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13.7.25

13.07.1958 - Carta de um bispo do Porto a Salazar

 


Foi há 67 anos, cerca de um mês depois das eleições presidenciais de 1958 às quais Humberto Delgado tinha concorrido, que António Ferreira Gomes, bispo do Porto, escreveu uma longa e corajosa carta a Salazar, que lhe valeu dez anos de exílio em Espanha, França e Alemanha, entre 1959 e 1969.

Para muitos, sobretudo católicos, a conjugação destes dois acontecimentos – eleições com Delgado e carta do bispo do Porto – foi o verdadeiro pontapé de saída para a resistência e luta contra a ditadura durante as décadas que se seguiram.

Vale a pena ler ou reler o texto para se perceber a importância que teve na época.
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23.4.25

O calendário pode ajudar

 


Lindo seria fumo branco em Roma e resultado das Legislativas cá no burgo na noite de 18 de Maio.

As TVs poderiam acabar por dizer que o cardeal X é o nosso próximo PM, ou que este vai mandar no Vaticano? Sei lá!

13.7.24

13.07.1958 - Carta de um bispo do Porto a Salazar

 


Foi há 65 anos, cerca de um mês depois das eleições presidenciais de 1958 às quais Humberto Delgado tinha concorrido, que António Ferreira Gomes, bispo do Porto, escreveu uma longa e corajosa carta a Salazar, que lhe valeu dez anos de exílio em Espanha, França e Alemanha, entre 1959 e 1969.

Para muitos, sobretudo católicos, a conjugação destes dois acontecimentos – eleições com Delgado e carta do bispo do Porto – foi o verdadeiro pontapé de saída para a resistência e luta contra a ditadura durante as décadas que se seguiram.

Vale a pena ler ou reler o texto para se perceber a importância que teve na época.
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11.10.23

Roma, 11.10.1962 – Um Concílio

 


O Vaticano II teve início há 61 anos e durou cerca de três. Por vários motivos, e em diversas instâncias, já escrevi sobre esta importantíssima fase da Igreja católica que vivi intensamente.

Quem estiver interessado pode ler este texto que escrevi em 2012.
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13.7.23

13.07.1958 - Carta de um bispo do Porto a Salazar

 


Foi há 65 anos, cerca de um mês depois das eleições presidenciais de 1958 às quais Humberto Delgado tinha concorrido, que António Ferreira Gomes, bispo do Porto, escreveu uma longa e corajosa carta a Salazar, que lhe valeu dez anos de exílio em Espanha, França e Alemanha, entre 1959 e 1969.

Para muitos, sobretudo católicos, a conjugação destes dois acontecimentos – eleições com Delgado e carta do bispo do Porto – foi o verdadeiro pontapé de saída para a resistência e luta contra a ditadura durante as décadas que se seguiram.

Vale a pena ler ou reler o texto para se perceber a importância que teve na época.
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23.3.23

André Ventura e abusos na Igreja

 



Nunca pensei escrever que André Ventura teve a posição mais correcta, que vi até agora, sobre o escândalo do dia na saga dos abusos sexuais na Igreja: um pároco de Lisboa ter anunciado que é injustamente considerado ser um dos abusadores. As outras reacções, que li, são de meninos beatos nervosos que se atiram aos OCS e à CI, sobretudo – e não por acaso – a Daniel Sampaio e a Laborinho Lúcio (CI que, note-se, não divulgou publicamente qualquer nome.)

Ventura mostrou que sabe ser um político e que, por isso mesmo, é tão perigoso.
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8.3.23

Palmas para as primeiras divergências dentro da Conferência Episcopal

 



«A arquidiocese de Évora afastou cautelarmente um padre de funções e abriu uma investigação a uma denúncia de alegados abusos de menores pelo sacerdote, na década de 1980, no Seminário Menor da cidade.»

