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30.11.14

Tempo para recordar



«A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.»

Eduardo Galeano
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6.8.13

Utopias e irrealismos



Nuno Ramos de Almeida escreve hoje um excelente texto no jornal «i», do qual extraio estes parágrafos: 

«Depois de mais de 30 anos de "realismo", temos Paulo Portas no governo, tivemos Miguel Relvas no executivo e fomos realisticamente comandados pelos políticos do centrão. Podemos dizer que, em resumo, uma quantidade de gente fez excelentes negócios, mas os portugueses só ficaram a perder: temos o país mais desigual e dos mais atrasados da União Europeia, com os gestores das grandes empresas mais bem pagos da dita cuja. (...)

No outro prato da balança temos a utopia e o irrealismo. Foram gerações de pessoas que eram pouco realistas que combateram durante 48 anos pela liberdade em Portugal. Seria para eles muito mais cómodo calar e comer. Mas assumiram decisões perigosas, foram irrealistas e ajudaram a conquistar a liberdade que hoje temos. No meio da noite da ditadura a liberdade não passava de uma utopia.

Dizem-nos os mercadores do templo em geral e os "realistas" portugueses em particular que tudo isso é metade da questão: a história está cheia de utopias sangrentas. Verdade. Mas foi dessa massa que nasceu tudo aquilo que de transcendentemente humano conquistámos. Sem excessos, paixões e entrega seríamos escravos. Foi de uma história generosa e por vezes sangrenta que se fizeram as revoluções, como a Francesa, que nos permitiram sonhar em liberdade, querer mais igualdade e fraternidade.»

O que Nuno Ramos de Almeida não explicita, mas eu acrescento, é que o «irrealismo» e a a «utopia» de que fala, os tais que fazem avançar a História, coexistem, mas resistem, à aparente força das percentagens, quase norte-coreanas, dos que afirmam preferir o statu quo, com ou sem alguma pequena cosmética. Sempre foi assim. Identificar essas maiorias com «a força do povo» não passa de uma mistificação, até porque elas não têm uma identidade própria e são volúveis por natureza: as mesmas pessoas que aplaudiram Marcelo Caetano no estádio do Sporting poucos dias antes do 25 de Abril deram mais do que sinceros vivas à liberdade no Largo do Carmo. Nunca foram as maiorias que tomaram a dianteira das grandes iniciativas, tal como nunca foram consensos nivelados pelo mal menor que venceram as grandes crises. E não será com eles que sairemos desta. 
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22.12.11

Farta


Parecerá lugar-comum mas não é: há muito que um texto não me calava tão fundo como o que Luís Januário publicou ontem no jornal «i». Sobretudo porque estou farta, fartíssima, de ver condenar, banir e ridicularizar tudo o que possa ser, ou parecer, referência a qualquer tipo de «utopias». Quem ouse sequer mencionar a palavra é atirado para o inferno de culpas de todos os males a serem punidos e arrumados para todo o sempre na prateleira dos malefícios da História. Como se o passado paralisasse o futuro neste domínio e esgotasse antecipadamente qualquer hipótese não malévola de acreditar que não estamos condenados a este «tardocapitalismo» que nos desgraça. Como se não fosse obrigatório ir vivendo o dia-a-dia «utopicamente». Tudo em nome do medo do dia de amanhã (como seria bom que fosse igual ao de ontem…), das inevitabilidades, do mal menor, dos consensos e das convergências com as suas indiscutíveis virtudes. Em nome do pavor de males maiores, remenda-se, recua-se, assusta-se e lastima-se. Ou, em alternativa, assobia-se para o lado e fala-se do sexo dos anjos.

Por tudo isso, guardarei como um tesouro este excerto da crónica do Luís:

«Finalmente a solidariedade. Baseada no individualismo e num utopismo pós-histórico. Chamemos-lhe já um paratopismo pós-histórico, porque nos chamarão utópicos os que nos querem conformar com a miserável realidade que preparam e por isso melhor será que nos antecipemos na designação. A nossa paratopia considerará as utopias históricas perigosas e construirá respostas limitadas e de mínima dimensão.

