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14.8.17

Verão de 1967 – A caminho de S. Francisco



Sucedem-se os textos sobre o Verão de 1967, agora que completa 50 anos um marco na vida de toda uma geração que o viveu «na hora» e, por tabela, na de outras que foram herdando farrapos. Foi uma magnífica silly season, mesmo que a expressão ainda não fosse usada, com S. Francisco no centro do mundo e flower power como insígnia de muitas utopias.

O Negócios de hoje inclui um longo texto sobre o tema e utilizarei uma parte do mesmo.

«São Francisco, no Verão de 1967, foi o centro de uma revolução cultural, musical e social, o delicado ponto de equilíbrio que prometia mudar a História. E que, até certo ponto, mudou.»

«Foi o ponto alto da cultura hippie, mas as raízes do movimento estavam muitos anos antes, nos heróis literários da contracultura que ficaram conhecidos como a geração Beat. Desde os anos 40 que Jack Kerouac e os seus comparsas perseguiam uma forma diferente de vida, de viagens à boleia, de música e de libertação dos espartilhos dos costumes da sua geração.»

«O movimento hippie ganha embalagem a partir do final de 1965 e em todo o ano de 1966, numa altura em que o LSD já tinha deixado de ser um passatempo de intelectuais e chegara às ruas. A sua junção com a música rock consolida-se. (…) A imprensa nacional toma bem nota do fenómeno, e todo o país fica a conhecer o universo libertário de São Francisco. Resultado: enquanto os pais lêem horrorizados as notícias, os filhos só pensam em juntar-se à rebelião hippie.

Depois de uma invasão de umas dezenas de milhares de jovens em 1966, com o eco da imprensa, tudo ia subir de dimensão, tendo como lema o oportuno hino "San Francisco (Be sure to wear flowers in your hair)", editado em Maio de 1967. A canção foi um grande sucesso e serviu de convite para o Verão que se seguia.»

«Do outro lado do Atlântico, a cultura hippie também se fazia sentir, fruto do intenso intercâmbio musical entre a Inglaterra e os EUA. Acima de todos estavam, naturalmente, os Beatles. É de 1967 o histórico "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", álbum conceptual editado em Maio que deixou os músicos rock de todo o mundo a coçar a cabeça e a pensar como seria possível fazer algo tão criativo e ao mesmo tempo acessível (Brian Wilson, dos Beach Boys, foi apenas um deles). Esse disco foi a face mais visível, mas há mais exemplos no Reino Unido. Donovan marcou pontos com o seu "Mellow Yellow", os Moody Blues deram um passo em frente com "Days of Future Passed", e os Cream atacaram com "Disraeli Gears", depois de Jimi Hendrix ter aterrado em Londres e tirado o ceptro a todos os grandes guitarristas locais, de Eric Clapton a Pete Townshend, dos The Who. Num caminho mais próprio houve ainda a estreia em disco dos Pink Floyd, com o psicadelismo tipicamente britânico de "The Piper at the Gates of Dawn".»

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E em Portugal? Também o vivemos, sim, e com um enorme entusiasmo, apesar do cinzentismo salazarista e de todo o atraso. «Vivemos»? Uma minoria urbana, obviamente, mas que viu em tudo o que estava a acontecer uma enorme razão de esperança e de alegria e que cantava e dançava «If you are going to San Francisco» como se estivesse a caminho. E, de certo modo, estava mesmo.


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12.5.17

Salazar/ Fátima 1967



Tem-se escrito tanto disparate sobre a atitude de Salazar em 1967, quando Paulo VI acabou por vir a Fátima, que deixo este apontamento (Franco Nogueira, Salazar, O Último Combate (1964-1970), p. 275).

Quem tiver este livro em casa pode evitar o cansaço incompetente das televisões e perceber o que se passou há 50 anos. 
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As guerras de Fátima à volta da paz


@João Carlos Santos

Excertos de um texto de António Marujo o Expresso diário de 12.05.2017:


NB - Não foi a «única» vez que fui a Fátima, mas sim a «última»...
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Fátima – hoje e há 50 anos



É estranho ou talvez não. Não liguei nenhuma às visitas de João Paulo II e de Bento XVI, mas a de hoje mexe comigo e não necessariamente para grandes entusiasmos. Hoje festeja-se um centenário e, exactamente há 50 anos, estive em Fátima para concretizar uma acção mais ou menos clandestina contra o salazarismo, junto de um papa – Paulo VI – que não alimentava menos esperanças de progressismo para o mundo do que Francisco, ainda na senda do Vaticano II (pouco depois, vieram as grandes desilusões, é verdade).

