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8.1.26

A Venezuela mostra que o discurso de Trump encolhe o nosso mundo


 

«A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos confirma uma mudança profunda na forma como Washington se vê a si própria e ao mundo. A linguagem das alianças, da cooperação e da ordem internacional foi substituída pela linguagem do negócio, da transação, do ganho imediato – e, agora, pela intervenção militar direta, como se verificou na Venezuela. cccccc

O filósofo Ludwig Wittgenstein escreveu que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. A forma como Donald Trump fala – e age – nas relações internacionais ilustra bem esta ideia. O seu discurso reduz a complexidade global a uma lógica binária de vencedores e perdedores, amigos úteis e parceiros suspeitos: é esta lógica que apresenta a operação para derrubar Nicolás Maduro como uma vitória da “liberdade” contra a “tirania”. É uma linguagem simples, direta e eficaz do ponto de vista eleitoral, mas pobre para descrever – e governar – um mundo profundamente interligado e juridicamente denso.

Thomas L. Friedman já afirmou que Trump não está interessado em travar uma nova Guerra Fria, mas sim uma “nova guerra civilizacional”. Não se trata da competição entre potências ou de divergências estratégicas; trata-se de uma narrativa identitária em que o mundo se divide entre “nós” e “eles”, entre civilização e ameaça. A intervenção na Venezuela foi enquadrada nesta gramática moral rígida como um ato de “libertação” contra um regime apresentado como inimigo da ordem civilizada.

Durante décadas, o poder americano construiu-se, não só pela força económica e militar, mas também pela capacidade de gerar cooperação voluntária entre aliados. Esse poder assentava na previsibilidade, na confiança e na ideia de que liderar era mais do que impor. Trump ignora esta herança: ao bombardear a Venezuela e anunciar que os EUA irão “dirigir” o país até uma transição, tratou os aliados como espectadores ou acompanhantes táticos e não como parceiros.

A cooperação oferece benefícios que a força pura não consegue garantir: partilha de informação sensível, desenvolvimento tecnológico conjunto, coordenação económica e influência política duradoura. Um país pode impor condições e obter ganhos rápidos, mas perde parceiros dispostos a partilhar custos, riscos e responsabilidades. O resultado é um poder mais solitário – e, paradoxalmente, mais vulnerável, como se vê nas críticas internacionais à operação venezuelana e no risco de novas instabilidades regionais.

A Europa está numa posição particularmente delicada. Durante muito tempo, habituou-se a falar a linguagem dos “valores universais”, dos direitos humanos e do multilateralismo. Este discurso deu-lhe influência moral e capacidade de atração. No entanto, os últimos anos – da guerra na Ucrânia à dependência energética, das fragilidades na defesa comum à dependência tecnológica – revelaram os limites de um poder assente sobretudo na palavra.

Perante o ataque à Venezuela e a captura de Maduro, a União Europeia respondeu apelando à contenção, ao respeito pelo direito internacional e pela Carta da ONU, reafirmando a importância das regras que a própria Europa ajudou a construir. Esta reação evidencia a tensão entre a proximidade política com Washington e a necessidade de se distinguir de intervenções unilaterais, mostrando que a Europa tenta manter a gramática do multilateralismo mesmo quando o principal aliado a contorna.

A China compreendeu bem esta equação. Investe, não apenas em poder económico e militar, mas também em diplomacia, cultura, infraestruturas e parcerias no Sul Global, apresentando-se como defensora da soberania e da não intervenção. Percebem que o poder no século XXI não é apenas força ou dinheiro, mas também prestígio, narrativa e capacidade de inspirar.

c Sem esses instrumentos, a linguagem dos valores é uma retórica vazia, reduzida a comunicados de condenação e apelos à calma perante decisões tomadas por outros.

Trump percebe o valor da força. A Europa compreende o valor da palavra. A sabedoria política do século XXI estará em combinar ambos. A operação na Venezuela lembra que, se a União Europeia não aprender a agir como potência – com voz própria, capacidades e limites claros às aventuras militares dos aliados –, continuará a ser tratada apenas como um mercado. Será chamada a pagar parte da conta, mas raramente decidirá o rumo.»


24.12.25

Thierry Breton

 


«1. Donald Trump acaba de decretar sanções contra o ex-comissário europeu Thierry Breton, por ter sido o 'cérebro por detrás da aprovação da Lei dos Serviços Digitais' - uma lei aprovada no Parlamento Europeu e pelos 27 Estados-membros, que regula os serviços digitais na UE e, entre outros objetivos, combate a propagação de conteúdos digitais que atentam frontalmente contra os valores europeus e democráticos, como a pornografia infantil ou o discurso de ódio. Uma lei a que estão naturalmente sujeitas todas as empresas que operam na UE, qualquer que seja a sua origem nacional.

2. Ao mesmo tempo, Trump sanciona vários dirigentes de ONGs europeias que se têm destacado na luta contra a desinformação e o discurso de ódio.

3. Fá-lo poucos dias depois de ter nomeado um representante especial para a Gronelândia (como se não tivesse embaixador em Copenhaga), com a missão, diz o nomeado, de fazer da Gronelândia parte dos Estados Unidos.

4. Não há outro modo de dizer a coisa: todos nós europeus que acreditamos na liberdade, na democracia e na justiça, e a União que constituímos, temos de considerar Trump como nosso adversário (como, aliás, o próprio diz). Não devemos ter medo de dizer que esta personagem egomaníaca, autoritária, vingativa, e além do mais paranoica e demencial, que despreza o direito internacional, autoriza execuções extrajudiciais e crimes de guerra, é racista e se alia à extrema-direita para dar cabo da nossa ordem democrática, é um inimigo jurado dos nossos valores e da nossa própria existência, como união política, espaço de liberdade e mercado único.

5. Das duas uma: ou ganha ele, ou vencemos nós. Basta de condescendências e apaziguamentos, que já cheiram a cobardia. E isto não é anti-americanismo; é, pelo contrário, ser amigo dos Estados Unidos e fazer o que está ao nosso alcance para que os Estados Unidos sobrevivam a esta profunda crise de tirania e desumanidade em que mergulharam.»

Augusto Santos Silva no Facebook

9.12.25

A mão de Trump na Europa

 


«A nova Estratégia de Segurança Nacional anunciada por Donald Trump começa por deslocar o mundo. Os Estados Unidos voltam-se para o seu lado do mapa e devolvem ao hemisfério ocidental o reduzido peso que já teve quando Monroe o declarou fora de mão. A Europa, que durante oito décadas foi a retaguarda do Ocidente democrático, surge em plano secundário. O Atlântico não mudou de lugar, embora pareça mais estreito do que ontem.

Quando Washington recolhe para dentro de casa, o resto do mundo ajusta o passo. A guerra na Ucrânia deixa de ser tratada também como uma fronteira americana e passa a caber no calendário político dos Estados Unidos. A firmeza que durante anos alinhou a NATO começa a perder fôlego nas entrelinhas. A segurança europeia torna-se um assunto contingente. E, na outra margem, os olhos de Moscovo não piscam. .

