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27.12.25

O peso cultural e social de se estar “em cima” ou “em baixo”

 

George Cruishank, The British Beehive, 1867

«Nunca fui da escola da “identidade dos portugueses” que teve um papel relevante no Estado Novo e que, de vez em quando, emerge com a ascensão do nacionalismo, como se passa nos dias de hoje com formas bastante perversas. Uma delas foi o exemplo nacional que o primeiro-ministro resolveu dar aos portugueses com um jogador de futebol, o Ronaldo, que é hoje um pajem de um assassino saudita, o que, aliás, não é alheio aos momentos em que parece que apenas o futebol enche o peito da turba com Portugal. É irónico ver agitar as bandeirinhas de um estranho Portugal que em vez das quinas tem pagodes chineses, mas não deixa de ser um retrato da correlação forte entre o nacionalismo futebolístico e a ignorância.

Mas nasci em Portugal, sou português, patriota no sentido em que me honram a língua, a literatura e, quer queira quer não, fui feito pela nossa história, muitas vezes pela via mais próxima de uma família antiga e pela cidade que me “moldou”, o Porto. Por tudo isto, esta é também a minha identidade, e dá-me pena e preocupação que tudo o que nós temos de melhor, e nalguns casos de muito melhor, como é a nossa ímpar literatura e o seu instrumento, a nossa língua, estejam numa profunda crise, exactamente quando elas são, mais do que nunca, necessárias para a boa “identidade” dos portugueses. É por isso que é um insulto aos portugueses atirar-nos como modelo motivacional da psicologia barata o Ronaldo. Estamos ao nível do Big Brother.

Mas, como de costume, os nossos nacionalistas, que se excitam todos por se dizer que fomos um povo esclavagista, ficam cegos, surdos e mudos quando um país que teve Fernão Lopes, João de Barros, Fernão Mendes Pinto, Damião de Góis, Manuel Bernardes ou o Padre António Vieira — e não é por acaso que escolho estes nomes — aparece personificado por um jogador de futebol de uma forma que nunca teria sido usada para o Eusébio, a começar porque este era preto.

Uma das razões pelas quais quando se olha para Portugal com a obsessão identitária se comete um erro que não é inocente é esquecermos um dos traços mais presentes no nosso povo, de cima a baixo, dos pobres e dos ricos, é a prevalência de comportamentos conformes ao lugar social de cada um. Quem esteja atento, percebe que quem está em cima sabe onde está e lembra-o a quem não o veja nesse lugar e não reconheça a sua autoridade social, assim como quem está em baixo sabe muito bem qual é o seu lugar e quais os custos de não o reconhecer na submissão, mesmo invisível. Quanto aos do meio, é mais complicado, porque é um mau lugar para se estar, muito incómodo, principalmente quando se olha para cima e nunca se é tratado como igual. Toda uma indústria vive deste dilema da classe média, a começar pelos reality shows, das revistas do jet set à moda e aos seus os locais, sejam ginásios, sítios de férias, restaurantes, viagens, espaços de consumos culturais. Mas numa sociedade profundamente desigual no plano económico, cultural e social os comportamentos fixam-se no lugar onde se está e onde se deve estar.

Há muitos exemplos de como essa hierarquia se “respira” como o ar. Por exemplo, a GNR, que fazia durante a ditadura as prisões nos campos, sabia que lhes podia começar a bater mal entravam na carrinha, enquanto a PIDE torturava, mas não deixava de saber de que família vinha o preso e proceder em consequência. Por outro lado, o escritor que escreveu um romance histórico sobre o escândalo dos Ballet Rose cometeu um anacronismo quando colocou um nobre titular envolvido a almoçar com um agente da PIDE, coisa que ninguém da “alta”, criminoso que fosse, faria, porque um agente da PIDE não se colocava na mesma mesa de um conde ou marquês. Um outro exemplo é a crueldade dos pobres com os outros pobres. O recente episódio de o ministro da Educação — que tem, como se diz, origem “humilde” — achar natural dizer que os estudantes das classes baixas são pobres, porcos e maus, e que por isso estragam as residências universitárias, é outro exemplo.

A dificuldade de tratar o peso das hierarquias sociais em Portugal é que elas transportam no seu interior aquilo a que os marxistas chamam “luta de classes”, ou seja, remetem para a desigualdade e a exclusão, como se dizia em termos pedantes, para a Weltanschauung.