Não desejo tirar emoção nem esperanças a ninguém, apesar do entusiasmo alimentado pela parafernália de marketing salvífico e anestesiante dos nossos meios de comunicação, mas enfim… Para se entender de que falo, remeto para um texto que em tempos publiquei. 
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28.4.17

Há 50 anos: Salazar e a primeira vinda de um papa a Fátima



No dia em que o nosso insigne ditador completaria 128 anitos, recordo como foi nulo o entusiasmo com que encarou a visita de Paulo VI a Fátima por ocasião do 50º aniversário das alegadas «aparições» e retomo excertos de um texto retirado do meu livro Entre as brumas da memória – Os católicos portugueses e a ditadura, Âmbar, 2007:

Na segunda metade do ano de 1966, começou a ser ventilada a hipótese de Paulo VI se deslocar a Fátima por ocasião do cinquentenário das aparições, em 13 de Maio de 1967.

Em Novembro de 1966, a Conferência Episcopal dirigiu- lhe um convite formal nesse sentido, mas só em 1 de Maio de 1967 é que foi oficiosamente comunicada a decisão definitiva à embaixada de Portugal no Vaticano. Viria a ser oficialmente confirmada pelo próprio Papa, dois dias depois, na Basílica de S. Pedro.

De Novembro a Maio, subsistiu a dúvida e a posição de Salazar foi clara: «Não devemos dar um único passo ou ter um gesto que o Papa possa interpretar como significando interesse da nossa parte em que venha a Fátima.» (1) O ressentimento [devido à ida do Papa a Bombaim, em 1964, considerada como uma afronta depois da anexação de Goa pela União Indiana] não tinha passado. Mas quando a decisão foi conhecida, o governo afirmou que, «seguro de interpretar os sentimentos profundos de todos os portugueses, quer nesta ocasião expressar a honra e o júbilo da Nação Fidelíssima perante este acontecimento da maior relevância histórica» (2). (…)

Aproximava-se o dia 13 de Maio. Soube-se que o Vaticano tinha «despolitizado» a viagem: o Papa não viria a Lisboa (o avião papal aterraria em Monte Real), não condecoraria ninguém (em Bombaim, o presidente da União Indiana tinha recebido a mais alta condecoração concedida pelo Vaticano a não cristãos), não seria hóspede do governo mas sim do bispo de Leiria.

Sabe-se agora que, cerca de uma semana antes da viagem, o governo recebeu uma informação da Embaixada de Portugal em Madrid, segundo a qual se preparavam atentados contra personalidades portuguesas de vulto e contra o próprio Papa. De Nova York, terá vindo uma outra notícia dizendo que um grupo de oficiais estava a organizar um golpe de estado contra Salazar. Estes boatos obrigaram a um reforço das medidas de segurança em Fátima, impedindo, por exemplo, que Paulo VI fizesse alguns percursos a pé, como inicialmente previsto. (…)

Nos bastidores do poder, passaram-se episódios que só muito mais tarde viemos a conhecer. Com a aversão que tinha a Paulo VI e com a sua proverbial misantropia, Salazar ficou furioso quando soube, na véspera das comemorações e já em Monte Real, que o Papa queria que a irmã Lúcia estivesse presente, porque considerou tratar-se de um acto puramente demagógico. Ameaçou mesmo regressar imediatamente a Lisboa, mas acabou por ficar – no Hotel de Monte Real, onde a estadia, com meia pensão, custou 220$00…

Para Franco Nogueira, «foi um dia de grande emoção popular, de grande espectáculo, de grande política para a ala conservadora da Igreja.» (3)

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(1) Franco Nogueira, Salazar, Vol. VI – O Último Combate (1964 – 1970), 3ª edição, Civilização, Coimbra, 2000, p. 275.
(2) Idem, ibidem, p. 278.
(3) Franco Nogueira, Um político confessa-se – Diário (1960-1968), Civilização, Porto, 1986, p. 236. 
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13.5.16

13.05.1967 – Fátima, no dia em que estive a um metro de Salazar e de um Papa



Foi há 49 anos, em Fátima, por ocasião da primeira visita de um papa a Portugal. Eu pertencia então à Junta Central da Acção Católica, uma poderosíssima organização que contava com mais de 100.000 membros e que, pela primeira vez na sua história, não era presidida por um bispo ou por um padre. Dela faziam parte, não só mas também, alguns dos chamados «católicos progressistas» que por lá andaram dois anos até entrarem em rota de colisão irreversível com Cerejeira.

