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30.12.22

Não façam caso dos casinhos

 


«O aspecto mais interessante do kickbox é o facto de ser um desporto praticado por pessoas para as quais o boxe não é suficientemente violento. “Além de atacar o adversário a murro”, terá pensado alguém, “eu também gostaria de poder agredi-lo a pontapé”. E assim surgiu esta linda modalidade. Às vezes, quando estou a jogar com o meu treinador (ele designa ataques selvagens à minha integridade física com o verbo “jogar”), levo alguns toques (“toque” é o eufemismo habitual para um soco no queixo ou um chuto no fígado). Como infelizmente sou ainda um ser humano, apesar dos esforços do treinador para que eu corrija essa minha característica absurda, socos e pontapés têm tendência a provocar-me sensações desagradáveis, que eu exteriorizo sob a forma de guinchadeira. É muito frequente o treinador interromper o treino para, com alguma impaciência, me dar a seguinte sugestão: “Não faças tanto caso dos meus golpes.” Recordo que eu pago para ele me aplicar os referidos golpes e me infligir as ainda mais dolorosas sugestões.

Ser governado por António Costa assemelha-se bastante a um treino de kickbox. Ele também se enfada por nós fazermos tanto caso de casinhos sem importância. E também somos nós que estamos a pagar os golpes. Fala-se muito do preço dos combustíveis e dos bens alimentares, mas onde a inflação se nota a sério é nos secretários de Estado. No meu tempo, os secretários de Estado eram mais baratos. Agora estão caríssimos. Em poucos meses, aquele secretário de Estado adjunto teve uma ideia para um pavilhão transfronteiriço inexistente que custou 300 mil euros, e depois a nova secretária de Estado do Tesouro protagonizou uma demissão que ficou em meio milhão. O comunicado da TAP à CMVM dizia que “Alexandra Reis (...) apresentou (...) a renúncia ao cargo, decidindo encerrar este capítulo da sua vida profissional e abraçando novos desafios.” Em princípio, só por ser um documento oficial, não terminou com o desejo: “Voa, passarinho.”

Os meus pais foram trabalhadores da TAP durante décadas, mas permaneceram nos seus cargos até à reforma, armados em parvos, nunca lhes ocorrendo abraçar novos desafios a troco de 500 mil euros. Os trabalhadores que lá continuam fazem periodicamente umas reivindicações laborais que indicam a intenção suspeita de não renunciar aos cargos que ocupam. É o que se chama estar agarrado ao lugar, e é provavelmente por isso que não são premiados como quem tem o desprendimento de renunciar e abraçar novos desafios. Querem ser remunerados a troco de trabalho, que é uma coisa tão prosaica e mesquinha. Abracem novos desafios, medricas.»

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29.12.22

Ex-ministros na AR? Costa que se cuide

 

(Observador)

Esta ida de alguns ex-ministros do PS para o Parlamento agitará algumas águas paradas, dentro e fora de S. Bento.

Para já Alexandra Leitão, em breve Pedro Nuno Santos (e, ou me engano muito, ou Marta Temido, devagar e de mansinho, irá dizendo umas coisitas).
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TAP – a procissão ainda só está no adro


 


«O Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC) pediu esta quinta-feira a demissão dos presidentes do Conselho de Administração da TAP, Manuel Beja, e da Comissão Executiva, Christine Ourmières-Widener, devido à polémica indemnização que já provocou demissões no Governo.

"Por uma questão de solidariedade, e de lealdade para com o ministro [Pedro Nunes], se o ministro se demite, naturalmente, que todos esperamos que os mesmos [CEO e 'chairman'] se demitam."»
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A inevitável queda de uma estrela

 


«Aconteceu o inevitável: uma das mais brilhantes estrelas do Governo caiu. Com estrondo. Por sua inteira responsabilidade. Com merecimento. Se existe alguma razão para uma demissão de um ministro, ela estava escancarada aos olhos dos cidadãos. Seria intolerável numa democracia madura que depois de tudo o que se soube nestes dias alucinantes Pedro Nuno Santos se mantivesse em funções. O homem que um dia acreditou que o não pagamento da dívida pública portuguesa deixaria os credores a tremer sucumbiu a falhas tão comezinhas como não saber que numa empresa sob a sua tutela tinha sido paga uma indemnização de meio milhão de euros a uma gestora que, mais tarde, havia de contratar para outras funções.

