Mostrar mensagens com a etiqueta argentina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta argentina. Mostrar todas as mensagens

24.2.25

Ou Milei é idiota, ou Milei é burlão

 


«Pela primeira vez, um chefe de governo promoveu diretamente uma criptomoeda específica. Pela primeira, um chefe de governo está a ser investigado por uma acusação de fraude por causa disso mesmo. Como não podia deixar de ser, o estreante é Javier Milei, o libertário que preside aos destinos da Argentina. O episódio retrata bem como governa – despreocupado com os efeitos dos seus atos –, para quem governa – um círculo próximo que beneficia diretamente das suas ações – e em que se apoia o seu governo – o burburinho caótico das redes sociais e canais de informação de amigos domesticados.

Apenas três minutos depois da sua criação, Milei promoveu uma memecoin junto dos quase quatro milhões de seguidores que tem na rede X. Avalizando a sua credibilidade, indicou que “este projeto privado se dedica a fomentar o crescimento da economia argentina através do financiamento de pequenas empresas e empreendimentos argentinos”.

A $Libra, era esse o nome da memecoin, teve um crescimento fulgurante, chegando aos 4500 milhões de dólares de valorização em apenas três horas. Foi sol de pouca dura. Nove dos criadores da $Libra, detentores de 87% das moedas virtuais, venderam de uma vez o valor que tinham e o valor da memecoin colapsou, tirando todo o dinheiro investido. Pelo menos 5000 investidores perderam mais de 100 milhões de dólares. Seis horas depois da sua publicação original, Milei apagou o tweet e, perante o crescente ultraje e ruído criado pelo seu apoio a um esquema deliberadamente fraudulento, respondeu que “não conhecia os detalhes do projeto”.

Sem valor subjacente e com muito menos mecanismos de controlo, segurança e estabilidade que criptomoedas consolidadas como a Bitcoin, as memecoins são um subproduto altamente volátil e especulativo, dependendo da ligação a uma figura pública com elevada popularidade que lhes dê notoriedade, e, acima de tudo, credibilidade. É por isso que o papel de Milei, sem o qual esta memecoin seria uma das largas centenas ou milhares de ativos virtuais que nunca chegam a ter destaque, é tão central nesta fraude.

FUGA ESTREITA

Apesar de passar a ideia de que quer ser interesse em ser investigado, a sua via de fuga é estreita, para não dizer impossível. O nome da moeda ($Libra) é uma recriação do nome do seu partido, “Liberdade Avança”, a promoção usa o mesmo slogan da sua campanha, e o principal cérebro da operação foi um dos seus assessores económicos, tendo reunido com Milei poucos dias antes do lançamento da criptomoeda. Ninguém promove um projeto, três minutos depois de este estar disponível, sem o conhecer previamente e a ele estar ligado.

O momento que se seguiu, a tentativa de contenção de danos políticos, conseguiu ser ainda mais delirante do que a entrada tresloucada num projeto que cheirava a fraude a quilómetros de distância. Mesmo tratando-se de uma entrevista combinada, e com as perguntas validadas e anotadas pela sua mulher e pelo consultor político, o desastre foi total.

Começa logo, pelo amadorismo com que a televisão, propriedade de um dos seus principais apoiantes, deixou visível na net a versão integral da entrevista, onde o jornalista confessa a forma amigável e combinada como tudo se iria desenrolar. Mesmo assim, as respostas foram tão inconvenientes, que o referido consultor teve de interromper a meio, indicando que estava a ir por caminhos que poderiam dificultar a sua possível defesa perante a justiça argentina e norte-americana.

A denúncia contra Milei, que está a ser analisada por uma juíza federal argentina, acusa-o de fazer parte de uma associação ilícita, fraude e violação dos deveres de um funcionário público por violar a Lei de Ética Pública. O advogado, que se imagina será o primeiro de muitos nos próximos dias, diz que o golpe “foi realizado através de uma operação conhecida como rug pull, que ocorre quando os desenvolvedores por trás de um projeto lançam um token e atraem investidores para aumentar seu valor, depois se retiram abruptamente e levam o dinheiro”.

