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8.9.24

Além da cor da minha pele

 


«Tive a honra de ser uma das nove celebridades brasileiras escolhidas para participar de um projeto inédito de mapeamento do genoma humano. A pesquisa foi conduzida pela equipe do geneticista Sérgio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, de Belo Horizonte. Eles consideraram 40 trechos do DNA, que têm características diferentes entre as populações que mais contribuíram para a origem do brasileiro: europeus, africanos e ameríndios.

Outra que participou da experiência foi a nossa eterna ginasta Daiane dos Santos. O seu resultado surpreendeu a todos. Ela tem mais herança europeia do que africana em seu material genético. Segundo Pena, o genoma de Daiane, o primeiro a ser divulgado, define o protótipo do brasileiro: 39,7% africano, 40,8% europeu e 19,6% ameríndio.

Antes de ver o resultado do meu exame, eu apostava que ia dar entre 70% e 90% africano e que não teria um só gene europeu. Não tenho olho azul, não tenho cabelo escorrido, não tenho nada de branco aqui. Da Europa, nada, bradei.

Mas qual foi a minha surpresa ao ver o resultado: 67,1% de seu genoma têm origem europeia, e 31,5%, africana. Eu sou mais europeu do que africano. Quando recebi o resultado, disse: “Europeu, eu?! Um negão desse…”. Foi uma gargalhada geral.

Outro exame, o de saliva, mostrou que, na análise da linhagem materna, sequências genéticas idênticas às minhas foram também encontradas em povos mancanha (Guiné Bissau), limba (Serra Leoa) e iorubás (distribuídos por uma região que engloba hoje países como Nigéria, Benin, Gana e Togo).

Já do lado paterno, foi mais difícil precisar as minhas origens, porque o material genético analisado mostrou ampla distribuição geográfica entre as três regiões da África que enviaram escravos ao Brasil (África Ocidental, África Central e Sudeste da África).

Os resultados do meu DNA e do de Daiane mostram que os que ainda acreditam que a ascendência genética se refletem na cor da pele não entenderam nada. O projeto do doutor Pena mostra que os que julgam que os negros são apenas fruto da África ignoram a formação do nosso povo.

O Brasil é resultado da junção de índios, europeus e africanos. Não foi um processo fácil, nem justo. Mas negar isso, é negar que o sol vai nascer amanhã.

Posso dizer que esse negrão aqui é o típico exemplar do povo brasileiro. Carrego a ancestralidade dos meus, com a missão de criar pontes entre Brasil, Portugal e África. E minha armadura é a nossa música, a mais pura tradução dessa mistura. Com cadências africanas, lusitanas e indígenas, criamos aquele que pode ser o mais universal dos sons: o samba brasileiro.»


8.6.24

Sónia Braga

 


Não consigo deixar de estranhar, nem entranhar, que a eterna Gabriela chegue hoje aos 74.


26.4.23

Que papelinho!

 


«Parte da comunicação social brasileira dedicou bastante atenção ao facto de a mulher de Lula da Silva ter ido comprar uma gravata ao seu marido numa loja cara da Avenida da Liberdade. Não é só em Portugal que o jornalismo abandonou a função de hierarquizar informação e se dedicou ao entretenimento.

Como país, devíamos, no entanto, concentrar-nos no que foi relevante na vinda de Lula de Silva: o regresso do Brasil às relações diplomáticas com Portugal e com o mundo. E se nós queremos estar presentes ou nos entretemos com números domésticos. E é por aí que começo.

Sem contar com cimeiras e o funeral da Rainha Isabel II, para fazer um comício de campanha da varanda da embaixada, Jair Bolsonaro veio duas vezes à Europa, em deslocações oficiais: para visitar Vladimir Putin e Viktor Orban. As suas visitas foram ideológicas, à procura de aliados para a sua fação política. Lula da Silva faz visitas de Estado, procurando devolver ao Brasil, uma potência regional, o poder que naturalmente lhe é devido. Tem, como se percebeu em tudo o que foi dizendo sobre a guerra na Ucrânia, uma política externa autónoma.

