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4.5.12

Dito por aí (13)

@João Abel Manta

«O que está a acontecer é que a construção europeia está a passar da fase do risco para a fase da incerteza. A diferença entre os dois conceitos é a base do negócio das companhias de seguros. É possível segurar o risco do acidente de viação, pois posso calculá-lo, mas ninguém segura riscos associados a alterações climáticas, pois aí reina a incerteza. O tempo da Europa, e consequentemente de Portugal, já passou a fase do cálculo, para entrar na entropia da incerteza. O tempo não pertence a Vítor Gaspar, mas ao jogo de dados a que uns chamam deus, e outros azar. Ninguém sabe quando, e se, Portugal voltará aos mercados.» 
Viriato Soromenho-Marques, Do risco para a incerteza

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«Em segundo lugar, nessa cultura a compreensão do trabalhador como titular de direitos é tida como um desvio ideológico passadista e substituída pela apologia de uma "responsabilidade social" feita de distribuição de sobras que minora a raiva e o desespero mas mantém incólume tudo o que os produz. Em Abril, Soares dos Santos revelou que 1500 dos funcionários da Jerónimo Martins têm os salários penhorados por dívidas e alguns até roubam nas lojas Pingo Doce para matar a fome. Isso fê-lo rever a política de salários do grupo e o abuso de recurso à precariedade? Não, num gesto magnânimo, prometeu ajuda em géneros. Eis a responsabilidade social em todo o seu esplendor.» 
José Manuel Pureza, Pingo amargo

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«Entre quatro produtos analisados, apenas no caso da pêra a margem era inferior a 50%, sendo de 40%. “Na alface, 80% do preço final fica na distribuição – um quilo de alface custava, em média, cerca de 40 cêntimos à saída do produtor e quase 1,80 euros no supermercado; na cenoura, a margem de comercialização ficava entre o 55% e os 70%; na maçã, a margem era superior a 50%”, segundo dados publicados no seu sitea. O Observatório [dos Mercados Agrícolas] quer estudar mais alimentos.»

13.4.12

Dito por aí (12)

@João Abel Manta

«Mas, se a assassina receita da "troika" chegar a Espanha, também teremos uma alteração do ambiente político na Europa. Os espanhóis não têm a brandura dos portugueses. Estão mais próximos dos gregos, sendo, ao contrário destes, uma potência económica e política na Europa. Ali as greves gerais são a sério. E com um desemprego a aproximar-se dos 25%, a contestação será a doer. Pode aguentar a Europa uma Espanha a ferro e fogo? Duvido.» 
Daniel Oliveira, Espanha por um fio 

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«Há muito que não se via um primeiro-ministro seguir tão de perto a liturgia pascal, do calvário à crucificação. Em termos simbólicos, claro - mas em política nada está mais perto da realidade do que os símbolos.»
Manuel Maria Carrilho, Passos em falso 

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«Nada disto conta para os tecnocratas de serviço. Fizeram do encerramento da MAC um remake pífio da novela das explicações para bombardear o Iraque: primeiro tinha partos a mais, depois tinha partos a menos, depois não é boa prática manter uma unidade monofuncional devendo ser integrada num hospital geral.» 
José Manuel Pureza, A racionalização

16.1.12

Dito por aí (11)

@João Abel Manta

«Que pensaria um cidadão comum se alguém em quem tivesse confiado e com quem tivesse feito um acordo, apanhando-se com o acordo na mão, violasse todos os compromissos assumidos fazendo exactamente o contrário daquilo a que se comprometera? (…)
Quando os eleitos actuam impunemente à margem de valores elementares da sociedade como o da honra e o do respeito pela palavra dada não é só o seu carácter moral que está em causa mas a própria credibilidade do sistema democrático.»
Manuel António Pina, A honra perdida da política

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«Nada de bom se pode esperar de um Sarkózy desesperado, e de uma Merkel aterrorizada na sua ilha, que se afunda carregada com as poupanças de europeus em fuga para sítio nenhum. A Europa poderia ter um futuro. Federalismo, com prosperidade. União política, com confiança. Em vez disso está mais perto da implosão, da pobreza, e das baionetas. Os mercados não são o inimigo. A estupidez política, sim. Mas como poderemos vencer uma força contra a qual, como escreveu Schiller, até os deuses lutam em vão?»
Viriato Soromenho Marques, O eixo partido

