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27.7.17

O velho foi à viola



«Segunda-feira, 27 de Julho de 1970. Um inusitado toque de clarim interrompe a rotina matinal na prisão de Caxias.
Um toque diferente, desconhecido, num tom lamentoso que não lhe conhecíamos.
Numa cadeia, ganham-se mil ouvidos: habituamo-nos aos sons ciciados da chegada de um novo preso, ao esforço de distinguir qual a cela onde o colocam (da parte da frente, com o rio ao longe? Da de trás, tendo como única visão o muro e as pernas do guarda republicano andando nele?), à frase «Prepare-se para ir à António Maria Cardoso», que pode significar, para aquele a quem é dita, uma sessão de tortura, seja a pancada, o sono ou a estátua, o seu regresso («Quantas horas passou em interrogatórios? Quantas noites?»), à tosse que anuncia esse regresso, ao assobio longínquo de um camarada, identificando-se com uma canção comum (no nosso caso, uma coladera), até às crises de asma de alguém que necessita socorro, numa cela próxima. Então, um toque de clarim, a uma hora inabitual, desperta de imediato a atenção e a ansiedade.

Lá em baixo, na guarita, o jovem guarda republicano olha, também ele, o lado de onde o som surgiu. «Que toque é este?», perguntamos-lhe, gritando. Olha-nos e encolhe os ombros. Não como quem não quer responder à pergunta gritada por aqueles que tem o dever de guardar, mas como quem não sabe. E ouvimo-lo repetir a pergunta para a guarita seguinte: «“Que toque é este?» Do outro lado chega uma resposta, para nós inaudível. Mas o jovem ouve-a e repete-a para nós: «“É o toque dos mortos!» Para que, numa cadeia, toque o clarim por alguém que morreu, é que esse alguém é pessoa de importância. E a ansiedade e a curiosidade crescem. Gritamos, de novo, para o guarda: «E quem é que morreu?»
Tal como da primeira vez, ele repete, para a guarita seguinte, a nossa pergunta. E tal como da primeira vez, a resposta escapa-nos. Mas – tal como da primeira vez – o jovem que nos guarda logo no-la repete: «Foi o velho! O velho foi à viola!»

Não houve necessidade de perguntar mais nada. O «velho» com direito a clarim só podia ser um: Salazar. E logo nos abraçámos a rir, enquanto ouvíamos, vindos de outras celas, gritos de regozijo. Que a morte, tantas vezes desejada, do ditador, nos fosse anunciada pelo jovem que devia guardar-nos aumentava a ironia da notícia.
A cadeia explodiu em gritos, risos, murros nas paredes, comunicando de cela em cela, na velha caligrafia prisional – «Um toque é “a”, dois são “b”, três “c” e por aí adiante…» – a morte do antigo Presidente do Conselho.
Os mais lúcidos lembraram que já havia outro, Marcelo Caetano. Mas, nesse dia, a alegria prevaleceu. Mesmo quando a visita foi cancelada, mesmo quando nos cortaram os minutos de música diária, porque «o país está de luto». «De luto?», respondemos nós. «O vosso talvez esteja, o nosso país está em festa!»

E, desafinadas ou não, ergueram-se as vozes dos presos e ouviram-se pela Cadeia, nesses minutos sem música, canções de resistência.»

Diana Andringa


(Publicado no nº 26 da colecção Os anos de Salazar/ O que se contava e o que se ocultava durante o Estado Novo, coordenada por António Simões do Paço.)
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30.11.15

Diana Andringa: «Operação Angola - Fugir Para Lutar»



Documentário com dois episódios, RTP2, 5 e 6 de Dezembro (depois do Jornal da Noite).


«Enquanto o leão não tiver o seu próprio historiador, 
a glória continuará a ir para o caçador»
(ditado africano citado por Pedro Pires, presidente de Cabo Verde) 


Diana Andringa conseguiu finalmente concretizar um dos seus velhos sonhos: o mais do que louvável projecto de preservar, em filme, a memória de um episódio marcante da resistência anticolonial, muito pouco conhecido em Portugal.

Em Junho de 1961, cerca de 60 estudantes das então colónias portuguesas – entre os quais os ex-presidentes de Cabo Verde e Moçambique, Pedro Pires e Joaquim Chissano, e os ex-primeiros-ministros de Angola e Moçambique, Fernando Van Dunen e Pascoal Mocumbi – fugiram clandestinamente de Portugal, onde se encontravam, para escapar à repressão pela polícia política da ditadura portuguesa, a PIDE, evitar a mobilização militar ou juntar-se aos movimentos de libertação.

A fuga colectiva foi levada a cabo com o apoio do Conselho Mundial das Igrejas e a participação activa de uma organização ecuménica radicada em França, a CIMADE. Foram jovens protestantes norte-americanos que, seguindo directivas da CIMADE, conduziram os fugitivos de Lisboa, Coimbra e Porto para França, atravessando a Espanha franquista, onde chegaram a ser presos. O documentário Operação Angola - nome de código dado à missão – refez essa viagem, com dois desses protestantes norte-americanos – Charles Roy Harper, Chuck, que os conduziu em Portugal e Bill Nottingham, que os conduziu em Espanha – e o angolano Miguel Hurst, actor e filho de um dos casais participantes na fuga - Jorge e Isabel Hurst – introduzindo, ao longo da viagem, descrições feitas por vários outros fugitivos em entrevistas realizadas em 2011, em Cabo Verde.




Em 2011, sob a égide do então Presidente da República de Cabo Verde, Comandante Pedro Pires, realizou-se em Cidade da Praia um encontro de participantes na Fuga de 1961. Estas imagens datam desse 50º aniversário.



