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9.4.19

09.04.1974 – Quase no fim da ditadura, a última acção armada



Os principais alvos das organizações de luta armada, que surgiram em Portugal durante o marcelismo, enquadravam-se no protesto contra a guerra colonial. Com uma população desesperada e exausta por partir e ver partir os seus para uma terrível aventura sem fim à vista, tudo o que fosse atingir símbolos da política colonialista da ditadura tinha uma grande repercussão e era objecto de um significativo regozijo, mesmo que discreto e silencioso.

Foi o caso com a acção de sabotagem ao navio Niassa, no dia 9 de Abril, no Cais de Alcântara em Lisboa, no momento em que ia partir para Bissau com um contingente de soldados. Tratou-se de uma iniciativa das Brigadas Revolucionárias (BR) que avisaram a PSP do porto de Lisboa uma hora e quinze minutos antes, para que o navio fosse evacuado.

Há na net vários testemunhos de militares que se encontravam a bordo. Um exemplo:
«Para todos nós que íamos para um cenário de guerra, durante a nossa instrução já tínhamos assistido a rebentamentos de granadas, morteiros etc. mas sempre em situações controladas.
Este rebentamento para todos os presentes foi, surpresa seguida de um descontrole, mas para quem preparou a acção foi controlo completo.
O local onde foi colocado o engenho explosivo assim como a hora da sua detonação foi de tal forma feito a não permitir qualquer baixa, mas não evitou a perda, total ou parcial das bagagens dos companheiros que iam nesse porão.
A explosão verificou-se num dos porões mesmo junto da linha de água, fez um rombo de cerca 80cm nas duas chapas de ferro.
Depois do navio estar completamente evacuado, foi adernado por forma a evitar entrada de água no porão e entretanto começaram a reparação do rombo na parte exterior.
Até à meia noite tivemos de embarcar e na manhã seguinte quando acordamos estávamos no meio do Tejo junto à Ponte.
Neste dia tive oportunidade de me deslocar ao local da deflagração e verifiquei os estragos que provocou.
O rombo interior estava a ser reparado nesta altura.
Na manhã do dia 11 de Abril quando acordámos já navegávamos em alto mar.»

Outro testemunho aqui.

E os preparativos da acção, descritos por quem neles esteve envolvida: 
«A bomba foi dentro de um colete meu. Eu tinha um fato com um colete integrado. Nós cortámos o plástico em fatias e enchemos o forro desse colete, que por sua vez, foi dentro do blusão do militar que transportou a bomba para dentro do navio. Lembro-me de nos preocuparmos com o facto de ele ter de se abraçar à família antes de partir. A bomba não ia explodir, mas a carga plástica ia nesse colete que ele levava vestido e, ao ser abraçado, a família podia aperceber-se de algo anormal.» In Isabel Lindim, Mulheres de Armas, p. 215.
Laurinda Queirós, a «Branquinha», militante das BR, 23 anos em 1974, estudante de Medicina, hoje médica no Porto.
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10.7.17

Quando dois porcos viraram almirantes



De vez em quando, gosto de recordar que também nos divertíamos na luta contra o fascismo.

Em Julho de 1972, as Brigadas Revolucionárias lançaram dois porcos nas ruas de Lisboa, no Rossio e em Alcântara, como reacção à farsa eleitoral que reconduziu Américo Tomás ao seu último mandato como presidente da República.

Estavam vestidos de almirantes (tal como Américo Tomás...) e untados para ficarem escorregadios. A polícia não conseguiu agarrá-los e teve de os matar à metralhadora. Grande sucesso nas ruas de Lisboa! Foram depois distribuídos panfletos, lançados por petardos, com o seguinte conteúdo:

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9.4.17

09.04.1974 – A última acção armada contra a ditadura



Os principais alvos das organizações de luta armada, que surgiram em Portugal durante o marcelismo, enquadravam-se no protesto contra a guerra colonial. Com uma população desesperada e exausta por partir e ver partir os seus para uma terrível aventura sem fim à vista, tudo o que fosse atingir símbolos da política colonialista da ditadura tinha uma grande repercussão e era objecto de um significativo regozijo, mesmo que discreto e silencioso.