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«Par comparaison, le naufrage du Costa Concordia précise notre image de l'autre naufrage, celui de l'euro. L'orgueil est le même, qui inspira les deux chantiers. Et sans doute à l'arrivée le bilan sera-t-il comparable : gros dégâts matériels, film impressionnant rejoué en boucle, énormément de peur, mais moins de mal.
Pour le reste, ce sont les différences qui frappent. Si quelques minutes ont suffi à couler le paquebot, le naufrage de l'euro, lui, n'en finit pas. C'est une catastrophe à épisodes, permanente, interminable. La coque n'en finit pas de se déchirer sur le récif, centimètre par centimètre, tandis que l'équipage multiplie les consignes incohérentes, ébloui par le phare des naufrageurs de Standard & Poor's.»
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3.1.12

Dito por aí (10)

@João Abel Manta

«A Europa vive uma crise profunda. A seu ver, o colapso é uma possibilidade? 

No estado actual, é possível. Mas vamos sair desta situação de uma forma ou de outra. Irónico é a Alemanha poder voltar a dominar. É um passo atrás. Entre Agosto de 1914 e Maio de 1945, a Europa, de Madrid a Moscovo, de Copenhaga a Palermo, perdeu quase 80 milhões de pessoas em guerras, deportações e campos de extermínio, fome, bombardeamentos. O milagre está em que sobreviveu. Mas a sua ressurreição foi apenas parcial. A Europa está a passar por uma crise dramática; está a sacrificar uma geração, a dos seus jovens, que não acreditam no futuro. Quando eu era jovem, havia esperanças para todos os gostos: o comunismo, com certeza! O fascismo, que foi também uma esperança, não nos deixemos enganar. E, para os judeus, havia ainda o sionismo. Havia ideologias aos montes... Isso já não existe. Ora, quando a juventude não é tomada por uma esperança, mesmo que ilusória, o que resta? Nada. O grande sonho messiânico socialista conduziu aos gulags e ao socialista francês François Hollande – tomo-lhe aqui o nome como um símbolo, não estou a criticá-lo. O fascismo descambou no horror. O Estado de Israel tem imperativamente de sobreviver, mas o seu nacionalismo é uma tragédia, profundamente contrário ao génio judeu, que é cosmopolita. Pessoalmente, quero ser nómada. Vivo segundo a divisa do Baal Shem Tov, grande rabino do século XVIII: "A verdade está sempre no exílio."»
Entrevista: George Steiner, um certo conceito de conhecimento

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«Se um génio do marketing tivesse como encomenda uma campanha a apelar ao suicídio colectivo, não conseguiria nada potencialmente mais eficaz do que aquilo que na última semana todos pudemos ler, ver e ouvir em todos os jornais, televisões, rádios e locais na Internet onde se debitam notícias e opiniões. Felizmente, quando apanhei os primeiros jornais do Novo Ano, confirmei não ter ocorrido um ataque de histeria generalizado e não estarem as ruas cheias de multidões de corpos sem vida por causa da gente que não quis esperar pelo apocalipse... Quão sensatas são as pessoas, graças a Deus!
O mecanismo que impulsiona esta ideologia da inevitabilidade, do conformismo, da aceitação determinista de um destino fatal, transversal, é uma arma paralisante. Como pode uma sociedade querer melhorar, como pode uma sociedade renovar-se, como pode uma sociedade curar as suas maleitas se, simplesmente, como um doente de cancro terminal vencido pelo cansaço, resigna à luta e aceita o fim que lhe traçam? A quem interessa essa desistência? Quem ganha com essa inércia? Ganha quem não quer mudar o statu quo actual, mesmo se for ele o causador principal da desgraça a que chegámos.»
Pedro Tadeu, A quem interessa que 2012 seja um ano difícil?

