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4.10.16

04.10.2015 - Interessante efeméride: uma reunião PS / BE no dia das eleições


«Vendo-a» como o Expresso a relata:

«As conversações entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda, um início de diálogo entre os dois partidos que permitiria um dos entendimentos à esquerda, começaram logo no dia das eleições legislativas de 2015, muito antes de serem contados os votos. Foi em Lisboa, na zona de Picoas, num “encontro informal” até agora mantido em segredo, que estiveram frente a frente emissários de António Costa e de Catarina Martins. O líder do PS foi representado por Fernando Medina, o presidente da Câmara da capital e membro do Secretariado socialista. Já em nome da coordenadora do BE esteve Jorge Costa, da Comissão Política do partido (horas depois seria eleito deputado e é um dos vice-presidentes da bancada).
Um terceiro homem esteve presente: Francisco Louçã, antigo coordenador do BE. Foi ele, aliás, o intermediário entre os líderes, e a quem coube depois fazer as apresentações entre Fernando Medina e Jorge Costa.» 
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27.12.15

O ano em que tudo mudou



Vale muito a pena ler o texto de São José Almeida no Público de hoje. Uma espécie de resumo da matéria, não dada mas vivida.

Excertos:

«Se há um ano lhe dissessem que Pedro Passos Coelho ganhava as eleições legislativas de 2015 e que António Costa as perderia, acreditava? E se lhe acrescentassem que Passos tomaria posse como primeiro-ministro para, passados 12 dias, cair no Parlamento perante uma moção de rejeição do programa de Governo apresentada pelo PS e aprovada com o voto favorável do BE, do PCP e do PEV, daria uma gargalhada de incredulidade? E se lhe assegurassem que horas antes da votação o PS assinou com o BE, o PCP e o PEV, acordos bilaterais, abriria a boca de espanto? E se lhe avançassem em seguida que, apesar de o PS ser o segundo partido no ranking eleitoral, Costa seria empossado primeiro-ministro e o seu programa de Governo salvo no hemiciclo pelo BE, pelo PCP e pelo PEV, da moção de rejeição apresentada pelo PSD e pelo CDS, escangalhava-se a rir?

Pois é. Sem que ninguém sequer imaginasse possível, 2015 foi um ano cheio no domínio da política e nem as mais ousadas previsões conseguiram antecipar a reviravolta que o país viveu. Uma reviravolta que não é apenas formal e reduzível a jogos partidários e parlamentares, representa um corte real com uma maneira de fazer política e uma alteração estrutural no modelo de funcionamento do sistema político português.

De um momento para outro, a forma de funcionar da política institucional mudou. Há quem atribua a viragem a uma necessidade de sobrevivência política e à fome de poder do líder do PS. Mas a facilidade com que Costa o fez indicia que houve uma ruptura mais profunda e que o secretário-geral dos socialistas apenas surfou a onda que já estava em formação. Isto é, que a radicalização à direita que representou a governação do Governo conjunto do PSD e CDS, provocou a resposta à esquerda e abriu espaço a uma mudança no PS que possibilitou o entendimento deste partido com as formações da extrema-esquerda parlamentar. (…)

Quando se viu perder eleições e apenas com 86 deputados (em 2001 tinha tido 74), Costa olhou em volta e avançou para abrir um caminho até então nunca realmente tentado, um acordo à esquerda. Mas ao nível do que é a mudança de regime não basta a disponibilidade de António Costa para fazer história, ou segundo outras análises, a sua vontade de ser poder a todo o custo. Há um factor decisivo: a disponibilidade do PCP para permitir que o PS seja Governo. (…)

Depois de ter sido ultrapassado pelo BE e pelo CDS em número de deputados, ainda que a CDU tenha ganho mais um mandato parlamentar, num total de 17, para obter os seus objectivos estratégicos, o PCP alterou a sua posição táctica e estendeu a passadeira vermelha a Costa. E até o PEV, que ocupa dois dos mandatos conquistados pela CDU ganhou o protagonismo de assinar um acordo com o PS.