DIZ QUE É IRRESPONSÁVEL, NÃO DESONESTO

A tudo isto, Milei começa por dizer “não promovi, difundi”, uma curiosa variação semântica para dizer o mesmo. Depois, diz que a conta que usou é a privada e não é oficial, caminho complicado quando todas as suas principais propostas e medidas políticas são anunciadas nessa mesma conta. Por fim, diz não conhecer os detalhes e desconhecer o funcionamento das criptomoedas, sendo apenas um “fanático pela tecnologia” sem conhecimento. Isto vindo de quem, ainda há quatro anos, ganhava a vida vendendo cursos e palestras sobre criptomoedas. Noutra tirada, explicou que encara o assunto como tudo na sua forma de ver o mundo: “se vai ao casino e perde dinheiro, queixa-se de quê?” Só que as regras num casino são conhecidas e não é costume o proprietário vender todos os ativos a meio do dia e todos os clientes ficarem sem o dinheiro. Só que regras estáveis, informação transparente e equitativa, igualdade de oportunidades, é tudo o que estes libertários desprezam. A liberdade em que acreditam é a da selva.

EMBARAÇO PARA OS FÃS NACIONAIS DE MILEI

Corruptos na política argentina, seja à esquerda ou à direita, não são uma novidade. A grande diferença é que Javier Milei é coerente com a sua ideologia amoral e promotora da selvajaria social e económica.

Na última convenção, e depois de hesitações e dissimulações, a Iniciativa Liberal foi mais clara na aproximação ao presidente preferido de Trump. Aquele que melhor sintetiza a extrema-direita do século XXI: autoritária, antissocial e libertária. Na realidade, a aliança entre liberais e autoritários de direita não é nova. Hayek tinha simpatias por Salazar e os Chicago Boys foram fundamentais para política económica de Pinochet. A ditadura (ou o caos social que provoca o desnorte político, como aconteceu na Argentina) torna mais fácil a imposição de políticas antissociais. Que até podem ter resultados passageiros (assim aconteceu na ditadura chilena), mas que não deixarão de ser pagas de forma brutal na crise seguinte.

Esta saída do armário não corresponde, como li, a uma guinada à direita. O liberalismo social da IL sempre foi positiço. O económico sempre se ficou, no essencial, pela descida de impostos e privatização de serviços públicos. Ninguém se lembra dos atuais dirigentes da IL nas lutas pela igualdade, antes da fundação; e nunca os vimos na linha da frente contra monopólios privados e pelo papel regulador do Estado. É um partido tendencialmente libertário, bem diferente do liberalismo, historicamente centrista e moderado. As declarações de amor a Milei, que agora voltarão a ser mais tímidas, demonstram-no. O liberalismo da moda, que a IL representa, é como a criptomeda de Milei: um engodo de curta duração.

NOTA: Deixo para mais tarde, quando forem mais claras as alianças que se podem formar, a análise dos resultados das eleições alemãs.»


16.7.24

17.5.24

17.05.2013 – O dia em que morreu um carrasco: Jorge Videla

 


Foi há onze anos que morreu Jorge Videla que governou a Argentina entre 1976 e 1983 e que foi responsável por mais de 30.000 mortos ou desaparecidos. Condenado em 2010 a prisão perpétua, viu a sua pena aumentada em mais 50 anos, em Julho de 2012, por ter dirigido uma rede que roubava bebés de prisioneiros políticos.

Por ocasião da sua morte, num artigo intitulado «Nem Freud imaginou isto», Simone Duarte resumiu bem o drama de algumas destas crianças: «É este o legado do general Videla. Uma geração que desapareceu. Outra que ficou sem saber quem era. E está até hoje a tentar descobrir».

No seu livro «Los hijos de los días», Eduardo Galeano cita o que Jorge Videla explicou vinte anos mais tarde, em 1996:
«No, no se podía fusilar. Pongamos un número, pongamos cinco mil. La sociedad argentina no se hubiera bancado los fusilamientos: ayer dos en Buenos Aires, hoy seis en Córdoba, mañana cuatro en Rosario, y así hasta cinco mil... No, no se podía. ¿Y dar a conocer dónde están los restos? Pero, ¿qué es lo que podemos señalar? ¿En el mar, en el Río de la Plata, en el Riachuelo? Se pensó, en su momento, dar a conocer las listas. Pero luego se planteó: si se dan por muertos, enseguida vienen las preguntas, que no se pueden responder: quién mató, cuándo, dónde, cómo...»
.

