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10.12.24

Quando se destrói o que está a ser bem feito…

 


«Quem nunca necessitou de ser cuidado ou de cuidar de alguém em contexto de saúde ou em situações de dependência? Um país envelhecido como o nosso e impreparado em termos de respostas sociais para responder ao envelhecimento progressivo não pode dar-se ao luxo de, numa decisão abrupta, sem qualquer aviso ou comunicação prévia, extinguir o Centro de Competências para o Envelhecimento Ativo (CCEA).

Criado em 2023, com o objetivo de formação e capacitação dos cuidadores e cuidadoras de pessoas mais velhas e de apoio às políticas do envelhecimento activo, o CCEA é apontado como exemplo a seguir pelos países da União Europeia e UNECE (Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa). Portugal possui um plano de ação que o levou a ser destacado em termos internacionais como o primeiro país a ter um programa multissetorial que está a servir de modelo para vários outros, até por ter foco não na longevidade, mas na melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Contudo, o Governo entendeu substituir a palavra “envelhecimento” por “longevidade”, como se para atingir a longevidade não fosse necessário envelhecer!

O CCEA tem, na sua sede em Loulé, 21 pessoas a trabalhar e mais duas em cada polo aberto em 17 distritos do país. Possui uma equipa multidisciplinar com enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, assistentes sociais e gerontólogos, para garantir qualidade e especialidade multidisciplinar. No ano de 2024, formou 5000 cuidadores em todo o país. Foram criados cursos grátis, para cuidadores formais e informais, de cuidados aos adultos mais velhos, nutrição, prevenção da violência, cuidados com a demência, entre outros, sendo a oferta ajustada às solicitações dos cuidadores.

Além deste trabalho tão necessário, o CCEA apoia ainda a implementação do Plano de Ação do Envelhecimento Ativo e Saudável, com ações preparadas para as escolas, ações de prevenção em saúde e bem-estar, estimulação cognitiva para a prevenção da demência, walking football, apoio aos municípios para implementação no país de uma política de proximidade que chegue às pessoas (estando em elaboração mais de 60 planos municipais de envelhecimento), empoderamento sénior com a criação dos conselhos municipais da vida sénior, difusão de informação para que os apoios cheguem efetivamente aos mais necessitados, caso do Complemento Solidário para Idosos (CSI), o programa de saúde oral grátis para as pessoas mais velhas, sistema de transporte para acesso à saúde, entre outras atividades.

Ficámos a saber que tudo isto foi extinto, no passado dia 26 de novembro, pelo actual Governo, que parece querer privilegiar uma visão meramente assistencialista e redutora do envelhecimento ativo, ignorando o papel de oportunidade e de possibilidades de atuação múltipla que deve ter. A APRe! lamenta a destruição daquilo que está a ser bem feito, ao ser cancelado todo um trabalho, em curso, de contributo para a mudança estrutural da sociedade portuguesa, colocada em causa com esta extinção do CCEA.»


17.9.23

Cuidado com os velhos punks

 


«A terceira idade é a idade da libertação. Como não vai haver quarta, a ambição é urgente: é morrer livre. E passar os últimos anos a aprender e a praticar essa liberdade, para vingar os anos todos em que se viveu preso, preso às regras e expectativas dos outros, a começar por aquelas a que nos prenderam os nossos pais.

Um velho livre, a votar e a fazer merda, a bater com o pé e a dominar invejavelmente as redes sociais e a Internet é um perigo. É o pesadelo de quem trabalha: velhos anarcas a esbanjar a fortuna de que dispõem, o tempo.

Na nossa sociedade, são tão mal tratados os velhos, que é inexplicável que não sejam punks, velhos anarcas a bater com os cajados nos tejadilhos dos carros que lhes barram o caminho, a exigir regalias que ninguém lhes possa dar.

O mal dos velhos é o mal de toda a malta: não se organizam. Sendo punks anarcas, cada um puxa para si próprio: os outros que se organizem, mas deixem-me em paz!

A terceira idade é a idade das urtigas. É o tempo de mandar tudo e toda a gente para as urtigas. Já se sabe que não irão mas tivemos, pelo menos, a satisfação de os mandar para lá. Esta semana libertei uma velha Lacoste cheia de buracos. Em vez de ir para o lixo, ficou como bata de pintor.

Sabe muito bem não me preocupar com as manchas de tinta. A verdade é que vai ficando cada vez mais gira, parecendo um Jackson Pollock. Mas um Jackson Pollock feito por Cecilia Jimenez, a punk de 82 anos que restaurou-destruiu aquele fresco de Jesus.

O pior é quando me esqueço que a tenho vestida: é tão confortável, como toda a roupa muito velha (velhos são os trapos e ainda bem), que saio para a rua como se estivesse apresentável.

Quanto mais digo aos vizinhos que “estou a pintar!”, mais eles acham que eu pirei. Já reconheço à distância todas as sílabas galegas da frase “coitadinho, já não sabe o que faz”.

Também devo marimbar-me para o que pensam os outros? Ou terei de fingir que me envergonho do meu pólo de pintura?»

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28.8.23

O país envelhece e isto anda tudo ligado

 


«Portugal nunca teve tantos obstetras como em Junho do ano passado. Eram 745, o que configura, de acordo com a Direcção Executiva do SNS, o "valor mais alto desde sempre”.

O recorde é ensombrado por si próprio, quando se percebe, pela desagregação dos números, que 304 destes especialistas têm mais de 55 anos, razão pela qual podem recusar-se a fazer urgências (há ainda outros 40 que, por terem mais de 50 anos, podem não fazer urgências nocturnas).

Daqui que se conclui que nem todos os 745 obstetras contribuem para encher as escalas das urgências de ginecologia e obstetrícia e manter as maternidades a funcionar a 100% — um dos grandes desafios actuais do SNS. Ou seja, embora haja mais obstetras, 40% estão dispensados de fazer urgências.

O caso replica-se, por exemplo, na educação, onde também há escassez de recursos humanos. O Estatuto da Carreira Docente prevê que a partir dos 50 anos (e 15 de serviço) os professores dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, do ensino secundário e da educação especial tenham redução da componente lectiva semanal, até ao limite de oito horas. Já os docentes da educação pré-escolar e do 1.º ciclo, em regime de monodocência, podem requerer uma redução de cinco horas a partir dos 60 anos.

Não está em causa o direito que tanto médicos como professores (entre outras carreiras) têm a envelhecer com dignidade ou a suavizar a entrada na reforma. A origem do problema não é essa. A origem do problema é o envelhecimento da população, em geral, e o da activa, em particular, a falta de renovação do país, o Inverno demográfico que se prolonga e os baixos salários incapazes de atrair jovens para as carreiras do Estado — soube-se recentemente que Portugal pretende pagar menos de 800 euros líquidos aos seus novos funcionários judiciais.

