto.

O resultado final foi celebrado como ganhos de causa para o PS. Mas o que os socialistas conseguem é que o IRC desça cegamente um ponto percentual, em vez de dois. Nada mais para além disso.

No IRS Jovem, limitaram-se a salvar o governo de um chumbo no Tribunal Constitucional. Para Montenegro, é preferível ceder ao PS a ser desautorizado pelo TC. E, com as posições do FMI e do Conselho de Finanças Públicas, a proposta já estava politicamente morta. A coisa é tão óbvia que até Luís Montenegro reconheceu que a versão final não foi, na realidade, uma cedência do governo, apenas ficou equilibrada do ponto de vista de quem supostamente cedeu. Esta era a TSU deste governo, nascida para ser negociada. E, apesar de ser uma linha vermelha para o PS, não caiu. A versão final do IRS Jovem, que custa quase tanto como todo o excedente orçamental previsto, é a desejada por Montenegro, agravando uma injustiça geracional que será compensada com a redução do ordenado bruto de entrada.

O PS tem, de facto, um problema com isto: quem abriu este processo, cedendo ao populismo fiscal que não reteve um único jovem em Portugal, foi António Costa.

As duas grandes vitórias do PS neste OE são a tal descida de um ponto percentual no IRC, tão curta que todos reconhecem que, para um lado ou para outro, não chega para criar uma crise política; e o fim das portagens nas SCUT (autêntico imposto à interioridade e violação da palavra do Estado), conseguida de forma mais rápida e limpa, sem negociação. O governo bem pode meter a descida de IRS no deve e haver, que está a enganar as pessoas. Essa perda fiscal foi proposta pelo governo, o PS limitou-se a garantir (como no IRS Jovem) que não beneficiava apenas quem ganha mais.

Neste Orçamento, tem-se sublinhado a cedência à pressão dos professores, polícias e militares (pessoal de saúde nem por isso, que os privados precisam deles) para falar de um OE de esquerda. Mas ignora-se a utilização de recursos públicos para apoiar os seguros de saúde, a privatização USF e a preparação da privatização do pouco que resta de setor empresarial público – já para não falar da política fiscal, que esteve no centro do debate. Na realidade, temos um OE totalmente alinhado com o pensamento político da AD, juntando-lhe a distribuição preventiva de dinheiro, perante a incerteza do desfecho da votação, preparando as eleições. Por isso temos um enorme aumento da despesa e uma grande descida da receita.

Tudo o que PS tinha de propositivo, que estava fora das linhas vermelhas e que é ignorando para vender a teoria do “meio caminho”, desapareceu. Se ainda se recordam, o dinheiro recuperado do IRS Jovem e do IRC deveria ser destinado à habitação, actualização das pensões e negociação do regime de exclusividade no SNS e da redução da contratação de médicos em regime de prestação de serviços. Propostas apresentadas com grande grau de pormenor, aliás. Nada disso sobreviveu ou foi sequer negociado.

Era inevitável que esta negociação corresse assim. Porque isto foi uma falsa negociação. Compreensivelmente, o PS não quis que ela fosse como costuma ser, discreta e com recato. Porque sabia que o governo não se importava ir a eleições, responsabilizando o PS. E precisava, por isso, que as suas cedências e boa-vontade fossem visíveis. O PS queria partilhar o controlo da narrativa, para se livrar dessa responsabilização. Só que este jogo estava perdido à partida porque tinha menos trunfos: ao contrário da AD, não queria ir a votos. Não porque o governo esteja a governar bem, mas porque esteve seis meses a preparar o bolso dos eleitores. E porque as crises, nesta fase, tendem a beneficiar quem governa. Ora, quando se negoceia com quem nada tem a perder as coisas dificilmente podem correr bem.»


7.10.24

Vencedores e vencidos do acordo do Orçamento

 


«Há mais vida para lá do Orçamento. Luís Montenegro fez questão de repetir esta semana a célebre frase de Jorge Sampaio – que, depois, foi “reinterpretada” e repetida ad infinitum numa fórmula que Jorge Sampaio nunca disse, o “há mais vida para além do défice”.