Esclareceu a sua posição fora e dentro do parlamento. Não é, como alguns tentaram dizer, aliado da Rússia. A canhestra comparação de Lula com Salvini, feita pelo deputado Rui Rocha, é desonesta. É verdade que não tem a mesma posição de Portugal. Não é a primeira vez. Poucos meses depois de tomar posse, realizava-se a Cimeira das Lajes. As posições dos dois países foram opostas. Na altura, era o Brasil que tinha razão. Hoje, é Portugal. Em nenhum dos casos isso perturbou as relações dos dois países.

Augusto Santos Silva fez bem em mostrar que, no que toca aos valores democráticos em cada um dos nossos países, os dois governos estão do mesmo lado. São esses os valores que ontem celebrámos. E que alegria foi ver Chico Buarque a receber o prémio Camões, que Bolsonaro se recusara a entregar, porque os seus inimigos eram inimigos do Brasil, o que fazia de quase todas as grandes figuras da cultura brasileira personae non gratae no seu próprio país. Um momento que torna tão evidente o absurdo dos paralelos entre um Presidente obscurantista e autoritário e outro, que se move segundo códigos em que os democratas se entendem.

Santos Silva também fez bem em não fugir da questão ucraniana, sendo exato na definição da posição brasileira (de condenação da ocupação russa), suficientemente claro naquilo em que há divergência e sublinhando a posição portuguesa. Sem os silêncios em que a nossa política externa é tão pródiga (mas que gostamos de criticar nos outros), manteve intactas as pontes com um país amigo que está tão distante desta guerra como nós estamos da do Sudão. Quem queira acelerar a criação de novos blocos incomunicáveis defenderá outro caminho. Pelo contrário, nunca foi tão necessário ter com quem falar nos BRICs.

Lula visitou os países com quem tem relações económicas mais intensas, como a China. E, nesta matéria, quem entregou todo o seu sistema elétrico ao regime de Pequim ou manteve um silêncio cúmplice em relação á ditadura angolana, por dependência económica, dificilmente pode dar lições a alguém. E visitou os dois países que são a porta de entrada na relação da América Latina com a Europa: Portugal e Espanha. Especialmente relevantes para tentar reanimar a negociação do acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Portugal pode decidir ter um papel importante ou deixá-lo para Espanha, com mais poder do que nós na relação com os restantes países do continente.

Tentando aproveitar a existência de uma comunidade de cerca de 400 mil brasileiros em Portugal, André Ventura apelou a que a minoria bolsonarista aqui residente (assim indicam as últimas eleições) engrossasse o que anunciou como “a maior manifestação de sempre contra um dirigente estrangeiro”. Apesar de presenças notáveis, como a de Mário Machado, esteve bem longe dos “milhares” prometidos. Foi um flop.

Falhando fora do Parlamento, tentou lá dentro. Não teve a companhia da IL, que fez de PCP com Zelensky, mostrando que não tem maturidade para estar num governo quando recusa estar presente na receção ao líder de um dos países mais relevantes para Portugal. Mas longe vão os tempos em que não aplaudir um chefe de Estado, como infantilmente fez o Bloco de Esquerda com o rei de Espanha, dava polémica. Desta vez é Luís Montenegro, que quer ser primeiro-ministro, que, sozinho entre os convidados, se manteve sentado e não aplaudiu o fim da intervenção do Presidente do Brasil. No passado, estas posturas, legitimas e educadas, foram polémicas. Hoje não. Nem tema foi. Sinal dos tempos em que o Chega vai puxando as fronteiras para muito mais longe...

Quanto ao Chega, todos viram o espetáculo. Nem sequer foram os cartazes com insultos a um convidado. Foram as pateadas e os bater na bancada, coisa que duvido que alguma vez tenha sido vista num parlamento perante um chefe de Estado, ainda mais de uma democracia, ainda mais de um país com quem temos relações tão próximas. Tenho sido crítico de Augusto Santos Silva (que fez, com Rui Tavares e Marcelo Rebelo de Sousa, a melhor intervenção da sessão do 25 de abril) por alimentar as polémicas com o Chega, numa tática de “macronização” da política nacional. Mas a sua admoestação era o mínimo dos mínimos perante a selvajaria a que assistimos.