Não é uma boa notícia para o Governo, nem para o PS. Num elenco contaminado pela modorra e inquinado pelo conformismo, Pedro Nuno Santos era o rosto da determinação, da crença e da vontade de mudar. Por muito que se saiba da existência de uma linha ténue entre a propaganda e a acção, o seu trabalho na CP, por exemplo, é exemplar. Pedro Nuno Santos é um fazedor num Governo que navega à bolina. Mas o voluntarismo tem problemas. O erro terrível que cometeu ao anunciar uma solução para o novo aeroporto ao arrepio do primeiro-ministro prova-o.

A sua saída é por isso uma consequência lógica do limite das suas fragilidades. Depois da história do aeroporto, submeteu-se a uma sessão de expiação de culpas que contradizia toda a sua imagem e percurso. O ministro de pose convicta, o político pré-destinado a suceder a António Costa, transformou-se nesse momento penoso numa antítese da sua persona política. Foi um momento definidor. Que o condicionou. Qualquer falha seria fatal. A indecorosa história de Alexandra Reis encostou-o à parede. Não tinha alternativa, a não ser demitir-se.

A culpa originária pode ser do seu secretário de Estado e fiel amigo. Mas ele tinha de saber o que supostamente ele sabia. Não ter conhecimento da indemnização e ter avançado com a contratação da gestora para a NAV nessa condição era uma falha insuperável para um político condenado a não falhar. Depois de tanto empenho, tanto dinheiro dos contribuintes e tantas promessas na salvação da TAP, ele tinha de saber. O desconhecimento era nada mais, nada menos do que um atestado de incompetência. Ou, talvez pior, de negligência.

A estrela da ala esquerda do PS cai e com ela cai um pouco da aura do Governo. Sem o seu enfant terrible, o elenco de António Costa depreciou-se. Sem ele, sem Siza Vieira ou sem Vieira da Silva, sobra um naipe de damas e valetes. António Costa tem agora nas mãos um dos grandes desafios da sua carreira: mudar de alto a baixo e apostar em figuras de prestígio. Ele precisa muito dessa mudança. O país também.»

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28.12.22

«Muito obrigado e desculpe qualquer coisinha»

 


P.S. - Em 1/4, a palavra «bomba» foi entretanto substituída por «prontamente».
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Conselho da semana

 

«Estuda, filho, estuda muito, para um dia seres alguém e rescindires com a TAP.»

Pedro Vieira no Facebook
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Sol na eira e chuva no nabal



 

«Trata-se de um fenómeno quase impossível e quando acontece é momentâneo. Adolescente, observei essa quase impossibilidade quando, à porta da cozinha da casa dos meus pais (agricultores), olhava em simultâneo a eira e o eido, num dia de mais sol que chuva e com nuvens esparsas. Por uns instantes, a chuva caía no nabal e o sol beijava a eira. Foram apenas uns curtos segundos.

Aquele ditado popular veio-me à memória no início desta semana, quando o Gabinete de Estatísticas da União Europeia disponibilizou dados que colocam Portugal em 17.º lugar no ranking dos salários brutos médios anuais de quem trabalha a tempo inteiro. Este estudo refere-se a dados de 2021 e considera 26 dos 27 países que integram a União. Os nossos 19 300 euros anuais ficam a mais de 52 000 do salário mais alto, o do Luxemburgo (72 200 euros). A nossa posição dista mais da média europeia (30 000), que do salário mais baixo, o da Bulgária (10 300).

Com as políticas económica, laboral e social que vão sendo seguidas, podemos melhorar qualquer coisita conjunturalmente, mas continuaremos a disputar o campeonato dos últimos. Além disso, os nossos salários são muito baixos para o custo de vida que temos: encargos com a habitação influenciados por dinâmicas especulativas e por oportunidades de explorar turistas, bens de primeira necessidade a preços de países ricos, mobilidades limitadas. Ao mesmo tempo, alguns dos nossos direitos sociais fundamentais estão a minguar.