Quando se confirmou que Paulo VI viria a Fátima por ocasião do cinquentenário das aparições, em Maio de 1967, instalou-se uma grande consternação nos meios da oposição, sobretudo católica, pelo que seria visto, no mínimo, como uma quebra do isolamento em que Portugal se encontrava na cena internacional por causa da guerra em África – isolamento que aprovávamos e no qual depositávamos grandes esperanças, não só para a resolução do problema da guerra em si, mas para a própria queda do fascismo.

Todas as pressões para que a visita não acontecesse falharam, mas porque contra factos poucos argumentos nos restavam, passámos ao ataque, já que se havia algo que então nos caracterizava era a tentativa de «irmos a todas». Entre várias iniciativas, foi preparada uma a que se deu grande importância: a elaboração de um documento altamente sigiloso, a fazer chegar directamente ao Papa, no qual um numeroso grupo de antigos e então actuais dirigentes da Acção Católica e de outras organizações informava detalhadamente o Papa sobre a situação política e social existente em Portugal, por eles considerada inaceitável e mesmo contrária aos ensinamentos da própria Igreja – texto forte quanto a termos e quanto a conteúdo. Havia que garantir que o documento fosse entregue em boas mãos e alguém nos indicou a pessoa certa: um antigo secretário particular do papa João XXIII, que integraria a comitiva de Paulo VI.

Como membros da Junta Central da Acção Católica fomos convidados privilegiados, juntamente com as autoridades civis e eclesiásticas, e estivemos por isso presentes, como tínhamos aliás exigido (em parte para que esta acção planeada pudesse ser levada a bom termo), na tribuna de honra, em Fátima, muito perto de Salazar e da irmã Lúcia (e do Papa e de Américo Tomás, claro...). Com o nosso livre-trânsito, circulámos por toda a parte e encontrámos facilmente o tal mensageiro seguro, a quem um outro membro da Junta e eu própria entregámos a preciosa missiva (sem que, por razões óbvias, os outros membros da Junta, que de nada sabiam, se tivessem apercebido de qualquer manobra). De Roma, viria mais tarde um cartão com a indicação de «missão cumprida».

Tudo isto parecerá hoje inócuo, mas não o era então. E saímos de Fátima com a consolação de termos feito uma finta durante um desafio em terreno mais ou menos adverso, num tipo de jogada em que as circunstâncias nos tinham tornado quase especialistas. E que nos divertiam bastante, devo confessá-lo.

Esta vinda de Paulo VI a Fátima, pela desilusão que constituiu, com tudo o que a precedeu e que a rodeou (e que seria longo contar aqui), foi decisiva para o lento abandono da Igreja por muitos católicos. João Bénard da Costa veio a escrever mais tarde: «Se me perguntarem de quando eu dato a minha saída da Igreja, respondo que do dia 13 de Maio de 1967, o dia da visita de Paulo VI a Portugal.» Quanto a mim, também nunca mais regressei às redondezas da Cova da Iria. A não ser para almoçar no Tia Alice. 
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28.3.16

Em 1967, foi polémica a vinda de um papa a Fátima



Era minha intenção ter «desenterrado» este texto quando Marcelo Rebelo de Sousa foi a Roma convidar oficialmente o papa para vir a Fátima em 2017, mas os dias foram passando e só agora lá chego.

Quando já é praticamente certa a vinda do actual papa ao centenário que será celebrado em Fátima, recuo cinquenta anos e recordo factos, provavelmente pouco conhecidos ou entretanto apagados das memórias, relacionados com a primeira visita de um papa a Portugal – Paulo VI, por ocasião do cinquentenário das supostas aparições na Cova da Iria –, nomeadamente o insistente desejo de Salazar para que a mesma não tivesse lugar.

