5.1.26

Quando Trump conquistar a Gronelândia, a UE faz a mesma figura ridícula

 


«A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, com o sequestro do Presidente – que estava ilegitimamente no poder, como se sabe – marca um ponto de não retorno nas relações internacionais. Putin tem agora a estrada aberta para chegar a Kiev com a bênção dos Estados Unidos e Xi para avançar sobre Taiwan. Se o direito internacional é letra morta, então é letra morta para todos. Já o era para Israel.

Há aqui mais de regresso ao faroeste e à dilapidação das riquezas dos índios ou dos outros colonos do que de doutrina Monroe, que foi muitas vezes posta em prática, nomeadamente com o apoio dos Estados Unidos às ditaduras sanguinárias da América Latina levada a cabo com empenho no século XX.

Depois de capturado o petróleo da Venezuela, segue-se a invasão da Gronelândia e a conquista do Canadá, dois territórios sob ameaça de Trump. Eventualmente os Açores, porque de resto Portugal não tem interesse nenhum.

Quando Trump anexar a Gronelândia, certamente a União Europeia irá fazer a mesma figura triste que fez agora com a invasão da Venezuela. A Gronelândia é parte da União Europeia, mas o medo dos dirigentes europeus e a sua submissão repugnante a Donald Trump levará a que quando isso acontecer falem tão baixinho como o fizeram agora.

A França foi particularmente ridícula e até um caso de estudo: enquanto Emmanuel Macron rejubilava com a “conquista” de Trump, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, falava também em nome da França para dizer que “nenhuma solução política duradoura pode ser imposta de fora e que os povos soberanos decidem sozinhos o seu futuro”. Um país em surto grave de bipolaridade.

Outra reacção patética foi a do chanceler alemão, Friedrich Merz, para quem a “análise jurídica” da invasão de Trump “é complexa” e “levará tempo”. Merz e a dupla Macron-Barrot simbolizam bem os Chamberlains dos tempos modernos.

Toda a União Europeia é, no momento presente, um gigantesco Chamberlain. O desgraçado primeiro-ministro britânico não era, em si, um monstro. A proposta de apaziguamento era, na época, dominante no governo do Reino Unido e até na sua população que era bastante antissemita. A única coisa que a União Europeia quer é apaziguar Trump e vai aguentar o que for preciso. Houve uma excepção: o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, mas uma andorinha não faz nenhuma primavera.

No entanto, a prova máxima da total fraqueza europeia veio da reacção ao post no X da mulher do chefe de gabinete da Casa Branca. Katie Miller, logo após a invasão da Venezuela, reproduziu o mapa da Gronelândia com a legenda “Soon”, que quer dizer “em breve”. Mesmo considerando que o palavreado diplomático é uma excepção no conjunto das linguagens possíveis, o embaixador da Dinamarca em Washington respondeu assim: “Apenas um lembrete amigável sobre os Estados Unidos e o Reino da Dinamarca: somos aliados próximos e devemos continuar a trabalhar juntos como tal. A segurança dos Estados Unidos também é a segurança da Gronelândia e da Dinamarca”. O embaixador “espera” – coitado – “total respeito pela integridade territorial do Reino da Dinamarca”.

Mesmo que o embaixador lembre que a Gronelândia faz parte da NATO, sabemos que nenhuma das organizações internacionais, com as suas virtudes e defeitos, tem real existência neste momento. Se Trump invadir a Gronelândia, a Dinamarca pede auxílio à NATO? A morte das instituições internacionais e do direito internacional é também a morte da Aliança Atlântica e da União Europeia.

Provavelmente, é também a morte da democracia liberal, uma coisa a que andamos a assistir aos poucos e a virar a cara para o lado.

Entre os mortos do colapso do direito internacional, também há portugueses. Paulo Rangel, o ministro dos Negócios Estrangeiros, apoiou Trump porque os Estados Unidos, na invasão da Venezuela, tiveram “intenções benignas” e manifestou a sua crendice no “papel dos Estados Unidos na promoção de uma transição estável, pacífica, democrática, inclusiva” na Venezuela. Parece que já está a correr bem, com Trump a ameaçar a nova Presidente, de vir a ter um destino ainda pior do que o que teve Nicolás Maduro.

Quando Trump vier para a Europa, como está escrito na estratégia de segurança nacional publicada recentemente, “combater a decadência civilizacional” – isto é, a democracia liberal – defendendo o crescimento dos partidos da extrema-direita europeia, o que vão fazer os europeus? Talvez o mesmo que fizeram os noruegueses quando Hitler lá chegou: dizer bem-vindo e colocar-se à disponibilidade do novo poder.»


4.1.26

“O Governo ainda não caiu, o que caiu foi Maduro”

 


«“Vamos governar o país de forma justa, vamos fazer muito dinheiro, vamos cuidar das pessoas, vamos reembolsá-las”, afirmou Trump, acrescentando: “Estamos a encontrar pessoas para gerir o país e em breve diremos quem são”. Trump disse que o seu secretário de Estado, Marco Rubio, conversou hoje com a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, que concordou em trabalhar com os EUA: “Teve uma longa conversa com Marco e disse que faremos o que for necessário. Ela não teve escolha”, admitiu.

