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29.4.20

Lisboa ainda



Lisboa não tem beijos nem abraços
Sem risos ou esplanadas
Sem passos
nem meninas e meninos de mãos dadas
tem quadrados cheios de ninguém
Ainda há sol mas não existe nem a gaivota da Amália nem canoa
sem restaurantes, sem bares, sem cinemas
ainda é fado, ainda são poemas
fechado dentro de si mesmo ainda é Lisboa cidade aberta
Lisboa ainda é uma pessoa feliz e triste
e em todas as ruas desertas
ainda resiste.

Manuel Alegre, 20.03.2020
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15.2.20

O sr. Medina e o Pai Natal



«Shirley Temple, que se tornou uma das crianças-prodígio de Hollywood, a terra de todas as fantasias, recordou um dia que a marcou para sempre: “Eu deixei de acreditar no Pai Natal quando tinha seis anos. A minha mãe levou-me a um centro comercial e ele pediu-me um autógrafo”. O sr. Fernando Medina, que não conseguiu seguir carreira em Hollywood, nunca terá tido uma experiência como a menina Shirley. Assim, teve de continuar a acreditar no Pai Natal. Com o tempo evoluiu. Hoje crê que é o Pai Natal. E que está, em Lisboa, a distribuir prendas. Talvez sonhe que, se um dia forem reconhecidos os seus dotes superiores, possa ser Primeiro-Ministro ou mesmo Presidente da República. Será então mais famoso do que o Pai Natal.

Cada um segue a quimera que quiser. Mas, até lá, o sr. Medina aspira terraplanar Lisboa. E torná-la a imagem da sua fantasia. Quer fazer de Lisboa a sua Versailles. Com um outro estilo de Corte. O projecto, cerzido desde há anos, está a chegar ao ponto de rebuçado. Para ele, Lisboa será uma cidade que será uma mistura entre o Dubai arquitectónico e um condomínio turístico. Com o povo fora de portas, vindo apenas para prestar serviços a uma “cidade limpa” e “verde”.

A sua “estratégia para o turismo 2020-2024” certifica esta visão. É por isso que pode dizer: “Não estamos a falar de uma coisa pequena, 15 mil milhões (de euros) é o equivalente a 10 vezes o que gera todo o sector do calçado no país e seis vezes as vendas da Autoeuropa”. De forma modesta o sr. Medina vem dizer aos comuns crédulos que o turismo é tudo e indústrias estruturantes são amendoins. Foi com ideias destas que os ingleses impuseram o Tratado de Methuen e Portugal destruiu o seu têxtil e ficou a ver a Revolução Industrial por um canudo.

Pior, no seu “planinho”, o sr. Medina sonha “potenciar” Marvila e Beato como zonas “trendy” e criar um pólo Reserva Natural do Estuário, com o turismo dedicado à “tradição rural”. Essa ideia de dividir Lisboa em “reservas de estilo” é digna de um Nobel. Sobre a segunda, depois do que projecta para o Estuário do Tejo com o novo aeroporto, pode-se criar um novo tipo de turismo “bird watching”: observar aviões a descolar e a aterrar porque os pássaros não existirão. E sobre a “cidade verde”? Tiram-se os carros da Baixa, mas acena-se os maiores poluntes de todos, os barcos de cruzeiro.

Se juntarmos tuda esta irrealidade à linha circular do Metro (feita para quem vive na zona turística poder andar sem demoras) e aos planos imobiliário para Entre Campos e Praça de Espanha, o Monopoly está embalado. É triste. Não se pense que o sr. Medina inventou alguma coisa.

Basta ler o que escrevia o grande escritor e monárquico convicto Carlos Malheiro Dias, em 1904: “o pobre foi escorraçado de todos os locais saudáveis e arejados, tangido para Xabregas, para Alcântara, para a Mouraria, para Alfama. E a Lisboa dos ricos desenvolve-se, prospera, aformoseia-se”. Agora são as classes médias a serem corridas dos novos centros de cobiça.

Quando José Carlos Ary dos Santos escreveu o poema “Lisboa, Menina e Moça”, falava ainda de uma cidade onde os bairros eram os seus pulmões, cercando um Terreiro do Paço poderoso. Era uma cidade típica, sem ser moderna. Décadas depois, sem conseguir ser moderna, está a deixar de ser típica. Lisboa desinvestiu dos bairros e não investiu numa visão que a tornasse moderna sem desprezar o passado alfacinha e sem ignorar a riqueza cultural que as diferentes emigrações lhe trouxeram.