A reacção do Kremlin chegou depressa. Veio declarar, sem surpresas, que a estratégia americana se alinha com os objectivos russos. Vladimir Putin leu no documento a confirmação de que os Estados Unidos podem esgotar-se da Europa antes de a Europa perceber que ficou sozinha. A estratégia americana devolve-lhe alguma margem para testar o flanco oriental da NATO e colocar pressão política sobre os governos que ainda resistem. Há anos que Putin testa as fissuras das alianças ocidentais. agora, vê-as descritas num documento oficial. A estratégia americana descreve a Europa como um continente ultrapassado, descrente das suas próprias instituições, vulnerável a movimentos que prometem recuperar vitalidades perdidas, e o presidente russo identifica o eco dessa narrativa. E sabe que os ecos são mais difíceis de contrariar do que os tanques. .

Ao mesmo tempo, a Casa Branca assume um papel de actor directo na política europeia que nenhuma administração americana tinha ousado desempenhar com tanta transparência. O documento fala na necessidade de “corrigir a trajectória do continente” e saúda o crescimento dos partidos “patrióticos” que disputam a ordem liberal e as instituições europeias em várias capitais. A diplomacia deixa os corredores e entra pelas campanhas, pelos comícios, pelas redes que amplificam ressentimentos. E, com isto, Trump abre uma avenida para dentro da casa europeia. Os aliados deixam de ser parceiros para se tornarem um terreno de influência. .

Em Portugal, esta inflexão encontra um terreno preparado. O Chega procura projecção internacional na cartografia da nova direita europeia e encontra em Moscovo um fio histórico que, em tempos, parecia impossível reivindicar. No Parlamento Europeu, os seus eurodeputados recusaram apoiar resoluções de apoio à Ucrânia e acabaram integrados no grupo Patriotas da Europa, sentado ao lado de partidos que há anos orbitam a influência russa. Da Áustria chega um aliado com acordo formal com o partido de Putin. Da Hungria, um governo que olha para Moscovo sem sobressalto. De Itália e França, ligações que a História registou com precisão incómoda. Decerto um grupo interessante, onde a soberania se declama em voz alta e a autonomia se cede em silêncio. .

O que está em cima da mesa é, mais do que uma divergência de prioridades, um regresso à política de esferas, com fronteiras traçadas longe de Lisboa e interesses definidos sem pedir licença. Uma Europa tratada como fardo corre o risco de ser administrada como fardo. E, quando os que vivem dentro dela se alinham com essa visão, a fronteira entre escolha e cedência esbate-se perigosamente. Portugal já atravessou momentos em que o mundo parecia demasiado grande. Em todos eles, a escolha europeia foi a linha que segurou o país no lado certo. O mapa voltou a mexer-se.

É um aviso para quem ainda acredita que a História espera por hesitações.»


19.10.25

A UE igual a si própria

 


«Bruxelas já pediu a Portugal para tomar medidas para assegurar a sustentabilidade a médio prazo das pensões. Globalmente, quer as empresas a oferecer complementos de reforma, e trabalhadores a poupar mais para quando deixarem de trabalhar


3.8.25

Uma capitulação existencial

 


«Ursula von der Leyen reforçou-se no cargo em dois momentos: na resposta concertada da União Europeia (UE) na aquisição de vacinas para a pandemia e quando se manteve de pé enquanto Erdoğan e Charles Michel ocupavam as duas cadeiras disponíveis. Num mostrou uma vantagem da União, noutro o poder do simbolismo. Tudo o que faltou esta semana, quando se deslocou ao campo de golfe de Trump na Escócia, esperou que ele e o filho acabassem de jogar e, depois de acordar uma capitulação, levantou o polegar, participando na fanfarronice de Trump. Provou-se que a União é “um gigante económico e um anão político”, como disse um antigo responsável da Comissão. A força europeia, com 450 milhões de habitantes e o segundo maior bloco económico do planeta, foi um dos argumentos contra o ‘Brexit’. Trump vai cobrar 10% às empresas britânicas, 15% às da União. O ¬maior banco privado alemão prevê uma diminuição de 25% das exportações europeias para os EUA.

Com este pré-acordo político, que ainda terá de ser negociado secto¬rialmente e aprovado pelos 28 países, 70% das exportações do continente vão pagar uma tarifa de 15% à entrada nos EUA. Há exceções, dos semicondutores a alguns produtos agrícolas e, espera-se, os produtos alcoólicos. Mas nada acontece em sentido inverso. As empresas americanas continuarão a pagar os mesmos 3%, em média. Em 2023, os EUA arrecadaram cerca de €7 mil milhões em tarifas sobre as exportações europeias e, em sentido inverso, apenas entraram €3 mil milhões. Poderia dizer-se que isto confirma o défice comercial. Mas esse défice corresponde apenas a 3% das relações comerciais entre os dois blocos. Trump omite sempre os serviços, principalmente financeiros e digitais, onde a inexistência europeia praticamente compensa a importação de bens industriais e agrícolas. Também neste acordo as poderosas Amazon, OpenAI, Netflix ficam incólumes. Uma semana antes da negociação, a UE mostrou a sua fragilidade, anunciou que desistia da pretensão de taxar as empresas digitais que operam no espaço europeu. O friso de tecnomilionários na tomada de posse de Trump já conseguiu parte do que queria e o mais certo é cair a pretensão de regular as redes so¬ciais e uma parte dos mecanismos de defesa da privacidade pessoal em vigor no espaço europeu. A Europa chegou à negociação a gatinhar. Claro que não podia conseguir melhor do que isto.»


1.8.25

A quem serve esta Europa?

 


«Assistimos em direto nas televisões durante o fim de semana à capitulação da União Europeia perante os Estados Unidos e à falência da “soberania europeia”, tão proclamada por líderes europeus enquanto anunciavam programas de reindustrialização e de rearmamento.

A subserviência e dependência da Europa em relação aos EUA não são novas, mas fingir ignorar quem é o atual Presidente americano, e a sua ortodoxia política – negacionista da crise climática, persecutória de minorias, belicista, racista, permanentemente ameaçadora – é roçar a indigência política.

O espetáculo de Ursula von der Leyen, seráfica e muda, enfiada numa poltrona, enquanto Donald Trump, ufano, ditava as regras do jogo, foi humilhante. Um gigante de enredo bufo que, do seu saco sem fundo, ia tirando tarifas aduaneiras de 15%, sem reciprocidade para produtos norte-americanos, o compromisso da UE em investir mais 600 mil milhões de dólares nos EUA (três vezes o valor do excedente comercial bilateral), exigências de compra de produtos energéticos no valor de 750 mil milhões, em plena crise climática, mais 350 mil milhões de euros em armamento para alimentar o complexo militar norte-americano.»

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10.7.25

A Europa precisa de visionários, não de sobreviventes

 


«Donald Trump faz o que quer da NATO, do G7, da ordem liberal internacional e dos líderes europeus. E fá-lo com o à-vontade de quem sabe que ninguém se lhe opõe, seja no Irão ou em Gaza. Há muito que deixou de ser apenas uma figura disruptiva: tornou-se, no palco atlântico, o único ator que realmente importa. Os restantes, de Mark Rutte a Emmanuel Macron, de Úrsula von der Leyen a Keir Starmer, limitam-se a desempenhar o papel de figurantes, uns mais elegantes do que outros, mas todos movidos por um instinto comum: não desagradar a Sua Majestade.