A importância da preservação destas memórias é bem resumida num ditado africano citado pelo presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, no encontro realizado em Cabo Verde: «Enquanto o leão não tiver o seu próprio historiador, a glória continuará a ir para o caçador»

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Há alguns anos, Diana Andringa escreveu um texto que se encontra disponível online e que pode servir de «aperitivo» para o documentário: Fugir para lutar.
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22.7.15

IVG e tortura psicológica



Crónica de Diana Andringa, ontem, na Antena 1:

Na segunda metade dos anos 60, quando as leis vigentes condenavam ao opróbrio ou à miséria não apenas as mães solteiras como os seus filhos, e as mulheres pagavam muitas vezes com a vida o recurso à única forma de aborto existente, o ilegal, uma jovem minha amiga, solteira e grávida, recorreu a um familiar médico para que a auxiliasse. Porque a honra da família era também dele, ele concordou em proceder à interrupção da gravidez – por curetagem uterina, vulgo raspagem, sem anestesia. A sangue frio – para que lhe doesse e aprendesse assim, com a dor, a não manchar a honra da família.

Foi uma das memórias que me fez emocionar-me quando o referendo veio, finalmente, permitir às mulheres deste país a possibilidade de realizar, em segurança, uma Interrupção Voluntária da Gravidez a que, obviamente, não se submetem sem fortes razões.

E foi dessa tortura física infligida por um médico que me lembrei quando vi que alguns milhares de cidadãos pretendem submeter cada mulher que necessite de recorrer a uma interrupção da gravidez à tortura psicológica de ter de ver e assinar uma ecografia do feto, acompanhada de discursos tendentes a fazerem-na sentir culpada da sua escolha.

Segundo a Convenção contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes, é tortura qualquer acto por meio do qual uma dor ou sofrimentos agudos, físicos ou mentais, são intencionalmente causados a uma pessoa com os fins de, nomeadamente (...) a punir por um acto, intimidar ou pressionar (...) desde que essa dor ou esses sofrimentos sejam infligidos por um agente público ou qualquer outra pessoa agindo a título oficial, a sua instigação ou com o seu consentimento expresso ou tácito.

Feto. Porque é esse o nome do embrião na fase de gestação em causa, e não o de “bebé nascituro”, como o classifica o Memorando da Iniciativa Legislativa de Cidadãos, numa manipulação que se estende a todo o texto, desde o titulo, “Lei de Apoio à Maternidade e Paternidade e Pelo direito a Nascer”, que esquece que há casos em que o maior apoio que se pode dar aos pais é, exactamente, permitir-lhes que acedam, sem dificuldades, à IVG, à expressão “grávida em risco de aborto”, utilizando um termo usado para designar quem, por razões de saúde, teme um aborto espontâneo, para alguém que decide, por razões certamente atendíveis, interromper a gravidez.

O que é curioso, neste afã de alterar a Lei de 2007, é que a sua entrada em vigor se traduziu positivamente, não só na diminuição das complicações de saúde e mortes relacionadas com o aborto, como também na diminuição do número de interrupções voluntárias de gravidez. Parece, no entanto, ser coisa de pouca monta. Talvez por ter melhorado, sobretudo, a vida das mulheres.

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7.7.15

Obrigada, gregos



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena1:

E, contra os vaticínios da maioria dos comentadores e as ameaças dos dirigentes da Europa a 18 – aquela da conta dos 19 menos um – o povo grego votou «Não».

Não sendo economista nem especialista de política europeia, a minha opinião tem apenas a validade da de qualquer outro cidadão ou cidadã.

E foi como cidadã que reagi, com uma emoção parente da que senti quando vi hastear as bandeiras das colónias tornadas independentes – recordando os inúmeros sacrifícios feitos para que a independência fosse possível – ou assisti à posse do primeiro presidente negro dos Estados Unidos – recordando Rosa Parks, Martin Luther King e as inúmeras vítimas da Ku Klux Klan.

E recordando, no «Não» dos gregos, muitas outras coisas, que vão de frases da Bíblia – «Que a tua palavra seja Sim Sim, Não Não, porque Deus abomina os mornos e os vomita de sua boca» – a alguns versos do If de Kipling – «If you can force your heart and nerve and sinew / To serve your turn long after they are gone» ou do Mostrengo de Pessoa – «Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um povo que quer o mar que é teu» – a uma personagem de Malraux – Katow partilhando entre dois jovens aterrorizados a cápsula de cianeto que o salvaria de morrer queimado na fornalha – ao final do poema de Aragon sobre os membros do grupo de resistentes Manouchian fuzilados pelos nazis, esses 23 estrangeiros no entanto nossos irmãos, que amavam a vida ao ponto de sacrificá-la, e que gritaram «Viva a França» enquanto caíam – ou a Pete Seeger lembrando defensores dos direitos civis dos negros cantando «I’m not afraid of your jail, because I want my freeddom, I want my freedom now».
E, naturalmente, à visão da Europa de Camus em Cartas a um Amigo Alemão.

De tudo isso, dessa mistura de referências, algumas extra-europeias, colhidas em jovem, se fez a minha noção de cidadania – que, com o seu Não contra o medo e os novos Adamastores, os cidadãos gregos me devolveram.

Obrigada, gregos.

Obrigada, Varoufakis, por nunca teres aparecido como pedinte, torcendo nas mãos um boné puído, mas com a assertividade de um igual. E por te teres permitido ser considerado arrogante pelos que se julgam com direito a humilhar todos os outros.

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A outra pessoa devo um agradecimento. Trato-a pelo nome com que a conheci: Maria Barroso.

Morreu hoje, mas recordo-a quando, vigiada pela PIDE, impedida de representar e muitas vezes de declamar, atendeu ao pedido de alguns jovens estudantes de Medicina de Lisboa e, numa Sala de Alunos cheia, não se escusou a recitar vários dos poemas que sabia serem interditos, ajudando a ensinar-nos o valor da dignidade e da coragem.

E, naturalmente, o valor da poesia.


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23.6.15

Foi fácil sermos todos Charlie...