Os deputados do Chega não envergonham o País porque não têm estatuto para isso. Naquele dia de festa não envergonha Portugal quem quer. São a versão circense dos que, com mais de aprumo, foram derrotados há 49 anos. Estes reiterados gestos, que num tempo com mínimos de exigência chegariam para levar um partido à insignificância, pretendem degradar a democracia de que são inimigos e que adorariam derrubar como tentaram no Brasil e nos Estados Unidos. Foram a notícia do dia. Nada mais do que isso.

Marcelo tentou explicar a pertinência do convite a Lula da Silva, tendo em conta o bicentenário e a importância da descolonização. Uma boa oportunidade para retirar as celebrações oficiais do sarcófago entediante em que têm estado encerradas. Independentemente do debate sobre o acerto desta sessão, que poderia ter nascido de forma menos atabalhoada, não é a alarvidade de alguns deputados que prova o desacerto. Se o provasse, estaríamos a dar ao Chega o poder de veto a qualquer convidado, cedendo à chantagem da sua falta de urbanidade.

O Chega fez o seu pequeno número e a sua pequena concentração, minúscula ao pé do mar de gente que encheu a Avenida da Liberdade. Não foi, como disse Lula, um papelão. Foi um papelinho tão pequeno e oportunista como as folhas A4 com a bandeira da Ucrânia que exibiram e que, imagino, não levarão para o comício que farão com Matteo Salvini, um putinista de todos os costados. Só a nossa excitação fará dele mais do que isso.» 

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21.4.23

A China como tema central? E o resto?

 


É sempre útil ler os textos de Victor Ângelo, concorde-se ou não com todas as suas posições. Como, por exemplo, NESTE caso.
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18.4.23

Lula da Silva e a democracia

 


«Se o necessário respeito institucional pela figura do chefe de Estado de um país com o qual Portugal tem relações tão próximas como o Brasil ficou garantido pelo acordo obtido no Parlamento para uma sessão solene paralela a decorrer antes das comemorações do 25 de Abril, a associação da vinda de Lula da Silva a uma data tão simbólica está longe de ter terminado o seu desfiar de polémicas e desencontros.

Para os muitos que acham que a vitória de Lula da Silva sobre Jair Bolsonaro é o epítome da vitória da democracia sobre as tentações autoritárias, a associação era natural, mesmo que o rasto de corrupção dos seus mandatos anteriores aconselhe algum cuidado. Esses mesmos, no Brasil e em Portugal, só podem estar agora profundamente desiludidos com as declarações do Presidente brasileiro sobre a invasão da Ucrânia, equiparando agredido a agressor, culpando a União Europeia, a NATO e os EUA por estimularem o conflito, e desenrolando o mantra infantil de que a paz é possível se evocarmos muitas vezes a palavra.

Olhando para a história do Brasil e da América Latina, até há boas justificações para que Lula defenda uma “governança global” que diminua a hegemonia dos EUA e inclua a voz de muitos outros países. Mas não haja muitas ilusões de que, ao sublinhar que Brasil e China partilham interesses comuns na construção de uma “nova geopolítica”, o Presidente brasileiro opta por tentar substituir um sistema com defeitos por outro muito pior.

As declarações e a visita de Lula da Silva à China inscrevem-se na sua vontade de reconquistar um papel para o Brasil na cena internacional de que se retirou durante o mandato de Bolsonaro. Fá-lo retomando o sonho de crescimento dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) sem tirar qualquer ilação do facto de ter como companhia dois países onde o carácter ditatorial dos seus regimes se tem consolidado e uma democracia que dá perturbantes sinais de caminhar para lá. E fá-lo apesar de poder entender que, com o passar dos anos, o crescente poder da China tenderá a transformar organizações como estas em organismos que mais não serão do que a corrente de transmissão do mais forte. A China ser o principal parceiro comercial do Brasil não deve ser grande incentivo para levar para fora de portas o grito de “democracia sempre”, que soltou na sua tomada de posse.

Para quem quer celebrar a mensagem do 25 de Abril, não pode haver dúvidas de que o Brasil é um excelente convidado, mas um confesso aliado de Xi Jinping ou de Vladimir Putin, nem por isso.»