Este texto é retirado do meu livro Entre as brumas da memória – Os católicos portugueses e a ditadura, Âmbar, 2007. Limito-me aos parágrafos que referem os factos, omitindo as reacções dos chamados «católicos progressistas» – que foram muitas e que, em princípio, virei a abordar mais tarde.

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Na segunda metade do ano de 1966, começou a ser ventilada a hipótese de Paulo VI se deslocar a Fátima por ocasião do cinquentenário das aparições, em 13 de Maio de 1967.

Em Novembro de 1966, a Conferência Episcopal dirigiu- lhe um convite formal nesse sentido, mas só em 1 de Maio de 1967 é que foi oficiosamente comunicada a decisão definitiva à embaixada de Portugal no Vaticano. Viria a ser oficialmente confirmada pelo próprio Papa, dois dias depois, na Basílica de S. Pedro.

De Novembro a Maio, subsistiu a dúvida e a posição de Salazar foi clara: «Não devemos dar um único passo ou ter um gesto que o Papa possa interpretar como significando interesse da nossa parte em que venha a Fátima.» (1) O ressentimento [devido à ida do Papa a Bombaim, em 1964, considerada como uma afronta depois da anexação de Goa pela União Indiana] não tinha passado. Mas quando a decisão foi conhecida, o governo afirmou que, «seguro de interpretar os sentimentos profundos de todos os portugueses, quer nesta ocasião expressar a honra e o júbilo da Nação Fidelíssima perante este acontecimento da maior relevância histórica» (2). (…)

Aproximava-se o dia 13 de Maio. Soube-se que o Vaticano tinha «despolitizado» a viagem: o Papa não viria a Lisboa (o avião papal aterraria em Monte Real), não condecoraria ninguém (em Bombaim, o presidente da União Indiana tinha recebido a mais alta condecoração concedida pelo Vaticano a não cristãos), não seria hóspede do governo mas sim do bispo de Leiria.

Sabe-se agora que, cerca de uma semana antes da viagem, o governo recebeu uma informação da Embaixada de Portugal em Madrid, segundo a qual se preparavam atentados contra personalidades portuguesas de vulto e contra o próprio Papa. De Nova York, terá vindo uma outra notícia dizendo que um grupo de oficiais estava a organizar um golpe de estado contra Salazar. Estes boatos obrigaram a um reforço das medidas de segurança em Fátima, impedindo, por exemplo, que Paulo VI fizesse alguns percursos a pé, como inicialmente previsto. (…)

Nos bastidores do poder, passaram-se episódios que só muito mais tarde viemos a conhecer. Com a aversão que tinha a Paulo VI e com a sua proverbial misantropia, Salazar ficou furioso quando soube, na véspera das comemorações e já em Monte Real, que o Papa queria que a irmã Lúcia estivesse presente, porque considerou tratar-se de um acto puramente demagógico. Ameaçou mesmo regressar imediatamente a Lisboa, mas acabou por ficar – no Hotel de Monte Real, onde a estadia, com meia pensão, custou 220$00…

Para Franco Nogueira, «foi um dia de grande emoção popular, de grande espectáculo, de grande política para a ala conservadora da Igreja.» (3)

Para os que não se incluíam nessa «ala conservadora», as feridas estavam abertas e, para alguns, não se fechariam.

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Lá chegarei um dia destes, até porque estive muito envolvida em todo o processo.

(1) Franco Nogueira, Salazar, Vol. VI – O Último Combate (1964 – 1970), 3ª edição, Civilização, Coimbra, 2000, p. 275.
(2) Idem, ibidem, p. 278.
(3) Franco Nogueira, Um político confessa-se – Diário (1960-1968), Civilização, Porto, 1986, p. 236.
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26.11.14

Há 47 anos, as cheias em Lisboa



«Na madrugada do dia 26 de Novembro de 1967, a região de Lisboa foi palco da ocorrência de fortes chuvadas que originaram 300 mortos, milhares de desalojados e a destruição de inúmeras habitações. A imprensa da época noticia a tragédia, de que transcrevemos alguns excertos.