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

Foi há mais de 20 anos. Visitando, em trabalho, o Yad Vashem, detive-me frente a fotografias da Revolta do ghetto de Varsóvia. Curioso, o historiador israelita que nos acompanhava perguntou: “Interessa-se especialmente pelo ghetto de Varsóvia?” “É-me mais compreensível”, respondi, “nunca percebi como é que, confrontados com uma política de extermínio, não pegaram mais vezes em armas contra os nazis?” “É o debate entre Massada e Yavné”, respondeu ele, e falou-me do suicídio em massa dos habitantes de Massada, recusando a captura pelo invasor, e do rabi Ben Zakkai, que, contemporizando, conseguiu criar uma escola da Torah em Yavné. “Se não fosse Yavné, quem recordaria hoje a história de Massada?”, perguntou, no final. Respondi com outra pergunta: “E se não fosse Massada, que história teria Yavné para contar?”

Recordei naturalmente esta conversa ao ver, há dias, O último dos injustos, de Claude Lanzman, mas ocorre-me também muitas vezes ao ouvir os noticiários sobre as negociações entre Atenas e Bruxelas. Não por pensar que o governo do Syriza aposte no suicídio – antes pelo contrário! – mas por me parecer que a maioria dos comentadores e até dos noticiaristas gostaria que, em Atenas, pensassem mais em Yavné. Ou, se preferirem, que fossem mais “pragmáticos” e cedessem depressa e sem ruído, que isso de irredutíveis gauleses só fica bem em banda desenhada - mesmo assim, talvez demasiado subversiva para bons alunos. Ao Mourinho ainda se admite que diga que a escola deve ajudar a analisar, a pensar e a discordar, porque está a falar de futebol. Mas aos gregos? Discordar? Que é isso de discordar? Como é que Tsipras e Varoufakis se atrevem a discordar dos conselhos da troika, só porque estes já reduziram à miséria milhares e milhares de pessoas na Grécia? Mas não foram sobretudo os pobres, esses exigentes que querem ter emprego e ser pagos por trabalharem? Os reformados, que se atrevem a ter reformas superiores às portuguesas? Os jovens, forçados à emigração? E então? Não aconteceu o mesmo em Portugal, não empobrecemos também, não ficámos desempregados, não emigrámos, e não mostram as sondagens que há ainda muitos portugueses a preferir a política do bom aluno de quem, a pretexto de os ajudar, os explora?

Foi fácil sermos todos Charlie, sobretudo a quem não fazia cartoons, mas parece ser bem mais difícil sermos todos gregos – quando eles travam, sozinhos, uma luta que também devia ser nossa.


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12.5.15

Pequenos grandes livros


Crónica de Diana Andringa, hoje na Antena 1:

Há muito, muitos anos, li um dos livros que gostaria de ter escrito – creio que todos nós temos livros assim – mas que logo compreendi não ter, infelizmente, qualidade para escrever. Chamava-se Let Us Now Praise Famous Men, que entendi à letra como Louvemos Agora Grandes Homens, mas que a editora brasileira «Companhia das Letras» titulou Elogiemos os Homens Ilustres.

O livro resulta de uma grande reportagem feita em 1936 pelo jornalista James Agee e o fotógrafo Walter Evans, retratando os efeitos da Grande Depressão na população rural do sul dos Estados Unidos.

Recusada pela revista «Fortune», que a encomendara, a reportagem viria a sair em livro em 1941. Acompanhado pelas fotografias a preto e branco de Walter Evans, o texto de Agee, simultaneamente preciso e poético, dá-nos não apenas a dor e o desespero, mas também a dignidade daqueles que retrata, tornando-se uma referência para estudantes de Jornalismo e de Antropologia.

Lembrei-me de Agee ao ler um pequeno livro – um conjunto de cadernos atados com fio vermelho – editado pela «Cooperativa Outro Modo» e a edição portuguesa de «Le Monde Diplomatique». Nele não há fotografias, apenas – e neste apenas não há qualquer menorização – vozes de pessoas, recolhidas e enquadradas por sociólogos e antropólogos, vozes que falam sobre a sua vida e o seu trabalho, como diz o pós-título. Chama-se Tempos Difíceis, estes tempos em que um homem vê o mundo a fugir-lhe pelas mãos e fica cada vez mais desgastado, como o senhor I , ou uma trabalhadora de um call center desata a chorar no meio de uma chamada porque, vivendo sozinha com a filha, acaba de ser despedida, ou uma «manipuladora de aves», pomposo nome para quem anda de joelhos no estrume a apanhar animais para o matadouro, ao fim da noite já não consegue andar em posição nenhuma, as costas a não aguentar tanto tempo dobradas, os joelhos marcados por um calo de estrume, mas também tempos em que se recorda o sonho de um Portugal mais solidário, mais feliz, onde toda a gente tivesse pão para comer, direito à habitação, à instrução e à cultura, toda a gente tivesse direito ao trabalho e onde as desigualdades sociais não fossem tão abismais. Um livro que nos mostra as pessoas que existem para além do Excel, que mais do que viver acima das suas possibilidades querem ter a possibilidade de viver, a quem os cofres do estado cheios não garantem comida no frigorífico nem salário ao fim do mês.

Um pequeno grande livro, a ler, porque, mesmo que nada nele nos pareça desconhecido, é outra a forma de mostrar a realidade. Um pequeno livro que talvez pudéssemos depôr nas entradas de S. Bento ou da Gomes Teixeira, na esperança de que algum ministro, algum Secretário de Estado, algum assessor, pudesse passar-lhe os olhos antes de vir asseverar, com a voz bem colocada, que o país está, visivelmente, a melhorar.


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28.4.15

A cobertura noticiosa das campanhas eleitorais



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

Uma onda de indignação uniu a classe jornalística e os patrões dos media em irada resposta a um anunciado anteprojecto-lei sobre a cobertura noticiosa das campanhas eleitorais. Perante ela, os autores recuaram e a esboçada regulamentação foi atirada para o caixote do lixo da História.