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17.4.23

Lula em Lisboa?

 




Não vai ser fácil. Talvez não fosse mau que alguém lhe explicasse que a Ucrânia não está a atacar a Rússia...
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1.3.23

Lula e drama no 25 de Abril

 



Este tema deixa-me relativamente indiferente, excepto por estes motivos: revela esperteza (não) saloia de um (Marcelo), gafe de outro (Cravinho) e a «moleza» habitual (da AR) no desfecho agora anunciado. Enfim, somos uns tristes.

Lula irá duas vezes à AR, em princípio no mesmo dia, numa delas calado e na outra para falar. Isto não se inventa!
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11.1.23

Bem-vindos à fakedemocracia

 

«Primeiro nos EUA e depois no Brasil, o assalto aos símbolos do poder democrático por quem recusa, em nome do "povo", o resultado de escrutínios eleitorais coloca-nos perante a evidência de que democracia, justiça e bem são noções que variam de acordo com quem ganha ou perde - como no futebol.»

Um artigo de Fernanda Câncio a ser lido AQUI.
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9.1.23

O Janeiro quente de Brasília

 


«Bolsonaro procurou, desde o começo do seu trajeto presidencial, ainda na campanha que o levou à presidência do Brasil em 2018, copiar a metodologia de de Donald Trump, concentrando-se na canalização de preconceitos e no desagrado pela mitigação dos privilégios históricos das classes alta e média brasileiras, que herdaram uma forma de organização social de matriz colonial e tudo fizeram para a preservar, através da ideologia do Estado.

Com Bolsonaro, entrou em definitivo no campo político a “guerra cultural”, perfeitamente demarcada entre as regiões maioritariamente brancas e que odeiam o nordeste negro, o setor evangélico da sociedade, transversal em termos de classe, mas dominado pelas elites, defensor de uma virada conservadora em matéria de costumes para o país e da confluência entre Estado e Igreja, e as classes sociais mais baixas não-evangélicas, a esquerda progressista e os setores militantes e ativistas LGBT+ e antirracistas. Deu-se a batalha pelo coração do Brasil, com a direita radicalizada e arregimentada em torno de Bolsonaro, e que fez uso da corrupção que envolveu os governos do PT para implementar as pautas de costumes e a pauta neoliberal na economia, com uma vocação de privatização e exploração dos recursos naturais, como o desmatamento da Amazónia. O eixo Boi-Bala-Bíblia criou as condições para que o bolsonarismo se tornasse vigorante.

A base desta força reside na classe média, que sempre frequentou as melhores universidades (e que em alguns casos se viu ultrapassada por jovens mais aptos oriundos das classes baixas em razão das políticas sociais dos governos PT), que trabalha nos principais jornais das grandes cidades como São Paulo, que viu a sua capacidade de exploração da mão-de-obra pobre diminuída pela legislação laboral do PT que impôs garantias aos trabalhadores. De forma categórica pergunta Jessé Souza, em A Elite do Atraso, “[c]omo alguém que explora as outras classes abaixo dela sob a forma de um salário vil, de modo a poupar tempo nas tarefas domésticas, e apoia a matança indiscriminada de pobres pela polícia, ou até a chacina de presos indefesos, consegue ter a pachorra de se acreditar moralmente elevado?” O facto é que pode e canalizou esse sentimento de superioridade para o bolsonarismo.

Ora, o cruzamento entre sentimento de injustiça por perda de privilégios de classe, o natural desagrado com a corrupção estrutural (verdadeiramente estrutural, na medida em se encontra na própria formação do Brasil como Estado), a importação das mais alienadas teorias conspiratórias e populistas trumpistas e a profunda crença messiânica num chefe providencial e num povo eleito (eles mesmos), produz uma massa de eleitores com uma missão, que por considerarem providencial não deve qualquer respeito à Constituição e às regras democráticas. Tendo ensaiado uma postura trumpista ambígua de derrota sem derrota, Bolsonaro alimentou as hostes, deixando marinar a crença de fraude eleitoral, a que o seu partido deu continuidade e ampliação.