Determinante para a solução de Governo do PS com apoio à esquerda no Parlamento foi a anuência do BE. Aliás, a forma como o Bloco de Esquerda deu a volta por cima é um dos acontecimentos políticos do ano. Depois de em Novembro de 2014 ter saído dividido do Congresso e com uma solução de liderança fragilizada que apostava numa direcção colegial e em manter Catarina Martins como porta-voz, o Bloco recuperou eleitoralmente, transformando-se no terceiro partido e mais que duplicando o número de deputados passando de 8 para 19. (…)

Um dos momentos em que Catarina Martins marcou pontos na campanha foi precisamente quando, no final do debate televisivo com Costa atirou para cima da mesa a garantia de que o BE apoiaria um Governo do PS mediante três condições: os socialistas deixarem cair a baixa da TSU, o congelamento e novos cortes nas pensões e prestações sociais e o regime conciliatório de cessação de contractos laborais.» 
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23.12.15

Esta não é a minha praia


O Orçamento Rectificativo do governo do PS acaba de passar na Assembleia da República com abstenção do PSD e votos contra de BE, PCP, PEV, CDS e PAN. Continuamos no mundo de TINA (There Is No Alternative)? Talvez, mas esta não é a minha praia. 
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20.12.15

Sinceridade à esquerda



Excertos de um texto de Manuel Loff no Público de 19.12.2015:

«Debate sobre o Estado da Nação na Assembleia da República. Paulo Portas, depois de anos nas vestes de ministro (mais ou menos irrevogável), decidiu voltar a vestir-se de director do Independente – perdão, de deputado da oposição – e quis dar conselhos a António Costa a propósito das greves marcadas pelos estivadores do Porto de Lisboa: “Não pode pedir ali aos camaradas da Intersindical para acabarem com o sindicalismo superagressivo?” Nem vale a pena discutir se Portas sabe que o sindicato que a convocou não é da CGTP porque o seu objectivo é sempre o de culpabilizar quem, no mundo do trabalho, se levanta para defender direitos. A novidade reside, sim, no facto de um Primeiro-Ministro socialista ter entendido a pergunta, não simplesmente como uma provocação, mas como “um insulto à Intersindical, ao PCP e ao Governo”. Mais: que tenha estendido ao universo sindical a tese de que não deve haver excluídos entre aqueles que configuram a representação da vontade democrática: “não aceito que a Concertação Social se faça com as confederações patronais e com uma [só] confederação sindical”, isto é, com a UGT e não com a CGTP (PÚBLICO, 17.12.2015). (...)

Quebrada a regra que impunha que o PS prolongasse indefinidamente a lógica de 1975, há quem se pergunte até que ponto esta viragem seja sincera, quer da parte do PS, quer da parte dos seus parceiros à esquerda. Ora a (in)sinceridade dos atores políticos é uma daquelas discussões que, colocada num campo estritamente moral/filosófico, foge ao essencial: importante é avaliar na prática o que fazem aqueles que participam nos processos de decisão. Não sei se os comunistas e os bloquistas acham sincera a mudança de atitude dos socialistas relativamente a eles, e vice-versa. Sei que a mudança só será real enquanto o cumprimento daqueles acordos se verificar e contribuir para reverter efectivamente o empobrecimento, a depressão social, o desrespeito pelos direitos. (...)

Neste novo quadro, como pode assegurar a sua própria viabilidade um governo que depende de apoios políticos exteriores à sua área política? Garantindo uma relação de confiança entre aqueles cujo apoio é necessário assegurar. Basta que seja verificável a afirmação “nós sabemos que podemos confiar naqueles com quem criámos esta solução de Governo” (Costa, PÚBLICO, 3.12.2015).

