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29.11.25

A necessidade de falsear a história para se ter uma “história” legitimadora do poder

 


«“Historicamente, os eventos passados em 25 de Novembro de 1975 (…) serão os mais importantes e decisivos em Portugal desde 28 de Maio de 1926.”
Do livro colectivo 50 Vezes 25 de Novembro

A frase que cito faz parte de um dos textos do livro 50 Vezes 25 de Novembro, com prefácio de Pedro Passos Coelho e a participação de 31 autores, na sua maioria de extrema-direita, muitos do Chega, candidatos autárquicos, membros do “governo-sombra”, do ADN, da ala passista do PSD e da multidão de “repetidores”, nas redes sociais, em podcasts e na academia, das posições do Chega. Se há extrema-direita e direita radical em Portugal ela está representada neste livro, cujo lançamento ocorreu no dia 25 de Novembro e que, penso, ainda não está disponível. À data em que escrevo este texto ainda não o pude comprar nas livrarias, o que obviamente farei. No entanto, há já na rede abundante informação, entrevistas e vários textos do livro publicados no Observador para se poder ter uma ideia do seu conteúdo. Todos são muito significativos dos esforços para usar o falseamento da história para legitimar a direita radical e tornar o 25 de Novembro, na sua interpretação, como “o farol ideológico do sistema político que sucederia ao Estado Novo”.

Há dois aspectos preliminares que são relevantes: um é a desvalorização e, nalguns casos, a diabolização do 25 de Abril — como se vê na citação, que passa de 1926, a data do golpe militar que abriu caminho a 48 anos de ditadura, ao 25 de Novembro —, e outro a dança das palavras simpáticas e moles para caracterizar entre o positivo e o neutro essa mesma ditadura. O resto é uma tentativa de legitimar a força da direita radical no presente dando-lhe uma “história” falsa e uma memória manipulada para, olhando para o passado, terem alguma coisa de aceitável para lembrar.

De facto, um dos problemas da direita radical em Portugal é que toda a sua história no século XX é maldita e, com excepção de alguma extrema-direita, impossível de valorizar. Ora, qualquer movimento político precisa de ter datas legitimadoras para não aparecer sem história, o que é sempre uma fragilidade. Na história portuguesa, o que é que vão lembrar? Os 48 anos de ditadura — palavra de que fogem como o Diabo da cruz —, Salazar, Caetano, a PIDE, a guerra colonial com o seu cortejo de violência, as prisões políticas, a repressão de trabalhadores e camponeses, a expulsão de professores das universidades, a cumplicidade com o regime do apartheid, o país que colocou a bandeira a meia haste quando morreu Hitler, o país pobre, o país do pé descalço, de onde se emigrava para escapar à miséria, analfabeto, com taxas de mortalidade infantil “africanas”, o país em que as mulheres eram gente de segunda, o país da censura que durou sem um dia de liberdade até à manhã do 25 de Abril, o país que assassinou Delgado para Salazar mentir — sabendo do que se tinha passado —, insinuando que tinham sido os seus “amigos” que o tinham matado, o país da corrupção — sim, o Chega mente quando sugere que não havia corrupção antes da democracia, simplesmente os “desfalques” da elite eram cortados pela censura —, o país da tortura, por aí adiante. Muito adiante, e é significativo dos dias de hoje que seja preciso lembrar estas evidências.

Claro que há uma escola revisionista desta história, que molda o Portugal dos 48 anos ao dito fascista em que se afirma que “Mussolini era um ditador, mas fez com que os comboios chegassem a horas”, como se a liberdade não fosse o valor primeiro que, no 25 de Abril, mudou tudo com a sua força. Vejam-se as fotografias dos primeiros momentos, a cara das pessoas, entre a alegria dos mais novos e a gravitas e alívio dos mais velhos. E é por isso que encontrar alguma coisa legitimadora, alguma data “boa”, é muito difícil para a direita radical.

A “história” falsa do 25 de Novembro assenta em omissões deliberadas, do 11 de Março, da contra-revolução a norte de Rio Maior, dos atentados, incêndios e assassínios que mataram mais gente do que o dia 25 de Novembro, do papel de partidos como o PCP, do contexto internacional da Conferência de Helsínquia. É esse o papel da “história” falsa do 25 de Novembro, o tal “farol” que só se acende com a manipulação, o esquecimento deliberado e o apagar daqueles que justificariam comemorar o verdadeiro 25 de Novembro.

Como fazia Staline, apagou-se o papel de Costa Gomes, que nem sequer o PS, como todos os outros, trouxe à sessão no Parlamento. Apagou-se ou secundarizou-se Mário Soares no plano civil e muitos outros dirigentes do PS que deram o corpo às balas como a direita da época nunca deu, ou o Grupo dos Nove, Melo Antunes, Vasco Lourenço, Sousa e Castro e Ramalho Eanes, cujo papel tem sido menorizado para valorizar um seu comandado, Jaime Neves, que também deve estar nesta lista.

No entanto, tenho uma sugestão construtiva aos autores deste livro: no dia 25 de Abril, centenas de milhares de pessoas saem à rua para o comemorar. Por que razão se fez uma parada militar e não uma manifestação, apelando aos portugueses para apoiarem a vossa visão do “farol” do 25 de Novembro? Não é por falta de meios, órgãos de comunicação social, autocarros, influencers e bots do Chega nas redes sociais para colocarem centenas de milhares de pessoas na rua. A não ser que só faltem os portugueses.»


11.11.25

A terceira margem da direita

 


«Jacques Danton e Robespierre eram inimigos íntimos, e um acabou por levar o outro à guilhotina. Mas, antes de subir ao cadafalso, Danton terá murmurado a Robespierre: “tu vens atrás”. E foi. E foi nessa sucessão de quedas internas que Jacques Mallet du Pan acaba por encontrar a imagem que atravessou o fim do século: as revoluções, como Saturno, devoram sempre os seus próprios filhos.

