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19.12.16

Marcelo e a Cornucópia



Resta agora saber se Marcelo esquece e «passa à frente» (é o mais provável), ou se tira algum coelho da cartola. Talvez não lhe fizesse mal ficar mais tempo sossegado no palácio cor de rosa de Belém, em vez de andar por aí a espalhar ventanias e a criar confusões.


«O ministro da Cultura foi esta segunda-feira de manhã um dos intervenientes no Fórum que a TSF dedicou à situação do Teatro da Cornucópia, cuja extinção foi dada a conhecer na sexta-feira e que, 24 horas depois, naquele que fora anunciado como o seu espectáculo de despedida, viu o Presidente da República abrir uma janela para novas negociações.
Aos microfones da rádio, e contrariando o que parecia ser uma possibilidade depois da intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa antes do recital de poesia deste sábado, Luís Filipe Castro Mendes garantiu que não é intenção do governo criar um estatuto de excepção para a companhia liderada pelo actor e encenador Luís Miguel Cintra.»


Esclarecimento do Teatro da Cornucópia (publicado esta tarde no Facebook)

Perante a lamentável confusão gerada nos órgãos de comunicação social pela inesperada visita do Senhor Presidente da República ao Teatro da Cornucópia, vemo-nos forçados a esclarecer a presente situação.

Ao longo dos muitos anos de dependência financeira do Estado, reivindicada como indispensável, várias vezes afirmámos em pedidos de subsídio e relatórios, que as verbas concedidas eram insuficientes para o projecto de, ao nosso modo, fazer teatro.

Quando essas mesmas verbas atribuídas para financiamento das estruturas sofreram sucessivos cortes e tendo elas há três anos chegado a um valor visivelmente insuficiente, vimo-nos obrigados a rever escolhas de programação e respectivas formas de produção, de modo a sempre viabilizar os nossos projectos. As co-produções bem como alguns apoios pontuais como os da CML e dos Amigos da Cornucópia, contribuíram para a sustentabilidade do funcionamento do Teatro da Cornucópia.

Antes do cumprimento do último ano do quadriénio a que estávamos vinculados, considerámos já a possibilidade de o não praticar, por considerar que era já difícil o seu pleno cumprimento. Mas insistimos em continuar. A evidência, porém, da situação limite das nossas possibilidades de assegurar, neste quadro de financiamento, o cumprimento de novos projectos e tal como dissemos na divulgação do espectáculo apresentado neste último sábado, considerámos como incontornável o fecho da empresa Teatro da Cornucópia.

Tinha já sido esta a decisão, anteriormente, comunicada informalmente ao Secretário de Estado da Cultura e que mais tarde foi a razão da reunião havida no fim de Outubro no Palácio da Ajuda, com a presença de uma representante da CML. Foi então por nós levantada a questão que se prende com a CASA, edifício excepcional que ocupamos e onde sempre trabalhámos. Com tudo que ele contém. Exprimindo um desejo de que pudesse ser aproveitado para fins culturais, não deixando que esse património viesse a constituir somente um valor capaz de colmatar indemnizações aos trabalhadores, a única dívida que a empresa que se extingue não tem porventura capacidade de resolver. Entendemos que de momento a intenção do Ministério é a de assegurar um ano de renda no sentido de se proceder a um inventário rigoroso do património.

Na véspera do passado Sábado (Recital Apollinaire e lançamento do segundo Livro do Teatro da Cornucópia/Espectáculos 2002-2016 e de um DVD) foi-nos comunicada a visita do Senhor Presidente da República, que, antes do espectáculo, queria inteirar-se da situação.

Desse momento, surgiu um tema que se prende com a questão de um estatuto de excepção para o Teatro da Cornucópia, capaz, talvez, de viabilizar a sua continuidade. Surgiu o equívoco de que poderíamos mudar de opinião. O que levou o Senhor Ministro da Cultura, também presente, a admitir que o tivéssemos feito. E parece não se ter restabelecido a única versão correcta que existe, porque infelizmente a dúvida já não se põe: o Teatro da Cornucópia acaba no princípio do ano, na realidade já acabou. Com a mudança do Governo, a situação não se alterou. Disse o Senhor Ministro que o assunto estava a ser acompanhado, estudado. Haverá por isso um próximo encontro com os representantes do Ministério da Cultura.