“Lisboa mais abastada seguia para o cinema ou refastelava-se na poltrona caseira, assistindo ao famigerado folhetim 'Gente Nova' da RTP, à espera de mais uma aventura do 'Santo'. A Lisboa menos favorecida estava no café para a bica, ou ficara no bairro suburbano, julgando que o seu fim-de-semana iria ser igual aos outros. Quando o Roger Moore chegou aos receptores, já os tectos humildes começavam a meter água, as ruas pareciam rios, as praças, lagos; e os cinéfilos, bloqueados nos engarrafamentos de trânsito haviam esquecido o Éden ou o S. Jorge e pensavam na melhor maneira de voltar a casa.

Há doze horas que chovia. Os colectores não davam vazão à enxurrada e, logo que a maré do estuário onde eles despejam as águas que vão correndo pela cidade atingiu a sua altura máxima, já não se sabia onde acabava o Tejo e começava Lisboa.” (Flama, n.º 1030, Edição Extra, 1 de Dezembro de 1967, pág. 4)

“Como aconteceu? Como aconteceu? Repete-se a questão. Foi na madrugada de 25 para 26 de Novembro, de sábado para domingo. Chovia. É normal, no Inverno. Poderia ter sido uma chuva benéfica, capaz de abrir em frutos novos muitos campos. Mas não foi. Para muita gente (demasiada gente) ela foi a desgraça ou a morte. Ninguém sabe exactamente a que horas aconteceu a tragédia. Os ponteiros de muitos relógios agora parados indicam vários instantes precisos para diversas localidades. Duas e cinco aqui, uma e cinquenta e três acolá, três e treze noutro lugar. Poderá ter sido bastante mais cedo: pouco antes de terminar a festa que para milhões de espectadores ainda é a TV.” (Flama, n.º 1031, 18 de Dezembro de 1967, pág. 40-41)»

(Da página da Protecção Civil de Lisboa no Facebook)

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13.5.13

No dia em que estive a um metro de Salazar e da irmã Lúcia



Foi há 46 anos, em Fátima, por ocasião da primeira visita de um papa a Portugal. Eu pertencia então à Junta Central da Acção Católica, uma poderosíssima organização que contava com mais de 100.000 membros e que, pela primeira vez na sua história, não era presidida por um bispo ou por um padre, mas sim por Sidónio Paes (pai de Bernardo Sassetti). Dela faziam parte, não só mas também, alguns dos chamados «católicos progressistas» que por lá andaram dois anos até entrarem em rota de colisão irreversível com o cardeal Cerejeira.

Quando se confirmou que Paulo VI viria a Fátima por ocasião do cinquentenário das aparições, em Maio de 1967, instalou-se uma grande consternação nos meios da oposição, sobretudo católica, pelo que seria visto, no mínimo, como uma quebra do isolamento em que Portugal se encontrava na cena internacional por causa da guerra em África – isolamento que aprovávamos e no qual depositávamos grandes esperanças, não só para a resolução do problema da guerra em si, mas para a própria queda do fascismo.

Todas as pressões para que a visita não acontecesse falharam, mas porque contra factos poucos argumentos nos restavam, passámos ao ataque, já que se havia algo que então nos caracterizava era a tentativa de «irmos a todas». Entre várias iniciativas, foi preparada uma a que se deu grande importância: a elaboração de um documento altamente sigiloso, a fazer chegar directamente ao Papa (e nunca através da Nunciatura...), no qual um numeroso grupo de antigos e então actuais dirigentes da Acção Católica e de outras organizações informava detalhadamente o Papa sobre a situação política e social existente em Portugal, por eles considerada inaceitável e mesmo contrária aos ensinamentos da própria Igreja – texto forte quanto a termos e quanto a conteúdo. Havia que garantir que o documento fosse entregue em boas mãos e alguém nos indicou a pessoa certa: um antigo secretário particular do papa João XXIII, que integraria a comitiva de Paulo VI. 

Como membros da Junta Central da Acção Católica fomos convidados privilegiados, juntamente com as autoridades civis e eclesiásticas, e estivemos por isso presentes, como tínhamos aliás exigido (em parte para que esta acção planeada pudesse ser levada a bom termo), na tribuna de honra, em Fátima, muito perto de Salazar e da irmã Lúcia (e do Papa e de Américo Tomás, claro...). Com o nosso livre- trânsito, circulámos por toda a parte e encontrámos facilmente o tal mensageiro seguro, a quem um outro membro da Junta e eu própria entregámos a preciosa missiva (sem que, por razões óbvias, os outros membros da Junta, que de nada sabiam, se tivessem apercebido de qualquer manobra). De Roma, viria mais tarde um cartão com a indicação de «missão cumprida».