Demasiado depressa, a meu ver. Porque se três deputados ousaram avançar com um texto que, à partida, era susceptível de caír mal na opinião publicada – sobretudo tendo em conta que se tornou conhecido na véspera daquele simpático dia do ano em que o país é percorrido por uma nostalgia democrática – talvez valesse a pena pensar se não o fizeram por um indefinido mal estar perante a forma como são por vezes tratadas as matérias políticas nos órgãos de comunicação. E, sobre isso, seria bom que reflectissem partidos e movimentos políticos e sociais, Comissão Nacional de Eleições, Entidade Reguladora da Comunicação Social, os órgãos de informação, os jornalistas e, claro, todos nós, cidadãos.

Qualquer estudante de Comunicação sabe que não há regulamentação baseada em igualdade de caracteres ou de segundos, separação de “informação” e “opinião”, proibição de “juízos de valor”, que garanta a equidade de tratamento de candidaturas. Basta recordar que a colocação da câmara de filmar, o ângulo de onde é tirada uma fotografia, podem mostrar o mesmo comício como um êxito ou um fracasso, e que 48 anos de Censura Prévia treinaram os jornalistas portugueses a saber como driblar as limitações impostas para mostrar aquilo que se pretendia que não vissem – ou, pelo menos, não dessem a ver. Fosse o ante-projecto avante e bem cedo se tornaria evidente que o plano prévio de cobertura era, para lá de inexequível, ineficaz.

Mas, quando o director-executivo da Plataforma de Media Privados diz “queremos pensar que seria normal que houvesse um desejo comum de que a próxima campanha tivesse uma cobertura completa, sólida, e que os órgãos de comunicação social tivessem todos os meios para que isso se verificasse e para um esclarecimento capaz e completo do eleitorado”, há também que pensar que isso exigiria que as redacções dispusessem dos quadros e das condições necessários a essa cobertura – em vez de se debaterem com a diminuição do número de profissionais, a ênfase nas tiragens e/ou audiências, a exigência de maior – e absurda – velocidade, pondo em causa a necessária reflexão profissional e deontológica.

É também por aí que passam a equidade e a qualidade, não só da cobertura das campanhas eleitorais, mas de toda a actividade dos media.

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14.4.15

O sobressalto feliz do encontro com um novo livro



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

No tempo em que a Censura impedia a edição em Portugal de todos os autores considerados “subversivos” – leque vastíssimo, que podia englobar Diderot, Karl Marx, Jorge Amado, Simone de Beauvoir ou Mao Tsé Tung – era de França que nos chegavam as novidades literárias, as novas correntes de pensamento, a reflexão política. Como resumiu em tempos um jornalista português, “Ninguém, na nossa geração – hoje na casa dos 60, 70 – falaria da Doença Infantil do Comunismo – sempre lhe chamámos La maladie infantile du communisme.”

Muitos desses livros e revistas que procurávamos junto dos raros livreiros que os vendiam clandestinamente, ou encomendávamos a amigos que iam ao estrangeiro, tinham uma chancela: Éditions Maspero. As suas colecções davam-nos a conhecer o pensamento e a escrita de, entre muitos outros, Frantz Fanon, Althusser, Jacques Rancière, Régis Debray e até do angolano Mário Pinto de Andrade. Mas a França desconfiava, também, de escritores ditos subversivos e François Maspéro teve de enfrentar proibições, multas, prisão e suspensão dos direitos cívicos. Chegou a tentar suicidar-se. Amigos e escritores mobilizaram-se e conseguiram ajudá-lo a salvar a editora, mas não a sua livraria, La Joie de Lire, ponto obrigatório de peregrinação.para tantos portugueses que visitavam Paris.

As edições Maspéro desapareceram no início dos anos 80, François Maspero morreu este sábado – e embora hoje não precisemos de recorrer a livreiros cúmplices ou amigos viajantes para lermos as obras que nos interessam, a sua morte é uma porta mais que se fecha sobre o nosso passado de ansiosas leituras.

E que falta faz esse sobressalto feliz do encontro com um novo livro, um novo escritor, numa época em que – citando um texto já antigo de outro morto recente, o uruguaio Eduardo Galeano – é preciso resgatar a palavra, “usada e abusada com impunidade e frequência para impedir ou atraiçoar a comunicação”, em que se chama "democracia a vários regimes de terror, a palavra amor define a relação do homem com o seu automóvel, por revolução se entende o que um detergente pode fazer na sua cozinha, e felicidade é uma sensação que se tem ao comer salsichas.”

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31.3.15

Do medo



Leio, no Expresso on-line, que a fotografia de uma criança síria de quatro anos de mãos no ar e olhar acossado, se tornou viral nas redes sociais no passado fim de semana. Talvez também porque o que assusta a criança é, não uma arma, mas uma máquina fotográfica, “sinal de que”, escreve o jornal, “o quotidiano de pânico deixa marcas em toda uma geração”. Opinião corroborada, na mesma notícia, por uma psiquiatra infantil, Ana Vasconcelos: “É o mesmo mecanismo da história do Lobo Mau, quando, no escuro, a criança receia que esteja lá o lobo. É sinal de que se sente permanentemente ameaçada".

A notícia lembrou-me a história que me contara recentemente uma jovem lisboeta. Estivera num café com um grupo de amigos e, à saída, o empregado chamara a atenção de que um dos consumos ficara por pagar. Ela lembrava-se de ter pago, mas não guardara a factura. Surpreendeu-a, por isso, a forma imediata como outros apresentaram as suas. Curiosamente, eram os que vinham da periferia, dos chamados “bairros problemáticos”.

Talvez ela nem tivesse reparado nisso, não fora estarem ainda recentes as queixas sobre a violência policial na Amadora. Ao seu espanto, responderam: “Temos que estar sempre preparados para mostrar que não roubámos.”

É que o Lobo Mau era só na história, na floresta, na casa da avózinha – e as prisões, os espancamentos, os tiros, a morte de amigos, a perda da casa, da família, dos vizinhos, a mudança para um asilo de sem abrigo ou um campo de refugiados, esses, são reais.