Há sempre um momento em que a energia que rasgou a porta do palácio começa a desconfiar dos que estão dentro do palácio. O poder deixa de ser o alvo da ira. O poder passa a ser o prémio. Nos Estados Unidos, a fratura na direita radical abriu-se antes de termos linguagem para a descrever. O movimento MAGA desenhava fronteiras e, à sua volta, crescia uma juventude que já nem reconhecia fronteira nenhuma. Dali nasceu um novo tipo de energia política que se alimenta do sentimento de que a História foi sequestrada e de que o futuro já está escrito noutro lado, por outros. E essa energia cruzou o Atlântico. Chega a Portugal como ecos que parecem locais, mas que trazem o desenho inteiro de outra história.

É que, por cá, esse movimento é incorporado por grupos como a Reconquista, que tratam a exclusão como um destino português e a palavra como uma arma simbólica. É um subterrâneo que opera com uma lógica própria: os argumentos que lançam (como a importação do conceito de remigração) servem para sinalizar pertença. Pedro Frazão grava um vídeo e promete que o Chega é um “aliado” de quem vive desse subsolo. Não foi um desvio. A pergunta é a outra: porquê arriscar a associação do Chega a um movimento encabeçado por quem defende que só os homens devem votar, que vê o sufrágio como filtro biológico?

Para se perceber a estratégia — porque é calculada —, é preciso olhar para o berço da direita radical. Nos Estados Unidos, a nova direita já se fragmentou há uns anos em dois corpos distintos mas interdependentes, que se alimentam mutuamente enquanto se corroem: a direita radical institucionalizada (o movimento MAGA) e o corpo marginal das comunidades digitais (representada sobretudo por Nick Fuentes, cabecilha dos “Groypers” e que, ao longo dos anos, expressou em registos públicos admiração por Adolf Hitler).

Mas a corrosão está a culminar numa guerra interna que deixou de ser retórica para se tornar um desenho estratégico. A direita institucional descobriu que já não controla o timbre da sua base mais jovem. E a base mais jovem percebeu que pode viver sem mediação. Nick Fuentes reapareceu não porque a opinião pública tenha decidido que ele é, afinal, tolerável, mas porque a nova arquitetura dos media digitais elimina a função de porteiro. E é nesse vazio que se instala a guerra civil da direita americana: de um lado, os que tentam instrumentalizar o perímetro democrático; do outro, os que entendem a própria destruição do perímetro como o gesto político fundador. É uma fratura que actua de fora para dentro, até que dentro e fora se tornem indistinguíveis.

O Chega conhece este risco. E Pedro Frazão sabe o que está a fazer quando acende um fósforo no pavilhão da Maia. No plano imediato, cola o partido à linguagem que sobe das margens. No plano estratégico, tenta neutralizar a ameaça futura de uma fuga geracional que aconteça à direita do Chega. A mensagem é menos sobre o evento em si. Frazão quer, com a participação no evento, assegurar que o partido é ainda o vértice da energia radical, antes que alguém, daqui a dois ou três anos, possa roubar-lhe esse centro de gravidade. E é neste ponto que o gesto ganha densidade política: para o Chega, não é a adesão ideológica que importa, é o medo de perder a pulsão que deu a vida ao partido.

O gesto que nasce como afronta ao sistema termina sempre como ambição pelo trono do sistema. Querem ser a exceção, mas também quem define a regra. E, quando este momento chegar, a tensão deixa de ser entretenimento. Torna-se política. O Chega percebe isso. Tenta agarrar as margens antes que as margens o dispensem. E o país, que ainda lê estes episódios como fricções laterais, vai descobrir que o que realmente está em jogo não é a explosão do perímetro.

É quem fica com o perímetro na mão depois de ele cair.»


4.10.25

Uma coisa é ser conservador, outra é ser da extrema-direita

 


«O uso da classificação de “conservador” é nos dias de hoje, na maioria dos casos, abusiva. Ela foi usada para caracterizar o activista Charles Kirk, que morreu assassinado, repetindo uma classificação usada nos EUA, mas ocultando que também nos EUA muitos órgãos de comunicação o classificaram de extrema-direita. As ideias de Kirk — defesa das armas, racismo contra os negros, que seriam melhores no tempo da agressiva supremacia branca nos estados do Sul, afirmação da inferioridade de inteligência das mulheres negras, ataque aos “trans”, submissão das mulheres aos homens no quadro da “família”, e por fim, o elemento mais moralmente impiedoso, o combate à empatia, aquilo que o une a Musk e a Trump numa visão cruel do Estado e da sociedade. Nada disto é conservador.

Essa classificação de “conservador”, pouco comum na actual política portuguesa, entrou por imitação das notícias sobre Kirk. O ADN, o partido dos bebés de plástico, colocou uma faixa a falar dos “valores conservadores”, e não tenho dúvidas de que a designação se vai tornar mais habitual, até porque é mais “simpática”. Mas, como muita coisa que por aí circula, é falsa — a classificação de extrema-direita é mais rigorosa, embora tenda a esconder o que é novo nessa zona política, mas não vale a pena perder muito espaço com isto. Mesmo que se diga verdadeira, com grandes teorizações citando Burke, não é — a não ser que se substitua a recusa da Revolução Francesa pela recusa do 25 de Abril. Conservadores é que não são.

Para simplificar, consideremos questões de estilo e de conteúdo em que a diferença é abissal. Há no conservadorismo um módico de costumes, uma recusa da má educação, dos insultos nas redes sociais, das caretas e gestos dos deputados do Chega no Parlamento. Os conservadores podem ter muitos defeitos, uma certa atracção pelo snobismo, hipocrisia, muita pose, e muitas vezes o atravessar da fronteira entre o conservadorismo e o reaccionarismo. Mas o pensamento conservador, a linguagem, a postura, são completamente distintos desta boçalidade e do programa que ela transporta, de violência explícita, e de uma certa forma, na sua intenção revolucionária, de profunda perturbação social.

Basta comparar um genuíno conservador como João Carlos Espada com a turma vociferante dos comentadores e influencers próximos do Chega ou da ala mais à direita do PSD, exaltados aos berros, ou enunciando platitudes que atribuem ao “povo” que está fora da “bolha”, com o seu anti-intelectualismo e ignorância agressiva, o uso sistemático da mentira e do exagero como discursos principais.

Quanto ao conteúdo, usando a trilogia clássica de Deus, Pátria e Família — apesar de ela própria ter deixado também, há muito na Europa, de personificar o pensamento conservador —, percebe-se a distância da extrema-direita impulsionada pelo populismo dessa trilogia.