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«Palavras não são capazes de expressar o significado do lançamento da Iniciativa para uma Auditoria Cidadã da Dívida de Portugal – IAC - realizado em Lisboa, Portugal, em 17 de Dezembro de 2011, que certamente entrará para a história do país. (…)
O grande destaque do evento foram as brilhantes apresentações de integrantes da IAC – cidadãos portugueses voluntários – que, antes mesmo do início dos trabalhos da comissão, demonstraram plena capacidade de dominar o tema do endividamento público, suas origens e impactos na vida de todos.»
Maria Lucia Fattorelli, Auditoria Cidadã da Dívida de Portugal
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30.12.11

Dito por aí (9)

@João Abel Manta

«A constatação de que 2011 foi para os portugueses um ano horribilis só é contrabalançada pela certeza de que 2012 será ainda pior. (…)
Neste contexto, os costumeiros votos de “próspero ano novo” constituem em Portugal uma manifestação de maldoso sarcasmo. O ano de 2012, em primeiro lugar, não é novo: é a continuação, extremada, das desastrosas políticas dos últimos governos, agora vigiadas pelos prestamistas que tomaram conta do País. Em segundo lugar, 2012 vai ser o primeiro ano de uma nova contagem do tempo planeada para Portugal: um tempo de miséria, exploração, desigualdade, eliminação de direitos e repressão. Para salazarismo, só falta um Salazar. Ou será que já o encontraram?»
João Paulo Guerra, Horribilis

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«Mas, claro, podemos não precisar mais de partidos. Se o golpe de Estado europeu que está a substituir a democracia representativa por um império "dos mercados" vingar, seremos governados por "especialistas". E, quinta lição, parece que é mesmo possível fazer isso sem enfrentar grandes indignações e resistências. Se calhar, andamos a levar o desígnio de Passos tão a sério que nos cremos - e queremos - pobres até no espírito.»
Fernanda Câncio, Lições de 2011

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«Indesejados no seu próprio país, resta hoje aos portugueses, como ao judeu errante, construir o Portugal futuro com que sonhou Ruy Belo "sobre o leito negro do asfalto da estrada".»
Manuel António Pina, O português errante
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27.12.11

Dito por aí (8)

@João Abel Manta

«A questão é que a democracia é, antes de tudo o mais, igualdade e liberdade. E as "reformas" cavam mais fundo o fosso das desigualdades, sendo que para vingarem exigem mão de ferro e pouco barulho. (…)
As alegadas "reformas" em curso são apenas uma dose cavalar da política de todos os governos das últimas décadas. O resultado, segundo a OCDE, é que o fosso entre ricos e pobres atingiu agora em Portugal o nível mais elevado dos últimos 30 anos. E daqui para a frente será sempre a piorar.
Políticas deste tipo são inevitavelmente fontes de confronto social em que os governos intervêm pela força da repressão. E as ameaças do poder não deixam dúvidas quanto a intenções repressivas. Depois dos socialistas terem metido o socialismo na gaveta, chegou a vez de os social-democratas meterem a democracia no baú.»
João Paulo Guerra, Democracia

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«Esqueça o "Trivial Porsuit". O jogo das noites de 2012 será tentar descobrir uma ideia, uma "representação que se forma no espírito", uma "percepção intelectual" ou um "pensamento" nas 812 palavras da mensagem de Natal do primeiro-ministro. (…)
“Um Bom Natal e um Feliz Ano Novo", como disse Passos Coelho (foi impressão minha ou ouviu-se mesmo, em fundo, o sinistro riso de Muttley?)
Manuel António Pina, Jogue e instrua-se

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«Não é preciso ser economista para ver que o que temos pela frente é um panorama para 2012 e 2013 de aprofundamento de uma recessão que deixará o país perante problemas não resolvidos, que a austeridade promete resolver.
A austeridade deixará Portugal em piores condições para enfrentar os problemas da dívida e do défice, para não falar nos problemas novos que cria.
Há ainda a possibilidade de um país da UE, como a Itália, entrar em incumprimento, desencadeando uma série de incumprimentos sucessivos, e isso é, paulatinamente, o euro a desagregar-se, o projecto europeu a desagregar-se, ou pelo menos a transformar-se, ficando apenas um pequeno núcleo de países no euro e um número maior de países a regressar a moeda nacionais.»
José Castro Caldas, Temos pela frente um panorama assustador
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23.12.11

