10.1.26

Tintim 87

 


Tintim apareceu pela primeira vez no suplemento juvenil Petit Vingtième do jornal belga Le Vingtieme Siecle (doze «caixas» em duas páginas), com Tintim envolvido numa aventura de ida à União Soviética, com partida de Berlim.


Depois, nasceu o mito que conhecemos, com o herói que alimentou a nossa imaginação e que acompanhou, e acompanha, multidões do mundo inteiro «dos 7 aos 77». Mais de 200 milhões de exemplares em 70 línguas diferentes.
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O senhor que roubava malas

 


Júlio Pomar

 


Chegaria hoje aos 100!

O país das Julianas e dos Julianos

 


«Este é um artigo muito desagradável de escrever, mas o mundo e Portugal são o que são e mais vale olhar de frente do que fazer de conta. A Juliana é a célebre personagem de Eça de Queiroz n'O Primo Basílio, a criada que, descobrindo a relação adúltera da patroa, faz chantagem com ela sob a ameaça da denúncia. É uma das personagens mais completas de Eça, que a descreve através de várias personagens do romance com aquilo que hoje podemos considerar rigor, indo mais longe do que a repulsa face à personagem, mas percebendo os mecanismos sociais que moldam o seu carácter e a sua atitude. É um retrato no qual as relações patroa-criada, beleza-fealdade e medo-ambição mostram o enorme poder dos que não têm poder, muito para além da maldade, que por si só tiraria força à personagem, mas a vingança, a denúncia, a alteração de poder que significam a chantagem.

O problema é que em Portugal há muitas “Julianas/os”, por muitas razões, algumas culturais, mas acima de tudo sociais. A vingança pela denúncia, seja pela informação anónima (algumas vezes assinada) à PIDE ou à Legião, ou hoje ao Ministério Público ou aos jornais, ou pela carta anónima, é demasiado comum para não a podermos pôr de parte numa análise ao “carácter” dos portugueses.

Claro que há aqui uma linha difícil de traçar com a denúncia cívica, o whistleblowing, mas quem já leu centenas de denúncias durante os 48 anos da ditadura percebe que nada tem de cívico, sendo pura vingança pessoal. É preciso ter em conta que estas denúncias tinham consequências, levando ao despedimento, à prisão e à tortura, o amigo, o vizinho, o trabalhador, o companheiro de emprego, e a proximidade era a regra. Como a Juliana era a criada de servir da casa, e vivia por baixo do poder da patroa adúltera, mais proximidade do que a que havia era difícil. Foi aliás essa proximidade que a levou a perceber a relação da patroa com o primo, e a roubar as cartas que lhe serviam de prova para a chantagem.

Para quem trabalha sobre a história da ditadura e consulta muitos documentos originais, esta é uma realidade bastante generalizada e penosa para quem a confronta. Nas denúncias políticas, há vários níveis de actuação, e as “informações” recolhidas num taberneiro, que são muito comuns na Legião Portuguesa, vêm claramente “de baixo” e são muitas vezes inventadas ou imaginárias, e aí a ganância também tem um papel. As informações que as câmaras recebiam são muito parecidas com as da Legião, e infelizmente muitas foram apressadamente deitadas ao lixo já em democracia. A que ilustra este artigo provém de um conjunto de dossiers que foi mandado deitar fora a uma funcionária e que foi salvo pelo Arquivo Ephemera. São páginas sobre páginas de denúncias que se percebem virem de gente próxima, familiares desavindos por heranças, agravos pessoais, ajustes de contas no emprego, ou pura e simplesmente vontade de fazer a vida negra a um vizinho. Não há qualquer motivação ideológica ou política, e quando se percebe que há zelo de um qualquer membro da União Nacional, a denúncia tem pouco que ver com o combate ao comunismo, por exemplo, mas sim com a vontade pessoal do “bufo” de obter uma promoção ou apenas uma “simpatia” que acabe por ser rentável.

As denúncias à PIDE, as mais perigosas, têm também este componente “de baixo”, mas muitas vêm “de cima”, de gabinetes de ministros, de donos e patrões das grandes empresas privadas, de zelosos defensores da ditadura na estrutura do Estado, o que significa professores, funcionários públicos, estudantes, nobres e ricos, que nunca admitiriam misturar-se com os pides, a não ser na denúncia. Não estou a referir um outro tabu complicado da nossa história recente, o “falar na cadeia”, mas a produção a que se dedicavam pessoas de fora do aparelho repressivo. Como o estudante liceal que, em vésperas do 25 de Abril, entrou pela PIDE dentro, procurou um inspector com quem negociou um salário e mesmo a gestão desse salário numa conta bancária pelo inspector que o passou a controlar, e se preparou para fazer um relatório para denunciar os seus amigos de política e do liceu quando o 25 de Abril surgiu.

