«Este é um artigo muito desagradável de escrever, mas o mundo e Portugal são o que são e mais vale olhar de frente do que fazer de conta. A Juliana é a célebre personagem de Eça de Queiroz n'O Primo Basílio, a criada que, descobrindo a relação adúltera da patroa, faz chantagem com ela sob a ameaça da denúncia. É uma das personagens mais completas de Eça, que a descreve através de várias personagens do romance com aquilo que hoje podemos considerar rigor, indo mais longe do que a repulsa face à personagem, mas percebendo os mecanismos sociais que moldam o seu carácter e a sua atitude. É um retrato no qual as relações patroa-criada, beleza-fealdade e medo-ambição mostram o enorme poder dos que não têm poder, muito para além da maldade, que por si só tiraria força à personagem, mas a vingança, a denúncia, a alteração de poder que significam a chantagem.
O problema é que em Portugal há muitas “Julianas/os”, por muitas razões, algumas culturais, mas acima de tudo sociais. A vingança pela denúncia, seja pela informação anónima (algumas vezes assinada) à PIDE ou à Legião, ou hoje ao Ministério Público ou aos jornais, ou pela carta anónima, é demasiado comum para não a podermos pôr de parte numa análise ao “carácter” dos portugueses.
Claro que há aqui uma linha difícil de traçar com a denúncia cívica, o whistleblowing, mas quem já leu centenas de denúncias durante os 48 anos da ditadura percebe que nada tem de cívico, sendo pura vingança pessoal. É preciso ter em conta que estas denúncias tinham consequências, levando ao despedimento, à prisão e à tortura, o amigo, o vizinho, o trabalhador, o companheiro de emprego, e a proximidade era a regra. Como a Juliana era a criada de servir da casa, e vivia por baixo do poder da patroa adúltera, mais proximidade do que a que havia era difícil. Foi aliás essa proximidade que a levou a perceber a relação da patroa com o primo, e a roubar as cartas que lhe serviam de prova para a chantagem.
Para quem trabalha sobre a história da ditadura e consulta muitos documentos originais, esta é uma realidade bastante generalizada e penosa para quem a confronta. Nas denúncias políticas, há vários níveis de actuação, e as “informações” recolhidas num taberneiro, que são muito comuns na Legião Portuguesa, vêm claramente “de baixo” e são muitas vezes inventadas ou imaginárias, e aí a ganância também tem um papel. As informações que as câmaras recebiam são muito parecidas com as da Legião, e infelizmente muitas foram apressadamente deitadas ao lixo já em democracia. A que ilustra este artigo provém de um conjunto de dossiers que foi mandado deitar fora a uma funcionária e que foi salvo pelo Arquivo Ephemera. São páginas sobre páginas de denúncias que se percebem virem de gente próxima, familiares desavindos por heranças, agravos pessoais, ajustes de contas no emprego, ou pura e simplesmente vontade de fazer a vida negra a um vizinho. Não há qualquer motivação ideológica ou política, e quando se percebe que há zelo de um qualquer membro da União Nacional, a denúncia tem pouco que ver com o combate ao comunismo, por exemplo, mas sim com a vontade pessoal do “bufo” de obter uma promoção ou apenas uma “simpatia” que acabe por ser rentável.
As denúncias à PIDE, as mais perigosas, têm também este componente “de baixo”, mas muitas vêm “de cima”, de gabinetes de ministros, de donos e patrões das grandes empresas privadas, de zelosos defensores da ditadura na estrutura do Estado, o que significa professores, funcionários públicos, estudantes, nobres e ricos, que nunca admitiriam misturar-se com os pides, a não ser na denúncia. Não estou a referir um outro tabu complicado da nossa história recente, o “falar na cadeia”, mas a produção a que se dedicavam pessoas de fora do aparelho repressivo. Como o estudante liceal que, em vésperas do 25 de Abril, entrou pela PIDE dentro, procurou um inspector com quem negociou um salário e mesmo a gestão desse salário numa conta bancária pelo inspector que o passou a controlar, e se preparou para fazer um relatório para denunciar os seus amigos de política e do liceu quando o 25 de Abril surgiu.
O problema é que não foi meia dúzia de “Julianas/os”, mas muitas centenas de denunciantes, e que hoje também se dedicam à mesma tarefa nas redes sociais e nas cartas anónimas aos jornais. A maioria daquilo que se apresenta com pomposas palavras como “jornalismo de investigação” chegou na caixa de correio ou em mensagens electrónicas para jornalistas escolhidos a dedo.
Na verdade, a cultura tóxica da denúncia continua por aí pujante, sempre com os mesmos motivos, a mesma combinação de vingança e ganância, que nos últimos cem anos é uma marca de identidade do pior dos portugueses. E não vai mudar tão cedo.»

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