Dito por aí (7)

@João Abel Manta

«Na sua compreensão mecânica e sem alma da realidade, os liberais destinam às massas humanas um irrecusável princípio de transumância. Nos gráficos a que rezam e nas curvas que os enlevam, os liberais conseguem vislumbrar uma racionalidade segundo a qual os indivíduos, como o gado, estão condenados a um deslocamento sazonal para locais que oferecem melhores condições. Aliás, para os liberais os indivíduos são uns sortudos: enquanto os rebanhos se têm que deslocar duas e três vezes todos os anos, as pessoas só se deslocam uma ou duas vezes na vida. A essa pastorícia dos humanos, os liberais chamam "ajustamento espacial da mão-de-obra à disponibilidade do factor trabalho".»
José Manuel Pureza, A transumância

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«Os portugueses não precisam que lhes indiquem quando e se devem emigrar - tal como respirar está-lhes no ADN. Os portugueses estão acabrunhados e com medo do amanhã, a última coisa que precisam é que os empurrem para fora do seu país. Eles irão ou não, como entenderem. Eles. Os governantes que se candidataram, ainda há pouco, a governá-los a todos, não podem, agora, querer descartar parte deles.»

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«Parece que há excesso de portugueses em Portugal. Para remediar tão desgraçada contrariedade, o Governo decidiu minguar-nos tomando decisões definitivas. (…)
Acontece um porém: e os velhos? Que fazer dos velhos que enchem os jardins e a paciência de quem governa? Os velhos não servem para nada, nem sequer para mandar embora, não produzem a não ser chatices, e apenas valem para compor o poema do O'Neill, e só no poema do O'Neill eles saltam para o colo das pessoas. Os velhos arrastam-se pelas ruas, melancólicos, incómodos e inúteis, sentam--se a apanhar o sol; que fazer deles?
Talvez não fosse má ideia o Governo, este Governo embaraçado com a existência de tantos portugueses, e estorvado com a persistência dos velhos em continuar vivos, resolver oferecer-lhes uns comprimidos infalíveis, exactos e letais. Nada que a História não tivesse já feito. Os celtas atiravam os velhos dos penhascos e seguiam em frente, sem remorsos nem pesares.»
Baptista-Bastos, A mentira e o desprezo
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15.12.11

Dito por aí (6)

@João Abel Manta

«A questão é que a Europa, enquanto existiu como projecto, só funcionou para a burocracia e as directivas que favoreciam os interesses dos muito grandes e gananciosos. A Europa, que agora quer proibir o défice excessivo nas constituições, nunca emitiu directivas a proibir a pobreza, o desemprego, a indigência, ou a mandar transpor para a ordem interna dos países o bem-estar e o desafogo. E depois, por motivos meramente estratégicos, juntou num mesmo continente conteúdos tão diversos e tão distantes como a Noruega e a Bósnia-Herzegovina, a Suíça e a Bulgária, ou até mesmo o Luxemburgo e Portugal. A coesão não passou de um ‘slogan' e o Luxemburgo tem um poder de compra médio que representa mais do triplo da média do poder de compra dos portugueses. E Portugal, que o salazarismo reduziu a uma horta estagnada e a contra-revolução a uma quinta de compadres, entrou para o clube – primeiro da Comunidade Europeia, depois do euro – sem condições para pagar a jóia e malbaratando os fundos europeus.»
João Paulo Guerra, Pobreza

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«Quando se repete que "vivemos acima das nossas possibilidades", não se está só a apresentar uma análise económica, valha ela o que valer. Está-se também a assumir um juízo moral, e um juízo moral que historicamente sempre acompanhou o fenómeno da dívida. Porque a dívida instalou-se na cultura ocidental, e de um modo cada vez mais constante e avassalador, desde que se privilegiou de um modo absoluto a relação com o futuro, concebendo-o como um horizonte que acolhe e compatibiliza todas as promessas e expectativas, por mais contraditórias ou inviáveis que fossem.

