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23.5.20

Globalização infetada



«A globalização neoliberal, tal como a conhecemos, determina que as relações sociais são definidas pelo mercado, mas não de qualquer forma. Não basta simplesmente integrar as regras do comércio, importa eliminar todos os obstáculos à livre competição de interesses no mercado. Para se sobreviver neste mundo globalizado, é preciso ser-se mais competitivo do que o vizinho, quer se trate de uma pessoa, de uma empresa ou de um país. A solidariedade social deixa de ser a norma e, se cada pessoa é vista como um "recurso", os cidadãos passam a ser consumidores ou clientes.

Raras são as vezes que vimos a globalização ser analisada a partir da perspetiva dos mais pobres ou dos mais desfavorecidos. Com efeito, a globalização globalizou as desigualdades e as regras passaram a ser definidas pelas multinacionais. O comércio quis-se cada vez mais intensificado e a circulação dos capitais mais fluida. Quantas vezes assistimos ao filme de vidas deixadas para trás pela deslocalização da produção? Quantas economias locais foram destruídas? Quantos trabalhadores foram explorados? Quantas pessoas foram abandonadas à pobreza?

Sabemos bem que a globalização não traz só problemas, mas é inevitável perceber como o desenvolvimento das sociedades a seguir à II Guerra Mundial se fez de modo que as relações económicas e sociais de matriz capitalista determinassem todas as outras relações económicas e sociais. A tese que vigorava há menos de meio ano era a de que esse caminho teria de continuar a aprofundar-se.

Os tempos mudaram radicalmente. Creio que, hoje, a maioria das pessoas já percebeu como um problema global pôs em causa os pilares do modelo de globalização que tem dominado as nossas sociedades. É certo que a denúncia dos problemas associados à globalização neoliberal não apareceram hoje. Aprendemos muito com os êxitos e com os fracassos de movimentos do passado. De Seattle 1999 aos Fóruns Sociais Mundiais, passando pelos movimentos ambientalistas, há muito que se ouve vozes por um outro mundo possível. Continuamos a percebê-lo nos movimentos de precários, nas lutas contra a uberização das sociedades ou nas fridays for future. Mas com a crise atual sentimos ainda mais na pele os limites e as exclusões da globalização capitalista. São as desigualdades e a pobreza a reforçarem-se a cada dia que passa. É o recurso aos serviços públicos e o regresso da centralidade dos Estados na resposta que vão ajudando a reduzir impactos ainda mais trágicos da pandemia.

A covid-19 infetou a globalização que já dava muitos sinais de doença. Os desafios são mais do que muitos, desde a retoma do multilateralismo ao reforço das solidariedades e da democracia, à desmercantilização das relações sociais. Sabemos bem da capacidade regeneradora do capitalismo, mas também sabemos que as pessoas só se mobilizam verdadeiramente quando são afetadas. Veremos com o tempo se, paradoxalmente, do distanciamento físico poderá nascer uma maior proximidade social.»

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14.12.18

"Gilets jaunes": se querem a globalização, alguma coisa tem de ser feita



«Há muito que existe um problema no mundo ocidental que precisa de uma solução. A globalização e o desenvolvimento dos mercados internacionais trazem benefícios, mas esses benefícios tendem a ser distribuídos de forma desigual. Trata-se de um problema bem identificado, com soluções conhecidas, faltando apenas a vontade política para o enfrentar. Essa vontade está em franco desenvolvimento e esperemos que os recentes acontecimentos em França sejam mais uma contribuição importante.

Se há coisa em que economistas e políticos concordam há muitos anos é que a abertura de fronteiras e o comércio internacional trazem vantagens globais, mas que essas vantagens podem ser distribuídas de forma desigual, por pessoas, regiões ou nações. Assim, em determinadas circunstâncias, ganha mais quem tem recursos mais escassos, como o capital e o conhecimento, e ganha menos ou perde quem tem recursos mais comuns, como o trabalho ou a baixa tecnologia.

Até há poucas décadas, os problemas de redistribuição decorrentes da abertura foram tratados ao sabor da legítima pressão de grupos de interesse, da determinação de governos ou, em casos mais raros, de que a União Europeia é o melhor exemplo, por entidades internacionais.