É preciso dizer que, no mesmo ano em que se bateu o recorde de obstetras, a idade média dos trabalhadores da administração pública era de 48,1 anos e que esse valor tem vindo sempre a subir, ao contrário da natalidade, que em 2022 recuperou ligeiramente, mas com o contributo de mães e pais estrangeiros, cujos filhos representam já 16,7% do total de nascimentos.

Isto anda tudo ligado. Sem salários dignos, não há condições para procriar. Sem condições para procriar, não há futuros médicos, nem professores, nem contribuintes, e os que há vão ficando mais velhos. Sem bebés também não serão precisos obstetras para preencher escalas impossíveis. A maior reforma de que o país precisa é de sangue novo.»

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3.8.23

Portugal é um país de idosos, mas não é para idosos

 


«A minha sogra, de 83 anos, não quer usar bengala, para não expor a velhice. O meu pai, de 78, com uma artrose no fémur causada pela idade avançada, também prefere cambalear. Mesmo com a pele encarquilhada, o cabelo branco ralo e pés que se arrastam, os velhos não querem parecer velhos. Tentam afastar com fingimentos e medicamentos as forças da Natureza. Para eles, a madeira de mogno com que é feita a bengala pode ser a mesma do caixão.

A velhice não começa sempre na mesma idade. Para uns é quando se reformam, para outros é quando a lei determina, para a maioria é quando sucumbem à debilidade do corpo. Também pode ser quando a curiosidade acaba. Mas invariavelmente a velhice é vista como um mal necessário. Muitas sociedades, incluindo a portuguesa, têm dificuldades em lidar com marés-cheias de gente velha. E como atravessamos uma silenciosa crise demográfica, porventura a mãe de todas as crises, o nosso problema com os velhos só tem tendência a agudizar-se.

Segundo o Eurostat, Portugal é o país que envelhece a um ritmo mais acelerado no conjunto dos 27 Estados-membros da União Europeia. Atualmente, a percentagem de população idosa (+65) representa 24%, enquanto a de jovens até aos 19 anos é de apenas 18%. Em 1960 apenas 8% dos portugueses eram idosos.

Em países de matriz confucionista, o aniversário de 60 anos, correspondendo ao fim do primeiro ciclo do zodíaco e à entrada na velhice, é motivo de celebração (hwangap, na Coreia do Sul, kanreki, no Japão, huajia, na China). A partir daí, se possível, os filhos acolhem em sua casa os pais idosos, sendo dever de um filho adulto – e um dever honroso – cuidar dos seus pais. Para não haver dúvidas, em 1996 a China estabeleceu esta obrigação em lei. No extremo oposto, em algumas comunidades nómadas ou tribais, como os Chukchis, da Sibéria, ou os índios Apsáalooke, nos EUA, os velhos eram mortos ou o seu suicídio era incentivado, para facilitar a mobilidade e otimizar a distribuição de recursos.

Na Europa e na América do Norte, vincula-se o valor de um indivíduo à sua capacidade de trabalhar. Para evitarem a segregação social, no norte da Europa os velhos recebem cuidados ao domicílio, vendem as suas casas para financiarem o final da vida em lares comunitários e cresce o cohousing (pequenas “aldeias” com habitações individuais).

Em Portugal falta o afeto dos asiáticos e a indústria de cuidados de saúde sénior do resto da Europa. Avançamos com a adoção em 2022 do Estatuto do Cuidador Informal, mas há uma escassez crónica de lares legais e abundam os clandestinos. Os cuidados em casa não são acessíveis ao bolso da maioria. Falta uma política pública para a velhice.

Os velhos portugueses que agora morrem, nascidos nos anos 30 e 40, são a última geração armazenista da nossa diversidade cultural. Como um pião, são pessoas que viveram intensamente num limitadíssimo espaço físico, criando e protegendo fazeres, comeres e dizeres locais. A geração seguinte já é estandardizada. Um transmontano de 60 anos não é significativamente diferente de um beirão. A morte dos nossos velhos, um a um, representa a morte da nossa riqueza identitária

Os velhos portugueses são um património que precisa de ser classificado com os graus interesse nacional e interesse público. Com tecnologia e internet já não são um somatório de conhecimento técnico, mas ainda são um repositório de experiência ao serviço dos seus herdeiros. A história é tão linear quanto cíclica. E são eles que sentiram o tique-taque de duas guerras mundiais, uma Guerra Fria com ameaças nucleares e o inverno do fascismo. É interessante que, nas últimas legislativas, o partido de extrema-direita português foi desproporcionalmente mais votado pelos mais jovens, aqueles que não têm a memória de viver em ditadura. A maioria dos velhos votou em partidos que apoiam a democracia. São também os velhos que estão disponíveis para costurar a estabilidade familiar, cuidando dos netos e bisnetos, viabilizando a liberdade profissional e social de pais e mães. Estudos indicam que a interação entre velhos e novos é psicologicamente benéfica para ambos. Os mais velhos são pessoas mais racionais, emocionalmente estáveis e amáveis.

Muitos filhos cuidam dos pais idosos apenas para afugentarem os remorsos punitivos que sentiriam se os abandonassem. Criados, muitas vezes, com excesso de cânone e escassez de afetos, há filhos que não se sentem confortáveis em partilhar as suas casas com os seus pais. Doerá se as “lembranças encobridoras” de Freud forem acordadas. Mas a tendência é para que, no futuro, os idosos sejam mais participativos na vida das suas famílias. Nem que seja pela força da biotecnologia.

A medicina deixará de ter como objetivo curar doenças, mas preservar a saúde de seres humanos. A geração do meu filho viverá vidas de 150 anos devido aos avanços em impressão de órgãos em 3D, diagnósticos e medicamentos personalizados, edição genética (CRISPR), reprogramação epigenética, uso de senolíticos, cirurgia robótica assistida, ou medicina regenerativa. Iremos conseguir reprogramar os mecanismos genéticos, moleculares e celulares que tornam a idade o fator de risco dominante para certas doenças e condições degenerativas.

O mês passado, o meu pai ofereceu-me um pequeno dicionário do dialeto típico da aldeia beirã onde ele nasceu. Ao folheá-lo, desconhecia a maioria das palavras, mas ouvi nitidamente a voz dos meus avós, já sepultados. Para retribuir, vou-lhe enviar um artigo científico publicado também o mês passado por uma equipa de investigadores da Harvard Medical School e do Massachusetts Institute of Technology, com um novo instrumento para reverter com sucesso (não apenas desacelerar) o envelhecimento em ratos. As células nos músculos, tecidos e órgãos simplesmente rejuvenesceram. Talvez ele já não se beneficie com a descoberta, mas é a minha forma de dizer-lhe que a idade avançada pode ser uma sentença de vida. Com ou sem bengala.»

Rodrigo Tavares  
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10.5.23

O contrário da morte

 


«A melhor maneira de avaliar uma sociedade, por muito faustosa e iluminada que pareça à superfície, é através da maneira como trata os velhos.