Os nossos homens e mulheres de extrema-direita pouco têm a ver com Deus se o personificarmos na Igreja Católica, onde a maioria se proclama crente e é, no limite, religiosa não praticante. Mas, em dois aspectos, estão do lado oposto: na doutrina social da Igreja e no ataque à empatia, que sem minudências teológicas é o cerne da ideia de “caridade”. E por estranho que possa parecer, no seu ataque a outra das grandes religiões monoteístas, o Islão, que é também bem pouco “católico”.

Aliás, uma das coisas que afastavam o ditador conservador que era Salazar do nazismo (como, aliás, Pétain e o ditador católico Dolfuss da Áustria) era o paganismo dos nazis, o culto da violência rácica presente na negação do “outro”, base do racismo e do discurso contra os imigrantes. E se a Igreja cometeu muitas violências no passado, a Igreja de hoje em sociedades como as europeias é uma força de moderação e uma reserva de “empatia” para os mais fracos, como são os pobres e os perseguidos, sejam portugueses de lei ou imigrantes ao lado da lei.

Quanto à Pátria, uma coisa é ser patriota, outra ser nacionalista e xenófobo. A história portuguesa não tem H grande como todas as histórias de qualquer país. Substituir o patriotismo fundado no que fomos e no que somos por uma espécie de fanfarronice não nos engrandece, antes nos diminui. Aceitar a história como ela foi, com os momentos de violência da reconquista, do colonialismo, da escravatura, das lutas liberais, da guerra colonial, e com os momentos de redenção como o 25 de Abril, pode ser um factor de moderação. Como será para qualquer genuíno conservador ver a Pátria com o olhar dos portugueses da Peregrinação, da História Trágico Marítima, d'Os Lusíadas, de Herculano, Camilo, de Eça, mas também olhar com humildade para a Valise de Carton de Linda de Suza, ou o Oliveira da Figueira de Hergé e nos perceba, compreenda como nos percebem, para depois perceber os “outros”.

Quanto à Família, esse “valor conservador”, então é que não tem de todo qualquer sentido. São homens e mulheres do nosso tempo, com casamentos e divórcios, uniões de facto, promiscuidade, amantes, sexo, aborto, e só a hipocrisia “familiar” deles justifica que fale disto, porque entendo que cada um vive como entende, mas não é a extrema-direita que vem para cá dar lições de moral. As mulheres abortam, os maridos e namorados pagam os abortos. Só que, de novo, são apanhados pela sua hipocrisia. Uma é a violência doméstica, ou a pedofilia, que não tem nenhum papel no discurso da extrema-direita, e percebe-se porquê, até porque defender a castração química dos seus militantes é um pouco embaraçoso. Outra é que muito do machismo masculino oculta a sua homossexualidade, praticada ou latente.

Por isso, nem Deus, nem a Pátria, nem a Família.

Hoje há muito poucos conservadores e muita gente da direita radical e da extrema-direita. E chamar-lhes conservadores é dar-lhes uma caução de moderação que não só não têm como é um dos seus alvos principais.»


12.7.25

A cloaca

 


«Estes são alguns dos cerca de mil comentários que foram publicados no Facebook da CNN, depois do último Princípio de Incerteza.

A mama e o tacho

Carlos Da Silva
Mais um que pensa que sabe tudo Acho que estam todos com medo de perder a mama.

Jose Figueira Dos Santos
Mais um chulo do sistema sempre a mamar a 50 anos

Daniel Calôba
Todo povo que é contra o CHEGA so tenho a dizer 2 coisas , ou anda a a viver as custas dos outros e teem medo da mama acabar ou querem arruinar Portugal , pessoas que nao teem um palmo de testa que nao veem que este Pais esta a ficar perigoso para nossos filhos e netos , cultivem se pessoas

António Silva
O Pacheco mama no sistema e está a ver a teta a acabar se o chega governar a mama vai acabar por isso viva o chega viva ventura viva Portugal sempre

Jose Cardoso
Estavas habituado a mama valia mais estares calado.devias estar na toca

Ribeiro Ribeiro
Vergonha é esse gajo a mamar durante 50anos a conta do povo sem fazer nada

Carlos Calvo
Mais um que andou somente a vida toda a encher o NALGUEIRO á costa do Zé Tuga. Parece que os tachos estão a ficar menores e as tampas a desaparecer

Antonio Margarido
Não consegues ser o último dos últimos.És um inútil faccioso e chupista do sistema.

Xéxé e dinossaúrio

Jose Carlos Conde
Este PP está senil!

Vasco Pina Cabral
PP já não e ouvido em lado nenhum...apenas um caquético velho do Restelo!

Fatimamedeiros Morais
Eu não acredito que estes velhos ultrapassados pela mentalidade tacanha, ainda venham dar palpites.chulos do sistema.

Filipe Silva
Pacheco Pereira, todos temos um tempo, e o teu já passou, estás senil, trata-se, e abstém-te de opinar, a tua geração foi a mais corrupta da democracia.

Mario Pestana
Cala-te velho do sistema,a tua reforma tambem devia ser cortada, para pagar os subsidios aos emigrantes

Charles AP
Este velho a apoiar a estrangeirada.

A nulificação do outro

António Silva
Mais um parasita à procura de poiso…..nunca foi nem fez nada na vida a não ser viver à conta dos papos que manda…agora que começa a ver o cerco apertar está à procura de alguém que acolha…(à esquerda pois claro)

Mario Barreto
Não vales um cigarro

Vitor Almeida
Viveu como um Lord, apesar de pertencer há ocmlp,MRPP, depois procurou o seu sustento, agora destila ódio e protagonismo, qualquer dia cândidate-se a presidente da República

Armando Saramago
Historiador de marretas !

Victor Mendes
Gostaria de saber quanto este senhor recebeu do estado para ter o projeto efémera

A censura

Miguel Ribeiro
Olá. Eu acho vergonhoso certas alarvidades que este senhor Pacheco Pereira brucifera. Não percebo como é que é possível tê-lo como comentador, há semelhança de muitos outros. O nosso dinheiro chega para todos?

Emilia Bastos
Para dizeres umas nugices na TV.

