Não valeria a pena recordar factos antigos e de importância secundária, não se desse o caso de Marcelo Rebelo de Sousa nos «prometer» que será presidente desta República dentro de algumas semanas e de isso constituir um perigo real.
Eu tenho uma história para contar sobre a sua veia criativa, não só de futuros possíveis mas também de passados fluidos ou mesmo inexistentes. Ou, se se preferir, sobre a sua enorme capacidade de inventar sempre o lugar em que fique melhor na paisagem. Trata-se de características talvez «louváveis» mas um tanto perigosas quando se tem na mão as rédeas de um país.
Em Março de 2008, uma jornalista do
Público inquiriu um grande grupo de pessoas, do qual fiz parte, sobre a forma como tinham reagido à leitura, na Torre do Tombo, dos processos elaborados pela PIDE a seu respeito. Do referido grupo fazia parte MRS e algumas das suas declarações foram extraordinárias pela imaginação que revelavam. (O dossier está
online, com destaque, a vermelho, para o que se refere a MRS, mas copio para aqui um excerto)
«O professor de Direito e conhecido comentador televisivo descobriu que foi vigiado de perto a partir da altura em que entrou para a Faculdade de Direito: "Penso que nasci para a PIDE aos 16 anos." O pai de Marcelo, Baltazar Rebelo de Sousa, foi governador-geral de Moçambique, ministro da Saúde e depois do Ultramar. Era um dignitário do regime, o que nunca era esquecido nas anotações que a PIDE fazia sobre o filho, que alinhava pela oposição liberal.
Uma aproximação à descrição que era feita dele nas notas da polícia: "Fulano de tal [eu], que tem ideias perigosas, por sinal filho de Sua Excelência o Sr. Governador ou Ministro, consoante as alturas, estava a distribuir propaganda subversiva no dia x às tantas horas" ou a "colar cartazes" - o que se fazia de madrugada, mas nem por isso deixavam de aparecer as horas certas mencionadas.»
As reacções não se fizeram esperar, primeiro no blogue de Vítor Dias «O Tempo das Cerejas» (que, por azar tecnológico, deixou de estar acessível na sua primeira versão), depois neste, em cadeias de mails trocados com a jornalista que elaborou o dossier, finalmente em cartas ao director do jornal, de Vítor Dias e minha, que foram publicadas pelo menos parcialmente.
Retomo parte do que então escrevi:
É natural que MRS tenha processos abertos na PIDE e que lá estejam alguns dos factos que vêm relatados no Público. Mas não todos. Choca, sobretudo, a impressão geral de história oposicionista que quer deixar no leitor. Ninguém é obrigado a ter passados "com bom aspecto", o que não vale é burilá-los.
Por exemplo: MRS diz que «nasceu para a PIDE» aos 16 anos (em 1964, portanto) porque, enquanto o pai era dignitário do regime, ele pertencia à «oposição liberal». Oposição liberal em 1964? Alguém se lembra do que poderá ter sido? Se pretende referir-se à ala liberal de Marcelo Caetano, essa só nasceu uns cinco anos mais tarde.
Diz também que a PIDE registou que ele, de «ideias perigosas», era visto a colar cartazes e a distribuir propaganda subversiva de madrugada. Cartazes? Como escreveu Vítor Dias, só se fossem recreativos. Outros só foram permitidos, e poucos, nas campanhas eleitorais de 1969 e de 1973 e, aí, ninguém viu MRS do lado das oposições – nem a PIDE! Propaganda subversiva? De que organizações: do PCP, maoistas? Dos católicos progressistas, garanto eu que não eram. Etc., etc., etc.
MRS acabou por responder, em carta ao jornal, na qual referia que as «actividades subversivas» a que aludira se relacionavam com uma associação estudantil, denominada ADOC (???), a que pertencera.
N.B. – José Pacheco Pereira reuniu quase todos os textos desta polémica, que os mais curiosos podem ler
AQUI.
,