Podemos afirmar, sem receios, que estamos diante de um movimento de natureza fascista do tipo caudilho, que recusa resultados eleitorais, que não aceita a democracia, que quer uma identidade única para o país (ideologia da nação), centralizada num aparelho de Estado forte, de “lei e ordem”, fortemente classista e racial, e profundamente conservador-religioso (evangélico). A provável repressão militar para repor o normal funcionamento das instituições não é garantia de sobrevivência do regime. Lula é o anti-Cristo e precisa ser derrotado, de qualquer maneira. O avanço das forças de segurança poderá ser lido como um sinal de avanço dos romanos sobre os cristãos, e os bolsonaristas poderão assumir-se como mártires da sua causa patriótica.

O discurso de Lula de reação à invasão do Congresso, do Planalto e do Supremo Tribunal Federal pouco sanará a situação, ao reforçar o combate entre a esquerda e a direita, ao acusar Bolsonaro de ser “genocida”, ao forçar a divisão social e ao colocar um peso negativo sobre os apoiantes bolsonaristas, ao chamá-los de “fascistas fanáticos”. A frieza de Estado que se poderia exigir deu lugar à continuidade da rutura social e da luta ideológica.

A teoria dos “dois Brasis” está agora posta à prova, como nunca. Daqui para a frente a “guerra cultural” terá uma dimensão de confrontação civil. Resta saber em que termos e escala. Das famílias divididas ao país partido a marcha segue. A tese de uma divisão real do país, de uma desagregação da União Federal está em cima da mesa. Num cenário mais mitigado, as forças de segurança serão capazes de evitar a escalada e deixar a democracia segura, todavia num estado de alerta permanente cujos efeitos políticos no Senado são ainda difíceis de prever.

O precedente do Capitólio abriu espaço para esta réplica. O que se pode e deve temer é a replicação pelo Ocidente, nas próximas eleições em vários países europeus, onde os populismos, vários de inspiração autoritária, se afirmam a voz do povo. Não podemos deixar de lembrar as palavras de Georges Duhamel: “Os maiores tiranos do povo saíram quase todos do povo”. Para já, o Brasil é a bomba-relógio, o laboratório mais evidente das guerras culturais e da alienação ideológica. Desta feita será o setor trumpista dos Estados Unidos a olhar para o Brasil como laboratório de potencialidades. A forma como a situação se desenrolar no Brasil terá efeitos nos caminhos vindouros das democracias Ocidentais mais polarizadas.»

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8.1.23

Entretanto no Brasil

 


Tarde de 08.01.2023: invasão do Congresso, Palácio do Planalto e Supremo Tribunal pelos bolsonaristas.

O que se seguirá?
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3.11.22

O caso dos imparciais e a mentira da mentira

 


«Que a atrapalhação fosse constrangedora, nem haveria dúvida. Proclamar um apoio a Bolsonaro ficava mal para aquela gente que se acabrunharia com a pergunta sobre se o convidava para jantar. O homem é um barril de pólvora, grita inconveniências, tem aquela coisa mal explicada de comprar apartamentos com malas de dinheiro, arrasta uma prole que ele próprio designa como se fossem humanóides da ficção científica, reclama a propriedade do divino mas diz que gostaria de trincar cadáver de índio, é um tormento. Apoiá-lo, assim a modos que apoio mesmo, ficaria mal às pessoas tão elegantes que, se bem que abominando o comunismo que atravanca o mundo, não querem ser fotografados ao lado de um capitãozeco expulso do exército e que depois vagabundeou pelo mundo da política. Pintou um clima durante um tempo, é certo, mas esse deslumbramento com o golpe contra Dilma foi-se esbatendo quando mesmo a Casa Branca começou a afastar-se do sujeito, e o que por lá vai de histórias de amigos suspeitos naquele continente.

Agora, apoiar ou sequer aceitar que a alternativa presente era um metalúrgico, moderado que seja, que quer acabar com a fome no seu país, isso nem pensar. Era preciso, enquanto Bolsonaro acumulou o desastre e caminhava para a derrota, ser imparcial. Que desgosto que aquelas grandes figuras da direita brasileira, capitaneadas pelo seu líder histórico, Fernando Henrique Cardoso, o homem que transformou o mapa político criando o novo partido da situação, tivessem perdido a paciência e apoiado o metalúrgico contra o fascistóide. Deviam ter continuado imparciais, terão pensado os nossos imparciais. A imparcialidade é a virtude do nariz emproado.