Existem condicionalismos externos, todavia, o fundamental das causas que transformam a vida de milhões de portugueses num pesadelo situa-se nas contradições profundas entre o que o Governo e outras instituições do poder anunciam como objetivos e as políticas que adotam. Os valores de referência para atualização dos salários, inscritos no último Acordo de Concertação Social, e os que o Governo adota para a Administração Pública são, sem dúvida, travão e não alavanca do crescimento dos salários. Se os trabalhadores com as suas lutas não conseguirem objetivos superiores, a 31 de dezembro de 2023 os salários reais dos portugueses, nos setores público e privado, serão piores que os de hoje.

Se analisarmos com cuidado as causas da emigração dos nossos jovens e, por outro lado, as características e condições dos imigrantes que estão ou passam pelo país (ver recente Relatório do Observatório das Migrações), vemos a política de baixos salários como motor dos dois movimentos. É um problema cada vez mais estrutural que condicionará no pior sentido a resolução da sensível questão demográfica.

Para os salários praticados em Portugal crescerem é preciso industrialização, mobilização das empresas para tratarem do seu posicionamento nas cadeias de produção e distribuição, uma política salarial e laboral que não favoreça o aumento de atividades de baixo valor acrescentado.

Na área do trabalho, o Governo entretém-se com temas pontuais transformados em floreados. Pouco faz para valorizar o trabalho de centenas de milhares de trabalhadores que desenvolvem atividades fundamentais para o funcionamento da sociedade, mas são consideradas pouco qualificadas. Desconsidera as organizações sindicais e incentiva o marasmo na contratação coletiva, o instrumento fundamental para elevar os salários de todos os trabalhadores.

É absoluta a incompatibilidade entre a desvalorização do trabalho e uma demografia pujante, associada a uma população ativa jovem e qualificada.»

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26.12.22

Alexandra Reis – a procissão ainda vai no adro

 


Acho muito bem que tudo seja esclarecido entre o governo e a TAP. Mas Alexandra Reis é secretária de Estado de Medina. Será que os dois já trocaram umas impressões sobre os factos? Ela não conhece «o enquadramento jurídico da saída»?
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O problema do meio milhão de Alexandra Reis é político

 


«Alexandra Reis ingressou na TAP em setembro de 2017, foi nomeada administradora três anos depois e, com um salário de 17.500 euros por mês, recebeu, em fevereiro passado, ao fim de dois dos quatro anos de mandato, uma indemnização de 500 mil euros, por cessação antecipada do cargo de administradora executiva.

Estou à espera que a TAP desminta esta notícia ou, pelo menos, este valor. Não se trata de saber se a atual secretária de Estado do Tesouro tinha direito, pelas regras contratuais, a meio milhão de euros de indemnização depois de dois anos em funções. Muito menos se pode ir para o Governo. Não há, como é evidente, qualquer incompatibilidade.

Se a questão não é legal, também não é essencialmente ética. Até porque, pelo que sei, os trabalhadores que saíram da empresa receberam todos indemnização – em valores bem diferentes e com critérios diferentes, como é habitual. Do que também julgo saber, o valor que recebeu (que não sei se foi o tal meio milhão) até é inferior ao que contratualmente teria direito. A questão é, antes de tudo, e isso é o que realmente me interessa, política.

Se Alexandra Reis recebeu efetivamente 500 mil euros de indemnização será porque tem direito a ela. A dificuldade da TAP será explicar qualquer corte nos direitos dos seus trabalhadores. Sim, a ex-administradora recebe o remanescente do tempo que faltaria para o fim do mandato, não pela antiguidade, como os trabalhadores. Mas não me ocorre nenhum critério de proporcionalidade que permita explicar esta regra contratual. Podem explicar que ela está dentro da lei e é comum, o que é verdade. Mas perderam qualquer argumento moral para dizer aos trabalhadores que ao fazerem greves em momentos-chave para a empresa a estão a pôr em risco, depois dos contribuintes terem lá posto muito dinheiro, como costuma ser afirmado pelo ministro das Infraestruturas e a Administração. Também eles estão dentro da lei.

Quanto a Alexandra Reis, o facto de ter recebido uma indemnização legal (tão legal como os salários que critiquei aos administradores do Novo Banco) não lhe retira qualquer direito político. A questão é a que se põe a qualquer liderança: a autoridade política para exercer o cargo de forma eficaz. Terá dificuldade em estar num governo que peça sacrifícios aos trabalhadores, incluindo aos do Estado. Não é um pormenor, numa secretária de Estado do Tesouro.