O problema é que Lisboa continua sem ter direito a uma visão criativa por parte de alguém que a tente transformar naquilo que deve ser: uma cidade cosmopolita mas agradável para viver, trabalhar e passear. Com uma história. Se for só arquitectura pseudo-moderna com bairros “trendy”, não serve para nada. Nem para o futuro turismo, porque este vai mudar muito rapidamente. Lisboa precisa de ser autêntica, na sua diversidade. E não ser uma “pequena Versailles”. Ao remover o antigo, para criar um novo efémero, o sr. Medina não legará uma cidade de futuro. Os seus herdeiros receberão betão sem alma.»

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28.11.19

Lisboa está a ser governada por bimbos!




«Quanto ao Bacalhau Story Centre, o autarca [F. Medina] chamou-lhe Centro da História do Bacalhau. “Temos de ver se o nome fica em inglês ou português”, desabafou.»
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29.6.18

Salvar a Pastelaria Suíça? Mas está tudo doido?




A Suíça concorreu para ser loja histórica e desistiu. Ouvi ontem o dono dizer que o negócio não ia bem, que está cansado e que não quer continuar. Não vou lá há alguns anos, mas tenho lido por aí que a qualidade daquilo que serve deixa muito a desejar e já há bastante tempo.

Mas sobretudo: por que motivo se devia preservar a memória histórica da dita pastelaria? Só porque tem quase 100 anos? Está ligada a algum acontecimento relevante, tem algumas características arquitectónicos ou de «design» de interiores, que a isso obrigue? Tem algo que permita compará-la com o Martinho da Arcada, a Brasileira ou o velho Chave d’Ouro? Ou está apenas ligada a saudades de torradas, bolos e meias de leite? Sinceramente: se há pessoas com a mania de memórias históricas, eu sou certamente uma delas. Mas salvar a Suíça?

No dia em que o Califa fechar, aqui em S. Domingos de Benfica, várias gerações sentir-se-ão órfãs. Mas espero que não peçam que ninguém, muito menos qualquer governo, pague para lhes preservar as memórias! Há várias gerações que Lisboa deixou de ser «a Baixa». Por favor…
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7.4.18

O destino de Lisboa



«Pode parecer um exercício de saudade, mas é mais de realismo. Lisboa era uma cidade típica, sem ser moderna. Décadas depois, ainda não conseguiu ser moderna, e arrisca-se a deixar de ser típica. Lisboa desinvestiu dos bairros e não investiu numa estratégia visionária que a fizesse moderna sem achincalhar o passado alfacinha e sem ignorar a riqueza cultural que a emigração lhe trouxe. A questão é que Lisboa continua sem ter direito a uma visão criativa por parte de alguém que a tente transformar naquilo que deve ser: uma cidade cosmopolita, mas agradável para viver, trabalhar e passear. Duas décadas depois da Expo'98 Lisboa definha, porque está a perder a sua alma, que o número de turistas não substitui.

A pressão imobiliária está a transformar Lisboa numa cidade sem habitantes que lhe dêem espírito. Todos os dias agentes de fundos imobiliários e de agências tocam às campainhas de casas e fotografam prédios, causando uma pressão inimaginável sobre os que resistem e ainda tentam habitar na zona mais central da capital. Face a isto, que faz a CML? Olha, impávida e serena, porque no fundo foi essa a estratégia de Manuel Salgado desde que chegou à CML. Há hoje uma Lisboa desertificada no seu centro, onde as pessoas deixaram de viver. Os serviços públicos foram saindo do centro para edifícios gigantescos e, com isso, enterrou-se todo o pequeno comércio que dele dependia e a vida própria que eles garantiam. Foram as decisões políticas que arruinaram de vez a Baixa. Sem a vida de pessoas novas, com empregos criativos, será difícil que o centro de Lisboa atraia mais turistas e gere riqueza. Riqueza intelectual, cultural e económica. Só isso permitirá uma Lisboa diferenciada e não falsa, pejada apenas de cadeias internacionais semelhantes a todas as cidades. Elas são desejáveis, mas deve haver um equilíbrio.