Carlos Silva
Pacheco zurra para outro lado que já não te ouço

Eugénio Assis Alberto
Outro que só está de bem com ele próprio. Renovem os "comentadeiros". Este já está podre...

Teresa Ferreira
Um ditador comuna disfarçado ,nem deviam ter direito a comentar essa corja ,depois de tudo o que fizeram ao país e aos portugueses,,,sao uns ridiculos

O pseudotudo

Francisco Santos
Eh mano, vai lá limpar o pó dos.teus livros, nao chateies a gente Pacheco Pereira mais um chulo da política que agora vem dar uma de historiador. Vai nanar, tu e a CNN Portugal.

Vítor Timóteo
Vergonha.,foi teres desrrtado...abandonado os teus homens....e teres teabalhado com o inimigo da altura contta o teu povo

Burro

Jose António Pereira
Fostes sempre um tinhoso ,e não mudas nada!quando foi feita a distribuição da inteligência faltas-te à formatura. ÉS um triste.

Rui Loução
Deviam de ouvir este senhor. Esse escroque não vale meio tostão furado. Não lhe passei credêcial para dizer que me vem defender
Vá dar banho ao cão

Comunista

Jose Goncalves Ferreira
Pois e um comunistas a cara dele mostra tudo

Henrique Carvalho
A CNN tem um padrão nos seus comentadores estão senis ou são comunas. Só falta irem buscar a outra louca que está na SIC. O NOW vai limpar as audiência.

Manuel Gomes
Qur quer esse Cömuna ? Chega sempre Chega

Alexandre Branco
Assim se vê o caráter das pessoas um Marxista de extrema esquerda que virou "Democrata" a dizer mal da Direita como que a envergonhar o seu passado moralista de vão de escada

Jose Lima Oliveira
Este Pacheco é comunista está com pena das criancinhas que as leve pra casa dele

Puro insulto

Ligia Fernandes
Pacheco Pereira vai lamber sabão! Ora dá uma no cravo outra na ferradura.

Lelo Alberto Nunes
Se este porco quiser pode ligar-me terei muito gosto em compará-la publicamente com a dele

Paulo Brito
Este palhaço e os da mentalidade dele deveriam todos ser enviados para Sibéria...

Jorge Nogueira
Pacheco Pereira era so quem te desse com um gato morto nos cornos ate ele miar corrupto , esquerdalha

Vitor Gaspar Lopes
Sanguessuga

Jose Manuel Nunes
Mete menos tabaco

Orlando Ricardo Prata Leal
Quando apalparem uma das tuas netas na primária, assobias para o lado como se nada acontece&se

Jonas Alexandre
Porcoooooooooooooooooooooooooooossssssss este pacheco pereira e este elenco no estudio é so porcoooooooooooooooooooossssssssssssssssssssss

Mmgf Freitas
Este Pacheco que va comer bolota p o Alentejo

Vamos já precisar algumas coisas. A primeira é que não vale a pena dizer que não são militantes e eleitores do Chega. São mesmo, mais alguns do PSD. Outra é que considero que o insulto está no âmbito da liberdade de expressão, a única coisa que não cabe na liberdade de expressão é o crime. Outra é que muitos insultos são também dirigidos ao Chega, mas é suposto que uma coisa não lava a outra. Outra é a preocupação com o grau de violência que estes insultos traduzem.

É muita gente? Não, não é. Todos os que é possível identificar têm meia dúzia de seguidores, ou seja, é gente que não fala para ninguém, a não ser por este efeito de matilha.

Sempre tive relações cordiais com André Ventura, porque sempre distingui as ideias políticas, com que não concordo, das relações pessoais. Mas a minha pergunta é esta: é este o Portugal no qual se revê, no qual quer educar os seus filhos, no qual valores tradicionais e conservadores a que chamamos “boa educação” existem e são praticados? São isto valores cristãos? Onde está a caridade? Se isto é um retrato da “revolta”, esta revolta é na sua essência antidemocrática, antiliberal, violenta e autoritária, e muito pouco portuguesa, se queremos um Portugal com liberdade, com liberdade onde se podem escrever estes insultos.»


1.7.25

Os neonazis e a ameaça à democracia

 


«Por altura da celebração do Dia de Portugal registou-se em poucos dias um número pouco habitual de crimes de ódio e violência associados a neonazis, o que se passou no contexto de um aumento de 200% deste tipo de criminalidade nos últimos cinco anos. É tão absurdo que isto esteja a acontecer em Portugal que custa acreditar que jovens e menos jovens tenham perdido a vergonha de fazer a saudação nazi, manifestando-se através de agressões verbais e físicas a imigrantes ou pessoas de esquerda, sem sequer pensarem que o que estão a fazer pode constituir crime.

É de supor, por isso, que só a ignorância, a maldade e falta de vergonha ou o exibicionismo pode levar alguém a fazer a saudação nazi ou ter comportamentos violentos contra imigrantes, contra a cultura, contra a esquerda ou contra as instituições democráticas, inspirando-se na ideologia a que Adolf Hitler deu corpo e que ficou como uma mancha na história da humanidade, pela sua crueldade e barbárie. É preciso nunca esquecer que foi acima de tudo com a esquerda que se derrubou a ditadura e instaurou a democracia em Portugal.

Os assumidos neonazis domésticos saberão, ou se calhar não, que na Segunda Guerra Mundial terão morrido entre 70 e 85 milhões de pessoas, entre os quais cerca de seis milhões de judeus que foram enviados pelos nazis para as câmaras de gás ou fuzilados em massa ou foram vítimas de outros métodos cruéis, como a privação pela fome e por falta de assistência médica.

Assistimos a uma alarmante banalização e normalização dos movimentos extremistas, que têm proliferado com alguma impunidade, quiçá devido a simpatias ocultas por parte de alguns membros das forças de segurança, o que poderá talvez explicar que certas manifestações públicas de ódio não tenham quaisquer consequências criminais.

Foi mesmo desmontado um grupo com inspiração nazi que faz soar todos os sinais de alarme, com o infeliz acrónimo MAL, que significa Movimento Armilar Lusitano, indiciado por atividades terroristas, em que foram descobertos membros da PSP, da GNR e da Marinha, um considerável arsenal de armas e várias centenas de militantes, a quem seria fornecido apoio logístico e treino militar para causar perturbação pública. Entre as ideias subversivas estaria a intenção de fazer um assalto ao Parlamento e ao Palácio de Belém e derrubar o regime democrático, o que é arrepiante.