Contudo, mais inquietante do que aquilo que Trump faz é o que a Europa já não faz. Onde estão os Monnet? Os Schuman? Os Bevin ou as Veil? Os Adenauer ou os Delors? Onde estão os adultos na sala? O que nos resta é Mark Rutte. O mesmo que, durante 14 anos como primeiro-ministro dos Países Baixos, não cumpriu a meta dos 2% de investimento em defesa – alcançando-a apenas no ano em que se tornou secretário-geral da NATO – e se opôs ativamente, no Conselho Europeu, à emissão de dívida conjunta para salvaguardar a segurança europeia e ucraniana. O frugal de ontem é o apóstolo da defesa hoje. Não há coerência nem visão, apenas oportunismo.

Desde o seu regresso à Casa Branca, Trump tem testado os limites da diplomacia ocidental com a mesma brutalidade performativa que marca a sua política interna. Reescreve compromissos à sua medida, transforma cimeiras em cultos de personalidade e converte as relações multilaterais em instrumentos de chantagem. A última reunião da NATO, em Haia, foi disso prova evidente. A organização que durante décadas sustentou a dissuasão estratégica europeia, curvou-se perante Trump. Os aplausos ao novo “Kissinger” foram muitos. A dignidade, pouca.

Como se não bastasse, o G7 decidiu isentar as multinacionais americanas de um limiar mínimo global de tributação. Sob pressão da Casa Branca, e perante a possibilidade de um veto de Trump ao acordo da OCDE, os países mais industrializados do mundo cederam. Escudaram-se numa alegada “soberania tributária” dos Estados Unidos, mas o que está verdadeiramente em causa é o colapso de qualquer tentativa de criar regras comuns numa economia global. O sistema justaposto que agora se propõe é, no fundo, um eufemismo diplomático para a impunidade fiscal. A pergunta impõe-se: que soberania resta à Europa?

Trump não é apenas uma anomalia institucional. É o sintoma de um ecossistema mediático e político que recompensa o ruído em detrimento da substância. A sua interrogação favorita – how is it playing – substituiu o cálculo estratégico, a ponderação de custos e o interesse nacional. Se uma decisão militar ou diplomática gera um ciclo noticioso favorável, é boa. Caso contrário, deve ser disfarçada, distorcida ou pura e simplesmente negada. O que não aparece no ecrã, não existe. O que não cria drama, não tem valor.

O estilo de Trump é o do homem que exige ser protagonista mesmo quando os holofotes deviam estar virados para os factos.

E neste enredo, a Europa não passa de um ator secundário. O continente que outrora se uniu aos Estados Unidos para forjar a ordem liberal resigna-se agora a uma posição subalterna. Em vez de resistir, ajoelha-se. Em vez de liderar, segue. Em vez de propor, aquiesce. Nem mesmo a Alemanha, que jurou recuperar o seu lugar como eixo da estabilidade atlântica, contraria Washington, preferindo consensos apressados perante a possibilidade de impostos alfandegários de 50% a partir de 9 de julho. Já a França, apesar dos reflexos gaullistas do seu Presidente, não conseguiu evitar ser arrastada para o jogo da adulação. As elites europeias – herdeiras de Monnet e Delors – perderam o pé: confundem realismo com resignação, diplomacia com subserviência.

E Portugal? Participa nos rituais, mas raramente os questiona. Critica, nas entrelinhas, a hesitação de Espanha e gaba-se, nos bastidores, de ser ponte entre aliados. Proclama hoje 3,5%, como ontem proclamava 2%, com o mesmo entusiasmo retórico e a mesma vacuidade estratégica. Orgulha-se de ser membro fundador da NATO, como se a história bastasse para legitimar a irrelevância. Mas que valor acrescenta? Que influência exerce? Servirão as Lajes para justificar tudo? A ausência de uma posição inequívoca sobre a Palestina, a complacência perante o constante bloqueio no seio do Conselho Europeu e o seguidismo acrítico em relação a Washington revelam um país que também renunciou a ter posições próprias. Não se trata da presença em fotografias de grupo, trata-se de saber quando dizer sim e quando dizer não.

A questão, afinal, é simples. Quer a Europa continuar a existir como ator relevante, ou limitar-se a ser um apêndice da Casa Branca? Se a resposta for a primeira, então impõe-se uma refundação da sua arquitetura. Uma união fiscal verdadeira. Uma política de defesa realmente comum. Uma política externa capaz de superar o veto e a paralisia da unanimidade. Uma rutura clara com o infantilismo atlântico e a assunção plena da idade adulta geopolítica. Não para se opor aos Estados Unidos, mas para poder escolher livremente quando estar ao seu lado. Não há soberania partilhada quando apenas uma das partes dita as regras. Recordar a inércia europeia é apenas o começo. Convém perguntar por que falhámos em criar uma União da Defesa, mesmo depois da Crimeia. Porque não temos política verdadeiramente comum para o Indo-Pacífico, África ou Médio Oriente? E porque continuamos a reagir a Washington, em vez de nos prepararmos para os nossos próprios dilemas estratégicos? A cimeira da NATO expõe esse vazio. Ao omitir a China, que já garantiu que não deixará cair a Rússia, confirma a visão da Aliança como um instrumento de um só homem. Ao legitimar um ataque preventivo ao Irão, contribui para colocar em causa o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. Ao evitar falar sobre Gaza, sobre a fome deliberada, os armazéns destruídos, as crianças a morrer à sede, abdica do papel de árbitro e aceita o de espectador cúmplice.

É por isso que a pergunta resiste e se torna mais premente a cada capitulação: onde estão os estadistas? Não os gestores do quotidiano, os calculistas de cimeira, os Ruttes do presente, mas os Monnets. Os que pensaram em décadas, não em ciclos noticiosos. Aqueles que ergueram instituições, não os que se escondem atrás delas. Os que traçaram horizontes comuns quando outros hesitavam; os que avançaram quando todos recuavam. Se não regressarem, a Europa reduz-se a um mero mercado, um espaço de deferência, um museu: politicamente periférica, moralmente esgotada, militarmente irrelevante.

A história não espera pelos indecisos – muito menos pelos subservientes.»


16.3.25

Sopram ventos de guerra na Europa da paz


«A União Europeia não nasceu para lidar com guerras. Foi criada para as evitar, alimentando o objectivo comum de manter a paz conquistada após séculos de revoluções, lutas religiosas, territoriais, civis e duas guerras mundiais.

A UE nasceu para criar laços tão fortes — políticos, económicos e sociais — entre os seus Estados-membros que se tornasse impossível haver agressões mútuas. E a solidariedade transformou-se, de facto, num dos mais importantes valores (e sentimentos) europeus.

A guerra esteve na origem, mas nunca nos meios nem nos fins da União Europeia, que evoluiu muito desde o primeiro esboço supranacional: a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (matérias-primas muito úteis para quem queria fazer a guerra), criada há quase 75 anos pelo Tratado de Paris.