«A diocese de Angra, nos Açores, também suspendeu de funções dois padres que estão a ser investigados por alegados casos de abuso sexual de menores.»
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Conferência Episcopal – a miséria moral que pede Estado

 


«A Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de crianças na Igreja Católica Portuguesa (CI) constituiu-se após um convite dirigido a Pedro Strecht, no final de 2021, por parte de José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Sabemos que não foi fácil, sabemos que a Igreja foi empurrada para o inevitável, para aquilo que foi feito em tantos países.

A equipa é exemplar e a sua composição bem conhecida. Este grupo estava, como se viu, muito bem preparado para fazer aquilo que a Igreja nunca quis fazer, porque sabia o resultado e sabia do seu crime de encobrimento.

A CI centrou-se na vítima, usou metodologia qualitativa e quantitativa, apelou ao testemunho, cruzou dados, consultou arquivos da Igreja (quando não foi obstaculizado).

A Igreja sempre soube o método e o objetivo deste estudo seríssimo e ouviu sem emoção as conclusões que fizeram o país sangrar. O país sangrou, não por acreditarmos no milagre português que alguns pregavam, mas por vermos diante dos nossos olhos a verdade concreta dos suicídios, do silenciamento por sentimentos de vergonha e de culpa.

Soubemos do stress-pós-traumático, dos tratamentos psiquiátricos, soubemos que os abusadores no seio da Igreja são dados à repetição do comportamento, pelo que, nas palavras do relatório, “é fundamental ditar o afastamento de cargos ou atividades que impliquem contacto com crianças”. Soubemos que o próprio Direito Canónico tratou de proteger a Igreja “mantendo -se a Igreja como a principal vítima da ação do agente infrator”. Soubemos que “o debate interno por parte da Igreja Católica portuguesa relativamente às modalidades de abertura dos seus arquivos” levou ao que tem um nome: obstrução.

A maior percentagem de crianças foi abusada entre os 10 e os 14 anos de idade, sendo a média de 11,2 anos. Predominam as modalidades com manipulação de órgãos sexuais, masturbação, sexo oral e sexo anal, bem como cópula completa.

Os locais dos abusos são os seminários, a igreja sem outra especificação, o confessionário, a casa paroquial e a escola religiosa. Depois há os agrupamentos de escuteiros. Calcula-se que as 512 pessoas vítimas conheçam ou tenham estado em contacto com perto de 4300 outras vítimas.

Soubemos do poder de se ser sacerdote, da manipulação espiritual, da manipulação da vida material da vítima, soubemos da monstruosa arma da “purificação”.

Nas palavras do relatório, “os depoimentos testemunham o clima emocional de terror, de uma verdadeira atitude de “banalidade do mal”.

As vítimas querem apoio psicológico e psiquiátrico, um pedido de perdão e mudança da Igreja. Os abusos são passado e presente e serão futuro se não forem tomadas medidas sérias. Algumas daquelas pessoas abusadoras referenciadas ainda permanecem em atividade eclesiástica. A ocultação foi sistémica.

Perante isto, no dia 3 de março de 2023, a CEP foi o retrato do patriarcado instalado, gelado, sem empatia e cobarde. O mesmo José Ornelas que em 2021 dizia haver unanimidade quanto a tratar da descoberta da verdade e da ocultação, pediu desculpas sem convicção e ofendeu o trabalho da CI. Afinal, aquele relatório, que é exatamente o que tinha de ser, resultou numa “lista de nomes”.

Diz que é pouco, vai-se estudar, vejam lá que não há nomes das vítimas (?!) e já agora recorda-nos que isto também acontece nas famílias, não é? Enquanto ouvia aqueles homens pertencentes a uma Igreja que o relatório da CI demonstra não saber nada do que devia saber, pouco colaborativa e com o peso brutal de décadas e décadas de ocultação de crimes contra crianças como se o ofendido fosse “Deus” e a “Santa Igreja”, pensei nas vítimas encorajadas a falar anonimamente. Pensei na revivência monstruosa do trauma, na sensação de sacrifício inútil, na raiva, na impotência.