O problema é que não foi meia dúzia de “Julianas/os”, mas muitas centenas de denunciantes, e que hoje também se dedicam à mesma tarefa nas redes sociais e nas cartas anónimas aos jornais. A maioria daquilo que se apresenta com pomposas palavras como “jornalismo de investigação” chegou na caixa de correio ou em mensagens electrónicas para jornalistas escolhidos a dedo.

Na verdade, a cultura tóxica da denúncia continua por aí pujante, sempre com os mesmos motivos, a mesma combinação de vingança e ganância, que nos últimos cem anos é uma marca de identidade do pior dos portugueses. E não vai mudar tão cedo.»


9.1.26

Assim se resolve o problema do INEM

 


De desacordo em desacordo, mas…

 


«A intervenção dos EUA na Venezuela mudou a agenda da reunião do Conselho de Estado, que se reúne esta sexta-feira, tornou-se tema da campanha presidencial e mostrou mais uma rutura no ‘centrão’ nas políticas de soberania e diplomacia. (…)

Governo e PS mostraram discursos muito diferentes na reação à intervenção na Venezuela, com o Chega a estar mais próximo da reação do Executivo. O Governo, sobretudo pela voz do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, encontrou aspetos “benignos” na ação de Trump. (…)

“Os fins não justificam os meios”, escreveu, também logo no sábado, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, manifestando que “condena qualquer intervenção na Venezuela à margem da ONU e do Direito Internacional”.»


09.01.1908 – Simone de Beauvoir

 


Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir chegaria hoje a uns improváveis 118 anos.

Tudo já foi escrito sobre esta escritora, intelectual, activista política e feminista, mas vale talvez a pena recordar o papel decisivo de uma das suas obras – Le Deuxième Sexe –, publicada em 1949. Esteve longe de ser um manifesto militante ou arauto de movimentos feministas que, em França, só viriam a surgir quase duas décadas mais tarde, já que as mentalidades não estavam preparadas para a problemática da libertação da mulher tal como Simone de Beauvoir a abordou, nem para a crueza da sua linguagem.

As reacções não se fizeram esperar, tanto à esquerda (onde o problema da mulher estava fora de todas as listas de prioridades), como, naturalmente, à direita. François Mauriac escreveu: «Nous avons littérairement atteint les limites de l’abject», Albert Camus acusou Beauvoir de «déshonorer le mâle français».

Para a compreensão e a consagração da obra foi decisivo o sucesso nos Estados Unidos, onde foi publicada em 1953. O movimento feminista, em que Betty Friedman e Kate Millet eram já referências, estava aí suficientemente avançado para a receber. Efeito boomerang: Le Deuxième Sexe «regressou» à Europa no fim da década de 50, com um outro estatuto, quase bíblico, e teve a partir de então uma longa época de glória.

Simone de Beauvoir nunca provocou grandes empatias e foi sempre objecto de discussões sem fim sobre a sua importância relativa quando comparada com a de Sartre. Mas, goste-se ou não, estava no centro do Olimpo que Paris era então – quando, no Café de Flore, toda a gente vivia envolta em fumo e Juliette Greco cantava «Il n’y a plus d’après».


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O melhor não-candidato

 


«Quem está desencantado com a política deve fazer uma reflexão profunda e ajustar as suas expectativas. Uma coisa é o eleitor ser exigente; outra é ser mimado. Nas próximas eleições presidenciais, os cidadãos terão à sua disposição, no boletim de voto, 14 nomes. Desses, só 11 tiveram as suas candidaturas aprovadas pelo Tribunal Constitucional. Ou seja, vai ser possível escolher candidatos que são mesmo candidatos e candidatos que o não são. O velho lamento dos eleitores rabugentos, que sempre se queixaram de não sentirem identificação com nenhum dos candidatos, perde razão de ser porque agora, além dos candidatos, podem escolher não-candidatos. Se não se identificarem com qualquer dos candidatos e também não encontrarem uma única pessoa válida entre os não-candidatos, é perfeitamente legítima a suspeita de que o problema talvez seja deles.

Como sempre, no nosso país as boas iniciativas são vistas com desconfiança. Em vez de inspirar alegria por oferecer maior possibilidade de escolha, a inclusão dos nomes dos não-candidatos no boletim foi alvo de azedos reparos. Para quê, perguntam os críticos, juntar o nome de gente que não tem a mínima hipótese de ser eleita, à lista dos candidatos oficiais? Trata-se de um péssimo argumento. Entre os candidatos oficiais também há muitos que não têm a mínima hipótese de conseguir a eleição. Porque é que o sr. José António de Jesus Cardoso, que está no boletim apesar de não ser candidato, teria menos direito a figurar na lista do que André Ventura — que, de acordo com todas as sondagens, também não tem qualquer hipótese de ser Presidente da República, uma vez que perde com qualquer outro candidato numa hipotética segunda volta?