Thatcher, no Reino Unido, Reagan, nos Estados Unidos, economistas em torno de instituições atávicas como o FMI, no mundo menos desenvolvido, e uma enorme panóplia de seguidores, mudaram o curso das coisas, defendendo a ideia de que a abertura internacional, afinal, não precisava de ser acompanhada. Sozinha, sem política, a "concorrência" internacional encontraria o equilíbrio necessário.

Assim não foi e o que temos hoje é a reacção dos eleitorados, mais ou menos estruturada, a essa nova realidade, de um Mundo cada vez mais aberto e cada vez menos controlado por políticas redistributivas. Perante esta realidade, várias têm sido as respostas.

O crescimento dos populismos também quer entrar nesta história, mas ele é sobretudo um problema político à procura de pretextos e a globalização é apenas um deles. A prova-lo está facto de o populismo de Mussolini, Salazar ou Hitler ter nascido num período de forte retrocesso da globalização.

Os modelos de reposta aos efeitos da globalização podem ser vistos nas três principais potências da Europa ocidental, sendo que cada uma respondeu segundo o respectivo enquadramento político, institucional e económico.

Na Grã-Bretanha, a resposta veio pelo referendo do Brexit, que mais não fez do que distrair a população com um processo complicado e sem nexo, acompanhado do "projecto medo". Na Alemanha, a resposta veio através da contenção salarial e do reforço da contratação social, permitidas pelo tracto de confiança entre sindicatos, organizações empresariais e governo, no sentido de poupanças salariais de hoje resultarem em aumentos de produtividade e de competitividade, devolvidos em aumentos salariais posteriores. Na Alemanha, os ganhadores são empresas e gestores que melhor sabem devolver lucros, já que as "elites" económicas foram praticamente varridas pelas duas guerras e pelo poder soviético. O modelo alemão de alguma forma é replicado em outros países com forte capacidade exportadora, como a Suécia ou a Polónia.

A França, é o terceiro caso de resposta aos problemas da desigualdade decorrentes da intensificação da globalização. Ao longo de mais de uma década, os sucessivos governos franceses hesitaram quanto ao que fazer. Até que chegou Macron, já visto como salvador do modelo de integração europeia, mas que prontamente mostrou outros objectivos, querendo aproximar-se da herança de Thatcher ou Reagan. Depois de mais uma dose de hesitação, o Presidente francês escolheu finalmente permitir que as trocas internacionais seguissem o seu curso e favorecessem os detentores dos recursos mais escassos, em prejuízo dos demais, dos cidadãos dependentes de salários, de pensões ou de subsídios. Sem as elites do Reino Unido ou, sobretudo, da Inglaterra, sem os equilíbrios institucionais da Alemanha, a França conheceu a revolta das ruas.

As políticas de redistribuição de rendimento têm e sempre terão opositores que procuram mostrá-las como insustentáveis ou ineficientes. Mas a verdade é que durante muito tempo a Europa foi abrindo fronteiras, sendo simultaneamente a região do mundo mais desenvolvida e com mais paz social e isso foi conseguido por via da intervenção politica. É essa que tem de voltar. O mundo aberto e em paz não está para acabar se houver a devida resposta aos novos desafios. Os governos em França e na Grã-Bretanha, hoje ou amanhã, não têm outra escolha.»

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17.3.17

Como estava escrito nas estrelas



… a China já deslocaliza para vizinhos com mão de obra mais barata, enquanto espera que cheguem robôs para os substituírem. E a europeia H&M soma e segue.


«Com um salário mensal mínimo de cerca de 63 dólares, baseado numa semana de trabalho de seis dias, o Myanmar tem uma vantagem competitiva sobre os vizinhos Vietname e Camboja, onde o salário mínimo mensal varia entre 90 e 145 dólares, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).» 
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10.10.16

A desglobalização já está aqui



«A política nunca é certa. Mesmo assim, do Brexit a uma inquietada Zona Euro, até à retórica isolacionista que está a permear as eleições norte-americanas, um facto é claro: os mantras anteriores da globalização e da desregulação estão a ganhar uma oposição crescente.

