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5.6.25

Champô de bebé para a República cansada

 


«Há algo de profundamente terapêutico em Gouveia e Melo. A voz baixa. A compostura de manual. A linguagem filtrada por moderação e vaselina institucional. É o candidato dermo-aprovado: não fere, não cola, não marca. Passa como água e, por isso, é adorado. Num país esfolado por décadas de fricção política e promessas incumpridas, o seu silêncio parece bálsamo. E talvez seja. Está entre o “socialismo” e a “social-democracia”, entre a pobreza que precisa de combate e o desenvolvimento que não se define, entre o “sim” e o “não”, onde habita a fórmula mágica do “não concordo nem discordo”. É um centro confortável. Tão confortável que ninguém precisa de sair do lugar.

Na entrevista com Sandra Felgueiras, confirmou o guião que há meses vinha a testar em doses homeopáticas. Nada surpreendeu — e essa foi a grande revelação. Disse que não faria como Marcelo, que não teria demitido António Costa, que não derrubaria um governo com maioria absoluta. Para se sustentar, invocou a Constituição com a confiança de quem se senta nela como num puff. “A Constituição nada diz sobre isso [a decisão de Marcelo]”. E, depois, com a mesma serenidade, contradisse-se. À pergunta de Sandra Felgueiras sobre qual seria a sua linha vermelha, responde: "Desvirtuar a promessa feita ao povo português." Eis o novo artigo constitucional invisível: um princípio vago, aromático, absolutamente arbitrário. A Constituição, essa, permanece muda. Quem mede a distorção? O Presidente? Os comentadores? A sondagem de domingo?

E se Montenegro prometer médicos de família para todos (como prometeu) e falhar (como falhou)? Teremos desvirtuação? Ou apenas um ligeiro desalinho técnico? Gouveia e Melo não esclarece. Não precisa. Porque o seu projeto não vive da resposta, vive da suspensão. É o reflexo de um país cansado de perguntas difíceis. Um país que já não quer rupturas, apenas consolo. Uma candidatura feita de exaustão. E, nesse cansaço, a ambiguidade ganha estatuto de virtude. Quanto menos se compromete, mais espaço ganha. Quanto menos risco corre, mais seguro parece.

É fácil perceber o apelo. E, mais do que isso, é fácil reconhecer a estratégia: quando não há substância, não há atrito. Se não houver posição, não há oposição. E é uma estratégia inteligente. Gouveia e Melo é uma tela branca onde todos (todos, todos…) podem nela projectar os seus medos, esperanças ou frustrações. Enquanto for tela, funciona. Afinal, nada consola mais o público do que reconhecer cada palavra antes de ser dita.

Mas aqui é que se torna interessante. Porque o Almirante não é o rosto de um novo centro político. É o rosto de um centro emocional. Representa a vontade coletiva de que alguém tome conta disto sem levantar pó, sem fazer grandes perguntas, sem aborrecer demasiado. É o centro destilado: o que já não precisa de ideias, porque se apresenta com temperamento. Não um projeto, mas um instinto. A ausência de conflito como proposta nacional.

E é por isso que, enquanto os partidos tradicionais se esfarelam, Gouveia e Melo sobe. O Chega cresce pela raiva. O Almirante, pelo alívio. São respostas opostas à mesma falência: a de um regime que deixou de representar. Ventura canaliza o ressentimento; Gouveia e Melo oferece a farda. Um grita "o país está a arder"; o outro promete apagar o fogo sem fazer barulho. Ambos são produto do mesmo impasse, duas faces da mesma anemia.

A questão, por isso, não é só sobre como pode um candidato do centro triunfar quando o centro se desfaz. A questão é outra: o que é que sobra de um sistema democrático quando o centro já não é político, mas terapêutico? Quando se torna um spa institucional, onde ninguém levanta a voz e todos recebem toalhas quentes?

Gouveia e Melo é a resposta institucional à crise institucional. Surge como um último pacto de silêncio: deixem-no ir para Belém, e talvez as coisas se acalmem. Talvez o sistema sobreviva mais um ciclo. Talvez a democracia possa continuar a funcionar em piloto automático, com declarações serenas, fotos com bandeiras, e veto ocasional a medidas excêntricas.

O Almirante tranquiliza porque se apresenta como não-político. Mas é precisamente por isso que é político no seu sentido mais profundo: aparece como o rosto do que resta, quando já ninguém acredita no resto.»