Foi o caso com a acção de sabotagem ao navio Niassa, no dia 9 de Abril, no Cais de Alcântara em Lisboa, no momento em que ia partir para Bissau com um contingente de soldados. Tratou-se de uma iniciativa das Brigadas Revolucionárias (BR) que avisaram a PSP do porto de Lisboa uma hora e quinze minutos antes, para que o navio fosse evacuado.

Há na net vários testemunhos de militares que se encontravam a bordo. Um exemplo:
«Para todos nós que íamos para um cenário de guerra, durante a nossa instrução já tínhamos assistido a rebentamentos de granadas, morteiros etc. mas sempre em situações controladas.
Este rebentamento para todos os presentes foi, surpresa seguida de um descontrole, mas para quem preparou a acção foi controlo completo.
O local onde foi colocado o engenho explosivo assim como a hora da sua detonação foi de tal forma feito a não permitir qualquer baixa, mas não evitou a perda, total ou parcial das bagagens dos companheiros que iam nesse porão.
A explosão verificou-se num dos porões mesmo junto da linha de água, fez um rombo de cerca 80cm nas duas chapas de ferro.
Depois do navio estar completamente evacuado, foi adernado por forma a evitar entrada de água no porão e entretanto começaram a reparação do rombo na parte exterior.
Até à meia noite tivemos de embarcar e na manhã seguinte quando acordamos estávamos no meio do Tejo junto à Ponte.
Neste dia tive oportunidade de me deslocar ao local da deflagração e verifiquei os estragos que provocou.
O rombo interior estava a ser reparado nesta altura.
Na manhã do dia 11 de Abril quando acordámos já navegávamos em alto mar.»

Outro testemunho aqui.

E os preparativos da acção, descritos por quem neles esteve envolvida: 
«A bomba foi dentro de um colete meu. Eu tinha um fato com um colete integrado. Nós cortámos o plástico em fatias e enchemos o forro desse colete, que por sua vez, foi dentro do blusão do militar que transportou a bomba para dentro do navio. Lembro-me de nos preocuparmos com o facto de ele ter de se abraçar à família antes de partir. A bomba não ia explodir, mas a carga plástica ia nesse colete que ele levava vestido e, ao ser abraçado, a família podia aperceber-se de algo anormal.» In Isabel Lindim, Mulheres de Armas, p. 215.
Laurinda Queirós, a «Branquinha», militante das BR, 23 anos em 1974, estudante de Medicina, hoje médica no Porto.
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9.4.14

A última acção armada contra a ditadura – 9/4/1974



Os principais alvos das organizações de luta armada, que surgiram em Portugal durante o marcelismo, enquadravam-se no protesto contra a guerra colonial. Com uma população desesperada e exausta por partir e ver partir os seus para uma terrível aventura sem fim à vista, tudo o que fosse atingir símbolos da política colonialista da ditadura tinha uma grande repercussão e era objecto de um significativo regozijo, mesmo que discreto e silencioso.

Foi o caso com a acção de sabotagem ao navio Niassa, no dia 9 de Abril, no Cais de Alcântara em Lisboa, no momento em que ia partir para Bissau com um contingente de soldados. Tratou-se de uma iniciativa das Brigadas Revolucionárias (BR) que avisaram a PSP do porto de Lisboa uma hora e quinze minutos antes, para que o navio fosse evacuado.

Há na net vários testemunhos de militares que se encontravam a bordo. Um exemplo:
«Para todos nós que íamos para um cenário de guerra, durante a nossa instrução já tínhamos assistido a rebentamentos de granadas, morteiros etc. mas sempre em situações controladas.
Este rebentamento para todos os presentes foi, surpresa seguida de um descontrole, mas para quem preparou a acção foi controlo completo.
O local onde foi colocado o engenho explosivo assim como a hora da sua detonação foi de tal forma feito a não permitir qualquer baixa, mas não evitou a perda, total ou parcial das bagagens dos companheiros que iam nesse porão.
A explosão verificou-se num dos porões mesmo junto da linha de água, fez um rombo de cerca 80cm nas duas chapas de ferro.
Depois do navio estar completamente evacuado, foi adernado por forma a evitar entrada de água no porão e entretanto começaram a reparação do rombo na parte exterior.
Até à meia noite tivemos de embarcar e na manhã seguinte quando acordamos estávamos no meio do Tejo junto à Ponte.
Neste dia tive oportunidade de me deslocar ao local da deflagração e verifiquei os estragos que provocou.
O rombo interior estava a ser reparado nesta altura.
Na manhã do dia 11 de Abril quando acordámos já navegávamos em alto mar.»