Foi isso que, antes de todos, percebeu Nietzsche, o mais visionário dos filósofos do século XIX. Foi no segundo ensaio do seu livro A Genealogia da Moral, de 1887, que ele perspicazmente sugeriu que a sociedade não resulta da troca económica (como pensaram A. Smith ou K. Marx), nem assenta na troca simbólica (como viriam a defender as perspectivas antropológica ou psicanalítica), mas que ela se organiza a partir do crédito. Ou mais precisamente, da relação credor-devedor.»
Manuel Maria Carrilho, A dívida e a culpa

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«Quando estão no poder, as esquerdas não têm tempo para reflectir sobre as transformações que ocorrem nas sociedades e quando o fazem é sempre por reacção a qualquer acontecimento que perturbe o exercício do poder. A resposta é sempre defensiva. Quando não estão no poder, dividem-se internamente para definir quem vai ser o líder nas próximas eleições, e as reflexões e análises ficam vinculadas a esse objectivo. (…)

O movimento dos indignados e do occupy recusam a expropriação da democracia e optam por tomar decisões por consenso nas suas assembleias. São loucos ou são um sinal das exigências que vêm aí? As esquerdas já terão pensado que se não se sentirem confortáveis com formas de democracia de alta intensidade (no interior dos partidos e na república) esse será o sinal de que devem retirar-se ou refundar-se?»
Boaventura Sousa Santos, Terceira Carta às Esquerdas
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12.12.11

Dito por aí (5)

@João Abel Manta

«Há coisas que não mudam e o ataque às gerações futuras é uma delas. Em Portugal, os governos surpreendem sempre pela criatividade e desfaçatez e os cidadãos pelo conformismo. (…)
Na situação de emergência que vivemos, tudo se passa na maior das tranquilidades. É até possível ouvir o ministro Vítor Gaspar dizer que esta operação é "actuarialmente equilibrada". O cálculo actuarial é usado para determinar o risco dos seguros e das finanças e, se o ministro fez as contas, deveríamos ficar descansados. Mas eu não fico, porque ele não vai estar lá para responder quando eu for pensionista e pedir a devolução do dinheiro que lhes confiei. Adeus reforma.»

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«Não é preciso ir muito atrás na história da Europa para descobrirmos momentos em que comunidades inteiras falharam, em que países semearam a destruição, em que se cometeram as mais terríveis atrocidades. Fossem, após esses acontecimentos, merkels e sarkozys a decidir o futuro e ainda tínhamos os povos responsáveis por esses, muitas vezes, colossais erros de castigo. É, no fundo, o que está a ser feito. Estamos na presença de uma nova teoria: a doutrina do castigo. Há que castigar milhões e milhões de pessoas, pô-las no desemprego, falir empresas, recuperar as sopas dos pobres. E porquê? Porque se portaram mal.»
Pedro Marques Lopes, A doutrina do castigo

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«Agora está claro: não existe, no interior da União Europeia, nenhuma vontade política de enfrentar os mercados e resolver a crise. Até há pouco, atribuiu-se a lamentável actuação dos dirigentes europeus à sua desmedida incompetência. Mas esta explicação, ainda que correcta, não basta, sobretudo depois dos recentes “golpes de Estado financeiros” que puseram fim, na Grécia e na Itália, a certa concepção de democracia. É óbvio que não se trata só de mediocridade e incompetência, mas de cumplicidade activa com os mercados.»
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9.12.11

Dito por aí (4)

@João Abel Manta

«Este é um momento constituinte da União Europeia. É um momento constituinte incompetente e a-democrático. Incompetente porque insiste em fazer da sobre-dosagem do tóxico a terapêutica. O que está a conduzir a Europa a uma depressão económica sem precedentes será preceito constitucional sem margem de manobra possível. A-democrático porque aposta na sua própria blindagem contra qualquer inesperado gesto democrático que o afronte.»
José Manuel Pureza, O momento constituinte

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«O que a história nos ensina sempre é que o presente nem sempre é o pior dos tempos. Sim, não vai haver nenhuma solução para a crise do euro e a cimeira que começa hoje será uma fantochada sem nome. A Europa vai passar por uma crise de que já não se lembra e, provavelmente, irá implodir enquanto união semi-política – mas, às tantas, haverá uma reconversão das coisas. (…)
Se esta crise nos levar a recuperar a política para a primeira linha – secundarizando a “alienação” provocada pelo “shopping” teorizada à exaustão pelos filósofos contemporâneos – não se perdeu tudo. Até aqui vingou o lema “a Europa não se discute”, reflexo daquele que Salazar fazia com a pátria. A ideia de começar a discuti-la é, em si, uma coisa boa.»

