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20.6.22

O silêncio dos culpados

 

«A viragem do milénio deixou o mundo extasiado perante os efeitos da globalização económica, nos estilos e bem-estar da idade moderna. Escancararam-se as fronteiras para dar vida ao “laissez faire, laissez passer”, somaram-se as trocas e as missões empresariais aos mercados ditos emergentes. As empresas multinacionais, em asfixia concorrencial, corriam para os novos paraísos laborais cheios de gente desnutrida de condições sociais. As terras que ficavam para além da Taprobana tornaram-se o centro da produção industrial e do crescimento económico mundial. (…)

Mas estavam todos enganados. Por detrás do fervor mercantil e dos silêncios interesseiros, renasciam novos despotismos. Entre muitos outros exemplos, a Turquia, a Rússia e a China colocaram no topo do poder homens fortes, determinados a calar todos aqueles que os ousam desafiar. Engrossam-se as vozes, exaltam-se as nações e exibe-se o poder de fogo. As classes médias, destes países aburguesadas, também se acobardam, as bocas fartas perderam a vontade de falar.

Taiwan deixou de contar para o ocidente, tal como Hong Kong ou o Tibete. Pedaços de uma China imperial ávida de terras que só incomoda quando o tabuleiro do poder global se desequilibra. (…)

Na realidade, muitas são as contradições da política externa americana ao longo dos anos, não faltam maus exemplos, mas a perspetiva maniqueísta, das lutas de poder globais é um erro. Uns e outros são pautados pela lógica dos interesses, não há potências benignas e malignas, mas há umas melhores do que outras. Uma nova ordem internacional dominada pelos novos despotismos não será melhor do que a ordem internacional estabelecida. De um mundo mau, pode-se estar à procura de um mundo pior, como aconteceu tantas vezes na história.

Os tempos que correm estão fraturados entre uma parte que tem voz e outra silenciada; uma que pode erguer os punhos e outra onde estes são acorrentados. Esta é uma diferença fundamental, e não podemos ficar em silêncio na defesa dos valores em que acreditamos. Se permitirmos que a escuridão se sobreponha à luz, para além dos governos, também nós seremos todos culpados.»

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17.6.22

O Google na NATO?

 


A Big Tech

“Por que é que a NATO precisa de integrar não só a Finlândia, mas também o Google”, escreve o israelita Shlomo Kramer, grande empresário de segurança informática, na revista Fast Company.

Explicita no subtítulo: “Se quereis a paz no mundo, pensai menos na Inglaterra, na França e na Alemanha, e mais no Google, Apple e PayPal.”

Kramer tem um argumento forte. Os colossos do Silicon Valley têm uma capitalização análoga à de países do G7: a Apple tem uma capitalização de 2,18 biliões de dólares, enquanto o PIB italiano é de 1,9 biliões.

Mais: “As multinacionais que geram grande parte do nosso crescimento económico têm a capacidade tecnológica – para não falar do orçamento – para projectar e promover o tipo de dissuasão rápida e eficaz que nenhum governo consegue facilmente fornecer.” As grandes empresas são capazes de fazer melhor e muito mais depressa. E têm, de facto, maior liberdade de acção perante a lei.

Dá o exemplo do PayPal. Quando esta plataforma de pagamentos digitais suspendeu a actividade com a Rússia, o golpe para muitos operadores de comércio electrónico russo foi mais forte do que qualquer outra sanção. Outro exemplo conhecido é o facto de Elon Musk ter ligado à Ucrânia a sua rede de satélites Starlink, com um papel efectivo no campo de batalha.

Seria chocante a ideia de ver os CEO das mega-empresas sentados à mesa do G7, ao lado do Presidente americano ou do francês, ou reunidos com os comandantes militares.

O que Kramer anuncia é uma era de muito maior de interpenetração entre o Estado e a Big Tech, coisa que a China faz metodicamente. O Google acaba de renovar um gigantesco contrato com a Agência de Segurança Nacional americana (NSA).

Conclui em tom algo idealista, mas extremamente actual perante a barbárie reinante. “Aquilo de que precisamos não é de maiores investimentos na segurança informática. Sugerimos uma nova Convenção de Genebra sobre os limites aos objectivos da guerra informática, como hospitais, casas de repouso ou escolas. (…) A Big Tech é orgulhosa de ter transformado todas as indústrias. Chegou o momento de aprender a revolucionar a guerra.”

A geopolítica não desaparece, pelo contrário: ganha novos actores e actores privados. Um futuro inquietante.»

Jorge Almeida Fernandes
Excerto da Newsletter do Público (16.06.2022)
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3.1.22

O mundo não é redondo e o Atlântico (já) não é o centro

 



Convirá deixar claro que a descrição anterior reflete a dificuldade de se projetar uma esfera (o mundo) num plano (uma folha de papel) e não qualquer adesão às fantasias que sobrevivem na internet sobre a forma da Terra. Mas reflete também a transição do centro estratégico, político e económico do século XX para o século XXI.

Durante séculos, várias civilizações surgiram e entre a Mesopotâmia, a Grécia e Roma, o Egito, a China, o Japão, a Índia, a Etiópia ou as civilizações da América Central e do Sul, o mundo tinha vários centros, nenhum verdadeiramente dominante. Os Descobrimentos Marítimos estabeleceram ou reforçaram elos de ligação e conhecimento e as globalizações que se seguiram foram aproximando os vários mundos, estabelecendo um centro e várias periferias. E até há pouco tempo, a centralidade atlântica aparecia relativamente bem representada nos mapas que conhecemos melhor.

