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3.11.24

Os americanos que o digam

 


18.3.19

Democracia na Coreia do Norte? É uma questão de opinião…



Isto é o que diz a Wikipedia (para não ir mais longe). Mas sei lá! Se calhar é só uma opinião… «Democracia é um regime político em que todos os cidadãos elegíveis participam igualmente — diretamente ou através de representantes eleitos — na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governação através do sufrágio universal. Ela abrange as condições sociais, econômicas e culturais que permitem o exercício livre e igual da autodeterminação política.»




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16.6.18

Sob a condição humana



Miguel Sousa Tavares, Expresso 16.02.2018 (Excerto)

«Olhem para a célebre fotografia da Cimeira do G7 em Charlevoix, no Canadá. É daquelas fotografias que ficarão para a História. Um contra todos. Um, Donald Trump, que nem sequer se digna levantar-se para enfrentar os outros seis, que estão de pé, à roda da mesa, tentando em vão demovê-lo de partir para uma guerra comercial contra dois terços da população mundial. Trump nem se levanta, nem responde, nem contesta, nem sequer os olha. Parece um menino mimado, a fazer uma birra. Um menino mal-educado, que chegou tarde ao encontro e partiu antes de todos, despedindo-se à francesa e insultando o seu anfitrião depois de partir e mais uma vez rasgando o mísero acordo, só de palavras, que havia assinado. Acham que ele se preocupou? Não, com aquela fotografia ganhou a reeleição e nem vai precisar da ajuda dos russos nem da batota da Cambridge Analytica para ser reeleito. O comum dos americanos gosta daquela pose — “America first”. O comum dos americanos não vê além do próprio umbigo, são medíocres, ignorantes e arrogantes, como o seu Presidente. E o comum dos americanos é a maioria. Antes, Obama ganhou porque o seu adversário, McCain, não era suficientemente mau, antes pelo contrário, para atrair o comum dos americanos. Pela democracia se destrói a democracia: Trump é a demonstração perfeita. Mas também o ‘Brexit’, Kurtz, Orbán, Salvini e tutti quanti.

Ao contrário do que sucedeu no Canadá, não sei por que razão a maior parte dos analistas não anteviu que o encontro Trump-Kim Jung-un ia ser um sucesso. Dois iguais reconhecem-se quando se encontram e têm tudo para se entenderem por instinto, tal como Trump previra. Encontraram-se dois aldrabões de feira, dois despenteados mentais, dois tresloucados nucleares ao estilo “Dr. Strangelove” do Kubrick, dois vaidosos compulsivos que primeiro satisfizeram os respectivos egos a ameaçar o mundo com uma destruição apocalíptica e depois se rebolaram de puro prazer autocontemplando-se perante 2000 jornalistas como os anjos milagreiros que tinham salvo a Humanidade da guerra que eles próprios iam lançar. No seu íntimo, já se imaginam em Estocolmo, a receber a meias o Prémio Nobel da Paz — e não é sonho fora do alcance. Se tudo isto acabará, de facto, no desarmamento nuclear da Coreia do Norte ou com Kim a comer um McDonald’s na Casa Branca, ninguém sabe ao certo. Tudo é feito de aparências, de egoísmos, de muros, de fachadas, de fake news e tweets no lugar onde antes estava a informação, das redes sociais onde antes estavam os livros, dos aldrabões e demagogos onde antes estavam os líderes. Talvez no fim reste apenas a música e a música será aquilo que nos permitirá não endoidecer, à medida que vemos tudo o resto perder o sentido. E esperaremos, quietos, indefesos, impotentes. Assistiremos ao triunfo dos porcos, à morte acelerada da natureza — até à morte da natureza humana. Talvez tenha sido disto que Anthony Bourdain quis fugir. Ou talvez já não haja fuga, apenas espera. Talvez, como escreveu Cesare Pavese, já estejamos mortos, mas não sabemos.»
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14.6.18

Trump desvaloriza ataques aos direitos humanos na Coreia do Norte: “Kim é um tipo duro”



«“Quando tomas conta de um país duro, com uma população difícil, e herdas isso do pai, não quero saber quem és, que privilégios tiveste - há uma em cada dez mil pessoas que conseguiriam atingir o mesmo aos 27 de idade." É esta a caracterização que Donald Trump, Presidente dos Estados, faz de Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte com quem se encontrou na terça-feira, em Singapura, para discutir o fim do arsenal nuclear do regime. E foi assim que tentou desviar a pressão de Bret Baier, jornalista da FOX News, que lhe perguntou insistentemente porque é que tinha escolhido não abordar os abusos cometidos pelo regime norte-coreano contra os direitos humanos quando se encontrou com Kim. A esta análise acrescentou que Kim é "um tipo muito inteligente", "um grande negociador" e que os dois se irão "entender muito bem".

Vários ativistas e também numerosas vozes dissidentes norte-coreanas a residir em outras partes do mundo, mostraram a sua indignação face à ausência de qualquer referência aos abusos cometidos por Kim e pelos seus subordinados no exército e nos serviços de informações contra milhões de norte-coreanos.