Lisboa precisa de ser autêntica, na sua fascinante diversidade. Não pode fingir que é cosmopolita, correndo com os sem-abrigo da Baixa, para que os turistas os não vejam. E isso tem sido feito, de forma silenciosa, fazendo com que eles vão "subindo" para outras áreas de Lisboa. Não se resolve o problema: esconde-se, tal como se faz quanto ao imobiliário, às "lojas históricas" e aos idosos corridos a pontapé das suas casas por gente sem escrúpulos. Sobre isto, a CML diz nada.

Há muito para discutir sobre Lisboa. Mas, sobretudo, a discussão deveria deixar de se centrar na Lisboa menina e moça e passar a fazer-se sobre a Lisboa adulta, culturalmente diversificada, e que é fruto de um país de serviços e não de criação de riqueza como é Portugal. Lisboa tem de ser criativa e não apenas ficar hipnotizada pela riqueza rápida que o turismo trouxe. Lisboa é o maior postal ilustrado de Portugal, basta aterrar de avião aqui, olhando a cidade banhada pelo sol, para perceber isso. Deveria ser magnífica.» 

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6.4.18

E Lisboa a parecer-se com Pequim – essa é que é essa!



Por cá, ainda dá para refilar. Mas no fim do dia...
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«"Tenho 79 anos. Nasci na casa onde sempre vivi, em Alfama. Foi preciso vir uma miúda com vinte e tal anos para me expulsar. Pois eu dali só saio morta!" Chama-se Felicidade Silva mas o seu rosto idoso e cansado não mostra o estado de alma do nome.»

2.3.18

Rock in Riot - Ocupar as Ruas, Reclamar a Cidade



24.03.2018 – 16:00-23:59
Alameda D. Afonso Henriques, Lisboa

A modernização de Lisboa nas últimas décadas tem vindo a redesenhar o território metropolitano enquanto um gigantesco negócio. Os espaços que outrora eram vividos colectivamente estão agora reconfigurados enquanto mero meio de criar dinheiro e as infraestruturas que visavam organizar a vida colectiva parecem agora apenas organizar a velocidade das interacções económicas.

O preço da habitação disparou, assim como dispararam os despejos. Encontrar casa para viver é difícil e nenhum inquilino se sente seguro. A habitação deixou de ser o local onde vivemos para se tornar num investimento. Por isso há cada vez mais casas não habitadas, casas com janelas emparedadas e cada vez menos sítios para viver.

A cidade é um bem comum, colectivamente produzido por todos os que nela habitam. Um pouco por todo o lado surgem processos de resistência que procuram salvaguardar e organizar os restos de comunidade que sobrevivem por entre a especulação e a comercialização de todos os aspectos da vida. Contra eles, o poder encontra sempre novas formas de sistematizar, separar, atomizar e dividir as populações.

Uma perspectiva alargada da cidade torna claro que o aumento dos preços da habitação é fruto dos negócios partilhados entre banca, fundos imobiliários e o poder autárquico; a expulsão das populações mais pobres do centro; a gestão policial dos bairros das periferias; ou a privatização de ruas, praças, jardins e teatros municipais não são fenómenos separados, mas constituem expressão da forma como o espaço urbano se tornou numa máquina produtora de capital.

Contra esta lógica, vamos estar em festa na rua no dia 24 de março, entre a Alameda e o Intendente. Para mostrar que não concordamos com as políticas e a gestão que os poderes públicos têm feito da cidade e metrópole de Lisboa, nem com o papel que essas políticas nos atribuem. Fazendo uso da rua, afirmamos uma reapropriação da cidade.

Apelamos à participação de todos e todas. Tragam bicicletas, skates, patins. Se queres participar com um sistema de som, com uma carrinha alegórica ou outro tipo de veículo motorizado contacta com a organização: rockinriot2018@gmail.com
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1.6.17

A cidade inclusiva



«Clement Atlee, que foi primeiro-ministro britânico do pós-guerra, foi um dia interrogado por um repórter da BBC, dentro da maneira reverencial que era típica na época: "Primeiro-ministro, tem algo a dizer à nação?" Atlee virou-se para ele e respondeu: "Não." E continuou a andar. Há dias o país viu Fernando Medina ignorar as questões sobre se era candidato a presidente da Câmara de Lisboa. Criou um tabu tão opaco como a água de uma piscina: todos sabem que será. Medina fez uma carreira política em Lisboa como sombra: de António Costa primeiro, da estratégia urbana de Manuel Salgado, depois. Herdou o cargo de presidente como se fosse um dote. Nada contra. Medina é o Mr. Chance da capital do império: aplica aos grandes problemas as receitas que este usava para cuidar das suas plantas. E é esse o problema de Lisboa: não é um jardim, é uma cidade com muito míldio. No meio do seu discurso destes anos à frente do município, Medina colocou-se debaixo dos holofotes e entre foguetes disse: "Lisboa está melhor, está mais inclusiva." É possível discordar.