Perguntarão: se há cumprimento do contrato – talvez até abaixo do contrato –, qual é o valor a partir do qual isto não seria um problema? O bom senso não tem uma fronteira clara. Posso dizer que, para mim, meio milhão é aviltante para qualquer indemnização que corresponda a tão poucos anos numa empresa. Que é absurdo dar-se a administradores todo o remanescente até ao fim do contrato quando isso seria impensável para um trabalhador. Que, pelo contrário, quem tem salários tão altos precisa de menor proteção contra o risco de desemprego do que outros.

Tudo isto são considerações discutíveis, porque são considerações políticas. E é por isso que, apesar da indemnização ser aviltante, de nada posso acusar a ex-administradora, a não ser de falta de bom senso e sensibilidade. E de ter julgado que isto não seria uma questão política quando fosse tratar das contas públicas, depois de ter saído de uma empresa que exigiu um enorme investimento do Estado.

Quando a secretária de Estado do Tesouro falar da prudência que enche a boca do ministro das Finanças todos os portugueses verão meio milhão na sua testa. Isto não chega como problema político? Para mim, que detesto ver este tipo de casos a tomarem conta do debate político, é. E até estou a fazer um esforço para ser suave perante a desagradável sensação de ver os abutres à volta da carcaça.»

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20.12.22

Petróleo para a fogueira

 


«Neste final de ano, a grande medida política anunciada pelo Governo português e a avançada pelo Banco Central Europeu (BCE), podendo não parecer, têm um traço comum: as duas constituem experimentações perigosas, que perspetivam o lançamento de mais petróleo na fogueira dos sacrifícios a impor aos trabalhadores e aos povos, nos tempos próximos.

O primeiro-ministro, numa estranha entrevista, anunciou uma nova prestação extraordinária de 240 euros, a que chamou "um outro aumento" (não é aumento, é ajuda momentânea) para "um milhão de famílias que têm prestações mínimas". A ajuda a estas famílias é mais que necessária e bem-vinda, e pode, como disse o comentador-mor do reino, "fazer a diferença". Fará, e muita. Ainda recentemente uma senhora reformada dizia, numa rádio, que os anteriores 125 euros lhe deram imensa alegria: comprou medicamentos que deve tomar todos os dias e já não tomava há muito tempo, e cumpriu o sonho de dar uma prenda ao seu neto.

Todavia, uma medida pontualmente positiva evidencia desgraças, por várias razões. Primeira, a sucessão de transferências monetárias ocasionais para os pobres, mantendo-lhes os apoios sociais em valores de pobreza, transforma-se numa fábrica de pobres agradecidos, e induz na sociedade a valorização da esmola e a aceitação do recuo dos direitos sociais. Este filme é muito velho em Portugal e uma das maiores pechas no nosso processo de desenvolvimento.

Segunda, quem sobrevive dependendo sempre da caridade alheia - venha ela da esmola de cidadão com posses, de instituições privadas e públicas, ou da vontade momentânea de um Governo - vê a sua dignidade delapidada, perde capacidade reivindicativa, é acantonado na sociedade, corporiza retrocesso social. Um pequeno exercício de memória poderá relembrar o Partido Socialista de que não há verdadeiros partidos socialistas/sociais-democratas sem direitos sociais.

Terceira, a pobreza tem origens concretas e o Governo combate-as pouco. As políticas salariais e de pensões ficam-se pelo esgrimir de dados estatísticos que não têm em conta os impactos da inflação, cujos efeitos são perenes, provocando a sua continuada desvalorização real. Os benefícios oferecidos, via IRS, a camadas de muito baixos rendimentos são engolidos pelo brutal agravamento dos preços de bens de primeira necessidade. E as precariedades são geradoras de mais pobreza.

Quarta, qual a razão para o valor da "prestação extraordinária" ser aquele valor de 240 euros e não um mais elevado? O Governo, suportado numa maioria absoluta, impõe Orçamentos do Estado de contenção - insulta quem argumenta a existência de disponibilidades financeiras para mais solidariedade e investimento -sabendo que fica com folgas para fazer as transferências que entender e a quem lhe apetecer: em regra transfere chorudas quantias para grandes poderes económicos e financeiros e tostões, em apoios de contingência, aos mais necessitados.