E os imigrantes. E os animais. Mas os velhos são mais importantes, porque só as pessoas com azar é que se livram de ser velhas.

Tratar bem os órfãos e as crianças em geral é um investimento: são futuros trabalhadores e pagadores de impostos.

Mas os velhos pagam poucos impostos: dão mais despesa do que custam. Não são um investimento: por definição, são um prejuízo que aumenta com cada ano que sobrevivem. Se amanhã morressem todos de repente, os países ficariam automaticamente mais ricos.

O dinheiro que custam em cuidados de saúde, por exemplo, aumenta muito nos últimos anos de vida. Do ponto de vista frio, racional e desumano, é dinheiro desperdiçado.

É por isso que a maneira como se trata os velhos diz tudo sobre uma sociedade: porque mostra o comportamento moral e logo humano dessa sociedade.

Mostra a gratidão perante vidas passadas a trabalhar e a contribuir, nem sempre com dinheiro, mas com contributos ainda mais úteis e investidores.

Mostra a inteligência, porque ninguém se livra de ser velho, e faz sentido que os últimos anos de vida, em que finalmente há tempo para nos divertirmos, sejam os mais despreocupados e aprazíveis.

Até pode ser motivador, para os contribuintes mais novos, ver que a vida que os espera é boa e cheia de oportunidades.

A verdade é que nenhuma sociedade trata realmente bem os velhos, porque pensam erradamente que é o contrário do culto de juventude que apaixona e embebeda as sociedades modernas.

Acham que pensar na velhice é como pensar na morte: é deprimente porque é garantida, e é deprimente porque é uma queda de qualidade de vida.

Mas o contrário da morte não é a juventude e o equivalente da morte não é a velhice. Tanto a juventude como a velhice são o contrário da morte.

Porque o contrário da morte é a vida.

E é a vida que se deve celebrar.»

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16.4.23

Trapos praticamente novos

 


«Uma das coisas mais engraçadas do envelhecimento é a maneira como também envelhecem as nossas definições de quem é novo e de quem é velho.

De repente, toda a gente é nova. Isso ainda vá que não vá. O pior são os velhos: os velhos tornam-se muito, muito velhos.

A razão é muito simples: porque têm de ser mais velhos do que nós e, sejamos francos, as pessoas mais velhas do que nós são cada vez mais difíceis de encontrar. Até porque a grande maioria está escondida no cemitério e não aparece nem por mais uma.

Já aqueles que hoje achamos jovens vão-se multiplicando a um ritmo aterrador. Os meus pais gozavam comigo porque, quando eu tinha 11 anos, pintei um cartaz com as palavras “Nunca confies em quem tem mais de 25 anos”.

Obrigavam-me a explicar, noite após noite, para gáudio dos visados, que a partir dos 21 anos ainda havia quatro aninhos em que ainda tinham princípios e ideais, mas que, a partir daí, o “sistema” já tinha corrompido os miolos de toda a gente.

Só quando cheguei aos 25 anos é que percebi o disparate que tinha escrito: ainda era tão novo! Mas, mesmo assim, já havia polícias mais novos do que eu, a tratar-me por “senhor” e a preparar-me, diplomaticamente, para o que estava para vir.

Agora, acho graça aos putos com 40 anos que acham que estão muito doentes porque ficam maldispostos quando comem ou bebem, ou dormem pouco.

Vão fazer análises e descobrem que estão finos. Na verdade, o que aconteceu é que já não podem fazer as asneiras que faziam quando eram novos. Ou seja, podem, mas agora pagam. A única diferença é que o organismo deixou de dar borlas.

Para se sentirem bem, não precisam de tomar remédios: basta terem juízo.

Oh afortunada juventude

É também com essa idade que se começam a irritar com as palavras que inevitavelmente ouvem da boca dos médicos: “Isso é normal para a sua idade.”

“Para a minha idade?”, respondem abespinhadamente, “mas eu não sou velho!”

Ah não? Só os velhos é que falam assim.»

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13.3.23

Hoje “melões” para casas, amanhã para lares

 


«Ninguém se imagina a envelhecer… até envelhecer. Ninguém imagina que vai acabar a viver num lar… até acabar a viver num lar. Pensamos quase sempre na vida como ela é neste momento e, mesmo quando projectamos o futuro, pensamos nele como uma adaptação da vida que vivemos até aqui. É um estratagema que nos impede de pensar que todos os dias perdemos mais um dia de vida — eu acho que o ganhamos, porque já o vivemos, mas aritmeticamente é um dia a menos.

Os óculos do presente não nos permitem visualizar a nossa própria velhice num lar, no quarto de um lar, a comer num tabuleiro, com a visita esporádica de familiares e o apoio constante de pessoal auxiliar. É normal. Também só pensamos em carrinhos de bebé na perspectiva de uma gravidez e nunca antecipamos uma operação a menos que nos tenha sido “receitada”.

Mas, como se vê pelas notícias recentes, os lares de idosos deviam ser uma prioridade nacional. As creches, as escolas, as universidades, os hospitais, os centros de saúde, os tribunais e os lares. Talvez me tenha esquecido de algo fundamental, mas o que pretendia era colocar os lares de idosos a par de outros estabelecimentos considerados basilares no Estado Social.

Precisamos mais de lares do que somos capazes de admitir e só aceitamos que alguns idosos vivam em espaços ilegais e sem dignidade, amarrados a camas e isolados do mundo porque não queremos pensar que um dia (quase) todos vamos acordar numa instituição de apoio à velhice. As caríssimas casas de hoje não têm quartos suficientes para as famílias se reencontrarem na velhice e por isso é ainda mais importante aceder a lares de qualidade.

A esta distância, também não me vejo num lar – claro –, mas, se viver o suficiente, lá chegarei. E acredito que passarei por algumas daquelas fases que Valter Hugo Mãe descreve n'A máquina de fazer espanhóis.

Vai chegar o dia em que a União Europeia, o continente grisalho que não pára de envelhecer, terá de criar fundos especiais para construir estas residências seniores. Uma espécie de PRR só para a terceira idade. Hoje "melões" para habitação (como diz o Presidente da República), amanhã "melões" para lares. O ideal seria conseguirmos montar esse seguro especial de velhice a tempo de evitar muito mais histórias como a da Lourinhã ou a de Palmela.»

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6.5.21

Gerações à Rasca

 


«Em fevereiro, o país descobriu o que já estava escancarado há muito tempo. Os milhares de mortos nos lares puseram em evidência as condições extremamente precárias de uma grande maioria deles, limitados a serviços mínimos de depósitos de pessoas passivas e infantilizadas. O país confrontou-se com o que já devia saber há muito: em vez de investirmos na autonomia segura dos mais idosos, deixámos que se instalasse uma atitude geral de armazenamento dos velhos, desaproveitando a sua sabedoria e a sua experiência de vida. E essa atitude animou uma economia, a dos lares e centros de dia, certamente a mais pujante em muitos territórios abandonados pelo investimento público e sobre a qual se criaram polos de poder local personalizado e malhas de negociação política privilegiada entre o local e o nacional.