Talvez se pudesse pensar em trauma, mas o termo é normalmente reservado a casos socialmente mais aceitáveis, catástrofes naturais ou provocadas, exércitos regulares, vítimas de actos de terror de grupos informais, a violência exercida pelas instituições do Estado não entra nesta contabilidade. Penso, no entanto, naquelas crianças de Santa Filomena que, saídas de manhã de casa, ao voltar da escola só encontraram escombros... E pergunto-me se não terão, também elas, reacções de medo que, um dia, quem sabe, em relação a elas ou ao menino sírio da fotografia, se transmutarão em violência, para grande surpresa e indignação de nós, os outros, os que até gostam de ser fotografados e se podem dar ao luxo de esquecer a prova de pagamento de um café.

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3.3.15

Dizer bem do SNS – chegou a minha vez



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

Há alguns, largos anos, numa época de constantes críticas sobre as escolas públicas, uma amiga, professora, comentou: “É curioso, mas são as pessoas que não têm filhos nas escolas que mais criticam. As que têm vêem o bom e o mau, e são menos críticas.” Lembrei-me disso há dias, quando uma queda, acompanhada de fractura, me levou à urgência do Hospital de Torres Vedras. As semanas anteriores tinham sido pródigas em notícias de caos nas urgências hospitalares, longas horas de espera, tendo alguns doentes morrido entretanto – embora não forçosamente pela espera. Ia, portanto, preparada para o pior.

Declaração de interesses: do tempo de fugaz estudante de Medicina ficou-me a consciência de que não é uma Ciência Exacta, que nem todas as doenças têm cura, que o erro médico – mesmo quando tudo se faz para o evitar – é uma possibilidade impossível de excluir e que as condições e ritmos de trabalho desempenham papel fundamental no processo.

Isto dito, posso agora infringir a regra jornalística de que notícia é quando o homem morde no cão. É que tudo correu como devia. Embora fosse a primeira vez que ia àquele hospital a burocracia foi rápida, não esperei muito pela triagem e, colocada a pulseira amarela, embora antes de mim a perna partida de uma criança exigisse mais tempo do médico, no máximo uma hora depois estava a fazer radiografias, para logo a seguir passar à fase de redução da fractura, repetida depois de segunda radiografia, até se concluir pela necessidade de operação. Assinada a respectiva concordância – o consentimento informado – restou-me esperar, com o braço devidamente imobilizado, por vaga no bloco operatório, umas 7 horas depois. Tal como o ortopedista, o anestesista explicou-me todo o processo e toda a equipa esperou, sorridente, pelo meu acordar e... a oportunidade de jantar.

A noite de internamento foi calma e, apesar do cansaço evidente de uma das auxiliares, a simpatia do pessoal nunca esmoreceu. Saí na tarde seguinte, com consultas marcadas e – apesar de ser cedo para saber se a fractura fica devidamente consolidada – uma vontade reforçada de defender o Serviço Nacional de Saúde.

Ah, que bem que sabe dizer bem!

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12.2.15

Neste país pouco original do medo


Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1: 

Ah o medo vai ter tudo, tudo (Penso no que o medo vai ter e tenho medo que é justamente o que o medo quer) O medo vai ter tudo, quase tudo e, cada um por seu caminho, havemos todos de chegar, quase todos, a ratos.

Alexandre O’Neill escreveu o «Poema pouco original do medo» quando vivíamos em ditadura e o medo das autoridades era o meio de controlo exercido sobre nós desde crianças. Em 25 de Abril de 1974, acreditámo-nos livres desse medo. Em democracia, poderíamos vigiar e prevenir os abusos de poder. Mas pouco mais de 30 anos tinham passado quando um jovem negro, morador na Amadora, me disse que a filha, então de uns três anos de idade, tinha esse medo que julgáramos banido para sempre: medo de homens fardados. De polícias.

O que na semana passada aconteceu na Cova da Moura justifica o medo da menina. E perturba-me mais do que antes do 25 de Abril de 1974, porque a violência de Estado era então feita contra mim, contra todos nós. E hoje é em nosso nome, da nossa segurança, do nosso medo, que essa violência é aplicada.

Um medo criado, em grande parte, pelo abuso das palavras. Em 2005, um incidente em Carcavelos agigantou-se em arrastão. Dez anos depois, a entrada de meia dúzia de jovens desarmados numa esquadra torna-se uma «invasão». São palavras criadas pelo medo que todos os dias nos é incutido sobre o outro, o de outra cor, de outra religião, de outro modo de vida. Medo. Sem medo, que polícia não se cobriria de ridículo ao tratar a entrada de seis jovens desarmados na sua esquadra como uma invasão? Que jornalistas dariam crédito a essa versão? Sem medo, como se explicaria o abuso das palavras e da força contra cidadãos, por parte daqueles mesmos que deviam protegê-los dos abusos? A esta hora já terá tido lugar, frente ao Parlamento, uma manifestação de protesto contra esse medo que se vive na Cova da Moura e em outros bairros do país. O medo dos moradores agredidos, e o medo dos agentes, que os transforma em agressores. Gostaria que fôssemos muitos a dizer alto que não aceitamos a violência policial nem o racismo, a recusar que essa violência e esse racismo sejam exercidas em nosso nome. A recusarmos ter medo e transformar-nos em ratos ou nesses eunucos que, como cantava Zeca Afonso, «quando os pais são feitos em torresmos, não matam os tiranos, pedem mais».




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6.1.15

Indícios de pró-terrorismo desde as fraldas?



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

Cresci num país onde pensar livremente era proibido. Na escola primária, no liceu, professoras e professores guiavam-se por livros autorizados, reprimiam perguntas e dúvidas que pusessem em causa a verdade a que tínhamos direito, puniam nas avaliações as suspeitas de discordância. Aos 23 anos, compareci perante o Tribunal Plenário de Lisboa, acusada de atentar contra a segurança interna e externa do país.

Digo isto porque talvez alguém devesse avisar o governo britânico – que, segundo li no jornal Público de hoje, pretende que professores e educadores de infância vigiem, nas crianças sob a sua guarda, os primeiro indícios de desvio pró-terrorista e os combatam ensinando-lhes, na idade certa, «os verdadeiros valores britânicos» – que outros já tentaram a receita, e não lograram êxito.