Mas nada disto é propriamente novidade, visto que se trata de uma reprodução de outros atos extremistas, como os que estavam em preparação pelo grupo autodenominado Reino da Alemanha, ligado ao movimento Cidadãos do Reich, que preparavam o derrube da democracia alemã. Na Alemanha, foram desmanteladas nos últimos anos várias células terroristas associadas à extrema-direita que manifestam claramente a sua vontade de derrubar o regime democrático liberal, onde foram identificados elementos pertencentes às forças de segurança. E a inspiração para o assalto ao Parlamento certamente viria da invasão do Capitólio impulsionada por Donald Trump em 6 de janeiro de 2021 e, dois anos depois, à Praça dos Três Poderes, em Brasília, pelos apoiantes de Jair Bolsonaro.

Portanto, a pergunta é simples. Visto que André Ventura anda a apregoar o fim desta República, ainda não se percebeu para instaurar o quê, é legítimo que nos interroguemos sobre o conhecimento, proximidade e envolvimento que possam ter militantes do Chega com as correntes que têm como objetivo subverter a ordem democrática, como o MAL, o 1143 ou o Ergue-te, entre outras. Não deixa de ser curioso que, numa altura em que as investigações ao MAL prosseguem com visibilidade pública, o líder do Chega ameace com uma comissão parlamentar de inquérito sobre… a chegada de imigrantes a Portugal.

E como é possível tantos jovens deixarem-se instrumentalizar pelo Chega e por outros movimentos extremistas, sabendo que, mais tarde ou mais cedo, muito provavelmente poderão estar perante a justiça, porque o que estão a fazer infringe a lei e a Constituição?»


24.6.25

Só há uma ameaça extrema e é a da direita

 


«Não há qualquer paralelo entre quem defende direitos cívicos e o respeito pelos direitos humanos e quem os ataca em nome do racismo e da xenofobia. São combates opostos. O primeiro é digno e humano, o segundo repugnante e desumano. Compará-los é condescender com a violência odiosa. Quem estabelece esse paralelo está prestes a apregoar que a distinção entre Martin Luther King e o Ku Klux Klan era uma questão de cor. (…)

A avaliar pela intenção legislativa do Governo, e mensagem insistente, os imigrantes devem ser uma ameaça à segurança nacional. A repetição da ideia de que a imigração estava descontrolada e que o país estava de portas escancaradas criou aquele medo que se entranha até nas aldeias que nunca viram um desses perigosos imigrantes. Daí que seja necessário combater o reagrupamento familiar — o CDS deveria ser frontalmente contra este ataque aos valores da família — ou retirar a nacionalidade a quem cometeu crimes graves, como se o número de pessoas nestas condições fosse estratosférico, e por aí fora. (Já agora, o USA Today acaba de revelar que Portugal é a primeira opção para quem vive nos EUA e quer emigrar.) (…)

Só há uma ameaça extrema e é a da direita A verdade irrefutável é que a ameaça à segurança nacional não advém nem do radicalismo islâmico nem da extrema-esquerda. A violência à esquerda é uma arqueologia. A principal ameaça à segurança nacional e às instituições da democracia fala português, é nacionalista, racista, xenófoba e é de extrema-direita.»


19.6.25

A insegurança que vem de dentro

 


«Os últimos dias terão sido de profundo desencanto para os cruzados radicais que encontram na imigração a origem de todos os problemas de segurança do país, que não são assim tão grandes, em boa verdade, quando comparados com o que acontece noutras latitudes. De ações a intenções, vê-se e ouve-se um pouco de tudo, do fecho de fronteiras ao estilhaçar de direitos, da perseguição de minorias ao endurecimento do discurso xenófobo. A retórica dos saudosistas de um Portugal fechado e amordaçado, no entanto, conheceu um valente revés quando foram conhecidas as preocupações dos especialistas do Conselho Europeu. Passaram por Portugal e, pasme-se, ficaram muito preocupados com o discurso de ódio que visa, sobretudo, migrantes, pessoas ciganas, LGBT e negras. O relatório também indica aquilo que todos sabíamos, mas muitos procuram ignorar ou esconder: o discurso radical é incentivado por partidos como o Chega, o promotor maior da deriva securitária. Pelo que se viu esta semana, a preocupação de André Ventura devia ser redirecionada, porque a Polícia Judiciária desmantelou um grupo de extrema-direita que se preparava para atacar o Parlamento e discutiu uma invasão ao Palácio de Belém, residência oficial do presidente da República. Não, não eram imigrantes. São portugueses, tão ignorantes quanto violentos, que se julgam puros, criminosos bem armados e obcecados por uma mudança de regime, provavelmente porque não tiveram a má sorte de conhecer na pele as agruras do fascismo. É necessário recuar décadas para encontrar tamanha ameaça às instituições democráticas no nosso país. E, ironia sem ponta de piada, não veio de fora, nasceu cá dentro, onde deve finar rapidamente, se os tribunais fizerem bem o seu trabalho.»


15.6.25

Orcs e goblins odeiam nos caminhos de Portugal

 


«Hordas de orcs e goblins... de quê? Quem não tiver lido Tolkien poderá ver as extraordinárias adaptações ao cinema de “O Senhor dos Anéis” e de “O Hobbit”, por Peter Jackson, para conhecer essas asquerosas criaturas ao serviço do mal. Ora, há em Portugal hordas de orcs e goblins (são grupelhos, na verdade) dedicadas a agredir e a aterrorizar pessoas que tentam viver em paz num mundo que lhes pareça benévolo: imigrantes, voluntários apoiando pessoas sem-abrigo, atores que chegam ao seu local de trabalho...

De onde vem esta podridão?