O país sabia disto tudo e deixou andar porque isso convinha às redes de poder assim estabelecidas. Os mais idosos são, há muito tempo, uma geração à rasca. Tantas, tantas vidas apoiadas em pensões abaixo do limiar de pobreza, com habitações sem a mínima qualidade, a levar em cima todas as fragilidades do Serviço Nacional de Saúde. Universo pobre, desconsiderado, desrespeitado.

À geração à rasca dos jovens precários o país respondeu ofensivamente com o convite à emigração. A sucessivas gerações à rasca dos idosos o país respondeu irresponsavelmente com o armazenamento e a infantilização em lares. A institucionalização para a passividade e para a dependência foi o rosto da demissão da sociedade e do Estado para com os mais velhos.

Precisamos de uma bazuca de vontade política para termos uma sociedade e um Estado onde os mais velhos não sejam um peso, mas sim ativos de experiência e de saber. Para ser assim, a um tratamento baseado no depósito e na infantilização tem que se contrapor um tratamento baseado na cidadania e nos direitos. Isso materializa-se em descentralização dos serviços públicos, em programas de apoio domiciliário, em políticas de adaptação das habitações, na criação de condições para a mobilidade nas cidades, em gabinetes de apoio em todas as freguesias para combater a infoexclusão. E sempre, mas sempre, uma valorização das pensões fazendo convergir as mais baixas com o salário mínimo, e um alargamento do acesso ao Complemento Solidário para Idosos.

O que o país alheado da realidade descobriu com os milhares de mortes nos lares não se muda com melhores lares. Muda-se com mudança de muitas coisas na sociedade para que a cidadania e os direitos dos mais velhos sejam o princípio e não a exceção. Mudar a sociedade para os mais velhos e para os mais novos, não menos que isso.»

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1.4.21

Presos até quando?

 


«Há umas semanas, perguntei no Twitter por que razão os residentes dos lares de terceira idade, mesmo depois de vacinados com as duas doses, continuavam sem poder abraçar os seus familiares. Qual o motivo para a distância higiénica imposta, além de várias outras restrições? A resposta foi rápida. A vacina protegia os velhos, mas não os impedia de contaminar as visitas. Nem valia a pena argumentar que isso era problema da visita, imediatamente respondiam que se tratava de um problema de saúde pública e não individual. Ou seja, fechámos os velhos nos lares para os proteger. Agora, mantemo-los fechados para nos protegermos deles. A inversão moral, que penaliza os mais frágeis da nossa sociedade, não parece incomodar ninguém.

Até ao momento, as vacinas da covid demonstraram ter 100% de eficácia contra casos graves. O medo propagado por tantos de que a vacina não protege contra a infeção e, consequentemente, contra o contágio não tem sustentação a não ser a paranoia de se estar sempre a pensar em tudo o que pode correr mal. Perante estes dados, é simplesmente incompreensível que a política de visitas aos residentes nos lares de terceira idade esteja, no essencial, igual ao que era há um ano.

Muito corretamente, a prioridade na vacinação foi para os lares. Neste momento, todas as pessoas que vivem ou trabalham em lares já terão sido vacinadas com duas doses. Isso quer dizer que é seguro fazer visitas. Não só não há qualquer perigo de provocar um surto seguido de mortandade num lar — a vacina tem 100% de eficácia contra casos graves, vale a pena relembrar —, como as possibilidades de as visitas serem contagiadas pelos velhos são também diminutas. As vacinas de RNA, que foram as aplicadas nos lares, mostram ter uma eficácia de 90% mesmo contra infeções ligeiras.

Como se justifica então que as regras se mantenham? Continuam as restrições à proximidade física durante as visitas e continuam as proibições relativamente a visitas das crianças. Nunca tendo eu concordado com todas estas restrições, ao menos entendia-as. Neste momento, já nem isso. Não percebo em nome de que princípio continuo sem poder tocar no meu pai há um ano. Não percebo por que motivo impedem o meu pai de ver as netas ao vivo, ficando relegadas para um ecrã de um telemóvel. E, felizmente, onde está, tem rede de internet razoável. Mas já se fez algum levantamento para saber quantos lares não têm condições tecnológicas para visitas virtuais? De que tenha conhecimento, não.

Em Portugal, convencionou-se que as pessoas estão em lares porque a família não quer saber delas, porque olham para os velhos como um encargo, porque a lufa-lufa diária não deixa tempo para manter o tecido familiar intacto. O que temos observado é o exato oposto. Há cerca de um ano que quem tem famílias em lares se queixa do regime draconiano imposto. Já foram denunciadas ene situações absurdas. Desde pessoas com demência que, por causa da falta de contacto com os familiares, veem a sua situação clínica agravada. Velhos que nem sequer podem sair para dar o tal passeio higiénico que parece essencial para tanta gente, ao ponto de estar previsto nos decretos-leis dos estados de emergência. Há precisamente seis meses, denunciei nesta coluna a situação de um homem em estado de demência avançado, cego e sem mobilidade que, no seu lar, deixara de receber visitas da filha. Deixou de o poder tirar do lar nos feriados e nos fins de semana. Nas suas palavras, era ela “que o mantinha vivo”.

Como é que as regras se mantêm quando estão todos vacinados? Qual é a lógica? Só há uma resposta: apesar de tantas denúncias dos familiares, a sociedade não quer saber. A resposta às denúncias nunca passa de um encolher de ombros e de uma declaração pesarosa: compreendo, mas tenho pena.

Quando, no Natal passado, os velhos foram obrigados a passar os dias festivos trancados nos lares — acompanhados por profissionais dedicados, sublinhe-se — , muitos familiares fizeram vídeos para serem mostrados na Consoada. Em muitos desses vídeos estava presente uma esperança: já há vacina. Daqui a pouco serão vacinados e poderemos voltar a abraçar-nos. Mas os meses passam e nem se fala no assunto.

Estamos em abril e discutimos o Plano de Recuperação e Resiliência. A reabertura das escolas. A vacinação dos profissionais do ensino. A testagem maciça. A constitucionalidade dos apoios sociais aprovados na Assembleia da República. Enquanto isso, os velhos nos lares estão esquecidos. Há assuntos mais importantes, como a criação de passaportes sanitários que nos permitam passar férias onde quisermos sem grandes engulhos.»

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29.3.21

Os velhos que paguem a crise

 

António Bagão Félix publicou este texto no Facebook. Claro que os professores o arrasaram em todos os murais em que foi partilhado. Os velhos que paguem a crise…

DE NOVO, OS MAIS VELHOS DISCRIMINADOS

A forma clássica de subverter uma regra é enxameá-la com excepções. Na fase 1 da vacinação contra a Covid-19, excepções não faltam. Excepções à la carte, por “engano”, por casuísmos, por repescagem, por pressão (ou medo) de grupos.