Percebo muito bem que olhar se pode ter sobre o que eu escrevi, no fundo, criticar o Ronaldo, atirar ao Chega os erros de ortografia, e confrontar os nossos governantes que estão todos a “reler o Eça” (a resposta mais comum à pergunta sobre que é que estão a ler) com Fernão Lopes padece de um total e completo snobismo. Talvez, mas, exactamente por aquilo por onde comecei, é que responder à bruta à ignorância agressiva dominante é a melhor maneira de ser patriota. Ah! E outra coisa: lutar para que os portugueses ganhem mais, saiam da pobreza, tenham mais opções na sua vida, tenham uma boa e justa vida, o grande objectivo da democracia, a felicidade.»


12.10.23

Onde estará a raiz do mal?

 

@Hugo Pinto


«Em “Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch” nada sucedia de diferente: frio glaciar, fome, noites mal dormidas, jornadas de 12 horas de trabalhos forçados no gulag soviético. Mas não havia espaço para lamentações, pois que a pena pelo descontentamento manifesto não era menos do que a morte. Resistindo fisicamente e em silêncio como um dos condenados políticos, Aleksandr Soljenítsin haveria de escrever mais tarde este livro e, sobretudo e “de coração apertado” pelos que tinham morrido nos campos, os três volumes do “Arquipélago Gulag” — um testemunho literário e factual arrasador sobre o “paraíso na terra.

Totalmente a despropósito, confesso, lembrei-me disto apenas a propósito do título do livro: neste nosso tão cantado “Portugal de Abril”, em cada dia que passa, parece que nada acontece de diferente — e já lá vão 50 anos. Em cada um destes anos e em cada dia destes anos, há sempre portugueses — nas ruas, nas esquinas, nos cafés, nos empregos — a lamentar a sua sorte e a do país. Não sei se são a maioria, mas pela atenção que conseguem atrair e pelas atenções e importância que todos lhes prestam, assim parece — ao ponto de os seus estados de alma se confundirem com o sentimento profundo da nação. Diariamente, os jornais televisivos trazem-nos o retrato de um país cansado, zangado, frustrado nas suas expectativas, sempre revoltado com quem nos governa, desconfiado do próximo, sem horizonte, sem esperança, triste e acabrunhado. Se os dinamarqueses são o povo mais feliz do mundo, os portugueses serão, se não os mais infelizes, pelo menos os mais lamurientos, os mais inconformados com a sua sorte. E, todavia, se, fazendo contas, será fácil deduzir que os dinamarqueses, via UE, já terão contribuído com muitos milhões para minimizar a nossa tristeza, também sou capaz de pensar em muitas outras razões pelas quais eles nos poderão invejar. Talvez, irmos ao fundo das razões do nosso mal-estar endémico, devêssemos começar por enviar alguns dos nossos profissionais do descontentamento à Dinamarca para ver se entendem porque é que eles são tão estupidamente felizes: para por exemplo, aqueles profetas da desgraça que todos os finais de Verão emergem de novo à superfície, esses sim, felizes da vida, para nos anunciar que as escolas não vão abrir, os hospitais não vão atender doentes e os tribunais vão continuar a não funcionar.

Esta semana portuguesa foi um bom exemplo daquilo a que poderemos chamar o estado da nação. Logo a abrir, multiplicou-se o número de hospitais a fecharem valências e serviços devido à recusa dos médicos em fazerem mais do que o limite de horas extraordinárias exigíveis por lei. Os funcionários judiciais, cuja greve suspende há oito meses o direito constitucional à justiça, ouviram nova proposta da ministra, que, ao que parece, não os satisfaz. Os senhores Nogueira e Pestana, também ouviram novas propostas, mas enquanto não lhes derem os 6 anos, 6 meses e 23 dias de promoções congeladas lá atrás, nada feito, pois que a última das suas preocupações é que os alunos tenham aulas e os pais tenham onde deixar os filhos para irem trabalhar. E assistimos a manifestações em várias cidades pelo mais elementar dos direitos: ter uma casa para viver. Como se não bastasse, para baralhar as coisas, o PSD de Montenegro resolveu dar duas cambalhotas em simultâneo: está disposto a ceder aos professores, abrindo uma excepção no tratamento do funcionalismo público, e um lóbi capitaneado pelo “intelectual” Pinto Luz, de Cascais, já não quer esperar pelo parecer dos técnicos e defende a impensável solução do futuro aeroporto de Lisboa em Santarém. Ou seja: quem visse as notícias do dia e lhe acrescentasse o panorama das contas públicas, o nível extremo da carga fiscal, o peso da dívida pública e dos seus juros e as expectativas económicas de uma Europa estrangulada pela guerra na Ucrânia, concluía que o país não tinha saída. E quando o Estado cobra os impostos que cobra e, em troca, nenhum dos seus serviços parece funcionar, seguramente que estamos a ser mal governados. Se grasna como um pato e voa como um pato...