“Pensávamos que estávamos a recolher os dividendos da paz, mas, na realidade, estávamos a acumular um défice de segurança”, disse esta semana a presidente da Comissão Europeia, vincando a ideia de que o projecto europeu ainda faz sentido, e talvez até faça cada vez mais sentido, atendendo às mudanças em curso.

Ursula von der Leyen acrescentou que os tempos mudaram e que é preciso “rearmar a Europa” e “construir uma defesa comum” porque — e estas já são palavras de António Costa, líder do Conselho Europeu — “a paz sem defesa é uma ilusão”.

Subitamente, expressões como “defesa aérea e de mísseis, sistemas de artilharia, munições, drones e sistemas anti-drone, capacitação estratégica, mobilidade militar, inteligência artificial, cibernética e guerra electrónica” entraram no léxico usado nas instituições europeias.

E a mensagem passou a ser: é preciso “mobilizar mais fundos públicos e privados para a defesa” sem cortar nas despesas do Estado social. “A UE e os Estados-membros não têm de escolher entre investir na paz ou nos sistemas de saúde, educação e habitação, porque o programa para Rearmar a Europa e a activação da cláusula de escape providenciam financiamento adicional”, sublinhou Costa.

Quando se confirmar, essa será a melhor das notícias, porque manter a Europa solidária sem pôr em causa a sua segurança, e vice-versa (manter a Europa segura sem comprometer a sua solidariedade), é um dos desafios mais importantes dos próximos tempos.

O mundo não precisa de mais uma potencial guerra, mas como canta Gabriel, O Pensador, [já] “não adianta olhar pro céu/com muita fé e pouca luta”.»


10.3.25

Esqueçamos a política de defesa, tratemos de negócios

 


«Aparentemente, a Europa começou a debater defesa comum. Seria de esperar um debate sobre política de alianças. Sobre o lugar dos países europeus na NATO. Sobre a relação com os EUA, que hoje é aliado da Rússia, a quem se juntou para encostar a Ucrânia à parede e assaltar os seus recursos. Sobre a ameça à Gronelândia, um território estratégico (por agora dinamarquês, por isso europeu) que, se chegar à independência que legitimamente ambiciona, estará totalmente vulnerável. Sobre a guerra híbrida e os ataques às suas democracias, centrada nas plataformas dominadas pelos aliados de Trump. Até sobre uma revisão das relações europeias com a China, neste cenário.

Não que, como português, tenha grande autoridade para o lamentar. A Europa está a atravessa o momento mais decisivo, desde a queda do muro de Berlim, e um primeiro-ministro atolado na sua própria lama nada tem de relevante a dizer. E não se pode dizer que o PS dê mais relevância ao tema. Sobre a Europa, Portugal quer saber quanto nos cabe e quem executa melhor ou pior os fundos. As decisões ficam para quem manda.

Como escrevi antes, discutir o rearmamento sem saber com quem o fazemos e de quem nos defendermos é saltar para o fim da conversa. E mesmo o rearmamento exige outro debate: se este investimento será pago à custa do modelo social europeu, preparando as vitórias eleitorais dos aliados de Putin e Trump.

Sem espanto, o debate começou pela fatura: 800 mil milhões. Sem espanto, o caminho será o de endividar os estados, incluindo os que, estando em divergência económica e social há duas décadas, estão menos expostos ao perigo russo. E, coisa curiosa, permitir tudo o que era impossível para salvar as economias periféricas. Tudo isto poderia ser debatido se tivessem perdido cinco minutos a discutir de que e com quem nos defendemos.

Para pagar a conta, Von der Leyen abre as portas ao desvio dos fundos de coesão, que financiam a convergência económica entre os países mais ricos e os mais periféricos, para financiar o reforço militar. Para defender a Europa, menos Europa. Com o crescimento da extrema-direita, agravam-se as condições para o seu sucesso eleitoral. Outra hipótese é alterar os estatutos do BCE, tabu absoluto na crise das dívidas soberanas.

Não é por acaso que a conversa passou imediatamente para o comércio de armas, sem o debate político indispensável a qualquer estratégia de defesa ou segurança. O que está a acontecer é o que acontece há décadas na União, com quase todos os temas: o rearmamento é pensado como uma oportunidade de negócio alemão (que será reforçado por um chanceler muito ligado a esta indústria) e francês, na relação centrípeta com as periferias que tem dominado este mercado interno. Se quisermos fazer isto depressa, até serão os EUA a ganhar com o negócio que forçaram.

Não se está a debater política de defesa europeia. Por agora, só se fala de negócios. Se se é verdade que não há defesa sem armas, comprar armas não garante uma política de defesa. Não estamos a assistir a nenhuma revolução na Europa. Estamos a ver o costume, que sublinha e reforça a razão porque a Europa não é um bloco. É um mercado aberto de nações fortes com nações fracas, com os desequilíbrios que isso traz se não corresponder a transferências internas.

Nem sequer há um debate sobre prioridades militares que só podem resultar de análise política comum. Fala-se de dinheiro para as comprar. Porque a fragilidade da Europa, sendo pouco mais do que isto, não é apenas militar. É, antes de tudo, política.»


4.3.25

O fim da democracia americana e a vergonhosa cobardia da Europa

 


«“Estás a ver a discussão do Trump/Vance contra o Zelensky?” escreveu-me um grande amigo que vive em Washington DC e trabalha no Banco Mundial, e que já me vem dizendo que são às dezenas os projectos de desenvolvimento por todo o mundo que terminaram por falta de financiamento americano.

Vi tudo quase em directo, e já não consegui que a minha atenção fosse para mais lado nenhum nessa noite, e boa parte de Sábado. Algumas coisas que os mais desatentos talvez não saibam. A Associated Press e a Reuters foram proibidas de estar naquele encontro na sala oval, duas das maiores cadeias noticiosas do mundo, mas a TASS que faz parte da propaganda russa, tinha lá jornalistas presentes. Foi uma cilada orquestrada para humilhar Zelensky, humilhar a Europa, e humilhar as democracias de todo o mundo.

Foi pornografia política o que assistimos. Quando a mentira tem mais valor do que a verdade, a justiça é uma miragem e a civilização impraticável. Zelensky e todos os ucranianos, estão a ver o seu povo a ser chacinado, hospitais bombardeados, massacres com violações sexuais em massa, para depois ter que ouvir, um bully, um narcisista e mentiroso patológico inebriado pela sua megalomania a dizer irritado e ao ataque: “You are gambling with World War III!” - Estás a jogar com a 3a Guerra Mundial - o que seria o mesmo que dizer que a Polónia foi a culpada da segunda grande guerra.

Trump é uma marionete de Putin. Trump admira Putin porque o que o presidente americano quer, tal como se viu noutro vídeo pornográfico publicado por Trump sobre a sua visão de Gaza, é ter os mesmos poderes que um ditador; sem oposição, sem imprensa livre, com um obsessivo culto da personalidade, e com todos os poderes centrados e controlados por um homem.