No entanto, o mundo está a mudar. A atenção dos Estados Unidos voltou-se para a costa oeste ainda durante a Administração Obama e a União Europeia apresentou recentemente a sua nova Estratégia para o Indo-Pacífico. Londres, Washington e Camberra estabeleceram uma nova parceria de segurança no Pacífico. Na Europa, o Brexit e o ressurgimento da Rússia marcam a continentalização da União Europeia e, finalmente, segundo o Fórum Económico Mundial, das 29 megarregiões económicas do mundo, 12 estão no Pacífico e as restantes espalhadas pelo resto do planeta, sendo que das cinco que estão na Europa só Londres-Manchester que, como se sabe, já não faz parte da União Europeia, está no Atlântico. Nada disto é inesperado mas não são boas notícias.

Neste quadro, Portugal será tanto mais relevante quanto mais mobilizarmos e coordenarmos as diferentes constantes da nossa presença externa, que o atual ministro dos Negócios Estrangeiros definiu como um hexágono composto pelas dimensões atlântica, europeia, da língua portuguesa, da diáspora, da internacionalização e do multilateralismo. De entre estas, há uma que Ernâni Lopes repetia incansavelmente: Portugal será maior na Europa se for maior na língua portuguesa e será maior na língua portuguesa se for maior na Europa.

Há, de facto, um potencial de colaboração política entre a União Europeia e a Comunidade dos Países da Língua Portuguesa que está largamente por identificar e por explorar, sem prejuízo para o programa de cooperação entre a UE, os PALOP e Timor-Leste. Portugal é o único país que é simultaneamente membro da UE e da CPLP e poderá contribuir para identificar os interesses comuns e explorar as suas oportunidades, reforçando o nosso papel numa nova centralidade entre a Europa, África, a América do Sul e a Ásia.

No século XXI estamos a substituir o mapa que conhecemos por outro onde Portugal está na periferia. O Atlântico não voltará a ser o centro e o nosso interesse nacional está em contribuirmos para que o mundo seja mais um globo e menos um planisfério.

Bom Ano Novo!»

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10.12.21

O novo atlas do poder

 


«A era pós-Guerra Fria acabou. O fim chegou lenta e repentinamente com a retirada abrupta e caótica dos Estados Unidos do Afeganistão.

Muitos europeus foram forçados a abandonar os seus sonhos de rumar a um “mundo único” governado pela interdependência económica e pela política multilateral. Mas eles não sabem o que vai acontecer. Nos últimos tempos, os analistas têm frequentemente escrito sobre o mundo a “voltar ao normal” e encorajando-nos a pôr de lado as estruturas geopolíticas mais tradicionais para entender os assuntos internacionais.

No final do século XIX, duas grandes teorias competiram para definir o mapa do poder do século XX. A primeira - melhor descrita pelo estratega naval americano Alfred Thayer Mahan - afirmava que as tecnologias emergentes dos enormes navios movidos a combustíveis fósseis implicavam que quem quer que detivesse o comando dos mares controlaria o mundo. O segundo foi exemplificado pelo teórico britânico Halford Mackinder, cuja teoria central afirmava que, na era dos caminhos-de-ferro, o poder fluía para aqueles que controlavam a grande massa de terra e os abundantes recursos naturais da Eurásia. Estas teorias implicaram diferentes mapas do mundo e diferentes estratégias para prosperar no século XX. Os alemães seguiram o mapa de Mackinder até a ruína final; os americanos usaram o mapa de Mahan e prosperaram. Independentemente do destino, é importante usar o mapa certo.

Então, que mapa de poder explicaria o mundo moderno? Os europeus esperavam que fosse definido por fluxos de bens e serviços, em vez de blocos geopolíticos, e pelos direitos dos indivíduos, em vez de Estados concorrentes. Tentaram construir um novo mundo baseado na soberania conjunta, na interdependência mutuamente benéfica e em normas que todos iriam aceitar. Mas a soberania nacional mostrou-se muito resiliente, a interdependência muito ambígua e as normas muito contestadas.

Ao mesmo tempo, o novo mundo não é simplesmente um retorno a velhos conceitos, uma projecção geográfica baseada na terra ou no mar. No mapa antigo, os estados eram entidades bem definidas que se protegiam da influência de outros. Fazia sentido, portanto, mapear o poder geograficamente. Num mundo globalizado, no entanto, a interdependência é uma realidade.

Numa era em que o conflito entre potências nucleares é muito perigoso, os Estados usam cada vez mais a interdependência uns contra os outros. O poder já não é definido pelo controlo da terra ou dos oceanos, ou mesmo pela influência normativa do “soft power”. Agora é definido pelo controlo sobre os fluxos de pessoas, bens, dinheiro e dados e por meio das ligações que estabelecem. À medida que os estados competem para controlar essas ligações e as dependências que elas criam, esses fluxos atravessam esferas sobrepostas de influência - moldando o novo mapa do poder geopolítico. O jornalista Thomas Friedman afirmou certa vez que a globalização levaria a um mundo plano. Mas, na realidade, o mundo é montanhoso e entrecruzado por redes nas quais alguns poderes são muito mais centrais do que outros. A natureza dos laços que os unem cria grandes oportunidades para exercer poder e influência.

Esta batalha por influência estende-se por sete terrenos: economia, tecnologia, pessoas, cultura, militar, clima e saúde.

No terreno económico, penalizações equitativas e acesso a mercados - juntamente com outras ferramentas económicas, como controlos de exportação, sanções e regulamentações de dados - tornaram-se o principal campo de batalha não militar da política de grande poder.

No terreno da tecnologia, as batalhas de hoje são sobre infra-estruturas digitais, matérias-primas essenciais e novos sectores, como a inteligência artificial (IA), o controlo dos fluxos de dados e o armazenamento, semicondutores, 5G e equipamentos móveis e tecnologia quântica, bem como a definição de padrões para novas tecnologias.