Mas não é esta a essência do Estado de Direito? Ou da própria democracia? Não depende a sua qualidade do grau de confiança nas relações jurídicas e sociais? Todos estes anos, desde 2010, de revogação unilateral, por parte do poder político e dos poderes económicos, de contratos, pensões, salários, prestações, direitos, não produziram uma perda de confiança na norma escrita, na palavra do poder? Esta nova experiência política, que não resolverá, seguramente, todos ou sequer a maioria dos problemas económicos e sociais, pode ao menos contribuir para fazer recuar este presidencialismo do Primeiro-Ministro que Cavaco inaugurou em 1985 e que todos os seus sucessores (Guterres menos que os demais) quiseram imitar. Esta arrogância de quem acusa sempre o mexilhão de resistir à onda sem se deixar esmagar. É essencial forçar quem governa a submeter-se à negociação com aqueles que representam interesses diferentes dos seus; com quem representa aqueles que, antes de se verem obrigados a cumprir, têm o direito de serem ouvidos. E de resistir.» 
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6.12.15

Tempos interessantes



«O que hoje se passa em Portugal mostra como a história é sempre surpresa e é por isso que é inovadora, para o bem ou para o mal. A maioria dessas surpresas é má, algumas muito más. Existe uma maldição, que passa por ser chinesa, embora tenha sido escrita por um inglês, e que diz: “Que vivas em tempos interessantes.” Vivemos hoje em Portugal esses ”tempos interessantes”, com todos os riscos inerentes. A quantidade de coisas que mudou nas últimas semanas criou esse carácter poético da história, criador e carismático, o que também significa que a sua novidade traz ao mesmo tempo esperança e insegurança. Insisto: nada garante que o que se está a passar é, como dizem as pessoas, “para melhor”, mas apenas que é diferente. E essa diferença exactamente por ser genuína não pode ser prevista, e as suas consequências e “normalização” também não. Mas uma coisa é certa: exactamente porque é uma genuína alteração, uma mudança, as pontes com o passado foram cortadas e o caminho para trás é impossível. Isso não significa que as forças do passado não estejam cá connosco, ainda assarapantadas com o que aconteceu, mas não menos vivas e perigosas. “Que vivas tempos interessantes.”»  

José Pacheco Pereira

3.12.15

O terramoto



«Cecil B. DeMille deu uma vez um conselho aos aspirantes a realizadores: "Comecem com um terramoto e depois construam um clímax."

DeMille realizou, por exemplo, "Sansão e Dalila", o épico religioso sobre o lutador cujo segredo da força estava em não cortar o cabelo, e a mulher que o seduz descobre o que o faz forte e o trai. António Costa, com um gesto mágico, provocou um terramoto na vida política nacional: Passos Coelho desmoronou-se, Cavaco Silva refugiou-se num abrigo e ele foi nomeado primeiro-ministro. (...)

Há, neste novo ciclo político, quem ainda viva a pensar que uma catástrofe se pode viver em câmara lenta e que, em dado momento, se pode carregar num botão que diz "pausa". No meio de tudo isto o PSD e o CDS acenam com o apocalipse em versão de moção de censura. Nada que espante: os próximos meses serão de regresso à Idade da Pedrada: o Governo será o alvo de todas as pedras.

Mas, depois do OE aprovado, e de se saber se Bruxelas flexibiliza a sua ração de austeridade para que Paris (e eventualmente Roma e Madrid) não quebre todos os compromissos orçamentais, se verá qual o território que António Costa pisará. Este é um Governo do PS. Mas que terá de negociar permanentemente à esquerda. E com Bruxelas. Perante a guerra de guerrilha da direita. Costa não tem perfil para ser o Sansão traído do filme de Cecil B. DeMille. Mas há muitas Dalilas por aí.»

Fernando Sobral

2.12.15

Uma estreia



José Manuel Pureza presidiu hoje, durante algum tempo, a sessão da Assembleia da República – desengravatado. Julgo que foi uma estreia, não me lembro de algo de semelhante ter alguma vez acontecido. Nem durante o PREC.

O hábito não faz o monge, mas o monge faz o hábito.
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30.11.15

O duelo



«Na política não há nada de mais estimulante do que ter um adversário que nos tenta destruir. Isso obriga-nos a valorizar a nossa existência. Cavaco Silva e António Costa pareceram, na tomada de posse, dois homens à beira de um duelo.