2.6.25

Fora de que sistema?

 


O almirante, o contra-almirante e as perigosas inevitabilidades

 

«A comunicação social adora vencedores. Porque, ao contrário do que parece, adora o poder. Adora sentir que anunciou a mudança antes de acontecer. E é assim que se impõem as profecias autorrealizadas, apresentando um candidato que nunca fez uma campanha, e de quem quase nada sabemos, enquanto vitorioso inevitável. Isto, apesar das tantas surpresas que a vida política nos tem reservado e de o voto nunca ter estado tão solto.

Sim, é verdade que tudo está a favor de Henrique Gouveia e Melo. A farda em tempos de orfandade de autoridade política. O papel na pandemia, que beneficiou todos os envolvidos, uma originalidade doméstica num país de idosos. A ausência de currículo político, considerado cadastro num tempo de descrença. O vazio ideológico, que o permite escolher o seu lugar.

Os primeiros passos do almirante mostraram a sua volubilidade: quando percebeu que as pessoas não reagiam bem a cortes sociais para investimento na defesa, recuou; quando percebeu que o regresso do Serviço Militar Obrigatório não era tão popular como parecia, deu o dito por não dito. A firmeza do estilo não se traduz em consistência programática.

Os apelos a uma união nacional em torno de um homem providencial, a quem a farda emprestou uma autoridade aparentemente apolítica, não se comparam, como é evidente, ao ódio divisivo espalhado pela extrema-direita. Mas, historicamente, uma coisa é consequência da outra. São dois condimentos do mesmo caldo político. O discurso da grandeza perdida também.

Pouco interessa em que lugar político se coloca Gouveia e Melo, que diz estar entre o socialismo e a social-democracia (o mesmo que estar entre o vermelho e o encarnado). São cálculos de conveniência eleitoral, sem grande reflexão. Interessa o que ele significa, neste tempo. Em quem não tem estrutura doutrinária ou percurso político, interessa mais a personalidade enquanto líder.

SABER ESCREVER AS SUAS GLÓRIAS

Gouveia e Melo chegou ao topo de um processo de vacinação que tinha tudo para correr bem – já tínhamos a experiência de um muitíssimo eficaz Programa Nacional de Vacinação e sabíamos da pouquíssima resistência popular às vacinas –, depois de uma campanha política contra o coordenador anterior, vinda dos bastonários dos médicos e dos enfermeiros (ambos do PSD), num momento inicial e mais sensível, quando ainda escasseavam vacinas.

Tentando livrar-se do cerco, Costa escolheu o militar que já fazia parte da equipa, que seria solidariamente responsável pelo que tivesse corrido mal. Sentiu, com razão, que um militar sem ambições políticas seria menos interessante como alvo. E assim foi. Apesar do registo de queixas se ter mantido, assim como os procedimentos perante abusos, os casos desapareceram das televisões. Instituiu-se, pouco tempo depois do caso do roubo de armas em Tancos, que os militares cumprem melhor as funções dos civis.

Gouveia e Melo soube transformar uma mera operação logística numa extraordinária campanha de autopromoção, com a multiplicação de entrevistas e aparições mediáticas, talento que lhe veio do tempo em que era relações públicas e porta-voz da Marinha. Não há memória de um cargo como este ter dado tanto protagonismo. O seu competente sucessor foi, pelo contrário, militarmente discreto.

Há comportamentos pouco militares no almirante que ajudam a avaliar a única coisa que, até ver, nos tem para oferecer: o seu tipo de liderança. Sem nada, à partida, contra Gouveia e Melo (apenas uma irritação com a forma como Costa resolvia todas as dificuldades e uma resistência ao fascínio pelas fardas), dois episódios deixaram-me de pé atrás.

O primeiro foi durante a pandemia, quando Gouveia e Melo foi ao Centro de Vacinação de Monte Abraão, onde havia dificuldades. Chamou as televisões para atacar os profissionais que ali estavam, acusando-os de falta de pontualidade e deixando claro que os tinha posto na ordem, usando, sobre eles, termos como “colinho dá a mamã em casa”. Tivesse sido um político a fazer tal coisa e teria sido trucidado por sindicatos, ordens e oposição. Mas foi, para ele, um grande momento mediático, fazendo esquecer filas no resto do País.