As alterações climáticas e a transição de uma economia movida a carbono também estão a mudar a dinâmica do poder no mundo de hoje. Uma grande proporção dos recursos remanescentes de petróleo, gás e carvão tornar-se-ão activos perdidos - com consequências potencialmente devastadoras para os principais exportadores.

No terreno das pessoas, Fiona Adamson e Kelly Greenhill argumentam que os “trabalhadores migrantes, refugiados, turistas, estudantes, expatriados e elites globais emergem como potenciais peças de um tabuleiro de xadrez estratégico no qual os estados competem por vantagem e influência”.

Novas tecnologias e novas alianças estão a mudar o equilíbrio de poder no terreno militar, onde os gastos no ano passado alcançaram a marca de 2 biliões de dólares (dos quais quase 40% contabilizados por um único país, os Estados Unidos).

A pandemia de covid-19 transformou o terreno da saúde num campo de batalha geopolítico. Os governos entraram numa competição feroz por produtos médicos que poderão ajudá-los a reduzir as taxas de doença e permitir que a actividade económica regresse ao normal. A saúde pública tornou-se um indicador central da eficácia governamental num momento de competição sistémica.

Em última análise, a capacidade de os estados usarem os seus recursos de poder tem muito a ver com normas culturais. Há hoje um clima de “descolonização cultural” - que substitui o universalismo da Guerra Fria e o “fim da história”.

Em conjunto, estes sete terrenos formam um novo mapa de poder. Demonstram que, no mundo moderno, o poder é exercido não por navios de guerra que passam por águas contestadas, mas por pessoas, bens, dinheiro e dados que passam pelos múltiplos domínios contestados da conectividade. Mapeando os terrenos do poder de novas formas, podemos entender melhor as acções e estratégias de uns e outros - e este pode ser o primeiro passo para descobrir como conviver mais pacificamente.

Se não lerem os mapas certos, os nossos líderes podem, literalmente, ver-se perdidos na nossa nova Era da Não-Paz.»

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11.2.21

O vírus da globalização

 


«O vírus introduz-se num corpo, controla alguns órgãos e começa a desregular funções vitais. Ainda hoje não sabemos exatamente o que é nem, ao certo, de onde veio.

Certo é que chega depressa e a toda a parte. Não é bem uma metáfora. Seria difícil, aliás, encontrar expressão mais nítida e tangível para esse fenómeno contemporâneo que dá pelo nome de globalização. Há um ano, nenhum economista admitiria a possibilidade de uma tão longa e tão drástica limitação da atividade económica à escala planetária. Nenhum antropólogo, cientista social ou político ousaria prometer que restrições tão violentas de direitos e liberdades tão elementares como circular e conviver poderiam ser decretadas e cumpridas - até dentro de casa, derradeiro reduto da reserva de intimidade privada - sem que tremendas convulsões sociais explodissem por todo o lado. Mas é verdade. Fecharam-se fronteiras. Alterações súbitas e duradouras dos comportamentos habituais, rotinas, trabalho, condições de sobrevivência e práticas culturais enraizadas produziram-se até agora de modo relativamente pacífico.

Perante este cenário dramático de absoluta exceção, impôs-se a urgência de dispor de vacinas capazes de imunizar as populações do planeta antes que as mutações do vírus neutralizem ou enfraqueçam a sua eficácia. E em menos de um ano, chineses, russos, europeus e americanos, desmentindo os prognósticos dos mais céticos, inventaram-nas! Seria lógico, perante uma tragédia à escala universal, que a Organização Mundial de Saúde planeasse a coordenasse a campanha de vacinação, mas, em vez disso, estamos a presenciar logo aqui, no Ocidente rico e bem equipado, o espetáculo degradante de uma disputa sôfrega e impiedosa pelas vacinas, com vantagem para os mais ricos e chorudo benefício para os grandes laboratórios farmacêuticos.

Como é possível que de tantas restrições legitimamente impostas às liberdades comuns, tenha escapado incólume este direito peculiar: a propriedade intelectual! As patentes das vacinas registadas pelas grandes empresas farmacêuticas - que, como é sabido, contaram à cabeça com abundante financiamento público para acorrer à calamidade - permitem-lhes disponibilizar as vacinas consoante as suas expectativas de lucro, sem outro critério ou prioridades. Os dados pessoais dos eleitores britânicos foram mera oportunidade de negócio entre a Cambridge Analitica e os promotores do Brexit. O principal gestor da Amazon engordou com os lucros acrescentados à boleia dos confinamentos e do isolamento profilático e até vai mudar de ramo, diz-se, para se dedicar às viagens espaciais. E a Pfizer regateia e prospera, entretanto, à custa da nossa saúde. Enquanto as expectativas de crescimento económico caíram menos do que era esperado, continua a progredir o setor financeiro e os interesses ligados às tecnologias da comunicação. Eis o admirável mundo novo da desregulação global!»

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7.8.20

Assim vai a globalização




«Fábricas têxteis de grandes retalhistas, como Primark, H&M e grupo Inditex, estão a despedir trabalhadores nas suas fábricas asiáticas. A justificação dada relaciona-se com os efeitos da pandemia de covid-19, mas um novo relatório da Business and Human Rights Resourse Centre (BHRRC, Centro de Recursos Empresariais e de Direitos Humanos, em português) indica como causa o sindicalismo dos empregados, avança o The Guardian, citando o documento.»
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16.7.20

Não é, Galileu Galilei?



«É curioso que, apesar da implosão recente do sistema financeiro a nível mundial, perdure alimentado diariamente urbi et orbi a peregrina ideia de que as privatizações são abençoadas em contraponto com a propriedade pública, que é diabolizada.