Revela um recente estudo nacional que “a idade é o factor que mais peso tem na mortalidade por Covid-19”. Os dados actuais mostram que as pessoas com 70 ou mais anos que morreram com Covid-19 são 88% do total de óbitos.

Começou, hoje e em força, a vacinação determinada pela DGS no “no âmbito da resiliência do Estado (sic!), dos docentes e não-docentes dos estabelecimentos de ensino e educação (…), de acordo com o plano logístico que será implementado (sic!)».

Citando dados oficiais do Ministério da Educação, a idade média dos docentes varia, conforme os níveis de ensino, entre 46 e 49 anos. E , de acordo com os dados oficiais da DGS reportados a ontem (26/3/2021), no grupo etário da população entre 40 e 49 anos, os óbitos registados correspondem a 0,1% dos infectados (156 mortes para 136 302 doentes), enquanto nas pessoas com mais de 80 anos, o valor é de 16,3% (11 089 óbitos para 68 009 doentes) e nas pessoas entre 70 e 79 anos, é de 6,6% (3568 óbitos para 54 405 doentes).

Como era de esperar, as televisões, no seu frenesim pavloviano, mostraram-nos mais não sei quantos braços e agulhas, desta vez de professores e outros profissionais escolares (eu já acho que conheço umas boas centenas, tantas vezes são repetidas tais cenas!).

Não questiono a necessidade da sua vacinação à frente de outros grupos, ainda que me custe a perceber qual é a intensidade do risco se comparada, por exemplo, com pessoas que exercem a função de caixa nos supermercados ou com o pessoal das farmácias.

Mas, o que de todo não compreendo é subverter a ordem prevista, à frente de muitas pessoas de idade ou com doenças associadas, nomeadamente com mais de 80 anos (e não são poucas), que ainda esperam a sua chamada.

Há menos vacinas disponíveis por um contrato “angélico” que a douta Comissão Europeia firmou com os tudo menos angélicos laboratórios? Sim, é verdade. Então, se há menos vacinas disponíveis, aumentam-se os grupos a recebê-las na fase 1? Eis, assim, em poucas palavras, este paradoxo vacinal em marcha.

Até agora dizia-se que havia falta de técnicos para vacinar e algumas insuficiências logísticas. Com o pessoal das escolas, tudo se modificou e fala-se de “vacinação em massa”. Muito bem, é de aplaudir. Então porque não antes quando se tratava apenas das pessoas mais velhas?

Enquanto os governantes e as autoridades públicas continuam a descobrir aspectos simbólicos para estarem presentes na “festarola” da vacinação (a primeira vacina aqui, a primeira vacina acolá, a vacina número x, a vacina um milhão, a vacina deste grupo ou daquele, etc.), com a companhia de câmaras sempre ávidas para filmar “picas” e dar palco político ao acontecimento, esta perversão feita de atrasos, dificuldades e ultrapassagens é de uma grande afronta para com a população mais velha e necessitada. Um despudor só possível porque os velhos não são força de pressão, não têm sindicatos temíveis, não são um alvo eleitoral (inacreditável como todos os partidos não reagem, certamente olhando utilitariamente para a força do voto de outros grupos…) e a sua morte é encarada, no plano geral, apenas como mais uma estatística anestesiante, acolitada pelo discurso da hipocrisia e pela indiferença da desmemória.

É contra este silêncio acomodatício, contra esta prática discriminatória, contra o resvalar da ética que tem na vida o seu valor supremo, que aqui me insurjo. Não aceito que os governantes e autoridades tratem, de facto, os mais velhos como papalvos ignorantes, acríticos e acomodados.

Duas notas finais:

1.Enquanto as televisões (e não só) nos dão doses inimagináveis de noticiários sobre a pandemia e nos oferecem comentários e opiniões do momento e de toda a espécie, esta situação diferenciadora é noticiada como absolutamente normal, senão mesmo virtuosa. E até se permitem, intencionalmente, ou por ignorância ou preguiça, fazer política capciosa. Dois exemplos: no nosso percurso da vacinação em que, por razões alheias, mas também por motivos próprios, há atrasos e ziguezagues, a notícia é sempre “enriquecida” com o solícito advérbio “já”. Por isso, gostam de nos informar quer “já foram vacinadas x pessoas”, como se, euforicamente, estivéssemos adiantados, em vez de rigorosamente dizerem “foram vacinadas x pessoas”.

2. Quando nos falam do desgraçado Brasil (e de outros países na Europa) induzem-nos a ideia de que, em termos comparativos, estamos bem melhor. Mas, infelizmente não é o caso. Aliás, basta fazer uma simples conta. O Brasil tem 209,5 milhões de habitantes e Portugal tem 10,28 milhões, ou seja os brasileiros correspondem a 20,4 vezes a nossa população. Como temos, à data de hoje, 16 819 óbitos, o número de mortes correspondente à dimensão populacional do Brasil seria de 16 819 x 20,4 = 343 107 pessoas. Como se constata, um valor mais elevado do que as mortes ocorridas no Brasil que são, à data também de hoje, de 307 112.
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23.1.21

Os que vão morrer te saúdam

 


«As simulações feitas na aplicação “ESTAMOSON” (felizmente o Governo não está off, o que se traduziria numa situação de anomia ou de anarquia) levam a que um jovem de 25 anos saudável seja previsivelmente vacinado daqui a vários meses, não significativamente mais tarde do que a sua avó de 80 anos saudável, apesar de o risco sanitário inerente à contaminação por covid-19 ser completamente diferente para ambos. 

Como a letalidade da doença aumenta com a idade, se a decisão política for a de vacinar um jovem e saudável membro das forças de segurança em vez de um cidadão de 75 anos, as consequências prováveis serão as de o primeiro não contrair a covid-19 e o segundo falecer por não estar imunizado. São opções politico-jurídicas fundamentais que determinam a escolha o tipo de comunidade que queremos ser. 

O principal critério adotado nos planos de vacinação covid-19 nos EUA, Reino Unido, Alemanha e França, é baseado na idade. Portugal optou por uma solução diferente da destes países. 

A ministra da Saúde afirmou à RTP1 que seriam “critérios técnicos” a justificar as opções tomadas. Em que teoria de justiça distributiva se fundamentam esses critérios? Ou não se fundamentam em nenhuma teoria e referem-se apenas às características técnicas dos veículos que asseguram o transporte de mercadorias a baixa temperatura? 