Mas se Cavaco foi excessivamente agressivo, Costa fez do apelo à conciliação a sua bandeira. São duas estratégias claras: Cavaco, aliado ao sector mais militante do PSD e do CDS, pensa que é pela guerrilha que se destruirá Costa. Este, sensatamente, percebeu que é pela diplomacia que se esvaziará o ruído da direita e se ocupará o deserto que é o centro político de hoje. Portugal não vai aguentar um duelo permanente. Mas também não haverá condições objectivas para isso. Num dos contos de Joseph Conrad, dois oficiais do exército de Napoleão vão-se batendo em duelo durante 15 anos enquanto a Europa continua numa guerra sangrenta. Como se estivessem acima disso. Portugal não aguentará isso, mesmo que haja desprezo e vingança pelo meio.

Neste duelo entre Cavaco e Costa não tem de haver um vencedor, porque há um vencido claro: o actual Presidente da República, porque esta Assembleia da República sobreviverá à sua partida. O poder de Cavaco é efémero: está de saída e a sua voz política vai eclipsar-se a partir daí. Vamos entrar num outro tempo político que termina com a era do cavaquismo e que poderá fazer implodir a hegemonia ideológica de um PSD rendido às teses do CDS e dos gurus que manobram os cordelinhos por trás. Marcelo Rebelo de Sousa já percebeu isso. Este Governo não será frágil, como julgam PSD e CDS. E Cavaco. Ninguém assaltou o Palácio de Inverno com tropas bolcheviques. Mas a política (até económica) será diferente a partir de agora.»

Fernando Sobral

Que tal uma consultazita ao Google


... antes de ir para uma cimeira sobre uma tema específico?

A gafe de António Costa na cimeira europeia.

29.11.15

Óleo de fígado de bacalhau?


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António Costa e os dilemas do PSD



«O filósofo escocês Thomas Carlyle escreveu em 1843 que: "A democracia é o desespero de não encontrar heróis que nos dirijam." As suas palavras tornaram-se hoje uma profecia a ter em conta.

Basta olharmos para a Europa para percebermos a inexistência da liderança política, especialmente numa sociedade cada vez mais técnica e globalizada. (...) A História do século XX foi marcada por personalidades fortes que tiveram acção determinante para alterar o rumo dos acontecimentos. Mas hoje encontramos cada vez mais exemplos de nulidade andante. .

Esta ideia de sociedade, onde os valores económicos espezinham todos os outros, não é boa nem para a economia de mercado. Mas foi ela que motivou a radicalização da sociedade portuguesa onde se destruiu, nestes últimos quatro anos, o fiel da balança: a classe média. Quando olhamos para este país radicalizado, entendemos melhor o que sucedeu. O PSD esqueceu-se da sua matriz social-democrata e encostou-se a um discurso à direita, que teve o condão de abrir uma caixa de Pandora que muitos acreditavam que nunca poderia acontecer: o desvio à esquerda do PS e a criação de condições para uma aliança com o PCP e o BE de apoio a um Governo de António Costa. Enxotado pela coligação durante quatro anos, o PS não quis mais ser a muleta de uma política de hegemonia cultural seguida com rigor ideológico extremo. A direita continua a alimentar esta bipolarização mas, claramente, se o novo Governo conseguir aprovar o OE de 2016 e sustentar a sua acção nos próximos seis meses, as vozes que agora se vão ouvir numa guerrilha extrema tenderão a ficar cansadas. O ambiente político e económico europeu também terá uma palavra a dizer sobre o assunto. António Costa, mestre do jogo político, sabe que esta bipolarização extremada será o seu melhor sustentáculo no difícil convívio com as sugestões do PCP e do BE.»

Fernando Sobral
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28.11.15

Acabou!!!! Acabou. Acabou?



Excertos de um texto de José Pacheco Pereira no Público de hoje: 

«Acabou!!!!