A razão para o boletim ter 14 nomes em vez dos 11 que foram aprovados é surpreendente: o boletim foi impresso com demasiada antecedência. Talvez seja a primeira vez que, em Portugal, o Estado faz uma coisa com antecedência, em vez de a deixar para o último minuto. Em lugar de haver boletins a menos, porque só começaram a ser impressos na véspera, há boletins com candidatos a mais, porque foram impressos há semanas. O facto de ambos os métodos merecerem críticas pode deixar o Estado confuso, e até magoado. Faça o que fizer, ninguém aprecia. E por isso pode decidir-se por, para a próxima, não imprimir boletim algum. O que poderá, enfim, merecer elogios, dado haver, ao que parece, um número crescente de pessoas para as quais isto de haver eleições é uma fonte de chatices perfeitamente evitáveis.»


Montenegro 2022 / Montenegro 2025

 


8.1.26

08.01.1969 – Primeira «Conversa em Família» de Marcelo Caetano

 


Há 57 anos, Marcelo Caetano dirigiu a primeira das dezasseis «Conversas» ao país.

Não é por saudosismo, mas para memória histórica, que deixo aqui os vídeos da primeira e da última «Conversa». Esta teve lugar em 28.03.1974, já depois do golpe falhado das Caldas. Ele não sabia – e nós também não – que nunca mais teríamos aqueles cinzentos e sinistros serões na sua companhia.





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Catarina no debate dos 11

 


Eu voto Catarina

 


Sem hesitações nem estados de alma. Mas vejo, com muita tristeza, que muitos amigos e amigas que sempre votaram em candidatos inspirados no Bloco (ou na CDU), se precipitam agora na primeira volta, aparentemente cheios medo, de que não haja uma etiqueta de esquerda em Belém. Porque António José Seguro foi, e será, uma etiqueta. Ou não se lembram do passado? Alguem disse uma vez que «O voto útil é o nome artístico do bloco central» É isso.

Joana Baez, 85

 


Nasceu em 9 de Janeiro de 1941, cantou durante décadas em várias arenas, lembra-nos Wookstock, lutas pelos direitos dos negros, activismo contra a Guerra do Vietname, várias detenções como, por exemplo, em 1967 em Oakland, numa das dezenas de manifestações que tiveram lugar em cerca de 30 cidades dos Estados Unidos. 

Ficam, para nunca esquecermos, algumas das suas interpretações: 











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A Venezuela mostra que o discurso de Trump encolhe o nosso mundo


 

«A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos confirma uma mudança profunda na forma como Washington se vê a si própria e ao mundo. A linguagem das alianças, da cooperação e da ordem internacional foi substituída pela linguagem do negócio, da transação, do ganho imediato – e, agora, pela intervenção militar direta, como se verificou na Venezuela. cccccc

O filósofo Ludwig Wittgenstein escreveu que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. A forma como Donald Trump fala – e age – nas relações internacionais ilustra bem esta ideia. O seu discurso reduz a complexidade global a uma lógica binária de vencedores e perdedores, amigos úteis e parceiros suspeitos: é esta lógica que apresenta a operação para derrubar Nicolás Maduro como uma vitória da “liberdade” contra a “tirania”. É uma linguagem simples, direta e eficaz do ponto de vista eleitoral, mas pobre para descrever – e governar – um mundo profundamente interligado e juridicamente denso.

Thomas L. Friedman já afirmou que Trump não está interessado em travar uma nova Guerra Fria, mas sim uma “nova guerra civilizacional”. Não se trata da competição entre potências ou de divergências estratégicas; trata-se de uma narrativa identitária em que o mundo se divide entre “nós” e “eles”, entre civilização e ameaça. A intervenção na Venezuela foi enquadrada nesta gramática moral rígida como um ato de “libertação” contra um regime apresentado como inimigo da ordem civilizada.

Durante décadas, o poder americano construiu-se, não só pela força económica e militar, mas também pela capacidade de gerar cooperação voluntária entre aliados. Esse poder assentava na previsibilidade, na confiança e na ideia de que liderar era mais do que impor. Trump ignora esta herança: ao bombardear a Venezuela e anunciar que os EUA irão “dirigir” o país até uma transição, tratou os aliados como espectadores ou acompanhantes táticos e não como parceiros.