Os eleitores de todo o mundo desenvolvido estão a manifestar a visão de que os benefícios de operar a uma escala internacional são compensados por salários mais baixos, perspetivas mais fracas de emprego e uma desigualdade crescente. Este sentimento geral ainda não forçou a globalização a uma reversão. Porém, o seu abrandamento tem implicações significativas para cidadãos, governos e também investidores. (…)

Os estímulos fiscais deveriam ser fiscalmente responsáveis. Os fracos níveis de crescimento económico global estão a ser satisfeitos com pedidos crescentes de despesa fiscal e de infraestrutura ao nível local. No entanto, estes deveriam ser compensados com idênticos níveis de preocupação sobre a capacidade para tais gastos. Serão com certeza necessários investimentos massivos nas grandes economias do futuro, como a Índia, Indonésia e África, para não mencionar a reparação e a manutenção necessárias no mundo desenvolvido. Todavia, ao invés de serem financiados por mais dinheiro emprestado, estes investimentos deveriam ambos cobrir os custos de financiamento e acrescentar prosperidade económica e produtividade a estas regiões. De outra forma, equivalem apenas a esquemas Ponzi.

Para muitos, a nossa perspetiva secular do Ocidente de um mundo moderno e estável, sob a Pax Europae e a Pax Americana, parece estar a chegar ao fim. Arriscamo-nos a que, em seu lugar, regressemos a uma versão de países e Estados que precede as soluções coesas da nossa era pós-Segunda Guerra Mundial. E é apenas através de soluções que reconheçam as fraquezas da globalização, mas que dividam mais equitativamente os despojos ao longo e dentro das fronteiras, que conseguiremos evitar mais tensão política.»

11.8.16

Globalização desconectada



«Embora aparentemente elegante, em teoria, a globalização sofre na prática. Essa é a lição do Brexit e da ascensão de Donald Trump, nos Estados Unidos. E também está na base da cada vez mais virulenta reacção contra a China que se estende, agora, a todo o mundo. Aqueles que veneram o livre comércio – incluindo eu – devem enfrentar esta desconexão gritante. (…)

Nos Estados Unidos, a ascendência de Trump e a tracção política adquirida pela campanha do senador Bernie Sanders nas primárias reflectem muitos dos mesmos sentimentos que levaram so Brexit. Da imigração à liberalização do comércio, as pressões económicas sobre uma classe média sitiada contradizem as promessas centrais da globalização. (…)

Naturalmente, esta não é a primeira vez que a globalização enfrenta problemas. A globalização 1.0 - o aumento do comércio global e dos fluxos de capitais internacionais que ocorreu no final do século XIX e início do XX – chegou ao fim entre a Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão. O comércio global diminuiu em cerca de 60% entre 1929 e 1932, com as grandes economias a virarem-se para dentro e a abraçarem políticas comerciais proteccionistas, como a lei americana Smoot-Hawley, de 1930. Mas os riscos podem ser maiores se a poderosa globalização de hoje tiver um destino semelhante. Em contraste com a Globalização 1.0, que estava largamente confinada ao intercâmbio transfronteiriço de bens tangíveis, o alcance da Globalização 2.0 é muito mais amplo, incluindo o comércio crescente de muitos dos chamados intangíveis - outrora serviços não transaccionáveis.

Da mesma forma, os meios da Globalização 2.0 são muito mais sofisticados do que os da sua antecessora. A conectividade da Globalização 1.0 ocorreu através de navios, ferrovias e veículos motorizados. Hoje, esses sistemas de transporte são muito mais avançados - reforçados pela internet e pela melhoria das cadeias de abastecimento globais. A internet também permitiu a disseminação transfronteiriça instantânea de serviços baseados no conhecimento, como programação de software, engenharia e design, avaliação médica e contabilidade, trabalho jurídico e de consultoria.