Se as respostas globais falharam, é preciso deixar ao tardocapitalismo a ilusão global. Ocupar-nos-emos dessas infinitas mínimas coisas, sem ambição total, deixando os governos, a sua corte e os seus beneficiários a falarem sozinhos num terreno queimado e cada vez mais rarefeito. Seremos monges e monjas e se for caso disso mendicantes, mas sobreviveremos ou hão-de sobreviver os nossos livros, as nossas cabanas, como a cabana de Walden, onde Thoreau pensou a desobediência civil, a nossa música, as esculturas de madeira talhadas como as figuras de Baselitz, com gorros onde se lê ZERO e relógios nos punhos assinalando a hora quase final em que escrevemos estas crónicas.»
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3.10.11

Utopias

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Cómo voy a creer / dijo el fulano
que el mundo se quedó sin utopías

cómo voy a creer
que la esperanza es un olvido
o que el placer una tristeza

cómo voy a creer / dijo el fulano
que el universo es una ruina
aunque lo sea
o que la muerte es el silencio
aunque lo sea

cómo voy a creer
que el horizonte es la frontera
que el mar es nadie
que la noche es nada

cómo voy a creer / dijo el fulano
que tu cuerpo / mengana
no es algo más de lo que palpo
o que tu amor
ese remoto amor que me destinas
no es el desnudo de tus ojos
la parsimonia de tus manos
cómo voy a creer / mengana austral
que sos tan sólo lo que miro
acaricio o penetro

cómo voy a creer / dijo el fulano
que la útopia ya no existe
si vos / mengana dulce
osada / eterna
si vos / sos mi utopía.

(Via Paula Godinho no Facebook)
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20.8.11

Janela para a utopia

@Paulete Matos

Ela está no horizonte – disse Fernando Birri. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Ando dez passos e o horizonte foge para dez passos mais longe. Por muito que eu caminhe, nunca a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso mesmo: para caminhar.

Eduardo Galeano
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16.8.09

Talvez o impossível
















Que um Domingo de Agosto, certamente muito quente, não deixe na sombra o texto que Rui Bebiano publicou hoje em A Terceira Noite. De rebeldia se fala - em tempos de apelos sistemáticos a «realismo» e tácticas de efeito imediato, de cenários de terror perante catástrofes iminentes se a sensatez não imperar, de ataques caricaturais, mais ou menos mesquinhos, a tudo e todos que não afinem pelo mesmo diapasão.

Quando parece mais do que certo que nem o mundo nem Portugal vão acabar nos próximos dois meses, talvez valha a pena tentar entender os que têm essa evidência sempre presente na linha do horizonte.

«Ou se gere o mundo apenas à vista, mergulhado na banalidade e, mais cedo ou mais tarde, no desespero, ou se projecta o salto em frente, superando, por vezes na dimensão de um pathos incidental, a enganadora sombra. (…)
Sempre a recusa de uma gestão do presente “tal qual ele é” e a defesa da possibilidade do impossível.»

11.6.09

Há mais vida para além das europeias




Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day you'll join us
And the world will live as one

8.8.08

O melhor russo

A Rússia está também a organizar o concurso televisivo sobre os seus Grandes, com as mesmas patetices que todos os outros.

«Os dois candidatos mais bem colocados na "maratona" são duas figuras do passado russo, completamente antagónicas: o líder comunista Joseph Estaline e o último czar, Nicholas II.»

Mas vale a pena recuar trinta anos: seria então possível imaginar os russos a escolherem entre Nicolau II e Estaline?

Sejamos portanto optimistas já que a realidade ultrapassa a ficção. Pode ser que, daqui a umas décadas, outros amanhãs comecem realmente a cantar um pouco por todo o mundo...

17.2.08

Utopias























A propósito do uso do véu na Turquia, da sharia e do arcebispo da Cantuária, das desventuras de Ayaan Hirsi Ali, dos bispos e dos partidos em Espanha, de certas posições do papa e de uns tantos ouros motivos, muito se tem falado, nos últimos dias, de laicidade e laicismo, fanatismo e tolerância, multiculturalismo e integração.