A cooperação oferece benefícios que a força pura não consegue garantir: partilha de informação sensível, desenvolvimento tecnológico conjunto, coordenação económica e influência política duradoura. Um país pode impor condições e obter ganhos rápidos, mas perde parceiros dispostos a partilhar custos, riscos e responsabilidades. O resultado é um poder mais solitário – e, paradoxalmente, mais vulnerável, como se vê nas críticas internacionais à operação venezuelana e no risco de novas instabilidades regionais.

A Europa está numa posição particularmente delicada. Durante muito tempo, habituou-se a falar a linguagem dos “valores universais”, dos direitos humanos e do multilateralismo. Este discurso deu-lhe influência moral e capacidade de atração. No entanto, os últimos anos – da guerra na Ucrânia à dependência energética, das fragilidades na defesa comum à dependência tecnológica – revelaram os limites de um poder assente sobretudo na palavra.

Perante o ataque à Venezuela e a captura de Maduro, a União Europeia respondeu apelando à contenção, ao respeito pelo direito internacional e pela Carta da ONU, reafirmando a importância das regras que a própria Europa ajudou a construir. Esta reação evidencia a tensão entre a proximidade política com Washington e a necessidade de se distinguir de intervenções unilaterais, mostrando que a Europa tenta manter a gramática do multilateralismo mesmo quando o principal aliado a contorna.

A China compreendeu bem esta equação. Investe, não apenas em poder económico e militar, mas também em diplomacia, cultura, infraestruturas e parcerias no Sul Global, apresentando-se como defensora da soberania e da não intervenção. Percebem que o poder no século XXI não é apenas força ou dinheiro, mas também prestígio, narrativa e capacidade de inspirar.

c Sem esses instrumentos, a linguagem dos valores é uma retórica vazia, reduzida a comunicados de condenação e apelos à calma perante decisões tomadas por outros.

Trump percebe o valor da força. A Europa compreende o valor da palavra. A sabedoria política do século XXI estará em combinar ambos. A operação na Venezuela lembra que, se a União Europeia não aprender a agir como potência – com voz própria, capacidades e limites claros às aventuras militares dos aliados –, continuará a ser tratada apenas como um mercado. Será chamada a pagar parte da conta, mas raramente decidirá o rumo.»


7.1.26

É só para desejar Bom Ano

 


Mas com bolos inspirados em Arte Nova!

Daqui.

Gronelândia na fila de espera

 


«“Se os Estados Unidos optarem por atacar militarmente outro país da NATO, será o fim de tudo, incluindo da nossa NATO e, por conseguinte, da segurança estabelecida desde o final da Segunda Guerra Mundial”, disse Mette Frederiksen à estação televisiva TV2, classificando a situação como grave.

A chefe do Governo dinamarquês afirmou estar a fazer “tudo o que for possível” para impedir uma escalada, rejeitando as alegações de Washington sobre falhas de segurança no Ártico e sublinhando que a Dinamarca alocou, até 2025, cerca de 90 mil milhões de coroas (1,2 mil milhões de euros) à segurança na região.»


Trabalho não declarado: o crime compensa numa economia desqualificada

 


«Portugal não tem um problema residual de trabalho não declarado. É muito difícil estimar a verdadeira dimensão do trabalho não declarado, justamente por escapar aos registos, mas a Autoridade Laboral Europeia apontava, num estudo de 2023, para 12%, se medido em percentagem do valor acrescentado bruto, e para 7,5%, se medido em volume de horas e dias trabalhados (21% no caso do trabalho independente). Nalguns setores, a percentagem é muito superior: 48% é a última estimativa para o serviço doméstico, apresentada num livro branco promovido pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género.

Estudos académicos sobre a economia não registada estimam que uma parte muito significativa da atividade económica em Portugal ocorre fora dos circuitos formais. Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, estimou em 34% o seu peso, num estudo de 2023. Não é a mesma coisa que trabalho não declarado, mas ajuda a perceber a dimensão do ecossistema de opacidade. É neste contexto que o Governo alterou o Código Contributivo e o regime do trabalho não declarado, aprofundando um problema para a Segurança Social, o fisco, a economia e, sobretudo, os trabalhadores.

Até agora, quando uma empresa falhava a comunicação da admissão, a lei estabelecia uma presunção de que o vínculo existia há doze meses, salvo prova em contrário. Essa presunção tornava o risco do incumprimento suficientemente elevado para o desencorajar. A partir de agora, essa presunção passa para apenas três meses. Na prática, quando uma entidade empregadora é apanhada, o custo é reduzido para um quarto. E o trabalhador fica com menos dois terços de descontos e de carreira contributiva naquele período.

O Governo justificou a alteração com o argumento de que seria necessário impedir a “construção fictícia de carreiras contributivas” e o acesso fraudulento a prestações sociais. O argumento não resiste a uma análise séria. A lei já previa a possibilidade de prova em contrário.