Os imparciais raramente usam o argumento de que “aquilo é outro país”. Ficava mal, afinal não serve para a Ucrânia, nem para a Rússia, nem para os Estados Unidos, nem para lado nenhum – não veio um ministro alemão apoiar uns dos nossos imparciais na última eleição? O que dizem é que têm uma objeção moral, coisa séria, é que o metalúrgico seria “corrupto”. E os nossos imparciais, isso de “corrupção” nem querem ver. Deixem-se as histórias caseiras para outra ocasião, e mal ficaria aquela alegação se nos lembrassemos dos submarinos ou de ministro com processos julgados. Fica somente a acusação de que Lula teria sido julgado e condenado e que é horrível, horrível mesmo, entregar o Palácio a um criminoso. Portanto, o valente imparcial soergue-se no seu Rocinante da justiça.

O problema é que isto da justiça tem regras. E o Supremo Tribunal Federal anulou o julgamento de Lula (foi esmagador, por oito votos a três) não considerando só que o então juiz Sérgio Moro era incompetente para julgar – e para prender – como, mais ainda, que era parcial nesse processo. Incompetente e parcial, ou seja, tinha um interesse próprio no resultado que quis impor, leram bem. O processo foi uma trafulhice. Não sei se os imparciais têm noção do que isto quer dizer, mas um desenho pode ajudar: a Justiça brasileira anulou o processo, o que significa que Lula é inocente – o tribunal só determina culpabilidade com condenação, lembram-se do princípio do Direito? - e apontou abuso de poder ao juiz Moro. Ora, o juiz tinha conseguido uma façanha, dominar a política brasileira e anular o adversário de Bolsonaro, foi por isso imediatamente recompensado com um ministério. Se isto é a ideia de justiça dos nossos imparciais, talvez queiram elogiar esta farsa em que um juiz prende um candidato, recebe o pagamento político por isso e depois é indicado pelo Supremo como tendo montado um truque judicial. Depois da mentira de Moro, os nossos imparciais mentem sobre a mentira, para evitarem o incómodo de uma escolha, tolerando assim Bolsonaro e discutindo metafisicamente a espinhosa questão do maior e do menor dos “males”. Afinal, se a justiça não lhes interessa a não ser como mentira, porque havia de lhes interessar a democracia?»

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2.11.22

Silêncio nada inocente seguido de omissão significativa

 


«Para recusar os resultados eleitorais, Bolsonaro não tinha os partidos que o apoiaram, enquanto esteve no poder. Nem sequer boa parte dos seus aliados mais próximos para alem do círculo familiar. Preferiram a segurança das vitórias que tiveram para o Congresso, Senado e governadores a aventuras que só poderiam acabar mal. As imediatas declarações de Arthur Lira, o seu aliado na liderança do Congresso, reconhecendo a vitória de Lula, deixaram isso claro. Não tinha qualquer apoio externo, sobretudo dos Estados Unidos. O que, por consequência, levava a que não houvesse espaço para qualquer intervenção militar, se ela fosse sequer uma possibilidade.

A única forma das coisas descambarem seria o bloqueio dos camionistas, que pôs em causa o abastecimento de supermercados, a indústria e até o fornecimento de hospitais, levar a reações da esquerda (alguns setores ameaçaram dar esse passo, perante a inoperância das forças policiais), o caos instalar-se e haver espaço para impor um estado de exceção. Seja como for, não havia qualquer possibilidade de golpe.

Pensar que Jair Bolsonaro ficou calado durante dois dias porque é um “moleque” a fazer uma birra repete a insistente infantilização da extrema-direita que já deveríamos ter abandonado. Durante um ano, o presidente alimentou a tese da fraude eleitoral. Perante os resultados, ficou em silêncio, permitindo que a contestação subisse de tom. Mesmo sendo inconsequente, deixou o país de sobreaviso e mostrou o poder que os seus fanáticos podem ter sobre a democracia. Não foram apenas meia dúzia de malucos que agiram por sua conta e risco. Foram, como Trump mostrou no Capitólio, a sua tropa de indefetíveis, pronta a ser usada se as coisas correrem mal a Lula, como dificilmente não correrão.