Havendo mais vida para lá do Orçamento, este acordo a que Governo e PS chegaram pode ter repercussões no futuro. Escrevo como se o acordo já estivesse fechado por uma razão: neste momento, Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos estão condenados a entenderem-se dê por onde der. Já ninguém aceitava que, depois de aqui chegados, houvesse uma reviravolta. Seria tão, mas tão prejudicial para os dois protagonistas que nenhum deles arriscará um corte. É um processo que já não pode voltar atrás, dê por onde der. Aliás, seria patético para os dois lados.

Dito isto, Luís Montenegro é o vencedor do processo. Fica com um orçamento melhor do que o seu original e estas novas medidas vão permitir-lhe captar com mais eficácia o eleitorado centrista (o que também vota PS às vezes) em caso de crise política a prazo.

Pior: quem assistiu a todo o discurso contra o PS e as múltiplas tentativas de o amarrar ao Governo pelo simples facto de não ter viabilizado as moções de censura, sabe o que vem a seguir. O PS sai vencido: acaba a assinar quase um acordo de bloco central, coisa que nunca entraria nos pesadelos mais aterradores do secretário-geral do PS, tendo em conta aquilo que tem sido o seu pensamento sobre a relação PS/PSD.

Aliás, a condição relativa ao IRC avançada pelo PS, de que os três próximos orçamentos ficariam subordinados, torna-se estranha: ou o PS já está a disponibilizar-se para aprovar os próximos três, o que é uma bizarria, ou está a dizer que então já não contem – nos próximos – com os socialistas? Ainda não se percebeu.

O Governo ganha muito até porque, como o Governo Cavaco de 1985 ensina, é preciso algum tempo para se vitimizar e descolar. Cavaco demorou a cair e não foi por sua vontade expressa.

Pedro Nuno Santos perde muito ao entregar ao Chega o “cargo” de maior partido da oposição e ficar comprometido com a governação. Mas, não deixando de ser derrotado de um processo em que Montenegro conseguiu sair vitorioso, tem alguns ganhos de causa.

Em primeiro lugar, evita umas eleições que dificilmente seriam favoráveis para o PS e, dependendo da capacidade de vitimização do Governo, até poderiam ser bastante prejudiciais. Une o partido: os apoiantes de José Luís Carneiro, sempre defensores de um acordo, não têm agora espaço para o vir criticar ou organizarem-se imediatamente como alternativa.

Há um terceiro possível “ganho de causa” no processo: depois de fazer esta espécie de “bloco central”, haverá alguém que ainda o ataque como sendo um “bloquista”, “radical”, “extremista”? Se a lógica não fosse uma batata, esses rótulos tenderiam a desaparecer da imagem do secretário-geral do PS.

Um “extremista” faz um acordo com o Governo com esta dimensão? Mas já li e ouvi várias pessoas a insistirem no “Partido Socialista mais radical de sempre”, já depois de Pedro Nuno Santos estar praticamente comprometido com este orçamento.

A política constrói ódios irracionais: quase toda a esquerda odeia Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho, façam eles o que fizerem. Nem José Sócrates (que foi amado pela direita num primeiro momento) nem António Costa (cuja “habilidade política” sempre foi elogiada mesmo à direita, passado o primeiro choque da "geringonça") suscitaram tanto ódio como o “marxista” que se tornou secretário-geral. Os ódios irracionais na política são razoavelmente cómicos, porque marcam aquele momento em que a paixão futebolística ganha vantagem sobre as políticas concretas. Política, futebol e amor – três campos com mais em comum, no que toca ao poder e à irracionalidade, do que gostaríamos de acreditar.»