Talvez alguém devesse alertá-lo que ver, por exemplo, a série Downton Abbey pode ser suficiente para pôr alguém a pensar sobre, imaginem, a luta de classes. Que, para uma criança bem formada, a injustiça social é o primeiro motor da revolta. Que não se é jovem sem se espantar, como aquele jovem cantado por Colette Magny, que a injustiça social, o racismo, a indiferença e o desprezo pelo sofrimento do outro, não impeçam ninguém de dormir. Porque a ela, a criança bem formada, a quem falaram de grandes valores, a hipocrisia cria um terrível mal de viver. Aconselharia, pois, o governo britânico a desistir dos professores espiões e, em vez disso, estudar atentamente a letra de Le mal de vivre, e reler sem cessar A condição humana, de Malraux.

Há, também, aquele magnífico poema de Jorge de Sena, Cadastrado. Lembram-se? «Uma vez, aos sete anos, partiu à pedrada a lanterna da porta da igreja. Dez anos depois, conduzindo um carro, não parou num cruzamento de rua onde havia um sinal de stop. Dois anos depois, teve uma briga num bar, e partiu a cabeça de um amigo com uma garrafa de cerveja. Quando se recusou a combater no Viet-Nam, o seu cadastro provava como desde a infância, sempre manifestara sentimentos nitidamente de traidor à pátria.»

De verdade, de verdade, digam-me lá: não sentiram crescer em vós uma alma de terrorista quando, indiferente ao frio que fazia nas ruas, foi decretado o fim das medidas de apoio aos sem abrigo para as 24 horas do passado domingo?




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23.12.14

Em busca de um sonho




Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

Hoje são emprestadas as palavras desta crónica.

O pé tocou por fim na beira do molhe, e um bafo de lume veio-lhe dele, subiu-lhe os membros, reanimou-o como um calor de ressurreição. Nesse instante sentiu que alguma coisa de duro, mão ou tenaz, o agarrava com violência pelos rins.O que quer que fosse puxou por ele com força, quase o ergueu do chão e fê-lo dar uma reviravolta. Viu diante de si um grande vulto negro, um capote de oleado reluzente de chuva, uma farda com botões de metal e uma chapa cor de prata. O agente da polícia inclinou para ele o rosto vermelho e robusto: – Stowaway, eh? – e sacudiu-o com energia, como se o quisesse despertar do torpor. – Passageiro clandestino? – repetiu, e riu-se. – You speak English? Com aquela mão brutal não se brincava, e ele respondeu: – Eu não espique inglish, eu não espique! O agente largou uma risada de gozo e tornou a sacudi-lo:– No eespeek! No eespeek! e apertou-lhe os ombros com mais força, a tactear-lhe os ossos, talvez a ensaiar esmagar-lhos pelo simples prazer de exercer forças naquela fragilidade. Depois, de repente, obrigou-o a dar meia volta, de cara à terra, apoiou-lhe a mão enorme e espalmada nas costas, e empurrou-o: – Now run! Não precisou de entender, e correu: correu sem saber aonde ia, nem se o guarda lhe ia dar um tiro pelas costas, como a um ladrão das docas que desobedece à ordem de Alto!, ou se realmente o mandava embora, livre, sem o prender nem o forçar a regressar a bordo. Foi quando a voz do polícia lhe atirou à distância, pela rectaguarda:– Hey! Merry Christmas!...O clandestino estacou, compreendendo vagamente, e só nesse instante se lembrou que era Noite de Natal. Então com a garganta apertada, a rir e a chorar, transpôs umas calhas ferroviárias, pulou uma vedação de rede de arame, e deitou a correr em campo aberto, nas trevas.

São excertos de um conto de José Rodrigues Miguéis, inspirado na saga dos emigrantes clandestinos portugueses que buscavam o sonho norte-americano. Hoje, outros clandestinos buscam o sonho europeu e morrem na travessia do mar que nos une e nos separa. Segundo a ONU, mais de três mil e quatrocentos morreram este ano. Recordo-os aqui, em vésperas de Natal, porque cada um deles podia ser um de nós – e a sua morte nos devia ser insuportável.


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9.12.14

Televisão, oferta e procura


Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

Em 1983, no âmbito de uma reportagem sobre refugiados, fui com dois camaradas de trabalho filmar no Japão. Paulo Rocha, então adido cultural da Embaixada Portuguesa em Tóquio, teve a gentileza de nos ir esperar ao aeroporto de Narita.

Cineasta, sabia bem como são complicados os movimentos de quem transporta dezenas de quilos de material de gravação – mais ainda numa terra estranha, de que se desconhecem não apenas a língua, mas o próprio alfabeto.

Com extraordinária solidariedade, levou-nos ao hotel e esperou, pacientemente, que recuperássemos o suficiente para nos levar a jantar. Cansados da longa viagem desde o México, não podíamos, naturalmente, recusar o convite que nos dirigira. Nessa noite contactei, pela primeira vez, com a gastronomia japonesa. Apresentada por alguém que a conhecia e apreciava, rapidamente se tornou uma das minhas favoritas. Mas, de regresso a Portugal, cada vez que o referia alguém me respondia: «Que horror, peixe cru!»

Três décadas depois, os restaurantes japoneses tornaram-se habituais entre nós e são muitos os portugueses que os frequentam.

Lembrei-me desse primeiro jantar japonês a propósito do debate que por aí vai em torno do serviço público de televisão, futebol, cultura e audiências. E de o sociólogo francês Dominique Wolton ter dito em 2000, numa entrevista na RTP2, que «a audiência não traduz o estado da procura, é um reflexo da oferta».

Wolton não pensava em comida japonesa, mas em televisão. E acrescentou: «Se um político só repete o que as pessoas dizem, trai a sua missão. Se um industrial só produz o que a procura pede, trai a sua missão. É sempre preciso preservar a lógica da oferta face à lógica da procura. A emancipação está do lado da oferta, não da procura.»