Há uma resposta, dada em 2016 pelo atual presidente dos EUA, quando estava em vias de assegurar pela primeira vez a nomeação como candidato presidencial, ao dizer: “Ganhámos com os jovens. Ganhámos com os velhos. Ganhámos com os muito instruídos. Ganhámos com os pouco instruídos. Eu adoro os pouco instruídos.” (…)

Mudar o Mundo pode não ser transformar todas as pessoas em seres lúcidos, luminosos e benévolos. Isso não existe. Mas pode ser dar-lhes condições de vida que não as puxem para o ódio, a xenofobia, o racismo. E dar-lhes a dignidade que as iniba de ver como ofensiva a dignidade das pessoas diferentes. E, no longo prazo, torná-las instruídas, não para sermos todos iguais, mas para que todos decidam, sem serem manipulados, o que são.»

(Ler na íntegra AQUI.)

14.6.25

Onde estamos e para onde vamos

 

Capa do disco da banda skinhead LusitanOi!

«Já há algum tempo escrevi sobre esta matéria do incremento da agressividade, mas como dei exemplos do trânsito nas cidades, as pessoas não fizeram qualquer correlação com a política. Mas existe, e não está apenas nos cada vez mais comuns incidentes de violência da extrema-direita, o sinal dessa crescente agressividade, está no ambiente que os torna “normais” e na ideia dos que os provocam de que se ganha alguma coisa, em publicidade, recrutamento, efeito útil no que se faz. E depois, na máquina política e comunicacional que os diminui ao não falar neles sem os “equilibrar” com o “outro lado”, quando não há “outro lado”.

É interessante ver como a maioria dos comentadores do farol da direita radical, a Rádio Observador, ao ter que se pronunciar sobre a agressão física ao actor ou às ameaças diversas desde ao Imã da Mesquita de Lisboa, às senhoras que distribuíam alimentos aos sem-abrigo, desenvolvam todo um discurso a dizer, como Ventura aliás, que só se fala deste tipo de agressões e se escondem as outras. Não sei bem quais são as “outras”, mas o que é certo é que este discurso funciona como uma minimização do que se está a passar.

A razão por que estes actos de agressividade, centrados não num protesto verbal, mas na ameaça física – o que faz toda a diferença –, estão a ser minimizados é política, em primeiro lugar, mas também é a incompreensão do pano de fundo que lhes está por trás, que encontra um canal imediato nas organizações assentes no culto da violência, mas que vai muito para além. Vai para o quotidiano principalmente urbano, onde o “viver” é cada vez mais agressivo. Na escola, em casa, no clubismo futebolístico, na rua, no pouco que muitos lêem, ou seja, nas redes sociais.

O primeiro mecanismo de minimização é a falsa equivalência, nos dias de hoje, entre a extrema-direita e a extrema-esquerda. Duvido que qualquer relatório do tipo do RASI seja capaz de apontar qualquer mínimo paralelismo. Os dois partidos mais relevantes que podiam no passado ser aí incluídos, só por manipulação podem hoje estar no lado do paralelo da extrema-esquerda. Quer o PCP, quer o Bloco de há muito que abandonaram na prática a ideia de uma revolução violenta, não estão organizados para isso e mesmo na retórica política deixaram cair a visão leninista da revolução. Admito que para esta direita à procura de equivalências se olhe com medo para os novos movimentos contra o racismo, como o SOS Racismo, ou sobre a habitação, como o Vida Justa. Mas é um “medo” instrumental, à Trump, porque as manifestações desses movimentos, com excepção de alguns vidros partidos, são pacíficas. A chave que permite a comparação é a violência física, e não é a criminalidade entre a imigração, na sua maioria de gente que fala português, tementes a Deus, cujas igrejas evangélicas frequentam, ou nos portuguesinhos valentes que, à falta de touros para mostrarem os seus dotes de forcado, batem nas mulheres, e que nada tem a ver com a extrema-esquerda, que votam no Bolsonaro e no Chega, que serve de comparação.

Onde é que se encontra o falso paralelo que alimenta o discurso dos dois lados? O que mais se aproxima é a Climáximo, que pratica actos de vandalismo e acções que são ilegais. O mais longe que vão é atirar tinta e que se saiba nunca participaram em qualquer coisa de parecido com matar pessoas porque têm outra cor, ou agredi-las, como aconteceu com o actor da Barraca. Numa escaramuça como as que aconteceram recentemente na Baixa de Lisboa há dois lados, mas não se compara o músculo de uns com os outros, nem vendo o que se passa há qualquer paralelo na provocação, na iniciativa, na violência. Se é por aqui que se vai, é o mesmo que comparar uma planta carnívora com um nenúfar.

O rasto da violência crescente está na sociedade que estamos a criar com uma mistura de manipulação cultural, económica e social, e por fim política. É uma sociedade que, desde a adolescência à cada vez mais tardia idade adulta, vive numa ecologia de antagonismos, de pseudo-identidades alimentadas nas redes sociais pela ignorância e pela radicalização. Uma sociedade destas é fortemente movida pela culpabilização do “outro”, que nos confronta com a dificuldade de ter um território próprio, de ser reconhecido pelas nossas virtudes imaginárias, que queremos ter como um dote gratuito dos céus porque pomos uns vídeos de telemóvel engraçados na net, sem esforço, sem estudo, sem mérito.

O melhor paralelo para a sociedade que estamos a construir – para ganho de alguns, poder de outros, e vitimização dos mais fracos – é o clubismo das claques, cuja linguagem, simbologia e acção difere pouco do “nós” e “eles” do populismo, do “nós é que somos bons, nós os portugueses de gema” e não esses monhés, ou pretos, ou paneleiros, ou comunas, que pervertem a raça e que precisam de quem os ponham na ordem. Diz o tipo no café: “É o que eu faço todos os dias nas redes sociais, mas como sou fraquinho de corpo e não quero estragar a roupa, conheço lá uns tipos no ginásio que fazem parte de um grupo que veste de preto e anda de mota que, com algum incentivo e pagando-se-lhes uma cerveja, vão lá ensinar o que é Portugal àqueles que se dobram no chão a rezar – a quem, Manuel, diz-me tu, que não sei bem o nome do tipo? – a Alá, sim, a Alá.”»