Experimentem dizer “acabou” junto de uma das inumeráveis vítimas destes anos de “ajustamento” e vão ver como é a resposta. Eu já experimentei várias formas e têm todas um ponto de exclamação no fim ou outro qualquer expletivo. Ou é um suspiro fundo de quem atravessou um trajecto complicado e, chegado a outro lado, respira longamente de alívio; ou é um alto e sonoro “acabou” como antes do 25 de Abril se chegava ao “às armas” da Portuguesa e de repente toda a gente gritava a plenos pulmões; ou é uma espécie de vingança saborosa em ver na mó de baixo aqueles que sempre entenderam que têm o direito natural de estar na mó de cima. (...)

Acabou.

Acabou. Percebe-se no ar que chegou ao fim uma época, um momento da nossa vida colectiva e que existe um desejado ponto sem retorno. E, na verdade, para “aquilo” já não é possível voltar, pode ser para outra coisa pior ou para outra coisa diferente, mas para o mesmo já não há caminho.

O modo como “acabou” conta muito, porque é diferente dos modos tradicionais da vida política portuguesa. Se o governo PSD-PP tivesse acabado nas urnas por uma vitória do PS mesmo tangencial, o efeito de ruptura estaria muito longe de existir, mesmo que o governo PS não fizesse muito de diferente do que o actual governo minoritário vai fazer. Foi a ecologia da vida política portuguesa que mudou, com o fim da tese do “arco de governação” e, mais do que qualquer solução, que pode ser precária, não durar ou acabar mal, acabou a hegemonia de uma das várias construções que suportavam a ideologia autoritária que minava a democracia nestes dias, a do “não há alternativa”. (...)

Não é por amor ao governo de Costa, nem ao PS, é outra coisa, é porque não queriam os “mesmos” e foi essa força que os fez acabar. Vem aí o PREC? Se a asneira pagasse multa podíamos enviar os asneirentos num pacote para pagar a dívida e ainda ficávamos com um superavit.

Pode até não mudar muito, porque já mudou muito.

Acabou?

Não. Há muita coisa que não acabou. Há um rastro de estragos, uns materiais e outros espirituais, que não vão ser fáceis ou sequer possíveis de superar numa geração. Sempre que um jornalista fizer a pergunta pavloviana de “quem paga?” ou “quanto custa?” só sobre salários, pensões e reformas, ou seja aquilo que interessa aos que tem menos e nunca faça a mesma pergunta em primeiro lugar, e muitas vezes único lugar, para tudo o resto, benefícios fiscais, impostos sobre os lucros, “resolução” de bancos, PPPs, swaps, etc. ainda não acabou. (...) Sempre que se despreza os que vivem com dificuldades do seu trabalho e se valorize a esperteza e o subir na vida, ainda não acabou. Sempre que se violam direitos sociais, protecções aos que menos força têm, reivindicações de gerações inteiras, ainda não acabou.

Sempre que se acha que isto é radicalismo e não decência, ainda não acabou.» 
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27.11.15

Juntos, na esquerda plural



Associei-me à promoção desta iniciativa e congratulo-me por ter contribuído, com o meu «voto útil» no Bloco de Esquerda, para um virar de página na vida deste país.

«Os acordos políticos subscritos pelo PS, BE, PCP e PEV para a constituição de um governo apoiado por estas forças políticas e que tem como principal propósito fazer reverter a situação social para que os portugueses foram lançados pela coligação de direita, devem merecer todo o apoio e serem condignamente assinalados.

Estes acordos, além de terem um elevado simbolismo democrático, representam uma aspiração partilhada pela maioria dos portugueses, que ao longo de muitos anos têm vindo a demonstrar as suas preferências políticas, dando maiorias parlamentares aos partidos políticos da esquerda numa maioria de legislaturas (1975, 1976, 1983, 1995, 1999, 2005, 2009, 2015).

As condições criadas pela derrota da coligação de direita e o clima de extrema austeridade em que o país viveu nos últimos quatro anos constituíram argumentos particularmente poderosos para que a solução agora encontrada por aqueles partidos tenha toda a legitimidade democrática para se afirmar, respondendo aos anseios que as lutas sociais mostraram ao longo desse tempo.