Não sei se é nas frases patéticas de Trump na campanha “só preciso de ser ditador por um dia”, ou “só vão ter votar em mim uma vez” que percebemos que a democracia americana está, neste momento, a extinguir-se, mas sim, nos planos bem delineados do “Projecto 2025” todo ele escrito por trumpistas em que entre muitas outras coisas gravíssimas, se destaca a colocação dos tribunais sob a tutela do poder do presidente, o que põe fim à separação de poderes, um dos mais elementares princípios das democracias.

Em Portugal ouço na televisão, pessoas muito mais sábias e experientes do que eu nestas matérias, serenamente a dizer em uníssono, “a democracia americana não vai acabar…são só 4 anos”, e nos EUA e pelo mundo fora ouço historiadores e politólogos em análises puramente factuais e não baseadas em achismos que concluem: o golpe de Estado e o fim da democracia americana já estão em curso.

Há alguns democratas e alguns meios de comunicação social que mantêm a coragem de dizer a verdade sobre Trump e a sua agenda (com o Washington Post já não podemos contar, porque Jeff Bezos, dono da Amazon, empurrou o editor-chefe a demitir-se por não alinhar na linguagem do regime de Trump). Mas a verdade é que a maioria dos americanos, mesmo republicanos moderados, que sabem p.e. que é tão claro como a água que a Rússia invadiu a Ucrânia que estão calados e cheios de medo de falar, porque até generais com décadas de serviço foram despedidos só porque não agradam a Trump.

E na Europa dos valores, dos direitos, das democracias sólidas, o que é que se lê ou ouve? Nada. Nada de nada. Ahhh… peço desculpa, ouve-se “Eu estou com a Ucrânia” que é uma versão adaptada da falácia “Acredito da solução dos dois Estados” que podia ser um discurso da miss mundo, se não tiverem a coragem de criticar e afastarem-se imediatamente do autocrata fascista, Donald Trump.

Trump é um mentiroso.

Trump quer ser um autocrata.

Trump é um inimigo do mundo livre.

Trump não respeita a lei internacional.

Trump tem os americanos manietados pela ameaça.

Trump mentiu ao dizer que Zelensky é um ditador.

Trump mentiu ao dizer que a Ucrânia é a culpada pela guerra.

Trump mentiu ao dizer que apenas 4% dos ucranianos apoiam Zelensky.

Trump está mais próximo de Putin do que da Europa.

Nenhum líder europeu, nem um, teve coragem de dizer aquilo que tem tanto de evidente como de importante de ser dito, pois o futuro das democracias depende da coragem dos líderes e dos seus povos, parece que já não há ninguém do calibre de Winston Churchill, mas se não houver vamos ser esmagados entre Trump e Putin.

Não há nem um que tenha tido a coragem de criticar Trump. Criticar Putin basicamente todos os europeus o fazem. Mas quando Trump repete a propaganda de Putin, humilha o presidente que representa os heróis que têm mantido a super poderosa Rússia afastada de invadir a UE, lutando por todos nós, à custa de centenas de milhares de vidas… nenhum líder europeu teve a coragem de criticar Trump. Nem um. São todos cobardes.

A NATO acabou, só falta a certidão de óbito. A Europa tem que se unir, as democracias têm que se unir, em pactos políticos, económicos e militares… e não duvidem que a democracia americana, a mais antiga do mundo em vigor, acabou. E acabou embalada no nosso silêncio.»

As crónicas de Gustavo Carona são a favor dos Médicos sem Fronteiras 


21.2.25

A cegueira dos europeus

 


«Como explicar a cegueira, a cegueira dos europeus? Já não falo dos americanos. Durante anos, a Europa meteu a cabeça na areia. É uma receita para calar a ansiedade e deixar o tempo correr. Subitamente descobrimos que o mundo mudou e que sobre nós desabava a nova realidade.

A Europa está dilacerada por surtos populistas e pelos nacionalismos. A noção política de Ocidente está a dissipar-se. Depois da crise económica de 2008, a questão migratória mudou as dinâmicas políticas na Europa. A ascensão ao poder dos populistas italianos é um potente acelerador. (…) A simples existência de Trump é um incitamento aos populismos eurocépticos. Beppe Grillo, Matteo Salvini, Viktor Orbán ou Marine Le Pen exultaram com a sua vitória em 2016. Tinham razão. (…)

Acabou também o mundo pós-1989, o breve tempo em que o modelo da democracia liberal se expandia. Hoje, este modelo é desafiado por modelos autoritários, como os de Xi Jinping e Putin. Pelo mundo fora, cresce a lista dos autocratas. E o apetite por 'homens fortes', que garantam 'segurança', não é já estranho à Europa. É o modelo de Budapeste.»

Jorge Almeida Fernandes
Newsletter do Públio, 20.02.2025

Os aposentados da História

 



«Ninguém sabe de quanto tempo disporá a Ucrânia até que a Rússia a engula por inteiro. Ninguém sabe se, em caso de ataque a um Estado-membro da NATO, os Estados Unidos intervirão em defesa do seu aliado. Estas são as duas grandes interrogações trazidas pela presidência Trump e suscitadas pelas palavras do vice-presidente Vance e do secretário Hegseth.

A exclusão da Europa das “negociações” impostas na Arábia Saudita serve um propósito: isolar a Ucrânia e fazê-la submeter-se às condições da paz determinadas por Putin e Trump, árbitros dos superiores interesses russos e americanos e ainda fazer “pagar” o apoio recebido nos anos Biden, facultando a empresas americanas o acesso aos recursos naturais da Ucrânia dilacerada, na parte que Putin não conseguiu abocanhar.

A Europa foi surpreendida pelo regresso à anarquia na ordem internacional, inaugurada por Putin e agora apadrinhada pelos Estados Unidos. Na ordem nova conta a força e a afirmação despudorada do interesse próprio, a correlação de forças é tudo, o direito nada.

Com umas forças armadas hiperdimensionadas e com uma economia subordinada ao esforço de guerra, a Rússia será grande beneficiária de qualquer trégua precária, que lhe dê o tempo de que precisa para acabar de vez com a Ucrânia, enquanto o Ocidente, cínico ou impotente, aguarda o regresso das “forças de paz” exclusivamente compostas por soldados europeus, provavelmente em caixas de pinho.

Quem só tem um martelo não pode senão pregar pregos e a Rússia é um martelo, um exército com um país acoplado, empobrecido, mas armado, que caminha para as consequências económicas da guerra ucraniana, que serão pesadas. A paz não serve a Putin que, com Lavrov, extrairá de Trump e dos outros cómicos o que bem lhe aprouver. A Europa, que pensa a 50 anos de distância, está a experimentar o diktat americano como em 1945, e sabe que, a prazo, o diktat será russo-americano, se não for exclusivamente russo, numa reorganização global das esferas de influência com a qual a América troque a Europa pela cumplicidade da Rússia noutras geografias.

A II Guerra Mundial foi vencida pela União Soviética, uma ditadura brutal, e pelos Estados Unidos, o arsenal da democracia. A ideia de que as democracias são pacíficas mas invencíveis é um puro mito. O eixo foi derrotado pela capacidade industrial americana e pela inesgotável capacidade de sacrifício do povo russo. A Inglaterra resistiu, graças a Churchill e ao canal da Mancha. Oitenta anos volvidos, a Europa, com o seu poderio económico equivalente a dez Rússias, sem o arsenal americano, vê-se devolvida à mundivisão anterior a Pearl Harbor, mais desarmada que nunca. Até ver, não conta para nada, como se de um protetorado se tratasse.