O segundo foi já como Chefe do Estado-Maior da Armada, onde chegou pisando algumas cabeças e graças à inútil e desesperada tentativa de Costa e Marcelo impedirem a sua candidatura presidencial. Gouveia e Melo chamou as televisões para, à distância, mas à frente delas, destratar os insurretos militares do navio Mondego. Um caso em que critiquei a indisciplina, mas que, para além de parecer ter sido mal resolvido (Gouveia e Melo perdeu em tribunal, que considerou ilícitas as sanções que impôs), me fez notar o que parece ser um padrão de liderança: o de rebaixar publicamente os seus subalternos. É coisa a que sou bastante sensível. Também o são os militares que conheço.

O APELO DA FARDA SEM POLÍTICA

O problema não é Gouveia e Melo ser independente. Até acho que essa é uma condição para ser eleito, desta vez. O problema é, num momento perigoso para o nosso regime democrático constitucional, elegermos um militar operacional, habituado a mandar, mas sem qualquer experiência institucional civil, para ocupar o mais político dos cargos.

O problema não é Gouveia e Melo ser militar, apesar de essa particularidade ser marcante, numa Europa onde é pouco comum. É ser a farda que, aos olhos dos portugueses, lhe dá autoridade. Diz muito sobre o estado da nossa democracia e do nosso país. E do que muitos eleitores esperam, com ou sem razão, de um Presidente. Expectativas a que o próprio almirante parece querer corresponder, propondo-se objetivos impossíveis com os poderes constitucionais que tem. A não ser, claro, que forme um partido para casar a Presidência com o poder executivo e legislativo.

O problema não é Gouveia e Melo ser radical. Apesar de a estética da apresentação da sua candidatura ter um odor inconfundível do passado, corresponde ao mainstream da nossa política, que não nasceu virgem em 1974, mantendo intacta quase toda a iconografia da perdida grandeza imperial. O almirante será um moderado e, ao contrário de outros, nunca presumi que viesse a ser o candidato da extrema-direita. É do centrão puro, como atesta a forte presença de todos os poderes fácticos nacionais, das sociedades secretas aos empresários de comunicação social, passando pelo assessor de Sócrates, Luís Bernardo. Isso não quer dizer que não seja um autoritário. O centro nacional está pejado desse apelo, de que Cavaco foi exemplo. É mais cultural, numa democracia insegura com uma sociedade civil frágil, do que ideológico. E é pela suspeita que seja autoritário que é popular.

QUEM SERÁ O CONTRA-ALMIRANTE?

Perante tantas incógnitas, seria perigoso deixar o almirante sozinho numa corrida que a imprensa já quer transformar num plebiscito a um quase desconhecido. Porque sem opositores severos não haverá escrutínio. Será eleito às cegas.

Olhando para a galeria de apoiantes, confirma-se a avaliação política que faço de Gouveia e Melo: com algumas excepções quase anónimas, os mais notáveis estão no centro-direita e na direita conservadora, de Isaltino Morais a Ribeiro e Castro, passando por Rui Rio, que aproveita o almirante para uma vingança interna ao PSD, e pelo possível apoio de Ventura, que não se quer medir com um homem com um chamamento irresistível para os eleitores do Chega. E é à direita que o espaço está sobrelotado: com a candidata da IL, Mariana Leitão, que poderá vir a ser uma surpresa, pela frescura contrastante nesta disputa; e com Marques Mendes, que a cada dia perde mais espaço político.

Como se vê por novos programas televisivos, há quem tenha decidido matar a esquerda para cristalizar o último resultado eleitoral. Mas, mesmo assim, e não sendo certo que esse resultado represente uma divisão sociológica estabilizada (basta recordar eleições recentes), a esquerda representa cerca de 35% dos eleitores, o maior bloco político contra Gouveia e Melo.

Sendo certo que a candidatura de António José Seguro está a léguas de fazer o pleno dos socialistas que não votarão no almirante, e que parece ter mais popularidade junto de eleitores que odeiam Costa, a esquerda tem um dilema: só deveria ter um candidato e esse candidato não pode ser Seguro, que deixará boa parte do PS e o resto da esquerda órfã.