Cometeu um erro: as operações da Polícia Rodoviária Federal para bloquear a chegada de eleitores nordestinos às urnas tornou mais difícil a narrativa do golpe lulista fora da bolha alienada de apoiantes do Presidente. O ambiente, depois das cenas de milhares de pessoas barradas nas estradas do Nordeste, era exatamente o oposto ao que ele queria vender: era o da desconfiança sobre a tentativa de fraude bolsonarista.

O prolongamento daqueles bloqueios só foi possível com alguma conivência inicial da Polícia Rodoviária Federal. Em muitos estados, a mesma PRF que no domingo andou a parar autocarros para impedir cidadãos de votar, mostrando excesso de zelo na fiscalização rodoviária, revelou-se bastante amistosa com quem, tentando paralisar o país, quis evitar que a vontade popular fosse respeitada. Se ignorarmos que se trata de uma força policial, foi coerente nos seus objetivos. Bolsonaro também mostrou que uma parte de forças de segurança lhe continua fiel.

Foi preciso Alexandre Morais, de um Supremo Tribunal Federal que se mostrou sempre firme na defesa da democracia e do Estado de Direito nestas eleições, deixar claro que ou o diretor da PRF desimpedia as estradas ou ia preso para as coisas começarem a mudar. Empresários e governadores que apoiaram Bolsonaro viraram-se contra esta tentativa de criar o caos económico. Mas não se pode dizer que Bolsonaro tenha recuado, até porque o silêncio não o comprometera com uma ação que obviamente nada teve de espontâneo. Deixou que passassem dois dias para mostrar o dano que poderia causar. É importante, para perceber o estrago potencial de um bloqueio destes, recordar que foi assim que Allende começou a cair, no Chile. Bolsonaro deixou claro que, para sair do poder, tiveram de lhe pedir com cuidado. Que é ele que decide, com o silêncio ou com a palavra, se o país pode regressar à normalidade.

Como de costume, nada fez de original. Limitou-se a seguir a tática de Donald Trump, que apesar de não ter sido reeleito conseguiu segurar a sua influência política. Claro que há algumas diferenças: Bolsonaro não tem poder financeiro próprio e não tomou conta de um partido estruturante para a democracia brasileira, porque esse partido não existe.

O equívoco de muita gente, quando falamos de figuras como Trump ou Bolsonaro, é pensar que estamos, já não digo perante estadistas, mas perante os políticos de extrema-direita do passado, desejosos de um Estado forte. Nada disso. Estamos perante subversivos enomaníacos. Bosonaro e Trump, assim como muitos dos seus aliados na Europa, não se contentam com uma passagem pelo poder em que seriam domesticados. Nem sequer fazem questão de governar. O seu projeto é tornar a democracia inviável através da destruição e descredibilização das instituições. Elas podem funcionar no exato limite em que lhes garantam a ocupação do poder. Quando lhes constrangem esse poder, mesmo por vontade popular, eles ameaçam com o caos.

No seu discurso, feito 48 horas depois do que era devido, Bolsonaro apoiou os movimentos golpistas, criticou os “métodos da esquerda” (aqueles que os seus apoiantes usam sistematicamente), chamou para si as vitórias da direita que já o abandonou, autoelogiou-se e, mais importante, nunca reconheceu, pela sua boca, a vitória legitima de Lula da Silva. Pelo contrário, falou da reação popular à injustiça. Deixou a tarefa de aceitar a transição para o chefe da Casa Civil. Ou seja, confirmou que sairia sem desistir da vitimização. Bolsonaro só aceita partir porque não tem apoio político, institucional, externo e militar para um golpe. Manterá todas as dúvidas sobre legitimidade do novo poder e viva a fidelidade da bolsa de fanáticos que regressará quando as coisas ficarem difíceis. Seja para o país, como tropa de choque contra Lula. Seja para ele, se vier a ser julgado.