Será que José Ornelas acredita que não sabemos que os nomes enviados têm um contexto de análise cuidado que, precisamente, levou ao seu envio? Como é possível não afastar preventivamente (o que não é condenar) os alegados abusadores? Como é possível não avançar com o pagamento de indemnizações em nome da história secular de ocultação e promoção de crime hediondos? Não saberá a Igreja por esta hora que em cada decisão de ocultação e deslocação de um abusador promoveu novos crimes? Pensará a Igreja que as vítimas passadas e atuais sentirão confiança em comissões criadas pela Igreja ou que sentirão sequer vontade de respirar em qualquer espaço da Igreja? Manuel Clemente diz que indemnizar seria ofensivo para as vítimas. A sério? Assistimos a uma Igreja cobarde, ora citando o direito civil (vamos lá ver o que é encobrimento), ora citando o direito canónico.

É tempo de dizer basta a esta Igreja infame, perigosa e insistente numa moral sexual perversa sobre a qual já escrevi.

O primeiro passo para o fim da subserviência dos frágeis é o fim da subserviência do Estado. A Concordata tem de ser revista. As autoridades devem poder perguntar aos eclesiásticos sobre factos e coisas de que tenham tido conhecimento por motivo do seu ministério. Os direitos das crianças são direitos humanos e o Estado de Direito tem de cuidar deles, não permitindo coutadas de privilégio.

A autoridade eclesiástica define o conteúdo do ensino da religião e moral católicas, mas “em conformidade com as orientações gerais do sistema de ensino português”. Não podemos aceitar que se ensine uma moral sexual que castra, inflige dor e aliena. Tem de se acabar com a isenção de fiscalização, pelo Estado, do regime interno dos estabelecimentos de formação e cultura eclesiástica. A Igreja (e já agora a Universidade Católica) não podem continuar a beneficiar do regime fiscal paradisíaco previsto na lei. Sim, tudo isto é subordinação.

O Estado tem de intervir, tem de zelar pelo fim de espaços fechados perigosos para as crianças, tem de investigar penalmente os abusadores individuais e a Igreja coletivamente. O Estado tem de avançar com a comissão pedida pela CI e parar de permitir que a Igreja invada o seu espaço. Que é o nosso, de todos, dos crentes e dos não crentes. Fez bem a MJ em receber a CI e mostrar abertura ao alargamento do prazo de prescrição.»

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7.3.23

O fim da Igreja Católica como referência moral

 


«Se a conferência de imprensa da Conferência Episcopal Portuguesa já tinha sido a perda de uma importante oportunidade, as recentes declarações de Manuel Clemente levam-nos para um quadro de insensibilidade moral a rasar os limites da compreensão.

Ao remeter qualquer ação concreta para o cumprimento do estrito legalismo, o patriarca de Lisboa perdeu toda a essência do seu título, o pater familias, da sua função de grande pai protetor e referência de valores.

Quando uma instituição, que se arvora como a referência moral de toda uma civilização, se esconde atrás de processos legais, então ela perdeu a sua função social e, pior, a sua essência; passou de religião a escritório de advogados.

Se à mulher de César não bastava ser séria, à Igreja Católica não cumpre apenas o cumprimento da lei. A lei moral, e não é necessário ir buscar Kant, ou é imanente ou não é. Ou é superior aos factos e, por isso, não carece de demonstração ou perdemos toda a capacidade de nos guiarmos por modelos que julgamos os corretos.

A Igreja Católica, sejamos crentes ou não, é a principal referência que alimenta a nossa forma de ver o mundo. Nestes dias, os responsáveis por essa instituição milenar deram uma machadada profunda no contrato de confiança cimentado ao longo de muitas e muitas gerações.

Não admira que se somem as vozes vociferando contra esta estrutura, bispados e patriarcado, que perdeu todo o pudor perante a moral que ela mesma fundou.