Outro testemunho aqui.

E os preparativos da acção, descritos por quem neles esteve envolvida: 
«A bomba foi dentro de um colete meu. Eu tinha um fato com um colete integrado. Nós cortámos o plástico em fatias e enchemos o forro desse colete, que por sua vez, foi dentro do blusão do militar que transportou a bomba para dentro do navio. Lembro-me de nos preocuparmos com o facto de ele ter de se abraçar à família antes de partir. A bomba não ia explodir, mas a carga plástica ia nesse colete que ele levava vestido e, ao ser abraçado, a família podia aperceber-se de algo anormal.» In Isabel Lindim, Mulheres de Armas, p. 215.
Laurinda Queirós, a «Branquinha», militante das BR, 23 anos em 1974, estudante de Medicina, hoje médica no Porto.

Julgo que tudo isto pode parecer muito estranho para quem tenha hoje 23 anos. Ou mesmo 43. A muitos de nós, então jovens, moldou-nos o resto da vida. 
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10.8.13

Quando as armas não eram cantigas



A resistência não era mansa nos últimos anos do fascismo e nem todos os costumes eram necessariamente brandos. 

Nos últimos dias do mês de Julho de 1972, as Brigadas Revolucionárias lançaram dois porcos nas ruas de Lisboa, no Rossio e em Alcântara, como reacção à farsa eleitoral que reconduziu Américo Tomás ao seu último mandato como presidente da República.

Estavam vestidos de almirantes (tal como Américo Tomás...) e untados, pelo que a polícia não conseguiu agarrá-los e teve de os matar à metralhadora. Grande sucesso nas ruas de Lisboa! Foram depois distribuídos panfletos, lançados por petardos, com o seguinte conteúdo:


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Quando no dia 9 de Agosto de 1972, Américo Tomás tomou posse, para «festejar» o acontecimento, a A.R.A. (Acção Armada Revolucionária), organização de luta armada do PCP, usou 80 cargas explosivas para cortar o fornecimento de electricidade a grande parte do país. É este o comunicado onde a acção é descrita:

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1.5.13

No último 1º de Maio em ditadura




(Republicação)

Às 2:50 minutos do 1º de Maio de 1973, as Brigadas Revolucionárias executaram uma das suas acções mais espectaculares, da qual resultou a destruição de dois andares do Ministério das Corporações (actual Ministério do Trabalho e da Segurança Social), na Praça de Londres em Lisboa. 

Explicaram mais tarde em comunicado (que pode ser lido AQUI, na íntegra): «O Ministério das Corporações é, por um lado, o instrumento mais directo dos patrões portugueses e estrangeiros, que através dele fixam as condições de trabalho do proletariado – salários, horários – enfim, exploração e repressão (…); e, por outro, um instrumento de exploração directa dos trabalhadores, através da Previdência (…) que fornece serviços de Saúde e Previdência miseráveis.» 

Facto demasiado grave e espectacular para que a censura o silenciasse, foi noticiado nos meios de comunicação social e objecto de todas as conversas, num dia quem que se preparavam manifestações proibidíssimas e precedidas por largas dezenas de detenções nas semanas precedentes (Leia-se a circular da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, de 9/5/1973.) 

Durante a tarde, foram recebidos telefonemas com falsos alertas de bomba em várias grandes empresas de Lisboa. Veio a saber-se depois que se tratara também de uma iniciativa ligada às Brigadas Revolucionárias, cujo objectivo era «libertar» mais cedo os trabalhadores para que pudessem participar na manifestação. 

Ao fim do dia, foi o cenário habitual, mas especialmente repressivo nesse ano, que o Avante! relatará mais tarde: «Em Lisboa, numerosos trabalhadores se concentraram na Baixa a partir das 19:30, sendo brutalmente carregados pela PSP à bastonada, soco, pontapé, do que resultaram dezenas de feridos que tiveram de receber tratamento no hospital, sendo feitas várias prisões.» (O resto pode ser lido AQUI.) 