Num vídeo gravado para o diário norte-americano "The New York Times", Yeonmi Park, que fugiu da Coreia do Norte aos 13 anos, fala das torturas cometidas pelo regime e pergunta a Donald Trump: "Senhor Presidente, encontrar-se-ia com o Hitler?".

Os números da ONU sobre a situação humanitária no país não oferecem muito espaço de manobra a Kim mas Trump deu-lhe um pouco mais, dizem os responsáveis da Human Rights Watch na Ásia. Segundo a ONU, duas em cada cinco pessoas estão malnutridas na Coreia do Norte, e cerca de 120 mil estão presas por motivos políticos em instituições onde os abusos aos seus direitos são constantes e muito violentos: abusos sexuais, execuções públicas, tortura física, trabalho forçado e refeições insuficientes são alguns dos exemplos explícitos no último grande relatório da ONU, com data de 2015.

Donald Trump foi e veio a Singapura, apertou a mão a Kim Jong-un, convidou-o para visitar a Casa Branca, apesar de o líder norte-coreano se encontrar numa lista negra de pessoas que não estão autorizadas a entrar nos Estados Unidos, e várias vozes, incluindo aquelas do seu campo político se têm mostrado bastante críticas com a complacência de Trump. Um exemplo das fissuras a nascer no próprio partido foi a cobertura feita pelo George W. Bush Presidential Centre, um instituto de análise política, museu e instituição de solidariedade social estabelecido pelo ex-Presidente republicano, que durante toda a conferência focou a sua atenção na questão dos direitos humanos. Como seria de esperar, os Democratas foram menos contidos e acorreram ao Twitter em avalanche para criticar Trump. Chris Murphy, senador democrata do Connecticut escreveu: "Os gulags do Kim, as execuções públicas, a fome premeditada legitimadas no palco do mundo. Que raio é isto?"

Pressionado ainda mais uma vez pelo entrevistador da FOX sobre as "coisas muito más que o regime [norte-coreano] faz", Trump respondeu que, sim, que isso é verdade mas que "muitas outras pessoas fizeram coisas" e que "é possível fazer uma lista de várias nações que fizeram coisas más". Num comentário pouco depois de terminada a conferência, Christopher Green, analista especialista em assuntos das duas Coreias do Crisis Group falou com o Expresso e, não dando razão a Trump, disse não estar surpreendido com esta omissão porque se Trump falasse da questão da abertura do regime poderia perder para sempre a linha de contacto com o regime e anular qualquer possibilidade futura de diálogo para esse fim.»

Mafalda Ganhão, no Expresso diário, 14.06.2018
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Mais vale brincar...




Make North Korea Great Again?

13.6.18

E no fim ganha a China. Alguma dúvida?




«Nobody greeted the news from Singapore with more delight than China. For years, Chinese officials have urged Trump to freeze military exercises in South Korea, which Beijing regards as a threatening gesture in its neighborhood. Shortly after the announcement, the Global Times, a nationalist state newspaper in Beijing, hailed Trump’s move in an editorial headlined “End of ‘War Games’ Will Be a Big Step Forward for Peninsula.” Elizabeth Economy, a China specialist at the Council on Foreign Relations, told me, “The Chinese are breathing a deep sigh of relief. They got what they most wanted.” She added, “And, best of all, it came out of President Trump’s mouth. The Chinese didn’t even have to rely on Kim Jong Un to do their bidding.”

Any negotiations in the months and years ahead will be fraught: the United States will need to get Kim to provide a full declaration of North Korea’s nuclear weapons. International inspectors will seek to verify them. Only then can the U.S. begin to imagine dismantling them. But, more immediately, Trump may have also precipitated an outcome that he does not fully grasp: by suspending military exercises, and alluding to removing troops from South Korea, he will stir doubts about the strength of America’s commitment to its allies in Asia, including Japan, Taiwan, and Australia. They will have no choice but to begin to reimagine America’s role in the region, and their relationships to Beijing. From Trump’s perspective, the encounter with Kim was an end in itself. For those who bear the consequences of his words and actions, this is just the beginning.»
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Trump. Mais comentários para quê




«Reporters were shown a video ahead of Donald Trump's press conference in Singapore, which the US president said he had played it to Kim Jong-un and his aides toward the end of their talks. It was made by Destiny Productions and was presented in Korean and English in the style of an action movie trailer.»
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11.8.17

Donald e Kim



«Enquanto estamos todos, ou quase todos, na praia a gozar o Agosto, os EUA e a Coreia do Norte andam a brincar à WWIII. Ninguém faz uma guerra nuclear em Agosto. É estúpido. As grandes capitais estão vazias, é desperdiçar munições.

Sei que o caro leitor está mais preocupado com o raio do vento e com a água fria do que com a situação mundial. Não quero incomodá-lo. Aliás, provavelmente, uma guerra mundial duraria menos do que as suas férias, por isso é bem provável que já esteja acabada quando voltar de Albufeira.