A Polónia, que vê a tragédia checoslovaca da crise dos sudetas a repetir-se no Donbas, sabe que as fronteiras são ficções sustentadas pela dissuasão, prontas a serem mercadejadas, em nome das minorias de conveniência, sejam elas germanófilas ou russófilas. A Polónia também conhece a ordem dos pratos no banquete das grandes potências. Habituada a não poder contar senão consigo própria, vai armar-se até aos dentes. A Alemanha fará igual, repetindo 1948, quando a necessidade ditou a sua entrada apressada no clube das democracias vencedoras.

O secretário da Defesa Hegseth comparou o art. 5º do tratado NATO ao seu artigo 3º, ou seja, equiparou os deveres de financiamento das forças armadas ao princípio de que um ataque a um membro constitui um ataque à aliança, baralhando propositadamente meios e fins. Postas assim as coisas, a NATO deixou de ser a garantia americana à Europa.

Na Europa central dorme-se mal porque o passado foi ontem e nem sequer passou. Por cá, como é próprio dos aposentados do palco da História, dormimos como justos.»


20.2.25

J.D. Vance e a Europa

 





Ana Sá Lopes

19.2.25

A Europa em modo de sobrevivência

 

«Os Estados Unidos querem reservar para si metade da exploração dos recursos minerais ucranianos, partes das suas infra-estruturas de gás e petróleo, e a utilização dos seus portos. Foi este negócio, absolutamente predador (…), que o secretário do Tesouro americano Scott Benssent foi levar a Zelensky no mesmo dia em que Trump telefonava a Putin para "acabar" com a guerra na Ucrânia. (…)

A Europa não tirou as devidas lições do primeiro mandato de Trump. Não estava preparada para o segundo. Pensou que ainda tinha algum tempo. Em Munique, no fim-de-semana passado, descobriu em "choque e pavor" que já não tinha.

É esta realidade que permite compreender a imagem inconsequente e triste que deu para o exterior a reunião de emergência dos principais líderes europeus, convocada pelo Presidente Macron para o Eliseu na segunda-feira à tarde.»

Teresa de Sousa
Newsletter do Público, 18.02.2025

18.2.25

O Tio Sam não quer nada connosco

 


«Benjamin Netanyahu e Vladimir Putin serão recompensados pela espera. Os dois aliados de Donald Trump terão mais do que aquilo que alguma vez esperaram conseguir.

O Presidente dos EUA vai conceder a ambos, respectivamente, a anexação de Gaza e da Cisjordânia e de uma grande parte do território da Ucrânia. Quer num caso, quer no outro, estamos a falar de uma falsa paz.

Donald Trump vai sacrificar o direito dos palestinianos a um Estado, a usufruírem de quaisquer direitos cívicos, ferindo de morte qualquer noção de direito internacional.

E irá sacrificar a luta ucraniana pela defesa da sua integridade, impor uma capitulação e aumentar a vulnerabilidade europeia. Benjamin Netanyahu e Vladimir Putin, ambos acusados de crimes de guerra, estão caucionados pela Casa Branca e não há nada que os possa travar a partir daqui.

Os países que compõem a União Europeia têm todas as razões para se sentirem traídos, para recearem futuras investidas russas e para duvidar da sacrossanta aliança transatlântica que formatou as democracias mundiais do pós-guerra.

O que J.D. Vance, Pete Hegseth e Keith Kellogg vieram dizer a Munique e a Bruxelas foi que o Tio Sam não quer nada connosco, como já estava explicito no anúncio do negócio que Trump e Putin se preparam para firmar, sem a participação europeia, à custa da Ucrânia.

Os emissários de Donald Trump nutrem pelo bloco europeu o mesmo desdém que reservam aos democratas e a todos com os quais não concordam, olhando para os líderes europeus como emanações de uma cultura progressista que abominam. Nenhum deles tem legitimidade ou ética para dar lições de moral sobre democracia.

J.D. Vance está muito preocupado com as eleições presidenciais romenas, porque a anulação dos resultados impediu a vitória de um candidato com públicas e assumidas paixões pelo III Reich, e até está empenhado na vitória da AfD na Alemanha, e não há partido mais simpatizante do ideário nazi do que este. A internacional da extrema-direita vai dando passos firmes.

É de um cinismo insuportável criticar os países europeus por uma suposta limitação da liberdade de expressão, quando o que o vice-presidente dos EUA defende é que a mentira manipuladora e o discurso de ódio mais hediondo possam circular sem limites, quando a Casa Branca atribui lugares nas suas conferências de imprensa a podcasters, youtubers ou tiktokers que farão de Donald Trump um santo, quando a Associated Press é expulsa da Sala Oval por continuar a referir-se ao golfo do México como tal, e não como golfo da América, quando é sugerido o despedimento de jornalistas que assinam textos mais críticos ou quando palavras transgénero, diversidade, desinformação, activismo, racismo ou género são banidas dos documentos oficiais ou de instituições financiadas pelo Estado. Para acabar de vez com o escrutínio, os EUA de hoje vivem uma época de purga, de censura e, talvez ainda pior, de autocensura.

O que mais preocupa J.D. Vance e companhia são as regras e a regulação do mercado europeu, que pode refrear a crescente influência das empresas tecnológicas na criação de uma atmosfera tóxica, porque esta administração só aceita as suas próprias regras e não hesita, até, em colocar em causa a independência do poder judicial.

Neste quadro, a UE não pode responder à afronta com resignação. Diplomacia é outras das palavras que não fazem parte do actual vocabulário de Washington. Os países europeus têm de se responsabilizar pela sua própria segurança. Mas isso não quer dizer que tenham de seguir os mandamentos de Mark Rutte e comparem armas à indústria de armamento norte-americana, sem garantias de segurança comuns. Para que serve a NATO, se os EUA a encararem apenas com uma central de compras para benefício próprio.

A UE é um importante mercado, ainda é uma referência democrática e pode ser influente e eficaz, se actuar como um bloco coeso, como já o demonstrou no passado. A Europa não deve deixar de ser a Europa, deve resistir à chantagem, responder à humilhação e fortalecer a sua autonomia.

Tem contra si as divisões internas, uma série de émulos de Trump à espera de chegar ao poder, com a ajuda de Elon Musk e dos algoritmos dos super-ricos de Silicon Valley, falta de liderança e uma irrelevância política que tem de combater. A reunião desta segunda-feira, em Paris, com a presença do Reino Unido, pode ter sido o primeiro despertar.

Num mundo cada vez mais fragmentado, a UE está entalada entre duas ameaças, a do imperialismo russo e a do imperialismo norte-americano. O que separa os europeus das presidências da Rússia e dos EUA é ideológica. Neste momento, quando há muito mais a unir Washington e Moscovo do que a unir Washington e Bruxelas, ou a UE se fortalece ou desaparece.»