25.3.24

24.03.1976 – Argentina: os «desaparecidos»

 


Jorge Vileda explica porque «desapareceram» milhares de pessoas:


Eduardo Galeano, Los Hijos de los Dias.
.

24.11.23

Uma distopia argentina

 


«Esta semana circulou nas redes sociais uma imagem da inesquecível “Mafalda”, a personagem de banda desenhada criada por Quino, uma menina contestatária com um profundo sentido de justiça, de ombros caídos, derrotada, a chorar. Vem isto a propósito da vitória de Javier Milei nas eleições presidenciais argentinas do passado dia 19 de novembro. Apesar de Sergio Massa, um “peronista de esquerda” ter vencido na primeira volta, Milei ganhou a segunda volta com 55% dos votos, beneficiando do apoio da candidata de direita, Patricia Bullrich.

O resultado não surpreende totalmente, uma vez que a Argentina está em recessão há vários anos, tem uma inflação de 143% ao ano, 40% da população na pobreza e as taxas de juro estão em 133% ao ano. E Massa era o ministro da Economia do Governo anterior...

Ainda assim, tem de merecer profunda reflexão e preocupação a escolha democrática pelo povo argentino de um candidato ultrapopulista, ultraliberal, anarcocapitalista, com discurso e comportamento delirantes. Milei afirma falar com Deus, apresentou-se em público com uma motosserra para “exterminar a casta política” e comporta-se sistematicamente de forma totalitária e errática.

Como já antes escrevi nestas páginas, a propósito do crescimento dos fenómenos populistas de extrema-direita, pessoas desesperadas procuram soluções radicais. Quando as pessoas se sentem deixadas para trás pelo poder político e pela sociedade, tendem a aderir a discursos simplistas e a medidas drásticas, por vezes até absurdas. Foi isto que aconteceu na Argentina.

Milei promete privatizar todos os serviços públicos, incluindo a saúde, a educação e a segurança social (imagine-se o que isso vai significar para os 40% de pobres!), bem como os recursos naturais; nega as alterações climáticas (que considera uma “agenda do marxismo cultural”); defende a “dolarização” e a extinção do Banco Central da Argentina. Promete uma profunda reforma da Administração Pública, que passará, desde logo, pela extinção dos ministérios da Saúde, da Educação, da Segurança Social e do Ambiente — que serão inúteis na sociedade ultraliberal, capitalista e desigualitária que preconiza.

No plano dos direitos e das liberdades, Milei quer proibir a interrupção voluntária da gravidez, permitir a venda de órgãos humanos entre pessoas vivas e liberalizar o porte de arma. Os direitos das mulheres e das minorias serão restringidos, assim como os direitos sociais. E já disse que não hesitará em chamar as forças armadas para reprimir protestos.

O seu discurso põe em causa o consenso existente na sociedade argentina sobre os genocídios cometidos na ditadura, patente no facto de pretender rever o pagamento de indemnizações às vítimas da ditadura militar de 1976-82.

Apesar de todo este cenário de pesadelo, após a eleição de Milei as empresas argentinas subiram em bolsa — o que demonstra bem como o capitalismo funciona.

As consequências internas e externas deste resultado eleitoral são imprevisíveis. Existe hoje na Argentina o risco efetivo de uma deriva totalitária num país que é uma democracia apenas há 40 anos depois de uma ditadura militar sanguinária. Mas o povo desesperado parece preferir este risco à ausência de resposta aos seus problemas por parte do poder político democrático. Foi o que aconteceu na Alemanha na República de Weimar e conduziu à ascensão dos nazis ao poder...»

.

20.11.23

Argentina

 


Não me conformo! A Argentina de novo nas mãos de um louco perigoso ultrapassa as minhas piores expectativas quanto a este mundo em deriva.


.

Pobre Argentina...

 


.

20.8.23

As loucas

 


«No dia 24 de Março de 1976, um golpe de Estado derrubou a Presidente argentina e deu início ao período mais obscuro da história do país. Uma Junta Militar, presidida pelo general Jorge Rafael Videla, chegou à Casa Rosada, centro do poder na Argentina, e começou a escrever uma história de terror e violência que durou até 1983 e que fez cerca de 30 mil desaparecidos.

Mas uma coisa que a história já nos mostrou é que mesmo na mais negra das noites existe uma centelha de luz. E fiquem a saber que nenhuma luz no mundo é mais forte do que aquela que nasce directamente do coração de uma mãe.