Se o sashimi e a açucarada água suja do imperialismo primeiro se estranham e depois se entranham, não se poderá dar o mesmo com a cultura? Porque é que só funciona com o futebol e a NBA?

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19.11.14

Imigrantes sem milhões – ou com eles



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena1: 

Há uma semana, na minha última crónica, depois de referir uma grande operação policial no bairro 6 de Maio, perguntava-me o que apreenderiam operações semelhantes em outros bairros de outras zonas de Lisboa. Houve quem mo recordasse, após as primeiras detenções da chamada Operação Labirinto. Mera coincidência, respondi. Mas talvez nem tanto. Antes um reiterado mal-estar pelo modo como tão naturalmente se olham como suspeitos habitantes de bairros degradados, e se aceitam como acima de qualquer suspeita os moradores de outros bairros; como tão rapidamente se fecham as portas a imigrantes que buscam entre nós uma vida melhor, dispostos a pagá-la com o suor do seu rosto e os impostos que lhes sejam aplicáveis, e se abrem, com vénia, a quem quer que traga, na bagagem, os quinhentos mil ou o milhão de euros necessários à compra de um visto dourado.

Admito que, na base desse mal estar, esteja não só a dúvida metódica criada pelo facto de que são raros os cidadãos que, tendo trabalhado legal e duramente toda a vida, dispõem de semelhantes quantias, mas também a memória de frases antigas, desde a proudhoniana “a propriedade é o roubo” à bíblica “é mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”. Mas há uma memória mais recente, a da circular 14, em plena Segunda Guerra Mundial, em que o Ministério dos Negócios Estrangeiros, então chefiado por Salazar, ordena que “com respeito a todos os estrangeiros devem os cônsules procurar averiguar se têm meios de subsistência”.

Pragmatismo? Defesa do interesse nacional? Pois talvez. Mas escolher os que sucumbem e os que se salvam pela quantia que têm no banco – ou trazem na mala – repugna-me tanto hoje como no dia em que vi, nos telegramas trocados entre o consulado de Bordéus e o MNE em Lisboa, a referência à conta bancária a acompanhar o pedido de autorização para a passagem de um visto.

Temo, no entanto que os que o fazem continuem a ouvir reverentemente na igreja o Evangelho segundo Mateus e talvez até celebrem, de quando em vez, a memória dos cônsules que recusaram olhar para a conta bancária daqueles que os procuravam na esperança de um visto. E, talvez infantilmente, essa hipocrisia incomoda-me mais do que os proventos que alguns possam ter retirado indevidamente da venda dos vistos dourados.


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28.10.14

Um outro mundo é possível



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

Um estudo realizado por dois economistas, e recentemente publicado, analisou a forma como as pessoas imaginavam as diferenças salariais entre os executivos e os trabalhadores de base das empresas, que diferenças entenderiam como justas e quais eram, realmente, essas diferenças.

Como era de prever, a maioria dos inquiridos entendia que as diferenças eram grandes demais e, embora aceitando o maior salário dos executivos, defendia que a diferença deveria ser menor.

Até aqui, nada que surpreenda. O curioso é que a ideia que os inquiridos tinham sobre as diferenças salariais estava muito aquém da realidade. Na Áustria, por exemplo, os inquiridos julgavam que um Director Executivo ganhava 5 vezes mais do que um trabalhador não qualificado, mas ganhava 36 vezes mais. Na Dinamarca, não ganhava duas vezes mais, como os inquiridos pensavam, mas 48 vezes – e na Suécia 89 vezes. Nos Estados Unidos, em lugar de ganhar, como pensavam os inquiridos, 6,7 vezes mais, um Director Executivo ganhava 354 vezes mais. Em Portugal, onde os inquiridos apontavam um rácio de 5, ele é, de facto, de 53. E o Público recorda a propósito que, em 2013, Pedro Soares dos Santos ganhou 108 vezes mais do que a média dos restantes trabalhadores da Jerónimo Martins.

Sim, conheço o argumento, é o peso da responsabilidade. Mas será justificável que essa responsabilidade se salde nestes valores?

Dias antes, saíram notícias sobre um homem que terminava o seu mandato como presidente de um país. País pequeno, é certo, mas talvez não seja excessivo comparar as suas responsabilidades às de um Director de uma grande empresa. No entanto, José Mujica, uma vez presidente do Uruguai, não viu razões para mudar da casa onde há anos vivia com a mulher, nem para auferir um salário muito superior ao que necessitava para viver – e doava 90% desse salário a obras de caridade… E não se pode dizer que não tivesse responsabilidades. O seu foi o primeiro país do Mundo a enfrentar o narcotráfico, legalizando a produção e a venda da cannabis.

Vi as duas notícias com poucos minutos de intervalo, e corri o risco de acreditar que, digam o que digam, um outro Mundo é possível.


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14.10.14

O Outro é, afinal, igual a nós



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

«Há cerca de um mês, tive oportunidade de ler no Público um artigo do escritor Michael Muhammad Knight, intitulado "O jihadista que nunca o foi".

Nele, Knight descrevia como, em meados dos anos 1990, vendo na televisão imagens de destruição e sofrimento na Tchetchénia, ponderou pegar numa arma para ir lutar pela liberdade tchetchena e como foram muçulmanos tradicionalistas que lhe recordaram a frase de Maomé, segundo a qual a tinta dos eruditos é mais santa do que o sangue dos mártires.

Mas, sobretudo, Knight explicava que o que o levara a pensar em ir lutar na Tchetchénia não era “raiva muçulmana” ou “ódio ao Ocidente”, mas sim “compaixão” , o desejo de combater a opressão e proteger a segurança e a dignidade de outros. E acrescentava uma frase perturbante: “Não foi nenhum verso que eu tivesse lido nos nossos grupos de estudo do Corão que me fez querer ir lutar, mas sim os meus valores americanos.”

Parece bizarro, quando a barbaridade do auto-intitulado ISIS nos leva a traçar uma tão clara linha de demarcação entre “nós” – os que achamos justo combater a opressão e proteger a segurança e a dignidade dos outros – e “eles”, os impiedosos degoladores que oprimem e desrespeitam a segurança e a dignidade desses outros.

