«Jacques Danton e Robespierre eram inimigos íntimos, e um acabou por levar o outro à guilhotina. Mas, antes de subir ao cadafalso, Danton terá murmurado a Robespierre: “tu vens atrás”. E foi. E foi nessa sucessão de quedas internas que Jacques Mallet du Pan acaba por encontrar a imagem que atravessou o fim do século: as revoluções, como Saturno, devoram sempre os seus próprios filhos.
Há sempre um momento em que a energia que rasgou a porta do palácio começa a desconfiar dos que estão dentro do palácio. O poder deixa de ser o alvo da ira. O poder passa a ser o prémio. Nos Estados Unidos, a fratura na direita radical abriu-se antes de termos linguagem para a descrever. O movimento MAGA desenhava fronteiras e, à sua volta, crescia uma juventude que já nem reconhecia fronteira nenhuma. Dali nasceu um novo tipo de energia política que se alimenta do sentimento de que a História foi sequestrada e de que o futuro já está escrito noutro lado, por outros. E essa energia cruzou o Atlântico. Chega a Portugal como ecos que parecem locais, mas que trazem o desenho inteiro de outra história.
É que, por cá, esse movimento é incorporado por grupos como a Reconquista, que tratam a exclusão como um destino português e a palavra como uma arma simbólica. É um subterrâneo que opera com uma lógica própria: os argumentos que lançam (como a importação do conceito de remigração) servem para sinalizar pertença. Pedro Frazão grava um vídeo e promete que o Chega é um “aliado” de quem vive desse subsolo. Não foi um desvio. A pergunta é a outra: porquê arriscar a associação do Chega a um movimento encabeçado por quem defende que só os homens devem votar, que vê o sufrágio como filtro biológico?
Para se perceber a estratégia — porque é calculada —, é preciso olhar para o berço da direita radical. Nos Estados Unidos, a nova direita já se fragmentou há uns anos em dois corpos distintos mas interdependentes, que se alimentam mutuamente enquanto se corroem: a direita radical institucionalizada (o movimento MAGA) e o corpo marginal das comunidades digitais (representada sobretudo por Nick Fuentes, cabecilha dos “Groypers” e que, ao longo dos anos, expressou em registos públicos admiração por Adolf Hitler).
Mas a corrosão está a culminar numa guerra interna que deixou de ser retórica para se tornar um desenho estratégico. A direita institucional descobriu que já não controla o timbre da sua base mais jovem. E a base mais jovem percebeu que pode viver sem mediação. Nick Fuentes reapareceu não porque a opinião pública tenha decidido que ele é, afinal, tolerável, mas porque a nova arquitetura dos media digitais elimina a função de porteiro. E é nesse vazio que se instala a guerra civil da direita americana: de um lado, os que tentam instrumentalizar o perímetro democrático; do outro, os que entendem a própria destruição do perímetro como o gesto político fundador. É uma fratura que actua de fora para dentro, até que dentro e fora se tornem indistinguíveis.
O Chega conhece este risco. E Pedro Frazão sabe o que está a fazer quando acende um fósforo no pavilhão da Maia. No plano imediato, cola o partido à linguagem que sobe das margens. No plano estratégico, tenta neutralizar a ameaça futura de uma fuga geracional que aconteça à direita do Chega. A mensagem é menos sobre o evento em si. Frazão quer, com a participação no evento, assegurar que o partido é ainda o vértice da energia radical, antes que alguém, daqui a dois ou três anos, possa roubar-lhe esse centro de gravidade. E é neste ponto que o gesto ganha densidade política: para o Chega, não é a adesão ideológica que importa, é o medo de perder a pulsão que deu a vida ao partido.
O gesto que nasce como afronta ao sistema termina sempre como ambição pelo trono do sistema. Querem ser a exceção, mas também quem define a regra. E, quando este momento chegar, a tensão deixa de ser entretenimento. Torna-se política. O Chega percebe isso. Tenta agarrar as margens antes que as margens o dispensem. E o país, que ainda lê estes episódios como fricções laterais, vai descobrir que o que realmente está em jogo não é a explosão do perímetro.
É quem fica com o perímetro na mão depois de ele cair.»

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