Gostava de vos pedir que decorassem o nome de Azucena Villaflor e que, um dia, o ensinassem aos vossos filhos e netos. E se alguma vez vos perguntarem qual o motivo para tal ensinamento, não hesitem em responder que este é o nome de uma verdadeira heroína. Azucena é o nome da resistência.

Após a tomada de poder pela Junta Militar, milhares de argentinos foram perseguidos e torturados de forma particularmente cruel. Falamos de crianças, estudantes e trabalhadores, mas também de mulheres grávidas que apenas eram mantidas vivas até ao nascimento dos filhos, que eram depois entregues a famílias apoiantes do regime.

Todos os dias desapareciam pessoas nesta Argentina de escuridão. Todos os dias existiam mães que deixavam de saber do paradeiro dos filhos. Todos os dias as mulheres perguntavam se os seus meninos estariam vivos num campo de detenção ou mortos a boiar no rio da Prata. E estas mães, desesperadas e a precisar de consolo, encontravam-se numa igreja. Mas um dia, as palavras do padre que as aconselhou a ter “santa paciência” fizeram Azucena Villaflor indignar-se e ter a ideia que mudaria tudo.

Azucena terá dito às outras mães de filhos desaparecidos que o melhor seria reunirem-se na Plaza de Mayo, em frente à Casa Rosada. “Somos muitas e Videla terá de nos receber” — afirmou. E no dia 30 de Abril de 1977, as mães assim o fizeram. Eram catorze nesse primeiro dia e decidiram encontrar-se naquele sítio todas as quintas-feiras a partir daí.

Com o passar das semanas, as catorze passaram a largas dezenas e, com lenços brancos atados na cabeça que simbolizavam as fraldas dos filhos, andavam a pares ao redor do monumento de Belgrano, mesmo no centro da praça, desafiando a polícia que impedia ajuntamentos de mais de três pessoas paradas.

Rapidamente, as mães da Plaza de Mayo começaram a levar consigo as fotos dos filhos para provar a sua existência, uma vez que o Governo de Videla continuava a insistir na ideia de que tudo aquilo era irreal, sendo bastante conhecidas as palavras de um capitão do Exército que numa declaração bradou que “essas mulheres são loucas, umas putas loucas de merda”.

Mas nem Videla, capitães ou soldados fizeram com que as mães desistissem e, para provar que falavam verdade, Azucena conseguiu compilar os nomes dos desaparecidos e fê-los publicar num jornal. E este foi o seu fim. A lista saiu para a rua no dia 10 de Dezembro de 1977 e Azucena desapareceu por estes dias, juntamente com Esther Ballentrino de Careage, grande amiga de Jorge Bergoglio, actual Papa Francisco, e María Ponce de Bianco. Descobriu-se anos depois que estas três mulheres, líderes do grupo que teimava em resistir, foram levadas para o mais tenebroso campo de concentração e tortura argentino onde foram cruelmente assassinadas.

Mas nem assim os militares conseguiram esmagar a coragem das mães que debaixo de uma repressão extremamente violenta continuaram, quinta-feira após quinta-feira, a apresentar-se na Plaza de Mayo. A polícia soltou cães, golpeou as mulheres, prendeu-as e lançou gás lacrimogéneo. Mas elas nunca se renderam. Os militares talvez não conseguissem percebê-lo, mas subestimaram a força das mães. E, pelos filhos, as mães nunca desistem.

Em 1978, por altura da realização do Campeonato do Mundo de Futebol na Argentina, quando o Governo tentava o mais que podia limpar a imagem internacional do país e a imprensa se concentrava em Buenos Aires, as mães insistiram em enfrentar a repressão e saíram à rua com os seus lenços brancos na cabeça e as fotografias dos filhos desaparecidos. E foi assim que, no dia 1 de Julho de 1978, as emissoras mundiais contaram a todos o que se passava na Argentina.

Em 1980, as mães da Plaza de Mayo foram nomeadas para o Prémio Nobel da Paz e, mesmo não tendo vencido, este foi um duro golpe para o governo militar do país, que, ao tentar apelar ao patriotismo dos argentinos e desviar a atenção deste assunto, declarou uma guerra contra a Inglaterra pelas ilhas Malvinas. Como era esperado, o Exército argentino foi esmagado e o descontentamento popular tornou-se impossível de conter. Em 1983, Raúl Alfonsin foi eleito democraticamente Presidente da Argentina.