Um ano mais tarde… foi a maior festa que imaginar se possa! 
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9.4.13

Luta armada – a última acção antes do 25 de Abril



No dia 9 de Abril de 1974, as Brigadas Revolucionárias realizaram uma acção de sabotagem ao navio Niassa, no momento em que este ia partir para Bissau com um contingente de soldados. A explosão provocou um rombo no casco e um incêndio. As BR avisaram a PSP do Porto de Lisboa, uma hora e quinze minutos antes.

Esta acção contra a guerra colonial teve largo eco na população, sobretudo pelo elevado número de pessoas que se encontrava no cais, na hora da despedida, e há descrições feitas pelos próprios soldados que estavam a bordo: «O dia 9 de Abril de 1974 ficou profundamente marcado por todos os militares que estavam no navio Niassa, na altura encostado no Cais de Alcântara e assim como todos os que se encontravam na plataforma ou na varanda da Gare Marítima, a aguardar a partida que estava marcada para as 18 horas.
Às 17 horas já o embarque tinha sido efectuado e militares dum lado, familiares e amigos do outro, trocavam gestos e sons muito característicos destas alturas.
Notei a presença de homens rã a fazer uma inspecção a todo o casco do navio, mas possivelmente seria só uma rotina.
Eram 17 horas e 15 minutos e nos altifalantes do navio era solicitada a presença de todos os Oficiais, no bar da 1ª classe.
No referido bar encontrava-se um Brigadeiro que nos dirigiu a palavra de uma forma que eu por momentos não sabia se estava a partir ou se tinha chegado.
Passados alguns momentos ouve-se um grande estrondo, acompanhado de um balançar do navio.
Rapidamente saímos para o exterior e deparo com a maior gritaria e situações de pânico, que jamais tinha presenciado.
Todo o Navio foi evacuado e só na altura que todos os militares chegaram ao pé dos seus familiares e amigos, é que a situação ficou mais calma.»
 

Testemunho de Laurinda Queirós, militante das BR (*):
«A bomba foi dentro de um colete meu. Eu tinha um fato com um colete integrado. Nós cortámos o plástico em fatias e enchemos o forro desse colete, que por sua vez, foi dentro do blusão do militar que transportou a bomba para dentro do navio. Lembro-me de nos preocuparmos com o facto de ele ter de se abraçar à família antes de partir. A bomba não ia explodir, mas a carga plástica ia nesse colete que ele levava vestido e, ao ser abraçado, a família podia aperceber-se de algo anormal.»
(*) In Isabel Lindim, Mulheres de Armas, p. 215. 

Era assim a frágil «Branquinha» – pseudónimo da Laurinda na clandestinidade. 
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15.7.12

O humor também é uma bela arma



Foi há 40 anos, nos últimos dias do mês de Julho de 1972, que as Brigadas Revolucionárias lançaram dois porcos nas ruas de Lisboa, no Rossio e em Alcântara, como reacção à farsa eleitoral que reconduziu Américo Tomás ao seu último mandato como presidente da República.

Estavam vestidos de almirantes (tal como Américo Tomás...) e untados, pelo que a polícia não conseguiu agarrá-los e teve de os matar à metralhadora. Acção espectacular que provocou gáudio generalizado...

Foram depois distribuídos panfletos, lançados por petardos, com o seguinte conteúdo:


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29.5.12

Quando em Portugal as mulheres pegaram em armas e puseram bombas



Um texto de São José Almeida, publicado no Público de 28/5/2012 (sem link).

A história do PRP-BR antes de 25 de Abril começa a ser contada. Factos inéditos e histórias na primeira pessoa, de quando mulheres portuguesas assaltaram bancos em nome da luta política.

“Era muito insatisfatória a vida naquela altura. Era uma noite escura. Vivíamos uma noite escura e éramos meio cegos.” Assim é caracterizado o período final da ditadura, por uma das activistas do Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias (PRP-BR), ouvida sob o seu “nome de guerra” e que é a Joana II, no livro Mulheres de Armas. Histórias das Brigadas Revolucionárias. As acções armadas, os riscos as motivações, da autoria de Isabel Lindim, agora editado pela Editora Objectiva. 