A isto soma-se a eliminação da obrigação de comunicar a admissão de trabalhadores com antecedência mínima. Até agora, a lei exigia que a comunicação à Segurança Social fosse feita nos 15 dias anteriores ao início da atividade. Esse prazo funcionava como um travão à informalidade, forçando a formalização antes de o trabalho começar. Com as novas regras, a comunicação pode ser feita até ao próprio dia do início da prestação laboral. Isto permite que a formalização administrativa seja feita em cima da hora, eliminando o custo da antecipação.

O efeito combinado destas duas alterações é claro. Ao reduzir a retroatividade contributiva e ao permitir a comunicação no próprio dia do início do trabalho, o sistema passa a admitir, na prática, que muitas relações laborais só sejam formalizadas quando e se a fiscalização aparece, com um impacto contributivo limitado para quem incumpriu desde o início. O sinal enviado ao mercado é o de que não declarar trabalhadores tornou-se menos arriscado.

Isto fica ainda mais claro quando enquadrado na reforma laboral que o Governo prepara e que inclui a descriminalização da omissão de comunicação de trabalhadores à Segurança Social. A criminalização, introduzida em 2023, teve um enorme impacto no trabalho doméstico, com um considerável aumento de declarações à Segurança Social, num setor marcado pela informalidade.

Com estas três decisões, a Segurança Social perde contribuições cobradas retroativamente, as carreiras contributivas reconhecidas serão mais curtas, e enfraquece-se um sistema que depende da solidariedade intergeracional. Para o fisco, significa menos IRS e menos IVA, mais concorrência desleal e mais economia paralela. Para a economia, um modelo de competitividade assente na redução de custos através da ilegalidade. Para os trabalhadores, menos proteção em caso de doença, desemprego ou parentalidade, carreiras contributivas truncadas e maior dependência face a empregadores que operam na margem da lei.

O trabalho não declarado concentra-se em setores como a agricultura, a construção, a restauração, o turismo, os serviços pessoais, a subcontratação em cadeia. Setores de baixos salários, elevada rotatividade, fiscalização difícil e forte dependência de mão-de-obra vulnerável. Nos últimos anos, essa vulnerabilidade tem o rosto dos trabalhadores imigrantes, muitas vezes recém-chegados, dependentes do empregador para rendimento, habitação ou regularização administrativa, com menor capacidade de denúncia e maior exposição ao abuso. Ao reduzir o custo do incumprimento, o Governo reforça, deliberadamente, o poder assimétrico nestes setores, e consolida um modelo económico assente na informalidade tolerada.

Ao mesmo tempo que o primeiro-ministro fala em "melhores empregos e melhores salários" como resultados milagrosos de uma contrarreforma laboral que desprotege a parte mais fraca, reduz o custo do incumprimento, facilitando a regularização tardia e enfraquecendo os mecanismos de dissuasão. Não se melhora o trabalho desqualificando-o. Não se aumentam salários protegendo modelos económicos baseados na informalidade. Estas medidas não combatem o trabalho não declarado. Normalizam-no. E revelam com clareza a natureza da economia que este Governo escolheu representar.»

Daniel Oliveira

6.1.26

Bom Dia de Reis

 


... Republicanos!

Trump é que decide, ele é que conserta…

 


«Na mesma entrevista, o governante republicano afastou a realização de eleições na Venezuela nos próximos 30 dias, até que o país "recupere a sua saúde".

"Primeiro, temos de consertar o país. Não é possível haver eleições. Não há forma de as pessoas votarem", frisou Trump. Na mesma entrevista, o governante republicano afastou a realização de eleições na Venezuela nos próximos 30 dias, até que o país "recupere a sua saúde".

O republicano garantiu ainda que os EUA não estão em guerra com o país sul-americano: "Estamos em guerra com quem vende droga. Estamos em guerra com quem esvazia as suas prisões no nosso país, envia os seus toxicodependentes e os seus hospitais psiquiátricos para o nosso país", destacou.»


E o homem diz agora que é de esquerda...

 


Pactuar com as coboiadas de Trump não é solução

 


«Como ponto de partida para afastar a idiotice — que se apressa a ver o mundo a preto e branco, que pretende dividi-lo entre bons (eles) e maus (os outros), que se apressa igualmente a olhar para quem condena a flagrante violação do direito internacional como pretendendo defender Nicolás Maduro — fica já dito que a queda do ditador é uma boa notícia. Ponto final. Parágrafo.