O sistema mundial económico colocou no índex qualquer gestão pública. Todo o sistema imunitário da atual globalização se une para diabolizar tentativas de colocar qualquer unidade produtiva sob o domínio do Estado, porque estará escrito algures no Monte Sinai que o Estado existe para encher os bolsos dos privados, mesmo quando a sua gestão é ruinosa. No caso, um dos expoentes do absurdo é o exemplo da EDP: enquanto no setor público português era só desgraça, na mão dos chineses é sublime, deve ser dos Mexia, Pinho, Catroga e de todos os comedores da grandiosa gamela do comunismo chinês. Aqueles comunistas cheiinhos de dinheiro é que são bons, os outros tesos a proclamar a igualdade dos cidadãos estão em contramão.

O negócio correu tão bem a meia dúzia de mequetrefes que o MP teve de agir para fazer mesmo au ralenti funcionar as instituições inquinadas pelos donos desta coisa…

O caso da TAP é também paradigmático: nacionalizada à última hora, entregue ao desbarato pelo governo do PPD/CDS, a gestão dos senhores Neeleman e Pedrosa foi um vê-se-te-avias quer com Passos, quer com Costa.

Afinal, a tão apurada e tecnocrática gestão privada da TAP foi ruinosa. A empresa, no início de 2020, estava nas lonas. E não foi o Estado, foram gestores de elite do setor privado que aproveitaram o negócio para levarem a TAP para o descalabro, certamente dando milhões a uns tantos, através das negociatas só ao alcance de gente capaz de vender alma e o resto da vergonha.

A TAP comprou rotas e aviões como se fosse uma das maiores companhias do mundo, quando é a companhia de bandeira de um pequeno país europeu… mas isso era obra dos tais profissionais privadíssimos e de grande reputação.

Algures estaria alguém a contar com os despojos a custo zero da TAP? Algures na Europa, quem estaria a esfregar as mãos de contentamento por obrigar os portugueses a ter que viajar para Madrid para irem para África ou para a América do Norte e do Sul? Quem?

Claro que a TAP, enquanto companhia de bandeira, tem de melhorar muito e mostrar que é capaz de ser competitiva e não apenas continuar a ser mais um entreposto de negociatas como as que caracterizam o nosso sistema político-financeiro.

Veja-se o que sucede com o Novo Banco e as novas e escandalosas negociatas da venda de imóveis por meia dúzia de patacos. Byron Haines liderou um banco detido pelo fundo Cerberus. Por 200 imóveis do Novo Banco, o fundo que detinha o banco e que Haines liderou comprou-os por 159 milhões, sendo o seu valor bruto contabilístico 478 milhões, uma perda de 328,80 milhões. A gestão sem mácula é esta, tirar de um banco resgatado para encher os bolsos do Cerberus, fundo muito fundo onde foram parar riquezas de um banco que está a ser pago por todos os portugueses.

Entretanto, parece que finalmente a mais fina figura do regime vai a julgamento. Haja Deus. Homem sério, condecorado, sempre bem acompanhado das mais altas figuras do reino, de boas famílias, o dono disto tudo era realmente um homem capaz de mil e um negócios… ele e os outros, do BPN ao Banif e ao BCP… Vamos ver.

As últimas notícias da distribuição da riqueza no mundo são também bastante esclarecedoras: o número de grandes fortunas e de milionários cresceu 8,8% em 2019, face a 2018. São fortunas que tornam ainda mais dolorosas as situações que dizem respeito a mais de metade da Humanidade que vive com cerca de dois ou três dólares por dia. Não está em causa, nem devia estar, a maior capacidade de certas pessoas de conseguirem obter e fazer prosperar negócios de um modo extraordinário. O que está em causa é a total incapacidade do sistema para deixar na mais completa miséria mais de um quarto da Humanidade.

Se o sistema cria desequilíbrios desta grandeza, tal mostra a sua incapacidade para dar resposta a uma questão tão simples como esta: é ou não possível haver uma vida decente para todos? O que se tem visto é que a atual globalização não tem respondido a este desígnio, apesar do índex e da poluição de gente a dizer que estes são os bons gestores. O que conta não são os resultados; é a tal realidade dolorosa que é preciso continuar a negar, não é, Galileu?»

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23.5.20

Globalização infetada



«A globalização neoliberal, tal como a conhecemos, determina que as relações sociais são definidas pelo mercado, mas não de qualquer forma. Não basta simplesmente integrar as regras do comércio, importa eliminar todos os obstáculos à livre competição de interesses no mercado. Para se sobreviver neste mundo globalizado, é preciso ser-se mais competitivo do que o vizinho, quer se trate de uma pessoa, de uma empresa ou de um país. A solidariedade social deixa de ser a norma e, se cada pessoa é vista como um "recurso", os cidadãos passam a ser consumidores ou clientes.

Raras são as vezes que vimos a globalização ser analisada a partir da perspetiva dos mais pobres ou dos mais desfavorecidos. Com efeito, a globalização globalizou as desigualdades e as regras passaram a ser definidas pelas multinacionais. O comércio quis-se cada vez mais intensificado e a circulação dos capitais mais fluida. Quantas vezes assistimos ao filme de vidas deixadas para trás pela deslocalização da produção? Quantas economias locais foram destruídas? Quantos trabalhadores foram explorados? Quantas pessoas foram abandonadas à pobreza?

Sabemos bem que a globalização não traz só problemas, mas é inevitável perceber como o desenvolvimento das sociedades a seguir à II Guerra Mundial se fez de modo que as relações económicas e sociais de matriz capitalista determinassem todas as outras relações económicas e sociais. A tese que vigorava há menos de meio ano era a de que esse caminho teria de continuar a aprofundar-se.