19.1.25

A Europa sozinha

 


«1. Uma mega-sondagem levada a cabo pelo European Council on Foreign Relations (ECFR) com a colaboração da Universidade de Oxford, divulgada na semana passada, traça um quadro realista, ainda que bastante assustador, do lugar da União Europeia no mundo de hoje e, sobretudo, no de amanhã. O inquérito chama-se precisamente “Alone in a Trumpian world: The EU and global public opinion after de US election”.

O instituto faz um bom resumo das conclusões do inquérito que envolveu 28 mil pessoas em 24 países, incluindo a China, Índia e Rússia, 11 dos quais da Europa (incluindo o Reino Unido e a Suíça). O inquérito revela que, em muitos países à volta do mundo que não fazem parte do Ocidente alargado, há bastante optimismo com a chegada de Donald Trump à Casa Branca. Nesses países, as opiniões públicas acreditam que o novo Presidente americano será bom para a paz e para a redução das tensões na Ucrânia, no Médio Oriente e nas relações entre Washington e Pequim. Em quase absoluto contraste, os aliados dos Estados Unidos na Europa e a Coreia do Sul estão bastante pessimistas em relação ao segundo mandato de Trump, admitindo que traga consigo um crescente enfraquecimento do Ocidente geopolítico. Os ucranianos, por seu lado, revelam-se um pouco mais optimistas sobre o fim da guerra, mas estão muito divididos sobre o compromisso que Trump está disposto a fazer com Moscovo.

O que o inquérito também revela é que o mundo olha para a Europa de forma bastante mais positiva do que os europeus olham para si próprios. Já os próprios europeus estão divididos sobre a melhor maneira de lidar com a nova Administração americana.

Nas conclusões do estudo, os seus três principais responsáveis –Timothy Garton Ash, Ian Krastev e Mark Leonard – aconselham os europeus a deixarem de se fixar na ordem liberal do pós-Guerra Fria, passando a concentrar os seus esforços na compreensão do novo mundo que aí vem e a encontrar nele oportunidades. É um bom conselho, difícil, no entanto, de seguir.

Os autores do estudo admitem que o entusiasmo com Trump no resto do mundo tenha que ver com a forma como normalmente se recebem os vencedores. Mas “estas atitudes calorosas podem arrefecer rapidamente, talvez em resultado da política de tarifas às importações ou então se falharem as expectativas sobre uma rápida resolução dos conflitos na Europa e no Médio Oriente.” Consideram, no entanto, que se trata de tendências mais profundas do que estas duas explicações: as opiniões públicas aceitam um mundo muito mais transaccional, como aquele que Trump diz defender. Sabemos que a valorização que fazem da ordem internacional liberal também não é a mesma. Contestam a hegemonia ocidental, com os seus valores dos direitos humanos e da democracia, que querem “impor” aos outros. Têm hoje um modelo alternativo ao modelo das economias de mercado que as democracias seguiram com resultados positivos para o seu desenvolvimento – o modelo chinês, que compatibiliza autocracia e capitalismo. Com o declínio relativo dos Estados Unidos, deixam de ser obrigados a tomar partido por um dos lados. Em 2023, lembram os autores, referindo-se ao último grande inquérito realizado pelo ECFR, os resultados já apontavam para um mundo “a la carte”, “no qual as grandes e as médias potências procuravam parceiros numa lógica transaccional para prosseguirem os seus interesses nacionais”. “Os casamentos monogâmicos da Guerra Fria passaram à História.”

Um dos exemplos que é dado para sublinhar esta nova ordem emergente é precisamente a guerra na Ucrânia, face à qual o Ocidente falhou no seu objectivo de isolar a Rússia, apesar da sua grosseira violação da Carta das Nações Unidas. Muitos países, conclui o estudo, não hesitam em exibir uma forte aceitação da Rússia e do seu comportamento imperial como um aliado ou um parceiro necessário. Diz o estudo que o número de pessoas na China e na Índia que consideram que a Rússia é um aliado do seu país subiu ligeiramente desde 2023. Até na América, a simpatia pela Rússia aumentou, embora se mantenha uma ampla opinião desfavorável.

2. Outro dado interessante sobre o mundo para onde caminhamos: em países como a China, Índia, África do Sul, Arábia Saudita ou Turquia, uma maioria espera que a Rússia aumente a sua influência global, validando de algum modo o recurso à força para alargar o seu domínio. Mais preocupante ainda, é também esta a opinião de quase metade da população do Brasil e da Indonésia, duas grandes democracias tradicionalmente próximas dos Estados Unidos. O que não que dizer que a maioria do resto do mundo não continue a ver a América como uma superpotência – a sua economia ainda é, em termos reais, 26% da riqueza produzida no mundo e o seu gigantesco mercado continua a ser insubstituível –, mesmo que uma maioria também espere que a China venha a ser um dia a mais poderosa potência do mundo. As excepções são a Ucrânia, Índia, Coreia do Sul, para além da própria América. Democracias que contam com os Estados Unidos para a sua defesa ou que rivalizam directamente com a China.

Outro lado preocupante do inquérito, segundo os seus autores: “Russos e chineses estão muito mais unidos no mútuo apreço do que os europeus e americanos (...)” o que faz da dupla Pequim-Moscovo “uma rara ‘entente cordiale’ na presente política global”.

Do lado de cá, pelo contrário, apenas um em cada cinco europeus dos países inquiridos vê os Estados Unidos como um “aliado”, com uma queda acentuada desde o inquérito de 2023. O Reino Unido é, curiosamente, um dos mais pessimistas a este respeito. Felizmente para nós, mantém-se bastante elevada a percentagem de americanos que continua a ver a Europa como um aliado.

3. São estas a grandes tendências que podem vir a prefigurar o mundo de amanhã, na véspera de Trump entrar na Casa Branca levando consigo uma visão das relações internacionais que apenas pode vir a acelerá-las. Os europeus parecem estar conscientes do desafio, ainda que no pior momento possível. Quando a sua segurança está directamente ameaçada por uma Rússia imperial e bélica. Quando estão a perder terreno nos grandes equilíbrios económicos mundiais e na corrida às novas tecnologias. Principalmente, quando crescem os sinais de desunião entre os seus países, numa altura em que a união seria a sua maior força. Não é que, no geral, não saibam os riscos que enfrentam. Já lá vai o tempo em que a Europa acreditava que o mundo corria na sua direcção e que tudo se resumia à economia e aos acordos de comércio com outras regiões do mundo. O problema é que não se prepararam para uma realidade internacional muito mais adversa e, sobretudo, não estão preparados para enfrentá-la sem a protecção americana a que se habituaram depois da II Guerra e no pós-Guerra Fria.

Têm um guião perfeito para sair da sua letargia económica, que lhes foi oferecido por Mario Draghi a pedido de Von der Leyen. Parece que preferem ignorá-lo, em primeiro lugar porque a Alemanha está mergulhada numa crise interna que não a deixa mudar em função do novo mundo em que vive. Mantém os tiques do passado. Arrasta os pés. Não tem uma ideia sobre a Europa de que precisa, nem sequer com a ameaça russa ao pé da porta.