Em 1992, as mães da Plaza de Mayo venceram o Prémio Sakharov de liberdade de pensamento e o seu trabalho e persistência conseguiram que a maioria dos membros da Junta Militar fosse presa por crimes contra a humanidade. Conseguiram ainda identificar muitos corpos e 256 crianças desaparecidas das quais 137 quiseram e puderam conhecer as suas famílias biológicas.

Estas mães perderam os filhos, mas nunca perderam a coragem. São a cara, o corpo e a voz da resistência no feminino e do poder da maternidade. Azucena representa cada uma delas.

E fazendo uma espécie de regresso ao presente, imagino como se sentiriam muitas delas ao perceber que, em 2023, as eleições primárias do seu país foram ganhas por um homem como Javier Milei, que, entre outras coisas, nega as alterações climáticas, é favorável à legalização da venda de órgãos humanos, quer tornar mais fácil o acesso às armas de fogo e acredita que a educação sexual serve para destruir as famílias.

Os argentinos vivem descontentes, esmagados pela dívida ao Fundo Monetário Internacional e pela inflação acima dos 115%. A pobreza cresce. E este é, obviamente, o caldo perfeito para o crescimento de populistas como o despenteado de patilhas gigantes que mensalmente sorteia o seu salário e que vai gritando que acabará com a casta de poder no país.

Mas eu quero acreditar que a Argentina vai resistir ao canto da serpente e que este admirador de Donald Trump não conseguirá chegar à Casa Rosada. Sei que tudo aponta em sentido contrário e que as probabilidades estão todas a seu favor. Simplesmente não posso nem quero aceitar que o país das mães da Plaza de Mayo permita que isto aconteça. O país que resistiu no feminino. O país onde as mulheres deram uma lição de coragem ao mundo. O país que mostrou a força das mães.

Eduardo Galeano escreveu que, “na Argentina, as loucas da Plaza de Mayo foram um exemplo de saúde mental, porque se negaram a esquecer num tempo em que a amnésia era obrigatória.”

Que os argentinos não esqueçam agora o legado de Azucena e de cada uma destas mulheres.

Que o populismo não vença.

Que a luz continue a rasgar a noite escura.»

.

17.5.23

17.05.2013 – O dia em que morreu um carrasco: Jorge Videla

 


Foi há dez anos que morreu Jorge Videla que governou a Argentina entre 1976 e 1983 e que foi responsável por mais de 30.000 mortos ou desaparecidos. Condenado em 2010 a prisão perpétua, viu a sua pena aumentada em mais 50 anos, em Julho de 2012, por ter dirigido uma rede que roubava bebés de prisioneiros políticos.

Por ocasião da sua morte, num artigo intitulado «Nem Freud imaginou isto», Simone Duarte resumiu bem o drama de algumas destas crianças: «É este o legado do general Videla. Uma geração que desapareceu. Outra que ficou sem saber quem era. E está até hoje a tentar descobrir».

No seu livro «Los hijos de los días», Eduardo Galeano cita o que Jorge Videla explicou vinte anos mais tarde, em 1996:
«No, no se podía fusilar. Pongamos un número, pongamos cinco mil. La sociedad argentina no se hubiera bancado los fusilamientos: ayer dos en Buenos Aires, hoy seis en Córdoba, mañana cuatro en Rosario, y así hasta cinco mil... No, no se podía. ¿Y dar a conocer dónde están los restos? Pero, ¿qué es lo que podemos señalar? ¿En el mar, en el Río de la Plata, en el Riachuelo? Se pensó, en su momento, dar a conocer las listas. Pero luego se planteó: si se dan por muertos, enseguida vienen las preguntas, que no se pueden responder: quién mató, cuándo, dónde, cómo...»
.

24.3.23

24.03.1976 – Argentina: os «desaparecidos»

 


Jorge Vileda explica porque «desapareceram» milhares de pessoas:


Eduardo Galeano, Los Hijos de los Dias.
.

17.3.23

Cafés

 


Se já esteve em Buenos Aires e não foi ao CAFÉ TORTONI, não tem desculpa!
.