Não se tratará, portanto, agora de um estatuto de excepção, porque somos provavelmente excepção. A empresa dissolve-se nos próximos dias, dependendo apenas de procedimentos legais que terá de cumprir.

Às pessoas que elegemos para nos governarem e que se dispõem a ouvir-nos, não nos passa pela cabeça mentir. Para com eles, para com todos, mantivemos sempre as mais leais relações. Assim foi, assim será.

Pelo Teatro da Cornucópia,
Luis Miguel Cintra e Cristina Reis
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10.11.16

Mário Viegas, 68



Fartíssimos que certamente estamos de mil opiniões e lamentos pela eleição de Trump, paremos uns momentos para celebrarmos um dos nossos grandes: Mário Viegas nasceu em 10 de Novembro de 1948 e morreu novíssimo, antes de chegar aos 48.

Fundou três companhias de teatro, actuou em vários países, participou em mais de quinze filmes e só quem for muito jovem não se recordará das séries televisivas Palavras Ditas (1984) e Palavras Vivas (1991).

Celebérrima ficou a sua leitura do Manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros:



Mas existiu também um Manifesto Anti-Cavaco, lançado por Mário Viegas durante a campanha eleitoral para as legislativas de 1995, em que foi candidato independente na lista da UDP (candidatou-se também à Presidência da República).




Só mais duas interpretações inesquecíveis:




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10.11.14

Mário Viegas, 66



Mário Viegas nasceu em 10 de Novembro de 1948. Morreu novo, muito novo, antes de chegar aos 48.

Fundou três companhias de teatro, actuou em vários países, participou em mais de quinze filmes e só quem for muito jovem não se recordará das séries televisivas Palavras Ditas (1984) e Palavras Vivas (1991).

Celebérrima ficou a sua leitura do Manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros:



Mas existiu também um Manifesto Anti-Cavaco, lançado por Mário Viegas durante a campanha eleitoral para as legislativas de 1995, em que foi candidato independente na lista da UDP (candidatou-se também à Presidência da República).




Só mais duas interpretações inesquecíveis:




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8.10.13

Teatro às escuras



Esta segunda-feira, um grupo de teatro de Coimbra estreou um espectáculo às escuras. Perante uma plateia cheia, seis actores fizeram o seu trabalho sem poder ser vistos e, portanto, o teatro não se cumpriu.

O episódio é insignificante perante o estado do Mundo e a tragédia é outra coisa, como eu sempre digo.

Ou então não.

O grupo é o TEUC e faz parte da Universidade de Coimbra. A estreia às escuras foi uma acção de resistência perante o desinteresse de todos pela actividade que desenvolve, significativamente, há 75 anos. Para o seu espectáculo, precisava de corrente trifásica. Que não teve porque o quadro da Associação Académica está velho e sobrecarregado pelas máquinas do bar; porque os Serviços de Acção Social da UC passaram a entender que o apoio às actividades culturais está fora da sua alçada; porque a Reitoria acha que o assunto não é com ela.

Não duvido que todas estas entidades sejam capazes de argumentar em sua defesa, atirando para as restantes as responsabilidades pelo sucedido. Mas é isso que irrita.

Perante um país em ruptura, mesmo as instituições com tradições e responsabilidades na contestação, no apoio aos mais fracos e no progresso das ideias sucumbem ao conformismo, convertem-se à lógica da rentabilidade e anulam-se a si mesmas.

Diz o TEUC, no comunicado em que explica a situação, que a redução dos apoios de que tem sido vítima vai acabar com o teatro universitário. Peca por defeito. As políticas que impediram a corrente trifásica de chegar à sua sala-estúdio e a cumplicidade de todos aqueles que se comportam como se isto fosse necessário e inevitável são as que conduzem o país inteiro para as trevas e que, pelos vistos, são tão eficazes a cortar-nos a energia vital.

Com ou sem consciência disso, os seis bravos actores que representaram às escuras ofereceram a quem os (não) viu uma extraordinária metáfora do estado em que estamos.

O teatro cumpriu-se, afinal. E nós?

(Via Pedro Rodrigues no Facebook)
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