Uma cidade não é um postal ilustrado ou um parque de diversões. É um local onde os cidadãos têm de viver e de trabalhar. Para isso precisam de condições materiais e de qualidade de vida. Coisa que dificilmente se encontra na capital. Enquanto a classe política discute se o metro deve ter uma linha circular ou mais 20 estações, o comum cidadão amontoa-se como sardinha em lata numa linha verde a rebentar com apenas três carruagens e defronta-se com "problemas técnicos" a paralisar a circulação todos os dias. Sobre mobilidade urbana estamos conversados. As ciclovias são muito engraçadas, mas quando irrompem por cima de locais de atravessamento de peões (sem sinalização) ou paragens de autocarros são um atentado à segurança. E depois há o turismo: é excelente. Mas isso não deve implicar, como está a acontecer, que se esteja a atirar com os lisboetas para fora da sua cidade. Isto é: Lisboa nem está mais moderna nem mais inclusiva. Está o caos.»

3.11.16

Lisboa, menina e moça?



«Há muitos anos, quando escreveu "Lisboa, menina e moça", José Carlos Ary dos Santos falava ainda de uma cidade onde os bairros eram corações fortes, cercando um Terreiro do Paço poderoso.

Era uma cidade típica, sem ser moderna. Décadas depois, sem conseguir ser moderna, arrisca-se a deixar de ser típica. Lisboa desinvestiu dos bairros e não investiu numa visão que a tornasse moderna sem desprezar o passado alfacinha e sem ignorar a riqueza cultural que a emigração lhe trouxe. Lisboa continua sem ter direito a uma visão criativa para a transformar naquilo que deve ser: uma cidade cosmopolita, mas agradável para viver, trabalhar e passear. Agora é uma cidade agressiva, sem uma estratégia definida, sem saber tornar-se um rentável destino turístico, sem aproveitar o caldo cultural que a tornaram tão excitante.

Há hoje uma Lisboa desertificada no seu centro, onde as pessoas deixaram de poder viver. Empurradas para fora pelo valor exorbitante das rendas. Os serviços públicos foram saindo do centro para edifícios gigantescos e, com isso, enterrou-se todo o pequeno comércio que dele dependia e a vida própria que eles garantiam. Foram as decisões políticas que arruinaram de vez a Baixa. Sem a vida de pessoas novas será difícil que o centro de Lisboa atraia mais turistas com poder de compra e gere riqueza. Riqueza intelectual, cultural e económica. Só isso permitirá uma Lisboa diferenciada e não falsa, pejada apenas de cadeias internacionais semelhantes a todas as cidades. Elas são desejáveis mas deve haver um equilíbrio. As obras que estão a tornar irrespirável a capital, todas feitas na mesma altura, são a última pedra no sapato dos que querem viver e trabalhar em Lisboa. Basta passar pela zona entre Entrecampos e Saldanha: peões que têm de vir para a estrada porque não há passeios nem semáforos, retroescavadoras a trabalhar ao lado de quem passa, carros afunilados. O caos perigoso. Resta saber o que vai sair deste sonho de Fernando Medina que se tornou um pesadelo diário.»

Fernando Sobral

1.11.14

«Pão, por Deus»



Em 1 de Novembro de 1756, exactamente um ano depois do terramoto que destruiu grande parte de Lisboa, a população, paupérrima, aproveitou a data para lançar, por toda a cidade, um grande peditório. Batia-se às portas e pedia-se: «Pão, por Deus».

A tradição espalhou-se depois por todo o país e foi mesmo exportada para o Brasil. 
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28.12.13

Quando Lisboa parece Nápoles



Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por Suíços habitada,
onde a tristeza vil, e apagada,
se disfarça de gente mais activa;

Daqui, deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;

Daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira da vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristôlho que se apaga;

Daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus...

Alexandre O'Neill

 
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24.10.13

Deve ser por isso que há tantos turistas brasileiros



Texto que terá sido publicado na revista brasileira «Turismo & Negócios de Maceió» e divulgado por «Mulher Moderna», em Portugal. 
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