29.11.22

Vencer a morte

 


«Primeiro, em 1977, sequestraram o seu filho mais velho, Jorge, depois o outro, Raúl. Um ano depois, os militares levaram a nora, María Elena. Nenhum deles voltou a aparecer com vida. Até então, Hebe de Bonafini, era, aos 48 anos, “apenas uma dona de casa” argentina, para quem “a situação económica e política no meu país era indiferente”. “Mas desde que o meu filho desapareceu, o amor que senti por ele, a ânsia de o procurar até o encontrar, de exigir que me fosse entregue, o encontro e o desejo partilhado com outras mães que sentiam o mesmo desejo que o meu, puseram-me num mundo novo, fizeram-me saber e valorizar muitas coisas que eu não sabia e que antes não me interessava saber” (entrevista ao Página Digital, 12.2.2002).

Hebe de Bonafini morreu no dia 20. Tinha 93 anos e foi a mais destacada dessas mulheres extraordinárias que, denunciando os sequestros e assassínios perpetrados pela ditadura argentina (1976-83), ajudaram à queda desta e foram decisivas para se conseguir o julgamento dos seus responsáveis. Quando, depois do fim da ditadura, o poder político se sujeitava à chantagem dos militares e recorria à retórica rançosa da “reconciliação” que normalmente serve sempre apenas para indultar ricos e poderosos declarados culpados daquilo que julgam poder fazer impunemente, ela não parou enquanto não conseguiu que voltassem à prisão os poucos militares que haviam sido condenados e que fossem processados todos os responsáveis pelos 30 mil desaparecidos da ditadura argentina.

Foi graças a ela e às Madres de la Plaza de Mayo que a Argentina se tornou o caso mais notável, e mais digno de uma democracia, de uma justiça transicional que procurou efetivamente apurar as responsabilidades na violação de direitos humanos. Nem no Chile ou em Espanha, no Brasil ou em Portugal, tal foi feito. Consegui-lo foi, em grande medida, produto da coragem em desafiar o poder de umas dezenas de mulheres que, partir de abril de 1977, todas as quintas-feiras, lenço branco na cabeça, se reuniram na Plaza de Mayo de Buenos Aires, em frente ao palácio da presidência, para exigir saber dos seus filhos desaparecidos. Eram mães e avós de militantes de esquerda, sindicalistas, jovens ativistas que na Argentina dos anos seguintes ao golpe de Pinochet no Chile procuravam resistir à deriva autoritária do Estado e foram sujeitos ao que o Direito Internacional passou a designar como “desaparecimento forçado”. Como escreveu o Papa Francisco no dia da sua morte, “a sua valentia e a sua coragem, em momentos em que imperava o silêncio, impulsionou e depois manteve viva a busca da verdade, da memória e da justiça”.

Trinta anos depois, as Madres de Mayo podiam orgulhar-se de ter criado um movimento social imparável que obrigara o novo presidente Kirchner a revogar a amnistia e os indultos que Alfonsín e Menem haviam decretado para os perpetradores e forçar à reabertura dos processos. Bonafini, que, ao contrário de outras que a ditadura também sequestrou e matou, sobreviveu à repressão e a todos os processos que a direita argentina lhe moveu, lembrou então que, “face ao poder” do Estado, “pusemos o nosso corpo que é a única coisa que temos para pôr”. “Vencemos a morte, queridos filhos. Vencemos o verdugo!”, disse ela aos desaparecidos. “E isto é vida pura, cheia de amor e de abraços.” Apesar dessa vitória, “ainda há muito que fazer. Ainda há fome, desemprego, falta de casas”, reiterava ela, lembrando que a luta pelos direitos humanos não se esgota nunca em processos na justiça nem na recuperação da memória. E, justamente por isso, em nome dos valores por que foram assassinados os desaparecidos, Bonafini manteve-se sempre intransigente “contra as homenagens póstumas [com] que os políticos que estiveram de acordo com a ditadura se limpam”. Na Faculdade de Arquitetura de Buenos Aires, por exemplo, 145 estudantes foram sequestrados e assassinados pela ditadura e agora “queriam colocar todos os seus nomes numa parede”, como se tivessem sido “levados para estudar Arquitetura. Não, falta o principal: eram revolucionários, e foram [mortos] por isso mesmo! Rejeitamos as homenagens, as placas, os monumentos, e continuamos a dizer que os nossos filhos estão vivos, com cada vez mais força!”. Como ela e os seus valores. Vivos.»