Saudarmos e celebrarmos, juntos, este acontecimento inédito na política nacional portuguesa é um dever de todos quantos, no passado e até hoje, se bateram para que esta convergência de vontades tivesse uma tradução política. Saudarmos e celebrarmos, juntos, este acontecimento é também uma manifestação de firmeza dos que estão prontos a defender os valores democráticos, a Constituição da República e os direitos de uma vida digna para todos os portugueses e, até, uma visão europeísta mas simultaneamente crítica desta "Europa realmente existente".

Vamos, por tudo isto, estar juntos num jantar, no próximo dia 12 de Dezembro, a partir das 20H00, na Casa do Alentejo.»

A comissão promotora – Adelino Granja (advogado), Almerindo Rego (dirigente sindical), Ana Carita (professora universitária), Ana Matos Pires (médica), Ana Nave (actriz, encenadora), André Barata (filósofo, dirigente político), André Freire (politólogo), António Borges Coelho (historiador), António Diogo (médico), António Faria-Vaz (médico), António-Pedro Vasconcelos (cineasta), Bernardino Aranda (livreiro), Carlos Brito (escritor), Carlos Fragateiro (encenador, professor universitário), Carlos Luís Figueira (gestor), Carlos Matos Gomes (militar de Abril, escritor), Cipriano Justo (médico), Daniel Adrião (dirigente empresarial), Daniel Sampaio (médico), Eduardo Milheiro (gestor aposentado), Eduardo Pitta (escritor, ensaísta), Elísio Estanque (sociólogo), Fernando Nunes da Silva (engenheiro), Guadalupe Simões (enfermeira, dirigente sindical), Hélder Costa (encenador), Helena Roseta (arquitecta), Henrique Melo (editor), Jaime Mendes (médico), J.-M. Nobre Correia (mediólogo), Joana Lopes (gestora, aposentada), João Cunha Serra (engenheiro), João Gama Proença (médico), Jorge Espírito Santo (médico), Jorge Silva Melo (actor, encenador), José Aranda da Silva (farmacêutico), José Manuel Boavida (médico), José Manuel Mendes (escritor, presidente da APE) José Manuel Tengarrinha (historiador), José Vítor Malheiros (jornalista), Manuel Alegre (poeta, político), Maria Santos (gestora do ambiente, dirigente política), Maria Augusta Sousa (enfermeira), Maria Tengarrinha (actriz), Mário Jorge Neves (médico, dirigente sindical), Mário Vieira de Carvalho (musicólogo), Martins Guerreiro (militar de Abril), Miguel Vale de Almeida (antropólogo), Paula Cristina Marques (actriz, especialista em assuntos de habitação), Paulo Fidalgo (médico, dirigente político), Paulo Sucena (professor, ex-dirigente sindical), Ricardo Sá Fernandes (advogado), Rosário Gama (professora aposentada), São José Lapa (actriz, encenadora), Teresa Dias Coelho (pintora), Ulisses Garrido (sociólogo, dirigente sindical), Vasco Lourenço (militar de Abril, dirigente da A25A) 


[Divulgado no jornal Público de 27.11.2015.]
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A pinhata da nação



«Finalmente, temos Governo. Mais de meia centena de dias depois das eleições, Aníbal lá se convenceu a deixar de fazer birras.

Finalmente, temos Governo. Mais de meia centena de dias depois das eleições, Aníbal lá se convenceu a deixar de fazer birras. Foram necessárias mais de 12.000 horas e 31 audiências com pessoas que, suponho, valem um voto, para o quase ex-PR "indicar" Costa para PM. (...)

Acho que isto de indicar, em vez de indigitar, ficou-lhe dos tempos dos pedidos à PIDE. Depois de tantas audiências, a minha primeira conclusão foi a de que Aníbal não conseguia estar sozinho com a Maria e inventava estas reuniões para estar acompanhado. A outra hipótese era estar a ver se se livra das bolachas e compotas que tem lá em Belém e que lhe convém despachar porque já está de saída. A terceira hipótese mais plausível é a de que Aníbal só quer enxovalhar e mostrar quem manda. É o maluco/chato das reuniões de condóminos. (...)