Por seu lado, o BCE veio anunciar um agravamento das taxas de juros e prometer mais dois no início de 2023. No mesmo discurso, com total desfaçatez, aposta na recessão económica, prevê-a e clama que nos preparemos para ela. Não há prova, no atual contexto de "desglobalização", de que a subida das taxas de juros seja instrumento adequado para baixar a inflação, mas existe uma certeza: esta subida penaliza fortemente os cidadãos e grande parte de empresas e serviços do nosso tecido empresarial.»

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17.12.22

O espartilho da pobreza

 


«Não seria honesto, nem sequer justo para largos milhares de famílias, afirmar que o apoio de 240 euros atribuído pelo Governo a mais de um milhão de agregados carenciados é um mero acto de propaganda política. Apreciemos ou não a estratégia de gestão orçamental de António Costa, trata-se de uma quantia que, infelizmente, faz a diferença na vida de muita gente. Ainda que não tire ninguém da pobreza. As ajudas públicas fazem sentido porque há demasiados cidadãos a precisar delas. Basta atentarmos na evolução dos rendimentos para percebermos que a fronteira entre as classes baixas e a média é cada vez menos visível, o que se traduz necessariamente num definhamento da qualidade de vida e, em particular, do poder de compra. De resto, os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística mostram que Portugal continua a ficar para trás na maratona do crescimento e da competitividade, ocupando uma nada honrosa 16.a posição entre os 19 países da Zona Euro. Atrás de nós só mesmo a Letónia, a Eslováquia e a Grécia.

A verdade é que nenhum Governo tem sido capaz de conter este atraso estrutural do país, por mais loas que nos cantem de que o pior já passou e que agora é que vai ser, com o dilúvio de fundos comunitários. É, pois, neste contexto que um Estado excessivamente assistencialista se torna perversamente perigoso. Porque a pobreza e as carências daqueles que, geração após geração, dependem das ajudas públicas para sobreviver acabam por transformar-se na regra de um jogo em que quem lança os dados para a mesa é o partido de turno no comando, que passa a poder "usar" a pobreza estrutural como terreno fértil para obter ascendente político e eleitoral. E isto, repito, nada tem que ver com a justeza dos apoios atribuídos agora aos mais carenciados. Mas um país de mão estendida está condenado a ficar agrilhoado neste espartilho vicioso.»

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16.12.22

A tanga das contas certas e a questão social



 

«O Partido Socialista e a sua maioria parlamentar apresentam ao país o orçamento de Estado para o próximo ano de 2023 com uma marca muito elogiada pela direita, pelos patrões e pelos principais comentadores políticos do regime. De que se trata, então? Trata-se da expressão “contas certas”. Parece que este conceito vem substituir a narrativa “não deixar ficar ninguém para trás”, lembram-se?

Ora, as contas certas, bandeira de afirmação e tentativa desesperada para Fernando Medina aumentar a sua reputação e peso político dentro do Governo, apesar de ser um termo técnico, complexo, multidisciplinar e difícil de decifrar para o povo menos escolarizado, quer dizer, menos despesa pública, menos investimento do estado, mais obediência aos tratados orçamentais da Europa, mais garrote asfixiante para financiar as instituições e os serviços públicos.

Ninguém quer um país endividado a gastar mais do que a riqueza que produz. Ninguém defende o crescimento de uma dívida incontrolável, ninguém propõe que não se pague a quem se deve. Ninguém diz que o que é preciso é gastar sem preocupação de angariar receitas. Todos defendemos equilíbrio entre despesa e receita para consolidar a boa governação. A economia ao serviço das pessoas e não as pessoas escravas da economia.

Vamos então perceber como chegamos aqui e de quem é a responsabilidade.

Quem viveu acima das suas possibilidades? Foram os pobres com prestações sociais miseráveis? Foram os trabalhadores com salários mínimos a trabalhar e, mesmo assim, a empobrecer? Foram os reformados e os pensionistas que chegam ao fim de cada mês sem dinheiro para comprar os medicamentos e pagar a renda de casa? Foram os beneficiários do Rendimento Social de Inserção que gastam a migalha mais minúscula do orçamento global da segurança Social?