.

21.11.22

Eram loucas, as mães da Praza de Maio?

 


«Um filho de Hebe de Bonafini foi sequestrado pelos militares argentinos em fevereiro de 1977, pouco depois de se ter instaurado a ditadura. Em abril, ela e mais 13 mães de desaparecidos juntaram-se na Praça de Maio, no centro de Buenos Aires e em frente ao palácio presidencial, para exigir a devolução dos seus filhos. Poucos meses depois, em dezembro, outro dos três filhos de Hebe foi sequestrado; no ano seguinte, seria a sua nora. Nunca mais se soube deles. E todas as semanas, na quinta-feira, ela lá estavam, de lenço branco, a chamar pelos seus filhos, como as outras mães. Foram presas e continuaram. Algumas foram mortas e as outras continuaram. Ninguém falava sob a ditadura e elas lá estavam. Houve trinta mil mortos e elas não se calaram.

Encontrei-a em 1982, com algumas dessas mães, quando por lá andei a fazer trabalho de solidariedade contra a ditadura. Nesses dias, os jornais obedientes referiam-se-lhes como “as loucas da Praça de Maio” - os militares não conseguiam impedir a sua presença, preferiram tentar ignorá-las. Mas nada podiam contra a determinação daquelas mães: em dezembro desse 1982, organizaram uma marcha, milhares de pessoas juntaram-se-lhes, era o princípio do fim da ditadura, no ano seguinte cairia como um castelo de cartas. E há que pensar na razão mais profunda do coração daquelas mães: se se dizia que era loucura ir com um lenço branco para a rua quando toda a gente fugia ou desviava os olhos, quantos lhes terão dito que terçavam contra o impossível, elas tiveram uma paixão que só a razão sabe definir. Lutaram pela sua gente. Nenhuma ditadura as podia vencer.

Hebe de Bonafini morreu esta semana, aos 93 anos.»

Francisco Louçã no Facebook
.

17.5.22

17.05.2013 – A morte de um carrasco: Jorge Videla

 


Foi há nove anos que morreu Jorge Videla que governou a Argentina entre 1976 e 1983 e que foi responsável por mais de 30.000 mortos ou desaparecidos. Condenado em 2010 a prisão perpétua, viu a sua pena aumentada em mais 50 anos, em Julho de 2012, por ter dirigido uma rede que roubava bebés de prisioneiros políticos.

Por ocasião da sua morte, num artigo intitulado «Nem Freud imaginou isto», Simone Duarte resumiu bem o drama de algumas destas crianças: «É este o legado do general Videla. Uma geração que desapareceu. Outra que ficou sem saber quem era. E está até hoje a tentar descobrir».
.

23.4.22

Dia Mundial do Livro

 


Marta Minujín é uma artista plástica argentina que, entre muitas outras obras, concebeu, em 1983, o «PARTENON DOS LIVROS», construído com 30.000 obras proibidas durante a ditadura militar no seu país e que tinham sido escondidas pelos editores.
 
Mais tarde, na Alemanha, no local onde se deu a célebre queima dos livros pelos nazis, Marta Minujín concretizou um projecto semelhante numa réplica do templo grego em tamanho real.
.

17.7.21

Em Busca do Passado (não) Perdido – 8

 


Passar da Argentina para o Chile pelos Lagos Andinos é uma etapa complicada que implica estradas, lagos, autocarros e barcos, mas absolutamente inesquecível por tudo o que se vê entre Bariloche e Peulla.

Faz lembrar a Suíça pela paisagem, mas que ninguém diga por lá que se trata da Suíça da América Latina: a Suíça é que é a Bariloche da Europa… Ver para crer, de facto, a beleza desta parte da Patagónia, sobretudo por um conjunto de lagos inigualável em número, variedade, conjugação com montanhas e vegetação e de um azul absolutamente do outro mundo!
.

28.11.20

Fin del Mundo

 


Voltaria de bom grado a andar neste comboiozinho até à estação do Fim do Mundo, bem longe, perto de Ushuaia, quase à esquina do Estreito que Magalhães atravessou há 500 anos para chegar ao Pacífico. E em que dia terá chegado? Pois parece que foi em 28 de Novembro…
.