O que é fascinante no artigo de Knight é tornar claro que essa linha de demarcação é muito menos nítida do que gostamos de acreditar. Quando ele, que vive nos Estados Unidos, lembra que cresceu – e cito – “num país que glorifica o sacrifício militar e que se sente no direito de reconstruir outras sociedades segundo os seus parâmetros”, e que interiorizou “esses valores muito antes de pensar sobre a religião”, recorda-nos a velha chamada de atenção de Dylan, para que não se contam os mortos nem se fazem perguntas quando Deus está do nosso lado. E a pensar sobre Hiroshima, Mi Lai, Wiryamu. O que Knigt nos diz é que o Outro é, afinal, igual a nós. E sabê-lo é, talvez, a única forma eficaz de combater o terror.

A prática parece já ter mostrado que as armas, por mais que se multipliquem, não logram pôr-lhe fim.»


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30.9.14

Se fôssemos internacionalistas como a Mafalda...



A crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

«Já uma vez citei aqui Ramos Rosa, que me disse que, por vezes, a rádio o perturbava, porque as palavras o interpelavam. Também a mim, palavras ou frases lidas ou ouvidas se me impõem, tecendo estranhos laços, criando novos sentidos, perturbando os que pré-existiam... Assim foi, neste início de semana em que a Tecnoforma se mantinha nos noticiários, mas abundavam, sobretudo, as referências aos resultados da votação entre Costa e Seguro.

Primeiro foi um desenho de Mafalda, a contestatária: é o primeiro dia do ano, Mafalda senta-se na cama, plena de expectativa, pergunta: “A fome e a pobreza no Mundo acabaram?” Já levantada, uma outra pergunta: “As armas nucleares foram suprimidas?” Junto à mesa do pequeno almoço, pergunta ao pai: “SIM?” O pai responde, tartamudeando: “Bem, acho que não, filha!” E Mafalda, num imenso grito: “Então para que foi que a gente mudou de ano???”

Não, não é uma indirecta às primárias do PS. É, quando muito, um lamento directo por, quando se discutiu, nas televisões, frente a todos os portugueses, votantes ou não naquele Partido, o nome do candidato a primeiro-ministro, ter havido tão pouco de Mundo nas perguntas e respostas, fosse tudo tão português, tão pequenino, tão claustrofóbico.

E depois, leio no Público a citação de um Relatório da Organização Internacional para as Migrações: “Pelo menos oito pessoas morrem todos os dias ao tentarem encontrar refúgio e melhores condições de vida em países mais ricos, a maioria na travessia do Mediterrâneo entre o Norte de África e a Europa.”

Oito pessoas? É toda a família próxima de grande parte de nós. E o que pensam disso os candidatos a ministros, os ministros, as televisões que dedicam longas horas a notícias de futebol? Não consigo deixar de pensar que, se perdêssemos alguns minutos mais a pensar e a falar disso, se tivéssemos as preocupações internacionalistas da Mafalda, talvez precisássemos de menos drones e menos operações contra o terror.

Ou, talvez, apenas, se por cada programa sobre a bolsa houvesse um outro de poesia...»

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16.9.14

Mostrar, ou não, imagens de decapitações



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena1:

Embora os mais visíveis entre eles – quase sempre do universo televisivo – ascendam, a meu gosto vezes demais, àquela espécie de glória que é ser capa de revistas cor de rosa, não creio que a maioria dos jornalistas portugueses escape à cruel frase de Weber, de que o jornalista “pertence a uma espécie de casta de párias, que é sempre vista pela sociedade em termos dos seus representantes eticamente mais baixos.” “Disparar sobre o jornalista”, antes de ser palavra de ordem de grupos armados, é fácil desporto de café ou autocarro, esquecendo, quase sempre, os severos críticos que aqueles que criticam trabalham muitas vezes – como o mesmo Weber lhes faz a justiça de reconhecer – “em condições tais que põem à prova a segurança interior como, porventura, nenhuma outra situação”.

De quando em vez, no entanto, surge um problema que, obrigando à reflexão dos jornalistas, acaba por ser tema de debate dos restantes cidadãos. Um caso típico, até por se relacionar com o futebol, foi o caso dito do off-the-record. Na altura membro da direcção do Sindicato, era interpelada em táxis, lojas, restaurantes, sobre esse termo da gíria profissional que se tornara propriedade do cidadão comum.

Desta vez o debate trava-se em torno de mostrar, ou não, as imagens da decapitação dos jornalistas James Foley e Steven Sotloff. De um e outro lado há argumentos válidos, mas em quase todos os textos que li, defendendo a exibição dos vídeos, se admite evitar o momento da decapitação – ao mesmo tempo que se discute se a desagradabilidade das imagens é condição suficiente para as ocultar – ou se, pelo contrário, essa desagradabilidade é uma forma de denunciar a atrocidade.

As circunstâncias são novas, mas, para os jornalistas, não é um debate novo. Nem por isso penso que haja, a esse respeito, uma resposta definitiva . Para mim, a palavra basta: sim, é preciso que se saiba que estes homens vão ser, ou foram, decapitados. Mas mostrá-los, de joelhos, ameaçados pelo executor, com o uniforme laranja que os iguala aos presos de Guantanamo ou Abu Grahib, mas identificáveis pela imagem, identificados pelo nome, dizendo palavras que não são livres, mostrá-los parece-me somar ao assassínio a humilhação. Há também, claro, o efeito do terror, procurado pelos seus captores. Mas penso, sobretudo, que as vítimas merecem que proteja a intimidade dos seus últimos momentos. Que me recuse a testemunhar o seu medo.

Não sei se tenho razão, se erro profundamente. Mas sei que nestes momentos em que um acontecimento numa terra longinqua se torna um debate ético para cada um de nós, o jornalismo se cumpre. Na dúvida, na incerteza, no erro, mas na responsabilidade.


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