Os tempos mudaram radicalmente. Creio que, hoje, a maioria das pessoas já percebeu como um problema global pôs em causa os pilares do modelo de globalização que tem dominado as nossas sociedades. É certo que a denúncia dos problemas associados à globalização neoliberal não apareceram hoje. Aprendemos muito com os êxitos e com os fracassos de movimentos do passado. De Seattle 1999 aos Fóruns Sociais Mundiais, passando pelos movimentos ambientalistas, há muito que se ouve vozes por um outro mundo possível. Continuamos a percebê-lo nos movimentos de precários, nas lutas contra a uberização das sociedades ou nas fridays for future. Mas com a crise atual sentimos ainda mais na pele os limites e as exclusões da globalização capitalista. São as desigualdades e a pobreza a reforçarem-se a cada dia que passa. É o recurso aos serviços públicos e o regresso da centralidade dos Estados na resposta que vão ajudando a reduzir impactos ainda mais trágicos da pandemia.

A covid-19 infetou a globalização que já dava muitos sinais de doença. Os desafios são mais do que muitos, desde a retoma do multilateralismo ao reforço das solidariedades e da democracia, à desmercantilização das relações sociais. Sabemos bem da capacidade regeneradora do capitalismo, mas também sabemos que as pessoas só se mobilizam verdadeiramente quando são afetadas. Veremos com o tempo se, paradoxalmente, do distanciamento físico poderá nascer uma maior proximidade social.»

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14.12.18

"Gilets jaunes": se querem a globalização, alguma coisa tem de ser feita



«Há muito que existe um problema no mundo ocidental que precisa de uma solução. A globalização e o desenvolvimento dos mercados internacionais trazem benefícios, mas esses benefícios tendem a ser distribuídos de forma desigual. Trata-se de um problema bem identificado, com soluções conhecidas, faltando apenas a vontade política para o enfrentar. Essa vontade está em franco desenvolvimento e esperemos que os recentes acontecimentos em França sejam mais uma contribuição importante.

Se há coisa em que economistas e políticos concordam há muitos anos é que a abertura de fronteiras e o comércio internacional trazem vantagens globais, mas que essas vantagens podem ser distribuídas de forma desigual, por pessoas, regiões ou nações. Assim, em determinadas circunstâncias, ganha mais quem tem recursos mais escassos, como o capital e o conhecimento, e ganha menos ou perde quem tem recursos mais comuns, como o trabalho ou a baixa tecnologia.

Até há poucas décadas, os problemas de redistribuição decorrentes da abertura foram tratados ao sabor da legítima pressão de grupos de interesse, da determinação de governos ou, em casos mais raros, de que a União Europeia é o melhor exemplo, por entidades internacionais.

Thatcher, no Reino Unido, Reagan, nos Estados Unidos, economistas em torno de instituições atávicas como o FMI, no mundo menos desenvolvido, e uma enorme panóplia de seguidores, mudaram o curso das coisas, defendendo a ideia de que a abertura internacional, afinal, não precisava de ser acompanhada. Sozinha, sem política, a "concorrência" internacional encontraria o equilíbrio necessário.

Assim não foi e o que temos hoje é a reacção dos eleitorados, mais ou menos estruturada, a essa nova realidade, de um Mundo cada vez mais aberto e cada vez menos controlado por políticas redistributivas. Perante esta realidade, várias têm sido as respostas.

O crescimento dos populismos também quer entrar nesta história, mas ele é sobretudo um problema político à procura de pretextos e a globalização é apenas um deles. A prova-lo está facto de o populismo de Mussolini, Salazar ou Hitler ter nascido num período de forte retrocesso da globalização.

Os modelos de reposta aos efeitos da globalização podem ser vistos nas três principais potências da Europa ocidental, sendo que cada uma respondeu segundo o respectivo enquadramento político, institucional e económico.

Na Grã-Bretanha, a resposta veio pelo referendo do Brexit, que mais não fez do que distrair a população com um processo complicado e sem nexo, acompanhado do "projecto medo". Na Alemanha, a resposta veio através da contenção salarial e do reforço da contratação social, permitidas pelo tracto de confiança entre sindicatos, organizações empresariais e governo, no sentido de poupanças salariais de hoje resultarem em aumentos de produtividade e de competitividade, devolvidos em aumentos salariais posteriores. Na Alemanha, os ganhadores são empresas e gestores que melhor sabem devolver lucros, já que as "elites" económicas foram praticamente varridas pelas duas guerras e pelo poder soviético. O modelo alemão de alguma forma é replicado em outros países com forte capacidade exportadora, como a Suécia ou a Polónia.

A França, é o terceiro caso de resposta aos problemas da desigualdade decorrentes da intensificação da globalização. Ao longo de mais de uma década, os sucessivos governos franceses hesitaram quanto ao que fazer. Até que chegou Macron, já visto como salvador do modelo de integração europeia, mas que prontamente mostrou outros objectivos, querendo aproximar-se da herança de Thatcher ou Reagan. Depois de mais uma dose de hesitação, o Presidente francês escolheu finalmente permitir que as trocas internacionais seguissem o seu curso e favorecessem os detentores dos recursos mais escassos, em prejuízo dos demais, dos cidadãos dependentes de salários, de pensões ou de subsídios. Sem as elites do Reino Unido ou, sobretudo, da Inglaterra, sem os equilíbrios institucionais da Alemanha, a França conheceu a revolta das ruas.

As políticas de redistribuição de rendimento têm e sempre terão opositores que procuram mostrá-las como insustentáveis ou ineficientes. Mas a verdade é que durante muito tempo a Europa foi abrindo fronteiras, sendo simultaneamente a região do mundo mais desenvolvida e com mais paz social e isso foi conseguido por via da intervenção politica. É essa que tem de voltar. O mundo aberto e em paz não está para acabar se houver a devida resposta aos novos desafios. Os governos em França e na Grã-Bretanha, hoje ou amanhã, não têm outra escolha.»

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17.3.17

Como estava escrito nas estrelas



… a China já deslocaliza para vizinhos com mão de obra mais barata, enquanto espera que cheguem robôs para os substituírem. E a europeia H&M soma e segue.