O contraste mais nítido entre as duas ondas de globalização está na velocidade de absorção e disrupção da tecnologia. Têm sido adoptadas novas tecnologias da informação a um ritmo anormalmente rápido. Só foram precisos cinco anos para 50 milhões de domicílios dos EUA começarem a navegar na Internet, enquanto que foram necessários 38 anos para que um número semelhante tivesse acesso a rádios. (…)

. A formulação de políticas mais adequadas deve ter em conta as pressões poderosas que recaem agora sobre um conjunto muito mais amplo de trabalhadores. A hiper-velocidade da Globalização 2.0 sugere a necessidade de apoios mais rápidos e de maior alcance para a requalificação profissional dos trabalhadores, subsídios de deslocalização, assistência na procura de emprego e subsídios de desemprego com duração superior.

Como nos adverte a história, a alternativa – seja o Brexit ou o novo isolacionismo dos Estados Unidos - é um acidente prestes a acontecer. Cabe aos defensores do livre comércio e da globalização evitar esse cenário, através de soluções concretas que resolvam os problemas muito reais que afligem tantos trabalhadores.»

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7.8.16

Globalização? Segue dentro de momentos…



«A globalização, tal como foi sonhada nos anos 80 após o "Big Bang" do sector financeiro britânico, está ferida de morte. A mensagem está a ser deixada em várias caixas do correio. Mas há quem ainda esteja demasiado distraído para o entender. Afinal, o fenómeno do Brexit é apenas um sinal disso, com o corte com a livre circulação de pessoas, algo que decorre da circulação planetária de dinheiro e de bens. A crise dos migrantes que afecta a Europa e a crescente robotização da indústria, que a curto prazo vai afastar as fábricas da Ásia, vai atirar milhões de "beneficiários" locais para o desemprego. O que levará a movimentos de nacionalismo económico. E a isso alia-se o patriotismo político que está a crescer desenfreadamente em diferentes países fulcrais para a continuação desta globalização como a conhecemos. Como é o caso dos Estados Unidos.

A pátria de todas as formas de globalização (da cultural de Hollywood à da economia digital representada pelas Microsoft, Amazon ou Facebook deste mundo) assiste a uma das suas cíclicas tentativas de se refocar em si próprio. A lógica proteccionista que está a ser o íman da campanha de Donald Trump (prometendo uma América mais forte se afastar os emigrantes e voltar a garantir trabalho a todos os que, no sector industrial, foram excluídos pela deslocalização de fábricas) não é um mero fogacho. É o resultado de um sintoma extremamente forte que contagia a sociedade americana.

O ataque de Trump aos tratados de comércio internacional, que têm sido uma das linhas de força da presidência de Barack Obama (veja-se o esforço derradeiro que está a ser feito para que, à porta fechada, seja assinado o acordo EUA-Europa [TTIP]), mesmo que ele seja extremamente gravoso em termos de segurança alimentar para os europeus e dê às empresas uma força legal sobre os Estados que é bastante controversa, mostra como a fasquia da discussão está alta. E essa mensagem de Trump está a cativar os eleitores norte-americanos, castigados (sobretudo as suas classes médias) por uma globalização que lhes foi vendida como fascinante e que redundou em desemprego e salários estagnados. No fundo, o fim do "american dream".

A força da mensagem do agora candidato republicano a Washington é tal que está a contaminar o sector democrata que até aqui era um forte adepto dos tratados comerciais internacionais sob a direcção de Obama. Hillary Clinton, percebendo para onde corre a brisa eleitoral (e tendo em conta a necessidade de não perder demasiados votos em estados fundamentais como o Ohio, onde este é um tema-chave), também já questiona os benefícios do tratado com o México e com o Canadá (Nafta) e com os países da Ásia/Pacífico, outra das prioridades de Obama. Não é por acaso: nos últimos 15 anos desapareceram perto de cinco milhões no sector industrial americano, resultado da deslocação de empresas, sobretudo no México e na Ásia. Algumas estão a regressar, mas usam robôs para baixar os custos.

Esses americanos, cantados por Bruce Springsteen, estão zangados. E o discurso de Trump assemelha-se, para eles, ao de uma sereia. O medo dos novos tratados é real. E garante votos ao candidato republicano. Mas este sentimento, aliado ao fecho de fronteiras a que se assiste na Europa, tem um significado mais vasto. Que será claro a muito curto prazo.»