Como defendi quando escrevi sobre Elisa Ferreira e Sampaio da Nóvoa, deve ser um candidato abrangente, preferencialmente independente, livre de amarras partidárias, com poucos anticorpos e capaz de contrapor à autoridade militar outro tipo de autoridade cívica e profissional. É no terreno positivo que poderíamos encontrar em Gouveia e Melo que a disputa pode ser feita – autoridade sem autoritarismo, independência com conteúdo. Nunca o regime e os partidos contra a novidade inexperiente, como tenta Marques Mendes. Por mais justa que seja, é perdedora. Desse ponto de vista, António Vitorino seria tão ineficaz como Marques Mendes.

Quanto ao PS, terá de escolher: apoiar Seguro e transformar estas presidenciais num trágico ajuste de contas com o seu passado vitorioso; apoiar outro candidato, atirando Seguro para um espaço sobrelotado; ou ficar neutro, de novo, não arriscando mais uma derrota, mas contando cada vez menos.

Um candidato forte na disputa ao almirante não é apenas relevante para os resultados eleitorais. É, mesmo que a sua vitória seja inevitável, fundamental para impedir uma caminhada triunfal sem escrutínio, especialmente incompreensível num tempo perigoso e com um candidato de quem sabemos tão pouco.

Só a tempestade de uma campanha disputada revelará o líder. Não queremos descobrir, depois de eleito, de que massa é feito um político que antes de o ser eleito já o era. Até porque, como se viu neste ciclo, a Presidência da República pode transformar-se num importante foco de instabilidade.»


21.3.23

Um grito de alerta

 


«A recusa de alguns marinheiros de cumprir a missão devido às condições do navio em que deviam embarcar tem sido olhada como um simples ato de insubordinação ou, em alternativa, como um protesto válido face ao mau estado dos equipamentos militares.

Quando 13 militares se recusam a cumprir uma ordem sabem imediatamente que vão enfrentar um mar de problemas. Fazê-lo, mesmo com motivos válidos, significa pôr em causa um dos pilares sagrados da instituição militar.

Neste caso concreto, será inevitável que os envolvidos enfrentem consequências do seu ato. Aliás, será muito pouco provável que alguma vez tivessem pensado que iriam ultrapassar incólumes o caminho que decidiram percorrer.

Porém, o que está verdadeiramente em causa são os muitos anos de desinvestimento nas Forças Armadas. Anos em que tantas vezes se menosprezaram as necessidades de defesa do país, olhando as Forças Armadas como se se tratasse de um parque de diversões para alguns militares se divertirem à custa de dinheiros públicos.

Alguns exemplos são inevitáveis: os Falcon da Força Aérea não servem apenas para levar membros do Governo (e mesmo que assim fosse, o prestígio do país também tem valor) e estão muitas vezes ocupados a transportar doentes e órgãos para transplante; os navios da Marinha são os responsáveis pelo combate ao tráfico de droga e pelo salvamento marítimo nas nossas costas. E os exemplos sucedem-se sem necessidade de chegar ao limite de pensar nas necessidades de defesa quando a Europa vive dias complexos e em que um cenário de guerra não está assim tão longe.

O ponto essencial, agora, está em saber se o alerta lançado por estes 13 marinheiros terá algum efeito. O chefe da Armada pode não conseguir esconder a irritação com um ato de insubordinação que mancha a carreira de que tanto se orgulha, mas talvez lhes possa agradecer a chamada de atenção para a situação insustentável do subfinanciamento das Forças Armadas e que acuda às necessidades que durante tantos anos foram ignoradas.»

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19.3.23

Três tiros no porta-aviões

 

«[O almirante Gouveia e Melo] esteve bem na defesa da disciplina, que, como afirmou, é a cola que garante a coesão das Forças Armadas. Mas falhou redondamente no outro mandamento: a reserva. A instituição militar não pode, nem deve, expor os seus problemas na praça pública e em tempo real. A discrição e a sobriedade são regras de ouro no exercício dos mais altos cargos da hierarquia militar. Ora, o chefe de Estado-Maior da Armada sabe bem que a reprimenda que deu à tripulação, do alto de um púlpito montado na coberta do navio, foi um ato intencionalmente público, que teria repercussão na comunicação social. Por isso, é legítima a suspeita de que o momento foi aproveitado para a sua promoção pessoal, no quadro duma mal disfarçada ambição política a caminho de Belém. Terceiro tiro no porta-aviões.»