«Com um salário mensal mínimo de cerca de 63 dólares, baseado numa semana de trabalho de seis dias, o Myanmar tem uma vantagem competitiva sobre os vizinhos Vietname e Camboja, onde o salário mínimo mensal varia entre 90 e 145 dólares, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).» 
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10.10.16

A desglobalização já está aqui



«A política nunca é certa. Mesmo assim, do Brexit a uma inquietada Zona Euro, até à retórica isolacionista que está a permear as eleições norte-americanas, um facto é claro: os mantras anteriores da globalização e da desregulação estão a ganhar uma oposição crescente.

Os eleitores de todo o mundo desenvolvido estão a manifestar a visão de que os benefícios de operar a uma escala internacional são compensados por salários mais baixos, perspetivas mais fracas de emprego e uma desigualdade crescente. Este sentimento geral ainda não forçou a globalização a uma reversão. Porém, o seu abrandamento tem implicações significativas para cidadãos, governos e também investidores. (…)

Os estímulos fiscais deveriam ser fiscalmente responsáveis. Os fracos níveis de crescimento económico global estão a ser satisfeitos com pedidos crescentes de despesa fiscal e de infraestrutura ao nível local. No entanto, estes deveriam ser compensados com idênticos níveis de preocupação sobre a capacidade para tais gastos. Serão com certeza necessários investimentos massivos nas grandes economias do futuro, como a Índia, Indonésia e África, para não mencionar a reparação e a manutenção necessárias no mundo desenvolvido. Todavia, ao invés de serem financiados por mais dinheiro emprestado, estes investimentos deveriam ambos cobrir os custos de financiamento e acrescentar prosperidade económica e produtividade a estas regiões. De outra forma, equivalem apenas a esquemas Ponzi.

Para muitos, a nossa perspetiva secular do Ocidente de um mundo moderno e estável, sob a Pax Europae e a Pax Americana, parece estar a chegar ao fim. Arriscamo-nos a que, em seu lugar, regressemos a uma versão de países e Estados que precede as soluções coesas da nossa era pós-Segunda Guerra Mundial. E é apenas através de soluções que reconheçam as fraquezas da globalização, mas que dividam mais equitativamente os despojos ao longo e dentro das fronteiras, que conseguiremos evitar mais tensão política.»

11.8.16

Globalização desconectada



«Embora aparentemente elegante, em teoria, a globalização sofre na prática. Essa é a lição do Brexit e da ascensão de Donald Trump, nos Estados Unidos. E também está na base da cada vez mais virulenta reacção contra a China que se estende, agora, a todo o mundo. Aqueles que veneram o livre comércio – incluindo eu – devem enfrentar esta desconexão gritante. (…)

Nos Estados Unidos, a ascendência de Trump e a tracção política adquirida pela campanha do senador Bernie Sanders nas primárias reflectem muitos dos mesmos sentimentos que levaram so Brexit. Da imigração à liberalização do comércio, as pressões económicas sobre uma classe média sitiada contradizem as promessas centrais da globalização. (…)

Naturalmente, esta não é a primeira vez que a globalização enfrenta problemas. A globalização 1.0 - o aumento do comércio global e dos fluxos de capitais internacionais que ocorreu no final do século XIX e início do XX – chegou ao fim entre a Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão. O comércio global diminuiu em cerca de 60% entre 1929 e 1932, com as grandes economias a virarem-se para dentro e a abraçarem políticas comerciais proteccionistas, como a lei americana Smoot-Hawley, de 1930. Mas os riscos podem ser maiores se a poderosa globalização de hoje tiver um destino semelhante. Em contraste com a Globalização 1.0, que estava largamente confinada ao intercâmbio transfronteiriço de bens tangíveis, o alcance da Globalização 2.0 é muito mais amplo, incluindo o comércio crescente de muitos dos chamados intangíveis - outrora serviços não transaccionáveis.

Da mesma forma, os meios da Globalização 2.0 são muito mais sofisticados do que os da sua antecessora. A conectividade da Globalização 1.0 ocorreu através de navios, ferrovias e veículos motorizados. Hoje, esses sistemas de transporte são muito mais avançados - reforçados pela internet e pela melhoria das cadeias de abastecimento globais. A internet também permitiu a disseminação transfronteiriça instantânea de serviços baseados no conhecimento, como programação de software, engenharia e design, avaliação médica e contabilidade, trabalho jurídico e de consultoria.

O contraste mais nítido entre as duas ondas de globalização está na velocidade de absorção e disrupção da tecnologia. Têm sido adoptadas novas tecnologias da informação a um ritmo anormalmente rápido. Só foram precisos cinco anos para 50 milhões de domicílios dos EUA começarem a navegar na Internet, enquanto que foram necessários 38 anos para que um número semelhante tivesse acesso a rádios. (…)

. A formulação de políticas mais adequadas deve ter em conta as pressões poderosas que recaem agora sobre um conjunto muito mais amplo de trabalhadores. A hiper-velocidade da Globalização 2.0 sugere a necessidade de apoios mais rápidos e de maior alcance para a requalificação profissional dos trabalhadores, subsídios de deslocalização, assistência na procura de emprego e subsídios de desemprego com duração superior.

Como nos adverte a história, a alternativa – seja o Brexit ou o novo isolacionismo dos Estados Unidos - é um acidente prestes a acontecer. Cabe aos defensores do livre comércio e da globalização evitar esse cenário, através de soluções concretas que resolvam os problemas muito reais que afligem tantos trabalhadores.»