3.10.24

Hoje há mais um assalto

 

«Um combate de boxe tem vários assaltos. E quando não há grande diferença entre os dois lutadores, é habitual que um ganhe alguma vantagem num determinado período, para no seguinte já ser o adversário a desferir o golpe mais vistoso. (…)

No assalto mais recente, foi o socialista quem se saiu melhor. Entrou no ringue em S. Bento, descartou o melhor que pôde os golpes do social-democrata (o chamado IRS Jovem e o corte transversal do IRC), contra-atacando com o que entende ser um melhor destino para mil milhões de euros. (…)

O que nos traz para o assalto de hoje, em que Luís Montenegro precisa de ganhar vantagem no combate pelo Orçamento. Resta saber se tentará forçar um KO (apresentando uma contraproposta que Pedro Nuno Santos não consiga encaixar) ou se opta por uma tática mais defensiva, à espera de uma vitória por pontos que garanta a sobrevivência do Governo.»


30.9.24

Entregar a liderança da oposição ao Chega?

 

«Não nos enganemos: um acordo entre socialistas e executivo no Orçamento iria necessariamente prejudicar o PS, tornando-o uma conveniente muleta do Governo.

O maior dos riscos seria o de entregar, efectivamente, a liderança da oposição ao Chega, que passaria quatro anos (se o PS desse a mão ao Governo durante toda a legislatura) a gritar contra “os partidos do sistema” que se “mancomunam” e outras magnificências deste calibre.»


Se Montenegro não deixar cair o IRS Jovem, quer ir a eleições

 

@A. Cotrim

«Não há como não perceber a clareza com que Pedro Nuno Santos iniciou as negociações para o Orçamento de Estado. Começou por dizer, como é habitual em processos negociais, quais são as suas linhas vermelhas. Há duas medidas que não podem contar com a sua anuência: o novo modelo de IRS Jovem e descida cega do IRC. O PS é contra elas pela sua iniquidade, ineficácia e irreversibilidade.

O IRS Jovem é injusto entre gerações. Como defender que um trabalhador de 36 anos com as mesmas funções, competências e qualificações ganhe muito menos do que o seu colega com 35? As empresas resolverão esta injustiça, insustentável dentro da mesma organização, baixando o salário bruto de entrada, garantindo assim salários líquidos iguais para quem está na mesmíssima situação. O que quer dizer que, para a empresa, será financeiramente mais interessante ter um trabalhador com menos de 35 anos. O que fará dos 35 anos os novos 50, sendo sempre preferível substituir um trabalhador mais velho por outro mais novo, agravando um dos principais fatores para os jovens emigrarem: a falta de perspetiva de carreira.

O IRS Jovem também é socialmente regressivo entre os jovens, como explicaram várias consultoras. Abaixo de 1500 o sistema atual é melhor. A poupança para quem ganha pouco é mínima ou nula, a para quem ganha 6000 euros é de 20%. Seria das medidas mais regressivas que um governo alguma vez teria aplicado. Modelar isto? É ficar com o IRS Jovem que existe, que é a versão modelada do que se pretende – também com resultados nulos em relação à emigração, já agora.

É totalmente ineficaz para evitar a emigração. Os jovens emigram para países onde o salário liquido é bem maior do que o nosso salário bruto. Isto só se muda com a alteração do nosso perfil de especialização económica. Não se seguram jovens engenheiros apostando no turismo, onde se empregam imigrantes menos qualificados. Os jovens emigram por ausência de perspetivas de carreira, baixos salários ou inadequação das empresas à especialização deste tempo, não por causa do IRS. Emigram, aliás, para alguns países onde vão pagar mais IRS do que aqui.

Como explicou o Conselho de Finanças Públicas, é uma medida ruinosa, que conseguiria a proeza de, apesar da situação económica previsivelmente favorável, trazer de volta o défice, em 2026. E é uma medida muito provavelmente inconstitucional, pela desigualdade fiscal com base na idade e não na carreira cinsmtrubutiva.