Vamos lá recordar, que dizem que é viver. Primeiro, Aníbal indigita o Governo que sabe que vai ser chumbado no primeiro dia. Depois exige garantias a um Governo com o apoio parlamentar da maioria, e recordemos, se ainda formos capazes, que este era o mesmo Aníbal que não mandava orçamentos anticonstitucionais para fiscalização preventiva para não atrasar os orçamentos. A verdade é que o dia mais bem conseguido de Cavaco, desde as eleições, foi o 5 de Outubro. Resumindo, Cavaco é o novo Júlio Isidro. Costa vai ter de ir buscar um presunto no cimo de um poste ensebado se quiser ser PM. Cavaco age como se fosse o sultão da nação. Só dá a filha em casamento depois de o noivo cumprir umas quantas missões. Costa só pode ser PM se for pelo mundo e lhe trouxer um presépio feito por virgens ruivas com as mais raras conchas do universo, se decapar um quiosque só com um garfo e se for capaz de comer dois linces da Malcata com uma palhinha. Cavaco só aceita Governo que lhe satisfaça os desejos de grávido: quer iscas com leite creme. (...)

Depois da longa odisseia para nomear Costa, Aníbal ainda fez mais seis pedidos, entre eles a garantia da estabilidade do sistema financeiro. É como se Costa fosse demasiado grande para cair. A minha questão é: como é que o Cavaco consegue topar se há estabilidade do sistema financeiro se garantiu que o BES estava sólido? Cavaco é parte da instabilidade do sistema financeiro, seja através do BPN, patrocinado por si, ou de análises sobre a solidez do BES. Mas que tipo de garantias quer o PR em relação ao sistema financeiro? Essa função não é do governador do Banco de Portugal? Será que o PR retirou a idoneidade a Carlos Costa? No fundo, isto é apenas Cavaco a confessar que, se calhar, o sistema financeiro está por um fio. Bem sei que Costa é um homem de diálogos, seja cara a cara, por carta ou até por SMS, mas eu nunca teria respondido às exigências de Aníbal. Da ideia que tenho de Cavaco, eu enviava o envelope mas, em vez da carta, metia uma nota de cem euros lá dentro. Acho que ao meio-dia, do dia seguinte, já estava a coisa resolvida.

Moral da história: Aníbal termina a sua carreira política atacado por tudo e todos. Até Marcelo já perdeu a paciência para o PR e disse que, quanto à estabilidade do sistema financeiro, considerava tal exigência "estranha e insólita". Todos lhe batem. Ao longo desta presidência, Cavaco transformou-se na pinhata da nação. Já vai tarde.»

João Quadros

26.11.15

Falou um contabilista



No discurso que fez, na tomada de posse do governo, Cavaco Silva esqueceu-se das mangas de alpaca.
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Entre a guerra e a paz



«António Costa sabe, como Sun Tzu, que: "O verdadeiro objectivo da guerra é a paz." E o da política é a conquista e a manutenção no poder. Por isso o seu Governo é de guerra, tentando que a paz futura seja possível.

Mestre da negociação, Costa criou um Governo ninja. Político, mas também técnico e táctico. Porque tem de tentar conciliar aquilo que pode parecer inconciliável: a dívida, a pressão de Bruxelas (e do PPE, cérebro do PSD e do CDS), a tentação distributiva do BE e do PCP, a defesa da economia de mercado e o reforço do poder do Estado, a relação institucional com Cavaco e com Carlos Costa e a fractura política que estes meses alimentaram.

O excel vai continuar a existir, mas vai ser equilibrado com mais política e sensibilidade. É uma sopa de pedra com ingredientes que parecem não combinar. Só que esta procura da paz faz-se à sombra da guerra. Porque esta vai ser de guerrilha constante. O PS perdeu a hegemonia cultural (e mediática) da sociedade portuguesa, hoje controlada pela teia que os cérebros que estão na sombra por detrás do PSD e do CDS teceram. Será uma batalha desgastante que terá sempre uma guilhotina presente: o controlo orçamental.