Não, estimados leitores, quem gerou este desequilíbrio financeiro e a monstruosidade da dívida pública foram as más políticas dos sucessivos governos do PS, PSD e CDS. Quando faliram os bancos privados, foi o dinheiro público que saiu para o bolso dos accionistas; quando as parcerias público-privadas correram mal, o prejuízo foi acautelado mais uma vez pelo bolso dos contribuintes; quando as empresas públicas começaram a derrapar e a sua contabilidade começou a dar sinais de pouca sustentabilidade, ninguém fez nada para as salvar (desculpem, fizeram, nomearam para essas empresas quase falidas mais jobs para cargos remunerados a preço de ouro); quando grandes grupos económicos começaram a fugir ao fisco e a tentar pagar menos impostos em Portugal, nenhum governo teve coragem de agir para corrigir este escândalo. Quando na Europa fixaram taxas de juro exorbitantes para liquidar a nossa dívida, ninguém bateu o pé para renegociar.

Chegados aqui, vamos continuar a esperar 14 horas para sermos atendidos numa urgência de um hospital público. Vamos ver o filho do nosso vizinho a desistir da faculdade porque não encontrou alojamento e vaga numa residência universitária, vamos continuar a ver disparar o número de funerais sociais, gente que morre na rua e que já não tem qualquer tipo de laço familiar ou institucional.

Para manter as contas certas, o investimento na construção de habitação pública não vai sair do papel. Para manter as contas certas, muitas competências da área social vão ser transferidas para as autarquias locais e esta decisão política é tão má como quase criminosa. Para manter as contas certas, vão continuar a faltar recursos e meios para acompanhar e integrar as comunidades de imigrantes e as imagens destes trabalhadores no Alentejo devem-nos envergonhar a todos. Para manter as contas certas, vai novamente faltar dinheiro para prevenir a reincidência no crime e a ressocialização inclusiva dos reclusos.

Nas crises cíclicas da economia capitalista são sempre os mais vulneráveis, com menos capital económico, social e cultural que sofrem a privação e a precariedade nas suas vidas. As políticas de austeridade, mesmo que sejam mais doces e suaves à moda do PS, lançam sempre estilhaços existenciais sobre as famílias mais pobres.

Baixar a dívida não deve ser incompatível com a preocupação política de proteger as pessoas. O crescimento económico deve servir para pagar essa dívida sem sacrifício dos mais desfavorecidos. O problema é que a política de direita do PS, à semelhança dos anos traumatizantes do governo de Pedro Passos Coelho, quer baixar a dívida a todo o custo para lá do que é necessário. E isso, socialmente, já está a gerar consequências trágicas.

Espero que o Governo vá sacrificar a meta do défice de 0,9%, prevista para 2023, para evitar, como diz Manuel Carvalho, diretor do jornal Público, uma nova vaga de pobreza e o agravamento dos lamentáveis índices de desigualdade e pobreza.

O argumento de que tem de ser assim porque agora existem fatores externos que não podemos controlar, como a guerra da Ucrânia e a inflação, só demonstra que o PS sem a influência política da geringonça é mesmo o melhor aliado de António Saraiva e da CIP.»

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5.12.22

A perder peças assim, o Governo poderá circular até 2026?

 


«A política também é a gestão da perceção e António Costa conseguiu que a sua remodelação não fosse percecionada por quase ninguém. Com o país concentrado na caminhada para os oitavos de final, até podia ter remodelado o governo todo que, desde que não retirasse Ronaldo e Bruno Fernandes, ninguém queria saber.

A saída dos secretários de Estado da Economia e do Turismo é compreensível. João Neves pensou que desautorizar o seu ministro, no caso do IRC, não era prerrogativa exclusiva do primeiro-ministro e dos seus amigos – incluindo Mendonça Mendes. Rita Marques foi acusada de usurpação de poder num processo e não podia ficar depois de Miguel Alves sair.

Aproveitando a boleia, o primeiro-ministro escolheu o substituto de Miguel Alves, precisamente. Escolher alguém próximo para este cargo é, no caso de um secretário de Estado Adjunto, obrigatório. E o sinal de ser próximo, já se percebeu, é ter passado pelas mãos de Lacerda Machado, o que foi o caso de Miguel Alves e de Mendonça Mendes.