Uma das mulheres dessa organização, Isabel do Carmo, é mãe da investigadora Isabel Lindim e faz o prefácio à obra que assume contornos inéditos. A antiga activista e dirigente política fala sobre o feminismo e o papel social e político das mulheres em Portugal, destacando a última geração do combate antifascista, então marcado pelas lutas estudantis e pela contestação à Guerra Colonial. E reflecte também sobre o que foi a história do PRP-BR, de que foi umas das principais dirigentes, em conjunto com Carlos Antunes e com o então seu companheiro, Orlando Lindim Ramos, pai de Isabel Lindim. 

“Não foi fácil” fazer esta reconstituição”, explica ao PÚBLICO Isabel Lindim. “Depois da primeira entrevista, com a Marília, começaram a surgir contactos. Falei com o homem que fez mais acções e ele deu-me o contacto de várias”, prossegue a investigadora, acrescentando: “Para algumas, foi um exorcismo e foi  difícil que falassem. Outras, logo ao telefone, começavam a contar coisas. Todas as conversas foram mostradas às próprias, para confirmar que podia sair o que saiu”. E lamenta: “A algumas não consegui chegar. Mas se não pusesse fim à recolha, não acabava. Fiz o livro entre 2010 e 2011, ao longo de ano e meio.”


Mulheres que ousaram 

Ousar o que só poucos homens tinham coragem de fazer é uma das peculiaridades destas mulheres: integrar acções armadas contra a ditadura. Mesmo assim, Isabel Lindim alerta para que, “apesar de haver algumas mulheres na organização, a política continuava a ser um mundo essencialmente dos homens, ainda mais quando envolvia acções clandestinas” (p. 210). 

Mulheres de Armas apresenta-nos, assim, a história de 15 mulheres que, na primeira linha ou na retaguarda, personificaram as 15 acções do PR-PBR, iniciadas em 7 de Novembro de 1971 na sabotagem à sede da NATO na Fonte da Telha, até 9 de Abril de 1974, com a sabotagem ao navio Niassa. Assim surgem-nos as operacionais, ainda sob pseudónimo, Graça, Joana I, Joana II e, assumindo o nome próprio, Maria Elisa da Costa, Maria Patrocínia Raposo Guerreiro, Paula Viana. Ou seja, seis mulheres que desempenharam a tarefa política de colocar bombas, rebentar petardos com panfletos de propaganda política, de assaltar bancos.

Já no apoio a estas acções armadas este livro traz para a história o contributo assumido na primeira pessoa de Teresa Gaivão Veloso, Manuela Lima, Marília Viterbo, Maria João Ceboleiro, Celeste Ceboleiro, Laurinda Queirós, Alexandra Ramos e Joana Lopes. E ainda Luísa Sarsfield Cabral, que, por ser dona de uma casa de apoio onde esteve uma mala com explosivos, sem que ela soubesse do que se tratava, acabou por ser presa pela PIDE com direito a quatro noites de tortura do sono e um mês de isolamento, para ser forçada a falar sobre um assunto que em absoluto desconhecia. Aliás, o segredo era a arma organizacional do PRP–BR. Ninguém sabia nada sobre ninguém ou sabia apenas o essencial. 

“A PIDE não teve tempo nem audácia para descobrir a fileira das Brigadas Revolucionárias. Para a polícia política, a organização foi sempre uma incógnita, um grupo difícil de definir, por não se ligar a nenhum partido, e difícil de apanhar, possivelmente porque ninguém estava à espera de que uma organização vinda do nada desatasse a roubar bancos e a destruir alvos militares”, afirma Isabel Lindim, acrescentando: ”Se não tivesse acontecido o 25 de Abril, talvez a polícia tivesse descoberto o rasto da organização e dos elementos. Esta questão nunca foi esquecida pelos intervenientes das BR: um dos princípios alinhavados era o de não se saber muito sobre a vida dos outros. Assim, se fossem forçados a falar, não saberiam o que contar, por muito ‘espremidos’ que fossem” (p. 163-4). Outras regras da organização eram o autofinanciamento, através de assaltos a bancos, e o princípio de que as acções armadas e o rebentamento de bombas em alvos militares não causassem mortes. “Não apadrinhávamos a luta armada violenta, mas achávamos que era necessário fazer qualquer coisa…” (p. 111). 