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Gouveia e Melo

 

Ouvido algures: «Tem tudo para agradar a um certo tipo de portugueses, é Cavaco com a farda de Eanes».
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18.3.23

O que vêem os seus olhos, almirante?

 

«O que vêem os seus olhos, almirante? «Mais do que dirigir-se às suas tropas, o almirante Gouveia e Melo pretendeu falar ao país. Quem manda sou eu, eu é que decido, não admito tentativas de insubordinação, de desobediência, de indisciplina. Se o barco está podre, mas navega, então navegue-se.

Esta é a conclusão que se pode retirar das intervenções públicas do chefe do Estado-Maior da Armada a propósito do caso dos quatro sargentos e nove praças que se recusaram a embarcar numa missão de acompanhamento de um navio russo, por considerarem que não existiam condições de segurança para a efetuar.»

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Ambição sem princípios

 


«Eu não quero saber das evidentes ambições presidenciais do almirante Gouveia e Melo. É um cidadão português nos seus plenos direitos e, por isso, se o entender, pode concorrer. Mas já tenho muito contra um militar chefe do Estado Maior da Armada a conduzir uma campanha presidencial usando e abusando do seu cargo. Esta semana mostrou que a sua campanha está em curso e que não se coíbe de usar o cargo para obter notoriedade e vantagens.

Tudo isto se soma a uma semana muito má para as Forças Armadas Portuguesas. Dizendo isto, a reacção mais comum dos portugueses é achar irrelevante o que acontece nessa área, porque existe um sentimento de indiferença e de inutilidade sobre as Forças Armadas. Ano após ano, como efeito de várias medidas como o fim do serviço militar obrigatório, a farsa da sua substituição por um dia mais ou a menos de diversão chamado pomposamente Dia da Defesa Nacional, a profissionalização das Forças Armadas com orçamentos escassos, a que se soma o processo de deslegitimação dos militares um pouco por toda a Europa e que só a guerra da Ucrânia estava a reverter. Uma maioria dos portugueses acha que as nossas Forças Armadas não servem para nada e que o dinheiro que com elas se gasta é sempre desperdício. Quando se somam notícias sobre o estado operacional do material militar como aconteceu recentemente com os tanques Leopard, o acidente mortal com explosivos armazenados e agora com um navio defeituoso na Madeira, então a indiferença de fundo e a sensação de inutilidade é reforçada mais uma vez.

Mas não é o estado de degradação do equipamento e armamento, veículos e navios, quartéis e outras instalações militares que é o mais grave nesta história. É a indisciplina revelada pelos marinheiros que se recusaram a sair num navio que estava em más condições. A insubordinação é uma das violações mais graves do ethos militar e, como tal, deve ser punida, e por muito que os marinheiros possam ter razão sobre o estado do navio, deviam cumprir ordens mesmo com o risco inerente.

Mas, mais grave do que isto é ver o almirante Gouveia e Melo chamar as televisões para mostrar a sua reprimenda aos marinheiros insubordinados, algo que, que eu saiba, é inédito num comandante militar ainda por cima num caso grave de indisciplina. Uma matéria que exigia a maior das discrições e que é suposto os militares não tratarem em público. Logo de seguida, o almirante fez ainda mais estragos na sua reputação e na da arma que dirige: afirmou que o que acontecera tinha como objectivo prejudicar as suas expectativas presidenciais, traduzidas nas sondagens, e que tal tinha a ver com a organização do PCP nas Forças Armadas. Exactamente o que nunca deveria ter dito, porque se coloca no mesmo plano dos insubordinados, eles actuando às ordens de um partido político, ele às ordens da sua ambição pessoal.

Como estamos numa época de tudo à balda, a única coisa que interessou a quem pega neste assunto foi, na lógica situação-oposição, cair em cima do Governo e, para o fazer, acaba por desculpar a insubordinação – justificando-a com o mau estado do navio. Mas o almirante fez pior e, se vai continuar a usar o cargo para promover ou defender a sua candidatura presidencial, devia abandonar as funções ou ser demitido por alguém.

Para um militar, esta ambição sem princípios é inaceitável e perigosa para a democracia. A pergunta que, muito publicamente, com as câmaras à espreita, fez – “que interesses estão a defender?” – respondeu retoricamente: nem os “vossos”, nem os da Marinha. Mas esqueceu-se de acrescentar “nem os meus”.»

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