Porém, à noite o primeiro-ministro foi à TVI e, com excepção da questão da habitação, onde reconheceu a “frustração” de ter falhado as promessas e os objectivos, em tudo o resto foi desarmante. Na saúde, acenou com aumentos salariais entre 12% e 30% para os médicos dos cuidados de saúde primários e de 30% para os que aceitarem dedicação plena nos hospitais, acentuando que desde que é primeiro-ministro o orçamento do SNS subiu 56%. Na política de rendimentos, enumerou todos os apoios sociais em vigor e referiu que no último ano as contribuições para a Segurança Social aumentaram 13%, sendo 5% devido a mais inscritos e 8% a aumentos salariais. E rematou: “Desde que sou primeiro-ministro, há oito anos, a inflação acumulada subiu 13% mas o salário mínimo 51% e o salário médio 31%.” Quanto aos professores (e os números são sempre dele), referiu que 98% dos horários de aulas já estão preenchidos; que os quadros pedagógicos passaram de 10 para 63, encurtando as distâncias de deslocação dos professores; que ao fim de três anos na mesma escola estes só mudam se quiserem; e que 8 mil já se vincularam este ano. Só não cede às promoções retroactivas porque teria de o fazer para toda a Função Pública. E também não vai baixar o IRS a não ser para isentar progressivamente os jovens durante cinco anos, mas prometeu baixar a colecta do IRS em 2 mil milhões até final da legislatura.

Depois de ouvir António Costa pela enésima vez nestes oito anos, acabo baralhado. Parece um capitão de navio numa nau à deriva no meio de uma tormenta, em que ele é o único que não está em perdição e parece saber o que faz. Manifestamente, o seu grau de preparação e segurança faz dele o melhor dos membros do Governo. Mas quando se chefia um governo em que pelo menos metade dos ministros não presta e não se vislumbra rasgo nem visão de futuro, isso não faz dele um bom primeiro-ministro. O navio avança aos baldões, retido por uma âncora de arrasto que ninguém solta. Mas há por aí alguém que tenha outro rumo, outra bússola e melhor timoneiro para conduzir esta nau das lamentações?»

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7.4.22

O drama de um lapso


 

O escândalo que por aí vai porque um irlandês com 47 anos, que chefia o Eurogrupo, confundiu Saramago com Pessoa, e afirmou ter gostado de conhecer a viúva deste último, irrita-me. Quantos dos ofendidos nem sequer são capazes de referir os nomes de dois grandes escritores irlandeses? Complexos de pequenez.
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5.6.20

Tristes, moralistas e todos sábios



«Era uma terra bonita, em retângulo, que o mar docemente lambia.

Porém, esta língua de terra era habitada por gente triste, macambúzia e sempre desconfiada. E porque triste e desconfiada era empedernidamente moralista. Desde o zé das iscas de cebolada até ao eminentíssimo professor catedrático de qualquer coisa, todos se mostravam mais impolutos que Catão, o velho. Talvez melhor: ao lado deles Catão era uma lambisgoia, um safardanas, um tipo sem espinha dorsal. Em resumo: um verdadeiro energúmeno, um abjeto ser moral.

E tudo isto se passava sem discussão, porquanto cada um se considerava intocável. Um verdadeiro ser moral puro. Incontaminado. Tinha-se conseguido alcançar a pureza moral. E ai daquele que ousasse dizer: talvez não seja bem assim. De supetão todos lhe caíam em cima, sem dó nem piedade. Porque um verdadeiro triste e moralista, em caso algum, pode admitir que, ao seu lado, alguém mande às malvas a tristeza e se assuma feito das mais banais virtudes e vícios. Daqueles vícios que doem e fazem corar as donzelas ou os infantes, todos eles também moralmente puros. Admitir isso seria a desordem, o caos social, a destruição dos templos e a subversão moral. E os habitantes daquela terra sabiam disso, porque as mais altas esferas lhes diziam que eles eram os "melhores do Mundo", logo, o que defendiam era o que estava certo, desde o princípio dos tempos.