Feito o aviso, importa dizer que não há nada de democrático nas intenções de Donald Trump. Citando o exemplar mais parecido com o autocrata americano que temos por cá, deixemos de lado a “conversa de chacha”. Trump foi longo na intervenção que fez a partir da sua estância balnear e quase não falou de democracia. Foi, aliás, com o desplante de sempre que falou em “ganhar muito dinheiro com o petróleo que eles roubaram aos Estados Unidos”. O mais benevolente que podemos ser com o senhor Trump é dizer que ele é louco, mas isso quer dizer que é preciso assumir que o mundo livre, a começar no que ainda resta de liberdade nos próprios Estados Unidos da América, tem um problema grave para resolver.

A loucura de Trump é o combustível certo para fazer andar as autocracias mundo fora. Como podemos ficar satisfeitos se a América, no seu quintal, invade um país e rapta o seu ditador, quando isso significa que a Rússia e a China vão poder assumir que também não têm de dar cavaco a ninguém nas suas zonas de influência? Trump acaba de ajudar Putin a justificar a invasão da Ucrânia e de fornecer a Xi Jinping argumentos para finalmente juntar Taiwan à grande China.

Faz espécie ver os líderes europeus reagirem com excessivas cautelas às coboiadas do xerife de Washington, tanto mais que pesa sobre eles a ameaça trumpista de os deixar sozinhos na frente leste e, bem pior, de anexar a Gronelândia ignorando a lei internacional, a vontade dos nativos da ilha e a democracia dinamarquesa. Neste cantinho à beira-mar plantado, lendo Montenegro e Marcelo, concluímos que podemos ser pequeninos como país, mas somos grandes na fé de que Trump há-de levar a Venezuela por bom caminho.

Quando tudo se desmorona à nossa frente e teimamos em fazer de conta que não vemos, há sempre Martin Niemöller* para recordar onde tudo acaba quando julgamos que nunca chegará a nossa vez. Adaptando o que ele disse, depois de libertado, ao que Trump está a fazer com o mundo: primeiro bombardeou o Irão, achámos muito bem, porque podiam ter um projeto nuclear. Depois, bombardeou a Nigéria para proteger os cristãos, não protestámos, porque somos cristãos. Quando invadiu a Venezuela, reagimos com cautelas, porque o regime era uma ditadura. E depois, quando se voltar de novo para a Gronelândia, vamos entregar a ilha, porque não podemos ficar sem aliado. E, se ele um dia quiser os Açores, podemos protestar à vontade, porque já não haverá ninguém para nos ouvir.

* Martin Niemöller (1892–1984)
https://www.britannica.com/biography/Martin-Niemoller

Pastor luterano na Alemanha, após Hitler chegar ao poder em 1933, Niemöller tornou-se um crítico ferrenho da interferência de Hitler nas igrejas protestantes. Passou os últimos oito anos do governo nazi, de 1937 a 1945, em prisões e campos de concentração. Niemöller ficou conhecido pela sua declaração efetuada no período do pós-guerra:

“Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista. Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista. Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu. Foi então que eles vieram buscar-me, e já não havia mais ninguém para me defender.”»

 

 

5.1.26

Malangatana

 


Morreu num 5 de Janeiro, deixou de estar por aí há quinze anos.

Foi o grande pintor que Moçambique não esquecerá, para mim também o amigo com quem vivi momentos inesquecíveis, nuns tempos que passou em Lisboa já lá vão mais de 50 anos. Pintou e ofereceu-me este auto-retrato que tenho aqui à minha frente – uma relíquia.

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Catarina em campanha

 



Luiz Pacheco

 


Chegaria hoje aos 101 anos, mas morreu em 5 de Janeiro de 2008. Se ainda por cá andasse, Luiz Pacheco seria certamente tão irreverente como sempre foi. 

Para compreender melhor a sua pessoa e a sua obra, a leitura de «Puta que os pariu! – A biografia de Luiz Pacheco», de João Pedro George, é absolutamente obrigatória.


Quando Trump conquistar a Gronelândia, a UE faz a mesma figura ridícula

 


«A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, com o sequestro do Presidente – que estava ilegitimamente no poder, como se sabe – marca um ponto de não retorno nas relações internacionais. Putin tem agora a estrada aberta para chegar a Kiev com a bênção dos Estados Unidos e Xi para avançar sobre Taiwan. Se o direito internacional é letra morta, então é letra morta para todos. Já o era para Israel.

Há aqui mais de regresso ao faroeste e à dilapidação das riquezas dos índios ou dos outros colonos do que de doutrina Monroe, que foi muitas vezes posta em prática, nomeadamente com o apoio dos Estados Unidos às ditaduras sanguinárias da América Latina levada a cabo com empenho no século XX.