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7.8.16

Globalização? Segue dentro de momentos…



«A globalização, tal como foi sonhada nos anos 80 após o "Big Bang" do sector financeiro britânico, está ferida de morte. A mensagem está a ser deixada em várias caixas do correio. Mas há quem ainda esteja demasiado distraído para o entender. Afinal, o fenómeno do Brexit é apenas um sinal disso, com o corte com a livre circulação de pessoas, algo que decorre da circulação planetária de dinheiro e de bens. A crise dos migrantes que afecta a Europa e a crescente robotização da indústria, que a curto prazo vai afastar as fábricas da Ásia, vai atirar milhões de "beneficiários" locais para o desemprego. O que levará a movimentos de nacionalismo económico. E a isso alia-se o patriotismo político que está a crescer desenfreadamente em diferentes países fulcrais para a continuação desta globalização como a conhecemos. Como é o caso dos Estados Unidos.

A pátria de todas as formas de globalização (da cultural de Hollywood à da economia digital representada pelas Microsoft, Amazon ou Facebook deste mundo) assiste a uma das suas cíclicas tentativas de se refocar em si próprio. A lógica proteccionista que está a ser o íman da campanha de Donald Trump (prometendo uma América mais forte se afastar os emigrantes e voltar a garantir trabalho a todos os que, no sector industrial, foram excluídos pela deslocalização de fábricas) não é um mero fogacho. É o resultado de um sintoma extremamente forte que contagia a sociedade americana.

O ataque de Trump aos tratados de comércio internacional, que têm sido uma das linhas de força da presidência de Barack Obama (veja-se o esforço derradeiro que está a ser feito para que, à porta fechada, seja assinado o acordo EUA-Europa [TTIP]), mesmo que ele seja extremamente gravoso em termos de segurança alimentar para os europeus e dê às empresas uma força legal sobre os Estados que é bastante controversa, mostra como a fasquia da discussão está alta. E essa mensagem de Trump está a cativar os eleitores norte-americanos, castigados (sobretudo as suas classes médias) por uma globalização que lhes foi vendida como fascinante e que redundou em desemprego e salários estagnados. No fundo, o fim do "american dream".

A força da mensagem do agora candidato republicano a Washington é tal que está a contaminar o sector democrata que até aqui era um forte adepto dos tratados comerciais internacionais sob a direcção de Obama. Hillary Clinton, percebendo para onde corre a brisa eleitoral (e tendo em conta a necessidade de não perder demasiados votos em estados fundamentais como o Ohio, onde este é um tema-chave), também já questiona os benefícios do tratado com o México e com o Canadá (Nafta) e com os países da Ásia/Pacífico, outra das prioridades de Obama. Não é por acaso: nos últimos 15 anos desapareceram perto de cinco milhões no sector industrial americano, resultado da deslocação de empresas, sobretudo no México e na Ásia. Algumas estão a regressar, mas usam robôs para baixar os custos.

Esses americanos, cantados por Bruce Springsteen, estão zangados. E o discurso de Trump assemelha-se, para eles, ao de uma sereia. O medo dos novos tratados é real. E garante votos ao candidato republicano. Mas este sentimento, aliado ao fecho de fronteiras a que se assiste na Europa, tem um significado mais vasto. Que será claro a muito curto prazo.»

Fernando Sobral

10.1.14

Deslocalizações: futurologia



2014
A empresa H&M fabricava na China, mas passa agora 80% da sua produção para a Etiópia. Os 300 euros de salário, que pagava aos trabalhadores chineses, parecem-lhe excessivos. No país africano só pagará 45 euros mensais.


20?4
A empresa H&M fabricava na Etiópia, mas passa agora 80% da sua produção para a Europa do Sul. Os 300 euros de salário, que pagava aos trabalhadores etíopes, parecem-lhe excessivos. Nos países do Sul europeu só pagará 45 euros mensais. 

Impossível, improvável? Alguém garante?
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16.11.13

Mudam-se os tempos, mudam-se os chineses


Foi com um sorriso que li esta notícia no caderno Economia do Expresso de hoje. Não que não seja perfeitamente natural que o comércio de luxo se adapte às exigências e ao conforto dos seus melhores clientes, mas porque, há meia dúzia de dias, entrei numa loja chinesa do meu bairro onde vi, pela primeira vez, empregadas portuguesas.

Não sei se as de Chongqing que lá estavam até agora se mudaram directamente para a Avenida da Liberdade, mas é pouco provável. Julgo é que os pragmáticos donos das lojas baratas, cada vez mais frequentadas por portugueses, terão percebido o mesmo que os sócios das cadeias de luxo das nossas montras mais elitistas: o cliente é quem mais ordena e é fundamental perceber se ele quer uma chave de parafusos ou dois pares de cuecas.

Nada contra se tudo isto reflectisse, apenas ou sobretudo, um novo equilíbrio como resultado positivo da globalização. Mas infelizmente não é o caso. 
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19.11.12

Continentes à venda



Leio no Público espanhol que «as grandes potências e os países emergentes superpovoados estão a comprar grandes superfícies de terras cultiváveis nos países em desenvolvimento, para garantir o futuro alimentar à custa das populações que passam fome». Não é novidade, mas a extensão do fenómeno merece atenção.

Arabia Saudita, Emiratos Árabes Unidos, Coreia do Sul, Japão, China e India adquirem ou controlam extensões significativas, em África e na América Latina, naquilo que é identificado como «conflito geopolítico» do ano, que se transformará em tema decisivo nas relações internacionais do século XXI. Estamos perante uma área correspondente à de toda a Europa Ocidental e o director da FAO fala de «neocolonialismo», já que estão em causa «Estados pobres que produzem alimentos para os países ricos à custa da sua própria população faminta».

É o próprio Banco Mundial que reconhece que este fenómeno implica frequentemente deslocalização de populações e abandono das suas culturas tradicionais, assistindo-se à exportação de «milhares de toneladas de alimentos de países que, paradoxalmente, vivem da assistência humanitária internacional para combater a fome e a desnutrição».