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«É-nos frequentemente dito que uma reestruturação da dívida é impensável, resultará em danos irreversíveis para a nossa reputação e constitui uma violação de obrigações contratuais do Estado Português. Em primeiro lugar, uma reestruturação da dívida é tudo menos impensável e constitui, pelo contrário, um facto relativamente banal na história económica, incluindo a mais recente. (…)
Finalmente, a questão das obrigações contratuais. Este é talvez o argumento mais descarado de quem se opõe a uma reestruturação. Isso porque o que está a acontecer hoje em dia com a política de austeridade são violações contratuais várias, repetidas e continuadas. Os cortes nos salários da função pública ou nas pensões violam relações contratuais, aliás consagradas na lei, para já não falar da Constituição. Um pouco por todos os setores, da cultura à saúde, passando pelas Universidades e pelos apoios sociais, relações de confiança estão a ser quebradas e direitos estão a ser desmantelados.»

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«A actual fornada de "boys" do PSD e CDS só vem substituir a fornada do PS, sendo que, para os contribuintes pagantes, tanto faz pagar a uns como pagar a outros. Sónia Fertuzinhos não fala, pois, para o país, mas para dentro do seu partido, e a sua indignação deve ser entendida como mera expressão de solidariedade com todos os camaradas que acabaram de ficar sem os lugares que, se Deus e os eleitores quiserem (e normalmente querem), recuperarão mal o PS volte a ser Governo.»
Manuel António Pina, A dança das cadeiras
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1.12.11

Dito por aí (3)

@João Abel Manta

«Quem poderia prever que a progressiva e próspera Europa de Julho de 1914 iria desaguar no mar de barbárie e selvajaria da I Guerra Mundial, apenas um mês depois? Quem poderia imaginar que a queda da bolsa de Nova Iorque, em 1929, levaria, em virtude de uma série de opções políticas erradas, a 16 anos de pobreza e austeridade, ao triunfo de Hitler, ao segundo conflito mundial, e ao holocausto? Se a Zona Euro entrar em colapso viveremos a maior singularidade da história europeia, com repercussões mundiais. Não é difícil antecipar como começará (…), mas ninguém sabe como acabará. Uma vez aberta a caixa de Pandora, tudo é possível.»
Viriato Soromenho-Marques, Buraco negro

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«A liberdade de imprensa é uma maçada democrática. Outra é o "inalienável" direito à greve, como diria o ministro Miguel Macedo. De facto, a Democracia vem num "pack" constitucional que, se tem virtualidades, não tem menos inconveniências, sendo impossível adquiri-la sem adquirir também monos como esses.»
Manuel António Pina, A Democracia, essa maçada

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«Mas falo também na primeira pessoa: conheço bem o primeiro dos “perigosos agitadores” detidos naquele dia. Ele contou-me e mais tarde pude confirmá-lo num vídeo que estava frente à escadaria do Parlamento e três agentes à civil saíram das linhas da polícia de choque e escolheram-no de um modo aparentemente aleatório para ser detido. Passaram nas suas costas e empurram-no para a linha policial. Por causa dessa acção houve uma pequena agitação entre os manifestantes e a polícia, porque ninguém compreendia aquela detenção. Mas o motivo hoje é mais claro: era uma operação policial para inflamar os ânimos de quem protestava e justificar a desproporção dos meios e para criminalizar a Greve.
Momentos depois, o porta-voz da PSP dizia não confundir a manifestação legítima dos sindicatos com o que se passou depois. De facto, não havia nenhuma confusão possível, visto que os desacatos foram planeados e executados pela polícia e não pelos manifestantes, sindicalizados ou não.»
Ricardo Moreira, A criminalização da Greve Geral
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26.11.11