E um dia veio uma tempestade de peste. Igual a tantos milhares de outras com que a humanidade tem convivido e sobrevivido. E uma outra qualidade apareceu. Todos se tornaram sábios. Todos, sem exceção, ficaram a saber projetar, com sofisticados cálculos matemáticos, como se iria desenvolver a pandemia. E a informação, verdadeira ou falsa, pouco importa, porquanto, razoavelmente sabe-se - tem-se até medo de empregar o termo razoável em declinação de advérbio - que nestes tempos de medo construído, qualquer informação é logo tida como verdade proferida pela boca dos deuses. Sábios em epidemiologia, virologia, infecciologia, psiquiatria, psicologia, estatística, matemática aplicada e tudo sempre sustentado em "estudos". Categoria epistemológica que deve acompanhar um sábio que se preze. E como por encantamento aquele lindo pedaço de terra tornou-se no território mundial mais densamente povoado de sábios. Muitos deles sustentados na valência do "achismo", mas nem por isso menos sábios. E apareceu de tudo. De tudo, mas sábio.

E deste jeito, de um dia para o outro, todos continuaram tristes, o que está de acordo com a sapiência - pode lá conceber-se um sábio alegre -, e seguiram sendo moralistas, o que também é consonante com a sapiência - pode lá imaginar-se um sábio doidivanas e estarola viciado. E, novamente, assim, por mor da agressiva natureza, se percebeu que as qualidades dos habitantes, daquela terra abençoada, eram infinitas. "Gaudeamus"! (Rejubilemos!)»

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14.2.13

Respeitinho


@João Abel Manta

«A repressão é a resposta para a minoria que não respeita os sinais, as regras explícitas ou implícitas, as rotinas do enquadramento, da submissão, da conformação à ordem estabelecida. Para a maioria que é levada a obedecer, basta que se saiba que a repressão existe e que actua sobre os infractores (O realce é meu.)
Fernando Rosas, Salazar e o poder 

Este parágrafo foi escrito a propósito do passado mas ainda se aplica aqui e agora – e de que maneira. Velhos e novos temos ainda nos genes vestígios de um respeitinho e de um espírito de submissão salazarentos, bem alimentados por meio século de censura, e que estão sempre prontos a entrar em acção quando um poder mais musculado deles sabe tirar partido. 
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5.6.12

«Ditosa pátria que tais filhos tem» (*)



Em entrevista ao jornal «i», José Miguel Júdice afirma que nós, os portugueses, «somos melhores quando as coisas correm mal». Alegremo-nos, pois: estamos certamente óptimos. 

Conta, por exemplo, como é importante que a BBC tenha mostrado alguém que, estando desempregado há um ano e meio, acredita que o país está a fazer o que é necessário: assim se vê que não somos como outros que «partem tudo» e demonstramos grande dignidade no sofrimento. E continua, com a velha rábula segundo a qual, se as coisas correm bem, o português «abandalha, facilita, gasta desalmadamente, não pensa no dia de amanhã, só pensa na festa». Ângela Merkel não diria melhor… 

Este ser, que esteve sempre do lado certo do poder, desde os velhos tempos do Movimento Jovem Portugal até à actualidade, a quem nunca deve ter faltado uma migalha de luxo (enfim, talvez um pouco nos três mesitos que passou na prisão de Caxias, em 1975…), permite-se «elogiar» os compatriotas fazendo deles um retrato salazarento – sofredores e resignados quando pobrezinhos. 

Se é verdade que parecemos, ou somos, desesperadamente mais conformados do que outros em situações semelhantes, esse facto reflecte heranças e marcas de décadas de obscurantismo e de resignação forçada e não virtude ou algo que deva ser gabado e preservado. É tempo de dizer isto, quinhentas vezes se necessário for, de interiorizar, de ultrapassar, de combater. 

Claro que José Miguel Júdice não está sozinho na sua barricada, bem longe disso.  Mas é representativo e exemplar. 

(*) Com dedicatória.
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14.5.12

O esplendor de Portugal



A notícia é delirante, mas vale a pena ver o vídeo. Mais de 100 pessoas esperaram, algumas delas durante dois dias e duas noites, para garantirem o aluguer de um toldo, na praia de Armação de Pêra, em Julho e Agosto. Houve quem viesse de Beja, de Lisboa ou mesmo do Porto. Tendo de escolher entre sombra no Verão e umas rezas na Cova da Iria, quem sabe… 

Tratar-se-ia de aproveitar uma pechincha? Talvez, não sei avaliar: 500 euros pelos dois meses. Para subalugar e ganhar uns trocos? Não faço ideia… 

Mas que povo é este?
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28.1.12

Indignados, mas…


«É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto.Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.»

Miguel Torga
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