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8.8.18

Apitó comboio!



«Pedimos desculpa por o secretário de Estado das Infra-estruturas, Guilherme W. d'Oliveira Martins, ainda não ter sido cancelado. Circula com uma hora e meia de atraso e dará entrada na linha 3. Se der. Ao fim de uns anos no seu emérito cargo governativo, Guilherme W. enganou-se na carruagem e o seu destino é o museu de memórias da CP. Se esta empresa subsistir ao seu mandato e ao do seu superior hierárquico, Pedro Marques. O país consegue sobreviver ao momento em que o secretário Guilherme W. fez um número de comédia e disse que na CP "não há colapso nenhum". Portugal é mesmo capaz de suster a respiração durante uns minutos, sem se engasgar, depois de o escutar a debitar que "há uma ideia errada de que não há comboios suficientes e que os passageiros estão a perder qualidade de serviço". Esta frase deveria ser transmitida como um rap no percurso do Alfa Pendular, no meio de uma versão mais ligeira de "Apitó Comboio!", para que os passageiros tivessem direito a um momento de humor enquanto destilam.

O secretário Guilherme W. pode saber muito de comboios. Pode até ser especialista em pistas de comboios em miniatura. Mas desconhece o que se passa na CP e nesse elefante branco que é a Infraestruturas de Portugal. É por isso que culpa o PSD e o CDS de todos os males do mundo nos caminhos-de-ferro. Como se, com a sua chegada ao nobre cargo de secretário de Estado das Infra-estruturas, tudo tivesse mudado. Não. A desgraça continuou. Não houve investimento no reequipamento da CP. O que estava ferrugento colapsou. O secretário Guilherme W. esquece-se de que as pessoas não querem que os comboios sejam armas de arremesso político. Querem apenas que funcionem. Não interessa agora se esta política seguida, há anos, de destruição da CP, tornando-a frágil e baratinha, só tenha como objectivo privatizar os seus percursos mais rentáveis. Essa é outra história. O que conta agora é que, na CP, não há comboios, nem horários cumpridos, nem oferta razoável, nem ar condicionado. Só há alguém que é acusado de ser secretário de Estado.» 

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5.8.18

CP? Absolutamente extraordinário!




«Vendas suspensas para diminuir calor a bordo, porque ar condicionado dos alfas pendulares não arrefece quando a temperatura está acima dos 42 graus.»

30.7.18

O funeral dos comboios



«Houve um tempo em que os comboios anunciavam o progresso. Fontes Pereira de Melo, no século XIX, acreditava mesmo nisso. Por isso dizia, empolgado: "O Governo espera, sendo aprovadas estas medidas, que dentro de poucos anos não se diga, como desgraçadamente se diz hoje lá fora, que para cá dos Pirenéus está a África." Para Alexandre Herculano os caminhos-de-ferro traziam uma outra versão do Inferno: a absorção por Espanha. Os comboios iriam uniformizar as ideias e os costumes. Esse debate apaixonado persiste ainda hoje. Foi por isso que, de forma subterrânea, se foi assistindo ao estrangulamento lento e amoral dos caminhos-de-ferro. Fecharam-se linhas, encerraram-se estações, deixou de se fazer investimentos. Tudo de forma calma. Ganhou o mundo das auto-estradas, mais rentável. Mas esqueceu-se, ao longo de décadas, a importância dos caminhos-de-ferro para a mobilidade de quem tem de se deslocar no interior do país e, nos grandes centros urbanos, vive nas periferias. Basta ver os comboios das horas em que o sol ainda não nasceu. E são estes com que a CP acaba. Para que deixem de andar de comboio. E nunca mais voltem a fazê-lo.

Na discussão sobre a falência da CP e da Refer tem muitos equívocos. Poderia começar-se por um: a junção da Refer com a Estradas de Portugal para criar esse monstro das bolachas que é a Infraestruturas de Portugal foi o derradeiro passo para atirar os comboios para o cemitério. Só o túnel do Marão ficou a ganhar com isso. A guerra de alecrim e manjerona entre um diletante ministro Pedro Marques e um ovni, o deputado Nuno Melo, é um momento de humor. O sector ferroviário em Portugal foi destruído por sucessivos governos, do PS e do PSD (e CDS), sem que alguém vertesse uma lágrima. Agora chegou-se ao caos: não houve renovação (ou electrificação com fundos comunitários) da via férrea, porque o poder político não quis; o material circulante está a cair de podre e já não há composições nem peças para tapar buracos. O funeral foi feito há muito. E agora há quem esteja admirado.»

Fernando Sobral
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