Mesmo assim, uma acção falhada em que a bomba rebentou ao ser instalada levou à morte de dois operacionais, Carlos Curto e Arlindo Garrett. E se mais operacionais não morreram, não foi pela ausência de risco nas operações. Exemplo é a tentativa falhada de colocação de uma bomba no Ministério do Interior, no Terreiro do Paço, através das instalações da Direcção-Geral de Saúde, que funcionava no mesmo edifício, contada no livro por Joana II. “Simulámos uma história em que eu ia pedir emprego de professora. Fiz de grávida. As bombas iam à volta da barriga, sem detonador. Quando cheguei à casa de banho, montei tudo. Eram uma espécie de chouriços, que presumíamos caber na sanita, só que eram demasiado grandes e não cabiam”, relata a operacional do PRP-BR. 

“Foi mal previsto, tecnicamente. Tive medo de desmontar a bomba, portanto saí do ministério com ela montada. Na saída, ainda houve um senhor que me deu uma festinha na barriga e perguntou para quando era”, prossegue Joana II e acrescenta: “Quando saí, não vi a pessoa que estava a fazer o apoio de carro e que me levaria dali para fora. Tive de apanhar um táxi e pedir para ir devagar, disse que estava maldisposta por causa da gravidez.” E conclui: “Quando cheguei à casa onde estava a Isabel do Carmo e as outras pessoas, ia com a bomba montada. Ela disse para toda a gente sair e ajudou-me a desmontar os explosivos. Fiquei triste por não ter conseguido, porque corri todos os riscos sem efeito nenhum” (p. 112).
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25.5.12

«Mulheres de Armas» – Lançamento



As histórias contadas em Mulheres de Armas poderiam fazer parte de um romance, mas aconteceram de facto, na década de 1970, e fazem parte da história da luta anti-fascista em Portugal. Nos anos que antecederam a Revolução de Abril de 1974, existiram grupos de acção armada, formados por cidadãos que não acreditavam que o regime cairia por si. 

Uma dessas organizações chamava-se Brigadas Revolucionárias e durante quatro anos, de 1970 a 1974, combateu a ditadura e criou uma nova forma de luta. Com alguma ingenuidade mas muita perícia, este grupo conseguiu abalar o sistema e desorientar a polícia do Estado. O principal objectivo era boicotar a política colonial, daí que os alvos primordiais das acções fossem quartéis e material militar, seguindo o princípio de não afectar vidas humanas. 

Quando, em 2007, a jornalista Isabel Lindim começou a recolher documentos sobre as Brigadas Revolucionárias e o Partido Revolucionário do Proletariado, deparou-se com as histórias de várias mulheres ligadas à organização. Mulheres que participaram em acções, colocaram explosivos e assaltaram bancos. Mulheres que se movimentaram na retaguarda das Brigadas e prestaram o apoio fundamental para a formação de uma base sólida de luta. 

Das entrevistas realizadas a algumas dessas intervenientes resultaram catorze histórias de mulheres de armas, tanto no sentido figurado como no sentido literal do termo. Ficam assim inscritos na memória os importantes testemunhos de quem esteve nas trincheiras de um combate clandestino, contribuindo para construir o puzzle de uma época da história contemporânea portuguesa. 

(Da contracapa do livro)
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19.12.11

Luta armada no marcelismo (1969-1974)


Exposição A Voz das Vítimas, Antiga Cadeia do Aljube
4.ª feira, dia 21 de Dezembro de 2011, às 18h

O recurso à luta armada foi uma opção relevante da oposição ao regime ditatorial, designadamente no consulado marcelista, que antecedeu o 25 de Abril de 1974.

O lançamento de acções armadas como via para o derrube do regime e de apoio às lutas de libertação dos povos coloniais foi uma das expressões dos debates ideológicos e políticos que marcaram essa fase final do regime fascista.

A diferente natureza das organizações envolvidas nessas acções corresponde à pluralidade do posicionamento político dessas iniciativas – cuja influência se alargou a momentos posteriores.

Intervenções de:
  • Fernando Pereira Marques - LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária) 
  • Carlos Antunes - BR (Brigadas Revolucionárias) 
  • Raimundo Narciso - ARA (Acção Revolucionária Armada).
Na sessão, será distribuído um folheto com a caracterização sintética de cada uma das organizações e, bem assim, a lista das respectivas acções armadas.
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