São tempos sombrios aqueles que veem uma instituição como a Igreja Católica a abdicar da coragem de agir segundo a moral. Cada vez mais órfãos dessa referência, vemos os espaços vazios e o desalento para com a tradição herdada, geração após geração, serem ocupados por novas tradições. Não digo que uma ou outra seja a correta. Mas a Igreja Católica está a esforçar-se por passar o testemunho, abdicando de si mesma.»

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6.3.23

Sim senhor cardeal, os tempos da Inquisição também foram há muitos anos

 


E nem por isso se justificam. Não tem vergonha por fazer estas afirmações?

«Segundo o cardeal-patriarca de Lisboa, "muitos dos casos em apreço" são de "há 50, 60, de há muitos anos", numa altura em que "a legislação não era nada disto, nem sequer era crime público, nem era um crime contra as pessoas, eram meros atentados ao pudor que eram tratados com boas palavras".

Daqui.
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Daniel Sampaio entrevistado

 


Muito importante, ouvir AQUI.
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5.3.23

Basta, senhores Bispos!

 


«Não há outra forma de o dizer! A Conferência Episcopal Portuguesa e o Bispo José Ornelas devem estar a brincar com os portugueses. A conferência de imprensa de sexta-feira sobre os abusos sexuais sobre menores ficará na História como um dos pontos mais baixos, miseráveis mesmo, da Igreja em Portugal. A cúpula religiosa continua convencida de que, mais uma vez, o tempo funcionará como a esponja que absorve e apaga os seus pecados, como tantas vezes aconteceu no passado. Só que estes não são já os tempos da inquisição. Agora, a informação flui e a indignação não se abafa facilmente no perdão beato e gratuito.

Diz-se na política que há duas possibilidades para enfrentar um problema grave que se tornou público: ou se quer resolver a questão e se avançam com medidas musculadas e imediatas, ou se nomeia uma comissão de estudo para que tudo fique na mesma. Esta máxima tem, contudo, uma nuance: a comissão a nomear deve ser controlada pelo incumbente.

No caso dos abusos sexuais da Igreja, a Comissão Independente liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht chegou a conclusões e destapou a dimensão quantitativa de um fenómeno que se sabia existir há muitos anos. Nada ficou na mesma, pela simples razão de que a Comissão não era controlada pela Igreja. Os portugueses devem um agradecimento enorme e sentido a este grupo de pessoas, por se terem disponibilizado para uma tarefa de grande exigência, que executaram de forma competente e corajosa, nunca sucumbindo à tentação do protagonismo mediático.

Com a divulgação dos 512 casos validados - sublinho, validados - e a estimativa dos quase cinco mil abusos perpetrados ao longo das últimas décadas, que todos intuímos serem apenas a ponta do iceberg, a Igreja apressou-se a reagir. O que prometia ser uma boa notícia resultou num ultraje. A montanha pariu um rato, confirmando a estratégia de sempre: desproteger as vítimas em nome da salvaguarda da instituição Igreja Católica Apostólica Romana.

A conferência de imprensa da Conferência Episcopal foi um exercício cínico, onde sobrou em estratégia de sobrevivência o que faltou em responsabilização perante as vítimas.

Quando se esperava ação, a Igreja anuncia a criação de uma nova comissão - interna, porque a independente já fez o seu trabalho - para fazer diluir no tempo a investigação.

Quando se esperava o afastamento imediato dos padres, ainda no ativo, sinalizados pelas vítimas, sem prejuízo do seu direito à defesa, a Igreja recusa-se a fazê-lo e relativiza o valor das denúncias.

Quando se esperava o fim do encobrimento, a Igreja anuncia que vai remeter os casos para as Dioceses, devolvendo o assunto às teias locais de cumplicidades.

Quando se esperava a assunção de indemnizações às vítimas, a Igreja oferece um Memorial, como se não pudesse vender um par de edifícios, de entre os milhares que detém isentos de impostos, para compensar os abusados e as suas famílias.

Tenho ouvido em surdina que os abusadores sinalizados terão de ser protegidos, porque, se começam a falar, vão denunciar muitos outros, nomeadamente figuras na estrutura mais alta da hierarquia da Igreja. Terá de ser provado, mas não me surpreenderia.