Tudo isto parecerá hoje inócuo, mas não o era então. E saímos de Fátima com a consolação de termos feito uma finta durante um desafio em terreno mais ou menos adverso, num tipo de jogada em que as circunstâncias nos tinham tornado quase especialistas. E que nos divertiam bastante, devo confessá-lo.

Esta vinda de Paulo VI a Fátima, pela desilusão que constituiu, com tudo o que a precedeu e que a rodeou (e que seria longo contar aqui), foi decisiva para o lento abandono da Igreja por muitos católicos. João Bénard da Costa veio a escrever mais tarde: «Se me perguntarem de quando eu dato a minha saída da Igreja, respondo que do dia 13 de Maio de 1967, o dia da visita de Paulo VI a Portugal.» Quanto a mim, também nunca mais regressei às redondezas da Cova da Iria. A não ser para almoçar no Tia Alice
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25.6.12

1967 foi ontem



… e, lembro-me bem do dia 25 de Junho, quando foi lançado All you need is love, dos Beatles. A BBC convidou-os a participarem no primeiro evento transmitido mundialmente via-satélite, ao vivo e simultaneamente para 26 países, e, vá lá saber-se por que milagre inesperado, quase no fim do reinado do dr. Salazar, Portugal foi um desses países. 

Avisados antecipadamente, reunimo-nos em casa de amigos e vimos e escutámos a emissão, comovida e «liturgicamente». Tempos de uma certa inocência – perdida, sem dúvida. 

Dos estúdios Abbey Road, em plena guerra do Vietname, saiu a mensagem mais simples que imaginar se possa, propositadamente assim concebida para que pudesse ser entendida por todos os povos do planeta. 

O programa terá sido visto por cerca de 350 milhões de pessoas, esta é a versão do broadcast original e, sentados no chão, vêm-se Mick Jagger, Eric Clapton e outros. 



(Data recordada pelo Jorge Conceição no Facebook)
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10.3.10

Vem aí o papa


O Miguel Serras Pereira inaugurou a sua participação no «Vias de Facto» misturando reis de Lewis Caroll com papas de Roma e eu pego no mote, a propósito da visita de Bento16, que se aproxima a passos largos. Vamos lendo notícias sobre pompas e circunstâncias, construções de palas e convívios culturais, com um vago encolher de ombros sobre o seu verdadeiro significado.

Em Inglaterra, que o papa só visitará no segundo semestre deste ano, já há protestos. Por cá, sei agora que há quem esteja a planear uma reunião para discutir o assunto, sem ter ainda percebido de que tipo de iniciativa se trata concretamente.

E, no entanto, motivos não faltam para contestar não só a forma que a visita  vai aparentemente revestir, mas o papel negativo que este papa tem tido no mundo, tanto ou mais do que alguns outros.

Voltarei certamente a este tema, mas ao ouvir falar de vindas de papas a Portugal, vem-me sempre à memória a primeira visita que um papa alguma vez fez a este país: Paulo VI, em 1967, no 50º aniversário das supostas aparições em Fátima.

Nas hostes dos então chamados «católicos progressistas», em que eu me integrava (sim, para quem passe por aqui e não me conheça de outras paragens, vêm daí as minhas raízes contestatárias), foi grande a consternação desde que começou a ser ventilada a hipótese de essa visita vir a ter lugar, já que se temia que ela funcionasse como uma quebra do isolamento internacional a que Portugal estava sujeito, sobretudo desde o início da guerra em África, e como um aval às orientações políticas do governo de Salazar.

27.1.08

«Flower Power»

Morreu, no dia 22, Bernie Boston, cujo nome ficará para sempre ligado a esta fotografia.


Foi tirada no dia 22 de Outubro de 1967, em Washington, durante uma manifestação pacifista contra a guerra do Vietname. Jovens colocam flores nas armas dos soldados. Era então grande a contestação nos Estados Unidos – seis dias antes, Joan Baez e mais cerca de cento e vinte pessoas tinham sido presas numa manifestação semelhante.