Donald Trump diz querer “paz, liberdade e justiça para o povo da Venezuela”, mas não revela como o fará. Marcelo Moriconi, investigador do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa (Iscte), especializado em América Latina, diz que “nem sequer Trump sabe como gerir a Venezuela”. “É impensável achar que um país pode controlar outro a este nível. Não é praticável os Estados Unidos assumirem o controlo da Venezuela. Trump não tem noção prática, parece um menino chateado com poder”, responde Moriconi, em entrevista ao Expresso.»



Indignos ou indignados

 


O nosso PM e os acontecimentos na Venezuela

 


«Acabei de reunir com o Senhor Presidente da República, acompanhado pelo Ministro @paulocastrorangel . Estamos a acompanhar em permanência e desde o primeiro momento a situação na Venezuela, com atenção particular à segurança e ao bem-estar da nossa comunidade. A Embaixada de Portugal em Caracas e a rede consular no país estão plenamente mobilizadas para acompanhar os nossos concidadãos.

Estamos focados no futuro e no restabelecimento de uma democracia plena onde os venezuelanos escolham livremente o seu futuro.

Não tendo reconhecido os resultados das eleições de 2024, tomamos nota das declarações e garantias do Presidente @realdonaldtrump e constatamos o papel dos EUA na promoção de uma transição estável, pacífica, democrática e inclusiva na Venezuela com a maior brevidade possível.»

Luís Montenegro nas redes sociais.
(O realce do último parágrafo é meu. Comentários para quê…)


A próxima invasão de Trump será à Groelândia? E a Rússia vai sequestrar Zelensky?

 



«Por mais terrível que fosse o regime do ditador Nicolás Maduro na Venezuela, nada justifica a invasão determinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao país vizinho do Brasil. Além de contrariar todas as regras do direito internacional e de rasgar a carta da Organização das Nações Unidas (ONU), a ação militar norte-americana sanciona, a partir de agora, todos os abusos que venham a ser cometidos mundo afora.

Não cabe ao presidente de nenhum país definir qual será o destino de outra nação soberana, muito menos usar a sua força militar para remover um governante do poder. É ilegal e inaceitável, sobretudo, por abrir precedentes num mundo em que o autoritarismo vem destruindo democracias e reduzindo liberdades. Maduro havia passado de todos os limites, mas caberia, unicamente, aos venezuelanos destitui-lo do poder. Não ao presidente dos Estados Unidos, que está obcecado pelo petróleo da Venezuela.

Trump não economiza no seu delírio de se tornar o ditador do mundo. Diante do que se está vendo na Venezuela, qual a garantia de que o presidente norte-americano não levará adiante o desejo de invadir a Groelândia, território no Ártico que pertence à Dinamarca.

O presidente dos EUA tem repetido, sistematicamente, que a Groelândia é fundamental para a "segurança nacional" de seu país. A Groelândia fica na rota mais curta da Europa para a América do Norte, fundamental para o sistema de alerta de mísseis balísticos dos Estados Unidos, que também cobiçam as riquezas naturais da ilha.

Não há também como descartar, depois da invasão dos EUA à Venezuela, que Trump decida por atacar a Colômbia, governada por Gustavo Petro, que é malvisto pelo norte-americano. O presidente da maior economia do planeta, inclusive, já tem o discurso pronto, o mesmo que utilizou contra Maduro, acusado de chefiar um cartel do narcotráfico. A Colômbia é um dos maiores produtores de cocaína do mundo.

Trump, inclusive, deu a senha para que o ditador russo, Vladimir Putin, aja para sequestrar o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, e retirá-lo do poder. Não seria nada diferente do que fizeram os Estados Unidos neste sábado, 3 de janeiro, ao sequestrar Nicolás Maduro e a mulher dele, Cilia Flores, e levá-los a julgamento em Nova York, outra ilegalidade, pois ali não é o tribunal adequado para decidir sobre os crimes cometidos pelo venezuelano.

Não só: Trump também abriu o caminho para que a China derrube o governo de Taiwan ou outro país mais forte ocupe regiões cobiçadas sem prestar contas a ninguém. Não há nenhum exagero nisso, uma vez que o presidente norte-americano indicou que, quando se tem um objetivo e poder, não há nada que impeça as invasões. Trump, convenhamos, nunca foi afeito à democracia. Tudo para ele é business. Ou seja, dinheiro.

É importante ressaltar ainda que todas as invasões cometidas pelos Estados Unidos foram desastrosas. Vamos ficar nas mais recentes, como as do Iraque, do Afeganistão e da Líbia. Tudo piorou naqueles países. Foram fracassos retumbantes. Nem de longe a democracia chegou naquelas nações.

Trump acredita que pode definir os rumos na Venezuela ao assumir o controle do país. Será? Enquanto a megalomania do norte-americano destrói as regras estabelecidas em 1947, após o fim da Segunda Guerra Mundial, os líderes mundiais se mostram atónitos e incapazes de reação. As portas aos abusos se escancararam de vez.»