Perante esta tragédia, que apelidei de "Holocausto escondido" numa outra crónica neste mesmo espaço, estranho o silêncio ensurdecedor da sociedade civil. Fazem-se manifestações contra tudo, mas a Igreja parece ter um escudo protetor. Até quando?»

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4.3.23

A Igreja portuguesa continua a não saber lidar com os abusos

 


«O relatório final da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa foi apresentado há quase três semanas. Os bispos sabiam, há bastante mais tempo do que isso, que o relatório não iria ser lisonjeiro para a Igreja. Não, a excepção portuguesa, pela qual alguns ansiavam, não existe. Não, os abusos de menores não são “um fenómeno fundamentalmente anglo-saxónico”, como chegou a afirmar D. Manuel Linda. São um fenómeno americano, europeu, africano, asiático, absolutamente transversal à Igreja, e potenciado por uma cultura de encobrimento que não só permitiu a continuação dos crimes, como promoveu a sua multiplicação, ao empurrar padres pedófilos de umas paróquias para as outras. Com a cumplicidade de bispos, cardeais e até de papas.

Este é o maior escândalo da Igreja desde a Inquisição. Deve ser assumido enquanto tal. Mas não foi o que aconteceu esta sexta-feira, em Fátima. Aquilo que vimos foi de novo uma Igreja cautelosa, muito possivelmente dividida, incapaz de tomar medidas vigorosas, e, sobretudo, em claríssimo modo de contenção de danos. Passaram três semanas da terrível conferência de imprensa na Gulbenkian sobre os abusos, e a única coisa que os bispos conseguiram acordar de concreto foi a construção de um memorial às vítimas durante a Jornada Mundial da Juventude. Já se sabe: a Igreja é excelente em memoriais, vigílias e orações. Mas não é disso que as vítimas estão à espera. Tudo o resto foram promessas vagas: “acompanhamento espiritual, psicológico e psiquiátrico” (não foi explicado como, nem por quem); “tolerância zero” para com “todos os abusadores”; o envio da lista com o nome dos alegados pedófilos para as dioceses respectivas, para terem “o devido seguimento por parte dos bispos”.

Ao fim de três semanas de reflexão e suposto debate, isto é uma mão cheia de nada – ainda que D. José Ornelas tenha preferido chamar-lhe “uma mão cheia de compromissos”. Olhemos para as suas respostas às três questões mais sensíveis sobre este tema. Indemnizações das vítimas? Nem pensar: o responsável é quem comete o crime, e a Igreja nada tem a ver com isso – como se a cumplicidade no encobrimento fosse irrelevante, ou como se a diocese de Boston não tivesse ido à falência nos Estados Unidos por causa das indemnizações que teve de pagar às vítimas. Afastamento dos padres abusadores? É preciso analisar com cuidado, porque a única coisa que a comissão disponibilizou (ouvimos nós 20 vezes) foi uma lista de nomes, sem quaisquer elementos adicionais, o que vai dificultar a investigação. E quanto à ideia de afastar os bispos que encobriram casos? Silêncio absoluto e pontapé para o pinhal.

D. José Ornelas desculpou-se, claro: “foi uma reunião forçosamente limitada no tempo”; “tivemos a manhã ocupada a reunir com a comissão”; são apenas “linhas de orientação”; há “pontos concretos que têm de ser negociados”. Mas foi curto. Foi muito curto. D. José Ornelas adoptou sempre um modo defensivo; recusou que a Igreja fosse “atracção para pedófilos”; e esforçou-se para alargar o problema da pedofilia à sociedade, uma técnica habitual para evitar que a Igreja fique isolada debaixo dos holofotes.

Mas basta ouvir o Papa Francisco falar sobre o tema – não tem nada a ver com isto. Após a conferência de imprensa, Lisete Fradique, do movimento Nós Somos Igreja, disse na SIC Notícias: “Senti falta de compaixão”. Somos dois. Muito calculismo; muito pouca empatia.»

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