Por cá, se algum jornal tentou publicar a dita fotografia, foi certamente censurado. Estávamos, nós também, em longos anos de guerras, mas num outro mundo, fechado a cadeado e bem protegido contra este tipo de veleidades.

Os ecos desse «Summer of Love» de 67 chegavam-nos atrasados e só através de jornais estrangeiros. Líamos, com inveja, que multidões de jovens convergiam para a Califórnia, escutávamos o novíssimo Seargeant Pepper dos Beatles e sabíamos de cor (ainda sei) o San Francisco de Scott McKensie. Vivíamos, como podíamos, as utopias hippies – censuradas publicamente, mas que ninguém conseguiu impedir que mudassem (e muito) as nossas vidas privadas.

Hoje, para nós portugueses, flores em espingardas soa a «déjà vu». Mas só as vimos sete anos depois de Bernie Boston, numa manhã de Abril, quando alguém – soldado ou florista, nunca se saberá – se lembrou de pôr o primeiro cravo no cano de uma G3.

Ficou tão forte essa imagem na nossa História que talvez a fotografia de Washington nos pareça banal. Mas não o era em 1967 – nem mesmo nos Estados Unidos.

11.5.07

Fátima 1967 - A visita polémica de um Papa


Paulo VI com a irmã Lúcia (13/5/1967)
(Postal da época)


Há quarenta anos, era grande a consternação nas hostes dos chamados «católicos progressistas» portugueses. Desde que se levantou a hipótese de Paulo VI vir a Fátima em Maio de 1967, para as comemorações do 50º aniversário das aparições, que se temia que essa visita funcionasse como uma quebra do isolamento internacional a que Portugal estava sujeito, sobretudo desde o início da guerra em África, e como um aval às orientações políticas do governo português.

Em Entre as brumas da memória..., dedico um capítulo não só a esta viagem de Paulo VI como a outras que tiveram a ver com Portugal, nomeadamente à sua ida a Bombaim, que Salazar considerou uma afronta inaceitável (por causa da anexação pela União Indiana, alguns anos antes, de Goa, Damão e Diu). Deixo aqui um extracto desse capítulo (pp. 52-56):

«Na segunda metade do ano de 1966, começou a ser ventilada a hipótese de Paulo VI se deslocar a Fátima por ocasião do cinquentenário das aparições, em 13 de Maio de 1967.
Em Novembro de 1966, a Conferência Episcopal dirigiu-lhe um convite formal nesse sentido, mas só em 1 de Maio de 1967 é que foi oficiosamente comunicada a decisão definitiva à embaixada de Portugal no Vaticano. (...)

Já há algum tempo que os que se tinham alegrado com as viagens a Jerusalém, a Bombaim e à ONU temiam que a vinda a Fátima se concretizasse. (...)
Mas já que a vinda do papa se apresentava como inevitável, havia que recorrer à imaginação e tentar tirar partido de uma situação de facto. E o tempo era muito escasso.
Foi entregue na Nunciatura uma carta que um dos filhos do Coronel Varela Gomes escreveu ao papa, pedindo-lhe que intercedesse pela libertação do pai que se encontrava preso pela PIDE. Terá havido fuga de informação por parte da Nunciatura: segundo Maria Eugénia Varela Gomes, o
Correio da Manhã publicou, alguns dias mais tarde, um artigo em que o conteúdo da carta foi mencionado e distorcido. No entanto, ela crê na eficácia da iniciativa, já que está convencida de que à mesma se ficou a dever a redução das medidas de segurança a que o marido estava sujeito, de um ano e meio para seis meses.
(...) José Manuel Galvão Teles e eu pertencíamos à Junta Central da Acção Católica e essa condição abria-nos muitas portas. Decidimos pedir uma audiência particular ao Núncio Apostólico. Audiência concedida, apresentámo-nos, juntamente com Nuno Teotónio Pereira, e expusemos as nossas preocupações sobre o que nos parecia inevitável: o aproveitamento da visita do papa para fins políticos favoráveis ao regime. Insistimos na importância de tudo ser feito para o evitar. Fomos tão incisivos quanto soubemos. (...)