13.6.25

Não viveremos no medo que nos querem impor

 


«O dia 10 de junho não foi apenas o dia de Portugal. Não foi apenas o dia em que saboreámos as palavras desassombradas de Lídia Jorge e o alerta claro do Presidente da República. Foi também o dia em que um dos autores deste texto foi barbaramente agredido por um neonazi. Foi o dia em que o nosso concidadão David Munir foi insultado por ser líder da comunidade islâmica. Foi o dia em que um grupo impune da extrema-direita marchou afirmando o seu “orgulho heterossexual” que mais não é do que o orgulho em odiar os outros. Foi o dia em que Lídia Jorge foi chamada de todos os nomes nojentos nas redes sociais. Foi o dia em que a violência no desporto voltou a fazer notícia. Foi o dia em que o outro autor deste texto denunciou a influência da extrema-direita nos valores dos mais novos e foi insultado por o fazer. Foi o dia em que o líder do Chega se mostrou indignado porque a primeira figura do Estado afirmou a dignidade de todos os cidadãos. Foi o dia em que, nas redes sociais, várias figuras do mesmo partido e os seus seguidores celebraram não o dia de Portugal, mas sim o dia “da raça”, pondo a nu a sua profunda ignorância e o seu saudosismo salazarista.

O dia 10 de junho foi um dia de tomada de consciência de uma vertigem assustadora. Foi o dia em que nos lembramos que Alcindo Monteiro foi assassinado há exatamente 30 anos, apenas por ser negro, apenas por ser jovem, apenas por ser. Foi o dia em que vimos que o ódio cresce em escolas, à porta de teatros, na rua, no espaço virtual, que o mal se propaga por todo o lado. Foi o dia em que muitos acordaram para a rapidez do que nos está a acontecer sentindo que é difícil parar, mas que não desistiremos de travar esta onda.

O dia 10 de junho foi um dia de perguntas. Porque odeiam tanto? Porquê um ator? Porque é que ninguém os trava? Porque é que não regulamos o ódio nas redes sociais? Porque é que continuamos a relativizar e a ocultar? Porque é que o Presidente da Câmara de Lisboa fala, como se fossem iguais, extremismos à direita e outros crimes? Porque é que o relatório RASI omite os crimes de ódio, numa tentativa de os retirar do debate público? Porque é que uns continuam a construir perceções erradas sobre a imigração, quando estes crimes hediondos são praticados por cidadãos nascidos e criados em Portugal?

O dia 10 de junho chocou pelo ataque a um artista à porta de um teatro. Conversávamos sobre as razões deste ódio à arte. Mas foi sempre assim. Os regimes autoritários sempre temeram e perseguiram os que usam a palavra como fermento e abrigo da liberdade. Porque a palavra tem sempre mais força do que a brutalidade do soco. Porque a palavra traz a complexidade que perturba quem faz da mentira e da violência o seu único argumentário. Os artistas são alvo, porque mostram que o mundo pode ser diferente, porque nos fazem sonhar, porque nos fazem parar no tempo suspenso em que apreciamos a sua obra. A cultura assusta quem não quer a democracia, porque é incompatível com aquele imediatismo típico da rede social ou da fúria.

A cultura, as artes, e em particular o teatro, constituem talvez o mais profundo traço distintivo entre o ser humano e o animal. O teatro, em especial, é o espaço onde nos debruçamos sobre a fragilidade e o esplendor da condição humana — onde se revelam, com lúcida compaixão, os nossos ridículos, as nossas grandezas e as nossas contradições. É na cena que se ensaia o pensamento livre, despido de doutrinas prontas ou moralismos impositivos.

O teatro não é uma cartilha ideológica, nem uma lengalenga papagueada: é tudo e é todos. Vive da palavra, do corpo e do silêncio. Vive do conflito e da escuta. E esse tudo, esse plural vivo, vem já de muito longe: Gil Vicente, nos seus altares profanos e populares, e Camões, nos seus autos renascentistas, já compreendiam que o palco é um espelho cruel e terno da sociedade. Desde então, o teatro foi sempre o lugar da interpelação, da inquietação, da heresia necessária.

Não admira, pois, que tantos mecenas e patrocinadores mantenham uma relação distante com o teatro. Podem até pontualmente apoiar outras artes — onde a palavra pode não ferir — mas raramente o teatro, porque nele a palavra é viva e pode incomodar. Incomodava nos tempos da censura oficial — quando os censores, entre a ignorância e o zelo, proibiam o que conseguiam entender — e continua a incomodar hoje, não pela interdição explícita, mas pelo silêncio cultivado, pelo desabituar da escuta crítica, pelo abandono da formação cidadã através da arte.

Porque pensar é perigoso. Pensar leva a uma opinião, e uma opinião arranca-nos do conforto acrítico de um rebanho domesticado. É sempre mais cómodo que apenas um pense, e os restantes executem, sigam, obedeçam. O teatro, ao convidar ao pensamento, quebra esse conforto anestesiado da obediência acrítica e obriga à consciência. Por isso incomoda. Por isso é necessário.

Se os portugueses conhecessem melhor a sua história — quem somos, de onde viemos, os fios que nos ligam ao território e às feridas do tempo — se cada um ousasse procurar os seus antecedentes, talvez muita coisa se resolvesse. Talvez a pertença deixasse de ser confundida com pureza, talvez a identidade deixasse de ser um grito de exclusão. O combate prioritário, o verdadeiro campo de batalha da nossa era, é contra a ignorância em bandeiras hasteadas. Essa ignorância vestida de opinião, de certeza e de orgulho. Essa ignorância que fala alto, marcha com pose e censura com emojis. Essa ignorância que mata, exclui, zomba e vota.

Querem-nos calados. Querem os teatros fechados. Querem programar-nos como estão a formatar os mais novos. Querem-nos com medo. Querem voltar a um Portugal amordaçado e com desconfiança do poder da palavra. Querem-nos presos. Querem-nos, sobretudo, com medo.

Somos ambos professores. Um de linguística, ciência da palavra, outro de teatro, arte do corpo – juntos ensinamos como o pensamento ganha forma e voz no mundo. Acreditamos que, em cada escola, em cada bairro, em cada lugar, nos compete desmontar a mentira e o ódio. Acreditamos que, pela educação, a esperança não morre. Acreditamos que a cidadania é componente essencial de uma escola que serve para educar e não apenas para instruir. Acreditamos que tem mais mérito o aluno que olha para o outro como igual, porque tem o conhecimento, a ciência e a cultura para rejeitar a repressão e a discriminação, do que o brilhante individualista que corre sozinho pela melhor nota.