Fernando Sobral

10.1.14

Deslocalizações: futurologia



2014
A empresa H&M fabricava na China, mas passa agora 80% da sua produção para a Etiópia. Os 300 euros de salário, que pagava aos trabalhadores chineses, parecem-lhe excessivos. No país africano só pagará 45 euros mensais.


20?4
A empresa H&M fabricava na Etiópia, mas passa agora 80% da sua produção para a Europa do Sul. Os 300 euros de salário, que pagava aos trabalhadores etíopes, parecem-lhe excessivos. Nos países do Sul europeu só pagará 45 euros mensais. 

Impossível, improvável? Alguém garante?
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16.11.13

Mudam-se os tempos, mudam-se os chineses


Foi com um sorriso que li esta notícia no caderno Economia do Expresso de hoje. Não que não seja perfeitamente natural que o comércio de luxo se adapte às exigências e ao conforto dos seus melhores clientes, mas porque, há meia dúzia de dias, entrei numa loja chinesa do meu bairro onde vi, pela primeira vez, empregadas portuguesas.

Não sei se as de Chongqing que lá estavam até agora se mudaram directamente para a Avenida da Liberdade, mas é pouco provável. Julgo é que os pragmáticos donos das lojas baratas, cada vez mais frequentadas por portugueses, terão percebido o mesmo que os sócios das cadeias de luxo das nossas montras mais elitistas: o cliente é quem mais ordena e é fundamental perceber se ele quer uma chave de parafusos ou dois pares de cuecas.

Nada contra se tudo isto reflectisse, apenas ou sobretudo, um novo equilíbrio como resultado positivo da globalização. Mas infelizmente não é o caso. 
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19.11.12

Continentes à venda



Leio no Público espanhol que «as grandes potências e os países emergentes superpovoados estão a comprar grandes superfícies de terras cultiváveis nos países em desenvolvimento, para garantir o futuro alimentar à custa das populações que passam fome». Não é novidade, mas a extensão do fenómeno merece atenção.

Arabia Saudita, Emiratos Árabes Unidos, Coreia do Sul, Japão, China e India adquirem ou controlam extensões significativas, em África e na América Latina, naquilo que é identificado como «conflito geopolítico» do ano, que se transformará em tema decisivo nas relações internacionais do século XXI. Estamos perante uma área correspondente à de toda a Europa Ocidental e o director da FAO fala de «neocolonialismo», já que estão em causa «Estados pobres que produzem alimentos para os países ricos à custa da sua própria população faminta».

É o próprio Banco Mundial que reconhece que este fenómeno implica frequentemente deslocalização de populações e abandono das suas culturas tradicionais, assistindo-se à exportação de «milhares de toneladas de alimentos de países que, paradoxalmente, vivem da assistência humanitária internacional para combater a fome e a desnutrição».

Tudo isto ligado a gigantesca especulação financeira que transforma o mercado de alimentos num verdadeiro casino (surprise: com implicação da Goldman Sachs neste domínio, desde 1991).

Vale a pena ler todos os detalhes no artigo do Público.es.

Os colonizadores mudaram mas, para muitos, a colonização continua. Diferente, certamente, mas não menos cruel nem menos injusta. 
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18.5.12

Será também assim na Europa




«El crecimiento de la población hispana, con un alto índice de natalidad, así como de la minoría asiática, confirma una tendencia esperada desde hace varios años. 

El 49,6% de todos los nacimientos entre julio de 2010 y el mismo mes de 2011 fueron de niños blancos, mientras que los hijos de parejas hispanas, asiáticas, afroamericanas o de diferentes razas ascendieron a un 50,4%. Los estadounidenses blancos, sin embargo, seguirán siendo el grupo mayoritario de población hasta 2042, según las proyecciones de la Oficina del Censo.» 

Pode o Ocidente «civilizado» construir muros ou barreiras burocráticas que não vencerá esta guerra. Nem tem qualquer direito de a vencer. 
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23.7.11

Se a Amazónia deve ser internacionalizada


... internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro.