Face ao ritmo diário elevado e constante a que estão a falecer as pessoas de mais de 70 anos em Portugal, podemos indagar sobre quais serão os objetivos visados com a definição feita dos critérios de vacinação nesta primeira fase: Serão eugénicos, facilitando a morte dos menos jovens e saudáveis? Serão economicistas, salvaguardando a saúde de parte da população ativa essencial ao bom funcionamento da Economia? Traduzirão a vontade de que o Estado português se converta num Estado de polícia, com o apoio inequívoco de quem detém o monopólio legítimo do uso da força, sempre útil em tempos de instabilidade, como são os de uma pandemia? Serão demagógicos, selecionando apenas uma parte do universo de pessoas que sofrem de determinadas patologias graves? A resposta a estas questões será necessariamente negativa num Estado de direito livre, igual e solidário. 

Ao ritmo a que a pandemia tem ocorrido em Portugal nesta “terceira vaga”, muitas pessoas com mais de 70 anos falecerão diariamente com covid-19 nos próximos meses. Muitas dessas mortes seriam evitadas se lhes fosse dada prioridade máxima no Plano Nacional de Vacinação. No final de 2021 estaremos a discutir por que morreram tantos idosos e se as suas mortes poderiam ter sido oportunamente evitadas. Teria sido possível interditar a ponte de Entre-os-Rios ou organizar o cadastro da propriedade rústica em Portugal de forma a evitar a queda da ponte ou a morte de muitas pessoas em incêndios rurais. Quer os decisores políticos que não tomaram essas decisões quer a população que os elegeu terão de viver com a tragédia existencial irreparável do que sucedeu. 

Seria possível salvar muitas vidas que se encontram em risco acrescido de terminar, no curto prazo, com covid-19. Cidadãos e cidadãs comuns que, à semelhança dos gladiadores no Coliseu romano, apenas podem dizer em cada dia que passa aos nossos governantes: “Ave Caesar, morituri te salutant!”» 

Teresa Pizarro Beleza e Helena Pereira de Melo
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11.1.21

Envelhecer assim

 


«Os velhos estão a morrer. E nem todos de corona. Este final de ano levou mais uns tantos, entre eles o Carlos do Carmo, o príncipe na cidade. Sobra uma mágoa seca, tão seca como aquele fado sem música que o Carlos cantou junto ao caixão do José Cardoso Pires, há muitos anos, e que foi a comovente despedida. Na Biblioteca das Galveias, a biblioteca pública onde José Saramago se refugiava a ler os clássicos enquanto trabalhava num emprego diminutivo, sabendo que havia mais na vida do que gastar as horas sem pensar. A voz do Carlos do Carmo ecoou no silêncio, cantou o fado sem um tremor, num desgosto limpo. Houve quem abandonasse a sala para chorar fora dali. Aquela emoção não podia ser quebrada com choraminguice. Só com a voz. O heroísmo da voz. 

A safra deste ano dá-nos certeza de que uma geração ilustre não dobrou o cabo das tormentas. E viveu o último ano da vida numa clausura de pestíferos. Entramos em janeiro, um mês cruel para os velhos, um mês duro e metálico, um mês escarpado e que corta a pele como aço, um mês gelado e indiferente, com medo. Não há pior modo de entrar no ano novo. Toda a gente, naquela altura da vida a que se convenciona chamar “de certa idade”, tem medo. Pode não tomar todas as precauções, por incúria, por bravata, por desatenção ou por falso sentido de segurança, isto não me acontece a mim, mas o medo está lá, acoitado como um animal selvagem na caverna, à espera. Não há sentimento mais fácil de detetar do que o medo. Não são precisas palavras, o medo lê-se no corpo, e lê-se com clareza no corpo dos velhos. 

Esta semana, ao visitar um hospital encontrei uma sala de espera cheia de velhos, homens e mulheres, uns mais novos, nos setentas, outros mais velhos, depois dos setentas. Os mais novos estavam sozinhos, e pela posição do corpo nas cadeiras via-se que não estavam confortáveis. O corpo torcido, virado para dentro, procurando ocultar-se. O corpo desconfiado e obrigado a distância. Ninguém falava, agora não podemos falar, o vírus não gosta da mudez e temos de contrariar o vírus. Este e os outros, os do inverno, os da gripe, os rinovírus, esse cardápio de doenças do frio que foram remetidas para plano secundário. 

Os mais velhos estavam acompanhados. À minha frente, um homem muito velho seguia com uma mulher mais jovem, mas não jovem, que lhe segurava o braço e vigiava o passo. O velhote caminhava em passinhos trémulos, como uma criança a aprender a andar. Caminhava curvado, e notava-se que a altura do esplendor da vida não tinha sido aquela, tinha sido mais alto, a velhice obrigava-o a curvar-se como um prédio empenado. Os passos eram pequenos, um bocadinho de cada vez, e atravessar a sala tornava-se uma viagem de minutos. A mulher devia ser a filha, a criança que ele educou e da qual cuidou e que agora foi chamada a fazer o mesmo por aquele pai-criança, aquele pai destituído de poder ou controlo sobre o mundo. A inversão é clara, e inevitável. Um velho tem tantas coisas de criança, incluindo a impaciência e a lágrima fácil. Depois de anos de repressão das emoções por uma cultura que não as aprecia, os velhos choram com facilidade. Mesmo que finjam que não choram. Uma parte dessas lágrimas acresce ao conjunto de indignidades da velhice, o olho húmido perpétuo, outra parte deve ter a ver com a desinibição, e uma terceira com a certeza de que tudo se torna tão difícil com a idade, desde descascar uma laranja a desrolhar uma água das pedras. Os ossos perderam a força e a pele engelhada recusa ficar com tudo a cargo. O corpo deixa de responder às mais pequenas coisas, numa teimosia que obriga a pedir ajuda para atravessar dois metros quadrados. 

O poeta T. S. Eliot tem um poema enigmático, “The Love Song of J. Alfred Prufrock”, de 1917, poema do tempo da guerra e da peste, em que Prufrock pergunta se ousará perturbar o universo, se ousará comer um pêssego. E sabe que ao envelhecer enrolará a dobra das calças. “I grow old… I grow old…/ I shall wear the bottom of my trousers rolled.” Tantas interpretações críticas sobre esta “Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”. Para mim, e este é o poema preferido, o que aprendi de cor desde que o li a primeira vez, nunca houve outra interpretação. O poema da despedida, o poema do fim das coisas, do fim do amor e do amor do corpo, o poema da memória dilatada pela lucidez, o poema da vida medida em colherinhas de café, a vida de alguém que ouviu o canto das sereias, que não foi o príncipe Hamlet nem estava destinado a ser, e que no monólogo da gloriosa introspeção consegue reduzir as perguntas a uma. Ousarei perturbar o universo? 