Sentimos que Portugal precisa de se mobilizar muito fortemente para contrariar o crescimento desta violência. Cabe-nos a todos esta tarefa, na palavra, na criação, na denúncia, na rejeição, na paciente desconstrução dos múltiplos combustíveis deste ódio. O silêncio é cúmplice. Não podemos ficar calados quando à nossa frente se desprezar ou espezinhar. Cabe-nos a todos, em cada função, em cada fábrica, escola ou espaço artístico. Em cada bairro, em cada café. Políticos e não políticos, crentes e não crentes, jornalistas, trabalhadores e reformados, novos e velhos, homens e mulheres. Todos somos convocados à luta pela sã celebração da diversidade como bem maior.

Querem-nos com medo. Mas nós não temos. Não vamos viver no recato amedrontado que nos querem impor. Continuamos a sair à rua, a fazer arte, a ensinar, a celebrar a democracia e a diversidade. A rua é dos democratas, o espaço público é o da alegria e da liberdade.

É urgente agir. É urgente a coragem. É urgente não silenciar.

É urgente não ter medo de afirmar que este ódio tem autores morais. Aumenta com o crescimento da extrema-direita, que legitima tantos que até há pouco tempo não ousavam afirmar o seu racismo, a sua xenofobia, a sua homofobia, a sua misoginia. Cada deputado do Chega, cada novo partido da extrema-direita é um contributo ativo para a degradação civilizacional que testemunhamos.

Não temos medo. Porque sabemos que a realidade é complexa, mas que a arte, a educação, a ciência e a cultura nos dão a força para não desistir.»


Normalizar a extrema-direita

 


30.5.25

Isto vai ser rápido

 


«Celebrávamos o 40º aniversário do 25 de Abril quando fui questionado por uma jornalista francesa, que queria saber por que não tínhamos extrema-direita. Tinham-lhe falado da memória da ditadura e da baixa taxa de imigração. Neguei-lhe a primeira, valorizei a segunda, mas disse que estava enganada: que podia ouvir a extrema-direita nos cafés e nos programas da manhã. Só não tinha sido ativada por um partido. Como seria possível ela não existir no último país da Europa Ocidental a descolonizar e num dos últimos a chegar à democracia? Nos últimos seis anos fizemos o caminho que outros levaram décadas a percorrer. E a extrema-direita pode chegar ao poder ou ficar em primeiro com a mesma velocidade extraordinária. Porque nos faltam os instrumentos que, noutros países, retardaram a sua progressão ou atenuaram o seu impacto.

Faltam-nos resistências institucionais. Temos uma comunicação social com pouca autorregulação, autonomia e capacidade financeira. Portugal tem das mais baixas taxas de leitura de jornais da Europa e dos menores apoios públicos à imprensa. A esmagadora maio¬ria informa-se pelas televisões generalistas e pelas redes sociais. Parte das instituições do Estado, marcadas pelo desinvestimento ou pela doença do corporativismo, já foram tomadas pelo populismo dominante, com destaque para a justiça, onde o Ministério Público tem sido o foco do caos. É impossível compreender o ambiente que levou o Chega a saltar de um para 60 deputados em apenas seis anos sem olhar para o clima criado por uma casta pouco sofisticada mas muito poderosa. Não é contra o PS ou contra o PSD, é contra “os políticos”. E temos uma sociedade civil estruturalmente anémica. A começar pelo sindicalismo, que o poder político fez tudo para fragilizar, com contributo de partidos que não o deixam respirar. Portugal tem das taxas de sindicalização mais baixas da Europa, tendo sido a segunda que mais caiu nas últimas quatro décadas em toda a OCDE.

Faltam-nos resistências culturais. Segundo o “European Social Survey”, 62% dos portugueses tinham no início da década crenças racistas: achavam que havia grupos étnicos ou raciais mais inteligentes ou mais trabalhadores ou que havia culturas mais civilizadas. Nunca fizemos, graças a mitos lusotropicalistas que alimentaram a ideia da colonização bondosa, este debate a sério. E foi neste pântano de silêncio que, quando a imigração explodiu, também tardiamente, nos vimos ao espelho. Segundo o Eurobarómetro, já temos mais autoconsciência do racismo — 61% aceitam que há discriminação em relação à cor da pele. Bastaria olhar para a elite política, económica e social e ver a pouca quantidade de não brancos para isso ser evidente. Mas, como somos ótimos a adiar debates, porque dividem, não são prioridade ou não interessam às “pessoas normais”, as fronteiras políticas são porosas e basta um pequeno aperto para até os socialistas começarem a repetir o vox populi sobre minorias e imigrantes. Não há linhas vermelhas, como na Alemanha. Porque, enquanto os alemães falam do seu passado, nós só o celebramos: demos novos mundos ao mundo e o resto não se pode recordar porque isso é “reescrever” a história.

Faltam-nos resistências políticas. Com uma situação económica ainda favorável, Montenegro passou um ano a distribuir o excedente e subiu três pontos quando o seu maior competidor afundou. O voto socialista saltou por cima da AD porque o primeiro-ministro não inspira confiança. Ébrios com o champanhe, a festa na São Caetano, à Lapa, é a da primeira classe do “Titanic”: não percebem que serão os seguintes. No PS acredita-se que a tradição ainda é o que era e que se se fizer de morto será premiado pela alternância, ignorando que há outra alternativa. Neste cenário, Ventura é o mais mobilizador dos três líderes. Carneiro até podia libertar votos à esquerda, mas BE e PCP ficaram em mínimos históricos e o Livre não chega, pela sua natureza, orgânica e liderança, ao voto popular de protesto. Não temos uma France Insoumise ou Die Linke, capaz de disputar o descontentamento à extrema-direita. Quando as coisas correrem mal, esse voto só terá um destino possível.

A extrema-direita chegou mais tarde, cresceu mais depressa e tem todas as condições para manter a trajetória acelerada. Aberta a comporta, o caudal não encontrará, por razões estruturais e circunstanciais, a resistência institucional, cultural e política que permitiu outros países retardarem o desastre. O terreno está todo aberto. Basta um escândalo judicial e uma crise económica e o poder será de Ventura. Quem julga que teremos quatro anos de paz ainda não percebeu o que está a acontecer.»