8.1.26

A Venezuela mostra que o discurso de Trump encolhe o nosso mundo


 

«A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos confirma uma mudança profunda na forma como Washington se vê a si própria e ao mundo. A linguagem das alianças, da cooperação e da ordem internacional foi substituída pela linguagem do negócio, da transação, do ganho imediato – e, agora, pela intervenção militar direta, como se verificou na Venezuela. cccccc

O filósofo Ludwig Wittgenstein escreveu que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. A forma como Donald Trump fala – e age – nas relações internacionais ilustra bem esta ideia. O seu discurso reduz a complexidade global a uma lógica binária de vencedores e perdedores, amigos úteis e parceiros suspeitos: é esta lógica que apresenta a operação para derrubar Nicolás Maduro como uma vitória da “liberdade” contra a “tirania”. É uma linguagem simples, direta e eficaz do ponto de vista eleitoral, mas pobre para descrever – e governar – um mundo profundamente interligado e juridicamente denso.

Thomas L. Friedman já afirmou que Trump não está interessado em travar uma nova Guerra Fria, mas sim uma “nova guerra civilizacional”. Não se trata da competição entre potências ou de divergências estratégicas; trata-se de uma narrativa identitária em que o mundo se divide entre “nós” e “eles”, entre civilização e ameaça. A intervenção na Venezuela foi enquadrada nesta gramática moral rígida como um ato de “libertação” contra um regime apresentado como inimigo da ordem civilizada.

Durante décadas, o poder americano construiu-se, não só pela força económica e militar, mas também pela capacidade de gerar cooperação voluntária entre aliados. Esse poder assentava na previsibilidade, na confiança e na ideia de que liderar era mais do que impor. Trump ignora esta herança: ao bombardear a Venezuela e anunciar que os EUA irão “dirigir” o país até uma transição, tratou os aliados como espectadores ou acompanhantes táticos e não como parceiros.

A cooperação oferece benefícios que a força pura não consegue garantir: partilha de informação sensível, desenvolvimento tecnológico conjunto, coordenação económica e influência política duradoura. Um país pode impor condições e obter ganhos rápidos, mas perde parceiros dispostos a partilhar custos, riscos e responsabilidades. O resultado é um poder mais solitário – e, paradoxalmente, mais vulnerável, como se vê nas críticas internacionais à operação venezuelana e no risco de novas instabilidades regionais.

A Europa está numa posição particularmente delicada. Durante muito tempo, habituou-se a falar a linguagem dos “valores universais”, dos direitos humanos e do multilateralismo. Este discurso deu-lhe influência moral e capacidade de atração. No entanto, os últimos anos – da guerra na Ucrânia à dependência energética, das fragilidades na defesa comum à dependência tecnológica – revelaram os limites de um poder assente sobretudo na palavra.

Perante o ataque à Venezuela e a captura de Maduro, a União Europeia respondeu apelando à contenção, ao respeito pelo direito internacional e pela Carta da ONU, reafirmando a importância das regras que a própria Europa ajudou a construir. Esta reação evidencia a tensão entre a proximidade política com Washington e a necessidade de se distinguir de intervenções unilaterais, mostrando que a Europa tenta manter a gramática do multilateralismo mesmo quando o principal aliado a contorna.

A China compreendeu bem esta equação. Investe, não apenas em poder económico e militar, mas também em diplomacia, cultura, infraestruturas e parcerias no Sul Global, apresentando-se como defensora da soberania e da não intervenção. Percebem que o poder no século XXI não é apenas força ou dinheiro, mas também prestígio, narrativa e capacidade de inspirar.

c Sem esses instrumentos, a linguagem dos valores é uma retórica vazia, reduzida a comunicados de condenação e apelos à calma perante decisões tomadas por outros.

Trump percebe o valor da força. A Europa compreende o valor da palavra. A sabedoria política do século XXI estará em combinar ambos. A operação na Venezuela lembra que, se a União Europeia não aprender a agir como potência – com voz própria, capacidades e limites claros às aventuras militares dos aliados –, continuará a ser tratada apenas como um mercado. Será chamada a pagar parte da conta, mas raramente decidirá o rumo.»


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