Quanto ao IRC, a sua descida cega e sem objetivos não passa de uma fezada sem qualquer base, que resultará numa perda fiscal que só por coincidência corresponderá a um aumento da receita. Como já explicou Susana Peralta, o IRC baixou em 2014 e 2015, a receita só aumentou em 2015 e isso não aconteceu por causa da diminuição do IRC, mas apesar dela. Portugal saía de uma crise prolongada e as empresas a aumentarem os seus lucros, o que levou ao crescimento da receita fiscal. Não há nenhuma relação de causalidade verificável. E é muito dinheiro. E sempre que falam dos efeitos desta descida – da criação de emprego ao reinvestimento – dão razão à critica que lhe é feita: o IRC só pode ser eficaz se for direcionado.

Porque são linhas vermelhas? Por ser de muitíssimo difícil reversão. Isto é mais verdade no IRS Jovem do que no IRC. É politicamente impossível para qualquer governo voltar a triplicar os impostos para quem tenha menos de 35 anos, tenha sido essa redução sentida pelo trabalhador ou pela empresa. Pelo contrário, a pressão vai ser oposta: quando qualquer contribuinte passar dos 35 anos para os 36 o brutal salto fiscal vai-se sentir no seu bolso ou no da empresa. Os mais velhos vão começar a pressionar, por uma questão de justiça, para impostos iguais. Isso não se fará subindo brutalmente impostos dos mais jovens, só possível em momentos de enorme e crise, mas baixando os dos restantes. O que implica uma redução de tal forma significativa do IRS que o Estado Social se tornaria inviável e muitíssimo menos progressivo.

Esta medida é um Cavalo de Troia para uma mudança radical, permanente e estrutural do nosso sistema. Se o PS a viabilizar por cálculos circunstanciais estará a condenar o futuro do país e do Estado Social muito para lá deste governo. Seria irresponsável.

Apesar do efeito e natureza semelhantes, não estou convencido que o mesmo se possa dizer do IRC (que apenas beneficiará grandes empresas que não precisam de qualquer apoio público e não atrairá qualquer outra), pelo menos com a mesma intensidade. Nem que o PS tenha muito espaço de manobra político para fazer uma campanha em torno do IRC como razão para a queda do governo.

Embrenhado na tática, o governo haverá de propor um novo modelo do IRS Jovem, mantendo o essencial do que o torna impossível de aprovar. Ou tentará integrar parte das propostas apresentadas como proposta de destino a dar a este dinheiro, ignorando que se trata de uma alternativa. Quem esteja a olhar para isto de boa-fé perceberá que tudo é muito simples: se cair o IRS Jovem, dificilmente não teremos Orçamento de Estado. Se cair o IRC ele já está viabilizado. Se isso não acontecer, sabemos que a AD quer eleições.

Com a ideia absurda que o chumbo de um Orçamento de Estado passa a corresponder a uma moção de censura – só aconteceu em 2020, não exigindo uma segunda proposta e permitindo que Costa escolhesse o momento que voltava às urnas –, o Presidente cria uma situação de crise permanente. Vivemos metade do ano de 2022 com duodécimos e é falso que o PRR não possa ser executado.

Mais: se não houver OE, a marcação de eleições não resolve o problema. Elas ainda terão de se realizar e tem de se esperar pela posse de governo e pelo novo OE. Até lá, ficaremos em.... duodécimos. Não sendo provável que haja uma maioria absoluta (da AD ou com a IL), voltaríamos ao mesmo, só tendo perdido mais uns meses no meio. Se as preocupações do Presidente são reais, a melhor possibilidade que tem, em caso do chumbo, é trabalhar na negociação de uma nova proposta de OE, sem eleições. Tendo feito varias propostas, Pedro Nuno Santos só fez de duas, entre as centenas que constarão no OE, determinantes. Nada, nem mesmo no SNS , que o governo quer mesmo privatizar, impede a viabilização. E o fim destas duas medidas até significaria mais margem orçamental para o governo decidir outras. Montenegro até sabe que só uma delas torna a aprovação do OE inviável. Nem o governo nem ninguém acredita que o programa do governo é impraticável sem o IRS Jovem. Dizer que esta medida não pode cair é que é ser inflexível.»


29.9.24

E quanto a IRS Jovem

 


«Sabes que o governo está em apuros quando tens a Ângela Silva e o Aguiar-Conraria a desfazer a proposta do IRS jovem.»