Depois de capturado o petróleo da Venezuela, segue-se a invasão da Gronelândia e a conquista do Canadá, dois territórios sob ameaça de Trump. Eventualmente os Açores, porque de resto Portugal não tem interesse nenhum.

Quando Trump anexar a Gronelândia, certamente a União Europeia irá fazer a mesma figura triste que fez agora com a invasão da Venezuela. A Gronelândia é parte da União Europeia, mas o medo dos dirigentes europeus e a sua submissão repugnante a Donald Trump levará a que quando isso acontecer falem tão baixinho como o fizeram agora.

A França foi particularmente ridícula e até um caso de estudo: enquanto Emmanuel Macron rejubilava com a “conquista” de Trump, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, falava também em nome da França para dizer que “nenhuma solução política duradoura pode ser imposta de fora e que os povos soberanos decidem sozinhos o seu futuro”. Um país em surto grave de bipolaridade.

Outra reacção patética foi a do chanceler alemão, Friedrich Merz, para quem a “análise jurídica” da invasão de Trump “é complexa” e “levará tempo”. Merz e a dupla Macron-Barrot simbolizam bem os Chamberlains dos tempos modernos.

Toda a União Europeia é, no momento presente, um gigantesco Chamberlain. O desgraçado primeiro-ministro britânico não era, em si, um monstro. A proposta de apaziguamento era, na época, dominante no governo do Reino Unido e até na sua população que era bastante antissemita. A única coisa que a União Europeia quer é apaziguar Trump e vai aguentar o que for preciso. Houve uma excepção: o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, mas uma andorinha não faz nenhuma primavera.

No entanto, a prova máxima da total fraqueza europeia veio da reacção ao post no X da mulher do chefe de gabinete da Casa Branca. Katie Miller, logo após a invasão da Venezuela, reproduziu o mapa da Gronelândia com a legenda “Soon”, que quer dizer “em breve”. Mesmo considerando que o palavreado diplomático é uma excepção no conjunto das linguagens possíveis, o embaixador da Dinamarca em Washington respondeu assim: “Apenas um lembrete amigável sobre os Estados Unidos e o Reino da Dinamarca: somos aliados próximos e devemos continuar a trabalhar juntos como tal. A segurança dos Estados Unidos também é a segurança da Gronelândia e da Dinamarca”. O embaixador “espera” – coitado – “total respeito pela integridade territorial do Reino da Dinamarca”.

Mesmo que o embaixador lembre que a Gronelândia faz parte da NATO, sabemos que nenhuma das organizações internacionais, com as suas virtudes e defeitos, tem real existência neste momento. Se Trump invadir a Gronelândia, a Dinamarca pede auxílio à NATO? A morte das instituições internacionais e do direito internacional é também a morte da Aliança Atlântica e da União Europeia.

Provavelmente, é também a morte da democracia liberal, uma coisa a que andamos a assistir aos poucos e a virar a cara para o lado.

Entre os mortos do colapso do direito internacional, também há portugueses. Paulo Rangel, o ministro dos Negócios Estrangeiros, apoiou Trump porque os Estados Unidos, na invasão da Venezuela, tiveram “intenções benignas” e manifestou a sua crendice no “papel dos Estados Unidos na promoção de uma transição estável, pacífica, democrática, inclusiva” na Venezuela. Parece que já está a correr bem, com Trump a ameaçar a nova Presidente, de vir a ter um destino ainda pior do que o que teve Nicolás Maduro.

Quando Trump vier para a Europa, como está escrito na estratégia de segurança nacional publicada recentemente, “combater a decadência civilizacional” – isto é, a democracia liberal – defendendo o crescimento dos partidos da extrema-direita europeia, o que vão fazer os europeus? Talvez o mesmo que fizeram os noruegueses quando Hitler lá chegou: dizer bem-vindo e colocar-se à disponibilidade do novo poder.»


4.1.26

“O Governo ainda não caiu, o que caiu foi Maduro”

 


«“Vamos governar o país de forma justa, vamos fazer muito dinheiro, vamos cuidar das pessoas, vamos reembolsá-las”, afirmou Trump, acrescentando: “Estamos a encontrar pessoas para gerir o país e em breve diremos quem são”. Trump disse que o seu secretário de Estado, Marco Rubio, conversou hoje com a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, que concordou em trabalhar com os EUA: “Teve uma longa conversa com Marco e disse que faremos o que for necessário. Ela não teve escolha”, admitiu.

Donald Trump diz querer “paz, liberdade e justiça para o povo da Venezuela”, mas não revela como o fará. Marcelo Moriconi, investigador do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa (Iscte), especializado em América Latina, diz que “nem sequer Trump sabe como gerir a Venezuela”. “É impensável achar que um país pode controlar outro a este nível. Não é praticável os Estados Unidos assumirem o controlo da Venezuela. Trump não tem noção prática, parece um menino chateado com poder”, responde Moriconi, em entrevista ao Expresso.»