A história tem onze anos mas merece ser recordada. O brasileiro Cristovam Buarque, hoje senador e que foi ministro da Educação de Lula em 2003-2004, respondeu a um estudante que o interrogou sobre a possibilidade de internacionalizar a Amazónia com o discurso que pode ser ouvido neste vídeo.



O texto do discurso:

«Fui questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia, durante um debate, nos Estados Unidos. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para uma resposta minha. De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia.

Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia é para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio da humanidade.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país.

18.2.11

Medo ou optimismo?


Tendo como referência o valor do PIB, foi declarado que a China ultrapassou o Japão, é já a segunda potência mundial e poderá tirar o primeiro lugar aos Estados Unidos em 2025.

Percurso complicadíssimo e cheio de escolhos, num país em que cerca de cem milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia, a inflação derrapa, o perigo de a bolha imobiliária rebentar é uma realidade, há falta de mão-de-obra qualificada em muitos sectores e onde as exportações representam 40% do PIB, quando os seus principais mercados externos estão em recessão ou perto dela.

Last but not the least, o governo chinês sabe que não poderá dominar e contrariar eternamente as reivindicações de direitos políticos dos seus cidadãos e tem de encarar uma vez por todas essa situação.

Externamente, a China enfrenta a desconfiança da Europa e dos Estados Unidos que temem a sua hegemonia no plano económico e desconfiam da concorrência no palco geopolítico mundial.

E, no entanto, há também razões para optimismo: «Devíamos regozijarmo-nos porque centenas de milhões de chineses estão a conseguir, pouco a pouco, sair da miséria. Mas há mais do que isso. Uma economia chinesa próspera é uma oportunidade para o conjunto do planeta. Grande consumidora de matérias-primas, ela dá um novo impulso aos países produtores, nomeadamente de África e da América Latina. Com uma população de 1.300 milhões de habitantes, oferece um gigantesco mercado às grandes e às pequenas multinacionais que lhe fornecem produtos e serviços.»

(A partir daqui.)

Claro que tem de ser possível tirar partido das grandes potencialidades de tudo isto e de muito mais. Mas não sei se estamos no bom caminho, sobretudo se temos no horizonte os enquadramentos ideológicos mínimos, indispensáveis para gerir correctamente o que aí está e o que está para chegar, necessariamente a velocidades vertiginosas. O modelo de gestão da actual «crise» não augura nada de bom. Optimismo muito mitigado, portanto…
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23.12.10

Globalização, esse bode expiatório


Tornou-se um lugar-comum considerar como provada a incompatibilidade entre globalização (inevitável), por um lado, e salvaguarda de sistemas de protecção social e equilíbrio na distribuição das riquezas, por outro, anunciando-se portanto a derrota fatal destes últimos. Não é assim, como bem se explica neste texto:

Os excertos que retiro não dispensam a leitura na íntegra.

«Por un lado, esa afirmación implica dar como inmutable el actual orden de cosas, suponer que el modo en que actualmente se regulan y gobiernan los fenómenos sociales no tiene alternativa ni puede funcionar de otro modo. Es decir, plantear los problemas sociales como si estos se presentaran siempre dentro de unos mismos valores de un constante eje de coordenadas. (…)

La realidad, por tanto, es que el tipo de organización socioeconómica de nuestro tiempo, el tipo específico de globalización dominante basada en la desigualdad, en el privilegio de las relaciones de mercado y en la plena libertad de movimientos del capital, es lo que hace inviable la extensión de los sistemas de bienestar social porque estos lógicamente requieren recursos que implicarían una merma sustancial del excedente que ahora se apropian en mucha mayor medida que en otras épocas los propietarios de capital. (…)

Un argumento incorrecto porque lo que, por el contrario, habría que plantear en primer lugar serían las exigencias de bienestar que habría que garantizar en todo el mundo para que la población pudiera satisfacer sus necesidades y a partir de ahí determinar los procesos que podrían garantizarla. (…)

La competitividad que se ha generalizado en los últimos decenios a través de los salarios bajos, de la precariedad en el trabajo y la inseguridad generalizada responde a una lógica que concentra mucho la renta y la riqueza en cada vez grupos más pequeños de la población pero a la larga generalizadamente empobrecedora. (…)

En definitiva, la incompatibilidad no se produce entre el Estado de Bienestar y la globalización, sino entre la globalización bajo las políticas neoliberales y el bienestar humano. Y la elección no puede ser la que predomina, sacrificar el bienestar para salvar el beneficio de unos pocos, sino limitar el beneficio para garantizar el bienestar de todos.