Créditos do vídeo e desta afirmação para Luís Vargas no Twitter.

27.9.24

Fumo Branco?

 


Deviam ter instalado um zingarelho destes em S. Bento para ser anunciado ao «povo» se / quando L. Montenegro e P. N. Santos se entenderem. Até lá, os meninos e meninas das TVs escusavam de passar tantas horas a deitar búzios.

Orçamento de Estado. O dia mais longo...

 

«O que temos assistido na antecâmara da reunião de hoje não é próprio de uma democracia estabilizada como é a nossa. O ror de sistemáticos recados através da comunicação social, sem sentido, e desprovidos de qualquer resultado prático, trocado entre governo e oposição, deixa apreensivo qualquer cidadão que se preocupe, minimamente, com o percurso da política em Portugal.

Uma negociação saudável, como se impõe, para que o orçamento venha a ser uma realidade, requer um outro ambiente e uma outra narrativa distante do que temos vindo a assistir nos últimos dias. É manifesto que não existe da parte do Partido Socialista a disponibilidade necessária para que se concretize esse desiderato da criação de um clima propício à construção e aprovação de uma lei que é vital para o país. E o governo não terá, também ele, seguido os procedimentos mais eficazes para a criação desse ambiente necessário a que se chegue a bom termo no objetivo da aprovação do exercício orçamental de 2025.»


24.9.24

OE2025: A gincana Montenegro, PNSantos, Marcelo

 

Num «post» de alguém que lamentava o comportamento dos três no tema em questão, escrevi o seguinte comentário:
 
«Tudo isto era previsível com Marcelo PR. Julgou que ia brincar no país com vichyssoises sucessivas, até que exagerou quando aceitou dar o poder a um governo que não tinha condições para o exercer. A partir daí…»

Insisto: o principal responsável da crise actual é Marcelo. Nomear Montenegro PM, sem qualquer exigência prévia de governabilidade assegurada, ou foi ânsia de ter o seu partido no poder, ou substituiu o Fortimel por uma boa vichyssoise – e riu, riu e riu.

2.9.24

Montenegro prefere eleições

 

Nuno Veiga

«”O PS tem uma responsabilidade acrescida por ser responsável pelo caos nacional”. Foi desta forma bizarra que o líder parlamentar do PSD convidou os socialistas para o diálogo. É assim há meses: os convites para a negociação são acompanhados pela agressividade típica das campanhas eleitorais, quando os consensos são naturalmente impossíveis. Com o guião revelado logo depois das eleições, só é enganado quem quer: ou o PS se anula, ou vai-se a votos de novo.

O governo avançou com um programa fiscal radical e iníquo que atenta contra a progressividade do nosso sistema e concentra benefícios numa minoria de jovens privilegiados. Minou boas reformas em curso, afastando os quadros que as lideravam. Resumiu a governação à comunicação, apresentando sucessivos e vagos pacotes. Depois de ter lançado um falso alarme sobre a saúde das contas públicas, começou a distribuir dinheiro centrada em setores com mais peso eleitoral, sem que a isso corresponda a um programa político coerente ou uma planificação da despesa (acompanhada por perda de receita) que não se baseie no milagre económico da descida do IRC.

O peso orçamental e a centralidade que o governo dá ao IRS Jovem e IRC para justificar a recuperação da economia que cobrirá a perda de receita e o aumento da despesa obriga a que quem viabilize essas duas medidas viabilize o OE. O PS não pode aceitar ser mero ser retificador de decisões do PSD, Chega e IL. Se o PSD quer o voto do PS, não tem espaço para este caminho. Se tem espaço para este caminho com o voto do Chega e da IL, a eles deve pedir o voto para viabilizar o Orçamento de Estado.