Quanto a ser irmão da ministra dos Assuntos Parlamentares, que até devia cumprir parte da coordenação política que se espera de Mendonça Mendes, não foi uma que escolheu o outro, por isso não vejo onde esteja o problema. Será mau para a imagem de um governo que andou a penar com o familygate? Talvez, apesar de ninguém estar a olhar. É seguramente mau para a coerência do primeiro-ministro. É que veio dele a ideia de que familiares não podem conviver no Conselho de Ministros. Por isso Ana Paula Vitorino não teve lugar ali, porque nunca poderia ser o seu competentíssimo marido a sair. Os princípios de Costa são tão remodeláveis como este governo.

Era suposto este ser o governo mais político de António Costa. Aquele onde, por isso mesmo, haveria menos problemas políticos ou eles seriam mais facilmente resolvidos. Só que o círculo de confiança de Costa está cada vez mais apertado. Fora os três herdeiros em que deposita confiança - Mariana Vieira da Silva, Fernando Medina e Pedro Adão e Silva –, sobra pouco que seja apresentável.

Talvez tudo isto seja inevitável. Esta maioria absoluta, conquistada fora de tempo por circunstâncias excecionais (uma queda inesperada, sondagens absurdas que davam um empate improvável e um PSD pouco claro em relação ao Chega), foi oferecida ao PS quando já vinha desgastado por seis anos de poder e dois de pandemia. Se os últimos anos de Cavaco absoluto, em condições políticas muito favoráveis e quando o dinheiro jorrava, foram penosos, estes prometem arrastar-se dolorosamente. Custa acreditar que um carro que perde tantas peças em oito meses consiga circular mais três anos. Mas depois olha-se para a alternativa...»

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5.11.22

Marcelo 2.0?



Este recado dado hoje à ministra da coesão Ana Abrunhosa, no estilo e nos termos utilizados, ultrapassa o que é admissível que um Presidente faça a um membro do governo em exercício. Ou Costa reage ou algo de muito estranho se passa.
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29.10.22

O campeonato da austeridade

 


«Os governos escolhem palavras e caminhos diferentes para atingir, quase sempre, os mesmos propósitos.

Se com Passos Coelho vimos projetada a ideia da austeridade, decorrente do estado de pré-falência em que recebeu o país, com António Costa constatámos que era possível virar essa página negra, dando quase tudo a quase todos, e, mais recentemente, percebemos também que qualquer medida que possa ter algum tipo de conotação com essa palavra maldita passou a figurar nos dicionários com a designação de "contas certas". O tempo e energia que os dois maiores partidos perdem com o malabarismo dos sinónimos no campeonato da austeridade ajudam a explicar o estado de estagnação em que medramos.

É evidente que um Governo responsável tem de acautelar que a dívida pública não se transforma num monstro insaciável, como é flagrantemente natural que esse mesmo Governo tenha, em contraponto, de responder com dinheiro e apoios sociais quando uma fatia considerável da população está a empobrecer, como acontece agora, com esta fusão explosiva que junta subida da inflação, falta de matérias-primas, guerra e uma escalada perigosíssima das taxas de juro. É desse equilíbrio, de resto, que resulta uma boa governação e um princípio básico de justiça social.

O campeonato da austeridade certamente que ajuda a adornar os discursos nas tribunas do Parlamento, mas apenas isso. Espera-se que, desta vez, o Governo não volte a ser atropelado pela realidade dos números e que aja mais depressa do que no passado recente. Porque as contas (certas, é verdade) do Orçamento do Estado estão a perder validade todos os meses. Vai ser preciso abrir de novo os cordões à bolsa para evitar que as classes mais desfavorecidas (e inclui-se aqui uma parte considerável da classe média) não atirem a toalha ao chão no próximo ano. Esperar para ver como fecha 2022 em termos de inflação para montar uma estratégia, como sugere o líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, é capaz de ser tão eficaz como tentar travar o vento com as mãos.»

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28.10.22

Cá vamos andando com o porta-moedas entre as orelhas

 


Inflação atinge 10,2% em outubro. O valor mais elevado desde 1992
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125 euros

 


«Fiscalistas ouvidos pelo Expresso admitem lacuna no desenho da medida, que não tem em conta os rendimentos de capital na avaliação de elegibilidade para o apoio. Uma lacuna que dá margem para que milionários, estrangeiros ou nacionais, sejam abrangidos pela medida.»
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