Una elección que, en todo caso, no pueden resolver los economistas sino que tiene que imponer la ciudadanía.»
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11.12.10

Desigualdades & inseguranças


Em Le Monde Diplomatique deste mês, um excelente artigo de Sandra Monteiro. A não perder.

CIMEIRA DA OTAN, GREVE GERAL
As desigualdades são a maior insegurança

No final de Novembro, com poucos dias de intervalo, Portugal foi palco de dois acontecimentos que mostram bem como existem, em linhas gerais, duas narrativas em disputa sobre o que se entende por segurança. O primeiro foi a Cimeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que teve lugar em Lisboa a 19 e 20 de Novembro, e o segundo a Greve Geral de 24 de Novembro, a maior que o país conheceu em toda a sua história. A Aliança Atlântica privilegia uma concepção de segurança como resposta político-militar a ameaças que, em qualquer parte do globo, ponham em causa os interesses estratégicos dos seus Estados-membros. O movimento de contestação às políticas de austeridade que se traduziu na Greve Geral entende a segurança como a construção de sociedades de bem-estar, processo em que é dada prioridade ao combate às desigualdades socioeconómicas.

A primeira narrativa toma como um dado a existência, e até a multiplicação, de ameaças à segurança (das convencionais às sanitárias e ambientais), não actuando sobre as suas causas e acabando por recorrer a meios que tendem até a agravar os problemas A segunda narrativa procura intervir sobre as causas fundamentais da insegurança que corrói as sociedades (das assimetrias de rendimentos à injustiça fiscal, ao desemprego ou à pobreza), inserindo-se numa história de movimentos sociais que tem sido responsável pelas configurações de sociedades mais estáveis e morais, mais coesas e seguras, que conhecemos. (…)

É a clarificação de posições divergentes que dignifica a informação e o debate de ideias e que permite que os cidadãos participem na democracia como coisa sua. A imagem meramente ritualista dos acontecimentos, seja ela positiva ou negativa, que ignora os seus contextos e o que de substantivo neles está em jogo, assemelha-se, na melhor hipótese, a esses alimentos-lixo que podem dar alguma satisfação momentânea mas são vazios de nutrientes ou, na hipótese pior (mas realista), esconde a imposição mediática de falsos consensos políticos que só traduzem uma relação de poder. E, nas condições actuais, bem se sabe de que lado está o poder, o dos que tudo podem fazer, sem nunca pagarem por isso, porque outros são sempre chamados a pagar a factura. Até que um dia a devolvam ao remetente, de preferência com juros de mora e indemnização por danos causados.

(Na íntegra aqui.)
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5.8.10

O que aí vem ?


Absolutamente a não perder : a longa entrevista de Teresa de Sousa (P2, Público de hoje) ao sempre mais que clarividente José Manuel Félix Ribeiro : «A Europa vai ser comprada pela China e pelos príncipes árabes».

A Alemanha quer o euro porque quer redesenhar o mapa monetário mundial. A China quer o euro porque não quer ficar sozinha com os EUA. Portugal, para sobreviver, vai ter de tirar partido da globalização. No cenário, optimista, de a globalização sobreviver à crise.