Ao contemplar os velhos do hospital, o medo dos corpos assustados com a novidade incompreensível da doença que gosta de atacar os velhos, os doentes, os pobres, os fracos, recitei o poema em pensamento. Os livros ainda dão consolo. O medo dos velhos, o medo daqueles olhinhos húmidos atrás das máscaras, analisando o espaço em volta e os perigos que o habitam, o medo dos monstros lunares e marcianos da ficção científica, o medo do que é estranho, é uma crueldade a acrescentar às outras. Não se trata já de enrolar as calças porque a altura diminui, ou de não conseguir comer um pêssego porque escorrega das mãos e os ossos não seguram os sólidos, trata-se de sobreviver à solidão a que este vírus condenou os velhos. A um terror vivido em solitário, atrás de vidros e de janelas e portas, atrás do escudo da proteção a que foram condenados. Conheço velhos que passaram a noite de Natal e a noite de fim de ano sozinhos nas casas. Muito pior do que ver um pêssego escapar das mãos. Pior quando a memória ainda segreda, foste em tempos uma pessoa inteira, tiveste poder sobre ti e sobre os outros, dominaste o mundo com a tua força, mediste a vida em colherinhas de café porque escolheste medi-la assim. E ouviste o canto das sereias. E sabes que não cantarão para ti, escreve Eliot. 

Já tivemos outras pestes. No tempo da tuberculose, os doentes refugiavam-se e pensavam em solidão enquanto o mundo lá fora continuava composto. A tuberculose produziu obras-primas da literatura, como “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, e produziu mestres da escrita como Albert Camus, que quando teve tuberculose em novo passou o tempo a ler e assim se fez escritor. Deste vírus, não sairá o génio das artes. A tecnologia instituiu outras formas de comunicação e de pensamento, ou aboliu o pensamento. O telemóvel de última geração não salvará os velhos. Já ninguém lê livros. E a idade não deixa ler. Na solidão das salas e das casas, a companhia que lhes resta, no cansaço do dia, é a televisão. No hospital, no consultório, na espera, lá está ela, a luz azul acesa com pessoas dentro que falam com uma felicidade fingida, infantil, para alegrar os velhos.» 

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10.1.21

Saudade e zaragatoas



 

«É uma mulher antiga. Queixa-se da manhã glacial em morno amarume, "Ai,senhor António, até sinto o frio a entrar nos ossos." Fosse António um operário a quem o fiscal de obras perguntasse "O que fazes, aqui?", não responderia "Estou a construir uma catedral". Diria, quem sabe, "Trabalho para ganhar o meu pão". A resignação diligente habilitou-o com razoável destreza a tirar um café quase perfeito e a discorrer sobre a forma ideal da chávena ou a desejável temperatura da máquina. Vai-se-lhe o olhar adiante do verbo, aconchegando a mulher que se despede em ângulo agudo, devido às cruzes, "O pior é a saudade dos abraços e das coisas boas que perdemos; se ao menos nos deixassem tirar o açaime...". 

A saudade de que ela fala não é a "realidade essencial" erguida "à altura duma religião", como a definiu Pascoaes, mas a soma de perdas, de pequenos prazeres escoados, a raspadinha de tantas privações. Poderia ordenar um cadáver esquisito das suas paciências em solitude com as palavras que correram no ecrã enquanto o vocabulário lhe minguava: discriminação, covid-19, pandemia, sem-abrigo, infodemia, zaragatoa, saudade. 

Saudade, a palavra do ano na votação promovida pela Porto Editora, alinha, em letra minúscula, os eclipses da alegria que legendam o rosto da mulher devolvida, em ângulo agudo, à invernada. Se, ao menos, pudesse "tirar o açaime". 

Já a palavra máscara nem sequer foi a votos mas é-lhe tão afrontosa, espécie de zaragatoa ao pensamento, aflição em folha-de-flandres como a dos atavios de escravidão descritos por Machado de Assis, no início do conto "Pai contra Mãe", nas Relíquias da Casa Velha: "Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham, penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras." 

Um século depois, Bia Bulcão, a atleta brasileira que estagiou em Portugal à espera de vaga nas Olimpíadas de Tóquio, entrevistada pelo jornal O Globo, fala com ironia das regras apertadas. "Na esgrima", diz ela, "já estamos acostumados, é sempre de máscara." 

E a mulher antiga, em ângulo agudo, a vida inteira sem aulas de esgrima: "Todos os dias agradeço a Deus esta depressão que me anima."» 

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18.9.20

13.9.20

A verdadeira pergunta



«O anterior primeiro-ministro australiano revoltou-se contra a "ditadura sanitária" da era covid pelas suas consequências económicas ("Guardian", 2 de Setembro). Sugeriu autorizar as famílias a pensar se não seria justificado deixar morrer os idosos infectados, "deixando a natureza seguir o seu curso". Mais informou que cada ano de vida extra para os mais velhos custa à Austrália cerca de 100 000 libras, verba superior às que o Governo paga por medicamentos que salvam vidas. E culpa o clima de medo em que vivemos, pois impede os governos de colocarem a questão - "quanto vale uma vida?".

Ora reparem - a responsabilidade da decisão seria das famílias que, de resto, ele afirma já o fazerem. Penso tratar-se de uma menção à hoje consensual recusa do encarniçamento terapêutico. E só das famílias com um idoso afectado pela covid? Bom, a verdade é que chama a atenção para um quadro mais vasto - prolongar a vida dos idosos sai mais caro do que financiar tratamentos que salvam vidas menos longas. Quanto à natureza seguir o seu curso, é um argumento que, no limite, levaria à proibição do exercício da medicina, desde sempre ocupadíssima a "fazer batota" e trocar as voltas à natureza.

Resta a pergunta que os governos têm medo de colocar, porque todas são "preciosas" e as mortes são "tristes" - "quanto vale uma vida?". (Talvez o verbo não seja o mais adequado, em todo o artigo ele parece mais preocupado com o custo do que com o valor!). Mas mesmo o argumento economicista é mais complexo do que o senhor pensa. Num artigo de Dezembro de 2015, publicado no "American Journal of Public Health", Aldridge e Kelley argumentam contra a obsessão com os custos verificados durante o último ano de vida, dizendo que respondem por apenas 13% da despesa geral da Saúde. Mais - só 11% dos doentes "mais caros" estariam no seu último ano de vida, o problema a resolver centra-se nas doenças crónicas.

(Se o homem tropeça no artigo ainda sugere que as famílias considerem a hipótese de, por exemplo, pararem as terapêuticas para a hipertensão ou a diabetes e deixarem a pobre da natureza tratar da saúde aos familiares... de meia-idade!).

Não é uma voz isolada na nostalgia de transformar os mais velhos em baixas previstas, recordo um epidemiologista sueco a perguntar a um colega finlandês se não valeria a pena o aumento de 10% no número de idosos infectados caso as escolas se mantivessem abertas.

Na canção "Trocando em miúdos", Chico Buarque põe na voz de quem abandona a relação um murmúrio de dúvida - "e a leve impressão de que já vou tarde". Estas vozes procuram fazer-nos sentir o mesmo em relação à morte. E, hipócritas, falseiam a verdadeira pergunta que as atormenta - "Quanto vale uma vida de velho?".»

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2.9.20

Velhos e pobres, o que fazemos com os lares?