Indignos ou indignados

 


O nosso PM e os acontecimentos na Venezuela

 


«Acabei de reunir com o Senhor Presidente da República, acompanhado pelo Ministro @paulocastrorangel . Estamos a acompanhar em permanência e desde o primeiro momento a situação na Venezuela, com atenção particular à segurança e ao bem-estar da nossa comunidade. A Embaixada de Portugal em Caracas e a rede consular no país estão plenamente mobilizadas para acompanhar os nossos concidadãos.

Estamos focados no futuro e no restabelecimento de uma democracia plena onde os venezuelanos escolham livremente o seu futuro.

Não tendo reconhecido os resultados das eleições de 2024, tomamos nota das declarações e garantias do Presidente @realdonaldtrump e constatamos o papel dos EUA na promoção de uma transição estável, pacífica, democrática e inclusiva na Venezuela com a maior brevidade possível.»

Luís Montenegro nas redes sociais.
(O realce do último parágrafo é meu. Comentários para quê…)


A próxima invasão de Trump será à Groelândia? E a Rússia vai sequestrar Zelensky?

 



«Por mais terrível que fosse o regime do ditador Nicolás Maduro na Venezuela, nada justifica a invasão determinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao país vizinho do Brasil. Além de contrariar todas as regras do direito internacional e de rasgar a carta da Organização das Nações Unidas (ONU), a ação militar norte-americana sanciona, a partir de agora, todos os abusos que venham a ser cometidos mundo afora.

Não cabe ao presidente de nenhum país definir qual será o destino de outra nação soberana, muito menos usar a sua força militar para remover um governante do poder. É ilegal e inaceitável, sobretudo, por abrir precedentes num mundo em que o autoritarismo vem destruindo democracias e reduzindo liberdades. Maduro havia passado de todos os limites, mas caberia, unicamente, aos venezuelanos destitui-lo do poder. Não ao presidente dos Estados Unidos, que está obcecado pelo petróleo da Venezuela.

Trump não economiza no seu delírio de se tornar o ditador do mundo. Diante do que se está vendo na Venezuela, qual a garantia de que o presidente norte-americano não levará adiante o desejo de invadir a Groelândia, território no Ártico que pertence à Dinamarca.

O presidente dos EUA tem repetido, sistematicamente, que a Groelândia é fundamental para a "segurança nacional" de seu país. A Groelândia fica na rota mais curta da Europa para a América do Norte, fundamental para o sistema de alerta de mísseis balísticos dos Estados Unidos, que também cobiçam as riquezas naturais da ilha.

Não há também como descartar, depois da invasão dos EUA à Venezuela, que Trump decida por atacar a Colômbia, governada por Gustavo Petro, que é malvisto pelo norte-americano. O presidente da maior economia do planeta, inclusive, já tem o discurso pronto, o mesmo que utilizou contra Maduro, acusado de chefiar um cartel do narcotráfico. A Colômbia é um dos maiores produtores de cocaína do mundo.

Trump, inclusive, deu a senha para que o ditador russo, Vladimir Putin, aja para sequestrar o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, e retirá-lo do poder. Não seria nada diferente do que fizeram os Estados Unidos neste sábado, 3 de janeiro, ao sequestrar Nicolás Maduro e a mulher dele, Cilia Flores, e levá-los a julgamento em Nova York, outra ilegalidade, pois ali não é o tribunal adequado para decidir sobre os crimes cometidos pelo venezuelano.

Não só: Trump também abriu o caminho para que a China derrube o governo de Taiwan ou outro país mais forte ocupe regiões cobiçadas sem prestar contas a ninguém. Não há nenhum exagero nisso, uma vez que o presidente norte-americano indicou que, quando se tem um objetivo e poder, não há nada que impeça as invasões. Trump, convenhamos, nunca foi afeito à democracia. Tudo para ele é business. Ou seja, dinheiro.

É importante ressaltar ainda que todas as invasões cometidas pelos Estados Unidos foram desastrosas. Vamos ficar nas mais recentes, como as do Iraque, do Afeganistão e da Líbia. Tudo piorou naqueles países. Foram fracassos retumbantes. Nem de longe a democracia chegou naquelas nações.

Trump acredita que pode definir os rumos na Venezuela ao assumir o controle do país. Será? Enquanto a megalomania do norte-americano destrói as regras estabelecidas em 1947, após o fim da Segunda Guerra Mundial, os líderes mundiais se mostram atónitos e incapazes de reação. As portas aos abusos se escancararam de vez.»