Que o problema religioso, e tudo o que com ele se relaciona, é hoje crucial como poucas vezes o terá sido na história da humanidade, e que é difícil prever o que se segue, parece indiscutível.

Mas, de um modo geral, o que se está a fazer, é defender, alternadamente, determinadas opiniões ou as suas contrárias, por motivos puramente político-tácticos. Posições avulsas que vão mudando conforme os ventos. E, em paralelo, ouvem-se afirmações piedosas quanto às benfeitorias das religiões e das igrejas para a paz no mundo e para o entendimento entre as civilizações, frequentemente proferidas por responsáveis que se dizem ateus empedernidos.

Ora estou convencida de que nada disto resolve o que quer que seja e cada vez se me impõe com maior limpidez a evidência de que o mundo viveria melhor sem religiões, que estas trouxeram – e trarão – à humanidade muito mais guerras e outros danos do que benefícios. O que, aliás, está à vista. Não sei se chego a esperar, mas desejaria certamente, que a humanidade viesse a avançar na História com esta convicção como pano de fundo. Porque acredito que só assim poderia acontecer um verdadeiro progresso na convivência entre os povos a nível global.

Isto está longe de implicar atitudes de guerra aberta, intolerância ou discriminação – muito pelo contrário. Pode-se deixar que uma jovem ande de lenço na cabeça, mas tentar explicar-lhe que, ideologicamente, está errada e que está a alienar-se. A minha empregada é testemunha de Jeová e não me canso de tentar convencê-la de que está a ser enganada. Não se deve impedir que os portugueses rastejem em Fátima, mas deveria ser explicado nas televisões, nos jornais, em toda a parte, a indignidade do que estão a fazer. Uma sociedade civil laica pode/deve fazer isto tudo e a Europa tem particulares responsabilidades neste domínio, tanto para com os que por cá nasceram como para com os imigrantes.

Estou, em pleno, no domínio da utopia? Certamente. Mas é ela que comanda a vida.

10.8.07

Dissidências e Utopias

Para os leitores deste blogue que não são visitantes habituais do Dotecome, aconselho a leitura deste texto do Fernando Redondo (FR).

Uma resumida mas muito útil cronologia de factos e dissidências ajuda a situar, a recordar e, portanto, a compreender muita coisa.

Tenho tido sempre muitos ex-PCP à minha volta – em casa, no emprego, nalguns grupos de amigos e, recentemente, até na blogosfera. Assisti, de fora mas muito atentamente, a dissidências e a saídas mais ou menos discretas. Leio todos os livros de memórias que vão saindo e partilho com o FR a sensação de que, muitas vezes, se ficam por descrições exaustivas de divergências processuais, sem aprofundarem suficientemente clivagens ideológicas. Diz o Fernando:
«Denunciaram os erros e os crimes que, em sua opinião, tinham sido cometidos.
Não quiseram, ou não souberam, no entanto, enunciar alternativas viáveis, anti-capitalistas, às relações de produção e às opções económicas e sociais que caracterizavam a sociedade soviética.»

Eu penso que passou ainda muito pouco tempo desde a implosão da URSS e que não se anunciam para breve amanhãs que cantem em qualquer outra parte do mundo. Haverá hoje outra coisa a propor, praticamente, para além do «capitalismo civilizado» e da «salvação do Estado Social»? Talvez não, mas a História não acaba aqui.

Gorbatchev e a fotografia que roubo ao Dotecome são um símbolo. Já sabia que ele fez ou vai fazer um anúncio para o Louis Vuitton (indo a receita para uma qualquer obra de beneficência). Mas se, há vinte anos (não mais), nos tivessem mostrado esta imagem do responsável máximo da URSS propagandeando malas de topo de gama do mais puro capitalismo, com restos do muro de Berlim grafitados como pano de fundo, qual seria a nossa reacção? It’s a goog joke! Eu pensaria o mesmo se me dessem hoje uma fotografia de Bento XVI a distribuir preservativos nos Jogos Olímpicos de Pequim – A good joke.