Aproximava-se o dia 13 de Maio. Soube-se que o Vaticano tinha “despolitizado” a viagem: o papa não viria a Lisboa (o avião papal aterraria em Monte Real), não condecoraria ninguém (em Bombaim, o presidente da União Indiana tinha recebido a mais alta condecoração concedida pelo Vaticano a não cristãos), não seria hóspede do governo mas sim do bispo de Leiria.
Sabe-se agora que, cerca de uma semana antes da viagem, o governo recebeu uma informação da Embaixada de Portugal em Madrid, segundo a qual se preparavam atentados contra personalidades portuguesas de vulto e contra o próprio papa. De Nova York, terá vindo uma outra notícia dizendo que um grupo de oficiais estava a organizar um golpe de estado contra Salazar. Estes boatos obrigaram a um reforço das medidas de segurança em Fátima, impedindo, por exemplo, que Paulo VI fizesse alguns percursos a pé, como inicialmente previsto.

Entretanto, em Lisboa, continuavam os protestos.
Foi preparada uma iniciativa importante: a elaboração de um documento altamente sigiloso, a fazer chegar directamente ao papa, no qual um numeroso grupo de antigos e então actuais dirigentes da Acção Católica e de outras organizações de leigos, que como tal se identificavam individualmente a seguir à respectiva assinatura, informavam detalhadamente Paulo VI da situação existente em Portugal, por eles considerada contrária aos ensinamentos da Igreja e do próprio papa. Havia que garantir que o documento fosse entregue em boas mãos. Alguém nos disse que a pessoa a ser procurada em Fátima era Monsenhor Loris Capovilla, que tinha sido secretário particular do papa João XXIII e que integraria a comitiva de Paulo VI. E foi assim que o nosso livre trânsito, como convidados oficiais por sermos membros da Junta Central da Acção Católica, permitiu que encontrássemos Capovilla e que José Manuel Galvão Teles lhe entregasse a carta. (...)

Nos bastidores do poder, passaram-se episódios que só muito mais tarde viemos a conhecer. Com a aversão que tinha a Paulo VI e com a sua proverbial misantropia, Salazar ficou furioso quando soube, na véspera das comemorações e já em Monte Real, que o Papa queria que a irmã Lúcia estivesse presente, porque considerou tratar-se de um acto puramente demagógico. Ameaçou mesmo regressar imediatamente a Lisboa, mas acabou por ficar – no Hotel de Monte Real, onde a estadia, com meia pensão, custou 220$00.
Confessaria no dia seguinte que o que mais apreciara na visita do Papa fora a fúria que ela provocara nos seus inimigos.

As cerimónias decorreram em Fátima com toda a pompa e emoção generalizada, na presença de mais de um milhão de pessoas. Os membros da Junta Central da Acção Católica foram convidados privilegiados, juntamente com as autoridades civis e eclesiásticas, e estiveram por isso presentes, como tinham exigido, na tribuna de honra, erguida em frente da Basílica. Foi estranho ver, a poucos metros de distância, Américo Tomás, Salazar, a irmã Lúcia e o papa, quando desejávamos tanto que tudo aquilo não estivesse a acontecer, que não passasse de um simples pesadelo.
Entretanto, Paulo VI foi almoçar, recatadamente. Como tinha pedido: sopa, frango, um pouco de vinho tinto e um cálice de Porto.
Recebeu-nos mais tarde, numa das muitas audiências que se seguiram às cerimónias religiosas.
Tínhamos feito o que pareceu ser possível – e que foi bem pouco.
Nunca mais voltei a Fátima.

Para Franco Nogueira, “foi um dia de grande emoção popular, de grande espectáculo, de grande política para a ala conservadora da Igreja.”
Para os que não se incluíam nessa “ala conservadora”, as feridas estavam abertas e, para alguns, não se fechariam.(...)»

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Como os leitores deste blogue se distribuem por grupos que dão para vários peditórios, deixo, aos eventuais interessados, os links para os discursos que Paulo VI fez em Fátima, em 12 e 13 de Maio de 1967:
* Discurso ao Presidente da República
* Discurso ao Corpo Diplomático
* Discurso ao Episcopado Português
* Discurso aos Representantes dos Leigos Católicos
* Discurso aos Representantes das Comunidades Cristãs Não Católicas
* Homilia durante a Missa no dia 13 de Maio
* Discurso de Despedida