4. A chegada de Trump volta a colocar em cima da mesa um conceito muito debatido: a autonomia estratégica. Dispensável quando a solidez da aliança transatlântica e a NATO protegiam os europeus. Indispensável quando a América está a entrar numa nova era que se reflectirá no mundo inteiro e, em primeiro lugar, na vida dos seus aliados, palavra sem significado para o novo Presidente.

“A autonomia estratégica pode por vezes perecer um conceito abstracto, quase como desenvolvido em laboratório”, diz Almut Moller, que dirigiu desde 2015 até recentemente delegação do ECFR em Berlim. No entanto, prossegue, numa entrevista publicada pelo site Social Europe, este conceito está profundamente enraizado nas mudanças que se verificam no mundo real. “A esperança de que a configuração global reflectia de forma natural os interesses da União Europeia e dos seus Estados-membros está a ser contestada já há bastante tempo.” Em 2025, o mundo coloca à Europa sérias ameaças existenciais, como a guerra na Ucrânia prova, expondo as suas inúmeras vulnerabilidades. A eleição de Trump obriga a Europa a ter de enfrentar um aliado “que, algumas vezes, pode revelar-se abertamente maligno, imprevisível e agir com enorme rapidez.” Moller adverte que não é apenas sob o ponto de vista militar que a Europa tem de adquirir alguma autonomia. “É sobre segurança económica, capacidade tecnológica e capacidade de agir rapidamente num mundo instável.” O problema, como refere, é que o sentimento de unidade colectiva – o “nós” europeu – está sob enorme pressão, tornando os consensos estratégicos mais difíceis de conseguir.»


13.10.24

O fardo perdido do homem branco

 

Bruno Catalano

«Quando em 1898, R. Kipling publicou o seu famoso poema – The White Man’s burden – exaltando a anexação colonial das Filipinas pelos EUA, a autoconfiança imperial do Ocidente estava no seu auge. Pelo contrário, a atual deriva de Washington, enredada na perigosa teia de guerras que julgava poder controlar – na Europa e Médio Oriente –, reconduz-nos ao tema, também vetusto, do declínio do Ocidente. Mesmo antes de, após o fim da guerra-fria, a hegemonia unipolar dos EUA ter iniciado o seu errático trajeto de intervencionismo bélico e incompetência estratégica, que nos conduziu à beira do abismo onde nos encontramos hoje, vozes sensatas, como a de Samuel Huntington, denunciavam o perigo da hubris norte-americana e ocidental, dessa arrogância de tentar impor uma cultura unidimensional a um mundo com múltiplas vozes e civilizações. Em 1996, aconselhava Huntington: “Uma postura prudente para o Ocidente seria não tentar suster a deslocação do poder, mas aprender a navegar em baixios, a suportar tormentas, a moderar as apostas e a preservar a sua cultura”. A mensagem não passou. O narcisismo imperial, o apoucamento do Outro, a ilusão de omnipotência, com muitos milhões de mortos e refugiados à mistura, povoaram estes trinta últimos anos. O genocídio praticado por Israel em Gaza, assistido pelo Ocidente, sinaliza um ponto de não retorno.

Será possível inverter esta rota de catástrofe para onde caminhamos? Para escolher o caminho da vida e reconhecer humildemente que o mundo pertence a toda a humanidade, e não só ao Ocidente, é necessária uma desintoxicação dos preconceitos e das opiniões arbitrárias. Sabemos bem que os factos permitem sempre diversas interpretações. Contudo, nos últimos três anos, no Ocidente, as interpretações sem substância escorraçaram toda a matéria de facto. Contra o império das convicções, gostaria de partilhar com o leitor alguns indicadores essenciais do mundo concreto e mais vasto, além das fronteiras banhadas pelo Atlântico Norte. Faço-o em apoio duma dupla tese: já vivemos num mundo multipolar; o Ocidente já não constitui o principal motor portador de futuro.

Sabemos que a reorganização do sistema internacional se está a efetuar através de uma cooperação de países conhecidos como BRICS, com muitas divergências entre si, mas unidos pela recusa da atual definição das regras do jogo do poder mundial, ditadas pelo Ocidente, reunido no G7. Aliás, o chefe da diplomacia de Nova Deli, S. Jaishankar, acusa esse grupo de ser um clube encerrado sobre o seu umbigo... Recordemos que o G7 é formado pelos EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Japão e Canadá. Por seu turno, os BRICS começaram com 4 países (Brasil, Rússia, Índia e China). Em 2011, a África do Sul foi admitida. No final de outubro, na 16.ª conferência anual da organização, a realizar em Kazan, Rússia, terão entrada oficial mais 5 países: Arábia Saudita, Irão, Emiratos Árabes Unidos, Egipto e Etiópia. É curioso referir que a Rússia durante vários anos pertenceu aos dois “clubes”, pois entre 1998 e 2014 foi também membro do G8, até ser expulsa quando a Crimeia regressou à soberania de Moscovo.

Se compararmos o peso do G7 e dos BRICS no PIB mundial (por paridade do poder de compra) verificamos uma mudança dramática entre 2000 e 2024. Em 2000, o G7 representava 43, 28% do PIB global contra 21, 37% dos BRICS. Em 2018 deu-se a inversão: 31, 84% contra 32, 33%. Estima-se este ano um recuo do G7 para 29,64% contra 35, 43% dos BRICS (dados da empresa alemã, Statista).

No plano mais fino da ciência e tecnologia (C&T), os resultados são ainda mais surpreendentes. Em agosto foi publicado um relatório do Australian Strategic Policy Institute, um think-tank ligado ao governo de Camberra, sobre os países que lideram a C&T em 64 áreas críticas para o futuro: a defesa, o espaço, a energia, o ambiente, a inteligência artificial (IA), biotecnologia, robótica, cibernética, computação, materiais avançados e áreas-chave da tecnologia quântica. Estuda-se o período de 2003 a 2023. Também na C&T, o Ocidente regride. Em 2003, os EUA lideravam em 60 das 64 tecnologias. Em 2023, lideram apenas em sete. A China, pelo contrário, passou do lugar da frente em três tecnologias (2003) para 57 das 64 tecnologias em 2023. Se a UE contasse como país, lideraria apenas em duas tecnologias (sensores de força gravitacional e pequenos satélites). Outros países dos BRICS têm lugar destacado: a Índia está entre os cinco primeiros países em 45 das 64 tecnologias, o Irão em oito, a Arábia Saudita em quatro.

E que faz o Ocidente – os EUA e a mimética EU – perante essa explosão de disciplina, criatividade e inteligência de povos que antes, por si foram colonizados e subjugados? Rearma-se, decreta estratégias de contenção, promulga sanções, instaura políticas protecionistas, que no passado não consentia aos outros. Será que o Ocidente desconhece estar a humanidade inteira perante desafios existenciais, que exigem cooperação obrigatória para termos alguma possibilidade de sucesso? Poderemos contar apenas com a nossa comprovada declinante imaginação para dar conta da brutal crise ambiental e climática, das pandemias emergentes, dos riscos de descontrolo tecnológico, como é o caso da IA ou das biotecnologias? O imperialismo civilizador de Kipling desaguou num niilismo cru e nu, que reprime pela força o direito de todos os povos e indivíduos habitarem a Terra como sua pátria.»