O longo silêncio de Bolsonaro não resultou de desalento. Serviu para mostrar a ameaça que quer manter sobre a democracia. A ideia de que se Lula vencesse haveria uma guerra civil, expressa por alguns democratas, corresponde à aceitação deste poder de veto sobre a democracia dos seus inimigos. Essa é a batalha que ainda não foi vencida. Muitos julgavam que o Capitólio mataria o trumpismo. Como sabemos, continua vivo e perigoso.»

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31.10.22

Bye, bye love

 

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Lula: o discurso da vitória

 


[Para ler ou ver, recordar e talvez guardar]


Meus amigos e minhas amigas.

Chegamos ao final de uma das mais importantes eleições da nossa história. Uma eleição que colocou frente a frente dois projetos opostos de país, e que hoje tem um único e grande vencedor: o povo brasileiro.

Esta não é uma vitória minha, nem do PT, nem dos partidos que me apoiaram nessa campanha. É a vitória de um imenso movimento democrático que se formou, acima dos partidos políticos, dos interesses pessoais e das ideologias, para que a democracia saísse vencedora.

Neste 30 de outubro histórico, a maioria do povo brasileiro deixou bem claro que deseja mais – e não menos democracia.

Deseja mais – e não menos inclusão social e oportunidades para todos. Deseja mais – e não menos respeito e entendimento entre os brasileiros. Em suma, deseja mais – e não menos liberdade, igualdade e fraternidade em nosso país.

O povo brasileiro mostrou hoje que deseja mais do que exercer o direito sagrado de escolher quem vai governar a sua vida. Ele quer participar ativamente das decisões do governo.

O povo brasileiro mostrou hoje que deseja mais do que o direito de apenas protestar que está com fome, que não há emprego, que o seu salário é insuficiente para viver com dignidade, que não tem acesso a saúde e educação, que lhe falta um teto para viver e criar seus filhos em segurança, que não há nenhuma perspectiva de futuro.

O povo brasileiro quer viver bem, comer bem, morar bem. Quer um bom emprego, um salário reajustado sempre acima da inflação, quer ter saúde e educação públicas de qualidade.

Quer liberdade religiosa. Quer livros em vez de armas. Quer ir ao teatro, ver cinema, ter acesso a todos os bens culturais, porque a cultura alimenta nossa alma.

O povo brasileiro quer ter de volta a esperança.

É assim que eu entendo a democracia. Não apenas como uma palavra bonita inscrita na Lei, mas como algo palpável, que sentimos na pele, e que podemos construir no dia-dia.

Foi essa democracia, no sentido mais amplo do termo, que o povo brasileiro escolheu hoje nas urnas. Foi com essa democracia – real, concreta – que nós assumimos o compromisso ao longo de toda a nossa campanha.

E é essa democracia que nós vamos buscar construir a cada dia do nosso governo. Com crescimento econômico repartido entre toda a população, porque é assim que a economia deve funcionar – como instrumento para melhorar a vida de todos, e não para perpetuar desigualdades.

A roda da economia vai voltar a girar, com geração de empregos, valorização dos salários e renegociação das dívidas das famílias que perderam seu poder de compra.

A roda da economia vai voltar a girar com os pobres fazendo parte do orçamento. Com apoio aos pequenos e médios produtores rurais, responsáveis por 70% dos alimentos que chegam às nossas mesas.

Com todos os incentivos possíveis aos micros e pequenos empreendedores, para que eles possam colocar seu extraordinário potencial criativo a serviço do desenvolvimento do país.

É preciso ir além. Fortalecer as políticas de combate à violência contra as mulheres, e garantir que elas ganhem o mesmo salários que os homens no exercício de igual função.

Enfrentar sem tréguas o racismo, o preconceito e a discriminação, para que brancos, negros e indígenas tenham os mesmos direitos e oportunidades.

Só assim seremos capazes de construir um país de todos. Um Brasil igualitário, cuja prioridade sejam as pessoas que mais precisam.

Um Brasil com paz, democracia e oportunidades.

Minhas amigas e meus amigos.


Brasil: ficou assim

 


Felizmente, mas não vai ser fácil.
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