«Todos os desenvolvimentos humanos, por mais positivos que sejam, têm efeitos colaterais negativos. Mesmo a entrada da mulher no mercado de trabalho, que lhe permitiu conquistar a liberdade que, lentamente, lhe deu domínio sobre a sua subsistência, o seu corpo, a sua carreira, a sua vida. Isso e muita luta, claro está. Um dos efeitos foi deixar de existir quem, em casa, ficasse a tratar da família. Sejam as crianças, sejam os idosos. Ninguém quer esse passado de volta.

Quem diz que as famílias abandonam os velhos nos lares fala de barriga cheia. Claro que há quem os abandone. Há até quem tenha sido abandonado pelos pais e tenha aprendido com eles. E há quem não tenha outra forma de fazer, quando tem de ganhar o pão de cada dia, casa pequena e muito pouco tempo. Quem faz julgamentos generalizados sobre o abandono de velhos esquece que muitos dos seus familiares foram abandonados com eles. E é bom perceber que o aumento da longevidade leva a que a vida não seja apenas mais longa, mas seja longa com doenças, deficiências, incapacidades e dependências, o que torna a ideia de que os cuidados a idosos possam ser uma responsabilidade solitária das famílias num mito irrealizável e numa fonte de sofrimento para todos, idosos, cuidadores outros familiares.

Na realidade, os portugueses abandonam menos os velhos nos lares do que muitos europeus. Não porque sejam mais solidários. Somos um dos países que mais maltrata os idosos e, na OCDE, dos que menor percentagem do seu PIB gasta com respostas de longa duração para eles. A razão é mais prosaica: mesmo com a comparticipação da segurança social, nem para abandonar os velhos em lares temos dinheiro.

Quando a ministra do Trabalho e Segurança Social sublinhou que tivemos menos mortes por covid em lares do que muitos países europeus faltou-lhe falar da nossa taxa de institucionalização. Os lares legais garantirão um pouco abaixo de cem mil lugares, e se a isso juntarmos os lares clandestinos deve aproximar-se dos 120 mil. Certo que só 13% dos nossos idosos têm apoio formal, seja em lar (legais), em centro de dia ou em apoio domiciliário. Ainda somos dos países que mais depende dos cuidados informais.

O que também quer dizer que se este país se desenvolver um pouco, e mesmo que outras soluções ganhem peso, teremos mais velhos em lares. Também é previsível que a média de idade da nossa população continue a aumentar. Isto criará pressão na necessidade de resposta em quantidade. Depois há a qualidade. A pandemia revelou a alguns distraídos que os lares são, em geral, maus. Se tudo correr bem, haverá cada vez mais pressão para que melhorem, nas suas condições físicas e no acompanhamento à saúde.

Os cuidados sociais não tiveram, quando foi escrita a Constituição, o mesmo tratamento que teve a educação e a saúde, mantendo-se sobretudo dependentes do sector social e privado, mesmo com subsídio do Estado. Nem nos primeiros anos da infância, nem na velhice. A questão não é apenas a de saber quem presta o serviço, mas se é dever do Estado garantir a sua universalidade. Para essa decisão talvez tenha pesado, na altura, a pressão da Igreja e das Misericórdias, que queriam garantir o seu poder na única área que lhes sobrava.

Só que mudou uma coisa: o envelhecimento da população, com cada vez mais doenças e incapacidades durante mais tempo de vida. Entre os utentes dos lares, metade tem mais de 80 anos. Neste momento, há lares a fazer as vezes de cuidados continuados: são hospitais de retaguarda, com doentes acamados, entubados, algaliados e totalmente dependentes. Segundo a Carta Social, cerca de 80% dos utentes dos lares não toma banho sozinho, mais de 75% não se veste sozinho, 60% é dependente na mobilidade e para ir à casa de banho, 60% sofre de incontinência e quase 40% não consegue alimentar-se sem apoio. E onde se faz a fronteira entre a manutenção da saúde de pessoas fisicamente dependentes e o trabalho social? Até há hospitais a fazer as vezes dos lares, com os internamentos sociais por não haver onde pôr as pessoas.

Mesmo com todo o empenho, o pessoal que trabalha em lares é pouco qualificado. Porque é muito mal pago. E mesmo assim, os lares são tão caros e estão tão lotados (mais de 90% de taxa de ocupação, obrigando muitos idosos a irem para lares fora do seu concelho) que abrem ao lado lares clandestinos, ainda piores, para um público com menos recursos. O que por lá acontece, nem sonhamos. E quando o Estado fecha um abre outro ao lado. Haja procura que vai sempre haver oferta.

A preguiça manda trocar a complexidade da solução de problemas complexos pela simplicidade do discurso moral. É disso que vive a indignação profissional. Neste caso, o problema até é simples: somos pobres e temos problemas de ricos. Não temos dinheiro para os lares mas já não temos as estruturas familiares de sociedades menos “desenvolvidas” (não cabe neste texto discutir o termo). Complexa é a solução.

Podemos discutir se queremos apostar mais no apoio domiciliário, semirresidencial e no apoio aos cuidadores informais. E, como imaginam, acho relevante discutir a eficácia (para além dos custos) de soluções públicas, privadas, privadas com apoio público ou do sector social com apoio público. Sendo para mim mais do que certo que o Estado está constitucionalmente obrigado a dar resposta às necessidades de saúde que ocupam uma boa parte do trabalho dos lares, isso dá-lhe um papel reforçado em todas as respostas. No fim, continuará a faltar lugar e apoio a muita gente, porque as nossas capacidades estão muito longe das nossas necessidades. Seja qual for o caminho não deixaremos de ter mais pessoas institucionalizadas e precisar de mais dinheiro. E se não queremos depósitos para velhos, os custos serão muito maiores por pessoa do que são agora.

Não é indiferente o modelo. Mas qualquer um deles, para ser decente, é muito mais caro do que aquilo que temos hoje. O que nos leva ao mesmo debate que temos sempre que falamos do envelhecimento da população: a sustentabilidade financeira. Os irados de Facebook (muitos coincidem com os que se opõem à imigração, que ajudaria a reverter a crise demográfica) falarão das mordomias dos políticos e da corrupção. Os que procuram soluções sabem que essa conversa fácil é fogo de artifício para esconder a falta de resposta.

Uns países criaram uma sobretaxa para pagar o internamento, outros têm sistemas de poupança obrigatória e penso que o Reino Unido até ponderou ir buscar às heranças os custos do Estado com lares. E há quem perceba que, tendo de se reforçar largamente a valência de cuidados continuados em todos os lares, estamos a falar de serviços de saúde e é discutível que isso não seja dever do Estado, como é o SNS. Seja qual for a solução, é preciso lidar com este facto: o de sermos um país pobre e envelhecido. Não há poema sobre a velhice, texto indignado com a indignidade dos lares ou saudades das mulheres cuidadoras sem vida própria, que ainda as há, que resolva isto. É de políticas públicas que precisamos.»

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