Nada indicia um interesse em negociar ou uma perspetiva de governar a longo prazo. Apenas um cerco ao PS para o responsabilizar por novas eleições e a criação de boas condições para ir a votos. Por isso, a pressão sobre o PS, nestas circunstâncias, só pode ter um de dois objetivos: tirar poder negocial aos socialistas, obrigando-os a aceitar quase integralmente o programa da direita, ou criar o ambiente para o responsabilizar pela crise política. No caso de viabilizar um Orçamento nos seus antípodas, Pedro Nuno Santos transformar-se-ia num novo António José Seguro. No caso de chumbar o Orçamento, os riscos seriam enormes.

Se as pessoas responsabilizassem o PS pela crise e este perdesse as eleições, o PSD reforçaria a sua posição e até poderia conquistar uma maioria com o seu pequeno clone, a IL. E Pedro Nuno Santos seria afastado. Se os eleitores responsabilizassem a AD e o PS vencesse, a sua situação, com uma maioria de direita, seria ainda mais insustentável do que a de Montenegro. Pedro Nuno Santos sabe que o PS precisa de uma cura de oposição para vencer o cansaço dos eleitores, recuperar voto jovem e afirmar a nova liderança. Mas não pode aceitar que esse cálculo torne o PS numa inutilidade política.

A AD sabe que, desde que consiga responsabilizar o PS pela crise, a probabilidade de vencer e se reforçar é alta. Por isso, quanto mais se percepcionar, com uma campanha prévia nesse sentido, que a responsabilidade de um chumbo ou de uma aprovação do Orçamento é do PS, e não do governo, mais o PSD procurará essa crise porque mais essa crise lhe será favorável. A pressão sobre o PS não vem, portanto, de quem busca a estabilidade, mas de quem procura o cenário mais favorável para a direita ir já a votos, com medidas populares frescas e sem ter de lidar com as suas consequências. Repetir 1987, como nos foi explicado vezes sem conta. Quem quer estabilidade pressiona o único partido que ganharia alguma coisa com eleições e tem, por isso, menos interesse a negociar: o PSD.

O governo fala dos deveres de quem se limitou a não aprovar a moção de rejeição ao seu programa (diferente de aprovar um programa), mas nunca assume a responsabilidade de quem aceitou ser indigitado sem ter maioria: a de trabalhar para as condições para governar. A forma como o governo se recusa a dar informação ao PS sobre a receita prevista, exigindo que este assine por baixo a fezada do efeito milagroso da descida do IRC, não é de quem procura um ambiente favorável à negociação. Mesmo no arranque das supostas negociações, o discurso de Montenegro, colado a um vergonhoso oportunismo nas águas do Douro (talvez dedique outro texto a este momento triste), foi de pré-campanha.

A culpa é do Presidente da República Deveria ter sido ele a exigir negociações prévias à indigitação. Marcelo, como Montenegro, apostou na chantagem sobre o PS. E o PS pôs-se a jeito, caindo na armadilha de uma inusitada negociação prévia do OE, que normalmente se faz depois da sua apresentação. Como se vê, não passa de uma armadilha.

Com tudo a seu favor, a começar pelo ambiente mediático, a AD parte para esta suposta negociação impondo condições que são, elas próprias, a negação de uma negociação. Não dá informação que permita fazer propostas e construir consensos. Não aceita que ela belisque os elementos essenciais do seu programa, que obteve 29% dos votos. E exige que a oposição se abstenha de propor alterações de monta na especialidade. Quer uma oposição mais neutralizada do que se houvesse uma maioria absoluta. A ideia de que o PS negoceia previamente um orçamento que está bloqueado a mudanças estruturais e está impedido de fazer alterações na especialidade que incomodem o governo é a evidência de que nada está, realmente, a ser negociado. Está a ser preparada uma humilhação política ou a responsabilização do PS por uma crise.»


26.8.24

Se Pedro Nuno Santos viabiliza o Orçamento, suicida-se e arrasta o PS. Vai querer isso?

 


«Agosto está a acabar como começou. Já se sabia que a pergunta fatal – “quem vai viabilizar o Orçamento do Estado do Governo” – seria uma interrogação para durar vários meses, depois da súbita mudança de posição do secretário-geral quando admitiu negociar o Orçamento, contrariando a sua posição inicial e dos seus principais dirigentes.