Este é um Governo contra a ideologia da austeridade como princípio, meio e fim. Por isso terá de, como dizia Einstein sobre Deus, "jogar aos dados com o Universo". É um jogo que também é de sorte e azar, porque terá de convencer a maioria parlamentar e a outra, os portugueses, que estão a assistir. O novo Governo terá também de dar novas energias ao Estado, alvo de uma implosão estrutural por parte da anterior maioria. António Costa terá de apelar ao realismo e ao bom senso. Para resolver a equação terrível de governar entre as fronteiras do que julga desejável e o que é financeiramente aceitável, entre as tradições sociais do PS e o frio clima que a crise da dívida legou a Portugal. É um caminho estreito. E minado.»

Fernando Sobral

25.11.15

A indigitação



«O duelo entre Cavaco e António Costa terminou sem ninguém cair no chão, sem vida. Porque o próximo primeiro-ministro limitou-se a acenar diante de um PR que já só tinha balas de pólvora seca. Agora António Costa tem um desafio enorme pela frente, contra todos os Adamastores. Mas terá o poder. E isso não é algo desprezável.

Deixa feridos pelo caminho: Cavaco, que com as suas "exigências" se transformou num ex-Presidente; e Passos Coelho e Paulo Portas, que vivem o mesmo destino do ancião que perdeu o relógio na rua mas, às tantas, confusos, já não sabem se perderam alguma coisa. Todos eles querem que o país saia de um beco, mas não reconhecem que são eles próprios que estão num beco. A questão é que o país de carne e osso não está a ser discutido nestes momentos de hiperactividade política.

Cavaco queria um governo "fast-food", encomendado pelo telefone. Mas não o vai ter. Terá um Executivo que, no meio de múltiplos interesses divergentes, assumirá os compromissos europeus e orçamentais. Cavaco perdeu o norte por causa da derrota do PSD/CDS para formar Governo. Costa, curiosamente, oferece-lhe uma bússola para sair de Belém. Agora tudo terá de ser rápido. Mas ficarão outros duelos por cumprir. E, esses sim, iniciarão outro tempo na política portuguesa.»

Fernando Sobral
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24.11.15

Novo governo. Mulheres? Que é delas?



A crer nas listas de ministros, que por aí circulam, o novo governo terá 4 mulheres num total de 18 ministros. Inaceitável. 
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Indigitação no dia de um fóssil



Não deve ser por acaso que o desfecho cavacal se deu no dia em que se festeja o 41º Aniversário da descoberta do fóssil Lucy (com 3,2 milhões de anos) e que até o Google se associa ao evento.  

Está preservado no Museu Nacional da Etiópia e, sim, vi uma réplica que está exposta no dito museu.
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23.11.15

Os Novembros do PS



No dia 23 de Novembro de 1975, num comício de apoio ao VI Governo Provisório, convocado pelo PS para o mesmo local onde quatro meses antes aquele partido organizara uma gigantesca manifestação – a Alameda D. Afonso Henriques em Lisboa –, o que Soares disse nesse dia está registado no site da Presidência da República como «um marco fundamental da mobilização que visa conter os sectores mais radicais do processo revolucionário português».

Houve outros oradores (entre os quais Jorge Campinos, Lopes Cardoso e Salgo Zenha) e  o PCP e a extrema-esquerda foram fortemente atacados. Mas o que ficou para a história foi o encerramento feito por Mário Soares e, em especial, a passagem em que terá dito que o PS estava a procurar evitar uma confrontação com «os partidários da aventura» mas que «se o preço da liberdade for o combate, combateremos de armas na mão!». Não combateu. O PREC terminou daí a dois dias e ele ficou do lado dos vencedores. (*)

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A esta hora, 40 anos depois, um sucessor de Mário Soares na liderança do PS estará a redigir um documento que talvez lhe permita ser indigitado como primeiro-ministro, com apoio do Bloco de Esquerda e do PCP.

A vida não é monótona e a História anda e desanda.

(*) Notícia detalhada aqui, na primeira coluna. 
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