«A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, com o sequestro do Presidente – que estava ilegitimamente no poder, como se sabe – marca um ponto de não retorno nas relações internacionais. Putin tem agora a estrada aberta para chegar a Kiev com a bênção dos Estados Unidos e Xi para avançar sobre Taiwan. Se o direito internacional é letra morta, então é letra morta para todos. Já o era para Israel.
Há aqui mais de regresso ao faroeste e à dilapidação das riquezas dos índios ou dos outros colonos do que de doutrina Monroe, que foi muitas vezes posta em prática, nomeadamente com o apoio dos Estados Unidos às ditaduras sanguinárias da América Latina levada a cabo com empenho no século XX.
Depois de capturado o petróleo da Venezuela, segue-se a invasão da Gronelândia e a conquista do Canadá, dois territórios sob ameaça de Trump. Eventualmente os Açores, porque de resto Portugal não tem interesse nenhum.
Quando Trump anexar a Gronelândia, certamente a União Europeia irá fazer a mesma figura triste que fez agora com a invasão da Venezuela. A Gronelândia é parte da União Europeia, mas o medo dos dirigentes europeus e a sua submissão repugnante a Donald Trump levará a que quando isso acontecer falem tão baixinho como o fizeram agora.
A França foi particularmente ridícula e até um caso de estudo: enquanto Emmanuel Macron rejubilava com a “conquista” de Trump, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, falava também em nome da França para dizer que “nenhuma solução política duradoura pode ser imposta de fora e que os povos soberanos decidem sozinhos o seu futuro”. Um país em surto grave de bipolaridade.
Outra reacção patética foi a do chanceler alemão, Friedrich Merz, para quem a “análise jurídica” da invasão de Trump “é complexa” e “levará tempo”. Merz e a dupla Macron-Barrot simbolizam bem os Chamberlains dos tempos modernos.
Toda a União Europeia é, no momento presente, um gigantesco Chamberlain. O desgraçado primeiro-ministro britânico não era, em si, um monstro. A proposta de apaziguamento era, na época, dominante no governo do Reino Unido e até na sua população que era bastante antissemita. A única coisa que a União Europeia quer é apaziguar Trump e vai aguentar o que for preciso. Houve uma excepção: o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, mas uma andorinha não faz nenhuma primavera.
No entanto, a prova máxima da total fraqueza europeia veio da reacção ao post no X da mulher do chefe de gabinete da Casa Branca. Katie Miller, logo após a invasão da Venezuela, reproduziu o mapa da Gronelândia com a legenda “Soon”, que quer dizer “em breve”. Mesmo considerando que o palavreado diplomático é uma excepção no conjunto das linguagens possíveis, o embaixador da Dinamarca em Washington respondeu assim: “Apenas um lembrete amigável sobre os Estados Unidos e o Reino da Dinamarca: somos aliados próximos e devemos continuar a trabalhar juntos como tal. A segurança dos Estados Unidos também é a segurança da Gronelândia e da Dinamarca”. O embaixador “espera” – coitado – “total respeito pela integridade territorial do Reino da Dinamarca”.
Mesmo que o embaixador lembre que a Gronelândia faz parte da NATO, sabemos que nenhuma das organizações internacionais, com as suas virtudes e defeitos, tem real existência neste momento. Se Trump invadir a Gronelândia, a Dinamarca pede auxílio à NATO? A morte das instituições internacionais e do direito internacional é também a morte da Aliança Atlântica e da União Europeia.
Provavelmente, é também a morte da democracia liberal, uma coisa a que andamos a assistir aos poucos e a virar a cara para o lado.
Entre os mortos do colapso do direito internacional, também há portugueses. Paulo Rangel, o ministro dos Negócios Estrangeiros, apoiou Trump porque os Estados Unidos, na invasão da Venezuela, tiveram “intenções benignas” e manifestou a sua crendice no “papel dos Estados Unidos na promoção de uma transição estável, pacífica, democrática, inclusiva” na Venezuela. Parece que já está a correr bem, com Trump a ameaçar a nova Presidente, de vir a ter um destino ainda pior do que o que teve Nicolás Maduro.
Quando Trump vier para a Europa, como está escrito na estratégia de segurança nacional publicada recentemente, “combater a decadência civilizacional” – isto é, a democracia liberal – defendendo o crescimento dos partidos da extrema-direita europeia, o que vão fazer os europeus? Talvez o mesmo que fizeram os noruegueses quando Hitler lá chegou: dizer bem-vindo e colocar-se à disponibilidade do novo poder.»