Com o Governo com desejos de desfazer o PS em bocadinhos e humilhar o partido de Mário Soares o mais que puder – como se tem visto nas declarações dos seus responsáveis –, negociar e viabilizar o Orçamento do Estado por medo de uma crise política que venha a favorecer o Governo e a prejudicar o PS é muito “poucochinho”.

É verdade que a estratégia de viabilização tem o apoio do antigo secretário-geral António Costa, que, do alto do seu cargo de presidente eleito do Conselho Europeu, aconselha o PS a fazer o que ele nunca faria na mesma situação. Mas as coisas mudam.

O risco de Pedro Nuno Santos “antoniojosesegurizar-se”, anulando as suas convicções políticas de sempre – quando está a ser muito mais maltratado pelo Governo do que António José Seguro no seu tempo foi por Passos –, é entrar já em território suicida.

Na verdade, ao recusar a oferta do PS para negociações, como se está a ver, o Governo acaba a fazer um favor político aos socialistas. Se o objectivo do avançar para negociações era mostrar que não seria o PS o culpado de uma crise política, o silêncio do Governo perante a oferta torna mais compreensível que o PS acabe a votar contra.

Não é só o PS que não quer eleições já. O Governo também não. Vai avançando com medidas para a reconciliação com os pensionistas, graças aos excedentes orçamentais dos governos PS, mas é difícil que, com a crise da Saúde a que assistimos este Verão – em nada diferente da que aconteceu no Verão passado –, a AD esteja em condições de ter um resultado muito mais expressivo do que aquele que obteve há um ano, a curto prazo.

Se é para repetir a táctica cavaquista do Governo de 1985, ainda é muito cedo – a maioria absoluta só chegou em Julho de 1987, por um erro estratégico do PRD e do PS, e quando uma imagem positiva de Cavaco Silva já estava consolidada no país.

Quando o Governo e o PSD dizem que não querem eleições já, devemos levá-los a sério. Também Montenegro precisa de tempo. E quando os dirigentes do PSD se referem ao PS da forma como o fazem, também os devemos levar a sério: não têm qualquer interesse em negociar seriamente com os socialistas o Orçamento do Estado.

Na entrevista que deu ao Expresso na última sexta-feira, o líder parlamentar do PSD Hugo Soares afirmava a quase obrigação de o PS viabilizar o Orçamento do Governo por “duas ordens de razões”, a primeira das quais era o facto de, segundo Hugo Soares, o PS ser “responsável pelo caos nacional a que o país chegou com os últimos oito anos de governação”. Obviamente, isto só significa que o PSD quer comer o PS de cebolada, obrigando-o – com uma eventual viabilização do Orçamento do Governo – a renegar os executivos Costa.

Quando alguém precisa de ajuda de um outro, não começa a conversa agredindo-o com duas estaladas. O Governo anda à estalada ao PS porque sabe perfeitamente que é o seu inimigo político principal e mais forte – e a quem politicamente interesse humilhar e reduzir à mínima expressão. Conta com o medo que os socialistas têm de uma crise política e com a pressão dos autarcas para obrigar o PS a ceder e a ficar comprometido com o Orçamento.

Mas, a meio deste Agosto, Pedro Nuno Santos deu uma espécie de “grito de alma” em que abriu espaço para o voto contra, num retorno à posição inicial, e que contraria a ideia que se está a popularizar de que o PS viabiliza o Orçamento. Foi a 15 de Agosto, quando afirmou “não chateiem o PS”, lembrando que a direita ganhou e que o PS está na oposição, colocado “sob uma pressão que não é aceitável”.

A direita é maioritária no Parlamento. Por muitas tropelias que André Ventura arranje, o Chega é quem tem mais a perder com eleições. Assim como fez nos Açores e na Madeira, tratará de inventar uma vitória qualquer para justificar o voto a favor e não ser o culpado por retirar a direita do poder. Temos mais dois meses e meio de suspense – mas o que tem de ser tem muita força.»