Curiosamente, este tipo de acontecimentos anima-me e torna-me optimista. Se acontecem coisas que pareceriam tão impensáveis, não há razão para que a humanidade não tenha imaginação suficiente para ir construindo novas teorias que tragam novas estradas de esperança.

«Utopia hoje, carne e osso amanhã», dizia Victor Hugo.


4.8.07

Em nome da Utopia (4)

Cartaz da OCMLP
«A terra a quem a trabalha» – sem dúvida, uma das maiores utopias do pós 25 de Abril.

O tema veio esta semana a terreiro por estar em exibição um filme que um alemão – Thomas Harlan – realizou em 1975 (*). TORRE BELA é o seu título e retrata o que foi a tentativa de reforma agrária, numa grande herdade do Ribatejo, entre Abril e Dezembro de 1975. Há várias versões deste documentário, eu não vi a que voltou agora às salas de cinema, mas tenho bem presente a que o Público divulgou, em DVD, em 1999.

Trata-se de um testemunho histórico impressionante. Mas é-me difícil imaginar como reagem os espectadores que não viveram aquela época. Muita coisa deve parecer irreal, desde as reuniões e as discussões, por vezes infindáveis, quase sempre caóticas, até à cena da ocupação do palácio da herdade, que Buñuel não desdenharia.

Mas aquelas mulheres e aqueles homens foram bem reais e acreditaram, durante alguns meses, que estavam a mudar o rumo da história. E, de certo modo, fizeram-no. Nunca mais foram os mesmos e nós também não. Moldaram o nosso passado recente e, por isso mesmo, condicionam ainda uma parte do nosso presente. Para o bem e para o mal.

Não será esse, precisamente, o papel de todas as utopias?

Encontrei estes minutos do filme no Youtube.

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(*) O suplemento Ípsilon do jornal Público de 3/8/2007 dedica-lhe um extensa análise assinada por Alexandra Lucas Coelho.

28.7.07

Em nome da Utopia (3)

Assim se viveu o mais mítico dos primeiros Festivais de Verão:
Woodstock 1969




We Shall Overcome
(Joan Baez, 1969 - ao vivo no Festival de Woodstock)


We shall overcome some day
Oh deep in my heart
I know that I do believe
We shall overcome some day

We shall be all right some day

We shall live in peace some day

We are not afraid today

We shall overcome some day





19.7.07

Em nome da Utopia (2)

Thomas More, 1ª edição de «Utopia»
Louvain, 1516

«As utopias não são mais do que verdades prematuras»
Lamartine


Verdades prematuras, precisam-se.



19.5.07

19/5/1974 - 1º comício da «Esquerda Revolucionária»



Pouco mais de três semanas depois do 25 de Abril, realizou-se na Voz do Operário, em Lisboa, o primeiro comício da «Esquerda Revolucionária». Terão estado presentes cerca de 3 000 pessoas.





A «Esquerda Revolucionária» era uma plataforma que incluía:
· CBS (Comissões de Base Socialistas),
· LCI (Liga Comunista Internacionalista),
· PRP/BR (Partido Revolucionário do Proletariado / Brigadas Revolucionárias),
· URML (Unidade Revolucionária Marxista-Leninista).

A LUAR também esteve presente no comício e aderiu então à plataforma.

Usaram da palavra:
· Miguel Oliveira e Silva (CBS),
· Ernesto Mandel (LCI),
· Isabel do Carmo (PRP/BR),
· Joaquim Luciano (URML),
· Luís Guerra (LUAR).

As diferentes intervenções revelaram unanimidade de opiniões em três pontos considerados fundamentais:
· «Independência imediata para as colónias»;
· «Revolução Socialista como única via de libertar o proletariado português»;
· «Repulsa pela política oportunista de traição à classe operária dos representantes do PCP no Governo Provisório».

Fonte: Jornal Revolução, Porta-Voz do PRP/BR, nº 1, 1 de Junho de 1974.