Muita informação – para reflexão. Dois excertos, entre muitos possíveis:

«O que vai tornar este período mais difícil é ainda não se saber exactamente a natureza desta crise. Se esta crise for uma crise de rearrumação da globalização, quem estiver cá [em Portugal] a governar vai ter de exercer funções que antes não eram precisas por causa da Europa. Vamos demorar tempo até nos adaptarmos a esta nova realidade e vai levar tempo a que a classe política evolua. Isso não quer dizer que a Europa não tivesse sido boa. Mas criou, em simultâneo, um modelo de funcionamento que não gera as exigências que agora vão ser precisas. As pessoas espantam-se que os dirigentes políticos tenham perdido qualidade. Era inevitável. Era um grupo que devia apenas seguir o que se decidia em Bruxelas, não era preciso mais.»

«Trouxemos cá o presidente da Infosys [empresa indiana líder mundial nas tecnologias da informação], o senhor Murty, para uma coisa sobre as tecnologias da informação. Queríamos trazer alguém de topo no sector e que fosse indiano. O senhor foi capa da Time mas aceitou vir cá com muita facilidade (…). A certa altura, quando o trazíamos do aeroporto, perguntámos-lhe porque é que nunca tinha investido em Portugal. Ele respondeu que, para isso, tinha que ter resposta a algumas perguntas prévias. Quais eram as perguntas? Como é que é a relação das vossas crianças com a matemática; a partir de que ano é que escrevem e falam inglês correctamente; como é que estão de talentos; e quantos engenheiros informáticos formam por ano.»
(Quais terão sido as respostas?...) 
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17.3.10

Humanos como nós


Se abrir uma torneira é para nós um gesto elementar e automatizado, há cerca de 900 milhões de humanos – quase 90 «Portugais» - para quem continua a tratar-se de uma simples miragem. Como desconhecido é, para 2.600 milhões, o que significa ter acesso a um mínimo de saneamento básico.

As regiões-vítima são, como se sabe, a África Subsariana e o Sudoeste Asiático - apesar de muitos esforços, os progressos acabam por ser muitas vezes neutralizados pelo elevado crescimento demográfico.


Quando leio notícias deste tipo, «regresso» imediatamente ao Cambodja e a imagens que nunca esquecerei e que descrevi então neste blogue há quase um ano:

«À beira de uma estrada e de um canal, e sobretudo num extensíssimo lago, muitos milhares de pessoas vivem numa situação absolutamente inimaginável. Em barracas sobre estacas ou flutuantes, acumulam-se famílias cheias de filhos e até de animais, sem quaisquer condições de higiene, com esperança de vida abaixo dos 50 anos e onde as crianças que morrem todos os dias são pura e simplesmente atiradas ao lago.
A percepção da pobreza extrema continua em Phnom Penh que viu a sua população aumentar para dois milhões de habitantes desde que duzentas fábricas de têxteis aqui se instalaram, muitas como resultado de deslocalizações dos nossos países. Maná caído do céu, mesmo quando se trabalha 364 dias por ano, com condições e salários que não é difícil imaginar.»

Nós, por cá, todos mais ou menos bem apesar das crises e o resto são lamúrias: hoje, 4ªf, às 3:00 da tarde, fazia-se fila para pagar numa loja do Colombo. E no Domingo passado não se conseguia uma mesa vaga em restaurantes, nada baratos, nas praias da Caparica.

Soa a canto do cisne.

22.12.09

Há sempre pastéis de nata em Xangai



















E não só agora, com bolo-rei, vinho do Porto e filigrana. Como há chocolates Godiva, perfumes Chanel, relógios Gucci (verdadeiros) e uma arquitectura fabulosa numa espécie de nova Manhattan. A terra é redonda, tornou-se pequena e tudo chega rapidamente ao outro lado, onde está agora o centro do mundo.

O que dói é ver a Europa a marcar passo – na melhor das hipóteses.

Já tudo foi dito sobre o que se passou em Copenhaga, com culpas e desculpas, mas uma coisa parece certa: «a Europa julgou que podia convencer o resto do mundo a pensar como ela» - o que já não acontece -, com voluntarismo político e «uma certa dose de oportunismo: para os dirigentes europeus, confrontados com arsenais de impopularidade (...), a luta contra as mudanças climáticas parecia redentora». Não foi.

Dito de outra maneira: «O discurso da União Europeia parece-se com o de um velho hippie que alerta os filhos contra os perigos da droga.» Assino por baixo.

(Fonte)