14.3.23

Em busca da utopia perdida

 


«O tempo da solidariedade parece ter sido perdido para sempre. Vivemos tempos de desespero, ignomínia e violência. Vivemos esmagados pela opressão de regimes autoritários, laicos ou religiosos, ou na submissão aos regimes democráticos completamente manietados pela ditadura dos mercados. Os primeiros oprimem sem contemplações os indivíduos, destruindo-lhes as ideias e veleidades de liberdade criativa ou vivencial, os segundos escravizam por meio da pobreza. Os primeiros criam campos de concentração e reeducação, os segundos campos de miséria. Não há dúvida de que a vida nas democracias liberais é preferível, mas que não se corra o risco de confundi-las com a verdadeira liberdade. Não são utopias, são pouco mais que miragens.

Esta configuração geopolítica não é nova, mas as rápidas transformações socioeconómicas têm tornado o equilíbrio entre estas concepções opostas cada vez mais frágil. Ditaduras e regimes opressivos usam os grilhões da economia neoliberal para aperfeiçoar os seus mecanismos de submissão. Democracias neoliberais flirtam despudoradamente com o autoritarismo das ditaduras. Trump, Bolsonaro e Órban, só para citar os mais caricaturais líderes políticos do nosso tempo, sonharam e continuam a sonhar com o poder absoluto de alguns ditadores. Na verdade, tentaram ativamente obter o controle total dos seus países e não atingiram os intentos pela falta de maquiavelismo dos seus planos.

Evitaram-se danos irreversíveis mas a batalha mal começou. As forças motoras deste desequilíbrio estão à espreita em todas as democracias neoliberais, aperfeiçoando a sua metodologia demagógica e sofista, procurando nos manuais do nazi-fascismo e nos escritos de Lenine, Staline e Mao Tsé Tung os instrumentos de hipnose coletiva. O objetivo é sempre confundir e criar um conjunto de simplificações caricaturais que expliquem a generalidade dos problemas das democracias existentes, sem qualquer compromisso com a verdade factual. O que importa é a verosimilhança, a aparência de uma conexão causal entre factos que são arbitrária e convenientemente selecionados.

Nestes tempos, a fórmula de Goebbles é a maxima oracular: repetir a mentira para que as massas pensem que é a verdade. E os motes específicos de venda são bem conhecidos: a austeridade é o único plano credível para a prosperidade económica; as tragédias e/ou pandemias não o são, ou, quando o são, atingem a todos “democraticamente”; as invasões não são guerras; os nazistas e os extremistas são os outros; os agressores são os salvadores e os mísseis que lançam não matam, não ferem e não destroem; os mercados são uma forma superior de racionalidade...

O instrumento intelectual destas fabulações é a racionalidade instrumental e a utilização virtuosa dos meios de comunicação social. É esta a racionalidade instrumental que se materializa no "mal banal" discutido há muito por Hanna Arendt e no Eclipse da Razão de Max Horkheimer.

E há hoje um arsenal infindável de meios para propagar todo o tipo de sofismas e teorias da conspiração, travestindo-as de plausibilidade: uma comunicação social sob a tutela dos estados totalitários ou sob a pressão esmagadora dos interesses económicos; redes sociais desprovidas de filtros de verdade ou equipadas com filtros desavergonhadamente idiossincráticos; exércitos de voluntários para propagar mentiras (as ubíquas “fake news”); programas de inteligência artificial para detetar as tendências políticas em ascensão que são favoráveis aos poderes estabelecidos e reforçá-las por meio da concentração de pseudonotícias e factos corroborativos; uma opinião pública dócil, desinformada e alienada. Ouvir Putin é recuar à Alemanha de Hitler dos anos 1930, basta substituir ucranianos por judeus ou Donbass por Sudetos.

E a nossa versão local de demagogo não é menos inqualificável. Só podemos esperar que nunca tenha o mesmo poder.

Quanto falta para presenciarmos uma reedição da Noite de Cristal nalgum país que supúnhamos ser uma sólida democracia? O assassinato de cidadãos por agentes da ordem ou por milícias já se banalizou em muitos países ditos democráticos. Mas frequentemente ouve-se que estas realidades não se repetem. De facto, a História só se repete por meio da caricatura grosseira, observou Marx; porém, o tempo presente propicia o grotesco. O mórbido, o violento, o indigno é a ementa dos nossos dias. Os que procuram a lucidez dos valores universais só podem esperar o escárnio, as críticas, as armadilhas que frequentemente conduzem ao linchamento público.

Os mecanismos e instituições internacionais criados depois da Segunda Guerra Mundial estão totalmente desacreditados e incapacitados para resolver os problemas mais prementes. O sistema de valores que se está a criar só valoriza o egoísmo e a riqueza material. É inevitável que se perca o sentido dos princípios basilares do humanismo. O mal que se materializa é generalizado e irreversível, mas não podemos ficar insensíveis aos escassos gestos de reconciliação e solidariedade. Não podemos permitir que o mundo cristalize uma nova ordem internacional que não contemple a reafirmação dos valores de igualdade e solidariedade. A persistência da memória e da convicção nos valores humanistas deve guiar-nos pelos territórios insalubres do presente. O que aprendemos com o sofrimento do passado, deve fixar o horizonte luminoso que almejamos para o futuro.

Neste sentido, parece urgente criar um consenso internacional para se reformar profundamente as Nações Unidas e terminar com o direito de veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança. E julgo ser absolutamente necessário começarmos a discutir uma nova ordem internacional baseada em valores e não num sistema económico. Abdicando da sua agenda neoliberal, a União Europeia pode ser um ponto de partida desta experiência. Seria verdadeiramente transformador estender a experiência para África, Ásia e Américas.

Mesmo os problemáticos Estados Unidos da América, China e Rússia seriam bem-vindos como membros, não como potências dominantes. A igualdade de direitos de todos os povos assim o exige.»

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