Tudo isto ligado a gigantesca especulação financeira que transforma o mercado de alimentos num verdadeiro casino (surprise: com implicação da Goldman Sachs neste domínio, desde 1991).

Vale a pena ler todos os detalhes no artigo do Público.es.

Os colonizadores mudaram mas, para muitos, a colonização continua. Diferente, certamente, mas não menos cruel nem menos injusta. 
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18.5.12

Será também assim na Europa




«El crecimiento de la población hispana, con un alto índice de natalidad, así como de la minoría asiática, confirma una tendencia esperada desde hace varios años. 

El 49,6% de todos los nacimientos entre julio de 2010 y el mismo mes de 2011 fueron de niños blancos, mientras que los hijos de parejas hispanas, asiáticas, afroamericanas o de diferentes razas ascendieron a un 50,4%. Los estadounidenses blancos, sin embargo, seguirán siendo el grupo mayoritario de población hasta 2042, según las proyecciones de la Oficina del Censo.» 

Pode o Ocidente «civilizado» construir muros ou barreiras burocráticas que não vencerá esta guerra. Nem tem qualquer direito de a vencer. 
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23.7.11

Se a Amazónia deve ser internacionalizada


... internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro.

A história tem onze anos mas merece ser recordada. O brasileiro Cristovam Buarque, hoje senador e que foi ministro da Educação de Lula em 2003-2004, respondeu a um estudante que o interrogou sobre a possibilidade de internacionalizar a Amazónia com o discurso que pode ser ouvido neste vídeo.



O texto do discurso:

«Fui questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia, durante um debate, nos Estados Unidos. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para uma resposta minha. De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia.

Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia é para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio da humanidade.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país.

18.2.11

Medo ou optimismo?


Tendo como referência o valor do PIB, foi declarado que a China ultrapassou o Japão, é já a segunda potência mundial e poderá tirar o primeiro lugar aos Estados Unidos em 2025.

Percurso complicadíssimo e cheio de escolhos, num país em que cerca de cem milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia, a inflação derrapa, o perigo de a bolha imobiliária rebentar é uma realidade, há falta de mão-de-obra qualificada em muitos sectores e onde as exportações representam 40% do PIB, quando os seus principais mercados externos estão em recessão ou perto dela.

Last but not the least, o governo chinês sabe que não poderá dominar e contrariar eternamente as reivindicações de direitos políticos dos seus cidadãos e tem de encarar uma vez por todas essa situação.

Externamente, a China enfrenta a desconfiança da Europa e dos Estados Unidos que temem a sua hegemonia no plano económico e desconfiam da concorrência no palco geopolítico mundial.

E, no entanto, há também razões para optimismo: «Devíamos regozijarmo-nos porque centenas de milhões de chineses estão a conseguir, pouco a pouco, sair da miséria. Mas há mais do que isso. Uma economia chinesa próspera é uma oportunidade para o conjunto do planeta. Grande consumidora de matérias-primas, ela dá um novo impulso aos países produtores, nomeadamente de África e da América Latina. Com uma população de 1.300 milhões de habitantes, oferece um gigantesco mercado às grandes e às pequenas multinacionais que lhe fornecem produtos e serviços.»

(A partir daqui.)

Claro que tem de ser possível tirar partido das grandes potencialidades de tudo isto e de muito mais. Mas não sei se estamos no bom caminho, sobretudo se temos no horizonte os enquadramentos ideológicos mínimos, indispensáveis para gerir correctamente o que aí está e o que está para chegar, necessariamente a velocidades vertiginosas. O modelo de gestão da actual «crise» não augura nada de bom. Optimismo muito mitigado, portanto…
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23.12.10

Globalização, esse bode expiatório


Tornou-se um lugar-comum considerar como provada a incompatibilidade entre globalização (inevitável), por um lado, e salvaguarda de sistemas de protecção social e equilíbrio na distribuição das riquezas, por outro, anunciando-se portanto a derrota fatal destes últimos. Não é assim, como bem se explica neste texto:

Os excertos que retiro não dispensam a leitura na íntegra.

«Por un lado, esa afirmación implica dar como inmutable el actual orden de cosas, suponer que el modo en que actualmente se regulan y gobiernan los fenómenos sociales no tiene alternativa ni puede funcionar de otro modo. Es decir, plantear los problemas sociales como si estos se presentaran siempre dentro de unos mismos valores de un constante eje de coordenadas. (…)

La realidad, por tanto, es que el tipo de organización socioeconómica de nuestro tiempo, el tipo específico de globalización dominante basada en la desigualdad, en el privilegio de las relaciones de mercado y en la plena libertad de movimientos del capital, es lo que hace inviable la extensión de los sistemas de bienestar social porque estos lógicamente requieren recursos que implicarían una merma sustancial del excedente que ahora se apropian en mucha mayor medida que en otras épocas los propietarios de capital. (…)

Un argumento incorrecto porque lo que, por el contrario, habría que plantear en primer lugar serían las exigencias de bienestar que habría que garantizar en todo el mundo para que la población pudiera satisfacer sus necesidades y a partir de ahí determinar los procesos que podrían garantizarla. (…)

La competitividad que se ha generalizado en los últimos decenios a través de los salarios bajos, de la precariedad en el trabajo y la inseguridad generalizada responde a una lógica que concentra mucho la renta y la riqueza en cada vez grupos más pequeños de la población pero a la larga generalizadamente empobrecedora. (…)

En definitiva, la incompatibilidad no se produce entre el Estado de Bienestar y la globalización, sino entre la globalización bajo las políticas neoliberales y el bienestar humano. Y la elección no puede ser la que predomina, sacrificar el bienestar para salvar el beneficio de unos pocos, sino limitar el beneficio para garantizar el bienestar de todos.

Una elección que, en todo caso, no pueden resolver los economistas sino que tiene que imponer la ciudadanía.»
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