Dito por aí (2)

@João Abel Manta

«Mas o que transpira no actual discurso governamental é não só indiferença face ao empobrecimento generalizado dos portugueses, como a ideia implícita de que esse empobrecimento é moralmente bom, “purifica”, regenera. Salazar pensava assim, que a pobreza era uma virtude e muitos dos nossos governantes, como acham que tudo o que a mão do estado toca é por natureza impuro, aconselham dieta aos magros, como se a mortificação a que eles presidem fosse um castigo divino executado pela troika e seus mandantes.»
José Pacheco Pereira, O mundo que estamos a criar (4)


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«Quando Vítor Gaspar diz com leveza que afinal a recessão - ou seja o empobrecimento - da nossa economia vai ser mais grave do que ele previa, confessa assim que quem nos governa não tem a mínima noção dos efeitos das suas decisões. Ou melhor, que a tem mas se está basicamente nas tintas para isso. Afinal de contas foi este Governo que nos brindou com esse expoente da novilíngua orwelliana de que é empobrecendo que ficaremos mais ricos.»
José Manuel Pureza, O 'day after'

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«Só a estupidez humana, invencível até para os deuses (Shakespeare), e mais infinita do que o próprio universo (Einstein), é que pode explicar o facto de a Zona Euro estar a combater uma crise sistémica com respostas nacionais, baseadas numa austeridade cega. Se a crise se combatesse com jejum, como é que se explica que até sólidos países, que pertencem ao clube AAA, estão a ver os custos da sua emissão de dívida pública a subir perigosamente: Holanda, Finlândia, Áustria (já nem falar de França)?»
Viriato Soromenho-Marques, Ondas de choque
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22.11.11

Dito por aí (1)

@João Abel Manta

«Em Portugal, a esquerda doméstica, e domesticada, reuniu-se com os respectivos sindicalistas mas não falou da greve geral. É histórico e a história mais recente está a confirmá-lo: há uma certa esquerda tão formatada pela democracia formal e pelos interesses do poder económico que mal se distingue da direita. Por exemplo, a diferença entre a coligação PSD/CDS no poder em Portugal e a oposição PS de António José Seguro é a distância que vai entre cortar os dois ou só um dos meses na contagem dos salários anuais. No meio da desgraça geral um salário por ano pode aliviar um pouco, mas na substância essa batalha não altera nada.»
João Paulo Guerra, Esquerda

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«Para Portugal, apenas um conselho. O primeiro-ministro deve concentrar-se em impedir que a opinião pública acabe mesmo por acreditar que é Miguel Relvas quem chefia o governo.»
Viriato Soromenho Marques, Uma semana crucial

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«A expressão "navegação à vista" seria apropriada para descrever a presente história trágico-governativa se, nas sucessivas decisões e anúncios de decisões do Governo e nas previsões em que elas se fundam, se vislumbrasse a vaga ideia de um rumo. (…)
Vítor Gaspar é, aliás, o ministro dos desmentidos de serviço. Só ontem desmentiu não só a revisão salarial da função pública anunciada sexta-feira pelo secretário de Estado da Administração Pública e a redução de salários no sector privado anunciada pela "troika" como a sua própria previsão de uma recessão de 2,8% em 2012, anunciada em Outubro, que desmentia, por sua vez, a de 1,8% que anunciara em Agosto. A versão de Novembro é agora de 3%. Aguardemos pela de Dezembro. E ponhamos os coletes de salvação e preparemo-nos para o naufrágio.»
Manuel António Pina, Navegar à vista

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«A semana passada fiquei envergonhado com o orgulho com que os nossos governantes e muitos comentadores políticos anunciaram a, cito, "passagem de Portugal no exame da troika".
Os amanuenses da macroeconomia estavam satisfeitos com a aplicação correcta de medidas financeiras de emergência. (…)
Só espero que, rapidamente, Portugal volte a ser governado por gente sábia, sim, mas em política, não em somas e subtracções de contabilidade de mercearia.»
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