Sem lhe querer estragar o dia, não sei se sabe, mas o Trump ameaçou a Coreia do Norte com: "Fúria e fogo nunca vistos." Sinto que o leitor encolhe os ombros, tira a areia da toalha e diz: "Vê-se que não conhece o SIRESP."

Não o comovo, não é? E se lhe disser que, depois de Trump ter ameaçado responder à Coreia do Norte com "fúria e fogo", Pyongyang avisou que está a estudar um plano para atacar com mísseis o território norte-americano de Guam, no Pacífico. Pois, não lhe diz nada. Está na República Dominicana? Compreendo, Guam não tem descontos para famílias.

No fundo, o leitor comporta-se como o Trump que, depois de uma escalada verbal e ameaças, resolve, no dia seguinte, ir jogar golfe logo pela manhã. Confesso que me assusta o facto de Trump ter ido jogar golfe. Se ele acabar a noite num "golden shower", pode ser sinal de que está a aproveitar tudo porque sabe que o mundo acaba amanhã.

É curioso. O tarado do Kim é Presidente porque aquilo é uma ditadura, e não há eleições, mas o maluco do Trump é Presidente porque, na "maior democracia do mundo", votaram nele. Aposto que se os norte-coreanos pudessem votar, evitariam um e outro.

Uma chatice, esta cena dos mísseis, porque tenho a sensação de que o Trump e o Kim podiam ser grandes amigos. Têm tudo a ver. No estilo, na conversa, são daqueles que, se tivessem sido amigos em pequenos, teriam afogado gatos e rebentado sapos com cigarros.

A verdade é que ninguém quis resolver isto e acabou por sobrar para o Trump. Ao longo dos últimos anos, sempre foram feitas piadas sobre a capacidade bélica da Coreia do Norte. De tal maneira que, ainda hoje em dia tenho a sensação de que os mísseis norte-coreanos são daqueles que a meio desistem com dores de burro. Aquilo é malta norte-coreana a pedalar.

Acho que se podia resolver o problema da Coreia do Norte com um combate de "wrestling" entre o Trump e o Kim. O Trump é um homem do "showbiz" sabe que seria um espectáculo mais visto do que os Jogos Olímpicos. E aposto que o gordo da Coreia aceitava, porque ele é do género de fazer "bullying" e pensa que é o maior.

No fundo, acho que andam a complicar isto. Se o Trump pusesse o Kim a apresentar um "talk show" (por exemplo, o "Shark Tank", em que os que perdem são atirados aos tubarões) ou lhe oferecesse dois casinos, ou ambos, ele fugia pela calada da noite da Coreia do Norte. Aquilo é uma seca, mesmo para quem é ditador.»

João Quadros

12.1.16

Coreia: pop na tensão militar



«A experiência nuclear da Coreia do Norte foi uma provocação que poderá ter sérias consequências na política de alianças políticas e militares na Ásia.

A resposta da Coreia do Sul à provocação nuclear da Coreia do Norte foi feita com música. No caso através dos altifalantes colocados junto à linha de demarcação desmilitarizada entre os dois países.

As canções dos grupos de K-pop (pop coreano) tentaram serenar os ânimos, já que são escutadas com paixão do outro lado da fronteira. Uma das canções, do grupo Apink, "Let Us Just Love", diz simplesmente isto: "Please let us stop fighting… sometimes we doubt and argue but still I love you." Foi uma resposta diplomática à pressão do regime de Kim Jong-un, materializada através do alegado teste de uma bomba de hidrogénio. As autoridades de Seul tinham deixado de utilizar os altifalantes em 2004 durante um período de acalmia nas relações entre as duas Coreias. No meio deste aumento da tensão, os Estados Unidos têm também pressionado a China para que refreie o seu apoio ao regime de Pyongyang. Pequim, cujo esfriamento das relações com o regime de Kim Jong-un é visível desde a chegada ao poder deste, também percebe que a provação nuclear apenas reforça as ligações, sobretudo militares, entre a Coreia do Sul e o Japão, com a cobertura dos EUA, algo que tem tentado evitar há algum tempo com a sua estratégia económica.

Ao mesmo tempo os EUA fizeram voar um bombardeiro B-52, armado com mísseis nucleares e com outros capazes de atingirem os "bunkers" subterrâneos norte-coreanos, sobre os céus da Coreia do Sul. O B-52 partiu da base aérea de Guam, numa demonstração de que os EUA não hesitarão em apoiar um dos seus mais importantes aliados na região, se a Coreia do Norte tiver alguma intenção agressiva. A provocação do regime norte-coreano permitem também aos Estados Unidos surgirem como os mais sólidos "protectores" de aliados como a Coreia do Sul ou o Japão, os mais ameaçados por qualquer opção militar de Pyongyang. Para os EUA esta ameaça norte-coreana serve para reforçar o seu papel central na região, defendido por políticos como Hillary Clinton (que poderá ser a próxima presidente americana), num contexto de "contenção" da China. A Coreia do Sul, que tem conseguido gerir com cautela as suas relações com os EUA e a China, deverá seguir a sua política: se os EUA são um aliado militar fundamental, a China é uma peça essencial para resolver o xadrez norte-coreano.»

Fernando Sobral